terça-feira, 7 de abril de 2026

Conversas Familiares de Além-Túmulo - NOTÍCIAS DA GUERRA[1]


Allan Kardec

 

O Governo permitiu que jornais avessos à política dessem notícias da guerra; como, porém, são abundantes os relatos de todos os gêneros, seria inútil repeti-los aqui. O que talvez constitua mais novidade para os nossos leitores é um relato que procede do outro mundo. Embora não seja extraído da fonte oficial do Moniteur, nem por isso oferece menor interesse, do ponto de vista dos nossos estudos. Assim, pensamos em interrogar algumas das gloriosas vítimas da vitória, presumindo aí pudéssemos encontrar alguma instrução de utilidade. Tais assuntos de observação e, sobretudo, de atualidade, não se apresentam todos os dias. Não conhecendo pessoalmente nenhum dos participantes da última batalha, rogamos aos Espíritos assistentes que nos enviassem alguém. Pensamos até mesmo encontrar mais liberdade num desconhecido do que na presença de amigos ou parentes dominados pela emoção. Logrando resposta afirmativa, obtivemos as seguintes conversas:

 

O ZUAVO DE MAGENTA

PRIMEIRA CONVERSA – (Sociedade, 10 de junho de 1859)

 

1. Rogamos a Deus Todo-Poderoso permitir ao Espírito de um dos militares mortos na batalha de Magenta que se comunique conosco.

– Que quereis saber?

2. Onde vos encontráveis quando vos chamamos?

– Não saberia dizer.

3. Quem vos preveniu que desejaríamos nos entreter convosco?

– Alguém mais astuto do que eu.

4. Quando na carne duvidáveis que os mortos pudessem vir conversar com os vivos?

– Oh! Isso não!

5. Que sensação experimentais por vos encontrardes aqui?

– Isso me dá prazer; conforme dizem, deveis fazer grandes coisas.

6. A que Corpo do Exército pertencíeis? [Alguém diz em voz baixa: Pela linguagem deve ser um zuzu.]

– Ah! Dissestes bem.

7. Qual era o vosso posto?

– O de todo o mundo.

8. Como vos chamáveis?

– Joseph Midard.

9. Como morrestes?

– Quereis saber tudo sem nada pagar?

10. Ora, vamos! Não perdestes o vosso bom humor. Falai primeiro; depois pagaremos. Como morrestes?

– De uma ameixa que dispararam contra mim.

11. Ficastes contrariado com a morte?

– Não! Palavra de honra! Estou bem aqui.

12. No momento da morte percebestes logo que havíeis morrido?

– Não; eu estava tão atordoado que não podia acreditar.

 

Observação – Isto concorda com o que temos observado nos casos de morte violenta; não se dando conta imediatamente de sua situação, o Espírito não se julga morto. Esse fenômeno se explica muito facilmente; é análogo ao dos sonâmbulos que não acreditam que estejam dormindo. Realmente, para o sonâmbulo, a ideia de sono é sinônimo de suspensão das faculdades intelectuais. Ora, como ele pensa, não acredita que dorme; só mais tarde reconhece a verdade, ao se familiarizar com o sentido ligado a essa palavra. Acontece a mesma coisa com o Espírito surpreendido por morte súbita, quando não se havia preparado para a separação do corpo. Para ele a morte é sinônimo de destruição, de aniquilamento. Ora, desde que vê, sente e raciocina, julga não ter morrido. É necessário certo tempo para poder reconhecer-se.

 

13. No momento em que morrestes a batalha não havia ainda terminado. Acompanhastes as suas peripécias?

– Sim, pois já vos disse que não me julgava morto; queria continuar maltratando os cães do outro lado.

14. Que sensação experimentáveis?

– Eu estava encantado; sentia-me muito leve.

15. Víeis os Espíritos dos vossos camaradas ao deixar o corpo?

– Não me preocupava com isso, pois não me julgava morto.

16. Nesse momento, em que se tornava essa multidão de Espíritos que deixava a vida no fragor da batalha?

– Creio que faziam o mesmo que eu.

17. Ao se acharem reunidos no mundo espiritual, que pensavam os Espíritos que se batiam mais encarniçadamente? Ainda revelavam animosidade uns contra os outros?

– Sim, durante algum tempo e conforme o seu caráter.

18. Reconhecei-vos melhor agora?

– Sem isso não me teriam enviado aqui.

19. Poderíeis dizer-nos se, entre os Espíritos de pessoas mortas há muito tempo, não se encontravam alguns interessados no desfecho da batalha? [Rogamos a São Luís que o auxiliasse em suas respostas, a fim de que, para a nossa instrução, fossem elas tão explícitas quanto possível].

– Em grande quantidade. É bom saibais que esses combates e suas consequências são preparados com muita antecedência e que os nossos adversários não se envolveriam em crimes, como de fato ocorreu, se a isso não houvessem sido impelidos, tendo em vista as consequências futuras, que não tardareis a conhecer.

20. Deveria haver quem se interessasse pelo sucesso dos austríacos, estabelecendo dois campos entre eles?

– Evidentemente.

 

Observação – Não parece que aqui estamos vendo os deuses de Homero a tomar partido, uns pelos gregos, outros pelos troianos? Com efeito, quem eram esses deuses do paganismo, senão os Espíritos que os Antigos haviam transformado em divindades? Não temos razão quando dizemos que o Espiritismo é a luz que esclarecerá mais de um mistério, a chave de mais de um problema?

 

21. Eles exerciam uma influência qualquer sobre os combatentes?

– Muito considerável.

22. Poderíeis descrever a maneira pela qual eles exerciam essa influência?

– Da mesma maneira por que são exercidas todas as influências que os Espíritos produzem sobre os homens.

23. Que esperais fazer agora?

– Estudar mais do que o fiz durante minha última etapa.

24. Retornareis para assistir, como espectador, aos combates que ainda se travam?

– Ainda não sei. Tenho afeições que me prendem no momento. Contudo, de vez em quando pretendo dar umas escapadelas para me divertir com as escaramuças subsequentes.

25. Que gênero de afeição vos retém ainda?

– Uma velha mãe doente e sofredora, que chora por mim.

