quarta-feira, 30 de setembro de 2026

EXPERIÊNCIAS DE QUASE-MORTE SEGUEM O MESMO PADRÃO MUNDIALMENTE, REVELA ESTUDO MARCANTE[1]

 


News Room - 29 de agosto de 2026

 

Quinze anos de dados multinacionais sobre experiências de quase-morte apontam para um padrão que a medicina está apenas começando a ser assimilado clinicamente.

 

NOVA YORK — A pergunta que abriu o estudo AWARE II não era metafísica. Foi clínico. Quando o coração para e a atividade cerebral fica estável, a medicina trata esse momento como o fim da experiência consciente. O Dr. Sam Parnia e uma equipe de pesquisadores do NYU Langone Medical Center passaram mais de uma década testando se essa suposição clínica se mantém.

O que descobriram, publicado na revista Resuscitation Plus, é que pode não ser, pelo menos não de forma limpa. Entre 550 sobreviventes de parada cardíaca provenientes de hospitais dos Estados Unidos, Reino Unido, Canadá e Áustria, cerca de um quarto relatou recordar experiências durante o período da morte clínica. Essas lembranças não eram aleatórias. Eles seguiam uma estrutura tão consistente entre nacionalidades, históricos médicos e sistemas de crenças que os pesquisadores concluíram que não podiam ser descartados como ruído.

O estudo AWARE II, Uma Consciência durante a Reressuscitação, é a maior investigação controlada de experiências relembradas durante uma parada cardíaca já concluída. Isso não resolve a questão que levanta. Documenta rigorosamente o fenômeno, descreve sua consistência interna entre culturas e tradições, e registra um padrão de consequências clínicas para os quais o sistema médico está em grande parte despreparado.

A descoberta central é fenomenológica. Sobreviventes descreveram sequências que se repetiam independentemente de onde vieram, do que acreditavam ou se acreditavam em algo. Um senso perceptivo de desapego do corpo. Consciência auditiva e visual do ambiente médico onde tecnicamente estavam mortos. Uma passagem em direção ou através de algum tipo de limite. Encontros com parentes falecidos. O vocabulário variava conforme a cultura; a arquitetura da experiência não o fazia.

O estudo incluiu um elemento controlado projetado para testar se essa consciência era observacionalmente real. Alvos visuais ocultos (imagens específicas posicionadas acima da linha de visão dos pacientes, visíveis apenas do teto) foram colocados nas unidades de parada cardíaca dos hospitais participantes. Sobreviventes que relataram experiências fora do corpo foram questionados se poderiam descrever o que viram de cima. Os resultados foram o que os pesquisadores caracterizaram como "sugestivos, mas não conclusivos": um padrão de respostas que superou as expectativas de acaso, mas ficou aquém da confirmação estatística. O protocolo está em vigor há uma década; a amostra de pacientes que relatou percepção fora do corpo e estava posicionada próxima a um alvo permanece pequena o suficiente para que talvez nunca produza uma resposta definitiva.

Parnia tem sido preciso, ao longo de 15 anos de publicações, sobre não afirmar mais do que as evidências apoiam. O estudo não consegue estabelecer se as experiências ocorrem durante uma parada cardíaca mensurável ou na turbulência fisiológica imediatamente ao redor da ressuscitação, quando alguma atividade cerebral ainda pode estar presente. Não é possível descartar que processos ocorridos abaixo do limiar de detecção do monitoramento neurológico atual expliquem o que os sobreviventes recordam. O que pode estabelecer é que as experiências são internamente coerentes de uma forma que falhas neurológicas aleatórias não previram, e que a forma como a equipe clínica responde aos sobreviventes que as relatam tem consequências mensuráveis.

Emblema do Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue representando pesquisa em parada cardíaca e ciência da saúde cardíaca

O Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue acompanhou melhorias nas taxas de sobrevivência a paradas cardíacas, mesmo com o acompanhamento psicológico que fica atrás. [Fonte da imagem: NHLBI / NIH]

Essas consequências são a contribuição clínica mais acionável do estudo. O Instituto Nacional do Coração, Pulmão e Sangue observou em suas orientações públicas sobre parada cardíaca que as taxas de sobrevivência melhoraram substancialmente nas últimas duas décadas, um sucesso em saúde pública que resultou em uma população maior de sobreviventes gerenciando as consequências da morte clínica, com protocolos de suporte psicológico que não acompanharam. Sobreviventes no acompanhamento AWARE II que não receberam reconhecimento da experiência relembrada, que foram informados de que era um sonho, um efeito colateral de medicação ou simplesmente impossível, apresentaram resultados de integração psicológica marcadamente piores. Elas tinham mais probabilidade de relatar que a experiência permaneceu intrusiva, mais propensas a descrever afastamento de pessoas que não a compartilharam, e menos propensas a ter discutido abertamente com a família ou um terapeuta.

Os dados do AWARE II se conectam a um corpo mais amplo de pesquisas que examinam como a mente responde a extremos. No início deste mês, um estudo controlado da UC San Diego e da Fundação Chopra descobriu que mesmo uma semana de meditação silenciosa alterou de forma mensurável a expressão gênica ligada à inflamação em adultos saudáveis, evidência de que práticas há muito associadas a tradições espirituais também deixam vestígios físicos que o laboratório pode detectar. Os achados das EQMs estão na borda mais dura dessa investigação, onde o que os participantes experimentam está mais distante do que os instrumentos podem acompanhar.

As dimensões teológicas do estudo atraíram atenção previsível. Várias tradições religiosas citaram esses achados como validação externa de crenças sobre a consciência persistir além da morte física. Os pesquisadores têm consistentemente recusado essa estrutura. A consistência da fenomenologia em todos os sistemas de crença, inclusive entre pessoas que não relataram nenhuma crença religiosa, complica a reivindicação de qualquer tradição de uma explicação exclusiva. Um ateu convicto e um católico praticante podem descrever a mesma experiência em línguas diferentes. Eles descrevem a mesma experiência.

O que os dados deixam claro é que a abordagem atual da medicina para a sobrevivência à parada cardíaca é incompleta. Os pacientes recebem alta com instruções sobre adesão à medicação e modificação do estilo de vida. Se tiveram uma experiência durante a morte clínica que reorganizou sua percepção de quem são normalmente não está na lista de verificação da alta.

