quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

COMUNICADORES INSTANTÂNEOS[1]

 


K.M. Wehrstein

 

A maioria das personalidades que se comunicam através de médiuns se identificam como alguém conhecido do assistente. Mas, ocasionalmente, aparecem alguns que são desconhecidos de todos os presentes e fornecem detalhes sobre si mesmos que mais tarde se descobre que correspondem aos de uma pessoa falecida. Tais casos só podem ser explicados com extrema dificuldade em termos de psi entre os vivos e são, portanto, vistos como forte evidência pelos defensores da sobrevivência.

 

Definição

O termo 'comunicador imediato' foi cunhado pelo parapsicólogo e pesquisador de reencarnação Ian Stevenson , que o define da seguinte forma:

Aquele que se apresenta como uma pessoa falecida completamente desconhecida de todos nas sessões espíritas, onde se manifesta. Ele deve ser um completo estranho, tanto para o médium como para todos os assistentes. Eles não só não devem ter conhecido o comunicador quando ele estava vivo, mas também nunca devem ter sabido nada sobre ele[2].

Relatos de visitas são encontrados na literatura parapsicológica inicial[3], mas na maior parte o seu significado não foi reconhecido, uma vez que foram publicados como casos isolados[4].

 

Eileen Garrett e o desastre do R101

O primeiro caso bem documentado ocorreu após a queda no norte da França do dirigível R101, que pegou fogo e caiu na madrugada de 5 de outubro de 1930. Dos seus 54 passageiros e tripulantes, 48 ​​morreram, incluindo seu capitão, tenente Herbert Carmichael Irwin.

Dois dias depois, uma sessão com a médium de transe Eileen J. Garrett aconteceu em Londres, organizada pelo pesquisador paranormal Harry Price. Seu objetivo era tentar estabelecer contato com o espírito desencarnado do famoso autor e espírita Arthur Conan Doyle, falecido três meses antes. Contudo, o primeiro comunicador a falar através do médium em transe foi identificado como 'Irving ou Irwin' e parecia fortemente motivado para dar um relato verdadeiro da queda do R101. Suas declarações, proferidas com extrema urgência, incluíam uma série de termos especializados, por exemplo:

§  Elevação útil muito pequena. A elevação bruta foi mal calculada – informe o painel de controle. E essa ideia de novos elevadores é totalmente maluca. Elevador travado. Tubo de óleo obstruído. Este esquema exorbitante de carbono e hidrogênio é total e absolutamente errado…

§  Explosão causada por fricção em tempestade elétrica. Voando em altitude muito baixa e nunca conseguindo subir. O elevador descartável não pôde ser utilizado. Carga muito grande para voos longos…

§  Tecido todo encharcado e nariz do navio abaixado. Impossível subir. Não é possível cortar. Você vai entender que eu tinha que te contar… Duas horas tentei subir, mas o elevador travou. Quase arranhei os telhados de Achy…[5]

A comunicação foi anotada quase literalmente na íntegra pelo estenógrafo da sessão. Numa investigação subsequente de Price, a transcrição foi revisada pelo oficial de abastecimento do R101, que não estava no voo fatal. Ele descobriu que a descrição de 'Irwin' correspondia amplamente aos fatos conhecidos e às prováveis ​​circunstâncias do acidente.

A opinião de Price, amplamente partilhada por outros comentadores da época e mais tarde, era que Garrett não tinha o conhecimento técnico necessário para criar um relato realista desta natureza, quer por fraude, quer por algum processo inconsciente. Ela também não poderia saber sobre Achy, um obscuro vilarejo francês. Estas alegações foram contestadas pelos céticos, alegando que havia muita publicidade sobre o R101 antes do voo e que Achy estava na rota que fazia regularmente de Calais para Paris. No entanto, estas ideias, por sua vez, foram contestadas por outros investigadores, que aceitam a paranormalidade do caso sem necessariamente endossá-lo como prova de sobrevivência.

 

Casos de Alan Gauld

Em 1971, o pesquisador psi Alan Gauld publicou um artigo detalhado sobre comunicadores que apareceram em sessões mediúnicas realizadas por um grupo inglês em Cambridgeshire[6]. As sessões foram organizadas por um membro da Society for Psychical Research, a quem Gauld se refere como 'LG', e sua esposa, 'WG'. De 1937 a 1943 o grupo utilizou um tabuleiro Ouija e posteriormente sentou-se em uma sala escura para obter fenômenos físicos. Esteve ativo de forma intermitente até 1964 e a maioria dos registros, que incluíam datas e listas de participantes, bem como as comunicações, foram preservados[7]. Gauld examinou os registros e entrevistou os principais assistentes várias vezes, cada um para saber suas lembranças dos supostos comunicadores.

Em 470 sessões, apareceram cerca de 240 alegados comunicadores, pelo menos 37 dos quais eram aparentemente visitantes. Destes, treze não forneceram detalhes suficientes sobre si próprios para que as suas identidades fossem verificadas. No entanto, quinze forneceram o suficiente para que Gauld comparasse cada um com um indivíduo falecido, e outros dez ele conseguiu verificar em parte.

Seguem descrições de uma seleção de comunicadores. Observe que Gauld usou pseudônimos em respeito aos parentes vivos dos comunicadores.

 

Duncan Stevens

'Duncan Stevens' comunicou-se em cerca de quarenta sessões entre 1942 e 1950. Ele se identificou pela primeira vez em 14 de julho de 1942, época em que também trouxe notícias do marido de uma babá, que havia sido morto em 1941 em um voo de treinamento. Com o tempo, ele revelou ainda:

§  Ele morava em Hinckley Road, em Nottingham.

§  Ele foi pároco na Igreja Paroquial de Frinton e depois tornou-se piloto da RAF.

§  Seu nome completo era Reverendo Duncan Stevens.

§  Ele morreu em um acidente de avião, afogado, em uma aeronave de Blenheim aos 28 anos, cerca de 10 meses antes da sessão.

§  Seu compositor favorito era Brahms.

§  Ele tinha interesse em “muitas ordens religiosas”.

As três primeiras declarações foram verificadas pelos assistentes a partir de registros administrativos. Gauld visitou a irmã de Stevens, que verificou os demais detalhes, exceto o compositor favorito. Não foi encontrado nenhum meio normal para os assistentes terem recebido todas essas informações.

 

Edwardo Druce

Este comunicador apareceu pela primeira vez em 4 de setembro de 1942. Ele revelou apenas que seu sobrenome era Druce, que havia morrido algum tempo antes e que morava em Hartington Drive. Ele também se referiu a 'Grantchester Rive Xmas' e 'laboratório ou biblioteca universitária'. LG encontrou uma Sra. Druce morando em Hartington Drive, em Cambridge, e descobriu que seu marido, Edward, era um trabalhador de laboratório que se afogou no rio Granta no Natal, alguns anos antes. Sua morte foi descrita em jornais da época, mas Gauld observou que nenhum dos assistentes era leitor regular e que o afogamento ocorreu antes do grupo se reunir pela primeira vez para as sessões.

 

Roberto Fletcher

Este comunicador apareceu pela primeira vez em 28 de setembro de 1942. Ele revelou que:

§  Seu nome era Robert Fletcher.

§  Ele havia morrido dois anos antes em um navio torpedeado, do qual era tripulante.

§  Seus pais e irmão John ainda estavam vivos.

§  Ele morava em Tenterden.

§  Seu aniversário era 8 de julho e sua idade (indicada em uma sessão em 1943) era 21 anos.

Entre um relato de jornal e um relato de diário que circulou em Tenterden, todos esses detalhes foram confirmados pelos associados de Fletcher, exceto o aniversário que na verdade era 3 de julho e, portanto, poderia ser classificado como quase acidente. Tenterden fica em Kent, sudeste de Londres e, portanto, longe de Cambridge, mas Gauld observou que WG cresceu nas proximidades e tinha um parente lá. Por outro lado, ela havia partido há quinze anos e o familiar não lhe enviou artigos de jornal.

