terça-feira, 6 de outubro de 2026

O ESPÍRITO DE UM LADO, O CORPO DO OUTRO[1]

 


Allan Kardec

 

CONVERSA COM O ESPÍRITO DE UMA PESSOA VIVA

 

Nosso distinto colega, o Sr. conde de R... C..., dirigiu-nos a seguinte carta, datada de 23 de novembro último:

Senhor Presidente,

Ouvi dizer que médicos, entusiastas de sua arte e desejosos de contribuírem para o progresso da Ciência, tornando-se úteis à Humanidade, legaram, por testamento, os seus corpos ao escalpelo das salas anatômicas. A experiência a que assisti, da evocação de uma pessoa viva (Sessão da Sociedade de 14 de outubro de 1859), não me pareceu muito instrutiva, por se tratar de uma coisa muito pessoal: pôr em comunicação um pai vivo com a filha morta. Pensei que aquilo que os médicos fizeram pelo corpo, um membro da Sociedade poderia fazer pela alma, ainda em vida, pondo-se à vossa disposição para um ensaio desse gênero. Talvez pudésseis, preparando as perguntas antecipadamente, que desta vez nada teriam de pessoal, obter novas luzes sobre o fato do isolamento da alma e do corpo. Aproveitando de uma indisposição que me retém em casa, venho oferecer-me como paciente para estudo, se estiverdes de acordo. Portanto, caso não haja contraordem, na próxima sexta-feira deitar-me-ei às nove horas e penso que às nove e meia podereis chamar-me etc.

 

Aproveitamos a oferta do Sr. conde de R... C... com tanto mais interesse quanto, pondo-se à nossa disposição, pensávamos que seu Espírito se prestaria de bom grado às nossas pesquisas. Por outro lado, sua instrução, a superioridade de sua inteligência (o que, abrindo parêntesis, não o impede de ser um excelente espírita) e a experiência que adquiriu em suas viagens em torno do mundo, como capitão da marinha imperial, faziam que esperássemos de sua parte uma apreciação mais justa de seu estado.

De fato não nos enganamos. Em consequência tivemos com ele as duas conversas que se seguem, a primeira a 25 de novembro e a segunda a 2 de dezembro de 1859.

 

(Sociedade, 25 de novembro de 1859)

 

1. Evocação.

 – Estou aqui.

2. Neste momento tendes consciência do desejo que manifestastes, de ser evocado?

– Perfeitamente.

3. Em que lugar vos achais aqui?

– Entre vós e o médium.

4. Vede-nos tão claramente como quando assistis pessoalmente às nossas sessões?

– Mais ou menos, embora um pouco velado. Ainda não durmo bem.

5. Como tendes consciência de vossa individualidade aqui presente, ao passo que vosso corpo está no leito?

– Neste momento meu corpo não me é senão um acessório. Sou EU que estou aqui.

 

Observação – “Sou EU que estou aqui” é uma resposta deveras notável. Para ele, o corpo não é a parte essencial de seu ser: esta parte é o Espírito, que constitui o EU; o seu eu e o seu corpo são duas coisas distintas.

 

6. Podeis transportar-vos instantaneamente, e à vontade, daqui para vossa casa e vice-versa?

– Sim.

7. Indo e vindo daqui para vossa casa, tendes consciência do trajeto que fazeis? Vedes os objetos que estão no caminho?

– Eu o poderia, mas negligencio fazê-lo; não me interessam.

8. O estado em que vos encontrais é semelhante ao de um sonâmbulo?

– Não completamente. Meu corpo dorme, ou seja, está mais ou menos inerte; o sonâmbulo não dorme: suas faculdades estão modificadas, mas não aniquiladas.

9. O Espírito evocado de uma pessoa viva poderia indicar remédios, como um sonâmbulo?

 – Se os conhecer, ou caso se ache em contato com um Espírito que os conheça, sim; do contrário, não.

10. A lembrança de vossa existência corporal está claramente presente em vossa memória?

– Muito clara.

11. Poderíeis citar algumas de vossas ocupações mais destacadas do dia?

– Poderia, mas não o farei e lamento ter proposto esta pergunta (Ele havia pedido que lhe dirigissem uma pergunta desse gênero como prova).

12. É como Espírito que lamentais ter proposto esta questão?

– Como Espírito.

13. Por que o lamentais?

– Porque melhor compreendo quanto é justo que, na maior parte dos casos, seja proibido fazê-lo.

14. Poderíeis descrever o vosso quarto de dormir?

– Certamente; e o do porteiro também.

15. Pois bem! Descrevei, então, um deles.

– Eu disse que poderia, mas poder não é querer.

16. Qual a doença que vos retém em casa?

– A gota.

17. Há um remédio para a gota? Se o conheceis, poderíeis indicá-lo, pois prestaríeis um grande serviço?

– Poderia, mas me guardarei de o fazer: o remédio seria pior que o mal.

18. Pior ou não, quereis indicá-lo, mesmo que não venhais a vos servir dele?

– Há vários, entre os quais o lírio verde.

 

Observação – Ao despertar, o Sr. de R... reconheceu jamais ter ouvido falar do emprego desta planta como específico antigotoso.

 

19. Em vosso estado atual, veríeis um perigo que poderia correr um amigo e poderíeis vir em seu auxílio?

 – Poderia. Inspirá-lo-ia; se ouvisse a minha inspiração e, ainda com mais proveito, se fosse médium.

20. Desde que o evocamos por vossa vontade, e que vos pondes à nossa disposição para estudos, tende a bondade de descrever, o melhor possível, o estado em que vos encontrais agora.

– Estou no estado mais feliz e mais satisfatório que se possa experimentar. Jamais tivestes um sonho em que o calor do leito vos faz crer que sois levemente embalados no ar, ou na crista de ondas tépidas, sem nenhuma preocupação com os movimentos, sem a menor consciência dos membros pesados e incômodos, a se moverem ou a se arrastarem, numa palavra, sem necessidades a satisfazer? Não sentindo o aguilhão da fome nem o da sede? Encontro-me neste estado junto a vós. E ainda não vos dei senão uma pequena ideia do que experimento.

21. O estado atual de vosso corpo sofre alguma modificação fisiológica, em razão da ausência do Espírito?

– De modo algum. Estou no estado a que chamais primeiro sono; sono pesado e profundo que todos experimentamos e durante o qual nos afastamos do corpo.

 

Observação – O sono, que não era completo no começo da evocação, estabeleceu-se pouco a pouco, em consequência do próprio desprendimento do Espírito, que deixa o corpo no maior repouso.

 

22. Se, em razão de um movimento brusco, vosso corpo é instantaneamente despertado enquanto vosso Espírito aqui está, o que aconteceria?

– O que é brusco para o homem é muito lento para o Espírito, que sempre tem tempo de ser avisado.