26. Peço me desculpeis o mau pensamento que acaba de me atravessar o Espírito, relativamente à afeição que vos retém.

– Não vos quero mal por isso. Falo tolices para que possais rir um pouco. É natural que não me tomeis por grande coisa, tendo em vista o honroso corpo a que pertencia. Ficai tranquilos, eu só me engajei por causa de minha pobre mãe. Mereço um pouco que me tenham mandado a vós.

27. Quando vos encontrastes entre os Espíritos ouvíeis o rumor da batalha? Víeis as coisas tão claramente como em vida?

– A princípio eu a perdi de vista, mas depois de algum tempo via muito melhor, porque percebia todas as artimanhas.

28. Pergunto se ouvíeis o troar dos canhões.

– Sim.

29. No momento da ação, pensáveis na morte e naquilo em que vos tornaríeis, caso fôsseis morto?

– Eu pensava no que seria de minha mãe.

30. Era a primeira vez que entráveis no fogo de uma batalha?

– Não, não; e a África?

31. Vistes a entrada dos franceses em Milão?

– Não.

32. Aqui sois o único dos que morreram na Itália?

– Sim.

33. Pensais que a guerra durará muito?

– Não. É fácil e, ademais, de pouco valor essa predição.

34. Quando entre os Espíritos vedes um de vossos chefes, ainda o reconheceis como vosso superior?

– Se ele o for, sim; se não, não.

 

Observação – Em sua simplicidade e em seu laconismo, esta resposta é eminentemente profunda e filosófica. No mundo espírita a superioridade moral é a única que se reconhece. Quem não a teve na Terra, qualquer que tenha sido a sua posição, não terá nenhuma superioridade. Naquele mundo o chefe pode estar abaixo do soldado, o patrão em posição inferior à do servo. Que lição para o nosso orgulho!

 

35. Pensais na justiça de Deus e vos inquietais por isso?

– Quem não pensaria? Mas, felizmente, não tenho muito a temer. Resgatei, por algumas ações que Deus considerou boas, as raras escapadelas que pude cometer na qualidade de zuzu, conforme dissestes.

36. Assistindo a um combate, poderíeis proteger um de vossos camaradas e desviar-lhe um golpe fatal?

– Não; isso não está em nosso poder; a hora da morte é marcada por Deus. Se devemos passar por ela, nada o poderá impedir, como ninguém a poderia atingir se sua hora não houvesse soado.

37. Vedes o General Espinasse?

– Ainda não o vi, mas espero vê-lo em breve.

 

SEGUNDA CONVERSA – (17 de junho de 1859)

 

38. Evocação.

– Presente! Firme! Em frente!

39. Lembrais de ter vindo aqui há oito dias?

– Claro!

40. Dissestes ainda não ter visto o General Espinasse; como poderíeis reconhecê-lo, já que ele não estará envergando o seu hábito de general?

– De fato, mas eu o conheço de vista; além disso, temos uma porção de amigos sempre prontos a nos dar a senha. Aqui não é como aí, pois não temos medo de trombar com ninguém e vos asseguro que somente os velhacos ficam sozinhos.

41. Sob que aparência vos encontrais aqui?

– Zuavo.

42. Se vos pudéssemos ver, como vos veríamos?

– De turbante e culote.

43. Pois bem! Supondo-se que nos aparecêsseis de turbante e culote, perguntamos onde adquiristes essas roupas, considerando-se que deixastes as vossas no campo de batalha.

– Ora essa! Não sei de nada; tenho um alfaiate que me consegue algumas.

44. De que são feitos o turbante e o culote que usais? Tendes alguma ideia?

– Não; isto concerne ao negociante de roupas usadas.

 

Observação – Esta questão da vestimenta dos Espíritos, e várias outras não menos interessantes que se ligam ao mesmo princípio, são completamente elucidadas por novas observações, feitas no seio da Sociedade. Delas daremos conta no próximo número. Nosso bravo zuavo não se acha assaz adiantado para resolver por si mesmo. Para isso foi-nos necessário o concurso de circunstâncias que se apresentaram fortuitamente e que nos puseram no caminho certo.

 

45. Dai-vos conta da razão por que nos vedes, ao passo que não vos podemos ver?

– Acho que vossos óculos estão muito fracos.

46. Não será por essa mesma razão que não podeis ver o general em uniforme?

– Sim, mas ele não o veste todos os dias.

47. Em que dias o veste?

– Ora essa! Quando o chamam ao palácio.

48. Por que estais aqui vestido de zuavo, já que não vos podemos ver?

– Naturalmente porque ainda sou zuavo, lá se vão quase oito anos e, também, porque entre os Espíritos conservamos a forma durante muito tempo. Mas isso é apenas entre nós; compreendeis que quando vamos a um mundo completamente estranho, como a Lua ou Júpiter, não nos damos muito ao trabalho de fazer toalete.

49. Falais da Lua e de Júpiter; já os visitastes depois de morto?

– Não; não me compreendeis. Depois da morte já percorremos bastante o Universo. Não nos explicaram uma porção de problemas da nossa Terra? Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhor do que há quinze dias? Com a morte o Espírito passa por uma metamorfose que não podeis compreender.

50. Revistes o corpo que deixastes no campo de batalha?

– Sim; ele não está nada belo.

51. Que impressão vos deixou tal visão?

– Tristeza.

52. Tendes conhecimento de vossa existência anterior?

– Sim; mas não era bastante gloriosa para que eu possa envaidecer-me.

53. Dizei-nos apenas o gênero de vida que levastes.

– Simples mercador de peles selvagens.

54. Agradecemos por haverdes voltado uma segunda vez.

– Até breve. Isto me diverte e me instrui; desde que me tolerem bem aqui, retornarei de bom grado.

 

UM OFICIAL SUPERIOR MORTO EM MAGENTA

(Sociedade, 10 de junho de 1859)

1. Evocação.

– Eis-me aqui.

2. Poderíeis dizer-nos como atendestes tão prontamente ao nosso apelo?

– Eu estava prevenido do vosso desejo.

3. Por quem fostes prevenido?

Por um emissário de Luís[2].

4. Tínheis conhecimento da existência de nossa Sociedade?

– Vós o sabeis.

 

Observação – O oficial em questão tinha realmente auxiliado a Sociedade para a obtenção do seu registro de funcionamento[3].