A equipe de Parnia propôs diretrizes clínicas para reconhecer e documentar relatos de EQM durante o cuidado pós-ressuscitação. O argumento deles é que o primeiro reconhecimento, o momento em que um profissional clínico convida a explicação em vez de descartá-la, é em si uma intervenção terapêutica. Se essas diretrizes chegam à prática rotineira dependerá de algo que os dados do AWARE II não conseguem fornecer sozinhos: uma disposição institucional, em unidades cardíacas de dezenas de países, para tratar a fronteira da consciência como uma questão que a ciência ainda não resolveu totalmente.

terça-feira, 29 de setembro de 2026

O ESPIRITISMO EM 1860[1]

 


Allan Kardec

 

Temos o prazer de anunciar que a Revista Espírita dá início ao seu terceiro ano de circulação, amparada pelos mais favoráveis auspícios. É com satisfação que aproveitamos o ensejo para testemunhar aos leitores a nossa gratidão pelas provas de simpatia que temos recebido diariamente. Só isso já seria motivo suficiente de encorajamento, caso não encontrássemos, na própria natureza e no objetivo de nossos trabalhos, larga compensação moral às fadigas que lhes são consequentes. Tal é a multiplicidade desses trabalhos, aos quais nos consagramos inteiramente, que se torna impossível responder a todas as cartas de felicitações que nos chegam. Somos, pois, obrigados a dirigir-nos coletivamente aos seus autores, rogando-lhes que aceitem os nossos agradecimentos. Estas cartas, bem assim as numerosas pessoas que nos dão a honra de com elas conferenciar a respeito desses graves problemas, convencem-nos cada vez mais do progresso do Espiritismo verdadeiro, isto é, do Espiritismo compreendido em todas as suas consequências morais. Sem nos iludirmos quanto ao alcance de nossos trabalhos, o pensamento de haver contribuído, lançando alguns grãos na balança, é para nós doce satisfação, porquanto essas poucas sementes terão contribuído para despertar a reflexão.

A prosperidade crescente da Revista é um indício do favor com que é acolhida. Não nos cabe senão continuar a obra na mesma linha, já que vem recebendo a consagração do tempo, sem nos afastarmos da moderação, da prudência e das conveniências que sempre nos orientaram. Deixando aos nossos contraditores o triste privilégio das injúrias e do personalismo, não os seguiremos no terreno de uma controvérsia sem objetivo. Dizemos sem objetivo porque jamais os levaria à convicção; ademais, seria pura perda de tempo discutir com pessoas que não têm a menor noção daquilo de que falam. Só temos uma coisa a dizer-lhes: Estudai primeiro; depois veremos. Temos mais que fazer do que falar a quem não quer ouvir. Afinal de contas, o que importa a opinião contrária deste ou daquele? Terá essa opinião tão grande importância que possa deter a marcha natural das coisas? As maiores descobertas encontraram os mais rudes adversários, sem que por isso fossem prejudicadas. Assim, deixando a incredulidade zunir à nossa volta, jamais nos desviaremos do caminho que nos é traçado pela própria gravidade do assunto que nos ocupa.

Dissemos que as ideias espíritas estão em franco progresso. Com efeito, desde algum tempo ganharam imenso terreno. Dir-se-ia que estão no ar; não, certamente, em razão do barulho da grande e da pequena imprensa. Se elas progridem, apesar e contra tudo, não obstante a má vontade encontrada em certas regiões é porque possuem vitalidade suficiente para se bastarem a si mesmas. Quem se der ao trabalho de aprofundar a questão do Espiritismo, nele encontra uma satisfação moral tão grande, a solução de tantos problemas que inutilmente havia pedido às teorias vulgares; o futuro se desdobra à sua frente de maneira tão clara, tão precisa e tão lógica, que a si mesmo confessa a impossibilidade de as coisas realmente não se passarem assim; já que um sentimento íntimo lhe dizia que assim deveria ser, é de causar admiração que não as tenha compreendido mais cedo. Desenvolvida, a ciência espírita nada mais faz que formular, tirar do nevoeiro ideias já existentes em seu foro íntimo; daí por diante o futuro se apresenta com objetivo claro, preciso, perfeitamente definido; já não marcha ao sabor das ondas: vê o seu caminho. Não é mais esse futuro de felicidade ou de desgraça que a razão não podia compreender e que, por isso mesmo, o repelia; é um futuro racional, consequência das próprias leis da Natureza, capaz de suportar o exame mais severo. Eis por que é feliz e como que aliviado de um imenso peso: o da incerteza, porquanto a incerteza é um tormento. Mau grado seu, o homem sonda as profundezas do futuro e não pode deixar de vê-lo eterno; compara-o à brevidade e à fragilidade da existência terrestre. Se o futuro não lhe oferece nenhuma certeza, ele se atordoa, concentra-se no presente e, para o tornar mais suportável, entrega-se a todos os excessos: é em vão que a consciência lhe fala do bem e do mal. Diz a si mesmo: o bem é aquilo que me faz feliz. De fato, que motivo teria para ver o bem em outra parte? Por que suportar privações? Quer ser feliz e, para ser feliz, quer gozar; gozar o que os outros possuem; quer ouro, muito ouro; a ele se apega como à sua vida, porque o ouro é o veículo de todos os prazeres materiais. Que lhe importa o bem-estar do semelhante? O seu, antes de tudo. Quer satisfazer-se no presente, por não saber se o poderá mais tarde, num futuro em que não acredita. Torna-se, assim, ávido, invejoso, egoísta e, com todos esses prazeres, não é feliz porque o presente lhe parece muito curto.

Com a certeza do futuro, tudo para ele muda de aspecto; o presente é apenas efêmero e o vê passar sem lamentar-se; é menos apegado aos prazeres terrenos, porque só lhe trazem uma sensação passageira, fugidia, que deixa vazio o coração; aspira a uma felicidade mais duradoura e, consequentemente, mais real. E onde poderá encontrá-la, senão no futuro? Mostrando-lhe, provando-lhe esse futuro, o Espiritismo o liberta do suplício da incerteza, e isso o torna feliz. Ora, aquilo que traz felicidade sempre encontra partidários.

Os adversários do Espiritismo atribuem sua rápida propagação a uma febre supersticiosa que se apodera da Humanidade: o amor do maravilhoso. Antes, porém, precisariam ser lógicos; aceitaremos o seu raciocínio – se é que a isso podemos chamar raciocínio – quando tiverem explicado claramente por que essa febre atinge justamente as classes esclarecidas da sociedade, em vez das ignorantes. Quanto a nós, dizemos que é porque o Espiritismo apela ao raciocínio, e não à crença cega, que as classes esclarecidas o examinam, refletem e o compreendem. Ora, as ideias supersticiosas não suportam o exame.

Aliás, todos vós que combateis o Espiritismo, chegais a compreendê-lo? Estudastes, analisastes seus detalhes, pesastes maduramente todas as suas consequências? Não, mil vezes não. Falais de algo que não conheceis. Todas as vossas críticas – e não falo das tolas, vulgares e grosseiras diatribes, despidas de qualquer raciocínio e que não têm nenhum valor – refiro-me às que, pelo menos, têm aparência de seriedade, todas as vossas críticas, repito, acusam a mais completa ignorância do assunto.

