Allan Kardec
A pneumatografia é a
escrita produzida diretamente pelo Espírito, sem intermediário algum; difere da
psicografia, por ser esta a transmissão do pensamento do Espírito,
mediante a escrita feita com a mão do médium. Demos essas duas palavras no Vocabulário
Espírita, posto no início de nossa Instrução Prática, com a
indicação de sua diferença etimológica. Psicografia, do grego psykê,
borboleta, alma; e graphus, eu escrevo; Pneumatografia,
de pneuma, ar, sopro, vento, Espírito. No médium escrevente a mão é um
instrumento, mas a sua alma, ou Espírito encarnado, é o intermediário, o agente
ou o intérprete do Espírito estranho que se comunica; na Pneumatografia,
é o próprio Espírito estranho que escreve diretamente, sem intermediário.
O fenômeno da escrita direta é,
inegavelmente, um dos mais extraordinários do Espiritismo. Por anormal que
pareça à primeira vista, é hoje um fato verificado e incontestável. Se dele
ainda não falamos, é que esperávamos poder dar-lhe a explicação e já ter
procedido às observações necessárias, a fim de tratar a questão com
conhecimento de causa. A teoria, sempre necessária para nos inteirarmos da
possibilidade dos fenômenos espíritas em geral, talvez ainda se faça mais
necessária neste caso que, sem contestação, é um dos mais estranhos que se
possam apresentar, deixando, porém, de parecer sobrenatural, desde que se lhe
compreenda o princípio.
Da primeira vez que este
fenômeno se produziu, a dúvida foi o sentimento dominante que deixou. Logo
acudiu aos que o presenciaram a ideia de um embuste. Toda gente, com efeito,
conhece a ação das tintas chamadas simpáticas, cujos traços, a princípio
completamente invisíveis, aparecem ao cabo de algum tempo. Podia, pois, dar-se
que tivessem, por esse meio, abusado da credulidade dos assistentes, e longe
nos achamos de afirmar que nunca o tenham feito. Estamos até convencidos de que
algumas pessoas, não com propósito mercenário, mas unicamente por amor-próprio
e para fazer acreditar nas suas faculdades, hão empregado subterfúgios.
Na terceira das cartas escritas
de Montaigne, J.-J. Rousseau refere o seguinte fato:
Em 1743 vi em Veneza uma nova espécie de sortilégio,
mais estranho que os de Préneste; quem o quisesse consultar entrava numa
câmara, ali permanecendo sozinho, caso o desejasse. De um livro de folhas
brancas tirava uma de sua escolha; depois, segurando essa folha, pedia
mentalmente, e não em voz alta, aquilo que desejava saber; em seguida, dobrava
a folha branca, depositava-a num envelope, lacrava-o e o colocava, assim
fechado, dentro de um livro. Finalmente e sem perder o livro de vista, depois
de haver recitado algumas fórmulas muito extravagantes, verificava se o selo
não tinha sido violado, abria o envelope, retirava o papel e encontrava escrita
a resposta. O mágico que fazia estas sortes era o primeiro secretário da
Embaixada da França e se chamava J.-J. Rousseau.
Duvidamos que Rousseau tenha
conhecido a escrita direta, pois, do contrário, teria sabido outras coisas
relativas às manifestações espíritas e não teria tratado do assunto com tanta
leviandade. Como ele próprio reconheceu quando o interrogamos sobre este fato,
é provável que utilizasse um processo que aprendera de um charlatão italiano.
Entretanto, do fato de se poder
imitar uma coisa, fora absurdo concluir-se pela sua inexistência. Nestes
últimos tempos, não se há encontrado meio de imitar a lucidez sonambúlica, a
ponto de causar ilusão? Mas, porque esse processo de saltimbanco se tenha
exibido em todas as feiras, dever-se-á concluir que não haja verdadeiros
sonâmbulos? Porque certos comerciantes vendem vinho falsificado, será uma razão
para que não haja vinho puro? O mesmo sucede com a escrita direta. Bem simples
e fáceis eram, aliás, as precauções a serem tomadas para garantir a realidade
do fato e, graças a essas precauções, hoje ele já não pode constituir objeto da
mais ligeira dúvida.