 

5. Sob que ponto de vista consideráveis a nossa Sociedade quando concorrestes para a sua formação?

– Eu não estava ainda inteiramente decidido, mas me inclinava muito a crer; não fossem os acontecimentos que sobrevieram, por certo teria ido instruir-me no vosso círculo.

6. Há criaturas deveras notáveis que comungam as ideias espíritas, mas que não o confessam de público. Seria desejável que as pessoas influentes desfraldassem abertamente essa bandeira?

– Paciência; Deus o quer e, desta vez, a expressão é verdadeira.

7. De que classe influente da sociedade pensais deverá partir em primeiro lugar o exemplo?

– No início, de algumas; depois, de todas.

8. Do ponto de vista do estudo, poderíeis dizer-nos se vossas ideias são mais lúcidas que as do zuavo que há pouco esteve aqui, embora ambos hajam falecido mais ou menos na mesma época?

– Muito. Aquilo que ele vos disse, testemunhando uma certa elevação de pensamento, foi-lhe soprado, porque ele é bom mas muito ignorante e um tanto leviano.

9. Ainda vos interessais pelo sucesso de nossos exércitos?

– Muito mais do que nunca, pois hoje conheço o seu objetivo.

10. Tende a bondade de definir o vosso pensamento; o objetivo sempre foi abertamente confessado e, sobretudo em vossa posição, devíeis conhecê-lo?

– O fim que Deus se propôs, vós o sabeis?

 

Observação – Ninguém desconhecerá a gravidade e a profundeza desta resposta. Assim, quando vivo, ele conhecia o objetivo dos homens; como Espírito, vê o que há de providencial nos acontecimentos.

 

11. Que pensais da guerra em geral?

– Desejo que progridais rapidamente, a fim de que ela se torne tão impossível quanto inútil. Eis a minha opinião.

12. Acreditais que chegará o dia em que ela será impossível e inútil?

– Sim, não tenho dúvida, e posso dizer que esse momento não está tão longe quanto pensais, embora não vos possa dar esperança de que o vereis.

13. Vós vos reconhecestes imediatamente no momento da morte?

– Quase que imediatamente, graças às vagas noções que possuía do Espiritismo.

14. Podeis dizer algo a respeito de M..., morto também na última batalha?

– Ele ainda se encontra enredado na matéria; sente muita dificuldade em se desvencilhar; seus pensamentos não se tinham voltado para este lado.

 

Observação – O conhecimento do Espiritismo auxilia o desprendimento da alma após a morte; assim, concebe-se que abrevie o período de perturbação que acompanha a separação; o Espírito conhecia antecipadamente o mundo em que ora se encontra.

 

15. Assististes à entrada de nossas tropas em Milão?

– Sim, e com alegria. Fiquei encantado pela ovação com que nossas armas foram acolhidas, a princípio por patriotismo; depois, pelo futuro que as aguarda.

16. Como Espírito, podeis exercer uma influência qualquer sobre as disposições estratégicas?

– Acreditais que isso não tenha sido feito desde o princípio, e tendes dificuldade de adivinhar por quem?

17. Como foi possível que os austríacos abandonassem tão rapidamente uma praça forte como Pavia?

– Medo.

18. Então estão desmoralizados?

– Completamente. De mais a mais, se agimos sobre os nossos num sentido, deveis pensar que sobre eles age uma influência de outra natureza.

 

Observação – Aqui a intervenção dos Espíritos nos acontecimentos é inequívoca. Eles preparam os caminhos para a realização dos desígnios da Providência. Os Antigos teriam dito que era obra dos deuses; nós dizemos que é dos Espíritos, por ordem de Deus.

 

19. Podeis dar a vossa opinião sobre o General Giulay, como militar, pondo de lado qualquer sentimento nacionalista?

– Pobre, pobre general!

20. Voltaríeis de bom grado se vos pedíssemos?

– Estou à vossa disposição e prometo vir, mesmo sem ser chamado. A simpatia que eu nutria por vós não fez senão aumentar. Adeus.



[1] REVISTA ESPÍRITA – Julho/1859 – Allan Kardec

[2] N. do T.: São Luís [Luís IX, Rei da França] patrono da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

[3] N. do T.: Desde 1854, quando pela primeira vez ouviu falar das mesas girantes, até a sua desencarnação, em 1869, Allan Kardec conviveu com a França de Napoleão III. Esse sobrinho do grande corso, através de um Golpe de Estado desferido em dezembro de 1851, abriu caminho para ser proclamado Imperador no ano seguinte.

Reconhecendo intimamente a fragilidade do regime que fundara, adotou medidas coercitivas e autoritárias de modo a garantir a sua permanência no poder, entre as quais a censura à imprensa e a proibição de reuniões em recintos fechados, além de outros expedientes que restringiam a liberdade do povo francês. Assim, compreendemos melhor por que o Codificador encontrou alguns obstáculos para registrar a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas nos organismos oficiais competentes.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

EDWARD ‘SERJEANT’ COX[1]

 


Roberto R Narváez

 

Edward William Cox ajudou a moldar uma resposta naturalista precoce aos fenômenos mediunísticos, tratando-os como efeitos genuínos, porém não espirituais, de uma 'Força Psíquica' corporal. Sua carreira vinculou direito, publicação e psicologia experimental em um momento formativo dos debates vitorianos sobre Espiritismo, ciência, mente e agência humana.

§  Advogado e editor que fundou ou dirigiu vários jornais e periódicos antes de dedicar atenção séria à psicologia e aos fenômenos das sessões espíritas.

§  Sustentava que os efeitos meditécnicos eram reais, mas produzidos por uma força automática gerada dentro do organismo humano, e não por espíritos.

§  Trabalhou com William Crookes em investigações mediunísticas, tendo posteriormente rompido com ele por causa do caso de materialização de Florence Cook.

 

Vida e carreira

Filho de um fabricante, Edward William Cox (1809–1879) nasceu em Taunton, Somerset, cidade onde se tornou advogado[2]. Seus empreendimentos editoriais começaram em 1836, quando fundou o Somerset County Gazette e depois o Law Times, que dirigiu por quase 25 anos. Ele também fundou ou adquiriu outros jornais em inglês: The Critic, The Field, The Queen e County Courts' Chronicle.

