K.M. Wehrstein
William F. Barrett ocupa um
lugar fundamental na fundação da pesquisa psíquica como movimento científico.
Físico respeitado, ele ajudou a estabelecer suas instituições, ao mesmo tempo
que se dedicava ao estudo da telepatia, radiestesia, mediunidade e visões no
leito de morte, tornando-se uma das figuras-chave na ligação entre a ciência
vitoriana e o estudo de fenômenos relacionados à sobrevivência.
Barrett foi cofundador tanto da Society
for Psychical Research quanto da American Society for Psychical Research.
Suas investigações variaram da
telepatia e mediunidade à radiestesia e aparições, demonstrando a amplitude da
investigação psíquica inicial.
Uma vertente posterior de seu
trabalho baseou-se em visões de leito de morte registradas por sua esposa entre
mulheres que morriam durante o parto, as quais ele interpretou como evidência
de que os moribundos encontravam os mortos.
Vida e Carreira
William Fletcher Barrett nasceu
em 10 de fevereiro de 1844 em Kingston, Jamaica, onde seu pai britânico, o
ministro congregacionalista William Garland Barrett, realizava trabalho
missionário[2]. A
família retornou à Inglaterra em 1848, estabelecendo-se em Royston,
Hertfordshire, e mudando-se em 1855 para Manchester, onde William frequentou a
Old Trafford Grammar School. Seus pais não tinham condições de custear sua
educação formal, mas ele conseguiu assistir a palestras sobre química e física,
após as quais foi convidado pelo físico John Tyndall para trabalhar como
assistente em seu laboratório, onde dominou as habilidades necessárias para
experimentação. Barrett deixou o emprego com Tyndall em 1866 para assumir o
cargo de professor de ciências no London International College e,
posteriormente, o de professor de física na Royal Naval School of Architecture,
o que lhe permitiu dedicar mais tempo a estudos científicos particulares.
Em 1873, Barrett foi nomeado
para uma cátedra de física experimental no Royal College of Science for
Ireland, em Dublin, onde, além de lecionar para alunos regulares, ministrava
aulas noturnas para jovens carentes. Entre outras realizações, ele desenvolveu
o Stalloy, uma liga metálica composta de silício e ferro que se tornou
amplamente utilizada nos primórdios da tecnologia de telecomunicações.
Barrett foi eleito para a Royal
Society em 1899. Aposentou-se em 1910 e foi condecorado cavaleiro por suas
contribuições à física em 1912. Casou-se com Florence Elizabeth Perry, cirurgiã
obstetra e ginecológica e cofundadora da Escola de Medicina para Mulheres de
Londres, em 1916[3].
Barrett faleceu em Londres em 26 de maio de 1925.
Pesquisa Psíquica
Em meados da década de 1860,
Barrett visitou um médico e mesmerista irlandês, John Wilson, para realizar
experimentos com mesmerismo. Quando mesmerizada, uma jovem da região demonstrou
sentidos aguçados e pareceu capaz de ler seus pensamentos; ela determinou
corretamente o naipe de uma carta ou o valor de uma nota bancária escondida por
ele, bem como o interior de um local que ele conhecia, mas que ela nunca havia
visto[4]
.
Barrett manifestou seu interesse
pelo Espiritismo pela primeira vez em 1975. Ele o considerava um passo em
direção a verdades espirituais superiores e uma defesa contra o materialismo,
que ele via como uma ameaça à moral pública, desde que fosse investigado com
uma "mente reverente e equilibrada". Seu interesse por fenômenos
psíquicos foi despertado por certos ruídos de batidas que pareciam seguir uma
menina de dez anos, filha de um amigo que era um advogado inglês muito
respeitado. Ele notou que os sons pareciam ter uma origem inteligente; eles
acompanhavam o ritmo da música e respondiam às perguntas usando uma batida para
sim e duas para não, dizendo corretamente o nome de Barrett (que ele mantinha
em segredo). Ele não percebeu nenhum engano, mesmo quando a sala estava bem
iluminada e ele podia observar as mãos e os pés de todos os presentes.
Telepatia
Barrett incentivou a British
Association for the Advancement of Science (atual Associação Britânica para
o Avanço da Ciência) a investigar manifestações espiritualistas e psíquicas,
mas não obteve sucesso. Em 1876, pediu aos leitores do jornal The Times
de Londres que lhe enviassem descrições de suas próprias experiências
psíquicas, o que resultou em um grande número de cartas. Muitas descreviam o
"jogo da vontade", um passatempo popular da época, no qual uma pessoa
vendada tentava encontrar um objeto escondido por meio de um leve contato
físico com outra pessoa que a "incitava" mentalmente em direção ao
objeto. Barrett admitiu que aqueles que tinham sucesso provavelmente estavam
lendo inconscientemente os movimentos musculares de quem "incitava",
mas argumentou que nem todos os casos de "leitura de pensamentos"
(telepatia) poderiam ser explicados dessa maneira. Em 1877, ele já colaborava
com um grupo de intelectuais associados ao Trinity College, em Cambridge,
nessas investigações: Frederic
W. H. Myers, Edmund
Gurney, Henry
Sidgwick e Eleanor
Sidgwick.
