sexta-feira, 31 de julho de 2020

CONFIANÇA EM DEUS E CONFIANÇA A DEUS[1]



Kelvin Van Dine - Médium: Waldo Vieira

Dissertamos sobre as consequências da confiança que consagramos ao Poder Divino e, não raro arredamos automaticamente o estudo da confiança que o Divino Poder hipoteca em nós.
Se esperamos tudo de Deus é mais razoável que Deus espere de nós alguma cousa.
Costumamos desperdiçar dias valiosos confessando inutilidade e falência. A vida, porém, virando o livro do tempo e dando-nos a preencher a página de cada semana revela uma certidão da confiança do Alto. Desmente-nos a afirmação de incapacidade.
Observe este assunto com você mesmo. Desde o berço você está sob o auxílio admirável.
Até mesmo a noção de suas dívidas para com os pais foi temporariamente suprimida na forma de esquecimento da infância para que você, mais livre, pudesse atender aos objetivos fundamentais da reencarnação.
Você sobreviveu a múltiplos processos de adaptação ao meio terrestre que, de imediato, não é capaz de imaginar.
Mora num corpo para cujo equilíbrio e sustentação você faz apenas o mínimo.
E os erros do caminho? Quantas ocasiões nos oferecem os próprios erros motivos à fuga das nossas responsabilidades de trabalho? Entretanto, recursos providenciais aparecem e retomamos o ritmo do serviço.
Desânimo comparece como sendo caruncho invisível no teto de nosso ideal. Mas surgem amigos sob todas as formas a robustecer-nos as vigas dos bons propósitos e a imunizá-las com a antissepsia da bondade fraternal.
Do ponto de vista do cuidado e da proteção permanentes a natureza não pode ser mais pródiga nem mais atenta para conosco. Em toda parte, ingredientes multiformes de alimentação. Agentes maleáveis de construção que atendem ao gesto de cada um. Avisos de temperatura. Sugestões de tempo.
Se o Criador não tivesse fé na criatura por que cercá-la com tamanhos dispositivos de segurança? Se nada esperasse do homem para que abençoá-lo com tanta grandeza?
Retire um minuto de quando em quando da sua agenda de preocupações a fim de pensar nisso.
E se você quiser saber o que Deus pede a você ou espera de você, não perca as horas com tiradas filosóficas. Olhe em torno de você próprio.
As obras de Deus em suas mãos têm nomes específicos. Chamam-se deveres imediatos na ordem dos seus compromissos.
Cumpramos as nossas obrigações, melhorando-nos cada dia e o programa de Deus para nós melhorará sempre. Pratique a sua fé em viva em Deus, compreendendo que muito mais viva é a fé que Deus deposita em você.


Livro: Técnica de Viver

quinta-feira, 30 de julho de 2020

AINDA HÁ ANTIPATIA[1]



Miramez

A antipatia entre duas pessoas nasce em primeiro lugar naquela cujo Espírito é o pior ou o melhor?
‒ Numa e noutra, mas as causas e os efeitos são diferentes. Um Espírito mau sente antipatia por quem quer que o possa julgar e desmascarar; vendo uma pessoa pela primeira vez, percebe que ela vai desaprová-lo; seu afastamento se transforma então em ódio, inveja, e lhe inspira o desejo de fazer o mal. O bom Espírito sente repulsa pelo mau porque sabe que não será compreendido por ele e que ambos não participam dos mesmos sentimentos; mas, seguro de sua superioridade, não sente contra o outro nem ódio, nem inveja; contenta-se em evitá-lo e lastimá-lo.
Questão 391/O Livro dos Espíritos

A antipatia entre duas pessoas nasce em qualquer uma delas primeiro, no entanto, provavelmente um é sempre mais esclarecido que o outro, e por força da natureza melhorada, a antipatia deve surgir no que ainda tem uma natureza mais bruta, que alimenta a inferioridade.
Existem ainda casos de dívidas do passado entre duas pessoas, onde uma delas já está propensa ao perdão. Essa, esquece logo as lembranças e a repulsão quando encontra o antagonista, mas a outra, que desconhece a desculpa, trava uma guerra consigo mesma para odiar mais, ao deparar com o seu antigo inimigo, piorando cada vez mais a sua situação espiritual.
Certamente que o bom Espírito sente repulsão pelo mau, mas esforça-se para não odiar, por estar na escala da educação dos seus sentimentos. O Espírito superior não muda sua paz interior pelas antipatias que recebe de alguém; conserva sua serenidade e ainda ora por todos os que caluniam e odeiam.
Convém anotar-se que o Espírito que odeia se encontra na ordem dos ignorantes, que não percebeu ainda a luz nem experimentou a paz de consciência. Foi por essa razão que veio ao mundo o Cristo, sendo que a humanidade não reconheceu a Sua presença como deveria.
Assim ele fez voltar a Sua doutrina na feição do Espiritismo codificado por Allan Kardec, na certeza de que essa filosofia grandiosa iria dar continuidade à educação dos que ignoram a verdade. A Doutrina dos Espíritos tem o poder de fazer reviver com Jesus, com todas as suas qualidades nobres, trabalhando para que Ele seja conhecido por toda a humanidade.
O Espírito inferior desconfia de todos e percebe no ar quando vai ser censurado pelo seu igual.
Ele está sempre em rixas com os seus parceiros. Com estas páginas sobre O Livro dos Espíritos, nós desejamos a todos que melhorem em todos os sentidos e alcancem o amor, amando; que alcancem o perdão, perdoando; que alcancem a caridade, praticando-a em todas as suas nuances.
Se ainda alimentamos alguma antipatia por alguém, pensemos mais e desfaçamos logo este estado negativo em nossa vida. Cada sentimento inferior que palpita em nosso íntimo, é semente inferior lançada no terreno mental e no coração de quem odeia, e por isso responderemos. Não convém esse estado, porque todo sofrimento nasce desse descuido.
Fecundemos nossos pensamentos, palavras e obras com a fraternidade, pois ela é capaz de construir em nossos caminhos a luz que jamais se apagará. Mesmo que não tenhamos antipatia por alguém, mesmo que ninguém se antipatize conosco, trabalhemos em favor dos que ainda se encontram nessa faixa de vida nas sombras, para que eles, no amanhã, esqueçam deste nome, antipatia, e do que ele representa para os infelizes.
O mundo está cheio de ódio, de inveja, de orgulho e de egoísmo, esperando que nossas mãos trabalhem para a paz de todos. Podemos fazer alguma coisa em favor do amor, e não nos esqueçamos de espalhar benefícios. Comunguemos com o Cristo, que ele já comungou com o nosso coração em Deus.




[1] Filosofia Espírita – Volume 8 – João Nunes Maia

quarta-feira, 29 de julho de 2020

FAZER O BEM FAZ BEM PRA VOCÊ[1]



Redação do Diário da Saúde

Bondade retribuída
Não apenas todas as religiões do mundo recomendam a cada um fazer o bem aos outros, mas a ciência também vem chegando às mesmas conclusões, mostrando que a bondade traz felicidade duradoura e até que parece que somos programados para fazer o bem.
A equipe do professor Eric Kim, da Universidade de Harvard (EUA), acaba de repetir esses resultados em mais um experimento de campo.
Pessoas adultas que atuaram como voluntárias em obras ou instituições de sua escolha, por pelo menos 100 horas por ano (cerca de duas horas por semana), apresentaram um risco substancialmente reduzido de mortalidade e desenvolvimento de limitações físicas, além de níveis mais altos de atividade física e melhora da sensação de bem-estar ‒ tudo em comparação com indivíduos que não são voluntários.
Os participantes foram rastreados ao longo de vários anos, em duas coortes[2] de 2010 a 2016.
Mas há novidades, uma vez que a análise atenta dos benefícios do voluntariado para a saúde e o bem-estar dos voluntários tanto valida quanto contraria alguns resultados de pesquisas anteriores.