23. A felicidade que acabais de descrever e que desfrutais em vosso estado de liberdade tem alguma relação com as sensações agradáveis que por vezes se experimenta nos primeiros momentos da asfixia? O Sr. S..., que involuntariamente teve a satisfação de as experimentar, vos dirige esta pergunta.

– Ele não está de todo errado. Na morte por asfixia há um instante análogo àquele de que fala, mas somente o Espírito perde a lucidez, enquanto aqui ela é consideravelmente aumentada.

24. Vosso Espírito prende-se ainda por um laço qualquer ao vosso corpo?

– Sim, e disso guardo perfeita consciência.

25. A que podeis comparar este laço?

– A nada que conheçais, senão a uma luz fosforescente, para vos dar uma ideia, se o pudésseis ver, mas que em mim não produz nenhuma sensação.

26. A luz vos afeta da mesma maneira? Tem a mesma tonalidade que vedes pelos olhos?

– Absolutamente, porque os olhos me servem, de alguma sorte, como janelas de meu cérebro.

27. Percebeis os sons tão distintamente?

– Mais ainda, já que percebo muitos outros que vos escapam.

28. Como transmitis o pensamento ao médium?

– Atuo sobre sua mão para lhe dar uma direção, que facilito por uma ação sobre o cérebro.

29. Utilizai-vos das palavras do vocabulário que ele tem na cabeça, ou indicais as palavras que deve escrever?

– Uma coisa e outra, conforme a conveniência.

29[2]. Se tivésseis por médium alguém que desconhecesse a vossa língua e a dele vos fosse desconhecida, um chinês, por exemplo, como faríeis para ditar-lhe?

– Isso seria mais difícil; talvez impossível. Em todo caso, só seria possível com uma flexibilidade e uma docilidade muito rara de encontrar.

30. Um Espírito, cujo corpo estivesse morto, experimentaria a mesma dificuldade para se comunicar por um médium completamente estranho à língua que falava em vida?

– Talvez menor, mas ela existiria sempre. Acabo de dizer que, conforme o caso, o Espírito dá ao médium as suas expressões, ou toma as dele.

31. Vossa presença aqui fatiga o corpo?

– Absolutamente.

32. Vosso corpo sonha?

– Não; é justamente por isso que não se cansa. A pessoa da qual falais experimentaria por seus órgãos impressões que se transmitiam ao Espírito; era isto que a fatigava. Nada experimento de semelhante.

 

Observação – Ele faz alusão a uma pessoa de que se falava no momento e que, em semelhante situação, tinha dito que seu corpo se fatigava, e havia comparado seu Espírito a um balão cativo, cujas sacudidelas abalam o poste que o retém. No dia seguinte o Sr. R... de C... contou-nos haver sonhado que se achava na Sociedade, entre nós e o médium.

Evidentemente é uma lembrança da evocação. É provável que no momento da pergunta não sonhasse, pois respondeu negativamente. Também é possível, e mais provável, que não sendo o sonho senão uma lembrança da atividade do Espírito, na verdade não é o corpo que sonha, desde que não pensa. Ele, pois, respondeu negativamente, sem saber se, uma vez desperto, seu Espírito se recordaria. Se o corpo tivesse sonhado enquanto seu Espírito estava ausente, é que o Espírito teria tido uma dupla ação.

Ora, ele não poderia estar ao mesmo tempo na Sociedade e em sua casa.

 

33. Vosso Espírito se acha no estado em que se encontrará quando estiverdes morto?

– Mais ou menos a mesma coisa, por causa do laço que o prende ao corpo.

34. Tendes consciência das existências anteriores?

– Muito confusamente. Eis aí uma diferença de que me esquecia. Após o desprendimento completo que se segue à morte, as lembranças são muito mais precisas. Atualmente são mais completas do que durante a vigília, mas não suficientes para poder especificá-las de modo mais inteligível.

35. Se, ao despertar, vos mostrassem vossos escritos, teríeis consciência das respostas que acabais de dar?

– Poderia identificar alguns de meus pensamentos; mas muitos outros não encontrariam nenhum eco em meu pensamento quando acordado.

36. Poderíeis exercer sobre o corpo uma influência de tal forma intensa que fosse capaz de o despertar?

– Não.

37. Poderíeis responder a uma pergunta mental?

– Sim.

38. Vede-nos espiritualmente ou fisicamente?

– De ambos os modos.

39. Poderíeis ir visitar o irmão de vosso pai, que dizem estar numa ilha da Oceania e, como marinheiro, poderíeis precisar a posição dessa ilha?

– Não posso nada disso.

40. Que pensais agora de vossa interminável obra e seu objetivo?

– Penso que devo prossegui-la, com o mesmo objetivo. É tudo quanto posso dizer.

 

Observação – Ele havia desejado que lhe fizessem essa pergunta, relativa a importante trabalho que empreendia sobre a marinha.

 

41. Ficaríamos muito contentes se dirigísseis algumas palavras aos vossos colegas, uma espécie de pequeno discurso.

– Já que tenho oportunidade, aproveito-a para vos afirmar a minha fé no futuro da alma; que a maior falta que os homens podem cometer é procurar provas e provas. Isto quando muito é perdoável nos homens que se iniciam no conhecimento do Espiritismo. Já não vos repetiram milhares de vezes que é preciso crer, porque se compreende e se ama a justiça e a verdade, e que se déssemos satisfação a uma dessas perguntas pueris, os que pretendessem fazê-la para se convencerem não deixariam de fazer outras no dia seguinte e perderíeis, infalivelmente, um tempo precioso, fazendo os Espíritos lerem a sorte? Eu o compreendo agora muito melhor do que quando desperto e vos posso dar um sábio conselho: quando quiserdes obter tais resultados, dirigi-vos aos Espíritos batedores e às mesas falantes que, nada tendo de melhor a dizer, podem ocupar-se de tais manifestações. Perdoai-me a lição, mas tenho necessidade dela e não me aborreço de a dar a mim mesmo.

 

(Segunda conversa – 2 de dezembro de 1859)

 

42. Evocação.

– Eis-me aqui.

43. Dormis bem?

– Não muito; mas irei.

44. No caso particular em que vos encontrais, julgais útil fazer a evocação em nome de Deus, como se fosse o Espírito de um morto?

– Por que não? Por não estar morto, credes que Deus me seja indiferente?

45. Considerando-se que vos achais aqui, se vosso corpo recebesse uma picada, não bastante forte para vos despertar, mas suficiente para vos fazer estremecer, vosso Espírito a sentiria?

– Meu corpo não a sentiria.

46. Vosso Espírito teria consciência do fato?

– Nenhuma; mas notai que me falais de uma sensação leve e sem nenhum alcance, em termos de importância, seja para o corpo, seja para o Espírito.