Em 1843, foi admitido na ordem dos advogados e ingressou no Western Circuit, mudando-se posteriormente para Londres. De 1857 a 1868, ocupou cargos jurídicos como oficial judicial ou juiz, como Recorder de Helston e Recorder de Falmouth em Portsmouth. Ele escreveu livros e manuais sobre direito penal, a formação do advogado e do orador, sono e sonhos, hereditariedade, fisiologia e outros assuntos. Isso, junto com sua trajetória no ramo editorial, foram fundamentais para sua ascensão ao posto de Serjeant-at-Law (membro da ordem dos advogados da ordem inglesa), título pelo qual é conhecido na literatura parapsicológica.

Conservador na política, concorreu sem sucesso ao parlamento. Seus investimentos e empreendimentos comerciais o tornaram muito rico, e ele adquiriu grandes propriedades em Londres e em outros lugares.

 

Pesquisa Psíquica e Psicologia

No final da década de 1860, Cox interessou-se pelo fenômeno do espiritualismo e participou de um comitê nomeado pela London Dialectical Society. Durante a década de 1870, participou de sessões espíritas com D.D. Home e outros médiuns celebrados. Ele acreditava que os fenômenos das sessões eram genuínos, mas não os atribuía a nenhum agente sobrenatural, preferindo enxergá-los como uma questão de psicologia experimental[3]. Ele foi cofundador e único presidente da efêmera Psychological Society of Great Britain, que tinha como objetivo investigar alegações espiritualistas sobre a ação de agentes descarnados[4].

Para Cox, o objetivo da psicologia era revelar as 'nascentes ocultas' do 'mecanismo do homem', ajudando a resolver os problemas mais profundos da vida e da mente[5]. Ele argumentou que os efeitos mediáticos eram produzidos por uma força corporal natural — o que ele chamou de Psychic Force — gerada dentro do organismo humano e operando automaticamente através do sistema nervoso. Essa força, ele acreditava, poderia agir além dos limites da força muscular, muito parecido com magnetismo ou eletricidade, e por isso deveria ser estudada experimentalmente. A psicologia de Cox rejeitava tanto as ideias religiosas de alma separada quanto o materialismo grosseiro, posicionando a mediunidade como evidência de um processo psicofísico natural, porém pouco compreendido, em vez de intervenção espiritual.

 

William Crookes

Cox atuou como assistente de William Crookes em alguns de seus experimentos com médiuns. Ele concordou com Crookes que os experimentos deste último com D.D. Home forneceram evidências da Psychic Force, consistente com a teoria de Benjamin W. Richardson sobre uma 'atmosfera' gasosa dentro do sistema nervoso, que envolvia o corpo e mediava as experiências sensoriais[6]. Mais tarde, ele ficou desiludido com Crookes, acreditando que ele havia agido fraudulentamente no caso das supostas materializações de Florence Cook de 'Katie King[7]'.

 

William Carpenter

O fisiologista e psicólogo William B. Carpenter foi um opositor vocal do espiritualismo e da pesquisa psíquica, fazendo comentários públicos hostis sobre Crookes e outros investigadores[8]. Ele argumentou que os fenômenos das sessões espíritas eram causados pelo que chamava de 'cérebro inconsciente'. Cox escreveu que tal hipótese talvez não fosse totalmente incorreta, mas se opôs totalmente à rejeição da alma por Carpenter como um 'fato positivo'. Ele enfatizou que 'a psicologia começa ... onde a fisiologia termina', e que afirma 'a existência de algo além do cérebro, algo invisível ... mas não menos real'. A mente, acrescentou, pode ou não ser uma função do corpo, mas há evidências científicas da existência da alma. Tais evidências estão em nossa consciência e são fortalecidas pela ação da Psychic Force [9].

 

Experimento com Henry Slade

Em 1876, Cox teve uma sessão privada em Londres com o controverso médium americano Henry Slade, testando sua suposta capacidade de se comunicar com espíritos por meio da escrita em ardósia. Cox afirmou que testemunhou materializações e outros fenômenos espiritualistas, mas acrescentou que como isso era feito, e por qual ação, era 'um problema para a psicologia resolver[10]'.

 

Obras Selecionadas

§  Cox, E.W. (1872). Spiritualism Answered by Science; with the Proofs of a Psychic Force. London: Longmans and Co.

§  Cox, E.W. (1876). A sitting with Dr. Slade. The Spiritualist 11 August, 18-19.

§  Cox, E.W. (1878). A Monograph of Sleep and Dream. London: Longman and Co.

§  Cox, E.W. (1879a). The progress of psychology I. The Spiritualist 14 November, 229-31.

§  Cox, E.W. (1879b). The progress of psychology II. The Spiritualist November 21, 247-51.

§  Cox, E.W. (1879c). The Mechanism of Man: An answer to the Question What am I? (2 vols.) London: Longmans and Co.

 

Literatura

§  Berger, A.S., & Berger, J. (1991). The Encyclopedia of Parapsychology and Psychical Research. New York: Paragon House.

§  Brock, W.H. (2008). William Crookes (1832–1919) and the Commercialization of Science. Ashgate Publishing, Ltd.

§  Crookes, W., Huggins, W., & Cox, E.W. (1871). An experimental investigation of spiritual phenomena. The Spiritualist 15 July, 180-82.

§  Noakes, R. (2019). Physics and Psychics. The Occult and the Sciences in Modern Britain. Cambridge: Cambridge University Press.

§  Oppenheim, J. (1985). The Other World: Spiritualism and Psychical Research in Britain, 1850-1914. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

§  Shepard, L. & Spence, L. (1991). Encyclopedia of Occultism & Parapsychology (3rd ed., vol 1). Detroit, Michigan, USA: Gale Research, Inc.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Esta seção é baseada principalmente em Berger & Berger (1991), 81-82.

[3] Noakes (2019), 47, 250.

[4] Oppenheim (1985), 30.

[5] Cox (1878), iv.

[6] Noakes (2019), 170; Crookes, Huggins & Cox (1871), 181

[7] Oppenheim (19985), 18. Berger & Berger (1991), 82. Shepard & Spence (1991), 334.

[8] Noakes (2019), 251-52.

[9] Cox (1872), 76-77.

