Tables Tournantes - L'Illustration, Paris, 14
May 1853
Allan Kardec
Sob esse título encontramos o
artigo seguinte na Illustration de 1853, precedido das indispensáveis
anedotas, pelo que pedimos perdão aos nossos leitores.
Ora, ora, trata-se das mesas
girantes! Eis as mesas volantes! E não é de hoje que o fenômeno se produz;
existe há muitos anos. Onde? – indagais. Palavra de honra que é um pouco longe:
na Sibéria! Um jornal russo, Sjevernava Plschela, que significa A
Abelha do Norte, em seu número de 27 de abril último contém a respeito um
artigo do Sr. Tscherepanoff, que viajou no país dos Kalmouks. Eis um trecho:
Deve-se saber que os lamas,
sacerdotes da religião budista, à qual aderem todos os mongóis e buretas
russos, como os antigos sacerdotes do antigo Egito não comunicam os segredos
que descobrem, mas, ao contrário, deles se servem para aumentar a influência
que exercem sobre um povo naturalmente supersticioso. É assim que pretendem ter
o poder de encontrar os objetos roubados, utilizando-se, para isso, da mesa
volante. As coisas se passam da seguinte maneira.
A vítima do roubo dirige-se ao
lama, pedindo que lhe revele o local onde estão escondidos os objetos. O
sacerdote de Buda pede dois ou três dias, a fim de preparar-se para essa grave
cerimônia. Expirado o prazo, ele se senta no chão, coloca diante de si uma
pequena mesa quadrada, põe as mãos sobre ela e começa a ler algo
incompreensível; isto dura meia hora. Depois de haver balbuciado qualquer
coisa, levanta-se, mantendo sempre a mão na mesma posição inicial, e a mesa se
ergue no ar. O lama se apruma e põe as mãos no alto da cabeça e a mesa sobe na
mesma altura; dá um passo à frente e o móvel segue no ar o seu exemplo; recua,
e a mesa faz o mesmo. Em suma, a mesa toma várias direções, terminando por cair
no chão. É na direção principal que a mesa tomou que se encontra o local
procurado. A crer nos relatos dos
habitantes, houve casos em que a mesa foi cair exatamente no lugar que
ocultava o objeto roubado.
Na experiência a que assistiu o
Sr. Tscherepanoff a mesa voou até a distância de 15 toesas[2]. O
objeto roubado não foi encontrado imediatamente. Mas na direção indicada pelo
móvel residia um camponês russo, que percebeu o sinal e no mesmo dia atentou
contra a vida. Sua morte súbita levantou suspeitas. Fizeram pesquisas em seu
domicílio e ali encontraram o que procuravam. O viajante presenciou três outras
experiências; todas, no entanto, fracassaram. A mesa não quis mover-se; os
lamas, porém, não ficaram embaraçados para explicar tal imobilidade: se o móvel
não se movia é que os objetos não podiam ser encontrados.
O Sr. Tscherepanoff testemunhou
esse fenômeno em 1831, na aldeia de Jélany: “Eu não acreditava no que viam os
meus olhos; estava convencido de que havia alguma escamoteação e que meu lama
se servia de uma corda habilmente dissimulada ou de um fio de ferro para erguer
a mesa no ar. Todavia, olhando de perto, não percebi nenhum sinal de cordão ou
de fio de ferro; a mesa era uma prancha fina de pinheiro, não pesando mais que
uma libra e meia. Hoje estou persuadido de que o fenômeno é produzido pelas
mesmas causas da dança das mesas.
Assim, os chefes da seita dos Espíritos,
que acreditavam ter inventado a table-moving, nada mais fizeram do que
espalhar uma invenção, há muito conhecida entre outros povos. Nihil sub sole
novi, dizia Salomão. Quem sabe se ao tempo do próprio Salomão não era
conhecida a maneira de fazer girar as mesas!... Que estou dizendo? Esse
processo era conhecido muito antes do digno filho de David. Lede o North-China-Herald,
citado pela Gazette d`Ausbourg de 11 de maio, e vereis que os habitantes
do celeste império se divertiam com esse jogo desde tempos imemoriais.
Pertencendo à Natureza, conforme
já dissemos centenas de vezes, o Espiritismo é uma de suas forças, razão por
que os fenômenos que dele resultam devem ter-se produzido em todos os tempos e
entre todos os povos, interpretados, comentados e adaptados segundo os costumes
e o grau de instrução. Jamais pretendemos que fosse uma invenção moderna.
Quanto mais avançarmos, mais iremos descobrindo os traços que ele deixou por
toda parte e em todas as idades. Os modernos não têm outro mérito senão o de
tê-lo despojado do misticismo, do exagero e das ideias supersticiosas dos
tempos de ignorância. É impressionante que a maior parte das pessoas que falam
do Espiritismo com tanta leviandade jamais se deram ao trabalho de o estudar.
Julgam-no por uma primeira impressão, na maioria das vezes por ouvir dizer, sem
conhecimento de causa, e ficam surpreendidos quando lhes mostramos, no fundo de
tudo isso, um dos princípios que dizem respeito aos mais graves interesses da
Humanidade. E não se pense que aqui tratamos somente do interesse do outro
mundo. Todo aquele que não se detém na superfície vê sem dificuldade que ele
toca em todas as questões vitais do mundo atual. Quem teria pensado outrora que
uma rã, dançando num prato, ao contato de uma colher de prata, daria origem a
um meio de nos comunicarmos, em alguns segundos, de um a outro extremo da
Terra, dirigir o raio e produzir uma luz que rivaliza com a do Sol?
Paciência, senhores galhofeiros;
de uma mesa que dança poderá muito bem sair um gigante que porá de lado os
zombadores. Na marcha em que vão as coisas, isto não começa mal.
Allan Kardec
