quarta-feira, 30 de junho de 2021

LICANTROPIA E ZOANTROPIA – O ESPÍRITO EM SOFRIMENTO[1]

 


Gilson Pereira - 9 de outubro de 2020

 

Em muitas sessões espíritas, os médiuns de vidência relatam a presença de espíritos em condições assustadoras, dignas de um filme de terror. Uns vêm trajados de negro, cabeça coberta por um capuz, outros se apresentam com os cabelos desgrenhados, sujos, e outros ainda nem parecem que um dia estiveram encarnados como seres humanos, tal é a sua deplorável imagem. Apresentam-se na forma de animais e se comportam agressivamente. A esse fenômeno dá-se o nome de licantropia e zoantropia. A presença dessas entidades é pouco estudada e citada na casuística espírita.

Para melhor entendimento do assunto, é mister que façamos a definição do que vem a ser isso:

Zoantropia do latim “zoo” = animal e “anthropos” = homem, é o fenômeno em que espíritos desencarnados devotados ao mal se tornam visíveis aos homens em formas de animais, demonstrando assim a sua degradação tanto moral como espiritual. Podem apresentar-se como uma cobra, ou um lagarto, porém, sempre com aspectos de um ser humano em seus rostos, e o seu comportamento denota sempre irritação, ódio. Têm, ainda, enorme dificuldade com a fala, expressando-se sempre de uma forma gutural e monossilábica na maioria das vezes.

Por sua vez, a licantropia não deixa de ser zoantropia, porém, mais particularizada, pois refere-se especificamente aos espíritos que se apresentam como um lobo.

Na psiquiatria a Licantropia é tratada como uma síndrome na qual a pessoa acredita ser possível transformar-se em um lobo ou que já tenha se transformado em um.

Não se pode falar em lobos sem mencionar a figura do lobisomem, o lendário ser originário da mitologia grega, várias vezes retratado no cinema. Diz a crendice que um homem pode se transformar em um lobo às 21 horas todas as sextas-feiras de lua cheia, só voltando ao seu normal ao amanhecer. Segundo as lendas mais modernas, para matar um lobisomem é preciso acertá-lo com artefatos cortantes feitos de prata.

O insigne escritor e pesquisador espírita Hermínio C. Miranda (1920-2013) em seu excelente livro “Diálogo com as Sombras” – obra de leitura muito importante para, principalmente, os médiuns que trabalham nos chamados trabalhos de desobsessão –, esclarece o porquê do fenômeno:

Seria quase inadmissível a deformação espiritual num ser de elevada condição moral, mas é muito comum naqueles que se acham ainda tateando nas sombras de suas paixões [principalmente o ódio]. O períspirito é o veículo de nossas emoções, ele é denso enquanto caminhamos pelos escuros caminhos de muitos enganos, e vai se tornando diáfano, transparente, límpido, delicado à medida que vamos evoluindo.

No mesmo livro, o autor relata o caso de um espírito que se apresentara em uma sessão como um fauno (criatura da mitologia grega, meio humano, meio bode) e tentava agredir o médium que com ele dialogava. A conversa arrastou-se por uma hora. Tendo sido então conscientizado de seu estado, e somente após uma ação magnética empregada a ele pelos trabalhadores, a entidade pôde voltar ao seu aspecto normal.

Ainda no livro “Diálogo com as Sombras” prossegue o autor:

... chegado o momento de seu resgate, não há força que se consiga antepor à vontade soberana de Deus. Geralmente são espíritos inteligentes que se transviaram enormemente e destilam a sua raiva naqueles que os trazem para o esclarecimento, porque não querem perder o prestígio sobre os seus comandados. No caso de influência sobre os encarnados, quando esses estão sob a mais grave forma de obsessão, a subjugação, a vítima passa a agir como animal.

André Luís em seu livro “Nos Domínios da Mediunidade” narra o caso de uma senhora que vitimada pelo obsessor sedento de vingança, por ter sido por ela induzido ao mal quando encarnado, hipnotizava a vítima fazendo com que ela caísse e rolasse pelo chão, como uma fera, quase uivando. Muitos passes e palavras de conforto foram necessários para que a vítima se recuperasse.

No mesmo livro, André Luís explica:

... é preciso que exista uma sintonia e afinidades para que haja a aceitação e adesão ao desejo do espírito, isso porque no passado a vítima contraiu débitos com outros espíritos inferiorizados com os quais se afinizava.

 

A zoantropia pode ser:

– agressiva, pois se expressa através da violência e pode levar ao crime.

– deformante, caso extremo em que a pessoa imita costumes, posições e atitudes de vários animais.

 

Os casos de zoantropia e licantropia eram mais raros, se comparados com o enorme contingente de espíritos em aflição. Mas atualmente observa-se a presença de entidades nessa condição com mais regularidade nos trabalhos de desobsessão, chamados em nossa casa como “Trabalho de Caridade”.

Dada a sua dolorosa condição, muitos desses irmãos sofredores estão sendo levados para planetas inferiores, pois por enquanto não têm mais condição de reencarnar na Terra nas suas próximas experiências na carne. O estágio em planetas inferiores dará a eles a oportunidade de redimir-se usando a sua inteligência em prol do desenvolvimento das humanidades ali existentes, permitindo que no futuro retornem ao nosso planeta.

terça-feira, 29 de junho de 2021

LÚMEN - RELATO EXTRATERRENO - 1[1]

 

Allan Kardec

 

Por Camille Flammarion, Professor de Astronomia, adido ao Observatório de Paris

 

Isto não é um livro, mas um artigo que poderia constituir um livro interessante e, sobretudo, instrutivo, porque os seus dados são fornecidos pela ciência positiva e tratados com a clareza e a elegância que o jovem sábio exibe em todos os seus escritos. O Sr. Camille Flammarion é conhecido de todos os nossos leitores por sua excelente obra sobre a Pluralidade dos Mundos Habitados e por artigos científicos que publica no Siècle. Este de que vamos dar conta foi publicado na Revue du XIXe Siècle de 1º de fevereiro de 1867[2].