Para criticar é necessário poder opor raciocínio a raciocínio, prova a prova. Será isto possível, sem conhecimento aprofundado do assunto de que se trata? Que pensaríeis de quem pretendesse criticar um quadro, sem possuir, pelo menos em teoria, as regras do desenho e da pintura? Discutir o mérito de uma ópera, sem saber música? Sabeis a consequência de uma crítica ignorante? É ser ridícula e revelar falta de juízo. Quanto mais elevada a posição do crítico, quanto mais ele se põe em evidência, tanto mais seu interesse lhe exige circunspeção, a fim de não vir a receber desmentidos, sempre fáceis de dar a quem quer que fale daquilo que não conhece. É por isso que os ataques contra o Espiritismo têm tão pouco alcance e favorecem o seu desenvolvimento, em vez de o deter. Esses ataques são propaganda; provocam exame, e o exame só nos pode ser favorável, porque nos dirigimos à razão. Não há um só artigo publicado contra a doutrina que não nos tenha proporcionado um aumento de assinaturas e de vendas de obras. O do Sr. Oscar Comettant (Vide o Siècle de 27 de outubro passado, e nossa resposta na Revista do mês de dezembro de 1859) provocou a venda, em poucos dias, na casa Ledoyen, de mais de cinquenta exemplares da famosa sonata de Mozart (que custa 2 francos, preço líquido, segundo a importante e espirituosa observação do Sr. Comettant). Os artigos do Univers, de 13 de abril e 28 de maio de 1859 (ver nossa resposta nos números da Revista de maio e julho de 1859) esgotaram rapidamente o que restava da primeira edição de O Livro dos Espíritos, bem como outros. Mas voltemos a coisas menos materiais. Enquanto não opuserem ao Espiritismo senão argumentos desta natureza, ele nada tem a temer.

Repetimos que a principal fonte do progresso das ideias espíritas está na satisfação que proporcionam a todos que as aprofundam, e que nelas veem algo mais do que um simples passatempo. Ora, como antes de tudo todos querem a felicidade, não é de admirar que se liguem a uma ideia que os torna felizes. Dissemos em algum lugar que, em se tratando de Espiritismo, o período da curiosidade passou, dando lugar ao da razão e da filosofia. A curiosidade tem tempo certo: uma vez satisfeita, muda-se o objetivo por um outro. Já não se dá a mesma coisa com quem se dirige ao pensamento sério e à razão. O Espiritismo progrediu principalmente a partir do momento em que passou a ser mais bem compreendido em sua essência íntima, desde que se viu o seu alcance, porque toca na corda mais sensível do homem: a de sua felicidade, mesmo neste mundo. Aí reside a causa de sua propagação, o segredo da força que o fará triunfar.

Vós todos que atacais o Espiritismo, quereis um meio seguro de o combater com sucesso? Eu vo-lo indico. Substituí-o por algo melhor; encontrai uma solução mais lógica a todas as questões que ele resolve; dai ao homem outra certeza que o torne mais feliz, e compreendei bem o alcance da palavra certeza, porque o homem só aceita como certo o que lhe parece lógico; não vos contenteis em dizer que isso não é, pois é muito fácil; provai, não pela negação, mas pelos fatos, que isso não é, jamais foi e não pode ser. Provai, finalmente, que as consequências do Espiritismo não tornam melhores os homens, pela prática da mais pura moral evangélica, moral muito elogiada, mas pouco praticada. Quando tiverdes feito isso, serei o primeiro a inclinar-me perante vós. Até lá, permiti que encare vossas doutrinas, que são a negação completa do futuro, como a fonte do egoísmo, verme que corrói a sociedade e, consequentemente, como um verdadeiro flagelo. Sim, o Espiritismo é forte, mais forte do que vós, porque se apoia nos próprios alicerces da religião: Deus, a alma e as penas e recompensas futuras, baseadas no bem e no mal que se faz. Vós vos apoiais na incredulidade. Ele convida o homem à felicidade, à esperança, à verdadeira fraternidade. Vós lhe ofereceis o nada como perspectiva e o egoísmo como consolação. Ele tudo explica, vós nada explicais. Ele prova pelos fatos e vós nada provais. Como pretendeis que se vacile entre as duas doutrinas?

Em resumo, constatamos – e cada um vê e sente como nós – que o Espiritismo deu um passo imenso no ano que findou, e esse passo é a garantia daquele que haverá de dar no ano que começa. Não somente o número de seus partidários aumentou consideravelmente, como uma notável mudança operou-se na opinião geral, mesmo entre os indiferentes. Diz-se que no fundo de tudo isso bem poderia haver alguma coisa; que não se deve ser apressado em julgá-lo; os que assim agiam, dando de ombros, começam a temer o ridículo sobre si mesmos ao ligarem o próprio nome a um julgamento precipitado, que poderá ser desmentido.

Deste modo, preferem calar-se e esperar. Sem dúvida, durante muito tempo ainda haverá pessoas que, nada tendo a perder com a opinião da posteridade, procurarão denegri-lo; umas, por caráter ou por estado de ânimo; outras, por cálculo. Mas nós nos acostumamos à ideia de ir ao hospício[2], desde que nos vejamos em boa companhia; e, como tantas outras, esta piada sem graça torna-se um lugar-comum, com a qual ninguém se incomoda, porque no fundo desses ataques vê-se a mais absoluta falta de raciocínio. A arma do ridículo, essa arma que se diz tão terrível, se gasta evidentemente e tomba das mãos daqueles que a empunhavam.

Acaso teria perdido o seu poder? Não, contanto que não desfira golpes em falso. O ridículo não mata senão o que é ridículo em si, tendo de sério apenas a aparência, porque fustiga o hipócrita e lhe arranca a máscara; mas aquilo que é verdadeiramente sério só receberá golpes passageiros e sairá sempre triunfante da luta. Vede se uma só das grandes ideias que foram ridicularizadas em sua origem pela turba ignorante e invejosa caiu para não mais se erguer!

Ora, o Espiritismo é uma das maiores ideias, porque toca na questão mais vital – a da felicidade do homem – e não se brinca impunemente com semelhante problema. Ele é forte porque tem suas raízes nas próprias leis da Natureza e responde aos inimigos fazendo, desde o início, a volta ao mundo. Alguns anos mais e seus detratores, impotentes para o combater pelo raciocínio, encontrar-se-ão de tal modo ultrapassados pela opinião dominante, de tal forma isolados, que se verão forçados a calar ou a abrir os olhos à luz.



