quarta-feira, 28 de outubro de 2026

TESTES DE SOBREVIVÊNCIA DE ENVELOPES, CIFRAS E FECHADURAS[1]

 


Melvyn Willin e James G Matlock – 21/10/2026

 

Os testes de envelopes lacrados, cifras e combinações de fechaduras buscam obter evidências de sobrevivência pós-morte, fazendo com que uma pessoa escreva uma mensagem ou crie um código ou combinação de fechadura não revelada enquanto viva e transmita informações sobre isso por meio de um dispositivo após a sua morte. Nenhum desses testes obteve sucesso inequívoco até o momento.

 

§  FWH Myers e Oliver Lodge deixaram bilhetes em envelopes lacrados, mas não está claro se eles conseguiram comunicar o conteúdo antes que os envelopes fossem abertos.

§  Robert H. Thouless criou cifras influentes, mas posteriormente os computadores determinaram suas soluções sem comunicação posterior, demonstrando uma importante vulnerabilidade no método.

§  Ian Stevenson adaptou a ideia do código para fechaduras de combinação, mas, apesar das repetidas tentativas, nenhuma fechadura que ele ou outros tenham configurado foi aberta.

 

Introdução

Foram propostos testes com envelopes lacrados, cifras e fechaduras de combinação para testar a possibilidade de comunicação com pessoas falecidas, fornecendo assim evidências experimentais da sobrevivência da consciência humana após a morte do corpo.

A lógica é simples: uma pessoa escreve um bilhete e o sela em um envelope ou cria uma chave secreta (uma senha ou combinação de cadeado) que é transmitida por um médium após a morte. Se o médium receber uma comunicação que corresponda ao bilhete no envelope ou fornecer a chave para decifrar o bilhete ou abrir o cadeado, isso forneceria evidências objetivas de sobrevivência.

Robert H. Thouless, que introduziu o conceito de testes de criptografia para comunicações mediúnicas, opinou que "a razão adequada para tentar encontrar evidências científicas sobre o problema da sobrevivência reside na sua importância para a ciência, não para a religião. Se é um fato que os falecidos sobrevivem e podem se comunicar conosco, queremos ter provas desse fato, porque sem tais provas nossa ciência é incompleta"[2] .

 

Testes de envelopes selados (décadas de 1890 a 1930)

William James

Em 1890, William James descreveu uma tentativa fracassada de comunicar, por meio de Leonora Piper, o conteúdo de uma mensagem escrita antes da morte e deixada em um envelope lacrado, mas observou: "Seria difícil conceber um teste melhor do que este teria sido, caso tivesse tido sucesso imediato, para a exclusão da transferência de pensamentos de mentes vivas"[3]. Este foi, evidentemente, o início dos testes do envelope lacrado.

 

FWH Myers

Frederic W. H. Myers escreveu um bilhete em 1891 e o selou em um envelope que deixou com Oliver Lodge. Após a morte de Myers em 1901, Margaret Verrall começou a praticar a escrita automática na tentativa de fornecer ao falecido Myers um meio de comunicação e, em 1904, após uma série de mensagens supostamente enviadas por ele, escreveu algo que se referia explicitamente ao envelope. O envelope foi então aberto, mas a caligrafia de Verrall não apresentou "nenhuma semelhança" com o bilhete de Myers e o teste foi considerado um fracasso[4]. Isso, no entanto, não foi o fim da história. Lodge e outros começaram a perceber conexões com os escritos então inéditos de Myers, que sugeriam que, à maneira das correspondências cruzadas interligadas, a caligrafia de Verrall de fato fazia referência ao bilhete de Myers[5].

 

Oliver Lodge

O próprio Lodge deixou um envelope lacrado contendo um bilhete, mas também não conseguiu comunicar seu conteúdo após a morte. Thouless relata que esteve presente em ocasiões em que Lodge se comunicava por meio de médiuns, mas Lodge pareceu esquivar-se da oportunidade de dizer sobre o que tratava o bilhete em seu envelope lacrado[6].