O autor imagina um diálogo entre um indivíduo vivo chamado Sitiens, e o Espírito de um de seus amigos, chamado Lúmen, que lhe descreve seus últimos pensamentos terrestres, as primeiras sensações da vida espiritual e as que acompanham o fenômeno da separação. Este quadro é de perfeita conformidade com o que os Espíritos nos ensinaram a respeito; é o mais genuíno Espiritismo, menos a palavra, que não é pronunciada. Poder-se-á julgá-lo pelas citações seguintes:

A primeira sensação de identidade que se experimenta depois da morte assemelha-se à que se sente ao despertar durante a vida, quando, recobrando pouco a pouco a consciência pela manhã, ainda se é atravessado pelas visões da noite. Solicitado pelo futuro e pelo passado, o Espírito busca ao mesmo tempo retomar plena posse de si mesmo e captar as impressões fugidias do sonho que acabara de ter, que ainda perduram com seu cortejo de quadros e acontecimentos. Por vezes, absorvido por esta retrospecção de um sonho cativante, ele sente nas pálpebras que se fecham a corrente da visão se restabelecendo, e o espetáculo continuando; cai ao mesmo tempo no sonho e numa espécie de semissono. Assim se equilibra a nossa faculdade pensante ao sair desta vida, entre uma realidade que ainda não compreende e um sonho que não desapareceu completamente.

 

Observação – Nesta situação do Espírito, nada há de surpreendente que alguns não se julguem mortos.

 

A morte não existe. O fato que designais sob esse nome, a separação entre o corpo e a alma, a bem dizer não se efetua sob uma forma material comparável às separações químicas dos elementos dissociados, observada no mundo físico. Quase não se percebe esta separação definitiva, que nos parece tão cruel, mas que o recém-nascido não percebe ao nascer; fomos concebidos para a vida futura, como nascemos para a vida terrena. Apenas a alma, não mais estando envolvida nas vestes corporais, que a revestiam aqui, adquire mais prontamente a noção de seu estado e de sua personalidade. Contudo, essa faculdade de percepção varia essencialmente de uma alma a outra. Umas há que, durante a vida do corpo, nunca se elevaram para o céu e jamais se sentiram ansiosas por penetrar as leis da criação. Estas, ainda dominadas pelos apetites corporais, ficam muito tempo num estado de perturbação inconsciente. Felizmente há outras que, desde esta vida, alçam voo nestas aspirações aladas para os cimos da beleza eterna; estas veem chegar com calma e serenidade o instante da separação; sabem que o progresso é a lei da existência e que entrarão, no além, numa vida superior à de cá; seguem passo a passo a letargia que lhes sobe no coração, e quando a última batida, lenta e insensível, o detém em seu curso, já estão acima do corpo, cujo adormecimento observam e, libertando-se dos laços magnéticos, sentem-se rapidamente transportadas, por uma força desconhecida, para o ponto da criação onde suas aspirações, seus sentimentos, suas esperanças as atraem.

Os anos, os dias e as horas são constituídos pelos movimentos da Terra. Fora desses movimentos o tempo terreno não existe mais no espaço; é, pois, absolutamente impossível ter noção desse tempo.

 

Observação – Isto é rigorosamente certo. Assim, quando os Espíritos querem especificar uma duração inteligível para nós, são obrigados a se identificarem novamente com os hábitos terrestres, a se refazerem homens por assim dizer, a fim de se servirem dos mesmos pontos de comparação. Logo depois da libertação, o Espírito Lúmen é transportado com a rapidez do pensamento para o grupo de mundos que compõem o sistema da estrela designada em astronomia sob o nome de Capela ou Cabra. A teoria que ele dá da visão da alma é notável.

 

A visão de minha alma tinha um poder incomparavelmente superior à dos olhos do organismo terrestre, que eu acabava de deixar; e, observação surpreendente, seu poder me parecia submetido à vontade. Basta que vos faça pressentir que, em vez de ver simplesmente as estrelas no céu, como as vedes na Terra, eu distinguia claramente os mundos que gravitam em volta; quando eu desejava não mais ver a estrela, a fim de não ficar incomodado pelo exame desses mundos, ela desaparecia de minha visão e me deixava em excelentes condições para observar um desses mundos. Além disso, quando minha vista se concentrava num mundo particular, eu chegava a distinguir os detalhes de sua superfície, os continentes e os mares, as nuvens e os rios. Por uma intensidade particular de concentração na visão de minha alma, eu conseguia ver o objeto sobre o qual ela se concentrava, por exemplo, uma cidade, um campo, os edifícios, as ruas, as casas, as árvores, os atalhos; reconhecia mesmo os habitantes e seguia as pessoas nas ruas e nas habitações. Para isto bastava limitar o meu pensamento ao quarteirão, à casa ou ao indivíduo que eu queria observar. No mundo nas proximidades do qual eu acabava de chegar, os seres, não encarnados num invólucro grosseiro como na Terra, mas livres e dotados de faculdades de percepção elevadas num eminente grau de poder, podem perceber distintamente detalhes que, a essa distância, escapariam absolutamente aos olhos das organizações terrestres.

Sitiens – Para isto eles se servem de instrumentos superiores aos nossos telescópios?

Lúmen – Se, por ser menos rebelde à admissão desta maravilhosa faculdade, vos é mais fácil concebê-los munidos de instrumentos, teoricamente o podeis. Mas devo advertir-vos que esses tipos de instrumentos não são exteriores a esses seres, e que pertencem ao próprio organismo de sua vista. É claro que essa construção óptica e esse poder de visão são naturais nesses mundos e não sobrenaturais. Pensai um pouco nos insetos que gozam da propriedade de contrair ou de alongar os olhos, como os tubos de uma luneta, de inflar ou aplanar o cristalino para dele fazer uma lente de diferentes graus, ou ainda concentrar no mesmo foco uma porção de olhos assestados como outros tantos microscópios, para captar o infinitamente pequeno, e podereis mais legitimamente admitir a faculdade desses seres extraterrenos.

 

O mundo onde se acha Lúmen está a uma distância tal da Terra que a luz não chega de um ao outro senão ao cabo de setenta e dois anos. Ora, nascido em 1793 e morto em 1864, à sua chegada em Capela, de onde lança o olhar sobre Paris, Lúmen não conhece mais a Paris que acaba de deixar. Os raios luminosos partidos da Terra, só chegando a Capela depois de setenta e dois anos, trar-lhe-iam a imagem do que aí se passava em 1793.

Eis a parte realmente científica do relato. Todas as dificuldades aí são resolvidas da maneira mais lógica. Os dados, admitidos em teoria pela Ciência, aí são demonstrados pela experiência; mas não podendo essa experiência ser feita diretamente pelos homens, o autor supõe um Espírito que dá conta de suas sensações, e colocado em condições de poder estabelecer uma comparação entre a Terra e o mundo que habita.