Considerando-se que a
possibilidade de escrever sem intermediário representa um dos atributos do
Espírito; uma vez que os Espíritos sempre existiram desde todos os tempos e que
desde todos os tempos se hão produzido os diversos fenômenos que conhecemos, o
da escrita direta igualmente se há de ter operado na Antiguidade, tanto quanto
nos dias atuais. Deste modo é que se pode explicar o aparecimento das três
palavras célebres, na sala do festim de Baltazar. A Idade Média, tão fecunda em
prodígios ocultos, mas que eram abafados por meio das fogueiras, também deve
ter conhecido a escrita direta; igualmente é possível que, na teoria das
modificações por que podem os Espíritos fazer passar a matéria, teoria que
desenvolvemos em nosso artigo anterior, se encontre o fundamento da crença na
transmutação dos metais. É um ponto que abordaremos qualquer dia.
Um de nossos assinantes
ultimamente nos dizia que um de seus tios, cônego, que durante muitos anos
havia sido missionário no Paraguai, obtinha, por volta do ano 1800, a escrita
direta, juntamente com seu amigo, o célebre abade Faria. Seu processo, que nosso
assinante jamais chegou a conhecer bem, e que de alguma sorte surpreendera
casualmente, consistia numa série de anéis pendurados, aos quais eram adaptados
lápis, dispostos em posição vertical, cujas pontas apoiavam-se no papel. Esse
processo refletia a infância da arte; depois progredimos.
Todavia, quaisquer que tenham
sido os resultados obtidos em diversas épocas, só depois de vulgarizadas as
manifestações espíritas foi que se tomou a sério a questão da escrita direta.
Ao que parece, o primeiro a torná-la conhecida, estes últimos anos, em Paris,
foi o barão
de Guldenstubbé, que publicou sobre o assunto uma obra muito interessante,
com grande número de fac-símiles das escritas que obteve[2].
O fenômeno já era conhecido na América, havia algum tempo. A posição social do
Sr. Guldenstubbé, sua independência, a consideração de que goza nas mais
elevadas rodas incontestavelmente afastam toda suspeita de fraude intencional,
porquanto não havia nenhum motivo de interesse a que ele obedecesse. Quando
muito, o que se poderia supor, é que fora vítima de uma ilusão; a isto, porém,
um fato responde peremptoriamente: o de haver outras pessoas obtido o mesmo
fenômeno, cercadas de todas as precauções necessárias para evitar qualquer
embuste e qualquer causa de erro.
A escrita direta é obtida, como
em geral a maior parte das manifestações espíritas não espontâneas, por
meio da concentração, da prece e da evocação. Tem-se produzido em igrejas,
sobre túmulos, no pedestal de estátuas, ou imagens de personagens evocadas.
Evidentemente, o local não exerce nenhuma outra influência, além da de facultar
maior recolhimento espiritual e maior concentração dos pensamentos, porquanto
provado está que o fenômeno se obtém, igualmente, sem esses acessórios e nos
lugares mais comuns, sobre um simples móvel caseiro, desde que os que desejam
obtê-lo se achem nas devidas condições morais e, entre esses, se encontre quem
possua a necessária faculdade mediúnica.
Julgou-se, a princípio, ser
preciso colocar aqui ou ali um lápis com o papel. O fato então podia, até certo
ponto, explicar-se.
É sabido que os Espíritos
produzem o movimento e a deslocação dos objetos; que, algumas vezes, os tomam e
atiram longe. Bem podiam, pois, tomar também do lápis e servir-se dele para
traçar letras. Visto que o impulsionam, utilizando-se da mão do médium, de uma prancheta
etc., podiam, do mesmo modo, impulsioná-lo diretamente. Não tardou, porém, se
reconhecesse que o lápis era dispensável, que bastava um pedaço de papel,
dobrado ou não, para que, ao cabo de alguns minutos, se achassem nele grafadas
as letras.
