segunda-feira, 19 de outubro de 2020

ANTÓNIO JOAQUIM FREIRE[1]

 


 

Nasceu no dia 20 de Julho de 1877, na vila e freguesia de Espinhal, conselho de Penela, distrito de Coimbra, regressando à Pátria Espiritual com 82 anos, no dia 3 de Março de 1958, na cidade de Lisboa.

Diz-se do Mundo Espiritual, que o Dr. António Joaquim Freire, foi o grande impulsionador do movimento espírita português e, presentemente, um dos seus diretores e responsáveis espirituais, pela evidente vivacidade e seu extraordinário dinamismo.

Médico, escritor e jornalista, formou-se em Medicina, obtendo também o curso de Medicina Sanitária, pela prestigiada "Universidade de Coimbra". Sendo um dos fundadores da Federação Espírita Portuguesa, um distinto membro, onde exerceu a função de primeiro vice-presidente, da primeira direção eleita, em 31 de Julho de 1926, para um quadriênio. Quem o escutasse, nas suas múltiplas conferências, verificava que era uma pessoa muito ilustre. Escreveu obras notáveis sobre o Espiritismo, algumas reeditadas no Brasil, na Argentina e também em Portugal. Vitimado por uma broncopneumonia que lhe provocara uma síncope cardíaca fulminante. Discordante declarado da República, foi preso em Maio de 1911, permanecendo nos calabouços, da famosa prisão - A Trafaria. Em Março de 1912, fugiu de Portugal, passando por diversos países. Estabelecendo-se finalmente, na Argentina em 1913. Regressando a Portugal em Outubro de 1917.

António J. Freire partilhou a direção da "Revista de Espiritismo" com o Dr. Afonso Acácio Martins Velho (advogado e escritor), Prof. Dr. Adolfo Sena da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Dr. António Lobo Vilela, (matemático e escritor), tendo como secretário da redação o jornalista Pedro Cardia. Dr. Alberto Zagalo Fernandes (ex-presidente da Associação Acadêmica de Lisboa), e José Neves completavam essa equipe. Esse periódico bimestral, tinha 40 páginas, sendo muito conceituado internacionalmente. Presentemente a revista voltou à tipografia em 1994, revelando-se um elo importante de religação com esse passado ilustre que a ditadura fascista repressora reduziu à estaca zero.

Legou-nos obras como: À Margem do Espiritismo, A Alma Humana, A Energia Mental e as Formas-Pensamento, Animismo e Espiritismo, Ciência e Espiritismo, Da Evolução do Espiritismo, Da Fraude do Espiritismo Experimental ou Comentários a uma Pastoral.

sábado, 17 de outubro de 2020

ESQUECIMENTO DO PASSADO[1]

 


Rogério Coelho

 

Esquecido de seu passado o Espírito é mais senhor de si.

“O passado é a causa viva, mas não soluciona o presente.” – Emmanuel

 

Quando Jesus[2] nos conclama a amar aos inimigos, bendizer aos que nos maldizem, fazer o bem aos que nos odeiam e orar pelos que nos maltratam e perseguem, é porque se faz necessário desatar todos os nós que nos prendem aos equívocos passados.

A necessidade do perdão e os trâmites evolutivos são dois fatos emergentes de imediato quando se trata do esquecimento do passado. Se Deus achou por bem ocultar de todos nós o passado em cada experiência reencarnatória, de nossa parte, devemos envidar os esforços necessários para esquecer os prejuízos e males mais recentes da presente reencarnação, isto é, ministrar o perdão incondicional, como Jesus o fez e ensinou, a fim de livrar nossa economia espiritual do lixo cármico[3].

Escrevendo aos romanos, Paulo de Tarso concita-nos a tratar com caridade aos nossos inimigos, porque fazendo isto, amontoaremos brasas de fogo sobre a cabeça deles. Nada mais certo e lógico, pois os nossos inimigos, observando nossa atitude cristã e positiva no sentido de acertar os desentendimentos, ficarão propensos a não mais oferecer nutrição às situações de beligerância.

Já nossa evolução ficará bem solucionada condicionando-a ao esquecimento do passado de forma a aplicarmos nossas energias e potencialidades na direção certa, sem os prejuízos dos liames que nos agrilhoariam às nossas seculares defecções, libertando-nos assim, para nossas missões que têm como denominador comum a aplicação da legítima caridade que não só ensinaremos mas que principalmente praticaremos.

Mateus registra em suas anotações[4], que nada há encoberto que não haja de revelar-se, nem oculto que não haja de saber-se. Assim, no momento azado, quando a maturidade chegar, haveremos de saber o que hoje ainda é conveniente que permaneça oculto. O próprio Cristo nos dá notícia de que existem coisas que necessitam aguardar o concurso do tempo e da ocasião propícia para que possamos entendê-las. Ao Seu tempo dizia: Tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas por hora não as suportaríeis.

O passado, portando, não deve ser causa de maiores preocupações. Isso não nos desobriga a fazer um exame minucioso de nossas atuais tendências mais íntimas, vez que elas nos mostram as próprias leiras de serviço, isto é, onde devemos trabalhar em nossa própria intimidade para vencer os remanescentes de uma sementeira passada irresponsável e descuidada.

Enquanto encarnado, João Batista desconhecia que ele próprio era a reencarnação de Elias. Quando lhe perguntaram[5]: Quem és? És Elias? Ele respondeu: não.

Vemos, assim que até mesmo aos grandes missionários o passado não é revelado. Seu esquecimento é algo mais abrangente do que podemos imaginar e transcende o plano material. Os Benfeitores da humanidade disseram[6] a Allan Kardec que (…) muitas vezes um Espírito recém desencarnado não se lembra de nomes de pessoas que lhe eram caras, nem uma porção de coisas importantes. É que tudo isso, pouco lhe importando, logo caiu em esquecimento. Ele só se recorda perfeitamente bem dos fatos principais que concorrem para a sua melhoria.