Sem milagres
Focando nos adultos mais velhos participantes da pesquisa ‒ acima de 50 anos de idade ‒ os pesquisadores avaliaram 34 quadros de saúde física e bem-estar psicológico e social, o que permitiu comparações diretas do potencial efeito que o voluntariado pode ter em várias condições de saúde.
Mas os resultados não confirmaram os vínculos entre o voluntariado e as melhorias nas condições crônicas, como diabetes, hipertensão, derrame, câncer, doenças cardíacas, doenças pulmonares, artrite, obesidade, comprometimento cognitivo ou dor crônica. Ou seja, o voluntariado melhora muito o bem-estar das pessoas, mas não é suficiente para reverter situações mais graves de saúde.
"Nossos resultados mostram que o voluntariado entre os participantes não apenas fortalece as comunidades, mas enriquece nossas próprias vidas ao fortalecer nossos laços com os outros, ajudando-nos a ter uma sensação de propósito e bem-estar e protegendo-nos de sentimentos de solidão, depressão e desesperança. A atividade altruísta regular reduz nosso risco de morte, embora nosso estudo não tenha mostrado nenhum impacto direto em uma ampla gama de condições crônicas", explicou o professor Kim.
Os pesquisadores recomendam a adoção de políticas que incentivem mais o voluntariado. Essas intervenções poderiam simultaneamente melhorar a sociedade e promover uma trajetória de envelhecimento saudável na parcela da população em mais rápido crescimento.
Vale notar que essas conclusões foram tiradas antes da pandemia global de covid-19, que tornou a atividade social arriscada e desaconselhável no futuro próximo, sobretudo para os mais idosos.

Checagem com artigo científico:
Artigo: Volunteering and Subsequent Health and Well-Being in Older Adults: An Outcome-Wide Longitudinal Approach.
Autores: Eric S. Kim, Ashley V. Whillans, Matthew T. Lee, Ying Chen, Tyler J. VanderWeele.
Publicação: American Journal of Preventive Medicine.
DOI: 10.1016/j.amepre.2020.03.004




[2] Grupo de pessoas, usado em estudos ou em investigação, que possuem características em comum, como a idade, a classe social, a condição médica etc.


terça-feira, 28 de julho de 2020

CONVERSAS FAMILIARES DE ALÉM-TÚMULO – Sr. Cardon, Médico, falecido em Setembro de 1862[1]



Allan Kardec

(Sociedade de Paris – Médium: Sr. Leymarie)

O Sr. Cardon tinha passado uma parte de sua vida na marinha mercante, como médico de um baleeiro, e havia adquirido hábitos e ideias um pouco materialistas. Retirado para o vilarejo de J..., ali exercia a modesta profissão de médico rural. Desde algum tempo adquirira a certeza de que sofria uma hipertrofia do coração e, sabendo que tal doença é incurável, o pensamento da morte o mergulhava em sombria melancolia, da qual nada o podia distrair.
Com cerca de dois meses de antecedência, predisse o seu fim em dia fixo; quando se viu perto de morrer, reuniu a família para lhe dar o último adeus. Sua esposa, sua mãe, seus três filhos e outros parentes estavam em volta de seu leito. No momento em que a esposa tentava erguê-lo, ele se prostrou, tornou-se de um azul lívido, os olhos fecharam e o deram por morto; a esposa colocou-se à frente para ocultar o espetáculo aos filhos. Após alguns minutos abriu os olhos; seu rosto, por assim dizer iluminado, tomou uma expressão de radiosa beatitude e exclamou: “Oh! Meus filhos, como é belo! como é sublime! Oh! A morte! Que benefício! Que coisa suave! Eu estava morto e senti minha alma elevar-se bem alto; mas Deus me permitiu voltar para vos dizer: Não temais a morte; é a libertação... Não vos posso descrever a magnificência do que vi e as impressões de que me senti penetrado! Mas não o compreenderíeis... Oh! Meus filhos, conduzi-vos sempre de maneira a merecer essa inefável felicidade, reservada aos homens de bem; vivei segundo a caridade; se tiverdes alguma coisa, dai àqueles a quem falta o necessário... Querida esposa, deixo-te numa posição que não é feliz; devem-nos dinheiro, mas eu te suplico, não atormentes os que nos devem; se estiverem em dificuldades, espera que possam pagar, e aos que não puderem, faze o sacrifício: Deus te recompensará. E tu, meu filho, trabalha para sustentar tua mãe; sê sempre um homem honesto e guarda-te de fazer algo que possa desonrar nossa família. Toma esta cruz que vem de minha mãe; não a deixes e que ela te lembre sempre meus últimos conselhos... Meus filhos, ajudai-vos e sustentai-vos mutuamente; que a boa harmonia reine entre vós; não sede vãos, nem orgulhosos; perdoai aos vossos inimigos, se quiserdes que Deus vos perdoe”. Depois, tendo feito os filhos se aproximarem, estendeu as mãos para eles e acrescentou: “Meus filhos, eu vos abençoo.” E, desta vez, seus olhos se fecharam para sempre; mas seu rosto conservou uma expressão tão imponente que, até o momento em que foi enterrado, uma multidão numerosa o veio contemplar com admiração.

