sexta-feira, 6 de novembro de 2026

APROPRIAÇÃO DA RELEVÂNCIA DE JESUS[1], [2]

 


Marco Milani

 

Em O Livro dos Espíritos, questão 625, Jesus é apresentado como guia e modelo da humanidade. Essa condição exige disposição para confrontar as próprias atitudes com seus ensinamentos. Quando, porém, sua imagem é adaptada às preferências do intérprete, a relação se inverte, quando o modelo passa a ser moldado por aquele que deveria aprender com ele. Jesus permanece no discurso, mas quem conduz a mensagem é a conveniência de quem fala.

Essa apropriação pode assumir formas discretas. Uma passagem evangélica, retirada de seu contexto, torna-se argumento enviesado, mas com aparência de ser válido, em favor de uma opinião. Uma preferência política recebe a roupagem de compromisso cristão. Uma ambição pessoal apresenta-se como missão espiritual. O nome de Jesus acrescenta respeitabilidade a afirmações que, sem esse recurso, precisariam enfrentar o exame de seus próprios fundamentos.

O expediente torna-se especialmente mesquinho quando a autoridade moral do Cristo serve para desqualificar quem discorda. O intérprete associa sua posição ao amor e à justiça, deixando aos demais o lugar da insensibilidade e da malevolência. Já não se discutem argumentos, mas distribuem-se credenciais de superioridade moral. A discordância com uma proposta humana passa a ser tratada como resistência ao próprio Evangelho.

A psicologia oferece elementos para compreender esse processo. Ross, Lelkes e Russell (2012) identificaram, entre cristãos norte-americanos, a tendência de atribuir a Jesus posições próximas às próprias convicções políticas. O estudo não permite presumir manipulação consciente em todos os casos, mas evidencia que a sinceridade da crença não impede a projeção de preferências pessoais sobre Jesus.

O anacronismo favorece essa projeção. Classificar Jesus como representante de uma ideologia moderna exige muito mais do que reunir frases aparentemente compatíveis com ela. A preocupação com os pobres, por exemplo, não constitui propriedade exclusiva de uma corrente política. Tampouco a presença de relações econômicas nas parábolas transforma o Evangelho em defesa de um sistema específico de produção. A distância histórica não impede aplicações contemporâneas, mas exige que sejam reconhecidas como interpretações, sujeitas à crítica.

Em ensaio sobre o tema, Lawrence Reed (2020) distingue a caridade voluntária da redistribuição compulsória e contesta a identificação automática de Jesus com correntes coletivistas. A mensagem de Jesus não se torna propriedade de quem encontra nela uma passagem favorável ao que já pensa.

Para o espírita, há uma contradição adicional quando se invoca a relevância de Jesus para legitimar concepções que negam a realidade espiritual ou reduzem o ser humano às condições materiais da existência. Combater a fome e enfrentar injustiças são compromissos compatíveis com a compreensão do Espírito imortal e não constituem monopólio de uma corrente política ou econômica. O materialismo, ao negar a realidade espiritual, contraria fundamentos doutrinários e é, em essência, o verdadeiro antagonista do Espiritismo. Na questão 799 de O Livro dos Espíritos, a resposta dos Espíritos registrada por Kardec (2004) associa o progresso à superação do materialismo, vinculando a compreensão da vida futura à solidariedade humana.

Assim, o distanciamento da mensagem essencial de Jesus ocorre quando essa aproximação com ideias materialistas esvazia o sentido espiritual de seus ensinamentos. Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo II, item 2, Kardec (2003) situa a vida futura como eixo do ensino do Cristo, conflitando com as motivações imediatistas transitórias.

Ao apelar-se à fraternidade, desconsiderando a continuidade da vida e a responsabilidade moral que ultrapassa a existência corporal, Jesus passa a figurar como reformador limitado às circunstâncias terrenas, enquanto o aperfeiçoamento do Espírito perde centralidade. Sua autoridade é preservada para legitimar o discurso, mas o conteúdo que contraria as convicções do intérprete é silenciado.

Na compreensão espírita, a melhoria das condições sociais integra o dever de solidariedade, mas não é a finalidade da existência. Quando a transformação das estruturas sociais é apresentada como suficiente para a regeneração humana, deixa-se em segundo plano o esforço individual de superação do orgulho e do egoísmo, as chagas da humanidade. Nenhum arranjo econômico dispensa a educação moral, assim como nenhuma declaração de espiritualidade dispensa o auxílio concreto a quem sofre.

Em O Evangelho segundo o Espiritismo, capítulo XVII, item 4, verifica-se que a compreensão da realidade espiritual e das Leis Naturais incentivam a transformação moral e o esforço para vencer as próprias más inclinações como critérios de reconhecimento do espírita. A defesa pública dos necessitados não concede licença para a arrogância no convívio, assim como a linguagem da fraternidade não torna fraterna a hostilidade contra os divergentes. A referência ao Cristo aumenta a responsabilidade pela coerência e não oferece imunidade à crítica.

Nas instituições espíritas, esse cuidado alcança a tribuna e as decisões cotidianas. O dirigente não deve apresentar suas preferências como decorrências obrigatórias da Doutrina. O expositor precisa distinguir o ensinamento estudado da aplicação que pessoalmente propõe. A liberdade de interpretação não inclui o direito de atribuir a Jesus a autoria das próprias conclusões.

Neste Natal, a lembrança de Jesus pode favorecer um exame menos confortável e mais fecundo, que é perceber quanto de sua mensagem realmente modifica a conduta de si mesmo e quanto é selecionado apenas para ornamentar convicções para serem apreciadas por terceiros. Honrá-lo exige aceitar que seus ensinamentos contrariem interesses orgulhosos e exponham as próprias incoerências. Um guia que parece confirmar todas as opiniões de quem o segue talvez já tenha sido reduzido ao reflexo de seu seguidor. O compromisso espírita começa por devolver ao modelo sua função, que é orientar o aperfeiçoamento moral, inclusive quando isso exige abandonar a pretensão de fazê-lo avalista das próprias convicções.

 

Referências

§  KARDEC, Allan. O evangelho segundo o Espiritismo. 59. ed. São Paulo: LAKE, 2003.

§  KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos. 64. ed. São Paulo: LAKE, 2004.

§  REED, Lawrence W. No, Jesus wasn’t a socialist. Foundation for Economic Education, 5 jan. 2020. Disponível em: https://fee.org/articles/no-jesus-wasnt-a-socialist/.