A ideia é engenhosa e nova. É a primeira vez que o Espiritismo verdadeiro e sério, embora anônimo, é associado à ciência positiva, e isto por um homem capaz de apreciar um e outra, e de captar o traço de união que um dia os deverá ligar. Este trabalho, ao qual reconhecemos, sem restrição, uma importância capital, parece-nos ser um daqueles que os Espíritos nos anunciaram como devendo marcar o presente ano. Analisaremos esta segunda parte num próximo artigo.



[1] Revista Espírita – Março/1867 – Allan Kardec

[2] Cada número forma um volume de 160 páginas grande in-8. Preço: 2 fr. Paris, Livraria Internacional, 15, boulevard Montmartre, e 18, avenue Montaigne, Palais Pompéien.

segunda-feira, 28 de junho de 2021

CLOTILDES DE ALMEIDA BARROS[1]

 

Clotildes de Almeida Barros, filha de Antônio Almeida Assunção e Leonor Foureaux Assunção, nasceu em 9 de junho 1884 na Cidade de Guidoval (Ex. Sapé de Ubá-MG) e desencarnou em 25 de novembro de 1944, na cidade de Belo Horizonte – MG.

Do matrimônio com Tobias Franco de Barros, teve 06 filhos. Militou por muitos anos na cidade de Ponte Nova - MG, quando exerceu a mediunidade com muito amor, zelo e dentro dos postulados doutrinários. Transferindo-se para Belo Horizonte, continuou, até seu desencarne, no exercício glorioso de sua mediunidade, que abrangia três aspectos: Vidência, Audiência e Psicofonia.

Entre os muitos fatos positivos de sua mediunidade, citaremos um: seu cunhado José, residente próximo a sua casa, adoeceu e seu estado de saúde se agravou de imediato. A Irmã Clotildes que nada sabia, viu uma onda de sangue seguindo em direção ao cérebro do mesmo, quando então se dirigiu ao seu lar e tomou conhecimento do estado doentio de seu cunhado. Imediatamente, recomendou levantassem-lhe a cabeça e após isso, grande jorro de sangue saiu-lhe pela boca, evitando assim que o cérebro fosse atingido, ou evitando piores consequências.

Quem subscreve a missiva que acompanha esta, foi também beneficiado de sua mediunidade: acometido de rebelde sinusite, e que o estava impossibilitando até de trabalhar, recebeu do querido e venerável Adolfo Bezerra de Menezes, por intermédio dela, a orientação para que às 18:00 horas, em ponto, permanecesse sozinho em seu quarto em obscuridade, deitado e pelo prazo de 01 (uma) hora. No dia imediato a sinusite desapareceu.

Nossa querida irmã dedicou toda a sua vida aos trabalhos mediúnicos, realizando curas, enquanto no lar assistia a numerosa família.

sábado, 26 de junho de 2021

O CASO DA BESTA[1]

 

Dona Maria de Deus e Chico Xavier

 

Em 1931, quando o Chico passou a receber as primeiras poesias do PARNASO DE ALÉM TÚMULO, um cavalheiro de Pedro Leopoldo, muito impressionado com os versos, resolveu apresentar o Médium e os poemas a certo escritor mineiro, de passagem pela cidade.

O filho de João Cândido vestiu a melhor roupa que possuía e, com a pasta de mensagens debaixo do braço, foi ao encontro marcado.

O conterrâneo do médium, embora católico romano, apresentou o Chico, entusiasmado:

— Este é o médium de quem l
he falei.

O escritor cumprimentou o rapaz e entregou-se à leitura dos versos.

Sonetos de Augusto dos Anjos, poemetos de Casimiro Cunha, quadras de João de Deus...

Depois de rápida leitura, o literato sentenciou:

— Isso tudo é bobagem.

E mirando o Chico, rematou:

— Este rapaz é uma besta.

Mas, doutor — disse, agastado, o conterrâneo do Chico —, o rapaz tem convicções e abraça o Espiritismo como Doutrina.

Pois, então, deve ser uma besta espírita! — declarou o escritor.

Bastante desapontado, o médium despediu-se.

Em casa, durante a oração, a progenitora apareceu.

A senhora viu como fui insultado? — perguntou o Chico.

E porque Dona Maria se revelasse alheia ao assunto, o filho contou-lhe o caso.

A entidade sorriu e disse:

— Não vejo insulto algum. Creio até que você foi muito honrado. Uma besta é um animal de trabalho...

— Mas o homem me apelidou por “besta espírita”.

Isso não tem importância.— exclamou a mãezinha desencarnada — Imagine-se sendo uma besta em serviço do Espiritismo. Se a besta não dá coices, converte-se num elemento valioso e útil.

Porque o filho silenciasse, Dona Maria acrescentou:

— Você não acha que é bem assim?

Chico refletiu e respondeu:

— É... Pensando bem, é isso mesmo.

E o assunto ficou sem alteração.



[1] Lindos Casos de Chico Xavier – Ramiro Gama

sexta-feira, 25 de junho de 2021

ADVERSIDADES NA VIDA DE UM MÉDIUM[1]

 

Adriana Machado

 

Uma grande quantidade de pessoas, que vê um médium trabalhando e que admira o seu trabalho, acha que ele é um santo. Se não é para tanto, por vezes, elas acreditam que este médium é desprovido de vícios ou que, no mínimo, os seus vícios não são tão mundanos quanto os delas.

Sinto informar para os mais desavisados que aqueles que hoje estão na função de médiuns são seres normais como qualquer outro ou até mais devedores. Não são aqueles que falam que mais precisam se escutar?

Talvez, o que faz os médiuns na tarefa se diferenciarem dos outros “seres normais” é que eles, por receberem muitas informações da espiritualidade, estudarem bastante e buscarem aprimoramento interior, tentam se portar com mais responsabilidade, buscando uma coerência entre as suas crenças, suas ações e comportamentos.

De qualquer forma, por sermos médiuns, e tentarmos levar a nossa vida mais reta (frisa-se, tentarmos), não somos isentos das necessárias experiências que nos elevarão em nossa escala evolutiva. Muito antes pelo contrário, somos testados todos os dias para vermos por nós mesmos se estamos compreendendo os ensinamentos que saem de nossas bocas, que escutamos a cada reunião.

Ouço a espiritualidade falar o tempo inteiro que, somente os doentes procuram os hospitais e somente os que necessitam vão a um Centro Espírita e... Nele trabalham. Não há dúvida, portanto, que somos necessitados ajudando necessitados a se levantarem... Junto conosco.

Por incrível que pareça, percebo que alguns espíritas não gostam que falemos assim, porque poderia parecer que não temos condições de ajudar os outros, mas eu, ao contrário, nos vejo como aquele ser que, por passar pelas mesmas dores do outro, tem condição de entendê-lo e não julgá-lo, de entendê-lo e consolá-lo.