Esses interessantes detalhes nos foram transmitidos por um amigo da família, levando-nos a pensar que uma evocação poderia ser instrutiva para todos e, ao mesmo tempo, para o Espírito.
Evocação
– Estou ao vosso lado.
Contaram-nos os vossos últimos instantes, os quais nos encheram de admiração. Teríeis a bondade de descrever, o melhor possível, o que vistes no intervalo do que se poderia chamar vossas duas mortes?
– Poderíeis compreender o que vi? Não sei, pois não encontraria expressões capazes de tornar compreensível o que vi durante os poucos instantes em que me foi possível deixar meus despojos mortais.
Dai-vos conta de onde estivestes? É longe da Terra, num outro planeta ou no espaço?
– O Espírito não conhece o valor das distâncias, tal como as considerais. Levado não sei por que agente maravilhoso, vi o esplendor de um céu como só nossos sonhos poderiam realizá-lo. Essa excursão através do infinito se fez de modo tão rápido que não posso precisar os instantes gastos por meu Espírito.
Atualmente desfrutais da felicidade que vislumbrastes?
– Não; bem queria poder frui-la, mas Deus assim não me pode recompensar. Muitas vezes me revoltei contra os abençoados pensamentos ditados pelo coração, e a morte me parecia uma injustiça. Médico incrédulo, tinha adquirido na arte de curar um aversão contra a segunda natureza, que é o nosso movimento inteligente, divino; a imortalidade da alma era uma ficção própria para seduzir as naturezas pouco elevadas; a despeito disto, o vazio me aterrorizava, pois maldizia muitas vezes esse agente misterioso que fere sempre e sempre. A filosofia me desviara, sem me dar a compreender toda a grandeza do Eterno, que sabe repartir a dor e a alegria para o ensino da Humanidade.
Quando de vossa verdadeira morte, logo vos reconhecestes?
– Não; reconheci-me durante a transição feita por meu Espírito para percorrer lugares etéreos; mas, após a morte real, não; foram necessários alguns dias para o meu despertar. Deus me havia concedido uma graça. Vou dizer-vos a sua razão:
Minha incredulidade inicial não mais existia; antes da morte eu já tinha acreditado, porquanto, depois de ter cientificamente sondado a matéria pesada que me fazia definhar, eu só encontrara razões divinas. Elas me tinham inspirado, consolado, e minha coragem era mais forte que a dor. Eu bendizia o que havia amaldiçoado; o fim me parecia a libertação. O pensamento de Deus é grande como o mundo! Oh! Que suprema consolação na prece que dá enternecimentos inefáveis; ela é o elemento mais seguro de nossa natureza imaterial; por ela compreendi, acreditei firmemente, soberanamente, e é por isto que Deus, enxergando minhas abençoadas ações, houve por bem recompensar-me antes que se me findasse a encarnação.
Poder-se-ia dizer que da primeira vez estáveis morto?
– Sim e não. Tendo deixado o corpo, naturalmente a carne se extinguia; mas o Espírito, ao retomar a posse de minha morada terrena, fez voltasse ao corpo a vida que tinha sofrido uma transição, um sono.
Nesse momento sentíeis os laços que vos prendiam ao corpo?
– Sem dúvida. O Espírito tem um laço difícil de desatar, fazendo-se necessário um último estremecimento da carne para que retorne à sua vida natural.
Como se explica, durante a vossa morte aparente e no curso de alguns minutos, que vosso Espírito pudesse desprender-se instantaneamente e sem dificuldade, ao passo que a morte real foi seguida de uma perturbação de alguns dias? No primeiro caso, subsistindo mais que no segundo os laços entre a alma e o corpo, parece que o desprendimento deveria ser mais lento; e foi o contrário que se deu.
– Muitas vezes fizestes a evocação de um Espírito encarnado e recebestes respostas reais. Eu estava na situação desses Espíritos. Deus me chamava e seus servidores me tinham dito: “Vem...” Obedeci e agradeço a Deus a graça especial que ele se dignou de me fazer. Pude ver a infinitude de sua grandeza e dela me dar conta. Agradeço a vós por me terdes permitido, antes da morte real, ensinar aos meus, a fim de que tenham boas e justas encarnações.
De onde vos vinham as belas e boas palavras que, por ocasião do vosso retorno à vida, dirigistes à vossa família?
– Eram o reflexo do que tinha visto e ouvido. Os Espíritos bons inspiravam-me a voz e davam vida ao meu rosto.
Que impressão julgais que a vossa revelação tenha causado nos assistentes e, de modo especial, nos vossos filhos?
– Extraordinária, profunda; a morte não é mentirosa e os filhos, por mais ingratos que possam ser, inclinam-se ante a partida dos que se vão. Se se pudesse perscrutar os seus corações junto a um túmulo entreaberto, só se sentiriam batidas de sentimentos verdadeiros, profundamente tocados pela mão secreta dos Espíritos que a todos ditam os pensamentos: Tremei, se estiverdes em dúvida; a morte é a reparação, a justiça de Deus; e eu vo-lo asseguro, malgrado os incrédulos, meus amigos e minha família acreditarão nas palavras que minha voz pronunciou antes de morrer. Eu era o intérprete de um outro mundo.
Dissestes que não desfrutais da felicidade que entrevistes. Sois infeliz?
 – Não, pois acreditava antes de morrer, e isto na alma e na consciência. A dor aperta neste mundo, mas reedifica para o futuro espírita. Notai que Deus soube levar em conta as minhas preces e minha crença absoluta nele; estou no caminho da perfeição e chegarei ao fim que me foi permitido entrever. Orai, meus amigos, por esse mundo invisível que preside aos vossos destinos; este intercâmbio fraterno é caridade; é uma poderosa alavanca, que põe em comunicação os Espíritos de todos os mundos.
Gostaríeis de dirigir algumas palavras à vossa esposa e aos vossos filhos?
– Rogo a todos os meus que creiam em Deus, poderoso, justo, imutável; na prece que consola e alivia; na caridade, que é o ato mais puro da encarnação humana; que se lembrem que se pode dar pouco: o óbolo do pobre é o mais meritório perante Deus, que sabe que um pobre dá muito dando pouco. É preciso que o rico dê muito e muitas vezes para merecer tanto quanto aquele.
O futuro é a caridade, a benevolência em todas as ações; é crer que todos os Espíritos são irmãos, jamais se prevalecendo de todas as vaidades pueris.
Família bem-amada, tereis rudes provas; mas sabei suportá-las corajosamente, pensando que Deus vos vê.
Dizei sempre esta prece:
Deus de amor e de bondade, que dás tudo e sempre, concede-nos essa força que não recua ante nenhum sofrimento; torna-nos bons, mansos e caridosos, pequenos pela fortuna, grandes pelo coração; que nosso Espírito seja espírita na Terra, para melhor te compreender e te amar.
Que teu nome, ó meu Deus, emblema de liberdade, seja o objetivo consolador de todos os oprimidos, de todos os que têm necessidade de amar, perdoar e crer.




[1] Revista Espírita – Agosto/1863 – Allan Kardec

segunda-feira, 27 de julho de 2020

ALI HALFELD[1]