§  ROSS, Lee D.; LELKES, Yphtach; RUSSELL, Alexandra G. How Christians reconcile their personal political views and the teachings of their faith: projection as a means of dissonance reduction. Proceedings of the National Academy of Sciences, v. 109, n. 10, p. 3616–3622, 2012. DOI: https://doi.org/10.1073/pnas.1117557109.



[2] Texto publicado na Revista Dirigente Espírita, n.215, nov/dez 26, p. 14-15

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

SALÁRIO[1]

 


Miramez

 

 Anjos de guarda. Espíritos protetores, familiares ou simpáticos

O Espírito protetor, que consegue trazer ao bom caminho o seu protegido, lucra algum bem para si?

Constitui isso um mérito que lhe é levado em conta, seja para seu progresso, seja para sua felicidade. Sente-se ditoso quando vê bem sucedidos os seus esforços, o que representa, para ele, um triunfo, como triunfo é, para um preceptor, os bons êxitos do seu educando.

a) - É responsável pelo mau resultado de seus esforços?

Não, pois que fez o que de si dependia.

Questão 502 / O Livro dos Espíritos

 

Todo trabalhador é digno do seu salário. O Espírito protetor, quando vê que seu protegido está em bom caminho, que esse escuta seus conselhos e os coloca em prática, sente-se feliz pelo proveito dos seus trabalhos. Ele é recompensado pela consciência, no silêncio que a tranquilidade é doadora e a sua folha de serviço no reino onde habita fica enriquecida pelas bênçãos de Deus.

Entretanto, quando seu tutelado não ouve seus conselhos, ele não sofre como o encarnado com os desacertos dos familiares; a sua posição é bem diferente dos que estão envolvidos nos fluidos da carne e seu constrangimento não se compara com o dos homens. Sua dor é em outra dimensão, por saber que o seu protegido no amanhã erguer-se-á e passará a recordar o que aprendeu, passando a viver aquilo de que seus conselhos são portadores.

Nada se perde, principalmente em relação às leis naturais. Elas sempre acham acesso à consciência, depois dominam os sentimentos da alma. Trabalho algum fica em vão, principalmente quando se trata da verdade. Ela fica sempre de pé esperando, como semente divina, para nascer na hora certa e florescer na oportunidade que Jesus demarcar para tal evento.

Deus criou, acima de muitas coisas, o trabalho, e a Sua criação divina é em sequência interminável. O Senhor continua criando, e é nessa criação contínua que se conquista a felicidade, porque os mais velhos encontram oportunidade de trabalhar para ajudar os mais novos. Os Espíritos da retaguarda, por força da lei, devem receber ajuda dos que se encontram na dianteira, por estarem preparados para tal.

Os anjos da guarda não são responsáveis pelos caminhos tortuosos que seus protegidos tomam: estes têm o livre arbítrio e são responsáveis pelo que fazem. Os guias que os protegem conhecem a verdade de que ninguém morre, e aguardam o desabrochar da verdade nesses corações, como o jardineiro não se intimida com os espinhos da roseira, que oferece rosas belas e perfumadas.

A paciência e o amor do anjo-guardião para com o seu protegido por anos a fio constitui um mérito para a sua vida. O amor nunca falha na educação dos que desejam ser educados. A vida é uma constante troca em todos os reinos da natureza, e a alma que já se encontra despertada para a luz, busca em todos os planos o indispensável para o seu equilíbrio emocional, para a sua paz de consciência.

Pedimos aos seres que nos possam ouvir que meditem em Deus, em Jesus e na vida em geral, pois essa meditação pode transformar-se em luz para os seus caminhos. É o “Pedi e obtereis”, “Batei e abrir-se-vos-á”; é o “Buscai e achareis”. Ninguém fica sem resposta, quando sabe pedir.

O Espírito protetor não é responsável pelos maus resultados que podem advir do seu tutelado, porquanto os conselhos são sempre bons, mas esquecidos ou mal interpretados. Ele faz o que estava ao seu alcance para ajudar e continua a fazer, mesmo que o seu tutelado esteja fora da carne. Quando é preciso, multiplica seus esforços, usando todas as oportunidades e a sua alegria é que algum dia a vitória apareça, quando chegar a maturidade do que ouviu seus conselhos. Aí as duas almas se encontrarão mais unidas, festejando a felicidade. Esperamos sempre por esse dia, que é o encontro do Mestre com o discípulo, pois é comum dizer que quando um está pronto, o outro aparece.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume X – João Nunes Maia

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

STANISLAWA TOMCZYK[1]

 


Melvyn Willin – 12/05/2026

 

No início do século XX, as pesquisas psíquicas encontraram um sujeito incomum em Stanislawa Tomczyk (c. 1885–1975), uma mulher polonesa capaz de mover pequenos objetos sem tocá-los em condições controladas. Suas sessões espíritas e testes em laboratório atraíram a atenção de importantes pesquisadores de toda a Europa, que descreveram efeitos visíveis impressionantes, embora discordassem sobre o mecanismo por trás deles.

§  Julian Ochorowicz relatou que Tomczyk conseguia mover ou levitar pequenos objetos, como copos, lápis e sinos, enquanto estava sentada à mesa.

§  Diversos observadores descreveram finos "fios" que pareciam estender-se de suas mãos em direção a objetos, embora sua natureza permanecesse incerta.

§  Charles Richet, Theodore Flournoy e Everard Feilding consideraram os seus fenômenos suficientemente graves para merecerem uma atenção científica contínua.

 

Fundo

A vida inicial de Stanislawa Janina Tomczyk, nascida por volta de 1885, não parece ter sido documentada. Ela viveu em Varsóvia e tornou-se conhecida pela pesquisa psíquica em 1905, quando, após uma reação nervosa ao trauma de ter sido presa durante um motim e brevemente encarcerada, começou a exibir fenômenos psicocinéticos espontâneos[2]. De acordo com Everard Feilding, um investigador psíquico britânico (que se tornou seu marido em 1919), esses fenômenos ocorriam "espontaneamente e geralmente de forma inesperada em seu estado normal" e incluíam

batidas, movimentos de mesas e cadeiras sem contato aparente, arremessos ou transportes de objetos pela casa em que ela mora, frequentemente em sua própria proximidade, mas também muitas vezes em lugares aparentemente fora de seu alcance normal, como fora do cômodo em que ela está, ou mesmo em outro cômodo cuja porta está fechada[3].