[1] REVISTA ESPÍRITA – janeiro/1860 – Allan Kardec

[2] N. do T.: No original: aller à Charenton, referência a famoso hospital psiquiátrico francês.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

REGINALDO HIRAOKA[1]

 


Michael Duggan

 

Reginaldo Hiraoka é um filósofo e psicólogo brasileiro com interesses de pesquisa em parapsicologia experimental, em particular no campo de Ganzfeld e em geradores de números aleatórios. Ele também explorou refinamentos biodigitais, efeitos da consciência de campo em contextos coletivos e tentativas de adaptar experimentalmente métodos de treinamento psíquico de estilo chinês.

§  Em um estudo comparativo, os participantes submetidos ao método Ganzfeld obtiveram pontuações acima do nível de acerto aleatório, enquanto os participantes que não foram submetidos ao método Ganzfeld obtiveram pontuações abaixo, produzindo uma diferença significativa entre as condições.

§  Hiraoka propôs combinar métodos digitais de ganzfeld em tempo real com monitoramento fisiológico para melhorar a análise das correspondências entre remetente e destinatário.

§  Seu grupo também examinou os desvios coletivos do gerador de números aleatórios durante rituais, mas a diferença geral entre os eventos experimentais e de controle não foi significativa.

 

Fundo

Reginaldo Hiraoka graduou-se em filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Brasil, em 2011, e obteve um título de pós-graduado em antropologia cultural pela mesma universidade em 2013. Atualmente, é professor de filosofia da educação na Secretaria de Educação do Estado do Paraná. Além disso, leciona para alunos de pós-graduação em psicologia transpessoal, parapsicologia (com ênfase em estudos da consciência) e física quântica nas Faculdades Integradas Espírita (FIES).

Os interesses de pesquisa de Hiraoka incluem a compreensão do processo ganzfeld e a exploração de efeitos semelhantes a campos de grupo usando geradores de números aleatórios. Seu trabalho foi amplamente divulgado na mídia brasileira, incluindo a TV Globo (2013) e o Discovery Channel (2005). Ele é comentarista frequente sobre parapsicologia na Rádio Transamérica.

 

Comparação entre condições Ganzfeld e não-Ganzfeld

Na convenção internacional de 2003 da Associação de Parapsicologia, Hiraoka e seus colegas descreveram um estudo sobre percepção extrassensorial (PES) no qual alguns participantes receberam estimulação ganzfeld e outros não, a fim de comparar a eficácia dessa técnica na criação de condições propícias à atividade psi (na condição ganzfeld, os participantes passaram pelo procedimento padrão de relaxamento de vinte minutos, com os olhos cobertos por metades de bolas de pingue-pongue, sobre as quais duas luzes vermelhas eram projetadas, enquanto ouviam ruído branco). Setenta e quatro participantes contribuíram com 54 tentativas em cada condição. O "receptor" (a pessoa que recebe informações telepáticas do "emissor") foi convidado a assistir a quatro vídeos e tentou identificar qual deles era o alvo.

No geral, a pontuação em 108 tentativas não foi significativa (25,93%, onde 25% é o esperado pelo acaso), mas uma clara diferença entre as condições emergiu, com os participantes do grupo Ganzfeld obtendo pontuação acima do acaso (33,33%, p = 0,1) e os participantes do grupo não-Ganzfeld obtendo pontuação abaixo do acaso (18,52%). A diferença entre as condições foi estatisticamente significativa (p = 0,023). Nem as características dos participantes (criatividade, extroversão e envolvimento artístico), nem as alterações na consciência (nível de relaxamento, atividade mental, percepção da passagem do tempo e consciência corporal) foram correlacionadas com a pontuação psi[2]

Esses resultados corroboram a ideia de que a indução por ganzfeld é um procedimento propício à geração de ondas psi e são replicados por experimentos realizados pelo grupo EECS de Northampton, onde a indução por ganzfeld produziu uma taxa de acerto de 39% (p = 0,0007), mas apenas uma taxa de acerto de 27,5% sem a indução por ganzfeld (p = 0,036)[3].

 

Bio-Digital Ganzfeld

Na convenção anual de 2005 da Associação de Parapsicologia, Hiraoka e seus colegas apresentaram um resumo de pesquisa (proposta para pesquisas futuras) que descreve a combinação de duas técnicas já estabelecidas para criar um novo tipo de experimento ganzfeld. Em suas pesquisas anteriores, foram identificadas duas áreas que necessitavam de melhorias: a falta de uma análise de boa qualidade dos relatos de estado mental fornecidos pelos receptores e a falta de dados objetivos sobre os indivíduos na condição de "emissor".

Hiraoka e seus colegas se referem ao sistema ganzfeld digital em tempo real desenvolvido por Adrian Parker e Joakim Westerlund na Universidade de Gotemburgo[4], no qual a atividade mental em tempo real é sincronizada com alvos de vídeo, permitindo correspondências mais objetivas. Hiraoka propôs reaproveitar protocolos anteriores de influência remota que mediam a atividade eletrodérmica e investigavam correlações fisiológicas entre emissores e receptores durante sessões ganzfeld em tempo real. Infelizmente, problemas logísticos impediram que essa pesquisa fosse concluída[5], e uma abordagem combinada desse tipo parece não ter tido continuidade em outros lugares.

 

Efeitos da Consciência de Campo em Rituais Religiosos

A influência da intenção coletiva no comportamento de geradores de números aleatórios (GNA) tem sido amplamente estudada[6]. Nessas investigações, grupos de pessoas envolvidas em atividades como meditação parecem causar mudanças não aleatórias na saída dos GNA. Hiraoka e seus colegas estudaram esse efeito durante rituais religiosos e outros eventos no Paraná, Brasil, que envolveram o povo Guarani, membros da religião Santo Daime, aulas de ioga e um concerto.

Eles encontraram quatro desvios significativos de cerca de 5% em dezoito experimentos, onde apenas um seria esperado por acaso. No entanto, também encontraram dois desvios significativos em oito controles, o que resultou em uma diferença geral não significativa[7]. Nenhuma relação foi observada entre o número de participantes e os desvios do gerador de números aleatórios, ao contrário dos resultados obtidos em outros estudos[8].

 

Treinamento Psíquico Chinês

Em um relatório de 2005, Hiraoka e seus coautores descrevem tentativas de treinar crianças brasileiras em uma técnica indutiva psi chinesa, cujo objetivo é identificar imagens desenhadas em fragmentos de papel e colocadas no ouvido do sujeito[9].