 

Gustavo Adolf Biedermann

Na sua primeira aparição, em 4 de janeiro de 1943, este comunicador era beligerante, criticando a religião. No entanto, o grupo exerceu paciência e nas duas aparições subsequentes seu comportamento mudou para amigável e aberto. Fatos sobre ele foram confirmados por Gauld, que se lembra de ter lido escritos de um psicólogo de mesmo nome. As afirmações corretas de Biedermann foram:

§  Ele morava em Londres.

§  Sua casa era Charnwood Lodge.

§  Ele nasceu na Alemanha, tendo se mudado para a Inglaterra em 1887.

§  Seu nome completo era Gustav Adolf Biedermann.

§  Ele era um racionalista.

§  Ele já tinha mais de setenta anos quando morreu cerca de um ano antes da sessão.

§  Ele tinha seu próprio negócio.

§  Ele estava associado à Universidade de Londres (tendo trabalhado no departamento de psicologia da University College).

Também foi notado por Sir Cyril Burt, que era amigo de Biedermann, que ele tinha um “modo rude, arrogante, obstinado e agressivo”, mas que se tornava um “companheiro agradável” assim que ultrapassava a fachada. Ele também tinha uma tendência para denunciar a religião.

 

Walter Leggatt

Este comunicador apareceu pela primeira vez em 10 de maio de 1943 e, embora inicialmente um tanto confuso, disse numa sessão posterior que sua memória havia melhorado. Ao longo de três sessões, ele revelou os seguintes fatos, que foram verificados por Gauld:

§  Seu nome completo era Walter Leggatt.

§  Ele havia sido sargento da RAF.

§  Ele havia trabalhado como balconista na cidade de Acton (nome da cidade alterado).

Com tão poucos detalhes, Gauld não considerou este caso forte.

 

Rua Josefina

Esta comunicadora, que apareceu em 17 de maio de 1943, estava claramente motivada a contatar o marido para lhe assegurar que ainda estava com ele. Ela o identificou como Archie Street e disse que eles moravam na Lauriston Road, em Cambridge. LG conseguiu entrar em contato com Archie Street, administrador de uma faculdade de Cambridge, e convidou-o para a próxima sessão, na qual Josephine produziu uma mensagem amorosa para ele e sua filha. O ceticismo de Street aumentou quando o nome da filha foi dado incorretamente. No entanto, ele ficou impressionado quando o segundo nome de Josephine, Eugenia, foi dado. Os registros de outras sessões foram perdidos. Gauld chama o caso de “bastante insatisfatório”, já que um aviso de óbito com todos esses detalhes foi publicado alguns dias antes.

 

Max Cheyne

Em 28 de junho de 1943, um comunicador de “controle” atuando como intermediário mencionou um “Max” que havia estado na RAF, morava em “Ditton Park” e cujo sobrenome “tem alguma ligação com cabos ou correntes”. Ele desejava enviar lembranças à sua “esposa e filho”. Numa segunda sessão, o intermediário disse que o nome era “Cheynes” e que o plural poderia estar errado. Os assistentes não conseguiram verificar sua existência. No entanto, Gauld descobriu que Max Langdon Cheyne, que morava em Ditton Fields, Cambridge e estava na RAF, foi morto em outubro de 1942, deixando para trás esposa e filha.

 

Kate Clarke

Em 20 de setembro de 1943, uma comunicadora chamada Kathleen ofereceu seus serviços como “ajudante”. Ela disse que seu nome completo era Kathleen Clarke e todos a chamavam de Kate, que ela era a mais velha de onze filhos, era britânica e morava em Poplar, e que morrera durante o parto, aos dezessete anos, durante a guerra, quando George V era rei, ou seja, a Primeira Guerra Mundial.

Gauld encontrou registros de várias Kathleen e Kate Clarkes que morreram na adolescência durante a Primeira Guerra Mundial. Apenas uma morreu durante o parto, mas não em Poplar, e ela tinha dezenove anos, não dezessete. Gauld também localizou os registros de nascimento de outras sete crianças da família. Ele concluiu que as correspondências eram muitas para serem atribuídas ao acaso, e se uma ligação com Poplar pudesse ser encontrada, o caso se tornaria forte; no entanto, ele não havia conseguido no momento em que este livro foi escrito.

 

Harry Stockbridge

Este comunicador “muito animado” apareceu em dez sessões, dando numerosos detalhes sobre si mesmo:

§  Seu sobrenome era Stockbridge (WG recebeu uma imagem mental vívida de um par de ações e depois de uma ponte).

§  Seu primeiro nome era Harry.

§  Ele era alto, moreno, magro e tinha grandes olhos castanhos.

§  Ele era segundo-tenente dos Fuzileiros de Northumberland e também mencionou o 'Scottish Tyneside'.

§  Ele morreu em 14 de julho de 1916.

§  Ele tinha 'passado um tempo' em Leicester.

§  Ele conhecia bem a Powis Street (cujo nome surgiu espontaneamente tanto para a LG quanto para a WG).

A única tentativa dos assistentes de verificar sua identidade falhou, mas Gauld fez melhor, encontrando um segundo-tenente H. Stockbridge do batalhão escocês Tyneside dos Fuzileiros de Northumberland que havia sido morto em combate em 14 de julho de 1916. Sua certidão de nascimento mostrava que ele havia nascido em Leicester. Um parente confirmou que Stockbridge era alto, moreno e magro, e Gauld confirmou por meio de uma fotografia que ele tinha grandes olhos escuros. Ele também soube que havia uma rua Powis perto de onde Stockbridge nasceu. Sua morte foi mencionada em algumas publicações e em um memorial, mas Gauld determinou que era altamente improvável que algum dos assistentes os tivesse visto.

Gauld concluiu que os registros das sessões continham muitas informações imprecisas, mas também muitos detalhes corretos que não poderiam ter sido adquiridos por meios normais. Ele observou que a informação como um todo não revelava nenhum padrão suspeito, como vir principalmente de uma única fonte; que em alguns casos era do conhecimento apenas dos familiares dos comunicadores que Gauld contactou mais tarde; e que em dois casos os comunicadores não reproduziram os erros encontrados nos registos escritos, mas sim corrigiram-nos.

 

Robert Marie

Ao apresentar um artigo[8] sobre este caso, Stevenson observa duas características incomuns: a personalidade desencarnada viveu longe de locais familiares ao médium ou às testemunhas, e também mencionou eventos que aconteceram após sua morte.

Stevenson soube do caso pela primeira vez em 1963 por meio de um empresário de St Etienne, França, Jacques Brossy. Brossy participou de quatro sessões do tabuleiro Ouija com a médium Mme B. Bricout em Paris em 1932-33, após as quais pôde verificar detalhes mencionados por uma personalidade comunicante que se identificou como Robert Marie. Stevenson leu e copiou todas as transcrições das sessões e correspondência de verificação, entrevistou Brossy e Bricout e verificou de forma independente as declarações por meio de registros históricos e entrevistas com pessoas que conheceram Marie.

O comunicador indicou que:

§  Ele havia sido morto na Primeira Guerra Mundial.

§  Sua amada esposa, com quem teve um filho pequeno, casou-se novamente.

§  Seu nome era Robert Mary (uma variante de 'Marie', ambos comuns na Normandia).

§  Ele nasceu na costa de Villers-sur-Mer.

§  Seu filho ficou surdo e mudo por causa da meningite, mas não era retardado.

§  Seu filho, também chamado Robert, foi criado pelos avós durante a guerra.

§  O jovem Robert estava morto no momento das sessões.

§  Seus pais moravam em uma villa onde cuidavam dos jardins.

§  O próprio Robert era jardineiro.

§  Ele preferiu não falar da esposa, pois sentia antagonismo em relação a ela e decepção amorosa.

Brossy soube em 1933 que Auguste Charles Robert Julien Marie morava em Villers-sur-Mer e foi morto na guerra em 1914. Ele se casou e teve um filho chamado Robert, que acabou ficando surdo-mudo devido à meningite. Seu pai era um funcionário da alfândega aposentado que começou a cuidar de uma villa (portanto, seu filho provavelmente ajudava no jardim).