Uma das comunicações que Barrett
recebeu foi de um ministro unitarista, A.M. Creery, que relatou as aparentes proezas
telepáticas de suas cinco filhas pequenas , com idades entre dez e
dezessete anos. Uma criança era enviada para outro cômodo e solicitada a nomear
um objeto no qual as outras e o pai se concentravam. Resultados positivos foram
obtidos com objetos, nomes de cidades, nomes de pessoas, datas, cartas de um
baralho e versos de poemas. Creery afirmou que "quando as crianças estavam
de bom humor e entusiasmadas com a natureza maravilhosa de seus palpites
bem-sucedidos, elas raramente cometiam um erro[5]".
Barrett visitou a família na
Páscoa de 1881 e testou as meninas durante três dias, obtendo resultados
semelhantes aos descritos por Creery. Em 7 de julho, ele publicou um breve
artigo na revista Nature, argumentando que nem todos os aparentes
efeitos telepáticos podiam ser atribuídos à ação muscular inconsciente[6].
Ele também analisou os resultados dos testes de George Albert Smith, um
mesmerista e "leitor de pensamentos" que aparentemente conseguia
desenhar figuras e proferir palavras lidas da mente de seu associado, Douglas
Blackburn, se os dois homens fizessem um leve contato físico.
Radiestesia
No início da década de 1890,
Myers convidou Barrett para investigar a radiestesia,
a busca por água subterrânea, metais e outras substâncias através do uso de
varetas de radiestesia. Barrett passou a ver isso como mais uma maneira de
cumprir sua missão de unir a pesquisa física e a pesquisa psíquica. Ele
publicou seu primeiro artigo sobre o assunto em 1897, apresentando uma lista
detalhada de casos e teorizando que a vareta de radiestesia, assim como outros
instrumentos como a prancheta usada para comunicação mediúnica e as mesas
usadas em jogos de tombar
mesas, derivava seu movimento de alguma reação do corpo do radiestesista a
uma influência externa, neste caso, a presença de água ou outra substância alvo[7]
.
Mediunidade
Em uma retrospectiva de
cinquenta anos publicada nos Proceedings da Society for Psychical Research (SPR)
em 1924, Barrett relata um caso de "materialização" mediúnica que
testemunhou[8].
Seis pessoas, incluindo o médium, Husk, estavam presentes; os pés do médium
estavam amarrados às pernas da mesa e suas mãos eram firmemente seguradas pelos
participantes de cada lado (ambos céticos), e os pulsos de todos estavam
amarrados com fio de seda. Logo após Barrett apagar a vela, luzes semelhantes a
vaga-lumes começaram a cintilar no teto, objetos na sala foram ouvidos se
movendo, e uma voz grave e gutural apresentou seu dono como "John
King", aparecendo em seguida como uma figura fantasmagórica azulada, que
desapareceu assim que Barrett reacendeu a vela.
Em 1917, Barrett apresentou um
artigo sobre comunicações paranormais por meio de automatismo motor (por
exemplo, girar uma mesa ou usar um tabuleiro
Ouija), dando exemplos de comunicações que forneceram informações que mais
tarde se provaram verídicas; entre as fontes presumidas estava o espírito de um
homem que acabara de se afogar no naufrágio do Lusitania[9].
Essas e outras investigações o convenceram de que tais fenômenos, em vez de
surgirem da mente subconsciente do médium, eram manifestações genuínas de seres
desencarnados.
Visões no leito de morte
Durante a década de 1920, a
esposa de Barrett registrou as visões no leito de morte de mulheres sob seus
cuidados que sucumbiam a complicações no parto, e ela se convenceu de que se
tratavam de manifestações genuínas de parentes falecidos visitando as moribundas
para confortá-las e recebê-las no mundo espiritual. Em janeiro de 1924, uma
paciente teve uma visão de seu pai falecido e também de uma irmã que ela
erroneamente acreditava estar viva. Barrett se inspirou a pesquisar o fenômeno,
o que resultou na publicação de seu livro Death-Bed Visions: The Psychical
Experiences of the Dying em 1926[10].