Ouvimos muitas vezes que somente quem passa pela mesma experiência de quem está sofrendo poderá compreender a sua dor. Então, esses somos nós, nos espelhando no outro e compreendendo que podemos, ou melhor, devemos agir com eles como gostaríamos de ser acolhidos.

Também temos vivências tristes, temos experiências dolorosas, caímos e nos levantamos para cairmos de novo e levantarmos de novo, mas, está em nós a vontade sincera de, através do intercâmbio com o mundo espiritual, nos doarmos para que os seus lindos ensinamentos cheguem aos que ainda não podem escutá-los e trazer-lhes a paz e o consolo que sentimos quando nesta conexão.

Se os “seres normais” passam mal por circunstâncias ou energias desarmonizadoras, nós também. Lutamos incessantemente para o nosso reequilíbrio, porque não somos isentos dos desequilíbrios interiores que nos assolam e que estamos, por ideal, lutando para compreendê-los e superá-los.

Não é fácil para um médium ter que lidar com as suas próprias carências e dificuldades, imagine então quando tem que lidar com os julgamentos alheios e idolatrias sem fundamento que os outros, por ignorância, fazem dele.

Se vocês conhecem um médium que vocês têm apreço, façam um favor para ele: vejam-no como um ser humano, cheio de imperfeições, mas que tem um objetivo sincero de superar a si mesmo e ajudar ao próximo do jeitinho que ele é capaz de fazer. Nada mais.

quinta-feira, 24 de junho de 2021

PAIS E FILHOS[1]

 

Miramez

 

Se uma criança se transviar, apesar dos cuidados dos pais, estes são responsáveis?

‒ Não, mas quanto piores as disposições da criança mais a tarefa é pesada e maior será o mérito se conseguirem desviá-la do mau caminho.

Se uma criança se torna um bom adulto, apesar da negligência ou dos maus exemplos dos pais, estes se beneficiam com isso?

‒ Deus é justo.

Questão 583/O Livro dos Espíritos

 

Se os pais cumpriram seus deveres ante seus filhos, procurando todos os meios para educá-los e instruí-los, e esses continuaram negligentes, dada à falta de amadurecimento espiritual não há razão que possa condenar esses pais; Deus sabe premiá-los pelos seus esforços, mediante seus trabalhos para elevarem seus filhos.

Somente Deus é o Pai verdadeiro que sabe o que fazer com os Espíritos ainda ignorantes; Ele, o Senhor de todas as coisas, não tem pressa, nem se aflige com simples incompreensões, mas não pára de ensinar pelos métodos criados por Ele em favor de todas as criaturas.

Ninguém tem o direito de julgar os irmãos que ainda não despertaram para a luz do entendimento. Os que estão servindo de mestres para eles, se retrocederem no tempo, ver-se-ão na regressão com as mesmas falhas e as mesmas dificuldades em aprender as leis de Deus e vivê-las. Do mesmo modo, quando os filhos têm pais ignorantes, que mostram a eles somente maus exemplos de vida, esses, que compreendem as leis, devem tolerar seus pais, procurando ensinar-lhes pelo exemplo de vida reta. Se continuarem endurecidos, não há dúvida de que o exemplo fica como dever dos filhos bons e que amam seus genitores.

Os pais, de qualquer modo, não são contra os seus filhos, e já fizeram alguma coisa por eles.

Assim, é bom que observemos o que anotou Marcos, no capítulo nove, versículo quarenta:

Pois, quem não é contra nós, é por nós.

 

Se eles não são contra seus filhos, é porque são por eles; entretanto, as suas condições espirituais por vezes não suportam uma vida reta, para dar aos filhos exemplos enobrecidos.

Quando os filhos não assimilam a conduta reta dos pais, ou quando os pais não compreendem os filhos, por suas vidas retas com Jesus, os que estão agindo no bem não têm culpa por aqueles que não puderam aprender por falta de maturidade espiritual.

Diante da pergunta aos Espíritos em O Livro dos Espíritos, em que nos inspiramos para escrever esta página, a resposta foi das mais inteligentes, em se referindo ao que não se interessa em educar o outro que, mesmo assim, se torna homem de bem: Deus é justo.

Quem procura fazer o bem, e o ambiente lhe é desfavorável, não deve esmorecer, porque o Senhor está vendo tudo e sabe o que fazer com o de boa vontade. Os novos discípulos de Jesus, que se encontram na Doutrina dos Espíritos, não devem esmorecer, nem devem ser tomados de frieza no bem coletivo, porque é batendo na tecla que a nota sai. Os luminares de hoje já foram ignorantes ontem. Pais e filhos vieram em um só lar por uma razão de ser, para trocarem experiências, para aprenderem a amar uns aos outros, como diz o Mestre.

Não deves perder a oportunidade a ti oferecida. Aproveita que uma nova reencarnação pode demorar. O tempo passa e poderás ficar esperando outra oportunidade, que pode demorar muitos anos, às vezes séculos.

Os pais devem observar seus filhos desde pequenos, as suas tendências, e passarem a corrigi-los com amor, que serão compensados pela paz de consciência, quando eles forem adultos. Que Deus abençoe pais e filhos, ajudando-os a reconhecerem seus deveres ante Deus e a sociedade.



[1] Filosofia Espírita – Volume 12 – João Nunes Maia

quarta-feira, 23 de junho de 2021

O MISTERIOSO CASO DO “FANTASMA DE ENFIELD”, O FENÔMENO PARANORMAL MAIS BEM DOCUMENTADO DO REINO UNIDO[1]

 

23 junho 2018

 

O endereço 284 Green Street, em Enfield, no norte de Londres se tornou conhecido por uma razão macabra: é o local de atividade do poltergeist melhor documentado do Reino Unido.

A palavra poltergeist - utilizada em inglês e conhecida em todo o mundo por causa do filme de terror “Poltergeist - O Fenômeno”, de 1982, vem do alemão. Poltern é um verbo que significa fazer barulho e Geist, um substantivo que significa fantasma.

Durante 18 meses, começando no verão de 1977, Peggy Hodgson, seus quatro filhos e mais de 30 testemunhas presenciais (incluindo vizinhos, detetives de fenômenos paranormais e jornalistas) viram e ouviram, dentro da casa da família, incidentes em que havia móveis em movimento e objetos voando sem razão aparente, ruídos inexplicáveis e até levitação.

A história atraiu o casal americano Ed e Lorraine Warren, investigadores de fenômenos paranormais retratados na série de filmes “A Invocação do Mal”. O enigma de Enfield é mostrado no segundo filme da série.