Stevenson também encontrou erros:

§  Auguste Charles Robert Julien Marie nasceu em Colleville-Montgomery, não em Villers-sur-Mer, embora tenha vivido praticamente toda a sua vida lá, então pode ter pensado que tinha nascido lá.

§  Os associados o conheciam como Charles, não como Robert.

§  De acordo com informantes próximos à família Marie, August Charles Robert Julien Marie não era o pai do menino Robert (que, descobriu Stevenson, viveu apenas até os sete ou oito anos e foi criado pelos avós); o verdadeiro pai era o irmão de Robert, Louis Ferdinand.

Stevenson não tinha certeza se o comunicador era Auguste Charles Robert Julien Marie ou Louis Ferdinand Marie (que nasceu em Villers-sur-Mer). No entanto, a quantidade de informações corretas e de fontes díspares presentes na sessão que poderiam ser aplicadas a qualquer um dos irmãos, combinada com erros que seriam improváveis ​​num caso fraudulento, convenceram-no de que a fraude, a criptomnésia e a telepatia eram menos prováveis ​​do que as comunicações genuínas do espíritos sobreviventes de um ou de ambos os irmãos.

 

Runolfur Runolfsson

Este caso surgiu através do respeitável médium islandês Hafsteinn Björnsson . O comunicador desconhecido não “desistiu” após uma ou algumas sessões, como é habitual nestes casos, mas desenvolveu uma relação de longa data com Hafsteinn. O caso desenvolveu-se ao longo de numerosas sessões durante os anos 1937-38 e foi descrito num livro de 1946 do autor islandês Elinborg Larusdottir[9].  Erlendur Haraldsson e Ian Stevenson publicaram um artigo sobre o assunto em 1975[10].

O comunicador intrometeu-se na sessão, recusando-se a dar o seu nome. Pediu bruscamente rapé, café e rum, e exigiu persistentemente: 'Estou procurando minha perna, onde está minha perna?' Os assistentes começaram a perder a paciência, fazendo com que ele eventualmente cedesse ao pedido de informações sobre si mesmo:

§  Seu nome formal completo era Runolfur Runolfsson.

§  Ele morava com a esposa em Kolga/Klappakot, perto de Sandgerdi.

§  Ele era muito alto.

§  Ele tinha 52 anos quando morreu, em outubro de 1879.

§  Ele morreu depois de tentar voltar para casa após uma visita em Keflavit durante um tempo muito ruim, enquanto estava gravemente embriagado; depois de se deitar na praia para beber mais, adormeceu e foi levado pela maré e se afogou.

§  Seu corpo só foi encontrado em 1880, quando já havia sido despedaçado por cães e corvos.

§  Os restos mortais foram enterrados no cemitério de Utskalar, exceto a falta de um osso da coxa.

§  O osso apareceu novamente em Sandgerdi, onde foi distribuído, e agora estava em algum lugar na casa de um homem que assistia à sessão, Ludvik Gudmundsson.

§  Os assistentes seriam capazes de verificar a exatidão de suas palavras verificando o livro da Igreja Utskalar.

Ao fazer isso, encontraram um registro com o nome correto, data do óbito e idade do óbito. Ludvik Gudmundsson consultou homens idosos de Sangerdi e descobriu que um osso da coxa foi colocado entre as paredes internas e externas de sua casa quando ela foi reformada por um proprietário anterior. Depois de algumas buscas, o osso foi encontrado e descobriu-se que era incomumente longo, correspondendo à estatura alegada pelo comunicador. Foi enterrado à moda tradicional islandesa e, na sessão seguinte, Runolfur disse que esteve presente no rito e na recepção posterior e deu alguns detalhes verídicos, incluindo os tipos de bolos servidos. Outras investigações realizadas por Larusdottir usando os registros paroquiais de Utskalar e o diário de um clérigo revelaram que Runolfur viveu em Kolga/Klappakot e morreu e foi desmembrado conforme o comunicador havia descrito.

Estas verificações foram verificadas novamente por Erlendur Haraldsson e Ian Stevenson que trabalharam juntos no caso no início dos anos 1970. Eles entrevistaram 23 testemunhas e examinaram registros, a partir dos quais foram capazes de estabelecer que nem Hafsteinn nem outros assistentes tiveram acesso a esses registros ou conheceram alguém na área antes das sessões. Eles notaram também que o comportamento e as maneiras do comunicador durante as sessões correspondiam estreitamente aos traços de personalidade conhecidos do Runolfur vivo.

O espírito continuou a se comunicar através de Hafsteinn, tornando-se eventualmente o principal controle do médium e atuando como intermediário para outros desencarnados. O caso é descrito num pequeno documentário de Keith Parsons que pode ser visto aqui.

 

Gudni Magnusson

Um segundo caso incluído no mesmo livro de Elinborg Larusdottir e depois investigado por Haraldsson e Stevenson[11] é o de Gudni Magnusson. Hafsteinn Bjornsson conduziu uma sessão espírita em Reykjavik em 25 de janeiro de 1941, na qual um comunicador visitante pareceu se intrometer. Ele forneceu seu nome como Gudmundur e Gudni Magnusson e disse que sua morte estava relacionada ao seu veículo em Eskifjordur. Nenhuma anotação foi feita naquele momento; entretanto, em 26 de fevereiro, uma babá relatou a informação em uma carta a um amigo. Esta e outras lembranças dos assistentes revelaram:

§  O controle de Hafsteinn disse que estava com ela um homem que tinha entre vinte e trinta anos, de estatura média, com cabelo loiro que estava ralo no topo da cabeça.

§  Seu nome era Gudni Magnusson.

§  Ele e sua morte estavam ligados aos locais Eskifjordur e Reydarfjordur.

§  Ele era motorista de carro ou caminhão.

§  Ele estava embaixo do veículo para consertá-lo e se esticou quando algo dentro dele se rompeu.

§  Ele morreu enquanto era levado para atendimento médico de barco.

Em junho, dois outros assistentes confirmaram que essas lembranças estavam corretas e acrescentaram mais:

§  Gudni tinha pais vivos.

§  Ele conseguiu chegar em casa antes de ser levado de barco ao médico.

§  Ele havia morrido quatro ou cinco meses antes da sessão.

Descobriu-se que esses detalhes correspondiam estreitamente à vida e à morte de Gudni Magnusson, um motorista de caminhão que morava em Eskifjordur, que havia morrido no outono anterior. Seu caminhão, que não andava bem, ficou sem gasolina em uma passagem na montanha entre Eskifjordur e Reydarfjordur, forçando Gudni a caminhar 13 quilômetros para reabastecer. Ele voltou para casa exausto e durante a noite sentiu fortes dores de estômago, que os médicos mais tarde diagnosticaram como causadas por uma ruptura ou obstrução interna. Ele foi levado às pressas de barco a motor para o hospital, mas morreu no caminho.

Haraldsson e Stevenson, investigando no início da década de 1970, receberam de seu irmão e irmã mais uma confirmação da descrição que o comunicador fez de si mesmo. A certidão de óbito indicou como causa da morte perfuração intestinal e peritonite, possivelmente agravada por fraqueza intestinal resultante de uma operação na infância. As certidões de nascimento e de óbito revelaram a sua idade à data do falecimento como 24 anos. Não foi possível confirmar a afirmação do comunicador de que estava a tentar reparar o seu veículo quando ocorreu a ruptura, mas o fato de este estar a funcionar mal na altura fez com que uma conjectura plausível. Os investigadores também verificaram que nem o médium nem os assistentes tinham ligações com Gudni, sendo a sua residência numa parte remota do país.

Um ponto fraco deste caso é que as declarações sobre a sessão se basearam não em notas registadas na altura, mas em recordações de algumas semanas e meses mais tarde. Na opinião dos investigadores, esta situação é um pouco mitigada pelo fato de a carta de 26 de fevereiro registar alguns dos fatos principais antes de ser feita qualquer tentativa para os verificar. Um jornal publicou um obituário de Gudni em novembro anterior, mas não continha alguns dos principais detalhes revelados na sessão.