Aqui, o fenômeno já muda
completamente de aspecto e nos transporta a uma ordem inteiramente nova de
coisas. As letras hão de ter sido traçadas com uma substância qualquer. Ora,
sendo certo que ninguém forneceu ao Espírito essa substância, segue-se que ele próprio
a compôs. Donde a tirou? Esse o problema.
O general russo, conde de B...
mostrou-nos uma estrofe de dez versos alemães obtida dessa maneira por
intermédio da irmã do barão de Guldenstubbé, simplesmente colocando uma folha
de papel, arrancada de sua própria caderneta, debaixo do pedestal do
relógio da chaminé. Tendo-a retirado ao cabo de alguns minutos, nela encontrou
versos em caracteres tipográficos alemães muito finos e de perfeita pureza.
Através de um médium psicógrafo o Espírito lhe disse que queimasse esse papel;
como hesitasse, lamentando sacrificar um espécimen tão precioso, o Espírito acrescentou:
“Nada temais; dar-te-ei um outro”. Com essa garantia, lançou o papel ao fogo,
depois colocou uma segunda folha, igualmente tirada de sua carteira, sobre a
qual os versos se achavam reproduzidos, exatamente da mesma maneira. Foi essa
segunda edição que vimos e examinamos com o maior cuidado e, coisa bizarra, os
caracteres apresentavam um relevo como se tivessem saído do prelo. Não é, pois,
apenas o lápis que os Espíritos podem fazer, mas a tinta e os caracteres de
imprensa.
Um dos nossos honrados colegas
da Sociedade, o Sr. Didier obteve há alguns dias os resultados seguintes, que
tivemos oportunidade de constatar, e cuja perfeita identidade podemos garantir.
Tendo ido à igreja de Nossa Senhora das Vitórias, com a Sra. Huet, que há pouco
obteve sucesso em experiências desse gênero, tomou uma folha de papel de carta
com o timbre de sua casa comercial, dobrou-a em quatro e a colocou sobre os
degraus de um altar, rogando, em nome de Deus, que um Espírito bom se dignasse
escrever alguma coisa. Ao cabo de dez minutos de recolhimento encontrou no
interior e numa das partes dobradas da folha a palavra fé e num dos
outros campos a palavra Deus. A seguir, tendo pedido ao Espírito que
dissesse quem havia escrito aquilo, recolocou o papel no mesmo lugar e, após
dez minutos, encontrou estas palavras: por Fénelon.
Oito dias mais tarde, a 12 de
julho, quis repetir a experiência e dirigiu-se ao Louvre, à sala Coyzevox,
situada sob o pavilhão do relógio. Sobre a base do busto de Bossuet pôs uma folha
de papel, dobrada como a primeira, mas nada obteve. Um menino de cinco anos o
acompanhava e seu boné foi deixado no pedestal da estátua de Luís XIV, que se
encontrava a alguns passos da primeira. Julgando que a experiência houvesse
falhado, já se dispunha a sair quando, ao pegar o boné, percebeu embaixo deste,
como se fora escrito a lápis sobre o mármore, a expressão amai a Deus,
seguida da letra B. O primeiro pensamento que veio à mente dos assistentes foi
o de que tais palavras poderiam ter sido escritas anteriormente por mãos
estranhas, que não foram percebidas.
Entretanto, quiseram tentar a
prova novamente, recolocando a folha dobrada em cima dessas palavras,
cobrindo-as com o boné.