 

Angelos Tanagras

Em 1933, o médico grego Angelos Tanagras propôs a Theodore Besterman, da Sociedade de Pesquisa Psíquica (SPR), que, em vez de se comunicarem verbalmente por meio de médiuns, os desencarnados agissem psicocineticamente no ambiente material (à maneira de um poltergeist). Tanagras deixou localizações codificadas em seis envelopes lacrados depositados na SPR, para serem abertos após sua morte. Ele morreu em 1971 , mas sua estratégia parece não ter sido mais bem-sucedida do que a comunicação verbal[7].

 

Testes de Criptografia (1948-1987)

Robert Thouless (1948)

Thouless especulou sobre as dificuldades que uma mente desencarnada poderia enfrentar ao recordar detalhes específicos, como o que estava escrito em um bilhete, em contraste com a atmosfera de eventos emocionalmente significativos. Ele concluiu: "se algo do tipo 'pacote lacrado' for tentado, é importante que o material experimental seja simples, impactante e fácil de lembrar[8]".

Na tentativa de corrigir as deficiências dos testes de envelopes selados, Thouless propôs textos codificados, cuja chave seria comunicada por meio de um médium[9]. Ele disse a Arthur Berger, em correspondência, que considerava seus testes de cifras suas contribuições mais significativas para a parapsicologia[10].

Inicialmente, Thouless produziu duas passagens criptografadas, empregando técnicas de codificação diferentes: a chamada cifra de Playfair[11] ( Passagem I) e uma cifra de livro (Passagem II). Se uma tentativa de comunicação falhasse, a criptografia permanecia intacta, permitindo novas tentativas. Isso resolveu um grande problema dos testes com envelopes lacrados, que inevitavelmente terminavam quando os envelopes eram abertos[12].

Thouless ficou deprimido após a morte de sua esposa e sua mente ficou tão confusa às vésperas de sua própria morte que ele disse a Ian Stevenson que não acreditava ser capaz de executar seu programa para comunicar as chaves de seus códigos após sua morte; de ​​fato, nenhuma comunicação póstuma foi recebida dele[13].

Um criptoanalista anônimo decifrou a Passagem I pouco depois de sua publicação. A chave revelou-se ser "Surpresa". Thouless substituiu a Passagem I por um terceiro texto criptografado, a Passagem III, usando a cifra de Playfair dupla , que empregava duas palavras-chave em vez de uma[14].  A criptografia da Passagem III foi quebrada em 1995 pelos cientistas da computação James Gillogly e Larry Harnisch[15].  As palavras-chave eram "Black Beauty". Em 2019, Richard Bean, um especialista em TI da Universidade de Queensland, na Austrália, conseguiu decifrar a Passagem II[16]. Assim, todas as três passagens criptografadas de Thouless foram reveladas sem qualquer comunicação direta com ele por meio de terceiros.

 

TE Wood (1950)

Thouless incentivou outros a seguirem seu exemplo no desenvolvimento de testes de criptografia. Um dos que aceitaram sua sugestão foi o advogado e membro de longa data da SPR, T.E. Wood, que adotou um sistema de criptografia baseado no Vigenère letter square. Wood introduziu um incentivo financeiro para tentativas de quebrar seu código durante sua vida, oferecendo-se para pagar £20 a quem conseguisse. Wood nasceu em 1887, então podemos presumir que ele já faleceu, mas até o momento, ele não revelou a chave de sua criptografia e não há relatos de que ela tenha sido decifrada por outras pessoas.

 

Tribbe e Mulders (1980)

Em 1980, Frank C. Tribbe e Clarissa Mulders, da Survival Research Foundation (SRF) – fundada por volta de 1971 por Tribbe, um advogado, e pela escritora Susy Smith – anunciaram uma "Campanha de Arquivamento Voluntário" para coletar cifras codificadas de acordo com o método de Thouless. Essas cifras seriam mantidas nos arquivos da SRF, e a organização ofereceu uma recompensa de US$ 1.000 a qualquer médium (ou outro indivíduo) que conseguisse produzir as chaves e decodificar as cifras em até três anos após a morte dos voluntários[17]. Até o momento, não há relatos de comunicação bem-sucedida das chaves das cifras preservadas pela SRF.