 

Literatura

§  Gauld, A. (1971). A series of ‘drop in’ communicators. Proceedings of the Society for Psychical Research 55, 273-340.

§  Gibbes, E.B. (1937). Have we indisputable evidence for survival? Journal of the American Society for Psychical Research 31, 65-79.

§  Haraldsson, E., & Stevenson, I. (1975a). A communicator of the ‘drop-in’ type in Iceland: The case of Runolfur Runolfsson. Journal of the American Society for Psychical Research 69, 33-59.

§  Haraldsson, E., & Stevenson, I. (1975b). A communicator of the ‘drop-in’ type in Iceland: The case of Gudni Magnusson. Journal of the American Society for Psychical Research 69, 245-61.

§  Hill, J.A. (1917). Psychical Investigations. New York: Doran.

§  Larusdottir, E (1946). Midillin Hafsteinn Björnsson [The Medium Hafsteinn Björnsson]. Iceland: Nordri.

§  Moses, W.S. (1874) Correspondence. The Spiritualist (11 December).

§  Moses, W.S. (1875) Correspondence. The Spiritualist (10 March).

§  Moses, W.S. (1879). Spirit Identity. London: W.H. Harrison.

§  Price, H. (1931). The R-101 disaster (case record): Mediumship of Mrs. Garrett. Journal of the American Society for Psychical Research 25, 268-79.

§  Stevenson, I. (1973). A communicator of the ‘drop-in’ type in France: The case of Robert Marie. Journal of the American Society for Psychical Research 67, 47-76.

§  Stevenson, I. (1975). Letter to the editor. Journal of the Society for Psychical Research 48/764, 123.

§  Tyrrell, G.N.M. (1939). A communicator introduced in automatic script. Journal of the Society for Psychical Research 31, 91-5.

§  Zorab, G (1940). A case for survival? Journal of the Society for Psychical Research 31, 142-52.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Stevenson (1975).

[3] Por exemplo: Moisés, WS. (11 de dezembro de 1874, 10 de março de 1875, 1879) ; Hill (1917) ; Gibbes (1937); Tyrrell (1939); e Zorab (1940).

[4] Haraldsson e Stevenson (1975).

[5] Price (1933), 120-21.

[6] Gauld (1971).

[7] Ver Gauld (1971), Tabela I, 281.

[8] Stevenson (1973).

[9] Larusdottir (1946).

[10] Haraldsson e Stevenson (1975a).

[11] Haraldsson e Stevenson (1975b).

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

OS TALISMÃS – Medalha Cabalística[1]

 


Allan Kardec

 

O Sr. M... havia comprado em segunda mão uma medalha que lhe pareceu notável por sua singularidade. Era do tamanho de um escudo de seis libras; tinha o aspecto da prata, embora um pouco acinzentada. Sobre ambas as faces estão gravadas, em baixo-relevo, uma porção de sinais, entre os quais se nota planetas, círculos entrelaçados, um triângulo, palavras ininteligíveis e iniciais em caracteres vulgares; depois, outros em caracteres bizarros, lembrando o árabe, tudo disposto de modo cabalístico, conforme o gênero utilizado pelos mágicos.

Tendo o Sr. M... interrogado a senhorita J..., médium sonâmbula, a respeito dessa medalha, foi-lhe respondido que era composta de sete metais, havia pertencido a Cazotte e tinha o poder especial de atrair os Espíritos e facilitar as evocações. O Sr. De Caudemberg, autor de uma série de comunicações que, como médium, dizia ter recebido da Virgem Maria, disse-lhe que era uma coisa maléfica, destinada a atrair os demônios. A senhorita Guldenstubé, médium, irmã do barão de Guldenstubé, autor de uma obra sobre pneumatografia, ou escrita direta, garantiu que a medalha possuía uma virtude magnética e poderia provocar o sonambulismo.

Pouco satisfeito com essas respostas contraditórias, o Sr. M... apresentou-nos a medalha, pedindo nossa opinião pessoal a respeito e, ao mesmo tempo, solicitando interrogássemos um Espírito superior a propósito de seu real valor, do ponto de vista da influência que pudesse ter. Eis a nossa resposta:

Os Espíritos são atraídos ou repelidos pelo pensamento, e não pelos objetos materiais, que nenhum poder exercem sobre eles. Em todos os tempos os Espíritos superiores têm condenado o emprego de sinais e de formas cabalísticas, de modo que todo Espírito que lhes atribuir uma virtude qualquer, ou que pretender oferecer talismãs como objeto de magia, por isso mesmo revelará a sua inferioridade, quer quando age de boa-fé e por ignorância, em consequência de antigos preconceitos terrestres de que ainda se acha imbuído, quer quando, como Espírito zombeteiro, se diverte conscientemente com a credulidade alheia. Quando não traduzem pura fantasia, os sinais cabalísticos são símbolos que lembram crenças supersticiosas na virtude de certas coisas, como os números, os planetas e sua concordância com os metais, crenças que foram geradas nos tempos da ignorância e que repousam sobre erros manifestos, aos quais a Ciência fez justiça, ao revelar o que existe sobre os pretensos sete planetas, os sete metais etc. A forma mística e ininteligível desses emblemas tinha por objetivo a sua imposição ao vulgo, sempre inclinado a considerar maravilhoso tudo aquilo que é incapaz de compreender. Quem quer que tenha estudado racionalmente a natureza dos Espíritos não poderá admitir que, sobre eles, se exerça a influência de formas convencionais, nem de substâncias misturadas em certas proporções; seria renovar as práticas do caldeirão das feiticeiras, dos gatos negros, das galinhas pretas e de outros sortilégios. Não podemos dizer a mesma coisa de um objeto magnetizado que, como se sabe, tem o poder de provocar o sonambulismo ou certos fenômenos nervosos sobre o organismo.

Nesse caso, porém, a virtude do objeto reside unicamente no fluido de que se acha momentaneamente impregnado e que assim se transmite, por via mediata, e não em sua forma, em sua cor e nem, sobretudo, nos sinais de que possa estar sobrecarregado.

Um Espírito pode dizer: “Traçai tal sinal e, à vista dele, reconhecerei que me chamais, e virei”; nesse caso, todavia, o sinal traçado é apenas a expressão do pensamento; é uma evocação traduzida de modo material. Ora, os Espíritos, seja qual for a sua natureza, não necessitam de semelhantes artifícios para se comunicarem; os Espíritos superiores jamais os empregam; os inferiores podem fazê-lo visando fascinar a imaginação das pessoas crédulas que querem manter sob dependência. Regra geral: para os Espíritos superiores a forma nada é; o pensamento é tudo. Todo Espírito que liga mais importância à forma do que ao fundo, é inferior e não merece nenhuma confiança, mesmo quando, vez por outra, diga algumas coisas boas, porquanto essas boas coisas frequentemente são um meio de sedução.

Tal era, de maneira geral, nosso pensamento a respeito dos talismãs, como meio de entrar em relação com os Espíritos.

Evidentemente que se aplica também àqueles que a superstição emprega como preservativos de moléstias ou acidentes.

Entretanto, para edificação do proprietário da medalha, e para um melhor aprofundamento da questão, na sessão de 17 de julho de 1858 pedimos a São Luís, que conosco se comunica de bom grado sempre que se trata de nossa instrução, que nos desse sua opinião a respeito. Interrogado sobre o valor da medalha, eis qual foi sua resposta:

Fazeis bem em não admitir que objetos materiais possam exercer qualquer influência sobre as manifestações, quer para as provocar, quer para as impedir. Temos dito com bastante frequência que as manifestações são espontâneas e que, além disso, jamais nos recusamos a atender ao vosso apelo. Por que pensais que sejamos obrigados a obedecer a uma coisa fabricada pelos seres humanos?

– Com que finalidade foi feita essa medalha?

– Foi fabricada com o objetivo de chamar a atenção das pessoas que nela gostariam de crer; porém, apenas por magnetizadores poderá ter sido feita, com a intenção de magnetizar e adormecer um sensitivo. Os signos nada mais são que fantasia.