O Mestre Lionês aborda o tema a partir da questão de número 392, de O Livro dos Espíritos, de onde extratamos alguns itens para oportunas elucidações: não pode o homem, nem deve, saber tudo. Deus assim o quer em Sua sabedoria. Sem o véu que lhe oculta certas coisas, ficaria ofuscado, como quem, sem transição, saísse do escuro para o claro. Esquecido de seu passado ele é mais senhor de si.(…)

Gravíssimos inconvenientes teria o nos lembrarmos das nossas individualidades anteriores. Em certos casos, humilhar-nos-ia sobremaneira; em outros nos exaltaria o orgulho, peando-nos, em consequência, o livre-arbítrio. Para nos melhorarmos, dá-nos Deus exatamente o que nos é necessário e basta: a voz da consciência e os pendores instintivos. Priva-nos do que nos prejudicaria. Acrescentemos que, se nos recordássemos dos nossos precedentes atos pessoais, igualmente nos recordaríamos dos outros homens, do que resultariam talvez os mais desastrosos efeitos para as relações sociais. Nem sempre podendo honrar-nos do nosso passado, melhor é que sobre ele um véu seja lançado.

Por outro lado, muitas criaturas que contestam a reencarnação perguntam: Como posso pagar por uma coisa da qual não tenho a mais vaga lembrança? Evidentemente esta pergunta é até compreensível para quem ainda não estudou a Doutrina dos Espíritos, havendo portando dificuldade em compreender e aceitar algo cujo fundamento permanece desconhecido. A solução é oferecer a tais criaturas um caminho de acesso a essas informações, chamando-lhes a atenção para o fato insofismável de que Deus é justo e bom e impossível seria conciliar Sua justiça e bondade com os desníveis sociais que vemos à nossa volta. A unicidade da existência jamais poderá explicá-los. Por que sorte tão diversa na vida de Seus filhos? Por que uns nascem em berço de ouro e outros nas mansardas infectas? Por que uns são inteligentes e outros apoucados? Só a reencarnação pode conciliar e justificar situações tão antagônicas e aparentemente injustas.

Segundo Allan Kardec[7], o esquecimento do passado não constitui obstáculo a que se possa aproveitar da experiência de vidas anteriores. Havendo Deus entendido de lançar um véu sobre o passado, é que há nisso vantagem. Sabemos que a evolução se processa de baixo para cima, isto é, o Espírito nasce simples e ignorante e caminha na direção da perfeição relativa. Assim, para que rebuscar no passado os fatos que devem presentemente ficar esquecidos?!

Segundo Emmanuel, (…) é no corpo que dispomos daquele bendito anestésico do esquecimento temporário com que a cirurgia da vida, nos hospitais do tempo, nos suprime as chagas morais instaladas por nós mesmos, no campo íntimo; nele reencontramos os desafetos de passadas reencarnações, nas teias da consanguinidade ou nas obrigações de grupo de serviço para a quitação necessária de nossos débitos, perante a lei que nos governa os destinos.

Quão salutar e providencial é o esquecimento do passado que nos enseja a possibilidade de resgatar, sem humilhação, os débitos junto daqueles que prejudicamos ou nos prejudicaram!… No passado que se perde na noite dos tempos, está a causa de grande parte dos sofrimentos humanos e o fulcro da questão está no fato de sempre termos fracassado na administração do perdão incondicional. Estamos sempre nos lugares certos e com as pessoas certas. Cabe-nos aceitar e procurar compreender o que devemos fazer para aproveitar ainda nesta oportunidade reencarnatória o ensejo abençoado da reconciliação com os adversários d`antanho.

Esqueçamos o que passou; não nos assentemos na esquina do remorso e tampouco nos enveredemos em meio aos cipoais da amargura. Sigamos em frente, de olhos postos no futuro feliz que nos aguarda a todos, construindo esse porvir ditoso desde já sob as bênçãos de Jesus.

 

Fonte: Agenda Espírita Brasil



[1] https://gecasadocaminhosv.blogspot.com/2020/10/esquecimento-do-passado-rogerio-coelho.html

[2] Mateus, 5:44.

[3] Resultado da Lei de Causa e Efeito

[4] Mt., 10:26.

[5] João, 1:21.

[6] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. 88.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2006, q. 307.

[7] KARDEC, Allan. O Evangelho Seg. o Espiritismo. 129.ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. V, item 11

sexta-feira, 16 de outubro de 2020

50 DOCUMENTOS INÉDITOS DE KARDEC – PRIMEIRAS IMPRESSÕES[1]

 


Dora Incontri

 

Finalmente foram publicados 50 manuscritos inéditos de Kardec, transcritos e traduzidos, no Portal Projeto Kardec, recém-criado numa parceria entre a Universidade de Juiz de Fora e a FEAL (Fundação Espírita André Luiz).

Embora o meu pesar por não integrar a equipe que está fazendo esse trabalho, posso dizer que até agora, o pouco que se vê parece muito bem apresentado. Espero que os cerca de 3 mil manuscritos (juntando o acervo do Canuto de Abreu e o descoberto por Charles Kempf na França) não demorem uma encarnação para serem disponibilizados.

Quero, porém, comentar aqui, a primeira impressão que tenho da leitura dessas cartas, fragmentos, notas e preces (e de mais algumas outras a que tive acesso durante a feitura do documentário Em busca de Kardec).

O que primeiro se destaca é a sensação de proximidade de Kardec, no sentido de o conhecermos mais de perto – ele que modestamente tanto se ocultou atrás da obra – e assim o vermos em sua humanidade, em seu humanismo, em sua integridade e também em sua vulnerabilidade…

Não se trata – como, aliás, sempre cansei de dizer – de uma pessoa fria, distante e de uma austeridade que afasta. Ao contrário, Kardec era uma pessoa sentimental, diria mesmo calorosa. Preocupava-se em não ferir minimamente o sentimento de amigos, interlocutores, seguidores… A delicadeza das cartas revela isso. Havia nele uma duplicidade interessante: ao mesmo tempo muito cuidadoso em não magoar, em não negligenciar ninguém, em atender às demandas do próximo, em se mobilizar para ajudar e esclarecer; por outro lado também mostrava uma assertividade, sem meias palavras, quando se tratava de pontuar certas questões do espiritismo. E isso sobretudo na orientação racional, didática e ética para o manejo da mediunidade.