 

Arthur Berger (1987)

Arthur S. Berger, um advogado americano que em certa época foi presidente da SRF (Sociedade para a Pesquisa de Resgate de Mortes), introduziu seu próprio "teste numérico" em seu livro de 1987,  Aristocracy of the Dead . Berger buscava simplificar tanto os procedimentos envolvidos na criptografia de textos quanto as chaves a serem comunicadas por meio de médiuns. Ele propôs selecionar uma palavra aleatoriamente de um dicionário, de preferência um dicionário completo. Cada letra dessa palavra e a definição subsequente eram numeradas consecutivamente; em seguida, esses números, representando letras, eram usados ​​para codificar uma passagem escolhida. Essa passagem, ou melhor, os números que a representavam, juntamente com uma anotação sobre o dicionário utilizado, eram depositados na SRF[18]. Assim como nas cifras de Thouless, apenas as palavras-chave precisavam ser lembradas e comunicadas post-mortem. No entanto, assim como nos testes de Thouless e outros testes de criptografia, nenhuma comunicação bem-sucedida foi relatada.

 

Testes de fechaduras de combinação (1968)

Ian Stevenson (1968)

Em 1968, Ian Stevenson propôs o que considerava uma melhoria em relação aos testes de criptografia de Thouless – mensagens em recipientes protegidos por fechaduras de combinação, cujas soluções seriam comunicadas posteriormente[19].

Stevenson derivou essa ideia da experiência da sensitiva inglesa Helen Greaves, cujo marido guardava documentos importantes em uma pequena caixa trancada com um cadeado de combinação. O marido de Greaves morreu sem lhe revelar a combinação, e ela fez várias tentativas para adivinhá-la, até que sentiu ter recebido uma comunicação dele com os números corretos[20].

Stevenson acreditava que um cadeado de combinação ofereceria as mesmas vantagens sobre envelopes lacrados que as cifras de Thouless, porém seria mais fácil de configurar e decifrar posteriormente. Ele forneceu instruções sobre como converter uma frase em números para o cadeado, sendo que a frase ou os números seriam comunicados após a morte[21].

Stevenson criou um cadeado que deixou na  Division of Perceptual Studies (DOPS) da Universidade da Virgínia. Ele incentivou outros a enviarem seus próprios cadeados, mas recebeu tantos em poucos meses que foi obrigado a aceitá-los apenas de idosos ou pessoas em fase terminal. Stevenson faleceu em 2007, mas, apesar de várias tentativas, seu cadeado ainda não foi aberto; nem nenhum dos outros cadeados da DOPS.

 

Robert Thouless

Além de seus testes de cifras, Thouless deixou um cadeado de combinação. Sobre este último, ele escreveu a Stevenson em janeiro de 1970 que havia definido a combinação com 'números correspondentes às seis primeiras letras da chave de duas palavras para a mensagem cifrada fornecida em meu segundo artigo, usando sua tabela para converter letras em números'[22]. Thouless morreu em 1984. Seu cadeado foi aberto posteriormente, mas não em resposta a uma comunicação dele[23].

 

JG Pratt

Outra pessoa que criou um cadeado de combinação foi o parapsicólogo J.G. Pratt, que, "sendo uma pessoa com grande aptidão para números", optou por começar com números aleatórios e, em seguida, "obteve deles as letras correspondentes (usando o código publicado) e elaborou uma mnemônica, usando essas letras como as iniciais de uma frase de seis palavras"[24]. 

Pratt atribuía mais importância aos números do que à sua mnemônica e, ciente de que poderia esquecer os números, praticou diversas vezes abrir o cadeado (quando estava sozinho em um quarto fechado). Em uma ocasião, antes e depois de uma doença, pensou ter esquecido sua mnemônica, mas depois descobriu que não[25] .