Ali Halfeld nasceu em 18 de março de 1900, em Água Limpa (hoje Coronel Pacheco), Município de Juiz de Fora, Minas Gerais, onde iniciou o Curso Primário com o Prof. Paulo Estelita. Em 1907 mudou-se para a cidade de Juiz de Fora, em companhia de seus pais, senhor Pedro Halfeld e D. Hortênsia de Pinho Halfeld, ali terminando o referido curso. No ano de 1910 sua família o levou para Caxambu, mas, dentro de poucos meses, regressou ele para Juiz de Fora, a fim de continuar os estudos, passando, então, a residir com seu padrinho, o Sr. Cláudio Fernandes. Seu Curso Ginasial foi feito até 1915 no antigo Ginásio Santa Cruz, dos saudosos professores os irmãos Alípio e Oscar Peres.
Em 1916, sendo de família de poucos recursos, não pôde continuar seus estudos. Fez, então, um curso rápido de Comércio e Datilografia, a fim de poder trabalhar, e logo após se empregou como auxiliar de escritório em uma oficina mecânica, do Sr. Francisco Kascher.
No ano de 1918 mudou de emprego, indo trabalhar na Drogaria Americana, que, na ocasião, pertencia ao Sr. Bruno Barbosa, aí permanecendo até Julho de 1921.
Em 1º de Agosto do mesmo ano associou-se com o farmacêutico Francisco Queiroz Caputo, na Farmácia S. Sebastião, localizada à Avenida dos Andradas, esquina com Barão de Cataguases, organizando a firma Caputo & Halfeld, hoje Drogafar S.A., firma na qual permaneceu até a sua desencarnação.
Em 18 de Setembro de 1924 casou-se com D. Carmem Baccara, e do matrimônio nasceram cinco filhos: Kleber, Maurício, Alvair, Ruth e Iclea. Sua esposa foi sempre uma pessoa dedicada, companheira de seus momentos difíceis. Sempre esteve a seu lado, conformando-o e estimulando-o a continuar a luta em todos os seus setores.
Ainda no campo profissional foi, durante muitos anos, Diretor do laboratório Melpoejo Ltda., juntamente ao lado de Francisco Queiroz Caputo e Maria Silveira Alvim.
Tendo abraçado o Espiritismo em decorrência de artigos espíritas que eram escritos no Correio da Manhã por estudiosos da Doutrina, Ali Halfeld foi logo despertado pelo desejo de trabalhar em benefício dos semelhantes.
Auxiliou com entusiasmo e equilíbrio todas as entidades de assistência social que lhe solicitavam ajuda. No setor espírita, devemos mencionar a Fundação João de Freitas, obra de amparo à velhice e à viuvez, que construiu, e para a qual foi eleito presidente em 2 de Fevereiro de 1934, e o Instituto Jesus, destinado ao menor abandonado, que, fundado em 19 de Março de 1944, foi inaugurado em 18 de Setembro de 1955. Eleito presidente na própria assembleia que fundara o Instituto Jesus, Ali Halfeld permaneceu em sua direção até 26 de Março de 1960, quando, por motivo de doença, teve que afastar-se da direção da Entidade.
Grande entusiasta da imprensa espírita, Ali Halfeld colaborou com muito amor junto à Associação de Publicidade Espírita, mantenedora, durante muitos anos, da revista “O Médium”. Eleito vice-presidente, em 9 de Agosto de 1937, deu à mesma todo o seu esforço.
Ainda no setor do Espiritismo, entre outras atividades devemos mencionar o estudo que, durante anos a fio, fez da obra O Livro dos Espíritos, na tribuna da Casa Espírita, assim como o trabalho que escreveu: “O Problema do Menor”, cuja publicação foi feita pelo Jornal Diário Mercantil, em apresentações semanais.
Poucas vezes, é certo, teve ele contato direto com a Federação Espírita Brasileira, mas foi o bastante para se aquilatar a grandeza espiritual que ressumbrava de suas palavras serenas e humildes.
O presidente da FEB, Sr. Wantuil de Freitas, teve a feliz oportunidade de conhecê-lo pessoalmente e até mesmo de visitar em Juiz de Fora, a elogiável obra que é a Fundação João de Freitas.
Embora sempre se ocultando no silêncio e na humildade, não pôde evitar, entretanto, que seu nome, aureolado do respeito, da admiração e da gratidão de toda uma coletividade, transpusesse as fronteiras de Minas Gerais.
Espírito modesto, Ali Halfeld sempre declinou das homenagens que “Manchester mineira” lhe quis tributar. Dizia que a humildade era, a seu ver, uma das virtudes mais difíceis de ser cultivada. No entanto, quem com ele conviveu terá observado que aquela virtude, entre outras, ele a soube muito bem exemplificar.
Ali Halfeld foi também um amigo do setor artístico, tendo ocupado a presidência da Orquestra Filarmônica de Juiz de Fora.
Desencarnou em 13 de Setembro de 1967, após ter “combatido o bom combate”.

sábado, 25 de julho de 2020

MORTE - QUANDO AINDA NÃO É SUA HORA[1]



Oswaldo Iório

Sempre que falo sobre a morte, tão temida por grande parte da humanidade, pela propaganda fúnebre das religiões dominantes, procuro desmistificá-la, apoiado nas revelações dos espíritos e nos depoimentos de amigos que sofreram acidentes e sobreviveram, esclarecendo que o momento do trespasse da vida material para a espiritual é inconsciente e indolor, por ser uma ocorrência natural e necessária.
Deus, na sua misericórdia e bondade, juntamente com o instinto de conservação da vida, colocou em cada ser um mecanismo que desliga automaticamente a consciência nos momentos de perigo, pavor e, principalmente, no ato de desencarnar. Morrer é nada mais que um sono. Morremos todos os dias, quando deitamos para dormir.
Certa vez, no ano de 1949, saindo de Xavantes-SP, cidade localizada a seis quilômetros da divisa do Estado do Paraná, iniciei uma viagem a serviço da organização bancária da qual era funcionário, com destino à cidade de Jacarezinho-PR. Viajava num táxi, sentado no banco dianteiro.
Num trecho da estrada de terra batida, próximo ao meu destino, ficamos atrás de um caminhão que, mesmo trafegando em menor velocidade, levantava uma cortina de poeira tão compacta que impedia completamente a nossa visão.
Como naqueles tempos o movimento nas estradas era pequeno, o motorista, para se livrar do pó e ultrapassar o caminhão, imediatamente manobrou para a pista à esquerda e ao emparelhar com ele, se deparou com outro caminhão que vinha em sentido contrário. Quando percebi o caminhão se aproximando em grande velocidade, prestes a se chocar de frente conosco, simplesmente 'apaguei'!
Minha inconsciência durou alguns segundos e, assim que 'acordei', vi que estávamos livres e já tínhamos ultrapassado o caminhão. Ainda meio tonto e duvidando de estar vivo, ouvi o motorista, aliviado, dizendo que por sorte, a estrada estava ali com as margens mais largas, o que permitiu que os caminhões se desviassem para as suas direitas, dando um apertado espaço para passarmos.
Sempre que me lembro deste incidente, agradeço a Deus por ter me concedido a graça de vivenciar essa ocorrência para ter a oportunidade de confirmar, pessoalmente, o que divulgo sobre a morte em minhas palestras; constatar que o acaso não existe:
A fatalidade existe unicamente pela escolha que o espírito fez ao reencarnar[2], e que suas Leis, justas e perfeitas, dá a cada um segundo seu merecimento[3], não permitindo que inocentes sofram.


Publicado no jornal Correio Fraterno 2009, ed. 425.
Fonte: Correio News/Correio Fraterno

sexta-feira, 24 de julho de 2020

A AMIZADE[1]



Joanna de Ângelis

A amizade é o sentimento que imanta as almas unas às outras, gerando alegria e bem-estar.
A amizade é suave expressão do ser humano que necessita intercambiar as forças da emoção sob os estímulos do entendimento fraternal.
Inspiradora de coragem e de abnegação a amizade enfloresce as almas, abençoando-as com resistências para as lutas. Há, no mundo moderno, muita falta de amizade!
O egoísmo afasta as pessoas e as isola.
A amizade as aproxima e irmana.
O medo agride as almas e infelicita.
A amizade apazigua e alegra os indivíduos.
A desconfiança desarmoniza as vidas e a amizade equilibra as mentes, dulcificando os corações.
Na área dos amores de profundidade, a presença da amizade é fundamental.
Ela nasce de uma expressão de simpatia, e firma-se com as raízes do afeto seguro, fincadas nas terras da alma.
Quando outras emoções se estiolam no vaivém dos choques, a amizade perdura, companheira devotada dos homens que se estimam.
Se a amizade fugisse da Terra, a vida espiritual dos seres se esfacelaria.
Ela é meiga e paciente, vigilante e ativa.
Discreta, apaga-se, para que brilhe aquele a quem se afeiçoa.
Sustenta na fraqueza e liberta nos momentos de dor.
A amizade é fácil de ser vitalizada.
Cultivá-la, constitui um dever de todo aquele que pensa e aspira, porquanto, ninguém logra êxito, se avança com aridez na alma ou indiferente ao elevo da sua fluidez.
Quando os impulsos sexuais do amor, nos nubentes, passam, a amizade fica.
Quando a desilusão apaga o fogo dos desejos nos grandes romances, se existe amizade, não se rompem os liames da união.
A amizade de Jesus pelos discípulos e pelas multidões dá-nos, até hoje, a dimensão do que é o amor na sua essência mais pura, demonstrando que ela é o passo inicial para essa conquista superior que é meta de todas as vidas e mandamento maior da Lei Divina.