Na época, os fenômenos se concentraram nas filhas de Peggy, Janet e Margaret Hodgson. Em alguns momentos, Janet, que tinha apenas 11 anos, falava inexplicavelmente com uma voz misteriosa e rouca.

A BBC reuniu três das testemunhas de primeira mão do mistério, que ficou conhecido como "O poltergeist de Enfield". Com a ajuda deles e de outros depoimentos da época, nossa reportagem reconta os fatos.

 

A penteadeira que se movia

Na noite de 31 de agosto de 1977, Peggy Hodgson entrou no quarto de seus filhos e viu uma penteadeira movendo-se sozinha.

"Eu não conseguia acreditar. Cheguei a empurrar (a penteadeira) duas vezes, mas na terceira vez não consegui movê-la", relembra, em uma entrevista gravada na época.

O estranho episódio foi acompanhado de repetidos barulhos de batidas.

Com medo, Hodgson pediu que um de seus filhos fosse chamar seu vizinho, Vic Nottingham.

"Escutei as batidas quando entrava pela porta principal. Andei por toda a casa e não consegui entender o que estava acontecendo. Por isso, imaginei que só havia uma coisa a fazer: chamar a polícia", disse, também em depoimento na época.

A jornalista Rosalind Morris, da BBC, Graham Morris, o primeiro a fotografar as crianças levitando, e o advogado Richard Grosse, que interrogou o "fantasma", foram reunidos pela apresentadora da BBC Sue MacGregor.

A policial Carolyn Heeps foi a primeira a chegar ao local, e viu uma cadeira deslizar, sem explicação, pelo quarto.

"A cadeira se levantou cerca de 1,5 cm do chão, e deslizou aproximadamente 1 a 1,2 metros para a direita, antes de parar", descreveu.

No entanto, assim como Peggy Hodgson e Vic Nottingham, Heeps não sabia o que fazer.

 

As primeiras fotos

O fotojornalista Graham Morris, que na época trabalhava para o jornal Daily Mirror, ainda se lembra do que aconteceu quando ele recebeu um telefonema de seu editor e foi enviado à casa dos Hodgson para um trabalho que, segundo ele, "mudou sua vida".

Para ele, era claro que os acontecimentos estranhos ocorriam quando as crianças estavam em casa ‒ especialmente Janet.

Ao chegar na casa, ele parou na penumbra da cozinha enquanto adultos levavam, uma a uma, as crianças, que estavam dormindo.

"A última a entrar foi Janet. De repente, os objetos simplesmente começaram a voar... um pedaço de Lego, inclusive, me atingiu no olho direito".

Até hoje, Morris se diz convencido de que os objetos da cozinha não foram atirados nem levantados por ninguém. Ele diz ter se posicionado na esquina do cômodo para ter uma visão clara de todas as pessoas que estavam ali. "Nenhuma delas estava fazendo nada", afirma.

Em uma das sequências de fotos que fez na casa, ele mostra um momento em que Janet "levitava" em seu quarto.

"Na imagem principal, ela estava no ar, no momento em que voava. E havia subido deitada com a boca para baixo", descreve.

 

Os investigadores de fenômenos paranormais

Maurice Grosse, membro da Sociedade para a Investigação Psíquica, coordenou a investigação do que estava ocorrendo na casa dos Hodgson.

"Eu mesmo vi bolas de gude se movendo de um lado para outro. Vi a porta se mover sem ajuda. E senti uma diminuição na temperatura sem explicação", disse, em entrevista na época.

No início de novembro de 1977, ele confrontou a suposta presença na sala de estar.

"Quando perguntei: 'Você está brincando comigo?', me atirou uma caixa de papelão e uma almofada na cara".

No ano seguinte, o casal de americanos Ed e Lorraine Warren, que se consideravam demonologistas, também visitaram a casa e gravaram entrevistas com os Hodgson e outras imagens dos fenômenos aparentemente sobrenaturais.

Richard Grosse, o filho de Maurice Grosse, era um advogado recém-formado quando começou o caso do poltergeist de Enfield. Como tal, ele é provavelmente o único membro da Sociedade de Direito inglesa que pode dizer que interrogou um fantasma.

"Todos os dias, no café da manhã, meu pai me mostrava uma ou duas das fitas cassete que ele tinha gravado (na casa)", diz à BBC News.

"Elas começavam com barulhos e batidas. Em seguida, as batidas respondiam ao interrogatório".

Quando o suposto fantasma começou a falar, Richard se tornou seu interlocutor.

 

A repórter de rádio da BBC

Durante a investigação de Maurice Grosse, a repórter da BBC Rosalind Morris cobriu o caso para programas de rádio.

Uma noite, ela e Grosse fizeram uma vigília noturna na casa enquanto a família dormia.

"Depois que as meninas foram dormir, ouvimos um barulho enorme vindo de seu quarto, no andar de cima", relembra.

Morris subiu as escadas e parecia que alguma coisa tinha empurrado uma cadeira para o outro lado do quarto ‒ a uma distância de 2,7 metros de onde o móvel estava.

Para ela, era impossível que as duas crianças, que estavam dormindo na cama, tivessem feito isso. Na época, Morris declarou que "estava convencida" de que "algo" tinha sido responsável.

 

A voz do 'fantasma'

Uma voz rouca e masculina começou a ser ouvida quando as crianças estavam em algum cômodo. Ela parecia emanar de trás de Janet Hodgson, que dizia que a voz vinha da parte posterior de seu pescoço.

A voz se identificou como um antigo morador da casa, Bill Wilkins, que morreu aos 72 anos de idade.

Interrogado por Richard Grosse, ele disse que morreu de uma hemorragia. "Morri em uma cadeira que ficava em um canto do andar de baixo", afirmou.

Quando lhe perguntaram por que Janet não podia vê-lo, a voz respondeu: "Sou invisível... porque sou um G.H.O.S.T. (a palavra fantasma, em inglês, soletrada)".

A história de sua morte foi corroborada mais tarde por Terry, o filho do ex-morador da casa que, de fato, se chamava Wilkins.

Janet e Margaret Hodgson, as duas crianças no centro do caso, foram entrevistadas recentemente sobre suas experiências.

De acordo com Margaret, "todos estávamos em um estado terrível, muito assustados e cansados, e isso piorou na medida em que passava o tempo".

Já Janet diz que foi "usada e abusada, houve levitação, vozes e depois... a cortina que se enrolou no meu pescoço. Isso foi muito perigoso e me fez perceber que aquilo podia me matar".