[10] Cox (1876).

quinta-feira, 2 de abril de 2026

INTERESSE PELA BATALHA[1]

 

Miramez

 

Os Espíritos durante os combates

No tumulto dos combates, que se passa com os Espíritos dos que sucumbem? Continuam, após a morte, a interessar-se pela batalha?

Alguns continuam a interessar-se, outros se afastam.

Dá-se, nos combates, o que ocorre em todos os casos de morte violenta: no primeiro momento, o Espírito fica surpreendido e como que atordoado. Julga não estar morto. Parece-lhe que ainda toma parte na ação. Só pouco a pouco a realidade lhe surge. (Allan Kardec)

Questão 546 / O Livro dos Espíritos

 

O Espírito que lutou como encarnado na guerra, ao desencarnar durante a batalha, fica mais ou menos atordoado, de acordo com a sua evolução espiritual. O fragor da batalha lhe toma os sentidos e o prende à luta, levando-o a se demorar naquele ambiente o quanto a sua evolução o permitir.

É o sofrimento que o irá tirando da ignorância, levando-o à procura da paz. A alma precisa de tempo para o seu aprendizado espiritual. Não podemos dizer o procedimento dos Espíritos, generalizando suas ideias depois das batalhas, porque cada um é diferente na maneira de proceder. Os processos de educação das criaturas são diversos, na diversidade da própria natureza.

A ignorância, movida pelo instinto, nos traz violência. A violência é estado natural do homem ou do Espírito primitivo, e todos passam por esse estado ligado à ignorância. É muito grande o trabalho dos benfeitores espirituais em uma guerra. Eles redobram seus esforços para socorrer a todos, dando a cada um segundo suas necessidades espirituais.

Convém a todos que já entendem essa operação benfeitora ajudar pela oração os Espíritos evangélicos que socorrem os desencarnados nas guerras e nas catástrofes, o que ocorre quase todos os dias no mundo. As mortes violentas atordoam as almas que assim desencarnam, e as mãos benfeitoras as assistem pela força do amor e da renúncia em favor de todas essas criaturas de Deus. Existem muitas delas que julgam não estarem mortas, por desencarnar sob influência do ódio. Oremos juntos, para que no amanhã o homem não desperdice mais o tempo com lutas, intrigas e discórdia encarniçada.

O trabalho do Cristo é maravilhoso, por ser de educação da humanidade. Ele delegou forças aos Seus discípulos de todos os tempos para continuarem essa operação divina de instruir os seres humanos na ciência do amor, transformando os dez mandamentos em apenas dois, que têm a força de fazer desaparecer as guerras fratricidas, as injúrias, a maledicência e todas as espécies de crimes.

Muitos Espíritos, ao desencarnarem em plena batalha, passam a não se interessar mais pela guerra, por sentirem que ela é inútil para eles, sendo, então, recolhidos por mãos generosas às casas de recuperação espiritual. Outros ficam envolvidos nas batalhas cada vez mais, sofrendo todas as consequências que advêm da brutalidade que nasce da ignorância.

É bom que compreendamos que guerra não é somente de irmãos que matam irmãos; ela existe em muitas dimensões, como as lutas motivadas pela ignorância, em que o orgulho toma a dianteira, aquelas em que o egoísmo inspira a vaidade sem comedimento, as lutas internas que sempre travamos, para construir e destruir...

Devemos sempre lembrar Jesus, na Sua fala divina, para recompor as forças da alma nos seus devidos lugares. Muitas vezes os que lutam em uma guerra pensam que estão iluminados em defender suas pátrias, que a honra é um dever que devem cumprir. Recordemos o Mestre:

Vê, pois, que a luz que há em ti não seja treva.

Lucas, 11:35

Existem muitas ações humanas que nasceram das trevas, por faltar conhecimento das leis universais, onde se apoiam o amor e a justiça de Deus.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 11 – João Numes Maia

quarta-feira, 1 de abril de 2026

ALGUMAS CRIANÇAS EM FASE TERMINAL RECUPERAM A CONSCIÊNCIA E CONVERSAM COM SERES POUCO ANTES DE FALECER[1].

 


Greg - 5 de março de 2026

 

Uma das muitas experiências estranhas relatadas perto do momento da morte é o que ficou conhecido como Lucidez Terminal (LT): um "surto inesperado de clareza mental pouco antes da morte" que geralmente contraria as expectativas médicas. Ou seja, casos como indivíduos que estavam em coma ou com demência grave repentinamente se tornando conscientes e reconhecendo aqueles que estavam reunidos ao seu lado nos minutos, horas ou dias que antecederam seu falecimento.

Durante esse período de lucidez, os pacientes frequentemente expressam compreensão e aceitação (e às vezes até felicidade e entusiasmo) em relação à sua morte iminente, tranquilizam seus entes queridos de que tudo ficará bem e, ocasionalmente, relatam a presença e a comunicação com entidades invisíveis, incluindo pessoas falecidas ou figuras espirituais (esta última é frequentemente chamada de "visão no leito de morte").

A LT é tão comum que passou a ser conhecida por diversos nomes, desde "clareamento" e "a recuperação" até o termo mais acadêmico "onda pré-morte". Mas também é uma das áreas menos estudadas, e até recentemente havia pouquíssima pesquisa sobre o tema, apesar de o fenômeno levantar questões intrigantes sobre a natureza e a origem da consciência humana.

Como é possível que uma pessoa com o cérebro gravemente danificado recupere repentinamente a lucidez e converse com as pessoas ao seu redor, pouco antes de falecer?

Embora o interesse acadêmico pelo assunto tenha crescido lentamente nas últimas décadas, um subconjunto específico de casos de LT que tem sido alvo de pesquisas nos últimos anos são as experiências de crianças em fase terminal – e um novo artigo científico publicado na semana passada apresentou o que considera ser a primeira coleta sistemática de casos contemporâneos de LT em crianças de até 16 anos.

A ocorrência inesperada de uma clareza mental excepcionalmente aguçada pouco antes da morte tem sido relatada ao longo do tempo e em diferentes culturas. Casos que parecem ser característicos da LT em crianças têm sido documentados esporadicamente na literatura histórica e mais recente, porém nenhum estudo examinou sistematicamente as características da LT em crianças. Utilizando um questionário online com 42 itens, este estudo coletou relatos de casos de LT em 11 crianças com 16 anos ou menos. Registramos a progressão da doença e o regime de tratamento, as alterações comportamentais e emocionais antes e durante a LT, a proximidade da LT à morte e a duração da LT.