Médium: Divaldo Pereira Franco

quinta-feira, 23 de julho de 2020

VIDAS SUCESSIVAS NA TERRA[1]



Miramez

Nossas diferentes existências corpóreas se passam todas na Terra?
‒ Não, mas nos diferentes mundos. As deste globo não são as primeiras nem as últimas, porém as mais materiais e distantes da perfeição.
Questão 172/O Livro dos Espíritos

Nem todos os Espíritos que ora estagiam na Terra, tiveram nela as primeiras reencarnações. Muitos já viveram em outros mundos, dos quais guardaram muitas experiências, que lhes servem de amparo contra muitos males.
A Terra, pelo que sabemos, é um dos mundos atrasados, não dos mais atrasados, no entanto. Ela está na situação dos globos que logo passarão de mundos de expiação para mundos de regeneração, onde o amor começa a despontar nos corações das almas, e Jesus será entendido pelos processos da dor, de sorte que as lições do Mestre serão vividas na sua feição mais pura. Há, porém, ainda, uma distância da teoria dos conceitos evangélicos à verdade prática.
Cabe à Doutrina dos Espíritos fazer reviver na Terra os ensinamentos do Divino Mestre na sua pureza, para que as almas descubram pelos próprios esforços, a luz do entendimento, dando início à caminhada de libertação espiritual. A humanidade em geral se encontra muito distante da perfeição, contudo, está a caminho, e isso para nós outros que convivemos com os homens, é motivo de grande alegria ao vê-los trabalhando, dia a dia, em busca da melhoria espiritual.
O Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo pode ser entendido em várias dimensões, de acordo com a elevação do Espírito. Estamos empenhados, Espíritos e espíritas, em buscar, na profundidade do tempo, o verdadeiro Evangelho, do modo que foi vivenciado pelo Guia Espiritual da humanidade. Para tanto, devemos nos esforçar no cumprimento desse dever que, para nós outros, é uma glória, de recordar o que foi dito para nós há quase dois mil anos Compete a cada criatura esforçar-se em todas as direções do saber, para que o amor, aquele ensinado por Jesus, venha à tona da consciência, no sentido de libertar todas as criaturas da ignorância, fazendo lembrar a profecia de Moisés, da descoberta do “Paraíso Perdido” onde poderemos encontrar o leite da vida e o mel da perfeição espiritual.
Se a lei da reencarnação nos fala que já passamos em muitos mundos, recolhendo experiências, devemos a esses mundos o que aprendemos; portanto, a mesma lei do amor pede que devolvamos o que recebemos em forma de fraternidade universal, enriquecendo a vida e despertando em nós os valores que nos foram legados. Não é somente a Terra que tem as possibilidades de receber rebanho de almas e educá-las. Deus não iria criar somente um mundo em condições de ser habitado; eles são incontáveis, bailando no cosmo à espera da sequência da vida, adicionando sempre os valores do saber e do amor.
As vidas que na Terra são vividas não são as primeiras nem as últimas, mas são valiosas, porque nelas o Espírito poderá aprender o valor das reencarnações, como escolas de luz dentro da luz de Deus. Ao meditarmos na reencarnação, uma luz de maior entendimento desabrocha em nossos corações, levando-nos a compreender que as vidas na Terra podem se multiplicar, quantas vezes forem necessárias, para a nossa libertação espiritual.




[1] Filosofia Espírita – Volume 4 – João Nunes Maia

quarta-feira, 22 de julho de 2020

INTRODUÇÃO AO ESTUDO DOS FLUÍDOS ESPIRITUAIS[1]



Allan Kardec

I
Os fluidos espirituais representam importante papel em todos os fenômenos espíritas, ou melhor, são o princípio mesmo desses fenômenos. Até agora nos limitamos a dizer que tal efeito resultava de uma ação fluídica; mas esse dado geral, suficiente no início, deixa de o ser quando se quer pesquisar os detalhes.
Sabiamente os Espíritos limitaram seu ensinamento no princípio; mais tarde, chamaram a atenção para a grave questão dos fluidos, e não foi num centro único que a abordaram, mas praticamente em todos eles.
Mas os Espíritos não nos vêm trazer esta ciência, como nenhuma outra, já pronta; eles nos põem no caminho e nos fornecem os materiais, cabendo a nós estudá-los, observá-los, analisá-los, coordená-los e deles nos servirmos. Foi o que fizeram para a constituição da doutrina e agiram da mesma forma em relação aos fluidos. É do nosso conhecimento que em milhares de locais diversos eles esboçaram seu estudo; em toda parte encontramos alguns fatos, algumas explicações, uma teoria parcial, uma ideia; mas em parte alguma um trabalho completo de conjunto. Por que isto? Impossibilidade da parte deles? Não, certamente, pois o que teriam podido fazer como homens, com mais forte razão o poderão como Espíritos. Mas, como dissemos, é porque eles não vêm de modo algum nos libertar do trabalho da inteligência, sem o qual nossas forças, ficando inativas, se estiolariam; acharíamos mais cômodo que eles trabalhassem por nós.
Assim, o trabalho foi deixado ao homem; mas sendo limitados a sua inteligência, a sua vida e o seu tempo, a nenhum é dado elaborar tudo o que é necessário para a constituição de uma ciência. Eis por que não há uma só que seja, em todas as suas peças, obra de um só homem; nenhuma descoberta que o seu primeiro inventor tenha levado à perfeição. A cada edifício intelectual, vários homens e várias gerações trouxeram seu contingente de pesquisas e de observações.
Dá-se o mesmo com a questão que nos ocupa, cujas diversas partes foram tratadas separadamente, depois coligidas num corpo metódico, quando puderam ser reunidos materiais suficientes. Esta parte da ciência espírita mostra desde já que não é uma concepção sistemática individual, de um homem ou de um Espírito, mas o produto de múltiplas observações, que tiram sua autoridade da concordância existente entre elas.
Pelo motivo que acabamos de exprimir, não poderíamos pretender que esta seja a última palavra. Como temos dito, os Espíritos graduam os seus ensinos e os proporcionam à soma e à maturidade das ideias adquiridas. Assim, não se poderia duvidar que, mais tarde, eles pusessem novas observações no caminho; mas desde já há elementos suficientes para formar um corpo que, posteriormente e de modo gradual, será completado.
O encadeamento dos fatos nos obriga a tomar nosso ponto de partida de mais alto, a fim de proceder do conhecido para o desconhecido.