 

Era realmente um poltergeist?

Muitos acreditam que a família inventou tudo, usando truques básicos de magia, para conseguir uma casa nova e maior.

Maurice Grosse chegou a ser criticado, depois de dizer que acreditava que parte dos fenômenos era brincadeira das meninas ‒ Janet chegou a ser "pega na mentira" em alguns vídeos ‒, mas que havia elementos genuínos que indicavam uma presença sobrenatural.

Peggy Hodgson era uma mãe solteira com quatro filhos pequenos, mas Rosalind Morris não acredita que uma casa melhor tenha sido sua motivação.

"Ela achava que sua casa era boa, e ficou nela: foi o local onde ela morreu, em 2003", afirma.

A jornalista admite que, no início, ela mesma era extremamente cética em relação ao fenômeno e buscava diversas maneiras de explicar o "truque". No entanto, Hodgson lhe pareceu sincera e "muito assustada".

Richard Grosse também não acredita que o motivo da família pudesse ter sido financeiro: "Eles nunca ganharam dinheiro com isso".

Ele também rejeita as afirmações de que Janet Hodgson sofria de Síndrome de Tourette ‒ transtorno neuropsiquiátrico que pode se caracterizar por tiques vocais esporádicos.

"Quando a voz (que parecia vir da garota) começava, ela falava sem parar por duas, três horas", afirma.

Seu pai, Maurice Grosse, também não acreditava na possibilidade de que a menina estivesse fazendo um truque de ventriloquismo. "Manter esse tipo particular de voz por um período de tempo sem machucar as cordas vocais é absolutamente impossível", diz.

Janet, por sua vez, mantém uma atitude firme diante dos céticos. "Não me importa o que pensem. Eu sei o que aconteceu e sei que foi real".

A atividade do "poltergeist de Enfield", que começou em agosto de 1977, chegou ao fim em 1979.

Em um balanço do caso, Rosalind Morris explica que "há um ponto de vista espiritual sobre o que aconteceu ‒ que tem a ver com fantasmas e forças externas ‒ e uma teoria sobre forças interiores, baseada na psicologia junguiana".

"Esta última diz que o que gera esta energia é uma pessoa jovem que está com problemas, muitas vezes relacionados à puberdade. Janet estava exatamente nesta fase da vida".

"Não sei o que causou isso. Só sei que algo muito estranho estava acontecendo", diz, em entrevista à BBC News.

Até hoje, não se sabe qual a explicação científica para o que ocorreu no endereço 284 Green Street, em Enfield, durante o verão de 1977.

terça-feira, 22 de junho de 2021

TUDO VEM A SEU TEMPO[1]

 

Allan Kardec

 

(Odessa, Grupo Familiar, 1866 – Médium: Srta. M...)

 

Pergunta – Lendo as experiências magnéticas no Vérité de 1866, estava maravilhado e pensava intimamente que esta força tão admirável talvez pudesse ser a causa de todas as maravilhas, de todas as belezas, incompreensíveis para nós, dos planetas superiores, e cuja descrição nos dão os Espíritos. Peço aos Espíritos bons que me esclareçam a respeito.

 

RespostaPobres homens! A avidez de saber, a devoradora impaciência de ler o livro da Criação, vos transtorna a cabeça e deslumbra os vossos olhos habituados à escuridão, quando caem sobre algumas passagens que o vosso espírito, ainda escravo da matéria, não é capaz de compreender. Mas tende paciência, os tempos são chegados. O grande arquiteto já começa a desenrolar diante dos vossos olhos o plano do edifício do Universo, já levanta uma ponta do véu que vos oculta a verdade, e um raio de luz vos ilumina. Contentai-vos com essas premissas; habituai os vossos olhos à doce claridade da aurora, até que possam suportar o esplendor do Sol em todo o seu vigor.

Agradecei ao Todo-Poderoso, cuja bondade infinita poupa a vossa vista fraca, erguendo gradualmente o véu que a cobre. Se o levantasse de uma vez, ficaríeis deslumbrados e nada veríeis; recairíeis na dúvida, na confusão, na ignorância da qual apenas saís. Já vos foi dito que tudo vem a seu tempo: não o antecipeis por vossa grande avidez de tudo saber. Deixai ao Senhor a escolha do método que julgue mais conveniente para vos instruir.

Tendes diante de vós uma obra sublime: “A Natureza, sua essência, suas forças”. Ela começa pelo abecê. Aprendei primeiro a soletrar, a compreender as primeiras páginas; progredi com paciência e perseverança e chegareis ao fim, ao passo que, saltando páginas e capítulos, o conjunto vos parece incompreensível. Aliás, não está nos desígnios do Todo-Poderoso que o homem saiba tudo.

Conformai-vos, pois, com a sua vontade: ela tem por objetivo o vosso bem.

Lede no grande livro da Natureza; instruí-vos, esclarecei o vosso espírito, contentai-vos em saber o que Deus julga a propósito vos ensinar durante vossa passagem na Terra; não tereis tempo de chegar à ultima página e não a lereis senão quando estiverdes desligados da matéria, quando vossos sentidos espiritualizados vos permitirem compreendê-lo.

Sim, meus amigos, aprendei e instrui-vos e, antes de tudo, progredi em moralidade pelo amor do próximo, pela caridade, pela fé: é o essencial, é o passaporte à vista do qual as portas do santuário infinito vos são abertas.

 

Humboldt



[1] Revista Espírita – Março/1867 – Allan Kardec

segunda-feira, 21 de junho de 2021

CLODOALDO DE MAGALHÃES AVELINO[1]

 

 

O dia 13 de setembro de 1983 foi de luto para a cidade baiana de Xique-Xique, às margens do Rio São Francisco. Ao receber a notícia do falecimento de um dos seus mais ilustres filhos ocorrido em Belo Horizonte, toda a comunidade chorava o passamento do querido médico, professor, escritor, poeta e conferencista Clodoaldo de Magalhães Avelino, que ali nascera 84 anos antes, em 23 de janeiro de 1899.

Em Belo Horizonte, onde viveu boa parte de sua vida sem desvincular-se do torrão natal, deixou marcas indeléveis de sua trajetória de espírito sábio e benevolente, humilde e fraterno, inteiramente dedicado à causa do bem e do amor ao próximo.

Formado em Medicina, em 1924, pela Universidade Federal da Bahia, trabalhou como clínico geral e obstetra, especializando-se posteriormente em oftalmologia, em curso realizado em 1938 na mesma Universidade, onde também fez o doutorado.