Os casos foram coletados de sete indivíduos que testemunharam LT em uma criança, seis dos quais trabalhavam como médico, enfermeiro, profissional de cuidados paliativos ou assistente social, e o outro era o irmão mais velho de uma criança falecida que havia vivenciado a LT.

O estudo constatou que a LT nesse grupo de crianças “tendia a ocorrer nas últimas horas ou minutos antes da morte da criança” e que “tipicamente se manifestava como mudanças notáveis ​​nas habilidades mentais, bem como mudanças comportamentais e emocionais marcantes”. Apesar de 10 das 11 crianças apresentarem “deficiência mental grave” (a outra apresentava “deficiência mental leve”), pouco antes da morte, seu estado mental mudou drasticamente.

Por exemplo, o Caso 7 “passou de um estado semicomatoso para um estado de alerta, conseguindo se comunicar com as enfermeiras, enquanto, antes do evento lúcido”; o Caso 8 “não respondia aos profissionais de saúde nem aos pais. Durante o evento, ela se comunicou normalmente”. O Caso 3 também foi descrito como “seu comportamento era o normal, mas sem dor e muito tranquilo”. Outras respostas também indicaram que “uma sensação de paz havia se instalado na criança durante a LT”. Por exemplo, a pessoa que presenciou a LT no Caso 2 afirmou: “ele estava alerta e conversando. Parecia conhecer a todos, como se estivesse perfeitamente bem. Também estava tranquilo. Sabia que ia morrer e não estava com medo nenhum”, enquanto a pessoa que presenciou a LT no Caso 6 afirmou que “após sair do coma e ter clareza, ele também pareceu ter uma sensação de paz e aceitação do que estava acontecendo”.

Mais surpreendente ainda, durante esse período de lucidez, 10 das 11 crianças também interagiram com "outros não identificados" que não eram visíveis para mais ninguém. Uma das crianças "conversava apenas com alguém que só ela podia ver. Ela não olhava para os outros no quarto", enquanto outra "parecia se comunicar com pessoas que não estavam presentes, conversando e dialogando como se tivesse recuperado seu estado normal de saúde". Após ter estado em estado semicomatoso, uma criança "comunicou-se com as enfermeiras para dizer aos pais que ficaria bem e que fulano de tal a ajudaria a partir", enquanto outra "relatou ter conversado com uma avó falecida". Duas das crianças descreveram ter interagido com outras crianças que estavam no hospital ao mesmo tempo que elas, mas que já haviam falecido.

E, surpreendentemente, duas das crianças chegaram a falar sobre interagir com familiares falecidos dos quais não tinham conhecimento.

O Caso 10 discutiu a reunião com um irmão falecido que os pais não haviam mencionado à criança antes: “Ele falou sobre se juntar ao irmão que nasceu morto e disse aos pais que ficaria bem”, enquanto o Caso 1 descreveu a comunicação com um tio falecido que ele não conhecia, pois a morte do tio ocorreu antes do nascimento da criança: “ele ‘conheceu’ alguém que o fazia rir e ser feliz. Quando ele descreveu essa pessoa para a mãe, ela me disse: ‘ele está descrevendo meu irmão mais novo que morreu quando eu era mais nova’”.

Os autores do artigo deixam claro que esse período de lucidez e as visões de 'outros' invisíveis não estavam relacionados a nenhum tratamento médico ou medicamento: "A LT não pareceu ser impedida por quaisquer mudanças no regime médico", observam eles, "e pareceu ocorrer apesar de muitas crianças estarem em estados semicomatosos ou comatosos pouco antes do episódio de lucidez".

Embora reconheçam o tamanho reduzido da amostra, os pesquisadores afirmam que seu estudo

“é um primeiro passo necessário e importante para construir uma compreensão mais robusta do que é a LT” e concluem que – assim como já foi observado em adultos – “um aumento de clareza mental em crianças com doenças terminais ocorre, apesar das expectativas médicas de que não deveria”. E, mais importante, que suas descobertas podem ajudar a “aprimorar os cuidados paliativos em crianças com doenças terminais, bem como a desenvolver uma compreensão sobre a natureza da consciência no fim da vida”.

terça-feira, 31 de março de 2026

RECONHECIMENTO DA EXISTÊNCIA DOS ESPÍRITOS E DE SUAS MANIFESTAÇÕES[1]



Allan Kardec

 

Se as primeiras manifestações espíritas fizeram numerosos adeptos, não somente encontraram muitos incrédulos, mas adversários ferrenhos e, muitas vezes, até interessados em seu descrédito. Hoje, os fatos falam tão alto que é forçoso reconhecer a evidência e, se ainda existem incrédulos sistemáticos, podemos predizer-lhes com segurança que não se passarão muitos anos para acontecer com os Espíritos o que se deu com a maior parte das descobertas, que foram pertinazmente combatidas ou encaradas como utopias por aqueles cujo saber deveria tê-los tornado menos cépticos no que diz respeito ao progresso. Já vimos muitas pessoas, entre as que não se aprofundaram nesses estranhos fenômenos, concordar que nosso século é tão fecundo em fatos extraordinários, a Natureza tem tantos recursos desconhecidos, que seria mais que leviandade negar-se a possibilidade daquilo que se não compreende. Esses tais dão prova de sabedoria. Eis aqui uma autoridade que não poderia ser suspeita de prestar-se levianamente a uma mistificação, a Civiltà Cattolica, um dos principais jornais eclesiásticos de Roma. Reproduziremos, mais adiante, um artigo que esse jornal publicou no mês de março passado, no qual se verá que seria difícil provar a existência e a manifestação dos Espíritos por argumentos mais peremptórios. É verdade que divergimos dele sobre a natureza dos Espíritos; não admitem senão os maus, enquanto admitimos bons e maus; é um ponto que abordaremos mais tarde, com todos os desenvolvimentos necessários. O reconhecimento das manifestações espíritas por uma autoridade tão grave e tão respeitável é um ponto capital. Resta, pois, julgá-las: é o que faremos no próximo número. Reproduzindo o artigo, o Univers o faz preceder das seguintes e sábias reflexões:

“Por ocasião da publicação de uma obra, em Ferrara, sobre a prática do magnetismo animal, referimos aos nossos leitores os sábios artigos que acabavam de aparecer na Civiltà Cattolica, de Roma, sobre a Necromancia moderna, reservando-nos trazer-lhes mais amplas informações. Publicamos hoje o último desses artigos que, em algumas páginas, contém as conclusões da revista romana. Além do interesse que naturalmente se liga a essas matérias, e a confiança que deve inspirar um trabalho publicado pela Civiltà, a oportunidade particular da questão nos dispensa, neste momento, de chamar a atenção para uma matéria que muitas pessoas, na teoria como na prática, trataram de maneira tão pouco séria, a despeito da regra de vulgar prudência que recomenda sejam os fatos examinados com tanto maior circunspeção quanto mais extraordinários pareçam”.