Mas era uma pessoa que obviamente, como todos os seres humanos, tinha seus momentos de dúvida, desânimo, perplexidade. Quem não se identifica com a prece abaixo?

Estou hoje num estado detestável; a que isso se deve? Ignoro. Contrariado o dia todo e, por conseguinte, de mau humor. Se é minha falta, dai-me, eu vos peço, a força de apartar a causa; se é uma má influência, dai-me a força para a repelir; se é uma prova, que ela sirva a minha humildade; se é para a instrução, dai-me a luz necessária para descobri-la.

Eu não tenho o Espírito livre; estou confuso, descontente, cheio de ansiedade.

Em nome de Deus Todo-Poderoso, Espírito de Verdade, eu te peço para restaurar a minha calma e me inspirar as melhores resoluções a tomar. Faz com que, durante meu sono, eu venha a me retemperar e a me fortalecer entre os bons Espíritos e restabelecer, ao meu despertar, uma intuição saudável. KARDEC, Allan. [Prece – 1860].[2]

O que impressiona também, e que fica óbvio nesses manuscritos, embora esteja mais do que explícito em todas as suas obras, é que Kardec era profundamente religioso – por mais que isso contrarie alguns e seja motivo de distorções por outros. O tempo inteiro, ele se refere a Deus, à Providência, faz preces, evoca os Espíritos em nome de Deus, chama o Espiritismo de nossa “santa” doutrina… Há um sentimento de espiritualidade muito forte nele e claro que isso transpassou para a sua obra. Então, por mais que possamos hoje discordar de algumas passagens do Evangelho segundo o Espiritismo, e assim contextualizá-las, como por exemplo sua insistência em dizer que Deus castiga, não há como se defender a ideia de que esse livro foi uma espécie de concessão de Kardec ao seu meio, como querem alguns. Não. Kardec está inteiro ali.

Há nas cartas e nas preces algo de profunda entrega, que parece ao mesmo tempo de um ser humano elevado, compenetrado em cumprir sua tarefa e de um menino que busca colo em Deus. Seria a falta do pai, que perdeu desde cedo?

Nesse sentido, achei que o filme “Kardec”, de Wagner Assis, inspirado na obra de Marcel Souto Maior revela toda essa faceta de um menino humano, ao mesmo tempo tão cheio de coragem, mas precisado do apoio de Amélie.

Outra coisa que observamos nitidamente nas cartas é o quanto Kardec se movia para ajudar o próximo. Há o caso, por exemplo, da carta ao Sr. Varey (27/07/1863), em que ele além de ter ajudado material e moralmente o filho desse homem, que estava em Paris à míngua, intercede pelo moço junto ao pai, que aparentemente o estava julgando com injustiça e rigor.

Também há a carta em que ele se dirige a uma tal Madame Lair (27/07/1867), pedindo ajuda para uma criança de 8 anos. Nesse documento, porém, algo choca nossa sensibilidade atual: ele está encaminhando esse menino, filho de um operário doente, para que se torne um aprendiz de agricultura na fazenda de uma família espírita. Consultando a história do trabalho infantil na França, leio que apenas depois de 1870, começou a haver alguma legislação que limitava o trabalho das crianças – naquele contexto absurdo da exploração do operariado. Esse caso, que aparece na carta, Kardec fica naquele limbo nebuloso de criança aprendiz para o trabalho, já aos 8 anos de idade! E é claro que se pensamos em Rivail como educador, pode nos parecer contraditório ele fazer coro com tal disparate. Mais uma vez, não podemos fazer um julgamento fora do contexto histórico de então. Talvez não houvesse alternativa naquele momento a não ser ajudar aquela criança a ser “adotada” por uma família que a encaminharia para uma profissão. Talvez fosse isso ou a fome, a rua…

Por outro lado, há a carta para Louis Jourdan, personagem ligado ao socialista utópico Saint Simon, cujo conteúdo progressista já foi analisado essa semana num artigo de um jovem autor, que eu até então desconhecia, Vinicius Costa. Nessa carta, fica explícita toda expectativa de Kardec de que o espiritismo viesse a contribuir para profundas mudanças sociais. Quem sabe se para um mundo em que não houvesse mais trabalho infantil, já que ele desde a mocidade lutava pelo ideal de educação pública para todos.

Em tudo se mostra um Kardec muito operoso, extremamente ocupado, mesmo assim preocupado em atender às pessoas que o procuravam e que lhe escreviam; um homem que se pensava encarregado de uma missão, mas sem nenhuma vaidade disso; alguém sempre em luta para sobreviver (e isso desde as cartas de Rivail que vi para o documentário) – o que deve ter dificultado bastante o seu trabalho no espiritismo; uma pessoa embebida de uma espiritualidade profunda que não impedia o seu empenho sincero e rigoroso em fazer do espiritismo uma busca científica e filosófica.

Confesso que a personalidade de Kardec me fala ao coração e embora hoje considere que alguns aspectos de sua obra devam ser repensados porque estavam num contexto muito diferente do nosso, há sim verdades atemporais que ele tocou, trilhas importantes que ele abriu e, sobretudo, uma bondade, uma boa fé e uma integridade de caráter que a mim, me emocionam.

Digo tudo isso porque tenho pensado, como outros espíritas de hoje, a respeito da necessidade da releitura de Kardec para o século XXI, mas não me agrada nem um pouco faltar com gratidão e respeito para com esse mestre que nos abriu um horizonte novo. Cabe-nos avançar sem deixar de reconhecê-lo e, digo mesmo, de amá-lo.



[1] https://blogabpe.org/2020/09/05/50-documentos-ineditos-de-kardec-primeiras-impressoes/

[2] Disponível em: http://projetokardec.ufjf.br/items/show/40  Acesso em: 5 Set 2020. Projeto Allan Kardec

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

PROGRESSO MORAL[1]

 


Miramez

 

O progresso moral segue sempre o progresso intelectual?