Clinicou inicialmente em Januária, cidade do norte de Minas, onde foi eleito vereador e presidente da Câmara Municipal. Buscando servir mais e melhor, percorreu o sertão baiano e o mineiro, atendendo a todos os pacientes com inexcedível solicitude e carinho, mesmo aqueles ‒ a maioria ‒ que não podiam pagar-lhe os módicos honorários médicos. Exerceu também a profissão como capitão-médico do Exército Brasileiro.

Casou-se com Adelaide de Campos, jovem criada pelo renomado espírita baiano José Florentino de Senna, mais conhecido como José Petitinga. Foi com esse pioneiro do Espiritismo na Bahia, fundador da União Espírita Baiana em dezembro de 1915, que o jovem Clodoaldo, ainda estudante de Medicina, teve as primeiras informações sobre a Doutrina Espírita que abraçou com entusiasmo e cujos ensinamentos passou a vivenciar no seu dia a dia. Retorna à cidade do Salvador em agosto de 1968, convidado a participar do 2º Congresso Espírita da Bahia, realizado nos dois últimos dias daquele mês, sendo vivamente aplaudido ao encerrar lúcida exposição sobre o tema "Espiritismo e Parapsicologia".

Em 23 de agosto de 1950, já radicado em Belo Horizonte, experimentou a dor da viuvez. Pouco antes de desencarnar, a companheira querida, musa de seu estro poético, pede-lhe que se case com Honorina Xavier, que vivia em companhia do casal.

Dois anos mais tarde o pedido foi cumprido. Após vida conjugal de mútuo entendimento e alegria, sofre a segunda viuvez em 23 de novembro de 1971.

Apesar de ter-se casado duas vezes, não teve filhos biológicos. Teve, porém, filhos do coração. Entre esses filhos, acha-se a sobrinha Yone Margarida Magalhães Xavier, amparada por ele a partir dos dez anos e que se tornou professora de História Natural pela UFMG, tendo lecionado em várias escolas, inclusive, no Colégio O Precursor, fundado pela União Espírita Mineira. Casou-se com o Dr. Raymundo Brina Diógenes, que assim se manifesta sobre o sogro: Foi pai sem ter os filhos da embriogenia da carne, todavia pôde ter os filhos da alma.

Agasalhou na umbela virtuosa do seu descortino e da sua pedagogia incomparável, dezenas e dezenas de criaturas, que a sorte sabiamente lhe entregara. Uns, escorraçados da vida, sem lar e sem afeto. Outros, parentes consanguíneos oriundos de plagas remotas. Outros ainda sem qualquer laço terreno, mas fecundados no santo cadinho dos compromissos reencarnatórios, assumidos nas eras perdidas da Eternidade.

Em que pesassem o seu extremado desvelo e a sua dedicação paternal, não esteve liberto dos ventos gelados das ingratidões humanas, todas pagas com o seu indulgente esquecimento, porque sempre esteve muito acima das mazelas planetárias e da mesquinhez das criaturas.

Em Belo Horizonte, onde residiu por longos anos, colaborou ativamente com o Movimento Espírita, participando de eventos promovidos pela União Espírita Mineira, entre os quais o III Congresso Espírita Mineiro em 1944.

Foi presidente do Hospital Espírita André Luiz e integrou a Diretoria do Abrigo Jesus, a mais antiga entidade assistencial para a infância da Capital Mineira, de 1943 a 1969, levando às meninas ali internadas toda sua solicitude paternal, inclusive cuidando da saúde delas juntamente com os médicos José Di Schembri e Delcides Baumgratz.

Em 1946, com os amigos Anísio Cunha e seus filhos Hércules e Leo, Sebastião Silva Oliveira, Altair Fabrício Pinto, Antônio Ornelas, Marilena Correa Ornelas, Pedro Teotônio Alves Borges e José Leone Cerqueira fundou o Cenáculo Espírita Aba Josepho, do qual foi o primeiro presidente, casa em funcionamento até hoje.

Apesar de espírita notório, já que era diretor do Abrigo Jesus, localizado no mesmo bairro, aceitou convite para dirigir o corpo de saúde da Ação Social Padre Eustáquio, órgão vinculado à paróquia do mesmo nome, em verdadeiro testemunho de fraternidade e ecumenismo.

A par dessas atividades exercia o sacerdócio da Medicina em seu consultório, onde atendia a população humilde e pouco favorecida do bairro em que residia, suprindo com amor e devotamento a ausência do poder público.

Esteve sempre ligado ao povo de sua terra natal, auxiliando-o mesmo vivendo em Belo Horizonte. Construiu em Xique-Xique, com recursos próprios, o Abrigo Albergue Ana Avelino, o Hospital Espírita Agrário Avelino, a sede do Núcleo Espírita Agostiniano e o prédio da Escola José Petitinga.

Por ocasião do centenário de seu nascimento, em 1999, sua vida foi exaltada por todos aqueles que o conheceram e admiram. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais e a Câmara de Vereadores de Xique-Xique tributaram-lhe honrosas homenagens. Na cidade natal, por iniciativa de amigos e familiares, teve inaugurado o busto em bronze, erguido na Praça Allan Kardec, bem próximo ao Centro Espírita Agrário Avelino, nome do seu genitor.

O historiador espírita Antônio de Sousa Lucena disse: Clodoaldo de Magalhães Avelino, espírita de arraigadas convicções e de constante e abnegada militância, foi o que se pode denominar de espírita cristão, no mais justo sentido da palavra.

sábado, 19 de junho de 2021

RETORNO DOS ANIMAIS[1]

 

Chico Xavier e sua cachorra Boneca


Nilton Moreira

 Os animais têm alma? Os animais possuem um princípio inteligente, diferente daquele que anima o homem. Mas não pensam, nem possuem o livre arbítrio, apenas instinto. Quando desencarnam, o princípio espiritual que o animou é reaproveitado em outro animal que vai nascer quase que imediatamente.

Os estudos nos dizem que somos todos filhos do mesmo Pai e os animais são, portanto nossos irmãos de jornada planetária. Estão numa escala evolutiva bem inferior e distante de nós numa proporção equivalente a que estamos para o Criador. Temos, portanto uma grande obrigação de proporcionar a eles o meio de evoluírem, ajudando-os, já que eles ainda não possuem a inteligência, mas apenas o instinto.

Eles não têm a necessidade de permanecerem no plano espiritual por ocasião da morte, podendo retornar até de imediato, pois nada tem a resgatar, mesmo porque não possuem mediunidade. Todo mal que fizermos aos animais estaremos gerando uma dívida que deverá ser paga em próximas existências, pois é assim a Lei Divina, temos de reparar nossos erros mesmo que seja esse débito contraído em relação aos animais.