Pratt morreu subitamente em novembro de 1979, enquanto visitava um vizinho em Charlottesville, Virgínia. Após sua morte, Stevenson recebeu supostas comunicações com números de diversas pessoas, mas nenhuma se provou correta. Stevenson também visitou médiuns em Londres durante 1981 e 1982, mas, embora carregasse o cadeado de Pratt no bolso na época, nada relacionado a ele ou à fórmula mnemônica de Pratt foi comunicado[26].

 

Situação atual em 2026

O uso de envelopes lacrados, cifras e cadeados de combinação como provas de sobrevivência pós-morte demonstrou, até o momento, pouca relevância. Contudo, o potencial desses métodos ainda intriga o público. A SPR é contatada não apenas no contexto do estudo renovado de tentativas antigas, mas também com ofertas para aceitar novos cadeados de combinação que alegam possuir métodos secretos de comunicação do além-túmulo[27].

Do ponto de vista da pesquisa, a questão parece mais complexa. Mesmo que comunicadores desencarnados tivessem conseguido transmitir as informações desejadas, não é de forma alguma certo de que isso teria fornecido a evidência de sobrevivência que buscavam. W. Peter Mulacz apontou que, embora os testes de cifras e fechaduras de combinação sejam fundamentalmente diferentes na percepção extrassensorial (PES) necessária para decifrá-los, ambos são vulneráveis ​​à psi. As soluções das cifras poderiam, em princípio, ser adquiridas telepaticamente dos autores enquanto vivos, bem como por um médium após a morte, enquanto as fechaduras de combinação, que eram mecânicas, poderiam teoricamente ser acessadas por clarividência. Por essa razão, Mulacz considerou as fechaduras de combinação testes de potencial mais fracos do que as cifras[28].

Não se trata de inconcebível a comunicação póstuma com os vivos por meio de médiuns ou de outras formas – por exemplo, sonhos e aparições. A literatura de pesquisa psíquica está repleta de exemplos, como apontou Martin Johnson no SPR’s Journal[29]. O desafio para os pesquisadores é como melhor organizar testes prospectivos, em vez de esperar que as comunicações sejam relatadas. Isso pode começar com a reflexão sobre como deve ser o funcionamento de uma consciência desencarnada e com a elaboração de testes levando isso em consideração.

Como Johnson observou[30], um agente desencarnado pode influenciar os vivos e o ambiente material de muitas maneiras, não apenas transmitindo chaves para decifrar um código ou abrir um cadeado de combinação, e pode ser que, ao expandirmos o leque de canais de comunicação que esperamos, possamos obter maior sucesso com os testes prospectivos. Johnson fez uma proposta alinhada com o 'campo psi' de WG Roll[31], que pressupõe que a consciência tenha um efeito de campo antes e depois da morte, mas até o momento, não há relatos de que o teste de Johnson tenha sido tentado e sua potencial superioridade em relação às outras abordagens é uma questão em aberto.

 

Leitura complementar

Os itens a seguir, não incluídos na seção de Obras Citadas, são fornecidos para os leitores interessados ​​em aprofundar seus estudos sobre o tema.

§  Anon. (1975). Letter to the Editor [regarding the Thouless cipher test]. Journal of the Society for Psychical Research 48, 184-5.

§  Anon. (1985–86). Has Dr Thouless survived death? Journal of the Society for Psychical Research 53, 135-36.

§  Berger, A.S. (1984). Experiments with false keys. Journal of the American Society for Psychical Research 78, 41-54.

§  Berger, A.S. (1984). The development and replication of tests for survival. Parapsychological Journal of South Africa 5, 24-35.

§  Thouless, R.H. (1963). The cipher test of survival. Theta 2 (July), 1-3.

§  Thouless, R.H. (1975). Letter to the Editor. Journal of the Society for Psychical Research 48, 185.

§  Thouless, R.H. (1984). Do we survive bodily death? Proceedings of the Society for Psychical Research 57, 213, 1-52.