‒ É a sua consequência, mas não o segue sempre imediatamente. (Ver itens 192-365).

a. Como o progresso intelectual pode conduzir ao progresso moral?

‒ Dando a compreensão do bem e do mal, pois então o homem pode escolher. O desenvolvimento do livre arbítrio segue-se ao desenvolvimento da inteligência e aumenta a responsabilidade do homem pelos seus atos.

b. Como se explica, então, que os povos mais esclarecidos sejam frequentemente os mais pervertidos?

‒ O progresso completo é o alvo a atingir, mas os povos, como os indivíduos, não chegam a ele senão passo a passo. Até que tenham desenvolvido o senso moral eles podem servir-se de inteligência para fazer o mal. A moral e a inteligência são duas forças que não se equilibram senão com o tempo. (Ver itens 365-751).

Questão 780/O Livro dos Espíritos

 

O progresso moral nem sempre acompanha o progresso intelectual. É no sentido de promover a elevação moral que a Doutrina dos Espíritos veio, com o objetivo de educar e instruir. Instruir é bem mais fácil do que educar; a educação trata de harmonizar os sentimentos que são, a princípio, animalizados e somente o tempo, os problemas, as dores, os variados infortúnios, têm o poder de mostrar para a alma a necessidade de se modificar, ganhando, com os infindáveis esforços, as qualidades morais que o Evangelho indica para nos salvar de todas as agressões do mal.

A instrução sempre vem primeiro, porque traz em si aberturas onde a vaidade e o orgulho se aninham e crescem. Ela nos dá uma satisfação, embora passageira, no entanto, sentimo-nos bem com isso. Daí decorre o nosso grande interesse para nos instruirmos, sobretudo para desfrutarmos dos bens transitórios da vida. Aquele que sabe mais se encontra sempre na direção.

É muito bom saber, todavia, quando esse saber é disciplinado pelo amor, é bem melhor e capaz de nos elevar para a libertação espiritual. O homem que somente se instrui, sem se interessar pela moral, está correndo perigo, visto poder acontecer em seus caminhos desastres morais. As paixões inferiores passam a comandar seu destino, e os olhos perdem a visão das leis naturais, dos direitos alheios, e até aonde podem chegar com os seus próprios direitos.

Quem somente se instrui não se interessa em ajudar aos semelhantes, a não ser para mostrar que é bom e caridoso, buscando sempre motivos de ganhar mais, com a vaidade que se veste de muitas roupagens.

O progresso deve atingir todas as qualidades morais e espirituais e, certamente, o físico. Ele é Deus avançando, não para Ele mesmo, mas para que sejam despertados os dons da intimidade das criaturas.

Disse Jesus com muita propriedade, o que Lucas anotou no capítulo doze, versículo quarenta e nove:

Eu vim para lançar fogo sobre a Terra e bem quisera que já estivesse a arder.

 

O fogo sobre a Terra que Jesus veio acender foi objetivando o progresso das criaturas, mudando o modo pelo qual o homem estava procedendo, usando a ciência e o saber para massacrar os mais fracos e corromper a si mesmo. A moral cristã representa o fogo que deve ser aceso em todos os corações, mudando para melhor, aliando o saber à moral evangélica e, neste sentido, restabelecendo as coisas.

Passamos a descobrir com o Cristo o céu dentro de nós, usando a ciência em conexão com o amor, para sermos felizes em direção à eternidade. O progresso intelectual sem o moral pode ser, tornamos a falar, um desastre na vida da alma.

Quando o saber estava se distanciando do conhecimento da verdade, Deus disse um "basta", por amor às criaturas da Terra, e enviou o outro Consolador, para instruir verdadeiramente os seres humanos acerca das coisas espirituais e a Doutrina Espírita chegou como um sol na direção do Cristo, como amparo às criaturas. O orgulho e o egoísmo se encontravam nas cátedras, mandando e dirigindo os povos de maneira agressiva, mas a luz começou a espancar as trevas, e eis aí o que está acontecendo:

Jesus novamente no seio dos povos, sendo lembrado, falado, recordado, para depois chegar e ficar visível nos corações, pela força da vivência, salvando o mundo.



[1] Filosofia Espírita – Volume 16 – João Nunes Maia

quarta-feira, 14 de outubro de 2020

MUITOS RESULTADOS NEGATIVOS NA ANÁLISE DE CARTAS PSICOGRAFADAS POR MÉDIUNS BRASILEIROS[1]

 


Jader Sampaio

 

Os pesquisadores Elizabeth Schmitt Freire, Alexandre Caroli Rocha, Victor Scio Tasca, Mateus Moreira Marnet e Alexander Moreira-Almeida publicaram na revista “Explore” um artigo intitulado “Testando a escrita alegadamente mediúnica: um estudo experimental controlado” (Testing alleged mediumistic writing: na experimental controlled study).

Essencialmente, foram estudados oito médiuns psicógrafos cujo nome não foi divulgado, em função do anonimato previsto pela ética de pesquisa. Foram fornecidos a eles 98 fotos de pessoas desencarnadas, fornecidas pelos parentes à pesquisa, com uma média de 7 a 46 fotos por sessão (p. 3). Os médiuns só tinham acesso às fotos no início da sessão, e o pesquisador que as levava não teve contato com os familiares das pessoas. Os médiuns pegavam na mesa as fotografias das pessoas que eles julgavam perceber e psicografavam uma carta aos parentes. A grande maioria dos médiuns comentou espontaneamente “que se sentiu confortável durante as sessões e que se sentiu confiante que foi capaz de entrar em contato com o desencarnado”.  Os pesquisadores gravaram os comentários que os médiuns fizeram acerca das comunicações e os transcreveram, criando o que chamaram de “descrições”.

Após a coleta de dados, produziram-se 78 cartas e 64 descrições a partir de 18 sessões mediúnicas. Cada consulente (sitter) recebeu um conjunto de seis cartas e seis descrições, sendo uma das cartas e uma das descrições atribuídas ao parente ou amigo do qual ele desejaria ter notícias. As cinco outras cartas e as cinco outras descrições eram de desencarnados com o mesmo gênero e idade aproximada.