47. A propósito da luz, dissestes que ela vos parece como se estivésseis em vigília, considerando-se que vossos olhos são como janelas por onde ela chega ao cérebro. Compreendemo-lo em relação à luz percebida pelo corpo; mas neste momento não é o vosso corpo que vê. Vedes ainda por um ponto circunscrito ou por todo o ser?

– É muito difícil vos fazer compreender. O Espírito percebe as sensações sem intermédio dos órgãos e não tem ponto circunscrito para as perceber.

48. Insisto novamente em saber se os objetos, o espaço que vos cerca têm para vós a mesma cor de quando estais desperto.

– Para mim, sim, porque meus órgãos não me enganam. Mas certos Espíritos encontrariam nisso grandes diferenças. Vós, por exemplo, percebeis os sons e as cores de modo muito diverso.

49. Percebeis os odores?

– Também melhor que vós.

50. Fazeis diferença entre a luz e a obscuridade?

– Diferença, sim. Mas para mim a obscuridade não é como para vós: vejo perfeitamente no escuro.

51. Vossa vista penetra os corpos opacos?

– Sim.

52. Poderíeis ir a um outro planeta?

– Isto depende.

53. De que depende?

– Do planeta.

54. A que planeta poderíeis ir?

– Aos que estão aproximadamente no mesmo grau da Terra.

55. Vede os outros Espíritos?

– Muitos e ainda.

 

Observação – Uma pessoa que o conhece intimamente, presente à sessão, disse que essa expressão lhe é muito familiar, vendo nisso, assim como em toda a forma da linguagem, uma prova de identidade.

 

56. Vede-os aqui?

– Sim.

57. Como constatais sua presença? Por uma forma qualquer?

– Por sua forma própria, isto é, por seu perispírito.

58. Vedes algumas vezes os vossos filhos e podeis falar-lhes?

– Vejo-os e lhes falo frequentemente.

59. Dissestes: Meu corpo é um acessório; sou EU que estou aqui. Esse eu é circunscrito, limitado, tem uma forma qualquer? Em suma, como vos vedes?

– É sempre o perispírito.

60. Então, para vós, o perispírito é um corpo?

– Mas, evidentemente.

61. Vosso perispírito imita a forma de vosso corpo material e vos parece que aqui estais com o vosso corpo?

– Sim, quanto à primeira pergunta, e não, quanto à segunda. Tenho perfeita consciência de estar aqui somente com o meu corpo fluídico luminoso.

62. Poderíeis dar-me um soco?

– Sim, mas não o sentiríeis.

63. Poderíeis fazê-lo de maneira sensível?

– Isto é possível; mas não o posso aqui.

64. Se, no momento em que estais aqui, vosso corpo morresse subitamente, que experimentaríeis?

– Eu lá estaria antes.

65. Ficaríeis desembaraçado mais prontamente do que se morrêsseis em circunstâncias ordinárias?

– Muito. Não tornaria a entrar senão para fechar a porta, depois de haver saído.

66. Dissestes que sofreis de gota. Não concordais com vosso médico, aqui presente, que pretende seja um reumatismo nevrálgico? Que pensais?

– Já que estais tão bem informado, penso que isto deve bastar.

67. [O médico] Em que vos baseais para supor que seja gota?

– É a minha opinião. Talvez me engane, sobretudo se estais tão certo de não vos enganar.

68. [O médico] Seria possível uma complicação de gota e reumatismo.

– Então ambos teríamos razão; não nos restaria senão nos abraçar. (Esta resposta provocou risos na assembleia)

69. Isto vos faz rir de nos ver rindo?

– Mas às gargalhadas. Então não me entendeis?

70. Disseste que o lírio verde é um remédio eficaz contra a gota. De onde vos veio essa ideia, tendo em vista que, desperto, não a sabíeis?

– Servi-me dele outrora.

71. Foi, portanto, numa outra existência?

– Sim, e fez-me mal.

72. Se vos fizessem uma pergunta indiscreta, ver-vos-íeis constrangido a respondê-la?

– Oh! É muito forte; tentai.

73. Assim, tendes perfeito livre-arbítrio?

– Mais que vós.

 

Observação – Em muitas ocasiões a experiência tem provado que o Espírito, isolado do corpo, conserva sempre a sua vontade e não diz senão o que quer. Compreendendo melhor o alcance das coisas, é mesmo mais prudente e discreto do que quando se acha desperto. Quando diz uma coisa, é que julga útil dizê-lo.

 

74. Teríeis tido a liberdade de não vir quando vos chamamos?

– Sim; livre de sofrer as consequências.

75. Quais seriam essas consequências?

– Se me recusar a ser útil aos meus semelhantes, principalmente quando tenho perfeita consciência de meus atos, sou livre, mas sou punido.

76. Que gênero de punição sofreríeis?

– Seria necessário vos desvelar o código de Deus, e isso seria muito longo.

77. Se neste momento alguém vos insultasse, dizendo coisas que, desperto, não suportaríeis, qual o sentimento que experimentaríeis?

– O desprezo.

78. Então não procuraríeis vingar-vos?

– Não.

79. Fazeis uma ideia da posição que ireis ocupar entre os Espíritos, quando lá estiverdes completamente?

– Não; isto não é permitido.

80. No estado atual em que vos achais, credes que o Espírito possa prever a morte do corpo?

– Algumas vezes. Contudo, se tivesse que morrer de repente, sempre teria tempo de a ele voltar.



[1] REVISTA ESPÍRITA – janeiro/1860 – Allan Kardec

[2] N. do T.: O número 29 foi repetido no original.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

GABRIEL GUERRER[1]

 


Michael Duggan – 7/outubro/2025

 

Pesquisas experimentais em psi continuam a explorar se a intenção mental pode ser registrada em sistemas físicos projetados para se comportar de forma imprevisível. O físico brasileiro Gabriel Guerrer é um dos novos pesquisadores que testam efeitos relacionados à consciência com dispositivos ópticos e baseados em ruído, mantendo o foco em procedimentos laboratoriais replicáveis.

§  Guerrer tem buscado a questão da interação mente-matéria com ferramentas extraídas da física experimental contemporânea.

§  Seu trabalho inclui replicações envolvendo métodos de fendas duplas, bem como experimentos com sistemas aleatórios baseados em ruído.

§  A pesquisa visa detectar pequenos efeitos relacionados à consciência por meio de instrumentação controlada, em vez de relatos anedóticos.

 

Carreira

Gabriel Guerrer possui doutorado em física pelo Centro Brasileiro de Pesquisa em Física (CBPF) e contribuiu para o experimento LHCb no acelerador de partículas do CERN. Atualmente, é pesquisador de pós-doutorado no Instituto D'Or de Pesquisa e Educação (IDOR), onde suas atividades multidisciplinares abrangem teoria da informação, neurociência e filosofia da mente. Ele está explorando psicologia anômala e metaciência, incluindo ferramentas pioneiras de código aberto para compreender as influências humanas sobre a aleatoriedade.