Descobriu-se que movimentos anômalos de objetos podiam ser induzidos experimentalmente quando Tomczyk estava em um estado de transe leve. Nesses momentos, ela expressava uma personalidade secundária que se identificava como "Pequena Stasia".

Tomczyk faleceu em 2 de abril de 1975.

 

Julian Ochorowicz

Julian Ochorowicz, um pesquisador psíquico polonês, realizou experimentos com Tomczyk em sua casa em Wisla entre 1908 e 1909, cujos detalhes foram publicados nos The Annals of Psychical Science em 1909[4]. As sessões foram realizadas em condições de iluminação. Tomczyk foi revistada e então hipnotizada para induzir o estado de transe. Nem Tomczyk nem Ochorowicz acreditavam que 'espíritos' fossem responsáveis ​​pelos efeitos, mas sim que eles eram produzidos por alguma força psicocinética emanada de dentro dela.

Segundo Ochorowicz, os fenômenos produzidos foram variados:

Vários objetos foram trazidos de um cômodo no térreo, um punhado de neve caiu sobre a mesa, um lacre de metal foi colocado no meu bolso, um pedaço de carvão foi atirado em nós do fogão, a mais de três metros de distância, o grande relógio pendurado na parede foi aberto e parado, o fio de uma campainha elétrica foi sacudido e pressionado, fazendo a campainha tocar etc.[5]

Num caso notável, os ponteiros do relógio foram movidos, a pedido, para uma posição específica[6].

Em experimentos posteriores, Ochorowicz descobriu que, sentada à mesa, Tomczyk conseguia fazer com que pequenos objetos à sua frente se movessem ou levitassem sem serem tocados. Esses objetos incluíam um copo, uma bússola, um sino de mão, um lápis e um cigarro aceso.

 

Aparência de 'Threads'

Em relação à levitação de pequenos objetos, Ochorowicz discute longamente a aparência do que pareciam ser fios esticados entre as mãos de Tomczyk, observando que certas características dos movimentos dos objetos eram consistentes com a manipulação dessa maneira. Por exemplo, os objetos podiam ser movidos independentemente do material de que eram feitos – metais, madeira, vidro, couro, papel – desde que a forma permitisse sua manipulação por fios. Com um objeto que não se prestava ao movimento por meio de um único fio, ele sugeriu que o médium tentasse produzir um segundo fio, com algum sucesso[7] . Os fios eram visíveis apenas intermitentemente aos observadores, mas dizia-se que ocasionalmente eram visíveis em fotografias (impressões nítidas, não reproduções – veja 'Tomczyk levitando uma bola' no quadro lateral).

É importante notar que Ochorowicz não estava aqui afirmando que Tomczyk usou fraudulentamente linha de verdade, como alguns comentaristas céticos parecem pensar[8]. Ele escreve:

É possível criar mediunicamente, entre as mãos do médium, uma espécie de fio que possui, por alguns minutos, certa consistência, a qual diminui e desaparece com o afastamento das mãos. A formação do fio mediúnico é acompanhada por uma sensação de frio. Esse fio, criado pela imaginação inconsciente do médium, parece representar um caso de ideoplasma material objetivo: o forte desejo de levantar um pequeno objeto à distância traz, por associação, a ideia de um fio que faria isso[9].

Ochorowicz escreve ainda:

Senti esse fio nas minhas mãos, no meu rosto, no meu cabelo. Quando a médium separa as mãos, o fio fica mais fino e desaparece; dá a mesma sensação que uma teia de aranha. Se for cortado com uma tesoura, sua continuidade é imediatamente restaurada. Parece ser formado por pontas; pode ser fotografado e então se vê que é muito mais fino do que um fio comum. Começa nos dedos. Escusado será dizer que as mãos da médium foram examinadas com muito cuidado antes de cada experimento[10].

Por sua vez, Tomczyk descreveu suas sensações da seguinte forma:

É a 'corrente' que se acumula em mim pela força da atenção concentrada e do desejo. Sei quando ela está chegando por um arrepio que percorre todo o meu corpo, pelo calor das minhas bochechas, pela respiração fria, pelo formigamento e dormência nos meus dedos. Essa corrente não vai de uma mão para a outra; ela vai das minhas mãos em direção ao objeto e ali para. Ela não atravessa o objeto.

Essa corrente não é uma vibração. É algo que realmente emana das minhas mãos, apenas das pontas dos dedos. … Essa corrente se torna tênue e se interrompe quando afasto os braços. Seu fluxo prolongado me cansa muito. Quando os dedos se juntam, ela se forma como um novelo de fios, que alcança o objeto. Quando abro o polegar separadamente, o esquema se duplica e é capaz de sustentar um objeto muito maior. Um contato externo interrompe imediatamente essa corrente e me causa dor – por isso, instintivamente, procuro evitá-lo[11].

 

Charles Richet

Charles Richet, fisiologista e pesquisador psíquico francês, esteve presente em diversas experiências com Tomczyk, considerando-as "bastante conclusivas"[12]. Ele escreve:

Pequenos objetos – uma bola, um sino de mão, uma agulha – são atraídos em direção ao meio e mantidos no ar por tempo suficiente para que uma fotografia seja tirada, mesmo em condições de luz moderada.

Não se pode supor que esses objetos estejam sustentados por um fio, pois uma bola não pode ser equilibrada em um fio, que, além disso, apareceria na fotografia. Stanislawa arregaça as mangas até o cotovelo, lava as mãos com água morna e sabão, após o que suas mãos permanecem sempre à mostra.

Richet refere-se ainda a uma comissão de Varsóvia composta por médicos e fisiologistas, que em 1910 “verificou cuidadosamente esses fatos e… certificou sua total autenticidade”[13].

 

Albert Schrenck-Notzing

Albert Schrenck-Notzing, um pesquisador psíquico alemão, realizou experimentos com Tomczyk em 1914 em sua casa em Munique. Eles são relatados em seu livro[14], e resumidos por Richet da seguinte forma:

A luz vermelha era suficiente para permitir que todos os movimentos da médium fossem bem vistos. A luz estava atrás dela e suas mãos foram examinadas com a lente. Seus braços estavam nus. Nessas condições, a bola de celuloide (semelhante a uma bola de bilhar) foi movida pela aproximação de suas mãos; uma balança de precisão foi pressionada, indicando uma pressão de 50 gramas; uma das balanças foi abaixada cinco centímetros; bolas de celuloide em um copo foram movimentadas; e uma colher de chá em um copo foi arremessada para fora sem ser tocada. Todos esses procedimentos foram repetidos diversas vezes. A hipótese de fraude é absolutamente impossível, pois toda a atenção dos observadores estava concentrada nas mãos, que permaneceram imóveis durante o movimento dos objetos[15].