Em 1997, colegas de Hiraoka visitaram a província de Yunnan, na China, onde presenciaram um teste de triagem com 51 alunos de uma escola local. Treze crianças foram selecionadas e instruídas a se concentrarem em alvos ocultos, desenhando quaisquer imagens que lhes viessem à consciência. As crianças demonstraram alguma evidência de capacidade paranormal (PES) ao desenharem figuras (desenhos simples de linhas e letras do alfabeto) muito semelhantes aos alvos. Uma criança demonstrou consistentemente evidências de percepção extrassensorial (PES).

No Brasil, onze crianças de 10 a 14 anos testadas com a mesma técnica não demonstraram clarividência, possivelmente devido ao seu número relativamente pequeno e à natureza limitada do treinamento que receberam em comparação com os experimentos chineses. Ainda assim, os autores concluíram que esse método pode ser potencialmente utilizado com indivíduos não chineses[10].

 

Obras citadas

§  Goulding, A., Westerlund, J., Parker, A., & Wackermann, J. (2004). The first digital autoganzfeld study using a real-time judging procedure. European Journal of Parapsychology 19, 66-97.

§  Hirukawa, T., Hiraoka, R., Silva, F.E., Pilato, S., & Kokubo, H. (2006). Field REG experiments of religious rituals and other group events in Parana, Brazil. Proceedings of Presented Papers, 3rd Psi Meeting: Implications and Applications of Psi, 3 Psi Meeting, Implications and Applications of Psi.

§  Kokubo, H., Silva, F.E., Pilato, S., Hiraoka, R., & Yamamoto, M. (2005). Application of psi inductive training for Brazilian children. Journal of the International Society for Life Information Science 23/1, 179-83.

§  Nelson, R.D. (2007). FieldREG anomalies in group situations. Explore: The Journal of Science and Healing 3/3, 278.

§  Roe, C., Cooper, C.E, Hickinbotham, L., Hodrien, A., Kirkwood, L., & Martin, H. (2020). Precognitive remote viewing task, with and without Ganzfeld stimulation: Three experiments. Journal of Parapsychology 84/1, 38-65.

§  Silva, F.E., Pilato, S., & Hiraoka, R. (2003). Ganzfeld vs. no Ganzfeld: An exploratory study of the effects of Ganzfeld conditions on ESP. Proceedings of Presented Papers: The Parapsychological Association 46th Annual Convention. Durham, North Carolina, USA: Parapsychological Association.

§  Silva, F.E., Pilato, S., & Hiraoka, R. (2005). Digital and physiological Ganzfeld: Looking for a more objective measure of psi. Proceedings of the 48th Annual Convention of the Parapsychological Association. Journal of International Society of Life Information Science 23/1, 179-83.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Silva et al. (2003).

[3] Roe et al. (2020).

[4] Goulding et al. (2004).

[5] Hiraoka (2009).

[6] Nelson (2007).

[7] Hirukawa et al. (2006).

[8] Nelson & Bancel (2018).

[9] Veja aqui. Retrieved 3 January 2021.

[10] Kokubo et al. (2005).

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

CASOS ESPÍRITAS: TORMENTOS DA MENTE[1]

 


Nubor Orlando Facure

 

Os pais de Amelinha dormem tranquilamente quando, no meio da noite, são despertados por gritos de desespero.

A filha, que repousa no quarto ao lado, apresenta mais um episódio de crise de pânico, com gritos aterradores. Os médicos diagnosticaram o problema como terror noturno.

Esses episódios já se repetem há dois anos, sem que os medicamentos tenham conseguido promover sua remissão.

Agora com 13 anos, Amelinha, vez por outra, é vista pela mãe conversando sozinha.

Nas consultas com profissionais competentes, os diagnósticos variam entre esquizofrenia e transtorno do espectro autista.

Ao ingressar na faculdade, aos 19 anos, o estresse provocado pelas frequentes avaliações agravou consideravelmente o quadro, perturbando o ambiente familiar e intensificando episódios de agressividade e comportamentos antissociais.

Em outras ocasiões, Amelinha permanecia horas isolada no quarto. Recusava-se a alimentar-se e a cuidar da própria higiene. Dizia ser perseguida por determinados professores e assediada por colegas da faculdade.

O quadro passou a surpreender cada vez mais o psiquiatra responsável pelo seu tratamento. Os surtos tornaram-se mais frequentes e intensos, acompanhados de mudanças estranhas de comportamento.

Deixou de cuidar de si mesma. Até a higiene pessoal foi completamente negligenciada.

Tornou-se excessivamente falante, leviana, exibicionista, sem qualquer inibição diante de pessoas estranhas, provocativa, de linguagem vulgar e com gostos exóticos incompatíveis com seu meio social.

 

Novos rumos

Há três meses, Amelinha e seus familiares passaram a frequentar assiduamente uma casa espírita, onde são atendidos por um médium dedicado e fraterno.

Certo dia, ao término da leitura do Evangelho, o médium psicografou uma mensagem esclarecedora.

Segundo a comunicação, nas últimas três encarnações Amelinha mantém grave conflito com Djalma M., um jovem agricultor de Portugal.

Uma paixão vivida sem equilíbrio emocional teria terminado, repetidas vezes, em adultério e morte.

Em outra existência, ambos viveram juntos como religiosos dedicados, mas um ciúme doentio destruiu a confiança mútua e culminou no suicídio de ambos.

 

Novas terras

Mais tarde, em uma existência nas fazendas de Minas Gerais, envolveram-se nos desmandos da escravidão, tornando-se patrões violentos e assassinos.

Na penúltima reencarnação, vivendo em um lar cristão, Amelinha abortou Djalma durante uma gravidez não planejada.

Desde então, segundo a mensagem espiritual, o quadro psiquiátrico de Amelinha passou a assumir diferentes manifestações, conforme a influência obsessiva exercida por Djalma.

A cobrança é impiedosa.

O perdão ainda não se tornou possível.

Djalma insiste na vingança e procura induzi-la à morte.

 

Lição de casa

A obsessão espiritual, com suas múltiplas formas de manifestação, frequentemente surpreende a psiquiatria, dificultando o diagnóstico e o tratamento.

Mesmo no meio espírita, o fenômeno obsessivo ainda é, muitas vezes, analisado de maneira superficial.

São situações que podem prolongar-se por sucessivas reencarnações, até que os envolvidos estejam verdadeiramente dispostos à reconciliação.

Sua solução definitiva exige uma luta perseverante de renovação íntima, inspirada na lição de Jesus: perdoar e amar os inimigos.

As palavras de ordem são:

§  reconciliar;

§  reeducar o espírito;

§  recomeçar pelo trabalho em benefício do próximo.

A Justiça Divina oferece, ao mesmo tempo, misericórdia e oportunidade.

Essas são as ferramentas colocadas à nossa disposição para construirmos um novo futuro.

Cabe a cada um de nós, porém, tomar a charrua e arar a própria terra.