Eis o artigo:

De todas as teorias lançadas para explicar naturalmente os diversos fenômenos conhecidos sob o nome de espiritualismo americano, não há uma só que alcance o objetivo, e, menos ainda, consiga dar a razão de todos eles. Se uma ou outra dessas hipóteses é suficiente para explicar alguns desses fenômenos, sempre restará alguns que permanecerão inexplicáveis. A fraude, a mentira, o exagero, as alucinações sem dúvida devem ter uma grande parte nos fatos referidos; mas, feito o desconto, resta ainda um volume tal que, para negar a realidade, seria preciso recusar toda fé na autoridade dos sentidos e no testemunho humano. Entre os fatos em questão, um certo número pode ser explicado pela teoria mecânica ou mecânico-fisiológica; porém, há uma parte, muito mais considerável, que não se presta de maneira alguma a uma explicação desse gênero. A essa ordem de fatos se ligam todos os fenômenos nos quais, dizem, os efeitos obtidos ultrapassam, evidentemente, a intensidade da força motriz que os deveria produzir. Tais são:

1º os movimentos; os sobressaltos violentos de massas pesadas e solidamente equilibradas, à simples pressão e ao leve toque das mãos;

2º os efeitos e os movimentos que se produzem sem nenhum contato, consequentemente sem qualquer impulso mecânico, seja imediato ou mediato; e, enfim, esses outros efeitos, que são de natureza a manifestar, em quem os produz, uma inteligência e uma vontade distintas das dos experimentadores.

Para dar a razão dessas três ordens de fatos diversos, temos ainda a teoria do magnetismo; mas, por maiores que sejam as concessões que se lhe disponha a fazer, e mesmo admitindo, de olhos fechados, todas as hipóteses gratuitas sobre as quais ela se funda, todos os erros e absurdos de que está repleta, e as faculdades miraculosas por ela atribuídas à vontade humana, ao fluido nervoso ou a quaisquer outros agentes magnéticos, jamais poderá essa teoria, com o auxílio desses princípios, explicar completamente como uma mesa magnetizada por um médium manifesta em seus movimentos uma inteligência e uma vontade próprias, isto é, distintas das do médium e que, por vezes, são contrárias e superiores à sua inteligência e vontade.

Como dar a razão de semelhantes fenômenos?

Queremos, também nós, recorrer a não sei que causas ocultas, a que forças ainda desconhecidas da Natureza? A explicações novas de certas faculdades, de certas leis que, até o presente, permaneceram inertes e como que adormecidas no seio da Criação? Estaríamos, desse modo, confessando abertamente a nossa ignorância e levando o problema a aumentar o número de tantos enigmas, dos quais o pobre espírito humano não pôde, até o momento, nem poderá jamais decifrar. Aliás, não hesitamos em confessar nossa ignorância em relação a vários dos fenômenos em questão, dos quais a natureza é tão equívoca e tão obscura, que a atitude mais prudente, parece-nos, é não tentar explicá-los. Em compensação, há outros para os quais não nos é difícil encontrar a solução; é verdade que é impossível buscá-la nas causas naturais; por que, então, hesitaríamos em recorrer às causas que pertencem à ordem sobrenatural? Talvez fôssemos desviados pelas objeções que nos opõem os cépticos e os que, negando essa ordem sobrenatural, nos digam que não se pode definir até onde se estendem as forças da Natureza; que o campo que ainda resta descobrir pelas ciências físicas não tem limites e que ninguém conhece suficientemente bem quais são os limites da ordem natural para poder indicar, com precisão, o ponto onde termina esta e começa a outra. A resposta a tal objeção parece-nos fácil: admitindo que não se possa determinar, de modo preciso, o ponto de divisão dessas duas ordens opostas, a natural e a sobrenatural, não se segue daí que seja impossível definir com certeza se um dado efeito pertence a esta ou àquela. Quem pode, no arco-íris, distinguir o ponto preciso onde acaba uma cor e começa a seguinte? Quem pode fixar o instante exato onde termina o dia e começa a noite? E, entretanto, não há um só homem, por mais limitado que seja, que não distinga se tal zona do arco-íris é vermelha ou amarela, se a tal hora é dia ou noite. Quem não percebe que, para conhecer a natureza de um fato, de modo algum é necessário passar pelo limite onde começa ou termina a categoria à qual o mesmo pertence, e que basta constatar se tem os caracteres peculiares a essa categoria?

Apliquemos essa observação tão simples à presente questão: não podemos dizer até onde vão as forças da Natureza; entretanto, dando-se um fato podemos dizer, muitas vezes, com certeza, segundo seus caracteres, que ele pertence à ordem sobrenatural. E, para não sair do nosso problema, entre os fenômenos das mesas falantes há vários que, em nossa opinião, manifestam esses caracteres da maneira mais evidente; tais são aqueles nos quais o agente que move as mesas age como causa inteligente e livre, ao mesmo tempo em que revela uma inteligência e uma vontade próprias, isto é, superiores ou contrárias à inteligência e à vontade dos médiuns, dos experimentadores, dos assistentes; numa palavra, distintas destas, qualquer que seja o modo que ateste essa distinção. Seja como for, em casos tais somos forçados a admitir que esse agente é um Espírito, e não é um Espírito humano, estando, desde então, fora dessa ordem, dessas causas que costumamos chamar naturais, daquelas que não ultrapassam as forças do homem.