Em 2015, Dean Radin já havia realizado experimentos sugerindo uma influência da consciência humana no padrão de interferência de um sistema de luz óptica de fenda dupla. Guerrer trabalhou na compreensão do problema de assimetria matéria-antimatéria no experimento LHCb do CERN até 2009. Motivado pela leitura nos livros de Radin sobre seu trabalho com fendas duplas, ele tentou replicá-lo[2]. Após uma campanha bem-sucedida de financiamento coletivo, Guerrer começou a trabalhar em 2016. Testes em fase exploratória envolvendo 160 participantes foram seguidos por testes confirmatórios envolvendo 80 participantes.

 

Replicação de fendas duplas

O trabalho de Guerrer constitui uma investigação abrangente sobre as interações relacionadas à consciência com um sistema de fenda dupla. Inicialmente, seus experimentos exploratórios destacaram disparidades entre condições de intenção e relaxamento. Após essa fase exploratória, que identificou o conjunto mais convincente de parâmetros de análise, foi conduzido um experimento confirmatório, que resultou em resultados não significativos. Uma análise post hoc expôs a necessidade de estudos e esclarecimentos adicionais[3].

 

Gerador de Números Aleatórios Baseado em Ruído

Em um artigo publicado recentemente, Guerrer descreve o design de um gerador de números aleatórios (RNG) chamado RAVA, baseado em duas fontes aleatórias. O RAVA, um Gerador de Números Aleatórios Verdadeiros (TRNG) de código aberto, utiliza diodos Zener com viés reverso para produzir saídas aleatórias. Guerrer realizou várias análises estatísticas, incluindo testes de aleatoriedade do NIST e comparações com um dispositivo Quantis, para validar a aleatoriedade e confiabilidade da saída do RAVA. O estudo explorou influências ambientais, demonstrando a resiliência do circuito a fatores como variações de temperatura. Guerrer enfatiza o alto throughput do dispositivo de 136,0 Kbit/s, adequado para aplicações diversas como privacidade pessoal, pesquisa, educação, artes e a comunidade maker. A natureza open-source do RAVA promove transparência e personalização, permitindo que os usuários explorem as complexidades do circuito e contribuam para o desenvolvimento comunitário contínuo. Guerrer conclui o artigo apresentando uma visão para que a RAVA evolua para um RNG padrão e confiável por meio de melhorias colaborativas e adesão aos princípios do código aberto[4].

 

Experimento

Em uma pesquisa apresentada na conferência Science of Consciousness de 2025 em Barcelona, Guerrer e colegas investigaram se a intenção consciente pode influenciar geradores distantes de números aleatórios por meio de quatro experimentos pré-registrados. Os participantes tentaram afetar mentalmente dispositivos remotos enquanto observavam feedback em tempo real via videoconferência, com um total de 480 sessões incluindo controles. Os resultados não mostraram evidências que apoiem interações anômalas mente-matéria, sem que nenhum experimento atenda aos critérios de sucesso. A pesquisa demonstra padrões metodológicos aprimorados para investigar fenômenos não convencionais por meio de protocolos rigorosos de pré-registro e replicação[5].

 

Obras Citadas

§  Guerrer, G. (2019). Consciousness-related interactions in a double-slit optical system. Google Scholar. [Web page.]

§  Guerrer, G. (2023). RAVA: An Open Hardware True Random Number Generator Based on Avalanche Noise. IEEE Access, 11, 119568-119583.

§  Guerrer, G., Walleczek, J., Stillfried, v.N., Kffuri, S., & Moll, J. (2025). The case of anomalous psycho-physical interactions: Investigating an unconventional hypothesis within a methodologically rigorous framework. Proceedings of the Science of Consciousness Conference, 7-11 July 2025, Barcelona, Spain.

§  Radin, D., Michel, L., & Delorme, A. (2016). Psychophysical modulation of fringe visibility in a distant double-slit optical system. Physics Essays 29/1, 14-22.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Radin et al (2016).

[3] Guerrer (2019).

[4] Guerrer (2023).

[5] Guerrer et al (2025).

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

O ENGODO DA IDEIA DA BONDADE[1]

 


Bruno Abreu[2]

 

Certo homem de posição perguntou-lhe: Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um, que é Deus. 

Lucas, 18:18-19

 

Muitos de nós, que procuramos um crescimento espiritual, preocupamo-nos em ser bondosos, e isto é de suma importância para que possamos um dia viver em paz e amor.

Mesmo na bondade, algo que nos parece tão inofensivo, encontram-se das maiores armadilhas. Reparemos que o Mestre não se assumiu bondoso, o que deve ter deixado espantada a pessoa que perguntava, pois considerava o Mestre bondoso, tal como nós O consideramos.

Devemos colocar duas questões acerca da bondade:

1.       Por que quero ser bondoso?

2.       O que é a bondade?

Sei que parecem perguntas ridículas, pois pensamos que sabemos claramente o que é a bondade. Também achamos que sabemos tudo sobre nós mesmos e passamos a vida a surpreender-nos, de forma negativa ou positiva.

Normalmente queremos ser bondosos porque acreditamos que esse é o caminho do crescimento espiritual e porque desejamos ser grandes espiritualmente. Até nos traz satisfação sermos bondosos, esquecendo o ensinamento do Mestre, que nos diz que a mão esquerda não saiba o que dá a direita.

Este ensinamento da mão esquerda não saber o que a direita dá fala-nos precisamente sobre a ideia da bondade. Como poderá a mão, membro do corpo, não saber o que foi dado?

O ensinamento remete-nos para uma caridade em silêncio, não apenas o silêncio da visibilidade perante os outros, mas, em especial, o silêncio da própria mente, para não “ruminarmos” mentalmente sobre a ação praticada. Caso contrário, nascerá em nós uma sensação de satisfação conosco próprios, que é o “rabo” do orgulho escondido.

A ideia da bondade adoça a boca do ego, dando-nos a sensação de que estamos a crescer. Essa sensação parece tão inocente que não percebemos que é alimentada pelo orgulho, pois temos orgulho na bondade que espalhamos. Inocentemente, enganados pela “ideia da bondade”, criamos uma imagem de nós mesmos: a de pessoas bondosas.

Teremos de ir à segunda pergunta: o que é a bondade?

Um ato bondoso pode acontecer em um segundo. A bondade manifesta-se na ação, no decorrer do movimento da vida.

Um coração compassivo, pacífico e amoroso pratica atos de bondade que nascem do seu amor, do seu coração, sem querer ser bondoso, apenas pela natureza do que é.