[1] O CONSOLADOR - Ano 20 - N° 984 - 26 de Julho de 2026 - https://www.oconsolador.com.br/ano20/984/ca5.html

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

VIAGENS DOS ESPÍRITOS ERRANTES[1]

 


Miramez

 

Espíritos errantes

Podem os Espíritos errantes ir a todos os mundos?

Conforme. Pelo simples fato de haver deixado o corpo, o Espírito não se acha completamente desprendido da matéria e continua a pertencer ao mundo onde acabou de viver, ou a outro do mesmo grau, a menos que, durante a vida, se tenha elevado, o que, aliás, constitui o objetivo para que devem tender seus esforços, pois, do contrário, nunca se aperfeiçoaria. Pode, no entanto, ir a alguns mundos superiores, mas na qualidade de estrangeiro. A bem dizer, consegue apenas entrevê-los, donde lhe nasce o desejo de melhorar-se, para ser digno da felicidade de que gozam os que os habitam, para ser digno também de habitá-los mais tarde.

Questão 232 / O Livro dos Espíritos

 

Os Espíritos errantes podem viajar como turistas a outros mundos mais elevados, não obstante, necessário se faz que tenham preparo para tal empreendimento. Os prêmios somente vêm ao nosso encontro por merecimento.

Muitos Espíritos, ao desencarnarem, permanecem na atmosfera do planeta, nas condições que deixaram o corpo. A consciência da liberdade em plenitude vem somente para aqueles que completaram a ronda da educação, nas linhas de todos os entendimentos dos ensinos de Jesus, o Cristo de Deus.

Ao deixarem o corpo, muitos são convidados a passeios em mundos melhores, de maneira a estimular em seus corações uma vontade poderosa de se melhorarem moralmente, e em tais circunstâncias eles trabalham com todas as suas forças para aquisição dos valores imortais da Boa Nova.

A Doutrina Espírita é esse convite de Jesus, ela nos mostra as oportunidades que os céus nos oferecem. Se o encarnado começar a se transformar, como se esforçaram e venceram os discípulos do Mestre, estará em preparo para essas viagens encantadoras que vêm a serviço da nossa esperança, nos mostrando que existe a felicidade. Essas viagens não se faz a sós; existem grandes almas que se dispõem a nos guiar, ensinando-nos, ao mesmo tempo, a respeitar, compreendendo as leis imutáveis da natureza divina.

Quando nos encontrarmos em completa posse da fé que nos assegura a estabilidade, nos entregaremos aos caminhos da perfeição, mesmo que eles pareçam ser de um preço excessivo para nossas forças. O mundo, do modo como os homens o veem, cheio de tribulações, de guerras, de pressões e de toda ordem de negatividade, é uma escola grandiosa, onde existe o princípio de todas as qualidades espirituais. Muitos dos mestres, sob a direção do Mestre maior, nele se encontram a ajudar os homens a abrirem os olhos e a aguçarem os ouvidos, para verem e ouvirem os convites da verdade para os tornarem livres.

Mesmo envolvido nos fluídos da carne, deve o encarnado se preparar para futuras excursões ao mundo espiritual: começando a melhorar e fazendo esforços no sentido de aprimoramento espiritual, que os Anjos do Senhor seguir-lhe-ão em todas as suas labutas de conquistar e vencer a si mesmo.

Comunguemos com o bem em todas as suas divisões. Amemos em todas as suas amostras de luz, e confraternizemos da maneira que a universalidade nos ensina, que já teremos dado um passo para a luz da verdadeira alegria. É preciso que todos compreendam que pelo simples fato de deixar o corpo físico por meio do chamamento do que chamamos morte, não se encontra a alma na inteireza dos seus poderes, tudo isso depende do aproveitamento que teve dos convites do amor, quando na carne.

Tudo é orientado pela justiça. Entreguemos o trabalho ao amor, de modo que a caridade brilhe no nosso coração de aprendizes de Nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos deixam os corpos e continuam a viver como se estivessem presos à carne.

Por falta de preparo dos sentimentos, o coração preso às paixões forma laços difíceis de serem destruídos. Não basta somente decorar as páginas luminosas do Evangelho; é preciso que o entendamos e, acima do entendimento, que venhamos a vivenciá-lo.

Quem vive o amor se encontra livre e de posse de qualidades que o levarão às viagens instrutivas e salvadoras para os caminhos da perfeição.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 5 – João Nunes Maia

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

SEU CÉREBRO NÃO DESLIGA SIMPLESMENTE QUANDO VOCÊ MORRE. O QUE REALMENTE ACONTECE DESAFIA NOSSA COMPREENSÃO DA REALIDADE[1],[2].

 


Por editores da Popular Mechanics - Publicado: 30 de junho de 2026, 12:19 EDT

 

Alguns cientistas sugerem que existe um estado intermediário que divide a vida da morte.

 

O que acontece quando morremos?

É uma das maiores questões da história da humanidade, silenciosamente impulsionando a ciência e a religião por séculos. O modelo reducionista padrão diz que a consciência simplesmente cessa após a morte. Luzes apagadas. Obrigado, próximo. No entanto, isso não explica fenômenos como experiências de quase-morte (EQMs), onde as pessoas vivenciam algo profundo — frequentemente luzes fortes, túneis ou ouvir vozes de parentes falecidos — quando estão próximas da morte.

Mas onde uma hipótese falha, outras podem compensar. Alguns cientistas sugerem que há algo mais profundo acontecendo quando alguém morre — fenômenos que desafiam nossa compreensão da vida e talvez apontem para algum tipo de estado intermediário.

 

Uma 'consciência do crepúsculo' tentando se manter

Em um estudo da Universidade de Michigan em 2023, pesquisadores analisaram registros de eletroencefalograma (EEG) e eletrocardiograma (ECG) de quatro pacientes em coma cujos ventiladores haviam sido retirados. O EEG mede a atividade elétrica do cérebro, enquanto o ECG acompanha os sinais elétricos que regulam o ritmo cardíaco. Em dois dos pacientes, observaram um aumento repentino das ondas gamma-encefálicas em segundos após o declínio cardíaco. Esses surtos não eram aleatórios: eram sincronizados com ritmos cerebrais mais lentos (um padrão recorrente na percepção consciente e no sono REM). Eles também mostraram forte conectividade em todo o cérebro — especialmente na "zona quente posterior", uma área ligada à visão, consciência corporal e processamento sensorial. A conectividade também se estendia para as regiões frontais, imitando os padrões neurais observados em sonhos, estados psicodélicos e até mesmo na percepção consciente.