– Dizem que pertenceu a Cazotte; poderíamos evoca-lo, a fim de obtermos alguns ensinamentos a esse respeito?

– Não é necessário; ocupai-vos preferentemente de coisas mais sérias.



[1] Revista Espírita – setembro/1858 – Allan Kardec

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

OSÓRIO DE MORAES[1]

 


 

Osório de Moraes nasceu na pequena cidade mineira de Bagagem (atual Estrela do Sul) em 21 de dezembro de 1886. Filho caçula de Irineu Osório de Moraes e Ana Virgínia de Moraes, ficou órfão de pai com apenas um ano de idade. A morte trágica do genitor, comerciante itinerante, ocorrida no Estado de Mato Grosso, deixou a família sem haveres. O amparo foi oferecido pela avó materna, que acolheu em seu próprio lar a filha viúva e os três netos: Felisminda, Elias e Osório.

As crianças foram cuidadas pela babá Joana, nascida de ventre escravo, extremamente dedicada e que se tornou para eles “a mãe preta muito amada”. Certa manhã, revela Osório no opúsculo autobiográfico “Fragmentos de uma Alma”, Joana levantou-se dizendo:

A alma do ‘sô’ Irineu apareceu para mim esta noite. Eu o vi como estou vendo vocês. (...) Ele se aproximou de mim e disse: - Joana, ajuda a criar os meus filhinhos...

Osório concluiu o curso primário na escola pública. Aos 15 anos, após ter feito cursos particulares de Português e Matemática, tornou-se mestre-escola dos filhos do mais importante fazendeiro da região, exercendo posteriormente o mesmo mister em outra fazenda.

Algum tempo depois, o Sr. Plácido de Paiva − que precisava ausentar-se da cidade por duas semanas − convidou-o insistentemente a assumir a gerência de sua casa comercial. O encargo, do qual se desincumbiu com rara eficiência, durou mais de quatro meses, levando o jovem Osório a descobrir a vocação inata para o comércio.  Trabalhou como balconista e guarda-livros em outras casas comerciais, tornando-se sócio de uma delas, aos 17 anos. Era a firma “Santos & Moraes”, dissolvida dois anos depois com bom lucro partilhado entre os dois sócios.

Em 1908, com 22 anos, mercê do prestígio granjeado pela retidão de caráter, foi eleito vereador em sua terra.

Ao casar-se, em 5 de junho de 1911, com Maria Luíza de Santana, pediu ao Pe. Marcelo, vigário de Estrela do Sul, que o dispensasse da confissão, tendo o sacerdote anuído após ouvir-lhe os argumentos. Mudou-se no mesmo ano para Coromandel, onde, em sociedade com o sogro, transformou parte da casa comercial deste em farmácia, fundando a firma “Osório & Cia.”, cuja expansão levou à criação de cinco filiais no município e em cidades vizinhas.

A carreira política iniciada na cidade natal teve prosseguimento em Coromandel, então distrito de Patrocínio, onde, em 1920, foi eleito vereador, chegando a ocupar a presidência da Câmara Municipal dois anos depois. Durante sua gestão conseguiu elevar Coromandel à categoria de município. Líder inato, dinâmico e empreendedor, promoveu a criação de escolas e a construção da cadeia pública, da usina hidrelétrica e do prédio da Câmara de Vereadores do município recém-emancipado.

Também por iniciativa sua foi construída a estrada ligando Coromandel a Monte Carmelo. A escola que mandou construir em Coromandel passou a ter o seu nome, em justa homenagem de gratidão do povo da cidade.  Nesse mesmo ano de 1922, levou o primeiro automóvel à região e constituiu, a convite do compadre e amigo Joaquim Henriques Cardoso, a firma “Cardoso & Moraes”, de produtos farmacêuticos, a qual, em 1929, por desistência do sócio, que comprara uma fazenda de café e desejava formar-se em Medicina, passou inteiramente às suas mãos com a denominação de “Laboratório Osório de Moraes”.

Por ter participado ativamente da Revolução de 1930, foi convencido pelo Governador Olegário Maciel a aceitar, mesmo a contragosto, a nomeação para o cargo de Prefeito de Coromandel.

Em 21 de novembro de 1932, preocupado com a educação dos filhos e dada a necessidade de expandir os negócios da pequena e promissora indústria farmacêutica, resolve transferir-se para Belo Horizonte, abandonando definitivamente a vida política. Na Capital Mineira, adquire o imóvel da Rua Muriaé, 92, aí instalando a atividade industrial e a própria residência.

Na tarde de 4 de abril de 1936, fenômenos mediúnicos incomuns ocorrem em sua residência.  Torrões, tijolos e vários objetos eram jogados no interior da casa, levando pânico à sua esposa e aos dez filhos: Stela, Mário, Irineu, Pérola, Walda, Vanda, Osório, Roberto, Helena e Gláucia – conforme noticiado com destaque no então vespertino Diário da Tarde.

No dia seguinte, domingo, às 13 horas, Osório, que já era simpatizante do Espiritismo, dirige-se à União Espírita Mineira em busca de ajuda. Recebe-a através do Presidente Rodrigo Agnelo Antunes que, acompanhado de alguns amigos, entre os quais o médium vidente Geraldo Benício Rocha, realiza naquele mesmo dia reunião na residência de Osório, quando fica esclarecido serem os fenômenos produzidos com a intermediação da menina Cenira, de 10 anos, acolhida naquele lar. Os fenômenos de transporte cessaram com a retirada de Cenira do local para a casa de Laudemiro Alves Ferreira e, posteriormente, para a de Geraldo Rocha, Oscar Coelho dos Santos e outros espíritas, sendo finalmente levada por Leopoldo Machado para Nova Iguaçu, onde se submeteu a tratamento desobsessivo.

Depois desse “despertamento”, Osório adquiriu para estudo todos os livros de Allan Kardec. Frequentando assiduamente a União Espírita Mineira, começou a ter suas dúvidas dissipadas, colhendo da sabedoria do Prof. Cícero Pereira ensinamentos profundos sobre o Evangelho de Jesus.

Foi também na União Espírita Mineira, então localizada na Rua Curitiba, 626, que conheceu Alencar Braga, Leonardo Baumgratz, Rubens Romanelli, Noraldino de Mello Castro, Oscar Coelho dos Santos, Francisco Cândido Xavier, Luiz Ziviani, Salvador Schembri e outros amigos. Buscavam arregimentar, naquele início de 1937, companheiros para criar uma instituição de amparo à criança desvalida.

Era o “embrião” do Abrigo Jesus que, oficialmente criado em 25 de julho de 1937, teve a sede própria inaugurada em 31 de março de 1946.  Osório de Moraes, que na assembleia de fundação havia sido eleito 2º Tesoureiro, foi unanimemente escolhido, no mandato seguinte, mercê de sua simpatia, habilidade, competência e espírito de liderança, para ocupar o cargo de Presidente, que exerceria durante 30 anos em sucessivas reeleições.

Para dedicar-se “de corpo e alma” ao Abrigo Jesus, o “paizinho Osório”, como era chamado pelas crianças ali acolhidas, confiou a gestão do laboratório farmacêutico aos filhos Mário e Irineu. Escreve ele no opúsculo citado:

Em minha vida tive duas fases em que me entreguei de corpo e alma a coisas de interesse público: a primeira, como político em Coromandel, onde morei 21 anos, tornando-me obsecado pelas coisas daquela terra; na segunda, com o Abrigo Jesus, fui tomado da mesma paixão, entregando-me inteiramente aos misteres da Instituição, (...) envolvido em doce enlevo de encantamento e ternura pelas crianças.

Após 52 anos de vida conjugal, em que se destacaram suas virtudes de esposo dedicado e pai exemplar, a companheira Maria Luíza desencarna em 3 de setembro de 1963. Não suportando a solidão, contraiu novas núpcias em 7 de maio de 1966 com Leonides Urbano Conde, criatura boníssima e que dele cuidou até a morte.