 

Teodoro Flournoy

Theodore Flournoy, um psicólogo suíço com interesse em mediunidade, concordou com a interpretação paranormal dos fenômenos dela, tendo assistido a cinco sessões em 1909. Ele enfatizou que ela não usava nenhum acessório mecânico, cabelo ou fio e que examinou seus dedos diversas vezes durante as sessões. Ele afirmou ter testemunhado vários fenômenos psicocinéticos em condições que, "a meu ver, excluem o uso de qualquer tipo de aparelho mecânico ou qualquer truque conhecido"[16].

 

Everard Feilding

Feilding observou Tomczyk em Varsóvia em 1912, mas as sessões se mostraram improdutivas. Ele retornou no final de 1913, tendo tomado conhecimento de que fenômenos estavam sendo produzidos, e esteve presente em diversas sessões bem-sucedidas, tanto lá quanto no início de 1914 em Munique, nas sessões organizadas por Schrenck-Notzing, onde os fenômenos ocorriam "com grande regularidade"[17]. No início do verão de 1914, ela veio a Londres para ser investigada pela Sociedade de Pesquisa Psíquica - SPR, mas a essa altura os efeitos já haviam se tornado insignificantes novamente, possivelmente como resultado de problemas de saúde.

Feilding resume as condições gerais que prevaleceram nas experiências de Varsóvia, Munique e Londres:

Tendo a personalidade secundária sido induzida por hipnose, a médium, que geralmente veste uma blusa de mangas curtas, submete-se a exame à luz plena; isto é, seus braços, mãos e vestimenta, bem como a mesa, que está nua, são cuidadosamente examinados com o objetivo de verificar a presença ou acessibilidade de qualquer fio de cabelo ou arame fino, meios pelos quais, aparentemente, os efeitos subsequentes poderiam ser produzidos fraudulentamente. Após o exame, ela permanece com as mãos bem estendidas sobre a mesa à sua frente, sem, até onde a observação mais atenta da Comissão pôde determinar, encontrar qualquer oportunidade de pegar tal auxílio. É, de fato, principalmente para evitar tal oportunidade que a observação subsequente se dirige[18].

Feilding acrescenta, no entanto, que a luz era insuficiente para garantir que nenhum fio estivesse visível, o que impedia uma afirmação completamente positiva a esse respeito. Ele continua:

Ela permanece com as mãos sobre a mesa, geralmente unidas, por um período que varia de cerca de cinco minutos a meia hora ou quarenta e cinco minutos, até relatar sentir a "corrente", que, segundo ela, se manifesta por uma sensação de formigamento nas pontas dos dedos. Em seguida, pede que algum pequeno objeto seja colocado sobre a mesa entre suas mãos. É irrelevante qual objeto seja escolhido, desde que não seja muito pesado, mas os objetos geralmente escolhidos são bolas de celuloide de diferentes tamanhos, desde o tamanho de uma bolinha de gude até o de uma bola de bilhar, um cigarro, uma caixa de fósforos, uma pequena caixa de alumínio, uma colher etc. Ela coloca as mãos em cada lado do objeto, com os dedos, às vezes abertos e às vezes unidos, apontando para dentro, em direção ao objeto, a uma distância de 2,5 a 7,5 ou 10 centímetros de cada lado. Logo em seguida, o objeto começa a se mover sobre a mesa; se for uma bola, corre de um lado para o outro; se for um objeto comprido, como um cigarro, muda seu ângulo de inclinação ou se levanta em uma das extremidades; se for uma caixa, desliza por curtas distâncias e ocasionalmente vira. Caso a “força”, seja ela qual for, se manifeste satisfatoriamente, o experimento termina quando a médium levanta as mãos da mesa, momento em que o objeto também é erguido a uma altura que varia de 15 centímetros a cerca de 45 centímetros[19].

Em Londres, Feilding fez parte de uma comissão de investigação que também incluía WW Baggally, E Sidgwick , H Verrall, VJ Woolley e dois amigos de Feilding: S Cowper-Coles (metalurgista elétrico e fotógrafo) e M Barr (especialista em eletricidade).

Foram realizadas onze sessões, mas os fenômenos foram fracos e apenas resultados inconclusivos foram obtidos. Um incidente notável ocorreu em 11 de junho, quando uma pequena bola de celuloide levitou a uma altura de cerca de nove polegadas acima da mesa[20]. Feilding afirmou que, desde então, realizou vários experimentos informais, mas apenas dois obtiveram sucesso[21], embora continuasse a observar fenômenos espontâneos.

 

Obras citadas

§  Council Report of the Society for Psychical Research (1915). Journal of the Society for Psychical Research 17, 24.

§  Feilding, E. (1915). Note on the English sittings with Miss Tomczyk. Journal of the Society for Psychical Research 17, 28-32.

§  Flournoy, T. (1911). Spiritism and Psychology. New York: Harper & Brothers.

§  Ochorowicz, J. (1909). A new mediumistic phenomenon. Annals of Psychic Science 8, 274-84, 333-99, 513-33.

§  Richet, C. (1922). Traité de Métapsychique. Paris: Félix Alcan.

§  Schiller, F.C.S. (1921). Review of Physikalische Pheaenomene des Mediumismus, Studen zur Erforshcung der Telekinetischen Vorgange by A. von. Schrenk-Notzing. Proceedings of the Society for Psychical Research 32, 144-46.

§  Schrenck-Notzing, A. (1894). Physikale Phaenomene des Mediumismus. Munchen: E. Reinhard.

§  Weaver, Z. (2021). Private correspondence with the author.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Weaver (2021), correspondência privada.

[3] Feilding (1915), 28.

[4] Ochorowicz (1909), 274-84; 333-99; 513-33.

[5] Ochorowicz (1909), 334.

[6] Ochorowicz (1909), 276-78.

[7] Ochorowicz (1909), 368.

[9] Ochorowicz (1909), 370.

[10] Ochorowicz, (1909), 370.

[11] Ochorowicz, (1909), 371.

[12] Richet (1922), 424.

[13] Richet (1922), 425-26.