Tais são precisamente os fenômenos que, como dissemos acima, resistiram a toda teoria baseada sobre princípios puramente naturais, enquanto na nossa eles encontram mais fácil e clara explicação, pois todos sabem que o poder dos Espíritos sobre a matéria ultrapassa de muito o poder do homem, e porque não há efeito maravilhoso, entre os citados da necromancia moderna, que não possa ser atribuído à sua ação.

Sabemos perfeitamente que, em nos vendo colocar em cena os Espíritos, mais de um leitor sorrirá de piedade. Sem falar dos que, verdadeiros materialistas, não acreditam na existência dos Espíritos e rejeitam como fábula tudo quanto não seja matéria ponderável e palpável, como também aqueles que, admitindo que existem Espíritos, negam-lhes qualquer influência ou intervenção no que diz respeito ao nosso mundo; há, em nossos dias, muitas criaturas que, concedendo aos Espíritos o que nenhum bom católico lhes poderia recusar, isto é, a existência e a faculdade de intervir nos fatos da vida humana, de maneira oculta ou patente, ordinária ou extraordinária, parecem todavia desmentir sua fé na prática, e considerar como uma vergonha, como um excesso de credulidade, como uma superstição de mulher velha, admitir a ação dos mesmos Espíritos em certos casos especiais, contentando-se, em geral, em não negá-la. Em verdade, há um século zombou-se tanto da simplicidade da Idade Média, acusando-a de ver Espíritos, sortilégios e feiticeiros por toda parte, e tanto se investigou a esse respeito, que não é de admirar que tantas cabeças fracas, querendo parecer fortes, experimentem agora repugnância e uma espécie de vergonha em crer na intervenção dos Espíritos. Mas esse excesso de incredulidade não é menos despropositado do que em outras épocas  o foi o excesso contrário; se, em semelhante matéria, crer em demasia leva a vãs superstições, por outro lado, nada querer admitir conduz diretamente à impiedade do naturalismo. O homem sábio, o cristão prudente deve, pois, do mesmo modo, evitar esses dois extremos e manter-se firme na linha intermediária: aí estão a verdade e a virtude. Agora, nessa questão das mesas falantes, para que lado nos fará  inclinar uma fé prudente?

A primeira, a mais sábia das regras que nos impõe essa prudência ensina-nos que, para explicar os fenômenos que oferecem um caráter extraordinário, somente se deve recorrer às causas sobrenaturais se as pertencentes à ordem natural não forem suficientes para os explicar. Em compensação, daí resulta a obrigação de admitir as primeiras, quando as segundas são insuficientes; é justamente o nosso caso. Com efeito, entre os fenômenos de que falamos, há aqueles para os quais nenhuma teoria, nenhuma causa puramente natural poderia dar razão. Assim, pois, não só é prudente, mas necessário mesmo procurar sua explicação na ordem sobrenatural ou, em outras palavras, atribuí-los a Espíritos puros, visto que, fora e acima da Natureza, outra causa possível não existe.

Eis uma segunda regra, um criterium infalível para se afirmar, a respeito de um fato qualquer, se pertence à ordem natural ou à sobrenatural: examinar-lhe bem os caracteres e, conforme eles, determinar a natureza da causa que o produziu. Ora, os fatos mais maravilhosos desse gênero, os que nenhuma outra teoria pode explicar, apresentam caracteres tais que não só demonstram uma causa inteligente e livre, mas ainda dotada de uma inteligência e de uma vontade que nada têm de humano; portanto, não pode essa causa deixar de ser senão um Espírito puro.

Assim, por dois caminhos, um indireto e negativo, que procede por exclusão, o outro direto e positivo, fundado sobre a própria natureza dos fatos observados, chegaremos a essa mesma conclusão, a saber: que entre os fenômenos da necromancia moderna há pelo menos uma categoria de fatos que, sem nenhuma dúvida, são produzidos pelos Espíritos. Somos levados a essa conclusão por um raciocínio tão simples, tão natural que, aceitando-o, longe do temor de ceder a uma imprudente credulidade, julgamos, ao contrário, fazer prova de uma fraqueza e de uma incoerência de espírito indesculpável, caso o recusemos. Para confirmar a nossa asserção, não nos faltam argumentos, mas, sim, espaço e tempo para desenvolvê-los aqui. O que dissemos até o momento é suficiente e pode resumir-se nas quatro seguintes proposições:

1º Entre os fenômenos em questão, deixando de lado os que podem razoavelmente ser atribuídos à impostura, às alucinações e aos exageros, grande número ainda existe, cuja realidade não pode ser posta em dúvida sem que se violem todas as leis de uma crítica sadia.

2º Todas as teorias naturais que expusemos e discutimos acima são impotentes para dar uma explicação satisfatória de todos esses fatos; se explicam algumas, deixam um grande número – e estes são os mais difíceis – totalmente inexplicados e inexplicáveis.

3º Os fenômenos dessa última ordem, por implicarem a ação de uma causa inteligente estranha ao homem, só podem ser explicados pela intervenção dos Espíritos, seja qual for, aliás, o caráter desses Espíritos, questão de que logo nos ocuparemos.

4º Pode-se dividir todos esses fatos em quatro categorias: muitos deles devem ser rejeitados como falsos ou como produtos da fraude; quanto aos outros, os mais simples, os mais fáceis de conceber, tais como as mesas girantes, em certas circunstâncias admitem uma explicação puramente natural: a do impulso mecânico, por exemplo; uma terceira classe compõe-se de fenômenos mais extraordinários e mais misteriosos sobre a natureza dos quais se fica em dúvida, porque, se bem que pareçam ultrapassar as forças da Natureza, não apresentam, entretanto, caracteres tais que, evidentemente, para os explicar, se deva recorrer a uma causa sobrenatural. Enfim, agrupamos na quarta categoria os fatos que, oferecendo de maneira evidente esses caracteres, devem ser atribuídos à operação invisível dos Espíritos puros.

Mas, que são esses Espíritos? Bons ou maus? Anjos ou demônios? Almas bem-aventuradas ou almas condenadas? A resposta a esta última parte de nosso problema não pode suscitar dúvida, por pouco que se considere, de uma parte, a natureza desses Espíritos e, de outra, o caráter de suas manifestações. É o que nos falta demonstrar.



[1] REVISTA ESPÍRITA – janeiro/1858 – Allan Kardec