II
Tudo se liga na obra da Criação. Outrora se consideravam os três reinos como inteiramente independentes entre si, e teriam rido de quem pretendesse encontrar uma correlação entre o mineral e o vegetal, entre o vegetal e o animal.
Uma observação atenta fez desaparecer a solução de continuidade, provando que todos os corpos formam uma cadeia ininterrupta, de tal sorte que os três reinos não subsistem, na realidade, senão pelos caracteres gerais mais marcantes; mas nos seus limites respectivos eles se confundem, a ponto de se hesitar em saber onde termina um e começa o outro, e em qual deles certos seres devem ser colocados. Tais são, por exemplo, os zoófitos, ou animais-plantas, assim chamados porque contêm, ao mesmo tempo, elementos do animal e da planta.
Acontece a mesma coisa no que concerne à composição dos corpos. Durante muito tempo os quatro elementos serviram de base às ciências naturais; caíram diante das descobertas da química moderna, que reconheceu um número indeterminado de corpos simples. A Química nos mostra todos os corpos da Natureza formados desses elementos combinados em diversas proporções. É da infinita variedade dessas combinações que nascem as inumeráveis propriedades dos diferentes corpos. É assim, por exemplo, que uma molécula de gás oxigênio e duas de gás hidrogênio, combinadas, formam a água. Na sua transformação em água, o oxigênio e o hidrogênio perdem suas qualidades próprias; propriamente falando, não há mais oxigênio, nem hidrogênio, mas água. Decompondo a água, encontram-se novamente os dois gases, nas mesmas proporções. Se, em vez de uma molécula de oxigênio, houver duas, isto é, duas de cada gás, não será mais água, mas um líquido muito corrosivo. Bastou, pois, uma simples mudança na proporção de um dos elementos para transformar uma substância salutar numa substância venenosa. Por uma operação inversa, se os elementos de uma substância deletéria, o arsênico, por exemplo, forem simplesmente combinados em outras proporções, sem adição ou supressão de nenhuma outra substância, ela se tornará inofensiva, ou mesmo salutar. Há mais: várias moléculas reunidas, de um mesmo elemento, gozarão de propriedades diferentes, conforme o modo de agregação e as condições do meio em que se encontram. O ozônio, recentemente descoberto no ar atmosférico, é um exemplo. Reconheceu-se que essa substância mais não é que o oxigênio, um dos principais constituintes do ar, num estado particular que lhe dá propriedades distintas do oxigênio propriamente dito. O ar não deixa de ser formado por oxigênio e azoto, mas suas qualidades variam conforme contenha maior ou menor quantidade de oxigênio no estado de ozônio.
Estas observações, que parecem estranhas ao nosso assunto, não obstante a ele se ligam de maneira direta, como se verá mais tarde; elas são, além disso, essenciais como pontos de comparação.
Essas composições e decomposições se obtêm artificialmente e em pequena escala nos laboratórios, mas se operam em grande escala e espontaneamente no grande laboratório da Natureza. Sob a influência do calor, da luz, da eletricidade, da umidade, um corpo se decompõe, seus elementos se separam, outras combinações se operam e novos corpos se formam. Assim, a mesma molécula de oxigênio, por exemplo, que faz parte do nosso corpo, após a destruição deste entra na composição de um mineral, de uma planta ou de um corpo animado. Em nosso corpo atual acham-se, portanto, as mesmas parcelas de matéria, que foram partes constituintes de uma porção de outros corpos.
Citemos um exemplo para tornar a coisa mais clara.
Um pequeno grão é posto na terra, brota, cresce e torna-se uma grande árvore que, anualmente, dá folhas, flores e frutos. Quer dizer que esta árvore se achava inteirinha no grão?
Seguramente não, porque contém uma quantidade de matéria muito mais considerável. Donde, pois, lhe veio essa matéria? Dos líquidos, dos sais, dos gases que a planta extraiu da terra e do ar, que se infiltraram em seu caule e, pouco a pouco, lhe aumentaram o volume. Mas nem na terra nem no ar se encontram madeira, folhas, flores e frutos. É que esses mesmos líquidos, sais e gases, no ato de absorção, se decompuseram; seus elementos sofreram novas combinações, que os transformaram em seiva, lenho, casca, folhas, flores, frutos, essências voláteis etc. Essas mesmas partes, por sua vez, vão destruir-se, decompor-se; seus elementos, misturar-se de novo na terra e no ar; recompor as substâncias necessárias à frutificação; ser reabsorvidos, decompostos e, mais uma vez, transformados em seiva, lenho, casca etc. Numa palavra, a matéria não sofre aumento nem diminuição; transforma-se e, em consequência dessas transformações sucessivas, a proporção das diversas substâncias, em quantidade, é sempre suficiente para as necessidades da Natureza.
Suponhamos, por exemplo, que uma dada quantidade de água seja decomposta, no fenômeno da vegetação[2], para fornecer oxigênio e hidrogênio necessários à formação das diversas partes da planta; é uma quantidade de água que existe a menos na massa; mas essas partes da planta, quando de sua decomposição, vão liberar o oxigênio e o hidrogênio que elas encerravam, e esses gases, combinando-se entre si, vão reconstituir uma quantidade de água equivalente à que havia desaparecido.
Um fato que é oportuno assinalar aqui, é que o homem, que pode executar artificialmente as composições e decomposições que se operam espontaneamente na Natureza, é impotente para reconstituir o menor corpo organizado, ainda que fosse um pé de erva ou uma folha morta. Depois de ter decomposto um mineral, pode recompô-lo em todas as suas peças, tal qual era antes; mas quando separou os elementos de uma parcela de matéria vegetal ou animal, não pode reconstitui-la e, menos ainda, dar-lhe a vida. Seu poder se detém na matéria inerte: o princípio da vida está na mão de Deus.
A maioria dos corpos simples são chamados ponderáveis, porque lhes podemos medir o peso, e este está na razão da soma das moléculas contidas num dado volume. Outros são ditos imponderáveis, porque para nós não têm peso e, seja qual for a quantidade em que se acumulem em outro corpo, não lhe aumentam o peso. Tais são: o calórico[3], a luz, a eletricidade, o fluido magnético ou do ímã; este último não passa de uma variedade da eletricidade. Conquanto imponderáveis, nem por isso esses fluidos deixam de ter um grande poder. O calórico divide os corpos mais duros, os reduz a vapor e dá aos líquidos evaporados uma força de expansão irresistível. O choque elétrico quebra árvores e pedras, curva barras de ferro, funde os metais, atira ao longe enormes massas. O magnetismo dá ao ferro um poder de atração capaz de sustentar pesos consideráveis. A luz não possui esse gênero de força, mas exerce uma ação química sobre a maioria dos corpos; sob sua influência operam-se incessantemente composições e decomposições. Sem a luz, os vegetais e os animais se estiolam, os frutos não têm sabor nem coloração.

III
Todos os corpos da Natureza, minerais, vegetais, animais, animados ou inanimados, sólidos, líquidos ou gasosos, são, pois, formados dos mesmos elementos, combinados de maneira a produzir a infinita variedade dos diferentes corpos. Hoje a Ciência vai mais longe; suas investigações pouco a pouco a conduzem à grande lei da unidade. Agora é geralmente admitido que os corpos reputados simples não passam de modificações, de transformações de um elemento único, princípio universal designado sob os nomes de éter, fluido cósmico ou fluido universal, de tal sorte que, segundo o modo de agregação das moléculas desse fluido, e sob a influência de circunstâncias particulares, adquire propriedades especiais, que constituem os corpos simples; estes, combinados entre si em diversas proporções, formam, como dissemos, a inumerável variedade de corpos compostos. Segundo esta opinião, o calórico, a luz, a eletricidade e o magnetismo também não passariam de modificações do fluido primitivo universal. Assim esse fluido, que com toda probabilidade é imponderável, seria ao mesmo tempo o princípio dos fluidos imponderáveis e dos corpos ponderáveis.
A Química nos faz penetrar na constituição íntima dos corpos; mas, experimentalmente falando, não vai além dos corpos considerados simples; seus meios de análise são impotentes para isolar o elemento primitivo e determinar a sua essência. Ora, entre esse elemento em sua pureza absoluta e o ponto onde pára as investigações da Ciência, o intervalo é imenso. Raciocinando por analogia, chega-se à conclusão de que entre esses dois pontos extremos, esse fluido deve sofrer modificações que escapam aos nossos instrumentos e aos nossos materiais. É nesse campo novo, até aqui vedado à exploração, que vamos tentar penetrar.