Aos 94 anos, Osório de Morais desencarnou em Belo Horizonte no dia 24 de janeiro de 1980, no coroamento de experiência reencarnatória desse autêntico cristão, marcada pelo amor à família e devotamento ao próximo.

 

 

Fonte:  “O Espírita Mineiro”, nº. 285 (maio/junho – 2005)

sábado, 3 de fevereiro de 2024

O ESPÍRITA NA FAMÍLIA[1]

 


Miguel Vives y Vives

 

Se o Espírita deve ser prudente, virtuoso, tolerante, humilde, abnegado e caridoso, entre os seus irmãos de ideal e no seio da Humanidade, quanto mais o deve ser na família! Se são sagrados os deveres que temos de cumprir entre nossos irmãos e na Humanidade, muito mais o são os que temos de cumprir na família. Porque devemos considerar que, além dos vínculos que nesta existência nos unem com laços indissolúveis, temos sempre histórias passadas, que se enlaçam com a história presente.

Os que não são espíritas atribuem tudo à casualidade. Nós sabemos, porém, que não há efeito sem causa e que as contrariedades ou alegrias de hoje são a continuação de nossas vidas passadas. Por isso, o espírita deve ver na sua família um grupo que lhe foi dado em custódia, e para o qual tem muitos deveres a cumprir e muitos sacrifícios a fazer. Por isso, o esposo deve ser o apoio e o sustentáculo da esposa; deve amá-la, respeitá-la, protegê-la, aconselhá-la, orientá-la, e proporcionar-lhe, em todas as circunstâncias da vida, o que for necessário.

Também a esposa deve obediência, amor, respeito e sinceridade para com o esposo, sendo este, para ela, sempre a primeira pessoa a quem deve confiar os seus segredos e todas as sua tendências, sem faltar jamais ao respeito e à obediência, que deve ao que Deus lhe deu como guia neste mundo de dor.

Sei que para muitos estas palavras são desnecessárias.

Mormente quando os esposos têm as mesmas tendências, são ambos de bom temperamento e sentem as mesmas aspirações.

Mas, quando há entre eles temperamentos opostos, ou um mau gênio que torna difícil a união, já é outra coisa. E se o esposo entra em choque com a família, que não quer aprovar as suas ideias, nem concordar que professe o Espiritismo? Como se arranja esse chefe de família? É muito difícil prescrever regras para casos particulares. Só podemos dizer, neste caso, que o espírita deve escudar-se em sua prudência, com tato e paciência a toda prova. É então que deve estar mais ligado ao Alto, ter muito amor ao Pai, recordar sempre a paciência e a abnegação do Senhor, e permanecer em contato com o seu Guia Espiritual, por meio da oração e pela prática da indulgência para os que o atormentam.

Sua conduta na família deve ser um belo modelo de todas as formas da virtude, para que o exemplo possa um dia levar à  compreensão, ou pelo menos à tolerância da parte dos seus. E mesmo que a tanto não seja possível chegar, que não se rebele, que se deixe sacrificar, se for necessário, lembrando-se de que o hoje é o resultado do ontem, pois assim fazendo poderá esperar grande recompensa. Vi, na minha vida de espírita, dois irmãos que sofreram muito com suas famílias. E, apesar de seus sacrifícios, de sua paciência e abnegação, não conseguiram a tolerância dos familiares, sendo constantemente objeto de zombaria e de desprezo por parte dos seres mais queridos.

Desses dois irmãos, já desencarnados, tive ocasião de receber comunicações que, moralmente falando, são de enorme elevação e demonstram uma felicidade tão grande, que, posso assegurar, nenhum outro jamais demonstrou, entre os desencarnados na nossa época.

O sacrifício foi grande na Terra, pois nada é mais doloroso do que ver-nos desprezados e ridicularizados por aqueles que amamos. Mas esses sofrimentos são duplamente recompensados por nosso Pai, nosso Deus, que tudo tem em suas mãos, tudo sabe e tudo pode. Aliás, estas situações são excepcionais e poucos se encontram nelas. O mais comum é o espírita ser pai de alguns filhos cuja missão não está isenta de perigos, sendo às vezes necessária uma abnegação a toda prova, dirigida pelo bom senso espírita.

Às vezes, nem todos os filhos são bons como o pai deseja.

Pelo contrário, acarretam desgostos e dissabores, que redundam em grande sofrimento. Os pais, então, precisam saber sofrer, tendo muito cuidado em manter o mesmo afeto para com todos os filhos, tanto para os bons, como para os que os desgostam. O espírita deve sentir o mesmo amor por todos os seus filhos. E não deve olvidar que os mais necessitados de sua misericórdia são os menos providos de bondade e compreensão. Há filhos que levamos pela mão a toda parte, e há outros que não basta toma-los pela mão, é preciso arrastá-los. Conheço pais espíritas que, embora amando a todos os filhos, deram preferência aos mais pacíficos e mais obedientes. Se isto não fosse mais em aparência do que na realidade, poderia ser uma boa maneira de conduzir os demais ao bom caminho. Mas não foi assim. Pelo contrário, dando preferência a alguns, relegaram os demais ao olvido. Esta é uma prática errada, que pode custar caro ao que a exercita.

É verdade que às vezes o pai não pode tratar a todos da mesma maneira, em virtude da diferença de conduta e de compreensão dos filhos. Mas o pai e a mãe devem manter o amor em seus corações, e, se possível, muito mais forte pelo filho que mais necessita, seja por seu atraso moral ou por outros motivos.

Pois todo espírita que tenha filhos não deve olvidar que não os tem por acaso. Não foi por casualidade, mas obedecendo a um plano providencial, para o seu bem e o de seus filhos, que eles nasceram. Quem sabe foram inimigos, que têm dívidas a acertar, e por isso Deus os põe um ao lado do outro, unidos pelos laços de família, para um pagamento que de outra forma não poderiam fazer! Quem sabe a mulher abandonada de outras existências, que serviu apenas para satisfazer caprichos, vem agora reclamar o apoio a que tem direito! Por isso, o espírita, se deve ter o maior cuidado na educação de todos os seus filhos, mais ainda há de velar pelos filhos que vieram carregados de imperfeições e são causa de grandes desgostos.

Quantos casos há, entre os encarnados, que, se pudéssemos conhecê-los, nos fariam baixar a cabeça e pôr-nos de sobreaviso!

Na verdade, não podemos conhecê-los. Basta-nos saber, porém, que não há efeito sem causa, e que Deus, na sua infinita sabedoria, nada faz de inútil nem de injusto. Assim, quando o homem encontra uma esposa má, ou a mulher encontra um mau marido, não é por acaso, mas por uma sábia determinação. Se um bom pai tem filhos maus, não se trata de castigo, mas das consequências de uma lei justa. O espírita, que conhece todas estas coisas e ainda muitas outras, não pode considerar a vida como um simples passeio, mas como uma sequência de fatos que o ferirão até o mais fundo da alma, que o farão sofrer e derramar lágrimas. Mas justamente por isso deve ser forte, de ânimo firme, compassivo e abnegado, caridoso para com todos e muito especialmente para com as imperfeições dos seus filhos, depósitos sagrados que o Pai lhe concede, para que seja o seu protetor e guia, a fim de fazê-los avançar pelo menos um passo, no caso de não poder fazer mais.

Todo espírita deve proceder com muito cuidado na missão da paternidade, para jamais se deixar arrastar por uma atração de causa desconhecida, em favor de uns filhos, nem pela frieza que pode sentir em relação a outros. A justiça e o dever devem regular essas afeições ou repulsões secretas, que brotam da alma.

Já dissemos que um filho nosso pode ser um grande inimigo de outras existências, ou um amigo carinhoso. E não há dúvida que, nas profundezas de nossa alma, ressoam ainda as lembranças do passado. Daí a razão da eficiência do Espiritismo, para fazer-nos progredir, pois sua solução definitiva é que devemos amar, amar e amar. Sim, amar aos que nos querem, aos que nos odeiam, aos que nos protegem ou nos perseguem, aos que nos fazem bem ou nos desejam o mal. Por sinal que este mandamento, que é lei para a convivência humana em geral, mais ainda o é no seio da família. O espírita que tiver o amor como lei e prática, não estará em trevas. Sua vida terrena fluirá placidamente, e depois dela alcançará a felicidade.