Nós usamos o termo bondade ou bondoso como um rótulo. É como o rótulo de uma garrafa de água: nele está escrito “água”, mas não podemos beber o rótulo; ele não mata a sede.

Ser bondoso é a descrição de alguém que apenas terá atos bondosos em sua vida. Mas quem pode assegurar isso?

Tentar ser bondoso é criar uma imagem para o futuro; no entanto, os atos de bondade acontecem no presente, no decorrer da vida, que é tão rápida que muitas vezes nem percebemos os atos que refletem de nós para os acontecimentos da vida, por não estarmos em vigília constante.

A bondade é uma palavra que transmite uma ideia, e não uma realidade. Apegarmo-nos à ideia de sermos bondosos pode trazer muito sofrimento no futuro, seja pela expectativa que depositamos em nós mesmos, seja pelo orgulho que nasce da ideia de que somos bondosos.

As ideias podem parecer que são sobre a vida, mas não são a vida. É como o rótulo da água, que não é água.

Vivermos em torno de ideias é perdermos a vida. Desejar ser bondoso não é bondade; pelo contrário, por que o desejaríamos se já o fôssemos?

Ter a ideia de que somos bondosos não é garantia de que o sejamos no futuro.

O sábio vigia constantemente por saber que, a qualquer momento, pode acontecer a queda, a tentação, e vive próximo de Deus para ter forças para não cair.

Criarmos em nós a ideia de que somos bondosos é desviarmos a nossa atenção de nós próprios, pois passamos a acreditar que já o somos. Essa ideia esconde os nossos defeitos, porque ninguém observa ou dá atenção aos próprios pensamentos e ações se acredita ser uma pessoa bondosa.

É uma armadilha mental, criada pela arrogância dissimulada sob a pele do cordeiro.

Para vivermos a vida de forma pacífica e termos hipóteses de espalhar amor enquanto o presente decorre, temos de estar presentes, para nos apercebermos do que nasce em nossa mente e constrói as nossas ações.

A bondade como ideia, aquela que diz “eu sou uma pessoa bondosa”, não nos serve de nada. Pelo contrário, afeta a atenção que damos a nós próprios e afasta-nos da humildade, estado essencial ao crescimento espiritual.

Fique atento à vida e vigie, como o Mestre aconselhou. Vigie a vida e a si próprio, pois é em si que nasce a tentação; é em nós que nascem todos os problemas e tendências.

Essa vigília dar-nos-á a oportunidade de perceber o que nasce em nós, o que deve ser travado e o que podemos permitir que continue.

Essa vigília constante, que o Mestre nos aconselha, é a maior arma no combate às más tendências. É o início da bondade em si, pois permite-nos travar os atos errados e persistir nos corretos.



[1] O CONSOLADOR - Ano 20 - N° 983 - 19 de Julho de 2026 - https://www.oconsolador.com.br/ano20/983/ca1.html

[2] Bruno Abreu reside em Lisboa, Portugal.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

DUELO É ASSASSÍNIO?[1]

 

Marcus Stone - Interrupted duel


Miramez

 

Duelo

Poder-se-á considerar o duelo como um assassínio por parte daquele que, conhecendo a sua própria fraqueza, tem a quase certeza de que sucumbirá?

“É um suicídio.”

a) - E quando as probabilidades são as mesmas para ambos os duelistas, haverá assassínio ou suicídio?

“Um e outro.”

Em todos os casos, mesmo quando as probabilidades são idênticas para ambos os combatentes, o duelista incorre em culpa, primeiro, porque atenta friamente e de propósito deliberado contra a vida de seu semelhante; depois, porque expõe inutilmente a sua própria vida, sem proveito para ninguém. (Allan Kardec)

Questão 758 / O Livro dos Espíritos

 

Felizmente já não existe mais o duelo, do modo que se processava em tempos idos. Hoje, os duelistas passaram para outra faixa: em vez das armas que tiram a vida física, usam as armas da língua e da escrita, que por vezes ferem mais e a mais pessoas.

Somente o Evangelho de Jesus tem o poder de educar as criaturas para que elas compreendam a necessidade de se amarem umas às outras, como nos deliberou Jesus, depois de amar a Deus. A Doutrina dos Espíritos vem nos esclarecer que somente se limpa a honra, amando, trilhando os caminhos de Jesus, tendo como meta a caridade.

O duelo é um assassínio premeditado; é a velha história de "limpar a honra". O duelo tanto poderia ser considerado como assassínio, como suicídio, porque sempre um sucumbia por simples momento de orgulho e vaidade. Em tempos idos, um dos duelistas ia para a luta sabendo que era mais fraco, mas ia pela honra, certo de que deveria morrer. Essas as falsas crenças, filosofias monstruosas, que devoram os meios de educar e de servir a Deus na grande casa, onde a fraternidade vigora em busca da paz de consciência.

O Mestre dos mestres já pregava o perdão das ofensas, e ainda acrescentava que deveríamos orar pelos que nos ofendem e caluniam. Não é preciso mais nada para eliminar o ódio, por sermos todos filhos de Deus e irmãos em Jesus.

Hoje, o duelo é diferente, é duelo da vingança, do orgulho que ainda existem entre os homens, duelo do egoísmo que não se afastou das criaturas, se movendo em muitas dimensões, para se esconder da palavra do Divino Mestre. Mas, a Doutrina Espírita, como força pesquisadora, vai em busca desses monstros que devoram todas as possibilidades da humanidade e os expulsa do coração das almas, colocando neles o amor.

O Evangelho de Jesus tem todas as possibilidades divinas de nos instruir acerca do resguardo da vida. Neste caso, por exemplo, busquemos a Marcos, no capítulo um, versículo vinte e cinco, que se refere às palavras de Jesus, deste modo, onde podemos comparar as nossas necessidades espirituais.

Mas Jesus o repreendeu dizendo:

Cala-te, e sai desse homem.

No caso de todos os duelos, em todas as suas faixas que podem atingir, com a ação do Espíritos superiores junto à humanidade, podemos ouvir, se desejarmos, a voz do Mestre neste sentido: "Cala-te e sai deste homem", porque sempre o homem violento atrai para junto de si desencarnados da mesma índole, e acaba fazendo coisas parecidas com o próprio duelo.

Estando o Evangelho dentro do coração da criatura, ela tem o poder de falar, expulsando os demônios das ideias más, tornando-se livre por conhecer a verdade. Os dias que passam são os piores, para que possamos atingir uma certa disciplina, encontrando muitas dificuldades em educar os próprios pensamentos, visto que podemos ter ideias e alimentá-las, ideias suicidas, ideias-duelos de uma ferocidade incrível, capazes de matar a muitos pela sua ação invisível aos olhos humanos.

Não devemos, nem podemos, tirar a vida de ninguém, deixando isso para quem a deu. É de bom alvitre que estudemos com boa vontade as leis que nos cercam a todos. De passo a passo, a compreensão nos invade o coração e nos faz sorrir, pela paz que passa a surgir no ambiente dos sentimentos.