 

Recursos de arquivo

Teste de Sobrevivência de Robert Thouless: Documentos e Correspondências, 1948 – 1986.

Universidade de Cambridge.

 

Obras citadas

§  Anon. (1905). Opening of an envelope containing a posthumous note left by Mr. Myers. Journal of the Society for Psychical Research 12, 11-13.

§  Bean, R. (2019). Cryptology from the crypt: How I cracked a 70‑year‑old coded message from beyond the grave. [Full text.] The Conversation.

§  Bean, R. (2020). Letter to the Editor (regarding Thouless 1948a). [Full text.] Journal of the Society for Psychical Research 84/1, 56-57.

§  Berger, A.S. (1985). In Memory of Robert H. Thouless. Journal of the Society for Psychical Research 53, 56-60.

§  Berger, A.S. (1987). Aristocracy of the Dead: New Findings in Postmortem Survival. Jefferson, North Carolina, USA: McFarland & Company.

§  Berger, A S. (1990). Tests for communication with the dead. In What Survives? Contemporary Explorations of Life after Death, ed. by G. Doore, 51–60. Tarcher.

§  Berger, A.S., & Berger, J. (1991). Reincarnation: Fact or Fable? Wellingborough, Northants, UK: Aquarian Press.

§  Gillogly, J.L., & Harnisch, L. (1996). Cryptograms from the crypt. Cryptologia 20/4, 325-29.

§  Greaves, H. (1967). The Dissolving Veil. London: Churches Fellowship for Psychical and Spiritual Studies.

§  Johnson, M. (1983). A technique for testing of the psi-field theory with some implications for survival research. Part I. Journal of the Society for Psychical Research 51, 795, 177-88.

§  Johnson, M. (1984). A technique for testing of the psi-field theory with some implications for survival research. Part II. The survival issue. Journal of the Society for Psychical Research 52, 796, 245-52.

§  Mulacz, W.P. (1997). Can combination lock tests provide any proof of survival? Journal of the Society for Psychical Research 61, 846, 330-33.

§  Myers, F.W.H., Lodge, O.J., Leaf, W., & James, W. (1890). A record of observations of certain phenomena of trance. Proceedings of the Society for Psychical Research 6(17), 436-659.

§  Oram, A.T. (1996). The original Thouless two-word code. Journal of the Society for Psychical Research 61, 116-19.

§  Pallikari, F. (2021). Angelos Tanagras: An experiment to test survival. [Full text.] Journal of Anomalistics 21, 223-42.

§  Roll, W.G. (1957–64). The psi field. In Proceedings of the Parapsychological Association, Vol. 1, ed. By W.G. Roll & J.G. Pratt, 32-65. Durham, North Carolina, USA: Parapsychological Association.

§  Roll, W.G. (1982). The changing perspective on life after death. In Advances in Parapsychological Research 3, ed. S. Krippner, 147-291. New York: Plenum Press.

§  Salter, W.F. (1958). F.W.H. Myers’ posthumous message. Proceedings of the Society for Psychical Research 52, 1-32.

§  Simmons, G.J. (2013). Playfair cipher. [Full text.] Encyclopedia Britannica.

§  Stevenson, I. (1968). The combination lock test for survival. [Full text.] Journal of the American Society for Psychical Research 62, 246-54.

§  Stevenson, I. (1976). Further observations on the combination lock test for survival. Journal of the American Society for Psychical Research 70, 219-29.

§  Stevenson, I. (1996). The opening of Robert Thouless’ combination lock. Journal of the Society for Psychical Research 61, 843, 114-115.

§  Stevenson, I. (1997). Letter to the Editor. Journal of the Society for Psychical Research 62, 848, 92-93.

§  Stevenson, I., Oram, A.T., & Markwick, B. (1989). Two tests of survival after death: Report on negative results. Journal of the Society for Psychical Research 55, 329-36.

§  Thouless, R.H. (1948a). A test of survival. Proceedings of the Society for Psychical Research 48, 175, 253-63.