Essencialmente os consulentes avaliaram as cartas e as descrições com uma escala que tem 4 itens que vão de “estou certo que esta carta não se refere ao meu parente ou amigo” a “estou certo de que esta carta se refere ao meu parente ou amigo”. O mesmo foi feito com as descrições. Há classificações intermediárias, como “possivelmente se refere” e “possivelmente não se refere”.

Havia também uma escala para avaliar os itens de informação, mas não houve muita informação objetiva (informação que pudesse ser verificada, como profissão, roupas que vestia, instituições que participou, qualquer coisa que pudesse identificar objetivamente o espírito ou não) no conteúdo das cartas em geral (p. 5).

A análise das cartas e descrições (apenas as que seriam referentes aos desencarnados em questão) apontam, em geral, para sua não identificação. Vinte cartas não foram consideradas dos desencarnados ou provavelmente não o seriam. 19 descrições também ficam  nesse grupo. 4 cartas foram classificadas como provavelmente ou certamente escritas pelos desencarnados que se desejava contatar. 6 descrições provavelmente seriam dos desencarnados.

Os dados acima podem ser vistos no gráfico de colunas acima:

Figura 1: Escores obtidos dos consulentes referentes às cartas e descrições dos desencarnados que eles desejavam contatar, realizada a partir da Escala de Avaliação Global.

Os pesquisadores concluem pela incapacidade da maioria dos médiuns em fornecer “informação anômala” sobre os desencarnados em condições experimentais rigorosas. Três hipóteses explicativas são aventadas para a explicação desses resultados:

1.      Os médiuns não são capazes de obter informações anômalas;

2.      Alguns médiuns são capazes de obter informações anômalas, mas os que foram estudados não;

3.      Os médiuns participantes do estudo não obtiveram informações anômalas porque as condições da pesquisa foram muito restritivas e artificiais.

 

Os autores levantaram algumas condições que poderiam ser observadas nos próximos estudos com  médiuns psicógrafos em busca de melhores resultados.

Independente do resultado obtido, o estudo merece a leitura dos espíritas, especialmente os que praticam a mediunidade, no sentido de possibilitar debates e reflexões sobre as reuniões que mantemos, as capacidades reais de nossos médiuns e o que podemos ou não oferecer ao grande público com segurança, em matéria de informação.

Outros estudos com médiuns já mostraram resultados com informações objetivas fornecidas por médiuns que não poderiam tê-las obtido por aprendizagem ou mesmo fraude, mesmo em estudos experimentais controlados. Que possamos aprender com os fatos e desenvolver mais os cuidados que dispensamos na identificação, desenvolvimento e educação dos médiuns, bem como com a avaliação, confirmação e divulgação de informações obtidas pela via mediúnica.

 

Elizabeth Schmitt Freire, Alexandre Caroli Rocha, Victor Scio Tasca, Mateus Moreira Marnet e Alexander Moreira-Almeida, Testing alleged mediumistic writing: na experimental controlled study, “Explore”, New York, Elsevier, 2020 (article in press)

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

INDIVIDUALIDADES COLETIVAS[1]

 


Miramez

 

Os povos são individualidades coletivas que passam pela infância, a idade madura e a decrepitude, como os indivíduos. Essa verdade constatada pela História não nos permite supor que os povos mais adiantados deste século terão o seu declínio e o seu fim, como os da Antiguidade?

‒ Os povos que só vivem materialmente, cuja grandeza se funda na força e na extensão territorial, crescem e morrem porque a força de um povo se esgota como a de um homem; aqueles cujas leis egoístas atentam contra o progresso das luzes e da caridade, morrem porque a luz aniquila as trevas e a caridade mata o egoísmo. Mas há para os povos, como para os indivíduos, a vida da alma, e aqueles, cujas leis se harmonizam com as leis eternas do Criador, viverão e serão o farol dos outros povos.

Questão 788/O Livro dos Espíritos

 

A lei do progresso espiritual é um fato reconhecidamente real. Cada pessoa e cada povo tem a sua ascensão e a sua queda. Podemos observar isso na história de todos os povos do planeta, pois são processos da evolução das criaturas.

Na Terra não existe felicidade, porque os homens ainda desconhecem o equilíbrio das suas forças poderosas, que são o progresso moral e o progresso intelectual. Quando um povo se apega a só um destes, ocorrerá certamente um desnível, por lhe faltar o equilíbrio. Somente para o futuro, que não se encontra muito próximo, é que as nações deverão descobrir essas duas asas que as levarão à estabilidade espiritual, por encontrar o amor em todas as suas irradiações cristãs.

Os povos são individualidades agregadas que deverão crescer juntos, por uns precisarem dos outros, em trocas permanentes de valores. Todos os sofrimentos são oriundos da falta de conhecimentos espirituais e da prática das normas estabelecidas pelo Cristo.

Existem no mundo atual duas forças poderosas nascidas das mentes dos homens ansiosos por poderes transitórios, que são o capitalismo usurário e o socialismo ateu. Estes dois movimentos tendem a morrer, pois ficarão a dizer "Senhor, Senhor!" Somente nas linhas frágeis da teoria, sem condições espirituais da vivência, para dar lugar à força do Cristo, que gera uma filosofia social cristã. Essa é que vai vencer e estabilizar os homens dentro das normas naturais, com a finalidade precípua de amar ao próximo como a si mesmo. Nada vai faltar, dentro da justiça de Deus.

Enquanto os homens estiverem alimentando os monstros do orgulho e do egoísmo, viverão sofrendo as consequências que essas imperfeições trazem ao ambiente onde vivem. Elas devem ceder lugar ao amor e à caridade.

Vamos ver o que registrou Lucas a esse respeito, no capítulo seis, versículo quarenta e seis:

 

Porque me chamais, Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?

 

É necessário fazer o que Jesus manda que seja feito, atualizar as vidas dentro dos Seus preceitos a cada dia, porque a reforma íntima de cada um se refletirá no seu exterior. A felicidade, o céu existe ou pode existir dentro do coração que ama.