O tempo e a própria natureza nos falam que logo iremos ficar livres de todos os tipos de duelos e assassinos. Passará o mundo e a humanidade reinará com e pelo amor.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 15 – João Nunes Maia

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

EXPERIÊNCIAS DE QUASE-MORTE SEGUEM O MESMO PADRÃO MUNDIALMENTE, REVELA ESTUDO MARCANTE[1]

 


News Room - 29 de agosto de 2026

 

Quinze anos de dados multinacionais sobre experiências de quase-morte apontam para um padrão que a medicina está apenas começando a ser assimilado clinicamente.

 

NOVA YORK — A pergunta que abriu o estudo AWARE II não era metafísica. Foi clínico. Quando o coração para e a atividade cerebral fica estável, a medicina trata esse momento como o fim da experiência consciente. O Dr. Sam Parnia e uma equipe de pesquisadores do NYU Langone Medical Center passaram mais de uma década testando se essa suposição clínica se mantém.

O que descobriram, publicado na revista Resuscitation Plus, é que pode não ser, pelo menos não de forma limpa. Entre 550 sobreviventes de parada cardíaca provenientes de hospitais dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Áustria, cerca de um quarto relatou recordar experiências durante o período da morte clínica. Essas lembranças não eram aleatórias. Eles seguiam uma estrutura tão consistente entre nacionalidades, históricos médicos e sistemas de crenças que os pesquisadores concluíram que não podiam ser descartados como ruído.

O estudo AWARE II, Uma Consciência durante a Reressuscitação, é a maior investigação controlada de experiências relembradas durante uma parada cardíaca já concluída. Isso não resolve a questão que levanta. Documenta rigorosamente o fenômeno, descreve sua consistência interna entre culturas e tradições, e registra um padrão de consequências clínicas para os quais o sistema médico está em grande parte despreparado.

A descoberta central é fenomenológica. Sobreviventes descreveram sequências que se repetiam independentemente de onde vieram, do que acreditavam ou se acreditavam em algo. Um senso perceptivo de desapego do corpo. Consciência auditiva e visual do ambiente médico onde tecnicamente estavam mortos. Uma passagem em direção ou através de algum tipo de limite. Encontros com parentes falecidos. O vocabulário variava conforme a cultura; a arquitetura da experiência não o fazia.

O estudo incluiu um elemento controlado projetado para testar se essa consciência era observacionalmente real. Alvos visuais ocultos (imagens específicas posicionadas acima da linha de visão dos pacientes, visíveis apenas do teto) foram colocados nas unidades de parada cardíaca dos hospitais participantes. Sobreviventes que relataram experiências fora do corpo foram questionados se poderiam descrever o que viram de cima. Os resultados foram o que os pesquisadores caracterizaram como "sugestivos, mas não conclusivos": um padrão de respostas que superou as expectativas de acaso, mas ficou aquém da confirmação estatística. O protocolo está em vigor há uma década; a amostra de pacientes que relatou percepção fora do corpo e estava posicionada próxima a um alvo permanece pequena o suficiente para que talvez nunca produza uma resposta definitiva.

Parnia tem sido preciso, ao longo de 15 anos de publicações, sobre não afirmar mais do que as evidências apoiam. O estudo não consegue estabelecer se as experiências ocorrem durante uma parada cardíaca mensurável ou na turbulência fisiológica imediatamente ao redor da ressuscitação, quando alguma atividade cerebral ainda pode estar presente. Não é possível descartar que processos ocorridos abaixo do limiar de detecção do monitoramento neurológico atual expliquem o que os sobreviventes recordam. O que pode estabelecer é que as experiências são internamente coerentes de uma forma que falhas neurológicas aleatórias não previram, e que a forma como a equipe clínica responde aos sobreviventes que as relatam tem consequências mensuráveis.

Emblema do Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue representando pesquisa em parada cardíaca e ciência da saúde cardíaca

O Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue acompanhou melhorias nas taxas de sobrevivência a paradas cardíacas, mesmo com o acompanhamento psicológico que fica atrás. [Fonte da imagem: NHLBI / NIH]

Essas consequências são a contribuição clínica mais acionável do estudo. O Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue observou em suas orientações públicas sobre parada cardíaca que as taxas de sobrevivência melhoraram substancialmente nas últimas duas décadas, um sucesso em saúde pública que resultou em uma população maior de sobreviventes gerenciando as consequências da morte clínica, com protocolos de suporte psicológico que não acompanharam. Sobreviventes no acompanhamento AWARE II que não receberam reconhecimento da experiência relembrada, que foram informados de que era um sonho, um efeito colateral de medicação ou simplesmente impossível, apresentaram resultados de integração psicológica marcadamente piores. Elas tinham mais probabilidade de relatar que a experiência permaneceu intrusiva, mais propensas a descrever afastamento de pessoas que não a compartilharam, e menos propensas a ter discutido abertamente com a família ou um terapeuta.

Os dados do AWARE II se conectam a um corpo mais amplo de pesquisas que examinam como a mente responde a extremos. No início deste mês, um estudo controlado da UC San Diego e da Fundação Chopra descobriu que mesmo uma semana de meditação silenciosa alterou de forma mensurável a expressão gênica ligada à inflamação em adultos saudáveis, evidência de que práticas há muito associadas a tradições espirituais também deixam vestígios físicos que o laboratório pode detectar. Os achados das EQMs estão na borda mais dura dessa investigação, onde o que os participantes experimentam está mais distante do que os instrumentos podem acompanhar.

As dimensões teológicas do estudo atraíram atenção previsível. Várias tradições religiosas citaram esses achados como validação externa de crenças sobre a consciência persistir além da morte física. Os pesquisadores têm consistentemente recusado essa estrutura. A consistência da fenomenologia em todos os sistemas de crença, inclusive entre pessoas que não relataram nenhuma crença religiosa, complica a reivindicação de qualquer tradição de uma explicação exclusiva. Um ateu convicto e um católico praticante podem descrever a mesma experiência em línguas diferentes. Eles descrevem a mesma experiência.

O que os dados deixam claro é que a abordagem atual da medicina para a sobrevivência à parada cardíaca é incompleta. Os pacientes recebem alta com instruções sobre adesão à medicação e modificação do estilo de vida. Se tiveram uma experiência durante a morte clínica que reorganizou sua percepção de quem são normalmente não está na lista de verificação da alta.