[14] Schrenck (1894).

[15] Richet (1922), 438-39.

[16] Flournoy (1911), 288-90.

[17] Feilding (2015), 30.

[18] Feilding (1915), 28-29.

[19] Feilding (1915), 29.

[20] Council Report (1915), 24.

[21] Feilding (1915), 31.

terça-feira, 3 de novembro de 2026

HISTÓRIA DE UM DANADO [1], [2]

 


Allan Kardec

 

(Sociedade, 9 de dezembro de 1859 – Primeira sessão)

 

O Sr. de la Roche, membro titular, comunica o seguinte fato, que é de seu conhecimento pessoal:

Numa pequena casa perto de Castelnaudary ocorriam barulhos estranhos e manifestações diversas que levavam a considerá-la como assombrada por algum mau gênio. Por conta disso, foi exorcizada em 1848 e nela colocaram grande número de imagens de santos. Então, querendo habitá-la, o Sr. D... mandou fazer reparos e retirar as gravuras. Depois de alguns anos, ali morreu subitamente. Seu filho, que a ocupa atualmente, ou pelo menos a ocupava até há pouco, certo dia recebeu, ao entrar num aposento, forte bofetada de mão invisível. Como estivesse completamente só, não duvidou que ela proviesse de uma fonte oculta. Agora não quer mais ficar lá e vai deixá-la definitivamente.

Há, na região, a tradição segundo a qual um grande crime teria sido cometido naquela casa.

Interrogado sobre a possibilidade de evocar o esbofeteador, São Luís respondeu que sim.

Chamado, o Espírito se manifesta por sinais de violência; o médium é tomado de extrema agitação, sete ou oito lápis são quebrados, vários são atirados sobre os assistentes, uma página é rasgada e coberta de traços insignificantes, feitos com cólera. Todos os esforços para o acalmar mostram-se impotentes.

Pressionado a responder às perguntas que lhe são dirigidas, escreve com a maior dificuldade um não quase indecifrável.

 

1. [A São Luís] Teríeis a bondade de nos dar algumas informações sobre este Espírito, já que ele mesmo não pode ou não as quer dar?

– É um Espírito da pior espécie, um verdadeiro monstro. Nós o fizemos vir, mas não nos foi possível obrigá-lo a escrever, malgrado tudo quanto lhe foi dito. Ele tem seu livre arbítrio; mas, infeliz, dele faz triste uso.

2. Há muito tempo que morreu como homem?

– Tomai informações; foi ele que cometeu o crime, cuja lenda existe na região.

3. Quem era ele em vida?

– Sabê-lo-eis por vós mesmos.

4. É ele, pois, que assombra a casa atualmente?

– Sem dúvida, pois foi assim que vo-lo fiz chamar a atenção.

5. Os exorcismos praticados não foram capazes de expulsá-lo?

– De modo algum.

6. Ele tem algo a ver com a morte súbita do Sr. D...?

– Sim.

7. De que maneira contribuiu para essa morte?

– Pelo pavor.

8. Foi ele quem deu a bofetada no filho do Sr. D...?

– Sim.

9. Poderia ter dado outra em qualquer um de nós?

– Mas, certamente; vontade não lhe faltava.

10. Por que não o fez?

– Não lhe foi permitido.

11. Haveria um meio de o desalojar daquela casa? Qual seria?

– Se quiserem desembaraçar-se da obsessão de semelhantes Espíritos, será fácil, orando por eles: é o que sempre descuram fazer. Preferem apavorá-los com fórmulas de exorcismos, que os divertem muito.

12. Dando às pessoas interessadas a ideia de orar por esse Espírito, e orando nós mesmos por ele, seria possível desalojá-lo?

– Sim. Mas notai que eu disse orar, e não mandar orar.

13. Esse Espírito é susceptível de melhora?

– Por que não? Não o são todos, este como os outros? Contudo, é preciso enfrentar dificuldades. Mas, por mais perverso que seja, o bem em retribuição ao mal acabará por tocá-lo. Que orem primeiramente e o evoquem dentro de um mês; assim podereis julgar da mudança que nele se terá operado.

14. Esse Espírito é sofredor e infeliz. Podeis descrever o gênero de sofrimentos que ele suporta?

– Está convencido de que deverá ficar eternamente na situação em que se encontra. Vê-se constantemente no momento em que praticou o crime: qualquer outra lembrança lhe foi apagada, e interdita qualquer comunicação com outro Espírito. Na Terra só pode estar naquela casa e, quando no espaço, nas trevas e na solidão.

15. De onde vinha, antes da última encarnação? A que raça pertencia?

– Havia tido uma existência entre as tribos mais ferozes e mais selvagens e, precedentemente, vinha de um planeta inferior à Terra.

16. Se esse Espírito reencarnasse, em que categoria de indivíduos iria encontrar-se?

– Vai depender dele e do arrependimento que experimentar.

17. Em sua próxima existência corporal poderia ser o que se chama um homem de bem?

– Isto seria difícil. O que quer que faça, não poderá evitar uma existência bastante tempestuosa.

 

Observação – A Sra. X..., médium vidente que assistia à sessão, viu esse Espírito no momento em que queriam que escrevesse: sacudia o braço do médium; seu aspecto era aterrador; vestia uma camisa coberta de sangue e tinha um punhal.

O Sr. e a Sra. F..., que assistiam à sessão como ouvintes, embora ainda não fossem sócios, desde a mesma noite atenderam à recomendação feita em favor do infeliz Espírito e oraram por ele. Obtiveram várias comunicações, assim como de suas vítimas.

Narrá-las-emos na ordem em que foram recebidas e as que, sobre o mesmo assunto, foram obtidas na Sociedade. Além do interesse ligado a essa dramática história, ressalta um ensinamento que a ninguém escapará.

 

(Segunda sessão – casa do Sr. F...)

18. [Ao Espírito familiar] Podes dizer-nos alguma coisa a respeito do Espírito de Castelnaudary?

– Evoca-o.

19. Será mal?

– Verás.

20. Que devemos fazer?

– Não lhe falar, se nada tens a dizer-lhe.

21. Se lhe falarmos para lamentarmos o seu sofrimento, isso lhe fará bem?

– A compaixão sempre faz bem aos infelizes.

22. Evocação do Espírito de Castelnaudary.

– Que querem de mim?

23. Nós te chamamos a fim de te sermos úteis.

– Oh! Vossa piedade me faz bem, porque sofro... oh! Como sofro!... Que Deus tenha piedade de mim!... Perdão!... Perdão!