§  Thouless, R.H. (1948b). Additional note on a test of survival. Proceedings of the Society for Psychical Research 48, 176, 342-43.

§  Thouless, R.H. (1952). Psychical Research Past and Present. London: Society for Psychical Research.

§  Thouless, R.H. (1972). From Anecdote to Experiment in Psychical Research. London: Routledge and Kegan Paul

§  Tribbe, F.C. (1980). The Tribbe/Mulders code. Journal of Religion and Psychical Research 3, 44.

§  Wood, T.E. (1950). A further test for survival. Proceedings of the Society for Psychical Research 49, 105-6.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Thouless (1952), 19.

[3] Myers et al. (1890), 567.

[4] Anon. (1905).

[5] Salter (1958).

[6] Thouless (1972), 161.

[7] Pallikari (2021).

[8] Thouless (1972), 161.

[9] Thouless (1948a, 1948b).

[10] Berger (1985), 57.

[11] Simmons (2013).

[12] Thouless (1948a).

[13] Stevenson et al. (1989), 335.

[14] Thouless (1949b).

[15] Gillogly & Harnisch (1996) For criticisms of the way Thouless constructed his cipher, see Oram (1996).

[16] Bean (2019, 2020).

[17] Tribbe (1980).

[18] Berger (1987), 163-65. See also Berger (1990), 56-58; Berger & Berger (1991), 228-30.

[19] Stevenson (1968, 1976, 1997).

[20] Greaves (1967); Stevenson (1968), 248.

[21] Stevenson (1968).

[22] Stevenson et al. (1989), 331-32.

[23] Stevenson (1996).

[24] Stevenson et al. (1989), 331.

[25] Stevenson et al. (1989, 331), citando Stevenson (1976, 226-27).

[26] Stevenson et al. (1989), 331.

[27] Contato privado e confidencial com o oficial de arquivos da SPR.

[28] Mulacz (1997). Veja também Johnson (1984, 247-48) sobre esse ponto.

[29] Johnson (1983, 1984).

[30] Johnson (1984), 248.

[31] Roll (1957–64, 1982).

terça-feira, 27 de outubro de 2026

CORRESPONDÊNCIA[1]

 


Allan Kardec

 

Toulouse, 17 de dezembro de 1859

 

Meu caro Senhor,

Acabo de ler vossa resposta ao Sr. Oscar Comettant, cujo artigo havia lido. Se esse folhetinista céptico, atoleimado e trocista não se convenceu pelas boas razões que lhe destes, poderia pelo menos reconhecer em vossa resposta a urbanidade do estilo, totalmente ausente da sua prosa. As digressões insossas com que tinha temperado as evocações me pareciam do espírito maligno; os lamentos com que se referia aos dois francos que havia custado a sonata, bem mereciam que a Sociedade lhe votasse um socorro de dois francos. Pensais bem, meu caro senhor Allan Kardec, pois sou um espírita por demais ardente para ter deixado sem resposta um artigo em que era citado e posto em causa. Por minha vez, escrevi também ao Sr. Oscar Comettant; no dia seguinte à recepção de seu jornal ele recebeu a seguinte carta:

 

Senhor,

Tive o prazer de ler vosso folhetim de quinta-feira: Variedades. Como me põe em causa, já que sou citado nominalmente, peço que me concedais permissão para tecer algumas considerações a respeito, que aceitareis, assim como aceitei as espirituosas digressões com que adornastes o relatório das evocações de Mozart e de Chopin. Que quereis gracejar com esse artigo humorístico? O Espiritismo? Enganar-vos-íeis redondamente se julgásseis causar-lhe o mais leve dano. Na França, a princípio faz-se gracejos, depois se julga e só se concedem as honras das piadas às coisas verdadeiramente grandes e sérias, livres de com elas concordar após o exame que merecem.