A equipe de Parnia propôs diretrizes clínicas para reconhecer e documentar relatos de EQM durante o cuidado pós-ressuscitação. O argumento deles é que o primeiro reconhecimento, o momento em que um profissional clínico convida a explicação em vez de descartá-la, é em si uma intervenção terapêutica. Se essas diretrizes chegam à prática rotineira dependerá de algo que os dados do AWARE II não conseguem fornecer sozinhos: uma disposição institucional, em unidades cardíacas de dezenas de países, para tratar a fronteira da consciência como uma questão que a ciência ainda não resolveu totalmente.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O ESPIRITISMO EM 1860[1]

 


Allan Kardec

 

Temos o prazer de anunciar que a Revista Espírita dá início ao seu terceiro ano de circulação, amparada pelos mais favoráveis auspícios. É com satisfação que aproveitamos o ensejo para testemunhar aos leitores a nossa gratidão pelas provas de simpatia que temos recebido diariamente. Só isso já seria motivo suficiente de encorajamento, caso não encontrássemos, na própria natureza e no objetivo de nossos trabalhos, larga compensação moral às fadigas que lhes são consequentes. Tal é a multiplicidade desses trabalhos, aos quais nos consagramos inteiramente, que se torna impossível responder a todas as cartas de felicitações que nos chegam. Somos, pois, obrigados a dirigir-nos coletivamente aos seus autores, rogando-lhes que aceitem os nossos agradecimentos. Estas cartas, bem assim as numerosas pessoas que nos dão a honra de com elas conferenciar a respeito desses graves problemas, convencem-nos cada vez mais do progresso do Espiritismo verdadeiro, isto é, do Espiritismo compreendido em todas as suas consequências morais. Sem nos iludirmos quanto ao alcance de nossos trabalhos, o pensamento de haver contribuído, lançando alguns grãos na balança, é para nós doce satisfação, porquanto essas poucas sementes terão contribuído para despertar a reflexão.

A prosperidade crescente da Revista é um indício do favor com que é acolhida. Não nos cabe senão continuar a obra na mesma linha, já que vem recebendo a consagração do tempo, sem nos afastarmos da moderação, da prudência e das conveniências que sempre nos orientaram. Deixando aos nossos contraditores o triste privilégio das injúrias e do personalismo, não os seguiremos no terreno de uma controvérsia sem objetivo. Dizemos sem objetivo porque jamais os levaria à convicção; ademais, seria pura perda de tempo discutir com pessoas que não têm a menor noção daquilo de que falam. Só temos uma coisa a dizer-lhes: Estudai primeiro; depois veremos. Temos mais que fazer do que falar a quem não quer ouvir. Afinal de contas, o que importa a opinião contrária deste ou daquele? Terá essa opinião tão grande importância que possa deter a marcha natural das coisas? As maiores descobertas encontraram os mais rudes adversários, sem que por isso fossem prejudicadas. Assim, deixando a incredulidade zunir à nossa volta, jamais nos desviaremos do caminho que nos é traçado pela própria gravidade do assunto que nos ocupa.

Dissemos que as ideias espíritas estão em franco progresso. Com efeito, desde algum tempo ganharam imenso terreno. Dir-se-ia que estão no ar; não, certamente, em razão do barulho da grande e da pequena imprensa. Se elas progridem, apesar e contra tudo, não obstante a má vontade encontrada em certas regiões é porque possuem vitalidade suficiente para se bastarem a si mesmas. Quem se der ao trabalho de aprofundar a questão do Espiritismo, nele encontra uma satisfação moral tão grande, a solução de tantos problemas que inutilmente havia pedido às teorias vulgares; o futuro se desdobra à sua frente de maneira tão clara, tão precisa e tão lógica, que a si mesmo confessa a impossibilidade de as coisas realmente não se passarem assim; já que um sentimento íntimo lhe dizia que assim deveria ser, é de causar admiração que não as tenha compreendido mais cedo. Desenvolvida, a ciência espírita nada mais faz que formular, tirar do nevoeiro ideias já existentes em seu foro íntimo; daí por diante o futuro se apresenta com objetivo claro, preciso, perfeitamente definido; já não marcha ao sabor das ondas: vê o seu caminho. Não é mais esse futuro de felicidade ou de desgraça que a razão não podia compreender e que, por isso mesmo, o repelia; é um futuro racional, consequência das próprias leis da Natureza, capaz de suportar o exame mais severo. Eis por que é feliz e como que aliviado de um imenso peso: o da incerteza, porquanto a incerteza é um tormento. Mau grado seu, o homem sonda as profundezas do futuro e não pode deixar de vê-lo eterno; compara-o à brevidade e à fragilidade da existência terrestre. Se o futuro não lhe oferece nenhuma certeza, ele se atordoa, concentra-se no presente e, para o tornar mais suportável, entrega-se a todos os excessos: é em vão que a consciência lhe fala do bem e do mal. Diz a si mesmo: o bem é aquilo que me faz feliz. De fato, que motivo teria para ver o bem em outra parte? Por que suportar privações? Quer ser feliz e, para ser feliz, quer gozar; gozar o que os outros possuem; quer ouro, muito ouro; a ele se apega como à sua vida, porque o ouro é o veículo de todos os prazeres materiais. Que lhe importa o bem-estar do semelhante? O seu, antes de tudo. Quer satisfazer-se no presente, por não saber se o poderá mais tarde, num futuro em que não acredita. Torna-se, assim, ávido, invejoso, egoísta e, com todos esses prazeres, não é feliz porque o presente lhe parece muito curto.

Com a certeza do futuro, tudo para ele muda de aspecto; o presente é apenas efêmero e o vê passar sem lamentar-se; é menos apegado aos prazeres terrenos, porque só lhe trazem uma sensação passageira, fugidia, que deixa vazio o coração; aspira a uma felicidade mais duradoura e, consequentemente, mais real. E onde poderá encontrá-la, senão no futuro? Mostrando-lhe, provando-lhe esse futuro, o Espiritismo o liberta do suplício da incerteza, e isso o torna feliz. Ora, aquilo que traz felicidade sempre encontra partidários.

Os adversários do Espiritismo atribuem sua rápida propagação a uma febre supersticiosa que se apodera da Humanidade: o amor do maravilhoso. Antes, porém, precisariam ser lógicos; aceitaremos o seu raciocínio – se é que a isso podemos chamar raciocínio – quando tiverem explicado claramente por que essa febre atinge justamente as classes esclarecidas da sociedade, em vez das ignorantes. Quanto a nós, dizemos que é porque o Espiritismo apela ao raciocínio, e não à crença cega, que as classes esclarecidas o examinam, refletem e o compreendem. Ora, as ideias supersticiosas não suportam o exame.

Aliás, todos vós que combateis o Espiritismo, chegais a compreendê-lo? Estudastes, analisastes seus detalhes, pesastes maduramente todas as suas consequências? Não, mil vezes não. Falais de algo que não conheceis. Todas as vossas críticas – e não falo das tolas, vulgares e grosseiras diatribes, despidas de qualquer raciocínio e que não têm nenhum valor – refiro-me às que, pelo menos, têm aparência de seriedade, todas as vossas críticas, repito, acusam a mais completa ignorância do assunto.