24. Nossas preces ser-te-ão salutares?

– Sim; orai, orai.

25. Pois bem! Oraremos por ti.

– Obrigado! Tu, pelo menos, não me amaldiçoas.

26. Por que não quiseste escrever na Sociedade, quando te chamaram?

– Oh! Maldição!

27. Maldição para quem?

– Para mim, que expio muito cruelmente os crimes nos quais a minha vontade não teve senão uma pequena parte.

 

Observação – Dizendo que sua vontade só tomou uma pequena parte em seus crimes, quer atenuá-los, como se soube mais tarde.

 

28. Se te arrependeres, serás perdoado?

– Oh! Jamais!

29. Não desesperes.

– Eternidade de sofrimentos, tal é a minha sorte.

30. Qual é o teu sofrimento?

– O que há de mais horrível; não o podes compreender.

31. Oraram por ti desde ontem à noite?

– Sim; mas sofro ainda mais.

32. Como assim?

– Sei lá!

 

Observação – Esta circunstância será explicada mais tarde.

 

33. Deve-se fazer algo em relação à casa onde te instalaste?

– Não, não! Não me falem disso... Perdão, meu Deus! Já sofri muito.

34. Tens que permanecer lá?

– A isso estou condenado.

35. Será para que tenhas constantemente teus crimes à vista?

– É isso.

36. Não desesperes; tudo pode ser perdoado com o arrependimento.

– Não; não há perdão para Caim.

37. Mataste, pois, teu irmão?

– Somos todos irmãos.

38. Por que quisestes fazer mal ao Sr. D...?

– Chega! Por piedade, chega!

39. Então, adeus; tem confiança na misericórdia divina!

– Orai.

 

(Terceira sessão)

40. Evocação.

– Estou junto de vós.

41. Começas a ter esperança?

– Sim, meu arrependimento é grande.

42. Qual era o teu nome?

– Sabereis mais tarde.

43. Há quantos anos sofres?

– Há 200 anos.

44. Em que época cometeste o crime?

– Em 1608.

45. Podes repetir as datas para no-las confirmar?

– Inútil; uma vez é bastante. Adeus; eu vos falarei amanhã. Uma força me chama.

 

(Quarta sessão)

46. Evocação.

– Obrigado, Hugo (nome de batismo do Sr. F...).

47. Queres falar do que se passou em Castelnaudary?

– Não; fazeis-me sofrer quando falais disto. Não é generoso de vossa parte.

48. Sabes muito bem que se falamos disto é com vistas a poder esclarecer a tua posição e não a agravá-la. Assim, fala sem temor. Como foste levado a cometer esse crime?

– Um momento de alucinação.

49. Houve premeditação?

– Não.

50. Não pode ser verdade. Teus sofrimentos provam que és mais culpado do que dizes. Já sabes que só pelo arrependimento poderás suavizar a tua sorte, e não pela mentira. Vamos! Sê franco.

– Bem! Já que é preciso, seja.

51. Foi um homem ou uma mulher que mataste?

– Um homem.

52. Como causaste a morte do Sr. D...?

– Apareci-lhe visivelmente e me encontrava de tal forma horrendo que minha simples visão o matou.

53. Fizeste-o de propósito?

– Sim.

54. Por quê?

– Ele quis me desafiar; e eu ainda faria outro tanto, se me viesse tentar.

55. Se eu fosse morar naquela casa, tu me farias mal?

– Oh! Não, certamente; tens piedade de mim e me desejas o bem.

56. O Sr. D... morreu instantaneamente?

– Não; foi tomado pelo medo, mas não morreu senão duas horas depois.

57. Por que te limitaste a dar uma bofetada no Sr. D... Filho?

– Era demais ter matado dois homens.

 

(Quinta sessão – Sociedade, 16 de dezembro de 1859)

 

58. Perguntas dirigidas a São Luís – O Espírito que se comunicou com o Sr. e a Sra. F... é realmente o de Castelnaudary?

– Sim.

59. Como pôde comunicar-se a eles tão prontamente?

– A Sociedade ainda o ignorava. Ele não se havia arrependido; o arrependimento é tudo.

60. São exatas as informações por ele dadas sobre o crime?

– Compete verificardes e vos entenderdes com ele.

61. Ele disse que o crime foi cometido em 1608 e que tinha morrido em 1659. Há, pois, 200 anos que se encontra naquele estado?

– Isso vos será explicado mais tarde.

62. Poderíeis descrever seu gênero de suplício?

 – É atroz para ele. Como sabeis, foi condenado a ficar na casa onde o crime foi cometido, sem poder dirigir o pensamento a outra coisa senão ao crime, sempre diante de seus olhos, e julga-se condenado a essa tortura para todo o sempre.

63. Está mergulhado na escuridão?

– Escuridão, quando quer afastar-se desse lugar de exílio.

64. Qual o gênero de suplício mais terrível que pode experimentar um Espírito, neste caso?

– Não há descrição possível das torturas morais que são a punição de certos crimes. O próprio que as experimenta teria dificuldade em vos dar uma idéia. Mas a mais horrível é a certeza de ser condenado sem apelação.

65. Ele se acha nessa situação há dois séculos. Avalia o tempo como o fazia quando encarnado, isto é, o tempo lhe parece mais ou menos longo, como quando vivia?

– Parece-lhe antes mais longo: para ele o sono não existe.

66. Foi-nos dito que, para os Espíritos, o tempo não existia e que, para eles, um século é um ponto na eternidade. Não é o mesmo para todos?

– Certo que não. Só o é para os Espíritos chegados a um grau muito elevado de progresso; mas para os Espíritos inferiores o tempo é por vezes muito longo, sobretudo quando sofrem.

67. Esse Espírito é punido muito severamente pelo crime que cometeu. Ora, dissestes-nos que antes desta última existência ele tinha vivido entre as tribos mais bárbaras. Lá deve ter cometido atos no mínimo tão atrozes quanto o último. Foi punido do mesmo modo?

– Foi menos punido, porque, sendo mais ignorante, compreendia menos o alcance.

 

Observação – Todas as observações confirmam este fato, eminentemente conforme à justiça de Deus, de que as penas são proporcionais, não à natureza da falta, mas ao grau de inteligência do culpado e à possibilidade de compreender o mal que faz. Assim, menos grave em aparência, uma falta poderá ser mais severamente punida num homem civilizado, que um ato de barbárie num selvagem.