Houve um surto altamente organizado em regiões-chave do cérebro — como se todo o sistema fosse momentaneamente iluminado por dentro, diz Jimo Borjigin, PhD, professor associado de neurologia e fisiologia molecular e integrativa na Universidade de Michigan, e coautor do estudo. Ela acrescenta que a ativação apareceu em áreas ligadas ao movimento, à fala e até mesmo à junção temporoparietal — uma região do cérebro envolvida na integração de informações sensoriais e frequentemente ligada a experiências fora do corpo (EFCs), que são comumente relatadas como parte das EQMs. Borjigin observa que muitos dos visuais associados às EQMs podem estar relacionados aos padrões de atividade observados no estudo, especialmente em regiões cerebrais envolvidas na visão e no processamento sensorial.

Por que o cérebro moribundo sairia com uma agitação em vez de um leve desvio? Borjigin oferece uma teoria: o cérebro pode estar iniciando uma busca interna pela sobrevivência. Muitas pessoas que tiveram experiências de EQM relatam reviver momentos emocionais, ouvir mensagens como "Não é sua hora" ou ver entes queridos falecidos, ela diz. O cérebro moribundo pode estar vasculhando profundamente a memória, procurando um propósito não resolvido ou um motivo convincente para continuar vivendo. Ela também enfatiza como esses achados desafiam nossas suposições. "Pensamos em uma pessoa em coma como 'desaparecida', mas mesmo nesses estados, a atividade gama organizada apareceu em regiões ligadas à consciência visual. É uma espécie de consciência do crepúsculo, possivelmente oculta, mas ativa".

 

Construindo seu próprio paraíso

Um artigo de hipótese de março de 2026 publicado na Frontiers in Psychology propõe que visões de quase-morte e fim de vida podem ser uma espécie de "simulação" interna gerada internamente, construída não a partir de uma geografia externa compartilhada do céu ou do inferno, mas a partir dos próprios estoques de memória, emoção, crença e imagens culturais do cérebro moribundo. No modelo do autor e pesquisador Recai Kayış, uma breve tempestade de atividade cerebral terminal se combina com processamento de memórias oníricas e um colapso na percepção do tempo comum. Isso pode fazer com que os segundos pareçam vastos e transforma os apegos mais profundos, medos e expectativas de uma pessoa no que pode se tornar o último mundo em que a mente entra.

“À medida que o cérebro se aproxima da morte, o suprimento de oxigênio e energia começam a colapsar, e o equilíbrio normal da atividade cerebral pode se tornar instável. A entrada sensorial externa enfraquece, enquanto sistemas internos relacionados à memória, emoção, imagens e identidade podem se tornar brevemente altamente ativos ou desinibidos", diz Kayış, que estuda esse fenômeno na Universidade Aydın de Istambul, na Turquia. Nessa condição, ele argumenta, o cérebro pode começar a construir uma experiência quase inteiramente a partir de si mesmo: uma realidade interna fechada montada a partir de resíduos emocionais, imaginação, expectativas culturais e material simbólico profundamente codificado. "A memória fornece o conteúdo", diz Kayış. "A emoção dá essa força de contentamento. A cultura lhe dá forma simbólica”.

Enquanto isso, os sistemas de temporização do cérebro moribundo começam a falhar. Memórias e imagens internas se tornam extremamente densas. Alguns segundos de atividade biológica podem parecer uma longa jornada, uma revisão de vida ou até mesmo um estado sem limites temporais claros, permitindo que a experiência pareça subjetivamente vasta. Esse enquadramento, escreve Kayış no artigo, poderia ajudar a explicar por que as EQMs variam tão dramaticamente entre culturas, ao mesmo tempo em que compartilham certos temas emocionais amplos. Em vez de alucinações aleatórias, Kayış diz que essas visões podem refletir a arquitetura emocional e simbólica mais profunda já embutida na mente. Nessa interpretação, a "vida após a morte" não é necessariamente um lugar que o cérebro descobre, mas um mundo interior final que ele constrói.

 

Mudando para uma Realidade Alternativa

Entre as teorias mais alucinantes sobre o que acontece após a morte, a imortalidade quântica sugere que continuamos vivendo em outros universos depois de morrermos neste. A imortalidade quântica é um desdobramento da teoria dos "Muitos Mundos", proposta pelo então doutorando Hugh Everett III na Universidade de Princeton em 1957. Simplificando, Everett sugeriu a teoria dos muitos mundos ao tentar realizar medições em mecânica quântica. Em uma variação do efeito observador — um fenômeno em que um sistema é perturbado pelo próprio ato de observar — ele propôs que toda observação do estado quântico (ou função de onda) de um objeto irá separar uma cópia do nosso universo. E à medida que as observações se acumulam, universos alternativos também se acumulam.

Embora nem todos concordassem com a noção de muitos mundos (o pioneiro quântico Niels Bohr foi um deles), os estudos sobre a teoria continuaram — especialmente na década de 1980. Por exemplo, o físico do MIT Max Tegmark, PhD, investigou uma noção relacionada conhecida como "suicídio quântico". Ele reflete se você morreria em todos os universos, caso morresse deliberadamente neste. Tegmark apresentou isso como um experimento mental, que seria difícil ou impossível de resolver, já que não podemos acessar outros universos.

Por associação com essas teorias, alguns defensores da imortalidade quântica dizem que nossa consciência abrange muitos mundos. Isso, claro, dá um salto amplo, assumindo que existam múltiplos universos paralelos. Então, é possível que, quando você morre em um universo, sua consciência se desloque para outro? Embora não possamos acessar esses outros universos em nossa própria experiência viva, a teoria supõe que alguma parte da sua consciência persistiria para sempre, pulando de uma vida para a outra — independentemente de você perceber ou não.



[2] Nota do Editor: Stav Dimitropoulos e Elizabeth Howell contribuíram com reportagens para esta matéria.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

UM ANTIGO CARRETEIRO[1]

 


Allan Kardec

 

O excelente médium Sr. V... é um rapaz que geralmente se distingue pela pureza de suas relações com o mundo espírita.

Todavia, desde que ocupa o cômodo em que atualmente reside, um Espírito inferior interfere em suas comunicações, intrometendo-se até mesmo em seus trabalhos pessoais. Achando-se uma noite – 6 de setembro de 1859 – em casa do Sr. Allan Kardec, com quem devia trabalhar, foi importunado por aquele Espírito, que lhe fazia traçar coisas incoerentes ou o impedia de escrever. Dirigindo-se ao Espírito, o Sr. Allan Kardec manteve com ele a seguinte conversa:

 

1. Por que vens aqui se ninguém te chamou?

– Quero atormentá-lo.

2. Quem és tu? Dize o teu nome.

– Não o direi.