Quando o espírita não tem esposa e filhos, mas tem ainda os pais, não deve esquecer o dever de tributar-lhes todo o respeito, carinho e amor. Há de considerar que foram na Terra os representantes da Providência para ele, o que o obriga a lhes dar paz, consolo, proteção e amparo. Está no dever de fazer por eles o que deles recebeu, e mesmo que seus pais não se tenham portado bem, não está menos obrigado. Porque, nesse caso, eles pertenceriam à ordem dos espíritos inferiores, e o espírita deve ser um exemplo constante de virtude e abnegação, para que eles aprendam o que não sabiam: cumprir com os seus deveres.

 

Em resumo:

§  cremos que o espírita, em todas as situações da vida, há de portar-se como bom filho, bom esposo, bom pai, bom irmão e bom cidadão;

§  será praticante da lei divina, cujo sentido prático está no ensinamento e no exemplo do Senhor e Mestre;

§  será luz para iluminar os que estão ao seu redor;

§  será mensageiro de paz e de amor para todos;

§  e levará a paz das Moradas de Luz até os homens da Terra.



[1] O TESOURO DOS ESPÍRITAS – Miguel Vives y Vives

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

O CAMINHO DA PACIÊNCIA[1]

 

Dzigar Kongtrul Rinpoche[2]

 

Como os pequenos aborrecimentos da vida podem nos ensinar uma tolerância cada vez maior.

O sábio budista indiano do século VIII, Shantideva, dedicou um capítulo de sua obra O Caminho do Bodhisattva ao tema da Paciência. No novo livro “Coração Pacífico: A Prática Budista da Paciência”, o professor budista tibetano Dzigar Kongtrul Rinpoche segue os 134 versos do Capítulo Paciência e explica como eles se aplicam às nossas vidas ocupadas hoje. Neste trecho, ele discute os versículos 15 a 18, traduzidos pelo Grupo de Tradução Padmakara.

 

15

Eu já não suporto as

irritações comuns —

Picadas e picadas de cobras e moscas,

Experiências de fome e sede,

E erupções cutâneas dolorosas na minha pele?

 

16

Calor e frio, vento e chuva,

Doença, prisão, espancamentos —

não vou me preocupar com essas coisas.

Fazer isso só agrava meu problema.

 

Se olharmos para a nossa vida, já temos uma certa paciência. Podemos suportar muito bem muitas circunstâncias difíceis. Por exemplo, todos nós temos que suportar doenças menores, como resfriados e dores de cabeça. Temos que lidar com muito clima que não gostamos. Toleramos mosquitos, ratos e muitas outras criaturas que nos causam pequenos problemas.

Em vez de procurarmos constantemente eliminar todas as pequenas irritações das nossas vidas, podemos usá-las como base para desenvolver mais paciência. Se você enfatizar o conforto em vez da prática da paciência, sua mente ficará cada vez mais fraca. Se você deseja que sua vida esteja livre do desafio de precisar de paciência, sua mente estará em constante medo. Você se sentirá cada vez mais ameaçado, cada vez mais provocado, cada vez mais paranoico. Isso o levará a agir de forma mais negativa e a rejeitar grande parte do mundo.

 Os profissionais precisam ir na direção oposta. Precisamos ter um pouco de força para trabalhar com todos os desafios que encontramos. Muitas pessoas se perguntam: “Por que minha vida tem tantas dificuldades?” Mas não existe no samsara uma vida livre de luta. Não existe vida onde nada nos ameace. Então, em vez disso, deveríamos nos perguntar: “Por que minha vida não tem mais vigor ?”

É interessante que seja mais fácil ter paciência com coisas ou seres que não podem ser responsabilizados, como o clima ou os bebês. Devemos também notar que é relativamente fácil demonstrar tolerância para com as pessoas que queremos agradar ou impressionar, como aquelas que consideramos atraentes ou nossos superiores no trabalho. Esses exemplos mostram o quão capazes somos de ter controle sobre nossas mentes. Se usarmos essas situações mais fáceis como campo de treinamento, também seremos capazes de estender nossa paciência a situações ou pessoas que tendem a provocar mais fortemente nossa raiva.

O que Shantideva quer dizer aqui é que o desenvolvimento da paciência depende muito da nossa autoconfiança e autoimagem. Se nos considerarmos nervosos, trêmulos e irritáveis, nossas experiências tenderão a seguir essa imagem. Portanto, precisamos mudar a nossa atitude para nos vermos como tolerantes e não facilmente perturbados. Isto fará uma grande diferença na forma como reagimos às condições externas e colocará em marcha formas mais favoráveis ​​para as coisas se desenrolarem. Quando nos vemos sob uma luz tão positiva, será fácil tolerar pequenas perturbações, deixar ir e seguir em frente com paciência cada vez maior. À medida que nossas mentes se tornarem mais ágeis e prontas para aproveitar o desconforto e as adversidades, ganharemos mais força para enfrentar com tolerância as grandes perturbações da vida.

 

17

Há alguns cuja bravura

aumenta

à vista do seu próprio sangue,

Enquanto alguns perdem todas as suas forças

e desmaiam

Quando é o sangue de outro que veem!

 

18

Isto resulta de como a mente está definida,

Na firmeza ou na covardia.

E então desprezarei todas as injúrias,

E desconsiderarei as dificuldades!

 

Nossas reações a situações, pessoas e nossos próprios estados mentais baseiam-se em como condicionamos nossas mentes. Por exemplo, se você se habituou a ser corajoso na batalha, ver seu próprio fluxo sanguíneo pode lhe dar ainda mais coragem para lutar. Mas se você habituou sua mente à fraqueza e à hipersensibilidade, poderá desmaiar ou entrar em pânico mesmo ao ver o sangue de outra pessoa. Sua resposta naquele momento vem de como você construiu seus hábitos no passado.

Você pode treinar sua mente para ser forte e resiliente ou pode treiná-la para ser tímida e facilmente desanimada. Esta é sua escolha. Se você quer ser um bodhisattva, não é viável agir como um cachorro fraco e fugir com o rabo entre as pernas, sucumbindo às suas reações habituais. Um bodhisattva precisa enfrentar inúmeros desafios, então você tem que abandonar qualquer tendência à covardia.

Nestes tempos modernos, especialmente no Ocidente, é comum que as pessoas desistam facilmente de si mesmas. Muitos estudantes do dharma tendem a se julgar com muita severidade e depois ficam desanimados. Parte do problema é que eles querem ser bons demais. Então, quando veem suas neuroses e suas imperfeições, têm dificuldade em se aceitar. Isso vem de ter expectativas irracionais. É uma mentalidade puritana. Ouço as pessoas dizerem: “Tenho praticado nos últimos vinte anos. Como isso pôde acontecer? Como eu poderia fazer isso? Como pude ter esse pensamento, esse sentimento?” Isso geralmente acontece justamente quando eles pensam que fizeram algum progresso. O resultado pode ser um profundo desânimo.

Nossos pensamentos, sentimentos e reações surgem devido a um grande número de circunstâncias interdependentes. Quando as circunstâncias perfeitas convergem para que você tenha uma determinada reação, é quase impossível não ter essa reação, pelo menos inicialmente. Como resultado, não importa quanto tempo você pratique, é muito improvável que nada mais o incomode. Não é realista pensar que você estará isento de ficar frustrado ou perder a paciência. A marca de um verdadeiro praticante não é o que surge em sua vida e em sua mente, mas como você trabalha com o que surge.

Tudo se resume à sua perspectiva e à sua autoconfiança – seu vigor. Agora você pode pensar: “O que posso fazer sobre isso? Simplesmente não sou uma pessoa autoconfiante”. É importante saber que autoconfiança não é algo com que nascemos. Todos podem desenvolver autoconfiança se quiserem. Mas devemos compreender que aqui estamos falando de autoconfiança genuína, e não da versão inchada do ego, que mais parece arrogância.