IV
Até agora só se tinham ideias muito incompletas sobre o mundo espiritual ou invisível. Imaginavam-se os Espíritos como seres fora da Humanidade; os anjos também eram criaturas à parte, de uma natureza mais perfeita. Quanto ao estado das almas depois da morte, os conhecimentos não eram mais positivos. A opinião mais geral fazia deles seres abstratos, dispersos na imensidade e não tendo mais relações com os vivos, a não ser que estivessem, segundo a doutrina da Igreja, nas beatitudes do céu ou nas trevas do inferno. Além disso, como as observações da Ciência não vão além da matéria tangível, resulta um abismo entre o mundo corporal e o mundo espiritual, que parecia excluir toda comparação.
É este abismo que novas observações e o estudo de fenômenos ainda pouco conhecidos vêm encher, ao menos em parte.
O Espiritismo nos ensina, de saída, que os Espíritos são as almas dos homens que viveram na Terra; que progridem incessantemente, e que os anjos são essas mesmas almas ou Espíritos chegados a um estado de perfeição que os aproxima da Divindade.
Em segundo lugar, ensina-nos que as almas passam alternadamente do estado de encarnação ao de erraticidade; que neste último estado elas constituem a população invisível do globo, ao qual ficam ligadas até que tenham adquirido o desenvolvimento intelectual e moral que comporta a natureza deste globo, depois do que o deixam, passando a um mundo mais adiantado.
Pela morte do corpo, a Humanidade corporal fornece almas ou Espíritos ao mundo espiritual; pelos nascimentos, o mundo espiritual alimenta o mundo corporal; há, pois, transmutação incessante de um no outro. Esta relação constante os torna solidários, pois são os mesmos seres que entram no nosso mundo e que dele saem alternadamente. Eis um primeiro traço de união, um ponto de contato, que já diminui a distância que parecia separar o mundo visível do mundo invisível.
A natureza íntima da alma, isto é, do princípio inteligente, fonte do pensamento, escapa completamente às nossas investigações; mas agora se sabe que a alma é revestida de um envoltório ou corpo fluídico, que dela faz, depois da morte do corpo material, como antes, um ser distinto, circunscrito e individual. A alma é o princípio espiritual considerado isoladamente; é a força atuante e pensante, que não podemos conceber isolada da matéria senão como uma abstração. Revestida de seu envoltório fluídico, ou perispírito, a alma constitui o ser chamado Espírito, como quando está revestida do envoltório corporal, constitui o homem. Ora, se bem que no estado de Espírito goze de propriedades e de faculdades especiais, não deixou de pertencer à Humanidade. Os Espíritos são, pois, seres semelhantes a nós, já que cada um de nós se torna Espírito após a morte do corpo, e cada Espírito se torna homem pelo nascimento.
Esse envoltório não é a alma, pois não pensa: é apenas uma vestimenta; sem a alma, o perispírito, assim como o corpo, é uma matéria inerte privada de vida e de sensações. Dizemos matéria, porque, com efeito, o perispírito, embora de natureza etérea e sutil, não deixa de ser matéria, como os fluidos imponderáveis e, além disso, matéria da mesma natureza e da mesma origem que a mais grosseira matéria tangível, como logo veremos.
A alma não reveste o perispírito apenas no estado de Espírito; é inseparável desse envoltório, que a segue na encarnação, como na erraticidade. Na encarnação, é o laço que a une ao envoltório corporal, o intermediário com cujo auxílio age sobre os órgãos e percebe as sensações das coisas exteriores. Durante a vida, o fluido perispiritual identifica-se com o corpo, penetrando todas as suas partes; com a morte, dele se desprende; privado da vida o corpo se dissolve, mas o perispírito, sempre unido à alma, isto é, ao princípio vivificante, não perece; apenas a alma, em vez de dois envoltórios, conserva apenas um: o mais leve, o que está mais em harmonia com o seu estado espiritual.
Embora esses princípios sejam elementares para os espíritas, era útil lembrá-los para a compreensão das explicações subsequentes e a ligação das ideias.

V
Algumas pessoas contestaram a utilidade do envoltório perispiritual da alma e, em consequência, a sua existência. A alma, dizem, não precisa de intermediário para agir sobre o corpo; e, uma vez separada do corpo, é um acessório supérfluo.
A isto respondemos, primeiro, que o perispírito não é uma criação imaginária, uma hipótese inventada para chegar a uma solução; sua existência é um fato constatado pela observação.
Quanto à sua utilidade, quer durante a vida, quer depois da morte, é preciso admitir que, desde que existe, é que serve para alguma coisa. Os que lhe contestam a utilidade são como um indivíduo que, não compreendendo as funções de certas engrenagens num mecanismo, concluíssem que só servem para complicar desnecessariamente a máquina. Não vê que se a menor peça fosse suprimida, tudo seria desorganizado. Quantas coisas, no grande mecanismo da Natureza, parecem inúteis aos olhos do ignorante e, mesmo, de certos cientistas, que de boa-fé acreditam que se tivessem sido encarregados da construção do Universo, o teriam feito melhor!
O perispírito é uma das engrenagens mais importantes da economia. A Ciência o observou em alguns de seus efeitos e, sucessivamente, tem sido designado sob o nome de fluido vital, fluido ou influxo nervoso, fluido magnético, eletricidade animal etc., sem se dar conta precisa de sua natureza, de suas propriedades e, ainda menos, de sua origem. Como envoltório do Espírito após a morte, foi suspeitado desde a mais alta antiguidade. Todas as teogonias atribuem aos seres do mundo invisível um corpo fluídico. São Paulo diz em termos precisos que renascemos com um corpo espiritual (1a epístola aos Coríntios, 15:35 a 44 e 50).
Dá-se o mesmo com todas as grandes verdades baseadas nas leis da Natureza, e das quais, em todas as épocas, os homens de gênio tiveram a intuição. É assim que, desde antes de nossa era, hábeis filósofos tinham suspeitado a redondeza da Terra e seu movimento de rotação, o que nada tira ao mérito de Copérnico e de Galileu, sendo mesmo de presumir-se que estes últimos hajam aproveitado as ideias de seus predecessores. Graças a seus trabalhos, o que não passava de uma teoria individual, de uma teoria incompleta e sem provas, desconhecida das massas, tornou-se uma verdade científica, prática e popular.
A doutrina do perispírito está no mesmo caso; o Espiritismo não foi o primeiro a descobri-lo. Mas, assim como Copérnico para o movimento da Terra, ele o estudou, demonstrou, analisou, definiu e dele tirou fecundos resultados. Sem os estudos modernos mais completos, esta grande verdade, como muitas outras, ainda estaria no estado de letra morta.