Se o Sr. Ledoyen é tão ávido e interesseiro quanto quereis fazer crer, ele vos deve ser extremamente reconhecido por terdes querido, num folhetim de onze colunas, assegurar o sucesso de uma de suas modestas publicações. É a primeira vez que um artigo tão importante sobre o Espiritismo é publicado num grande jornal. Por esse artigo um tanto tumultuado, vejo que o Espiritismo já é levado em consideração por seus próprios inimigos. Dir-vos-ei, confidencialmente, que os Espíritos nos alertaram que também se servem dos inimigos para o triunfo de sua causa. Assim, não tendes senão que vos manter em guarda, se não vos quiserdes transformar em apóstolo, mau grado vosso.

Não vedes no Espiritismo mais que charlatanismo moral e comercial. Nós outros, futuros inquilinos do hospício, nele encontramos a solução de uma porção de problemas contra os quais a Humanidade se debatia há muitos séculos, a saber: o reconhecimento raciocinado de Deus em todas as suas obras materiais e espirituais; a certeza da imortalidade e da individualidade da alma, provada pelas manifestações dos Espíritos; a ciência das leis da justiça divina, estudada nas diversas encarnações dos Espíritos etc. etc. Se nos déssemos ao trabalho de aprofundar um pouco esses assuntos, poderíamos ver que se acham acima de todos os sarcasmos e de todas as zombarias. Por mais que nos considereis sonhadores e alucinados, todos diremos, em lugar do E pur si muove[2] de Galileu: Todavia, Deus está lá!

Rogo aceiteis etc.

Brion d’Orgeval

Primeiro baixo da ópera cômica do teatro de Toulouse, ex-pensionista do Sr. Carvalho.

 

Observação – Não é de nosso conhecimento que o Sr. Oscar Comettant tenha publicado esta resposta, bem como a nossa. Ora, atacar sem admitir a defesa não é um combate leal.

 

Bruxelas, 23 de dezembro de 1859

 

Meu caro colega,

Venho submeter-vos algumas reflexões etnográficas sobre o mundo dos Espíritos, com a intenção de corrigir uma opinião assaz generalizada, mas, a meu ver, muito errada no que respeita ao estado do homem após a sua espiritualização.

Imagina-se erroneamente que um imbecil, um ignorante, um bruto, torna-se imediatamente um gênio, um sábio, um profeta, desde que deixou seu casulo. É um erro análogo ao de quem admitisse que um celerado, liberto da camisa de força, iria tornar-se honesto; um tolo ficará esperto e um fanático raciocinará, tão-somente porque transpuseram a fronteira do mundo espiritual.

Não é nada disso. Levamos conosco todas as nossas conquistas morais, nosso caráter, nossa ciência, nossos vícios e virtudes, à exceção dos que se prendem à matéria: os coxos, os zarolhos e os corcundas não mais o são; mas os velhacos, os avarentos e os supersticiosos ainda o são. Não é, pois, de admirar que ouçamos os Espíritos a pedir preces, desejar que façamos as peregrinações que haviam prometido e, mesmo, que se descubra o que haviam escondido, a fim de dá-lo à pessoa a quem o haviam destinado e que a indicam exatamente, estando ela encarnada.

Em suma, o Espírito que tinha um desejo, um plano, uma opinião, uma crença na Terra, quer vê-los realizados. Assim, Hahnemann exclamava: “Coragem, meus amigos, minha doutrina triunfa; que satisfação para minha alma!”

Quanto ao Dr. Gall, sabeis o que ele pensa de sua ciência, assim como Lavater, Swedenborg e Fourier, o qual me disse que seus alunos haviam truncado a sua doutrina, querendo ultrapassar a fase do garantismo, que ele me felicita por continuar.

Numa palavra, todos os Espíritos que professam uma religião, uma idolatria ou um cisma, por convicção, persistem nas mesmas crenças, até serem esclarecidos pelo estudo e pela reflexão.

Tal é o móvel de minhas preocupações neste momento, e evidentemente é um Espírito lógico que as dita, porque, há uma hora, não pensava senão em recolher-me ao leito e acabar a leitura do excelente opúsculo da Sra. Henry Gaugain, sobre os piedosos preconceitos dos baixo-bretões contra as novas invenções.