Para criticar é necessário poder opor raciocínio a raciocínio, prova a prova. Será isto possível, sem conhecimento aprofundado do assunto de que se trata? Que pensaríeis de quem pretendesse criticar um quadro, sem possuir, pelo menos em teoria, as regras do desenho e da pintura? Discutir o mérito de uma ópera, sem saber música? Sabeis a consequência de uma crítica ignorante? É ser ridícula e revelar falta de juízo. Quanto mais elevada a posição do crítico, quanto mais ele se põe em evidência, tanto mais seu interesse lhe exige circunspeção, a fim de não vir a receber desmentidos, sempre fáceis de dar a quem quer que fale daquilo que não conhece. É por isso que os ataques contra o Espiritismo têm tão pouco alcance e favorecem o seu desenvolvimento, em vez de o deter. Esses ataques são propaganda; provocam exame, e o exame só nos pode ser favorável, porque nos dirigimos à razão. Não há um só artigo publicado contra a doutrina que não nos tenha proporcionado um aumento de assinaturas e de vendas de obras. O do Sr. Oscar Comettant (Vide o Siècle de 27 de outubro passado, e nossa resposta na Revista do mês de dezembro de 1859) provocou a venda, em poucos dias, na casa Ledoyen, de mais de cinquenta exemplares da famosa sonata de Mozart (que custa 2 francos, preço líquido, segundo a importante e espirituosa observação do Sr. Comettant). Os artigos do Univers, de 13 de abril e 28 de maio de 1859 (ver nossa resposta nos números da Revista de maio e julho de 1859) esgotaram rapidamente o que restava da primeira edição de O Livro dos Espíritos, bem como outros. Mas voltemos a coisas menos materiais. Enquanto não opuserem ao Espiritismo senão argumentos desta natureza, ele nada tem a temer.

Repetimos que a principal fonte do progresso das ideias espíritas está na satisfação que proporcionam a todos que as aprofundam, e que nelas veem algo mais do que um simples passatempo. Ora, como antes de tudo todos querem a felicidade, não é de admirar que se liguem a uma ideia que os torna felizes. Dissemos em algum lugar que, em se tratando de Espiritismo, o período da curiosidade passou, dando lugar ao da razão e da filosofia. A curiosidade tem tempo certo: uma vez satisfeita, muda-se o objetivo por um outro. Já não se dá a mesma coisa com quem se dirige ao pensamento sério e à razão. O Espiritismo progrediu principalmente a partir do momento em que passou a ser mais bem compreendido em sua essência íntima, desde que se viu o seu alcance, porque toca na corda mais sensível do homem: a de sua felicidade, mesmo neste mundo. Aí reside a causa de sua propagação, o segredo da força que o fará triunfar.

Vós todos que atacais o Espiritismo, quereis um meio seguro de o combater com sucesso? Eu vo-lo indico. Substituí-o por algo melhor; encontrai uma solução mais lógica a todas as questões que ele resolve; dai ao homem outra certeza que o torne mais feliz, e compreendei bem o alcance da palavra certeza, porque o homem só aceita como certo o que lhe parece lógico; não vos contenteis em dizer que isso não é, pois é muito fácil; provai, não pela negação, mas pelos fatos, que isso não é, jamais foi e não pode ser. Provai, finalmente, que as consequências do Espiritismo não tornam melhores os homens, pela prática da mais pura moral evangélica, moral muito elogiada, mas pouco praticada. Quando tiverdes feito isso, serei o primeiro a inclinar-me perante vós. Até lá, permiti que encare vossas doutrinas, que são a negação completa do futuro, como a fonte do egoísmo, verme que corrói a sociedade e, consequentemente, como um verdadeiro flagelo. Sim, o Espiritismo é forte, mais forte do que vós, porque se apoia nos próprios alicerces da religião: Deus, a alma e as penas e recompensas futuras, baseadas no bem e no mal que se faz. Vós vos apoiais na incredulidade. Ele convida o homem à felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade. Vós lhe ofereceis o nada como perspectiva e o egoísmo como consolação. Ele tudo explica, vós nada explicais. Ele prova pelos fatos e vós nada provais. Como pretendeis que se vacile entre as duas doutrinas?

Em resumo, constatamos – e cada um vê e sente como nós – que o Espiritismo deu um passo imenso no ano que findou, e esse passo é a garantia daquele que haverá de dar no ano que começa. Não somente o número de seus partidários aumentou consideravelmente, como uma notável mudança operou-se na opinião geral, mesmo entre os indiferentes. Diz-se que no fundo de tudo isso bem poderia haver alguma coisa; que não se deve ser apressado em julgá-lo; os que assim agiam, dando de ombros, começam a temer o ridículo sobre si mesmos ao ligarem o próprio nome a um julgamento precipitado, que poderá ser desmentido.

Deste modo, preferem calar-se e esperar. Sem dúvida, durante muito tempo ainda haverá pessoas que, nada tendo a perder com a opinião da posteridade, procurarão denegri-lo; umas, por caráter ou por estado de ânimo; outras, por cálculo. Mas nós nos acostumamos à ideia de ir ao hospício[2], desde que nos vejamos em boa companhia; e, como tantas outras, esta piada sem graça torna-se um lugar-comum, com a qual ninguém se incomoda, porque no fundo desses ataques vê-se a mais absoluta falta de raciocínio. A arma do ridículo, essa arma que se diz tão terrível, se gasta evidentemente e tomba das mãos daqueles que a empunhavam.

Acaso teria perdido o seu poder? Não, contanto que não desfira golpes em falso. O ridículo não mata senão o que é ridículo em si, tendo de sério apenas a aparência, porque fustiga o hipócrita e lhe arranca a máscara; mas aquilo que é verdadeiramente sério só receberá golpes passageiros e sairá sempre triunfante da luta. Vede se uma só das grandes ideias que foram ridicularizadas em sua origem pela turba ignorante e invejosa caiu para não mais se erguer!

Ora, o Espiritismo é uma das maiores ideias, porque toca na questão mais vital – a da felicidade do homem – e não se brinca impunemente com semelhante problema. Ele é forte porque tem suas raízes nas próprias leis da Natureza e responde aos inimigos fazendo, desde o início, a volta ao mundo. Alguns anos mais e seus detratores, impotentes para o combater pelo raciocínio, encontrar-se-ão de tal modo ultrapassados pela opinião dominante, de tal forma isolados, que se verão forçados a calar ou a abrir os olhos à luz.



[1] REVISTA ESPÍRITA – janeiro/1860 – Allan Kardec

[2] N. do T.: No original: aller à Charenton, referência a famoso hospital psiquiátrico francês.