 

68. O estado em que se encontra esse Espírito é o dos seres vulgarmente chamados danados?

– Absolutamente; há outros ainda muito mais horríveis. Os sofrimentos estão longe de ser os mesmos para todos, inclusive para crimes semelhantes, pois variam conforme seja o culpado mais ou menos acessível ao arrependimento. Para este, a casa onde cometeu o crime é seu inferno; outros o trazem em si mesmos, pelas paixões que os atormentam e que não podem satisfazer.

 

Observação – Com efeito, vimos avarentos sofrerem à vista do ouro, que se lhes tornara uma verdadeira quimera; orgulhosos, atormentados pela inveja das honras que viam prestar e que não se dirigiam a eles; homens que haviam mandado na Terra, humilhados pelo poder invisível que os constrangia a obedecer e pela visão de seus subordinados, que não mais se dobravam diante deles; ateus sofrendo as angústias da incerteza e se achando num isolamento absoluto em meio à imensidade, sem encontrar nenhum ser que os pudesse esclarecer. Se no mundo dos Espíritos há alegrias para todas as virtudes, há penas para todas as faltas, e as que não são alcançadas pelas leis dos homens, sempre o são pela lei de Deus.

 

69. Apesar de sua inferioridade, esse Espírito sente os bons efeitos da prece; vimos o mesmo da parte de outros Espíritos igualmente perversos e da mais bruta natureza. Como é possível a Espíritos mais esclarecidos, de inteligência mais desenvolvida, mostrarem completa ausência de sentimentos; sorrirem de tudo quanto há de mais sagrado; numa palavra, de nada se tocarem nem concederem a menor trégua ao seu cinismo?

– A prece não tem efeito senão em favor do Espírito que se arrepende. Aquele que, impelido pelo orgulho, revolta-se contra Deus e persiste nos seus desvios, ainda os exagerando, como fazem os Espíritos infelizes, sobre estes a prece nada pode nem poderá fazer, a não ser quando um clarão de arrependimento neles se manifestar. Para eles a ineficácia da prece é também um castigo. Ela só alivia os que não estão totalmente endurecidos.

70. Quando vemos um Espírito inacessível aos bons efeitos da prece, há uma razão para nos abstermos de orar por ele?

– Não, certamente, porque cedo ou tarde ela poderá triunfar de seu endurecimento e fazer com que nele germinem pensamentos salutares.

 

(Sexta sessão – em casa do Sr. F...)

71. Evocação.

– Eis-me aqui.

72. Então, agora podes deixar a casa de Castelnaudary quando quiseres?

– Permitem-me, porque aproveito vossos bons conselhos.

73. Experimentas algum alívio?

– Começo a ter esperança.

74. Se pudéssemos ver-te, sob que aparência te veríamos?

– Ver-me-íeis de camisa e sem punhal.

75. Por que não mais terias o punhal? Que fizeste dele?

– Eu o maldigo; Deus me poupa sua vista.

76. Se o Sr. D... Filho voltasse a casa, ainda lhe farias mal?

– Não, pois estou arrependido.

77. E se ele ainda te quisesse desafiar?

– Oh! Não me pergunteis isso; não poderia me dominar; isto estaria acima de minhas forças... porque não passo de um miserável.

78. As preces do Sr. D... Filho ser-te-iam mais salutares que as de outras pessoas?

– Sim, pois a ele é que fiz o maior mal.

79. Muito bem! Continuaremos a fazer por ti o que pudermos.

– Obrigado! Pelo menos encontrei em vós almas caridosas. Adeus!

 

(Sétima sessão)

80. Evocação do homem assassinado.

– Eis-me aqui.

81. Que nome tínheis quando vivo?

– Eu me chamava Pierre Dupont.

82. Qual era a vossa profissão?

– Era salsicheiro em Castelnaudary, onde meu irmão mais velho, Charles Dupont, assassinou-me com um punhal, no meio da noite do dia 6 de maio de 1608.

83. Qual foi a causa do crime?

– Meu irmão pensou que eu queria cortejar uma mulher a quem ele amava, e que eu via com muita frequência. Mas ele se enganava, porquanto eu jamais havia pensado nisso.

84. Como ele vos matou?

– Eu dormia; ele me feriu na garganta, depois no coração. Ferindo, despertou-me; quis lutar, mas logo sucumbi.

85. Vós o perdoastes?

– Sim; no momento de sua morte, há 200 anos.

86. Com que idade ele morreu?

– Com 80 anos.

87. Então ele não foi punido em vida?

– Não.

88. Quem foi acusado por vossa morte?

– Ninguém; naquele tempo de confusão prestava-se pouca atenção a tais coisas; isto de nada adiantaria.

89. Que aconteceu à mulher?

– Pouco depois foi assassinada em minha casa por meu irmão.

90. Por que a assassinou?

– Amor frustrado. Ele a tinha desposado antes de minha morte.

 

(Oitava sessão)

91. Por que ele não fala do assassinato dessa mulher?

– Porque o meu é o pior para ele.

92. Evocação da mulher assassinada.

– Eis-me aqui.

93. Que nome tínheis em vida?

– Marguerite Aeder, senhora Dupont.

94. Quanto tempo estivestes casada?

– Cinco anos.

95. Pierre nos disse que seu irmão suspeitava de relações criminosas entre vós dois. Isso é verdade?

– Nenhuma relação criminosa existia entre nós. Não acrediteis nisso.

96. Quanto tempo depois da morte de seu irmão Charles ele vos assassinou?

– Dois anos depois.

97. Que motivo o impeliu?

– O ciúme e o desejo de ficar com meu dinheiro.

98. Podeis relatar as circunstâncias do crime?

– Ele me agarrou e feriu-me na cabeça, no ateliê de trabalho, com sua faca de salsicheiro.

99. Como é que não foi perseguido?

– Para quê? Tudo era desordem naqueles tempos infortunados.

100. O ciúme de Charles tinha fundamento?

– Sim, mas não o autorizava a cometer semelhante crime, porque neste mundo todos somos pecadores.

101. Há quanto tempo estáveis casada, por ocasião da morte de Pierre?

– Há três anos.

102. Podeis precisar a data de vossa morte?

– Sim: 3 de maio de 1610.

103. Que pensaram da morte de Pierre?

– Fizeram crer em assassinos que queriam roubar.