3. Qual o teu objetivo, intrometendo-se naquilo que não te diz respeito? Isto não te traz nenhum proveito.

– Não; mas o impeço de ter boas comunicações e sei que isto o magoa bastante.

4. És um Espírito mau, pois te alegras em fazer o mal. Em nome de Deus, eu te intimo a que te retires e nos deixes trabalhar em paz.

– Pensas amedrontar-me com esse vozeirão?

5. Se não é de mim que tens medo, por certo o terás de Deus, em nome do qual te falo e que bem poderá fazer que te arrependas de tua maldade.

– Não nos zanguemos, burguês.

6. Repito que és um Espírito mau e mais uma vez te peço que não nos impeças de trabalhar.

– Sou o que sou; é a minha natureza.

 

Tendo sido chamado um Espírito superior, a quem foi pedido que afastasse o intruso, a fim de não ser interrompido o trabalho, o Espírito mau provavelmente foi embora, porque durante o resto da noite não houve mais nenhuma interrupção. Interrogado sobre a natureza desse Espírito, respondeu o que fora chamado:

Esse Espírito, da mais baixa classe, é um antigo carreteiro, falecido perto da casa onde mora o médium V... Escolheu para domicílio o próprio quarto do médium e há muito tempo é ele que o obsidia e o atormenta continuamente. Agora, que sabe que o médium deve deixar o alojamento, por ordem dos Espíritos superiores, atormenta-o mais que nunca. É ainda uma prova de que o médium não escreve o seu próprio pensamento. Vês, assim, que há boas coisas, mesmo nas mais desagradáveis aventuras da vida. Deus revela seu poder por todos os meios possíveis.

– Quando vivo, qual era o caráter desse homem?

– Tudo o que mais se aproxima do animal. Creio que seus cavalos tinham mais inteligência e sentimento do que ele.

– Por que meio pode o Sr. V... desembaraçar-se dele?

– Há dois: o meio espiritual, pedindo a Deus; o meio material, deixando a casa onde está.

– Então há realmente lugares assombrados por certos Espíritos?

– Sim, Espíritos que ainda estão sob a influência da matéria ligam-se a certos locais.

– Os Espíritos que assombram certos lugares podem torná-los fatalmente funestos ou propícios para as pessoas que os habitam?

– Quem os poderia impedir? Mortos, exercem sua influência como Espíritos; vivos, exercem-na como homens.

– Alguém que não fosse médium, que jamais tivesse ouvido falar de Espíritos ou que neles não acreditasse, poderia sofrer essa influência e ser alvo dos vexames de tais entidades?

– Indubitavelmente; isso acontece mais frequentemente do que pensais, e explica muitas coisas.

– Há algum fundamento na crença de que os Espíritos frequentam de preferência as ruínas ou as casas abandonadas?

– Superstição.

– Então os Espíritos assombrarão tanto uma casa nova da Rua de Rivoli quanto um velho casebre?

– Certamente, porquanto podem ser atraídos para um lugar, em vez de o serem para outro, consoante a disposição de espírito dos seus moradores.

 

Tendo sido evocado na Sociedade através do Sr. R..., o Espírito do carreteiro manifestou-se por sinais de violência, quebrando o lápis, que forçava contra o papel, e com uma escrita grosseira, trêmula, irregular e pouco legível.

1. Evocação

– Eis-me aqui.

2. Reconheceis o poder de Deus sobre vós?

– Sim; e daí?

3. Por que escolhestes o quarto do Sr. V... e não um outro?

– Isso me agrada.

4. Permanecereis ali muito tempo?

– Enquanto me sentir bem.

5. Então não tendes intenção de melhorar?

– Veremos isso depois; tenho tempo.

6. Estais contrariado por vos termos chamado?

– Sim.

7. Que fazíeis quando vos chamamos?

– Estava na taverna.

8. Estáveis bebendo?

– Que tolice! Como poderia beber?

9. O que queríeis dizer falando de taverna?

– Quis dizer o que disse.

10. Quando vivo, maltratáveis os vossos cavalos?

– Sois agente de polícia?

11. Desejais que oremos por vós?

– Faríeis isso?

12. Certamente. Oramos por todos os que sofrem, porque temos piedade dos infelizes e porque sabemos que grande é a misericórdia divina.

– Oh! Mesmo assim sois bons camaradas. Gostaria de vos poder apertar a mão. Procurarei merecê-lo. Obrigado!

 

Observação – Confirma esta conversa o que a experiência já provou muitas vezes, relativamente à influência que os homens podem exercer sobre os Espíritos, e por meio da qual podem contribuir para a sua melhoria. Mostra a influência da prece.

Assim, essa natureza bruta, arredia e quase selvagem encontra-se como que subjugada pelo pensamento do interesse que se pode ter por ele. Temos numerosos exemplos de criminosos que vieram comunicar-se espontaneamente através de médiuns que haviam orado por eles, a fim de testemunharem o seu arrependimento.

Às observações acima, aditaremos as considerações que se seguem, a propósito da evocação de Espíritos inferiores.

Porque ciosos de conservar suas boas relações de além-túmulo, temos visto médiuns que se recusam a servir de intérprete aos Espíritos inferiores que podemos evocar. É de sua parte uma susceptibilidade mal entendida. Pelo fato de evocarmos um Espírito vulgar, e mesmo mau, não significa que iremos ficar sob a sua dependência. Longe disso; ao contrário, nós é que o dominaremos. Não é ele que vem impor-se, mau grado nosso, como na obsessão; nós é que nos impomos; ele não ordena, obedece; somos o seu juiz e não a sua presa. Além disso, podemos ser-lhes úteis por nossos conselhos e nossas preces, e eles nos serão reconhecidos pelo interesse que lhes demonstramos. Estender a mão em socorro é fazer uma boa ação; recusá-la, é faltar com a caridade; ainda mais: é egoísmo e orgulho. Esses seres inferiores, aliás, são para nós um grande ensinamento. Foi por seu intermédio que aprendemos a conhecer as camadas inferiores do mundo espírita, bem como a sorte que aguarda aqueles que aqui fazem mau uso de sua vida. Notemos, ademais, que é quase sempre tremendo que eles comparecem às reuniões sérias, onde dominam os Espíritos bons; ficam envergonhados e se mantêm afastados, ouvindo para se instruírem. Muitas vezes vêm com esse objetivo, mesmo sem terem sido chamados. Por que, então, nos recusaríamos a ouvi-los, quando muitas vezes seu arrependimento e seus sofrimentos são um motivo de edificação ou, pelo menos, de instrução? Não há nada a temer dessas comunicações, desde que ocorram com vistas ao bem. Que seria dos pobres feridos se os médicos se recusassem a tocar em suas chagas?



[1] REVISTA ESPÍRITA – dezembro/1859 – Allan Kardec