Decretos e leis humanas não consertam a vida de ninguém, se elas não são compatíveis com as leis eternas. As leis da Terra devem obedecer às do céu. Deus nunca deixou, como dizem alguns, o mundo nas mãos dos homens e com ele nunca deixou de se importar. Como se engana quem faz essa dedução! Os destinos dos homens estão nas mãos de Deus, e Ele, o Supremo Criador de todas as coisas, nos dirige a todos e, ainda mais, com todo amor.

Queiramos ou não, somos dirigidos, e em torno de nós, dos dois planos da vida, estamos cercados por testemunhas espirituais constantemente, por ordem d'Aquele que é a vida.

Não existe estabilidade eterna na Terra, entre os povos. A vida no planeta é transitória, mas, com o tempo, pode-se viver quase feliz, dependendo do modo de viver. Cristo é a felicidade.

Quem acompanha o Mestre dos mestres está sempre iluminada pelo Seu amor, aprendendo com Ele a amar também.

Um povo mais espiritualizado servirá de modelo para os outros povos, porém, para servir de exemplo é necessário o equilíbrio das forças que possui. É imprescindível que o intelecto esteja em plena conexão com a moral cristã: amor e sabedoria com as mãos dadas, e desta junção nascerá a luz.



[1] Filosofia Espírita – Volume 16 – João Nunes Maia 

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

EXPERIÊNCIAS DE QUASE MORTE NÃO SÃO ALUCINAÇÕES[1]

 


 

Experiência de quase-morte

Foram divulgados os resultados do maior estudo já realizado sobre a "consciência humana na hora da morte".

O estudo internacional durou quatro anos e envolveu 2.060 casos de parada cardíaca em 15 hospitais.

Veja as principais conclusões publicadas pela equipe:

Termos amplamente utilizados, ainda que cientificamente imprecisos, como experiências de quase-morte e experiências fora do corpo podem não ser suficientes para descrever a experiência real da morte.

Os temas relacionados com a experiência da morte parecem ser muito mais amplos do que o que tem sido considerado até agora, ou o que tem sido descrito nas chamadas experiências de quase morte.

Em alguns casos de parada cardíaca, memórias da consciência visual compatíveis com as chamadas experiências fora do corpo podem corresponder com os eventos reais.

Uma elevada proporção das pessoas pode ter experiências vívidas da morte, mas não se lembram delas devido aos efeitos da lesão cerebral ou dos analgésicos sobre os circuitos de memória.

As experiências envolvendo o momento da morte merecem investigações [científicas] genuínas sem preconceitos.

 

Consciência após a morte

Este novo estudo, chamado AWARE (sigla em inglês para consciência durante a ressuscitação), foi patrocinado pela Universidade de Southampton, no Reino Unido, mas envolveu pacientes de 15 hospitais no Reino Unido, nos Estados Unidos e na Áustria.

A grande novidade é que os pesquisadores testaram a validade das experiências relatadas pelos pacientes utilizando marcadores objetivos, para determinar se as alegações de consciência compatíveis com experiências fora do corpo correspondiam a eventos reais ou eram alucinatórios.

Eles afirmam que não há fundamentação científica para chamar as experiências de quase morte ou as experiências fora do corpo de "alucinatórias ou ilusórias", uma vez que são poucos os estudos objetivos sobre essas experiências e que os relatos da experiência fora do corpo foram comprovados em pelo menos um caso.

Com base em sua experiência, e para dar maior validade científica aos estudos futuros, os pesquisadores recomendam que seus colegas concentrem-se nos casos de parada cardíaca, que é considerada biologicamente sinônimo de morte, em vez de estados mal definidos, algumas vezes citados como "quase-morte".

 

Lembranças mais ricas

Entre aqueles que relataram uma percepção de consciência ‒ 46% do total ‒ experimentaram uma ampla gama de lembranças mentais em relação à morte que não eram compatíveis com o termo comumente usado de experiências de quase morte, incluindo medo e perseguições ‒ os relatos tão comuns de "túneis de luz" não são a maioria.

Apenas 9% tiveram experiências compatíveis com esse padrão que comumente se fala sobre experiências de quase morte, e 2% apresentaram plena consciência, compatível com experiências fora do corpo, com lembranças explícitas de "ver" e "ouvir" eventos.

Curiosamente, 39% dos pacientes que sobreviveram a paradas cardíacas e puderam ser entrevistados descreveram uma percepção de consciência, mas não tinham qualquer lembrança explícita de eventos.

"Isto sugere que mais pessoas podem ter atividade mental inicialmente, mas então perdem suas memórias após a recuperação, quer devido aos efeitos da lesão cerebral ou dos sedativos sobre as lembranças," explicou o Dr. Sam Parnia, da Universidade Estadual de Nova Iorque (EUA).

 

Confirmação objetiva

Um dos casos pode ser confirmado graças a gravações realizadas durante a parada cardíaca.

"Isto é significativo, uma vez que tem sido assumido que as experiências em relação à morte são provavelmente alucinações ou ilusões, ocorrendo quer antes de o coração parar ou depois que o coração foi reanimado, mas não uma experiência correspondente a eventos 'reais' quando o coração não está batendo," disse o Dr. Parnia.

"Neste caso, a consciência e o alerta parecem ter ocorrido durante um período de três minutos, quando não havia batimento cardíaco. Isto é paradoxal, já que o cérebro deixa de funcionar normalmente dentro de 20 a 30 segundos depois de o coração parar e não retoma novamente até que o coração seja reanimado. Além disso, as lembranças detalhadas da consciência visual, neste caso, foram consistentes com eventos verificados," disse o cientista.

O pesquisador afirma que a possibilidade de confirmação de apenas um caso é insuficiente para uma conclusão definitiva, e recomenda a realização de "novos estudos objetivos sem preconceitos" com o tema.

Experiências de Quase Morte são mais reais que a realidade

 

 

Veja neste blog os artigos:

‒ Começa o maior estudo já feito sobre Experiência de Quase Morte, publicado em 19/08/2017.