O processo começa com a sua disposição de arriscar. Em vez de ter tudo absolutamente claro e previsível com antecedência, você precisa estar disposto a mergulhar no desconhecido. Isso pode exigir um salto de fé – fé em sua própria mente e em sua sabedoria e habilidade inatas. Depois de dar esse salto, você terá que trabalhar com sua inteligência – com habilidade, atenção e paciência – à medida que a situação se desenrola. Passar por esse tipo de processo repetidamente aumentará sua autoconfiança, especialmente quando você encontrar dificuldades e encontrar maneiras de revertê-las ou obter o melhor resultado possível.

A marca de um verdadeiro praticante não é o que surge em sua vida e em sua mente, mas como você trabalha com o que surge.

Aqui é útil lembrar os versículos 15 e 16, nos quais Shantideva nos aconselha a treinar no cultivo de qualidades positivas, começando com coisas relativamente pequenas. Esta é uma abordagem realista e factível para desenvolver qualquer atributo desejável em sua mente. Por exemplo, você pode querer ser uma pessoa generosa, mas perceber que não é muito generoso. Resignar-se a ser mesquinho por natureza não levará você a lugar nenhum. Isso é apenas dar uma desculpa baseada na preguiça.

Se você estiver genuinamente interessado, sempre poderá encontrar pequenas maneiras de ser generoso. Você pode até praticar passando dinheiro ou algum objeto ao qual esteja apegado de uma mão para a outra. Na verdade, o Buda sugeriu esta prática simples a um discípulo que superou sua avareza e eventualmente se tornou um grande patrono do dharma. Começar aos poucos servirá como um começo eficaz para sua prática de generosidade, que você poderá levar até onde quiser.

Principalmente com paciência, podemos usar as pequenas irritações que surgem em nossas vidas como oportunidades maravilhosas para treinar. Por exemplo, às vezes nos sentimos ofendidos, mas ao mesmo tempo percebemos que é bobagem ficar ofendido. Aqui temos uma grande chance de aplicar o humor que já vemos na situação. Este humor baseia-se em perceber a ironia do que está acontecendo: estamos culpando outra pessoa, mas o verdadeiro problema é o nosso próprio ego, manifestando-se na forma de uma tensão ridícula. Esse tipo de humor irônico não é apenas um adesivo que usamos para encobrir a dor. É um insight que pode transformar a irritação em uma risada ou sorriso genuíno, que nos dá uma sensação de libertação. Uma perspectiva humorística nos ajuda a superar a leve dor da ofensa e nos permite transformar essa dor em sabedoria. Podemos então apreciar a dor como faríamos com a dor de uma imunização. Precisamos aproveitar essas situações, que estão ao nosso alcance para trabalharmos com sucesso. Se renunciarmos a essas oportunidades de praticar em pequenas coisas, então acreditar que seremos pacientes quando coisas maiores acontecerem é apenas uma ilusão.

Como o humor e a apreciação da ironia são meios eficazes de eliminar irritações, gostaria de compartilhar uma reflexão que tive uma vez, que achei engraçada e útil. Ocorreu-me que as pessoas vêm com tamanhos de calçado diferentes, mas isso não me incomoda. Eles têm diferentes tamanhos de calças e chapéus. Isso também não me incomoda. Então, por que eu deveria me preocupar com o fato de as pessoas terem ego de tamanhos diferentes? Assim como não preciso usar os sapatos dos outros, não preciso usar os egos dos outros. Posso simplesmente deixá-los usar seus próprios egos, seja qual for o tamanho. Por que eu deveria considerar pessoalmente o tamanho do ego de outra pessoa e deixar que isso me incomode? É deles e somente deles usar. Posso simplesmente deixá-los em paz.

O tamanho do ego de outra pessoa pode fazer você se sentir muito incomodado e desconfortável. Mas se você encontrar outras maneiras de encarar sua irritação, especialmente usando o humor, terá mais chances de ser paciente. Desta forma, a sua paciência aumentará não só em situações triviais, mas também em situações graves onde o humor e a ironia são mais difíceis de encontrar.

 

 

Extraído de Coração Pacífico: A Prática Budista da Paciência por Dzigar Kongtrul © 2020. Reimpresso com permissão da Shambhala Publications .

 

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Dzigar Kongtrul Rinpoche  é autor e fundador da Mangala Shri Bhuti, uma organização da linhagem Longchen Nyingtik do budismo tibetano.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

ANTE OS FENÔMENOS[1]

 


Miramez

 

Que consequências se podem tirar dos fenômenos do sonambulismo e do êxtase? Não seriam uma espécie de iniciação à vida futura?

− Ou, melhor dito, é a vida passada e a vida futura que o homem entrevê. Que ele estude esses fenômenos, e neles encontrará a solução de muitos mistérios que a sua razão procura inutilmente penetrar.

Questão 445 / O Livro dos Espíritos

 

Ante os fenômenos de sonambulismo e de êxtase, podemos devassar muitos segredos da natureza espiritual, compatíveis com os nossos desejos mais profundos.

Em estado de êxtase e sonambulismo, regredimos a memória e descobrimos as vidas passadas, e em muitas delas podemos rever os nossos feitos na sua origem. Essas faculdades quebram o véu que nos encobre recuadas eras. Na mensagem anterior, falamos das coisas que devem ficar encobertas, e que nós, pela ignorância, batalhamos para pôr à vista, e de outras que vêm à tona naturalmente, como sendo bênçãos de Deus para as nossas meditações. Não devemos querer saber o que não pode ser, principalmente quando se trata de outras vidas. Deus, quando coloca um véu entre a vida atual e o passado, tem uma razão para isso: Ele espera que fortaleçamos os sentimentos para suportar a verdade.

A missão do Espiritismo coordenado pelo Prof. Rivail é nos esclarecer a verdade sobre a nossa posição ante as leis que nos cercam e assistem. As raízes ficam encobertas pelo passado, para nos manter vivos e em preparação para outras tarefas que nos pedem paciência e fé.

O extático, estando livre e como lhe faculta o dom, vai ao passado. Sua consciência se abre e ele lê, como se fosse em um livro, o que passou em vidas pretéritas e lhe são revelados os arcanos das vidas, ou de muitas delas. Em muitos casos isso lhe serve de estímulos; em outros, traz-lhe aborrecimentos inúmeros, capazes de fazê-lo atrofiar e mesmo partir fora de época para o mundo espiritual. Aí, ele terá que voltar em piores condições, às vezes sem o dom de sonambulismo ou mediunidade reveladora.

Todo cuidado é pouco para os que têm as faculdades desenvolvidas, que devem conversar somente o necessário. Eles não sabem a capacidade de suportar dos ouvidos que os escutam, ou mesmo os seus próprios. O que devem revelar para todos é o exemplo de caridade e de amor, de perdão e de desprendimento. Essas revelações são úteis a todas as criaturas de Deus, porque melhoram seus sentimentos e lhes trazem alegria de viver.

Ser profeta do belicismo é escândalo anunciando escândalos. A nossa mediunidade é o que desejamos fazer dela; se respondemos pelo que fazemos, temos a liberdade de fazermos o que pretendemos. Os Espíritos que nos acompanham por misericórdia, afastam-se da conduta que não corresponde à verdade, e se induzimos para a falsa moral, os falsos profetas aproximar-se-ão das nossas faculdades e usá-las-ão para as mentiras.

Os mistérios espirituais, não é dado à razão descobri-los; somente as faculdades desenvolvidas, o sonambulismo e o êxtase, são as que penetram no desconhecido para dizer o que existe nessas paragens do invisível. No entanto, o equilíbrio espiritual seleciona o que devemos anotar na mente ativa, e conhecer conscientemente do nosso passado, se ele pode ser vivido pelo presente.

Para buscar as verdades do Espírito, necessário se faz que busquemos essa verdade em Espírito e verdade. Quem estiver em dúvidas sobre o buscar o desconhecido, que use a oração e o discernimento, pedindo a Jesus a opinião sobre o que deve fazer.



[1] Filosofia Espírita -  Volume 9 – João Nunes Maia