 

Observação – Seja qual for a autenticidade desses relatos, que parecem difíceis de controlar, há um fato notável: a precisão e a concordância das datas e de todos os acontecimentos. Por si só essa circunstância é um curioso assunto de estudo, se considerarmos que esses três Espíritos, chamados em intervalos diversos, em nada se contradizem. O que pareceria confirmar suas palavras é que o principal culpado no caso, evocado por outro médium, deu respostas idênticas.

 

(Nona sessão)

104. Evocação do Sr. D...

– Eis-me aqui.

105. Desejamos pedir alguns detalhes sobre as circunstâncias de vossa morte. Poderíeis no-los dar?

– De bom grado.

106. Sabíeis que a casa em que habitáveis era assombrada por um Espírito?

– Sim; mas eu o quis desafiar e agi mal em fazê-lo. Melhor teria sido orar por ele.

 

Observação – Por aí se vê que os meios geralmente empregados para nos desembaraçarmos dos Espíritos importunos não são os mais eficazes. As ameaças mais os excitam do que os intimidam. A benevolência e a comiseração têm mais poder que o emprego de meios coercitivos, que os irritam, ou das fórmulas, de que se riem.

 

107. Como esse Espírito vos apareceu?

– À minha chegada em casa ele estava visível e me olhava fixamente; não pude escapar; fui tomado pelo pavor e expirei sob o olhar terrível desse Espírito que eu havia desprezado, e para o qual me havia mostrado tão pouco caridoso.

108. Não poderíeis pedir por socorro?

– Impossível; minha hora havia chegado, e é assim que eu devia morrer.

109. Que aparência tinha ele?

– De um furioso disposto a me devorar.

110. Sofrestes ao morrer?

– Horrivelmente.

111. Morrestes subitamente?

– Não; duas horas depois.

112. Que reflexões fazíeis, sentindo que morríeis?

– Não pude refletir; fui tomado de um terror inexprimível.

113. A aparição ficou visível até o fim?

– Sim; não deixou um só instante o meu pobre Espírito.

114. Quando vosso Espírito se desprendeu percebestes a causa de vossa morte?

– Não; tudo estava acabado. Só mais tarde compreendi.

115. Podeis indicar a data de vossa morte?

– Sim: 9 de agosto de 1853. (A data precisa ainda não pôde ser verificada; mas é exata, aproximadamente).

 

(Décima sessão)

Quando esse Espírito foi evocado, a 9 de dezembro, São Luís aconselhou a chamá-lo novamente dentro de um mês, a fim de julgar do progresso que deveria ter feito no intervalo. Já se pôde julgá-lo, pelas comunicações do Sr. e da Sra. F..., pela mudança operada em suas ideias, graças à influência das preces e dos bons conselhos. Decorrido pouco mais de um mês depois de sua primeira evocação, foi ele novamente chamado à Sociedade, em 13 de janeiro.

 

116. Evocação.

– Eis-me aqui.

117. Lembrai-vos de ter sido chamado entre nós há cerca de um mês?

– Como o esqueceria?

118. Por que então não pudestes escrever?

– Eu não queria.

119. Por que não o queríeis?

– Ignorância e embrutecimento.

120. Vossas ideias mudaram desde então?

– Muito. Vários dentre vós foram complacentes e oraram por mim.

121. Confirmais todas as informações que foram dadas por vós e por vossas vítimas?

– Se não as confirmasse seria dizer que não as havia dado, e fui eu mesmo que as dei.

122. Entrevedes o fim de vossas penas?

– Oh! Ainda não. Já é muito mais do que mereço saber que, graças à vossa intercessão, elas não durarão para sempre.

123. Descrevei a situação em que estáveis antes da nossa primeira evocação. Havereis de compreender que vo-lo pedimos para nossa instrução, e não como um motivo de curiosidade.

– Como vos disse, não tinha consciência de nada, no mundo, senão do meu crime, e não podia deixar a casa onde o cometi senão para me elevar no espaço, onde tudo à minha volta era solidão e obscuridade. Não vos poderia dar uma ideia disto; jamais o compreendi. Desde que me elevava acima do ar, tudo era negro e vazio; não sei o que era. Hoje experimento muito mais remorso, mas, como vos provam as comunicações, já não sou constrangido a ficar naquela casa fatal. Permitem-me vagar na Terra e procurar esclarecer-me por minhas observações. Agora compreendo melhor a enormidade dos meus crimes. Se, por um lado, sofro menos, por outro aumentam minhas torturas pelo remorso; mas, pelo menos, tenho esperança.

124. Se tivésseis que retomar uma existência corpórea, qual escolheríeis?

– Ainda não vi suficientemente, nem refleti bastante para o saber.

125. Encontrais as vossas vítimas?

– Oh! Que Deus me guarde!

 

Observação – Sempre foi dito que a visão das vítimas é um dos tormentos dos culpados. Este ainda não as viu, porque estava no isolamento e nas trevas; era um castigo. Mas ele teme essa visão, e talvez aí esteja o complemento de seu suplício.

 

126. Durante vosso longo isolamento e, pode-se dizer, vosso cativeiro, sentistes remorsos?

– Nem um pouco, e é por isso que sofri tanto. Foi somente quando comecei a experimentá-los que, mau grado meu, foram provocadas as circunstâncias que levaram à minha evocação, à qual devo o começo de minha liberdade. Obrigado, pois, a vós, que tivestes piedade de mim e me esclarecestes.

 

Observação – Esta evocação não é obra do acaso. Como devia ser útil a esse infeliz, os Espíritos que velavam por ele, vendo que começava a compreender a enormidade de seus crimes, julgaram chegado o momento de lhe prestar um socorro eficaz, e então o trouxeram às circunstâncias propícias. É um fato que vimos se produzir muitas vezes.

A propósito, perguntaram o que teria sido dele, se não pudesse ter sido evocado, como ocorre com todos os Espíritos sofredores que também não o podem ser, e nos quais não se pensa.

A isto foi respondido que os caminhos de Deus, para a salvação de suas criaturas, são inumeráveis. A evocação pode ser um meio de os assistir, mas, por certo, não é o único. Deus não deixa ninguém no esquecimento. Aliás, as preces coletivas também devem exercer sua influência sobre os Espíritos acessíveis ao arrependimento.



[1] REVISTA ESPÍRITA – fevereiro/1860 – Allan Kardec

[2] Nota da Editora: Ver “Nota Explicativa”, p. 569.