‒ Neurocientistas encontram fortes evidências da Vida após a Morte, publicado em 08/02/2017.

‒ Estudo inédito no País avalia relatos de Quase Morte, publicado em 25/08/2016. 

terça-feira, 6 de outubro de 2020

QUALIFICAÇÃO DE SANTO APLICADA A CERTOS ESPÍRITOS[1]

 


Allan Kardec

 

Num grupo de tendo-se apresentado um Espírito sob o nome de “São José, santo, três vezes santo”, isto deu ensejo a que se fizesse a seguinte pergunta:

 

Um Espírito, mesmo canonizado em vida, pode dar-se a qualificação de santo, sem faltar à humildade, que é um dos apanágios da verdadeira santidade e, invocando-o, permite que lhe deem esse título? O Espírito que o toma deve, por esse fato, ser tido por suspeito?

 

Um outro Espírito respondeu:

 

Deveis rejeitá-lo imediatamente, pois equivaleria a um grande capitão que se vos apresentasse exibindo pomposamente seus numerosos feitos de armas, antes de declinar o seu, ou a um poeta que começasse por se gabar de seus talentos. Veríeis nessas palavras um orgulho despropositado. Assim deve ser com homens que tiveram algumas virtudes na Terra e que foram julgados dignos de canonização. Se se apresentarem a vós com humildade, crede neles; se vierem se fazendo preceder de sua santidade, agradecei e nada perdereis. O encarnado não é santo porque foi canonizado: só Deus é santo, porque só ele possui todas as perfeições. Vede os Espíritos superiores, que conheceis pela sublimidade de seus ensinamentos: eles não ousam dizerem-se santos; qualificam-se simplesmente de Espíritos de verdade.

 

Esta resposta demanda algumas retificações. A canonização não implica a santidade no sentido absoluto, mas simplesmente um certo grau de perfeição. Para alguns a qualificação de santo tornou-se uma espécie de título banal, fazendo parte integrante do nome, para distingui-los de seus homônimos, ou que lhes dão por hábito. Santo Agostinho, São Luís, São Tomé, podem, pois, antepor o nome santo à sua assinatura, sem que o façam por um sentimento de orgulho, que seria tanto mais descabido em Espíritos superiores que, melhor que os outros, não fazem nenhum caso das distinções dadas pelos homens. Dar-se-ia o mesmo com os títulos nobiliárquicos ou as patentes militares. Seguramente aquele que foi duque, príncipe ou general na Terra não o é mais no mundo dos Espíritos e, no entanto, assinando, poderão tomar essas qualificações, sem que isto tenha consequência para o seu caráter. Alguns assinam: aquele que, quando vivo na Terra, foi o duque de tal. O sentimento do Espírito se revela pelo conjunto de suas comunicações e por sinais inequívocos em sua linguagem. É assim que não nos podemos enganar sobre aquele que começa por se dizer: “São José, santo, três vezes santo.” Só isto bastaria para revelar um Espírito impostor, adornando-se com o nome de São José. Assim, ele pôde ver, graças ao conhecimento dos princípios da doutrina, que sua velhacaria não encontrou ingênuos no círculo onde quis introduzir-se.

O Espírito que ditou a comunicação acima é, pois, muito absoluto no que concerne à qualificação de santo e não está certo quando diz que os Espíritos superiores se dizem simplesmente Espíritos de verdade, qualificação que não passaria de um orgulho disfarçado sob outro nome, e que poderia induzir em erro, se tomado ao pé da letra, porque nenhum se pode vangloriar de possuir a verdade absoluta, nem a santidade absoluta. A qualificação de Espírito de verdade não pertence senão a um só, e pode ser considerada como nome próprio; está especificada no Evangelho. Aliás, esse Espírito se comunica raramente e apenas em circunstâncias especiais. Devemos pôr-nos em guarda contra os que se adornam indevidamente com esse título: são fáceis de reconhecer, pela prolixidade e pela vulgaridade de sua linguagem.



[1] Revista Espírita – Julho/1866 – Allan Kardec

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

ANTONIA VIEIRA MEYER[1]

 


 

Antonieta, na intimidade, desencarnou em 10 de abril de 1988 no Rio de Janeiro, tendo nascido em Caçapava, São Paulo, em 05 de setembro de 1902.

Foi católica praticante e sem saber possuía uma extraordinária mediunidade.

Recebeu, via mediúnica várias obras: “Trajetória de uma Alma” e “Calvário Redentor”, ditadas pelo Espírito José Euclides, com quem teve um estreito relacionamento em vidas passadas. Esses livros foram editados pelo IDE.

Em 1962 conseguiu fazer uma viagem à Europa e à Terra Santa. Visitou Lisboa, cidade que afirmava ver, em seus sonhos, desde criança.

Dedicou-se à tarefa de assistência a irmãos hansenianos de um Centro Espírita de Jacarepaguá.


sábado, 3 de outubro de 2020

UM CASO DE TRANSFIGURAÇÃO[1]

 


Edson Luiz Wachholz - setembro/2020

 

Em todas as épocas, a Humanidade tem tido à conta de sobrenatural tudo aquilo que não consegue explicar. Allan Kardec, reforçando o caráter esclarecedor da Doutrina Espírita, desenvolve em O Livro dos Médiuns, no capítulo intitulado Do Maravilhoso e do Sobrenatural, uma série de argumentos com a finalidade de esclarecer a perfeita integração entre os fenômenos mediúnicos e as leis naturais. Como o bom professor que leva seus alunos a pensar por si próprios, questiona Kardec[2]:

 

Mas, que entendeis por sobrenatural?

O que é contrário às leis da Natureza.

Conheceis, porventura, tão bem essas leis, que possais marcar limite ao poder de Deus?

 

Mais adiante, o Codificador assevera que[3] (…) os fatos que o Espiritismo produz nos revelam leis novas e nos dão a explicação de um mundo de coisas que pareciam sobrenaturais.