Decorridos alguns minutos
perceberam que a folha continha três letras: a i m. Repuseram o papel e
pediram fossem os escritos completados e obtiveram: Amai a Deus, isto é,
aquilo que fora escrito no mármore, menos o B. Ficava assim evidente que as primeiras
letras traçadas resultavam de escrita direta. Ressaltava, ainda, esse fato
curioso: as letras foram grafadas sucessivamente e não de uma vez; quando da
primeira inspeção, não houvera tempo de concluir as palavras. Saindo do Louvre,
o Sr. D... dirigiu-se à igreja de Saint-Germain l'Auxerrois onde obteve, pelo
mesmo processo, as palavras: Sede humildes. Fénelon, escritas de
maneira muito clara e muito legível. Estas palavras ainda podem ser vistas no
mármore da estátua a que nos referimos.
A substância de que são feitos
esses caracteres tem toda a aparência da grafita do lápis e é facilmente
apagada com a borracha. Examinamo-la ao microscópio e constatamos que não é incorporada
ao papel, mas simplesmente depositada na superfície, de maneira irregular,
sobre as suas asperezas, formando arborescências muito semelhantes às de certas
cristalizações. A parte apagada pela borracha deixa à mostra as camadas de
matéria negra introduzida nas pequenas cavidades das rugosidades do papel.
Destacadas e retiradas com cuidado, essas camadas são a própria matéria que se
produz durante a operação. Lamentamos que a pequena quantidade recolhida não
nos tenha permitido fazer a sua análise química; mas não perdemos a esperança
de o conseguir um dia.
Quem quiser reportar-se às
explicações que foram dadas em nosso
artigo anterior encontrará completa a teoria do fenômeno. Para escrever
dessa maneira, o Espírito não se serve das nossas substâncias, nem dos nossos
instrumentos. Ele próprio fabrica a matéria e os instrumentos de que há mister,
tirando, para isso, os materiais preciosos, do elemento primitivo universal
que, pela ação da sua vontade, sofre as modificações necessárias à produção do
efeito desejado. Possível lhe é, portanto, fabricar tanto o lápis vermelho, a
tinta de imprimir, a tinta comum, como o lápis preto, ou, até, caracteres
tipográficos bastante resistentes para darem relevo à escrita.
Tal o resultado a que nos
conduziu o fenômeno da tabaqueira, descrito em nosso número anterior, e sobre o
qual nos estendemos longamente, porque nele percebemos oportunidade para
perscrutarmos uma das importantes leis do Espiritismo, lei cujo conhecimento
pode esclarecer mais de um mistério, mesmo do mundo visível. Assim é que, de um
fato aparentemente vulgar, pode sair a luz. Tudo está em observar com cuidado e
isso todos podem fazer como nós, desde que se não limitem a observar efeitos,
sem lhes procurarem as causas. Se a nossa fé se fortalece de dia para dia, é
porque compreendemos. Tratai, pois, de compreender, se quiserdes fazer
prosélitos sérios. Ainda outro resultado decorre da compreensão das causas: o
de deixar riscada uma linha divisória entre a verdade e a superstição.
Considerando a escrita direta do
ponto de vista das vantagens que possa oferecer, diremos que, até o presente,
sua principal utilidade há consistido na comprovação material de um fato sério: a intervenção de um poder oculto
que, nesse fenômeno, tem mais um meio de se manifestar. Todavia, raramente são extensas
as comunicações que por essa forma se obtêm. Em geral espontâneas, elas se
reduzem a algumas palavras ou proposições e, às vezes, a sinais ininteligíveis.
Têm sido dadas em todas as línguas: em grego, em latim, em sírio, em caracteres
hieroglíficos etc., mas ainda se não prestaram às dissertações seguidas e
rápidas, como permite a psicografia ou a escrita pela mão do médium[3].
[1] REVISTA ESPÍRITA – agosto/1859 – Allan Kardec
[2] 20 La realité des Esprits et de leurs
manifestations, démontrée par le phenomène de l`écriture directe, pelo
barão de Guldenstubbé, 1 vol. in-8o, com 15 estampas e 93 fac-símiles. Preço 8
fr. Casa Frank, rua Richelieu. Encontra-se também nas Casas Dentu e Ledoyen.
[3] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns –
Segunda Parte – capítulo XII.