VI
O perispírito é o traço de união que liga o mundo espiritual ao mundo corporal. O Espiritismo no-los mostra em relação tão íntima e tão constante, que de um ao outro a transição é quase insensível. Ora, assim como na Natureza o reino vegetal se liga ao reino animal por seres semivegetais e semianimais, o estado corporal se liga ao estado espiritual não só pelo princípio inteligente, que é o mesmo, mas ainda pelo envoltório fluídico, ao mesmo tempo semimaterial e semi-espiritual, desse mesmo princípio.
Durante a vida terrena, o ser corporal e o ser espiritual estão confundidos e agem em acordo; a morte do corpo apenas os separa. A ligação destes dois estados é tal, e eles reagem um sobre o outro com tanta força, que dia virá em que será reconhecido que o estudo da história natural do homem não poderia ser completo sem o estudo do envoltório perispiritual, isto é, sem pôr um pé no domínio do mundo invisível.
Esse paralelo é ainda maior quando se observa a origem, a natureza, a formação e as propriedades do perispírito, observação que decorre naturalmente do estudo dos fluidos.

VII
É sabido que todas as matérias animais têm como princípios constituintes o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono, combinados em diferentes proporções. Ora, como dissemos, esses mesmos corpos simples têm um princípio único, que é o fluido cósmico universal. Por suas diversas combinações eles formam todas as variedades de substâncias que compõem o corpo humano, o único de que aqui falamos, embora seja o mesmo em relação aos animais e às plantas. Disto resulta que o corpo humano não passa, na realidade, de uma espécie de concentração, de uma condensação ou, se quiserem, de uma solidificação do fluido universal, como o diamante é uma solidificação do gás carbônico. Com efeito, suponhamos a desagregação completa de todas as moléculas do corpo: recuperaremos o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono; em outros termos, o corpo será volatilizado. Esses quatro elementos, voltando ao seu estado primitivo por uma nova e mais completa decomposição – se os nossos meios de análise o permitissem – dariam o fluido cósmico.
Sendo esse fluido o princípio de toda a matéria, ele mesmo é matéria, embora num completo estado de eterização.
Passa-se um fenômeno análogo na formação do corpo fluídico, ou perispírito: é, igualmente, uma condensação do fluido cósmico em torno de um foco de inteligência, ou alma. Mas aqui a transformação molecular se opera diferentemente, porque o fluido conserva sua imponderabilidade e suas qualidades etéreas. O corpo perispiritual e o corpo humano têm, pois, sua fonte no mesmo fluido; um e outro são matéria, conquanto em dois estados diferentes. Assim, tivemos razão de dizer que o perispírito é da mesma natureza e da mesma origem que a mais grosseira matéria.
Como se vê, nada há de sobrenatural, já que o perispírito se liga, por seu princípio, às coisas da Natureza, das quais não passa de uma variedade.
Sendo o fluido universal o princípio de todos os corpos da Natureza, animados e inanimados e, por conseguinte, da terra, das pedras, razão tinha Moisés quando disse: “Deus formou o corpo do homem do limo da terra”. Isto não quer dizer que Deus tomou terra, petrificou-a e com ela modelou o corpo do homem, como se modela uma estátua com argila e como acreditaram os que tomam as palavras bíblicas ao pé da letra; mas, sim, que o corpo era formado dos mesmos princípios ou elementos que o limo da terra.
Moisés acrescenta: “E lhe deu uma alma vivente, feita à sua semelhança.” Ele faz, assim, uma distinção entre a alma e o corpo; indica que ela é de natureza diferente, que não é matéria, mas espiritual e imaterial como Deus. Diz: uma alma vivente, para especificar que nela está o princípio da vida, ao passo que o corpo, formado da matéria, por si mesmo não vive. Estas palavras: à sua semelhança, implicam uma similitude e não uma identidade. Se Moisés houvesse considerado a alma como uma porção da Divindade, teria dito: Deus o anima dando-lhe uma alma tirada de sua própria substância, como disse que o corpo tinha sido tirado da terra.
Estas reflexões são uma resposta às pessoas que acusam o Espiritismo de materializar a alma, porque lhe dá um envoltório semimaterial.

VIII
No estado normal, o perispírito é invisível aos nossos olhos e impalpável ao nosso tato, como o são uma infinidade de fluidos e de gases. Entretanto, a invisibilidade, a impalpabilidade, e mesmo a imponderabilidade do fluido perispiritual não são absolutas; é por isso que dizemos no estado normal. Em certos casos é possível que ele sofra uma condensação maior, ou uma modificação molecular de natureza especial, que o torna momentaneamente visível ou tangível; é assim que se produzem as aparições. Sem que haja aparição, muitas pessoas sentem a impressão fluídica dos Espíritos pela sensação do tato, o que é indício de uma natureza material.
Seja qual for a maneira pela qual se opera a modificação atômica do fluido, não há coesão como nos corpos materiais; a aparência se forma e se dissipa instantaneamente, o que explica as aparições e as desaparições súbitas. Sendo as aparições o produto de um fluido material invisível, tornado visível em consequência de uma mudança momentânea na sua constituição molecular, não são mais sobrenaturais do que os vapores que, de modo alternado, fazem-se visíveis ou invisíveis pela condensação ou pela rarefação.
Citamos o vapor como ponto de comparação, sem pretender que haja similitude de causa e efeito.

IX
Algumas pessoas criticaram a qualificação de semimaterial dada ao perispírito, dizendo que uma coisa é matéria ou não o é. Admitindo que a expressão seja imprópria, seria preciso recorrer a ela, em falta de um termo especial para exprimir esse estado particular da matéria. Se existisse um mais apropriado à coisa, os críticos deveriam tê-lo indicado. Filosoficamente falando, e por sua essência íntima, o perispírito é matéria, como acabamos de ver; ninguém poderia contestá-lo. Mas não tem as propriedades da matéria tangível, tal como se a concebe vulgarmente; não pode ser submetido à análise química, porquanto, embora tenha o mesmo princípio que a carne e o mármore, na realidade nem é carne nem mármore. Por sua natureza etérea, pertence, ao mesmo tempo, à materialidade por sua substância, e à espiritualidade por sua impalpabilidade, de sorte que o vocábulo semimaterial não é mais ridículo que semiduplo e tantos outros, porque também se pode dizer que uma coisa é dupla ou não o é.

X
Como princípio elementar do Universo, o fluido cósmico assume dois estados distintos: o de eterização ou imponderabilidade, que se pode considerar o primitivo estado normal, e o de materialização ou ponderabilidade, que é, de certa maneira, consecutivo àquele. O ponto intermediário é o da transformação do fluido em matéria tangível. Mas, ainda aí, não há transição brusca, porquanto podem considerar-se os nossos fluidos imponderáveis como um termo médio entre os dois estados.
Cada um desses dois estados dá lugar, naturalmente, a fenômenos especiais: ao segundo pertencem os do mundo visível e ao primeiro os do mundo invisível. Uns, os chamados fenômenos materiais, são da alçada da Ciência propriamente dita; os outros, qualificados de fenômenos espirituais, porque se ligam à existência dos Espíritos, são da competência do Espiritismo. Mas há entre eles numerosos pontos de contato, que servem para mútuo esclarecimento e, como dissemos, o estudo de uns não poderia ser completo sem o estudo dos outros.
É à explicação desses últimos que conduz o estudo dos fluidos, de que faremos, ulteriormente, assunto para um trabalho especial.




[1] Revista Espírita – Março/1866 – Allan Kardec
[2] N. do T.: No original: phénomène de la végétation.
[3] N. do T.: Allan Kardec valia-se da teoria do calor, em voga no século XIX, segundo a qual o calórico seria o fluido responsável pelos fenômenos térmicos.