Continuando vossos estudos, reconhecereis que o mundo de Além-Túmulo nada mais é que a imagem daguerreotipada deste, que, como sabeis, encerra Espíritos malignos como o diabo, e maus como os demônios. Não é de admirar que as pessoas simples se enganem e interditem todo comércio com eles, o que as priva da visita dos bons e grandes Espíritos, menos raros lá em cima do que aqui embaixo, pois os há de todos os tempos e em todos os lugares, e estes só nos querem dar bons conselhos e nos fazer o bem, enquanto sabeis com que repugnância e com que cólera os maus respondem ao apelo forçado. Mas o maior, o mais raro de todos os Espíritos, aquele que vem apenas três vezes durante a vida de um globo, o Espírito Divino, o Espírito Santo, enfim, não obedece às evocações dos pneumatólogos; vem quando quer, spiritus flat ubi vult[3], o que não quer dizer que não envie outros para lhe preparar o caminho.

A hierarquia é uma lei universal, tudo é como tudo, aliás como entre nós. O que mais retarda o progresso das boas doutrinas, que a perseguição não deixa avançar, é o falso respeito humano.

Há muito tempo teria o magnetismo triunfado se o Sr. X. e o Sr. N., em vez de darem o nome e o endereço das pessoas para referências, como dizem os ingleses, houvessem dito: Quem é esse Sr. M., que se esconde? Aparentemente, um mentiroso. E esse Sr. J.? Um farsista, ou, antes, um ser em quem não se deve confiar, porquanto não se oculta nem se mascara senão para fazer mal e mentir.

Hoje, que as academias finalmente já aceitam o magnetismo e o sonambulismo, primos-irmãos do Espiritismo, é necessário que seus partidários se disponham a assumi-lo com todas as letras. O medo do que dirão é um sentimento covarde e mau.

A ação de subscrever aquilo que se viu, que se crê, não deve mais ser considerada como um traço de coragem. Deveis, pois, persuadir vossos adeptos a fazerem o que sempre tenho feito: assinar.

Jobard

 

Observação – Estamos perfeitamente de acordo em todos os pontos com o Sr. Jobard. Inicialmente, suas observações sobre o estado do Espírito são perfeitamente exatas. Quanto ao segundo ponto, como ele, aspiramos ao momento em que a dúvida do que dirão não deterá mais ninguém. Mas, que quereis? É preciso levar em conta a fraqueza humana. Uns começam, e o Sr. Jobard terá o mérito de ter dado o exemplo. Ficai certos de que outros seguirão quando virem que se pode pôr o pé de fora sem ser mordido. Para tudo é preciso tempo. Ora, o tempo chega mais depressa do que pensa o Sr. Jobard. A reserva que temos na publicação dos nomes é motivada por razões de conveniência, pelo que não temos, até o momento, senão que nos felicitar; mas enquanto esperamos, constatamos um progresso muito sensível na coragem de opinião. Diariamente vemos pessoas que, há bem pouco tempo ainda, apenas ousavam confessar-se espíritas; hoje o fazem abertamente nas conversas e sustentam teses sobre a doutrina, sem se preocuparem minimamente com os epítetos grosseiros com que as presenteiam. É um passo imenso: o resto virá. Eu o disse no começo: Mais alguns anos e se verá uma nova mudança. Em pouco tempo dar-se-á com o Espiritismo o que se deu com o magnetismo: até há bem pouco tempo, não era senão entre quatro paredes que se ousava dizer que se era magnetizador; hoje é um título que honra. Quando estiverem perfeitamente convencidos de que o Espiritismo não queima, dir-se-ão espíritas, sem mais receio do que se dizer frenologista, homeopata etc. Estamos num momento de transição e as transições jamais se fazem bruscamente.



[1] REVISTA ESPÍRITA – janeiro/1860 – Allan Kardec

[2] “E, no entanto, ele se move”.

[3] “o espírito sopra onde quer”.