É a narrativa de um desses fatos tomados, a priori, como sobrenaturais, mas que a Doutrina Espírita explica à luz da razão, que encontramos no Evangelho de Mateus[4]. Jesus chama Pedro, Tiago e João e dirige-se para um monte a fim de ficarem sozinhos. Em determinado momento, os discípulos admirados observam que o rosto de Jesus brilhava como o sol e suas roupas haviam se tornado brancas como a luz.

Kardec nos esclarece[5] que a transfiguração consiste na mudança do aspecto de um corpo vivo.  Relata o caso ocorrido entre 1858 e 1859, de um menina de 15 anos que transfigurava-se, tomando a aparência de pessoas desencarnadas. O fenômeno era tão intenso que a menina apresentava semelhança fisionômica, no olhar, no tom de voz e na maneira de falar.

Nos dias de hoje, com maior ou menor intensidade, observamos principalmente acompanhando os fenômenos de psicofonia, a transfiguração dos médiuns, que modificam seus traços fisionômicos ou o timbre da voz, em perfeita sintonia com o Espírito comunicante.

É o relato de um desses casos que encontramos em pesquisa de documentos históricos que, oportunamente, realizamos na sede da União Regional Espírita 2ª região, com sede em Ponta Grossa.

Em texto datilografado, a Sra. Maria Margarete[6] inicia seu relato dizendo que nada conhecia, anteriormente, sobre a Doutrina Espírita ou sobre os fenômenos mediúnicos.

Conta que na noite de 4 de outubro de 1975, atendendo a um convite de seu esposo, que era espírita, dirigiu-se com ele à sede da Sociedade Espírita Francisco de Assis de Amparo aos Necessitados – SEFAN, em Ponta Grossa, para assistir a uma palestra do orador baiano Divaldo Pereira Franco.

Após a brilhante palestra, foram, ela e o esposo, convidados pelo Sr. Guaracy Paraná Vieira, para se dirigirem à Organização Espírita Irmã Scheilla, instituição fundada pelo próprio Divaldo, nessa cidade.

Depois da reunião informal, na qual Divaldo relatou diversos casos, com seu bom humor característico, os presentes buscaram a prece para agradecer a Deus a oportunidade.

A Sra. Maria Margarete confessa que não estava acostumada com aquela prática e decidiu manter os olhos abertos, observando tudo o que se passava ao redor.

Aqueles que temos tido a oportunidade de acompanhar Divaldo, em suas conferências, presenciamos amiúde, durante o encerramento, o fenômeno da psicofonia, quando o médium altera seu timbre de voz, trazendo-nos a mensagem consoladora dos imortais.

Foi nesse momento, que ela percebeu uma mudança significativa na voz do médium baiano.

Também se deu conta que os traços fisionômicos dele começaram a se modificar. Importante salientar que, à época, Divaldo estava com 48 anos.

Relata a senhora que, inicialmente sua pele foi ficando envelhecida e quase encarquilhada. No seu rosto, antes liso, começou a crescer barba que foi aumentando, branca, abundante, levemente ondulada. Igualmente seus cabelos ficaram grisalhos e cresceram dando-lhe o aspecto de um velho. (sic)

Ao lermos o texto original, percebemos, quiçá pelos sentidos extrafísicos, toda a emoção que o insólito fenômeno lhe causava.

Continua dizendo que a bela mensagem prosseguiu e eu via na minha frente uma outra criatura. Quando a preleção foi terminando, assisti a outra metamorfose, agora em sentido inverso: os cabelos foram diminuindo e escurecendo, a barba igualmente foi encurtando até desaparecer de todo e, quando Divaldo encerrou, sua figura era a mesma de sempre e sua voz era a de costume.

Confessa a Sra. Maria Margarete que, diante do fato de que a metamorfose de Divaldo não causasse estranheza ou curiosidade nos demais, imaginou ser um fenômeno comum e rotineiro.

Chegando em casa e comentando o acontecido com o marido espírita, recebeu o esclarecimento de que a transfiguração completa, tal qual ela havia presenciado, não era algo corriqueiro.

Não fosse um fato singular, acontecido a posteriori, poderíamos até objetar que, tocada em sua emoção, a senhora teria sido vítima de uma ilusão.

Afirma que posteriormente, folheando umas revistas espíritas vim a identificar a fisionomia na qual eu vira Divaldo Pereira Franco transformar-se naquela noite. Era o Dr. Bezerra de Menezes, que vim a saber fora grande vulto do Espiritismo. Apenas havia uma pequena diferença, na fisionomia do Espírito que eu vi os cabelos eram um pouco mais escuros e a barba era um pouco mais ondulada do que a da fotografia. No mais era tudo idêntico. (sic)

É ainda Allan Kardec que esclarece definitivamente a questão, quando assevera que[7] poderá então o perispírito mudar de aspecto, fazer-se brilhante, se tal for a vontade do Espírito e se este dispuser de poder para tanto. Um outro Espírito, combinando seus fluidos com os do primeiro, poderá, a essa combinação de fluidos, imprimir a aparência que lhe é própria, de tal sorte, que o corpo real desapareça sob um envoltório fluídico exterior, cuja aparência pode variar à vontade do Espírito. Esta parece ser a verdadeira causa do estranho fenômeno e raro, cumpra se diga, da transfiguração.

Os fenômenos mediúnicos são de todos os tempos e repetem-se incontáveis vezes, chamando-nos a atenção para a imortalidade da alma. A Doutrina Espírita, cumprindo seu papel de consolo e esclarecimento, traz-nos a luz através da qual podemos compreender a sua completa integração com as Leis Divinas.



[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2013. pt.1, cap. II, item 7.

[3] Op. cit. pt. 1, cap. II, item 17.

[4] BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 17, vers. 1 a 8.

[5] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 2013. pt. 2, cap. VII, item 122.

[6] Inobstante o original apresentar o nome completo da Sra. Maria Margarete, preferimos manter sigilo quanto ao sobrenome. Pelas pesquisas realizadas a referida senhora já desencarnou e não conseguimos contato com seus filhos para solicitar a devida autorização para a citação completa do nome.

[7] Op. cit. pt. 2, cap. VII, item 123.