Infelizmente no homem ainda não despertou um sentimento capaz de atender os animais devidamente, até porque ainda não conseguimos nem dar o devido tratamento ao ser humano. Chico Xavier tinha uma cachorra de nome Boneca, que sempre esperava por ele, fazendo grande festa ao avistá-lo. Pulava em seu colo, lambia-lhe o rosto como se o beijasse. O Chico então dizia: – Ah Boneca, estou com muitas pulgas! Imediatamente ela começava a coçar o peito dele com o focinho. Boneca morreu velha e doente.

Chico sentiu muito a sua partida. Envolveu-a no mais belo xale que ganhara e enterrou-a no fundo do quintal, não sem antes derramar muitas lágrimas.

 Um casal de amigos, que a tudo assistiu, na primeira visita de Chico a São Paulo, ofertou-lhe uma cachorrinha idêntica à sua saudosa Boneca. A filhotinha, muito nova ainda, estava envolta num cobertor e os presentes a pegavam no colo, sem, contudo desalinhá-la de sua manta. A cachorrinha recebia afagos de cada um. A conversa corria quando Chico entrou na sala e alguém colocou em seus braços a pequena cachorra. Ela, sentindo-se no colo de Chico, começou a se agitar e a lambê-lo. – Ah! Boneca, estou cheio de pulgas! Disse Chico. A filhotinha começou então a coçar-lhe as pulgas e parte dos presentes, que conheceram a Boneca, exclamaram: Chico, a Boneca está aqui, é a Boneca, Chico!

 Emocionados, perguntamos como isso poderia acontecer. O Chico respondeu:

 - Quando nós amamos o nosso animal e dedicamos a ele sentimentos sinceros, ao partir, os espíritos amigos o trazem de volta para que não sintamos sua falta. É Boneca está aqui, sim e ela está ensinando a esta filhota os hábitos que me eram agradáveis.

Nós seres humanos, estamos na natureza para auxiliar o progresso dos animais, na mesma proporção que os anjos estão para nos auxiliar.

Por isso, quem maltrata um animal é alguém que ainda não aprendeu a amar.

 

Artigo Semanal - Estrada Iluminada

Fonte: Espirit. Book

sexta-feira, 18 de junho de 2021

O FUTURO (SOMENTE) A DEUS PERTENCE?[1]

 

Sidney Fernandes

 

Subitamente, o desconhecido entrou no velatório. A funerária, geralmente lotada, naquela manhã estava calma. Nenhum cliente havia dado entrada naquela noite. Os funcionários de plantão — agente funerário, motorista, tanatopraxista[2], auxiliar e ornamentador — conversavam calmamente, quando entrou senhor de idade e lhes falou:

— Amanhã estarei aqui com vocês. Cuidem bem de mim.

 Surpresos, acharam que se tratava de alguma brincadeira.

— A mim parece que tão já o senhor não aparecerá por aqui. Pelo menos na condição de defunto. O senhor está vendendo saúde… — disse o agente.

— Por acaso está pensando em suicidar-se? — perguntou o tanatopraxista em tom de galhofa. Poupe seu rosto, para não me dar muito trabalho na reconstrução de sua aparência.

— Nada disso, amigos. Apesar de estar bem, nesta noite sonhei com meu velório. E quando sonho, é batata!

A conversa desandou para gracejos sem maiores consequências, pois os funcionários não levaram a sério o insólito e fúnebre aviso.

Qual não foi a surpresa deles, quando, na manhã seguinte, adentrava no recinto o corpo do visitante do dia anterior. Havia sofrido infarto fulminante, por obstrução de suas artérias coronárias, por coágulo de sangue não detectado nos exames que, periodicamente, fazia a pedido de seu cardiologista.

***

Jesus, segundo anotações do evangelista Mateus, previu a própria morte. Nós, meros mortais, podemos fazer o mesmo? Embora o fenômeno não encontre ainda explicação na ciência, o homem pode tomar conhecimento, dentro de determinados limites, do seu passado e do seu futuro.

***

Certa vez Richard Simonetti recebeu a visita de grande amigo da cidade de Ibitinga, Doutor Flávio Pinheiro, pedindo que fizesse a oração do seu velório. Simonetti estranhou a solicitação e exclamou:

— Que é isso, Doutor! O senhor não morrerá tão cedo!

— Vou me submeter, Richard, a complicada cirurgia cardíaca, que ocasionará a minha morte.

Alguns dias depois Simonetti foi convocado ao cumprimento da promessa.

***

Caetano Aiello, lidador espírita, foi procurado por jovem noiva, que fazia questão de sua presença em seu casamento.

— Não será possível — disse constrangido o velho orador.

— O senhor tem outro compromisso? Por favor, cancele gosto muito do senhor e sua companhia será indispensável.

— Não vai dar minha filha. Meus mentores vêm me avisando de que em breve partirei.

Tal como pressentira, Aiello, que não tinha nenhum problema de saúde, em poucos dias faleceu.

***

O Espiritismo ensina que, quando o corpo repousa, o homem pode ter acesso a informações a que, habitualmente, não teria conhecimento em estado de vigília. Sonhos extravagantes podem ter correlação com lugares visitados, comunicações com outros espíritos e aquisição de maior potencialidade, inclusive de acesso ao futuro.

Há indivíduos que possuem maior facilidade de análise e maior perspicácia, que analisam as coisas com mais precisão do que outros. Eles têm a chamada precisão de golpe de vista moral, que pode despertar pressentimentos e lhes facultar lembranças do passado e o conhecimento de fatos que estão para acontecer, como foi o caso ocorrido com o visitante da funerária.

***

Nos três casos narrados ocorreu a chamada premonição, faculdade de que são dotadas algumas pessoas, para prever ocorrências futuras. Geralmente essas informações são prestadas por benfeitores espirituais para preparar o desencarnante e evitar surpresas desagradáveis nos familiares, ou ainda, em casos de acidentes, para que fique claro que nada foi por acaso e que tudo aconteceu de acordo com a vontade divina.

Fiquemos alerta aos avisos da espiritualidade, que vêm nos comunicar fatos que poderão ocorrer, não para atender nossa vã curiosidade, e sim, para nos preparar adequadamente para o futuro.

 

 

Obras consultadas:

“Quem Tem Medo da Morte?”, de Richard Simonetti

O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec.

 

 

 

 

Fonte: Kardec Rio Preto



[2] Técnico especializado na preparação de cadáveres para retardar ou impedir o processo de decomposição durante determinado tempo.