Fundamentos das Sociedades
Em seu livro de 1911, Psychical
Research, Barrett relatou que "um novo e promissor campo de
investigação científica" havia sido aberto pelos experimentos de Creery,
tornando necessárias investigações por outros pesquisadores. "Mas tal
investigação estava fora do escopo de qualquer sociedade científica existente;
portanto, parecia essencial formar uma nova Sociedade para dar continuidade à
investigação", escreveu ele[11].
No final de 1881, ele estava em uma posição melhor para realizar isso, tendo
feito amizade com o médium William
Stainton Moses e com um importante espiritualista, Edmund Dawson Rogers.
Após consultar outras partes
interessadas, Barrett convocou uma reunião e, em janeiro de 1882, foi fundada a
SPR, cuja missão era fazer "uma tentativa organizada e sistemática de
investigar aquele grande grupo de fenômenos debatíveis designados por termos
como mesmérico, psíquico e espiritualista[12]".
As regras de adesão especificavam que a filiação não exigia crença em
explicações paranormais para os fenômenos. Para seu primeiro projeto, uma
investigação sobre transferência de pensamento, foi formado um comitê especial
composto por Barrett, Myers e Gurney, que continuaram a experimentar com as
irmãs Creery até que, como os membros do comitê escreveram em 1883, as meninas
aparentemente perderam suas habilidades telepáticas[13].
Barrett tinha uma relação
difícil com seus colegas da SPR. Ele acreditava que os fenômenos físicos
relatados em episódios
do tipo poltergeist e em sessões espíritas deveriam ser estudados como
evidências potencialmente fortes de fenômenos psíquicos e sobrevivência
à morte. Mas Myers, os Sidgwicks e outras figuras-chave nos primeiros anos
da Sociedade se opuseram a uma preocupação excessiva com os fenômenos
espíritas, temendo que isso a afastasse do público científico que desejava
convencer. Eles desconfiavam dos médiuns físicos, acreditando que fossem em
grande parte fraudulentos, e criticavam o que consideravam a atitude
excessivamente crédula de Barrett. Como resultado, Barrett fez relativamente
poucas contribuições para a literatura da Sociedade e as tensões aumentaram a
ponto de ele considerar a formação de uma organização rival, embora nunca tenha
de fato a feito[14].
Em 1884, Barrett visitou o
Canadá e os EUA como parte de uma viagem para participar de uma reunião da British
Association in Montreal. Discursando em reuniões naquela cidade, bem como
na Filadélfia e em Boston, ele despertou o interesse pela pesquisa psíquica, o
que levou à fundação da American Society for Psychical Research (ASPR) em
janeiro de 1885, com William
James como um dos principais membros[15].
Comunicações póstumas alegadas por Barrett
Após a morte de Barrett em 1925,
Lady Barrett afirmou que ele havia se comunicado com ela por meio de Gladys
Leonard e outros médiuns. Em 1937, ela publicou todas as comunicações que
havia recebido em Personality Survives Death: Communications Purporting to
Be from the Late Sir William Barrett[16].
O comunicador que alegava ser Barrett mencionou corretamente assuntos íntimos
conhecidos apenas por ela, fez declarações sobre fatos que desconhecia, mas que
posteriormente se provaram corretos, e, em sua ausência, mencionou incidentes
desconhecidos pela secretária que a representava. As comunicações incluíam
comentários sobre o "corpo etérico" como um veículo intermediário
entre a energia vital e o corpo físico, conselhos para o enriquecimento da vida
interior e descrições da natureza da vida e do ambiente em que ele se
encontrava. "Barrett" é citado dizendo: "Você pode pensar que a
diversão acabou para nós". Nos divertimos mais do que nunca na Terra, mas
nos divertimos de forma gentil e genuína, rindo com as pessoas em vez de rir
delas… Há algumas coisas que não podemos contar a vocês, que estão além do
alcance da sua imaginação. Há experiências que se vivenciam – se alguém
tentasse descrevê-las na linguagem comum da Terra, seria impossível[17].
Obras
Livros de Parapsicologia
§ On the Threshold of a New World of Thought: An
Examination of the Phenomena of Spiritualism (1908). London: Kegan Paul, Trench, Trübner & Co.
§ Psychical Research (1911) .New York: Henry Holt & Co.
§
Swedenborg: The Savant and the Seer (1912). London: Watkins.
§
On the
Threshold of the Unseen: An Examination of the Phenomena of Spiritualism and of
the Evidence for Survival After Death (1917). London: Kegan Paul, Trench,
Trübner & Co.
§
The Divining
Rod: An Experimental and Psychological Investigation, with Theodore Besterman
(1926). London: Methuen & Co.
§ Deathbed Visions: The Psychical Experiences of the
Dying (1926). London: Methuen &
Co.
Os documentos de Barrett são numerosos demais para serem
listados, mas alguns podem ser encontrados na seção de Literatura abaixo.
Literatura
§ Anon. (1882–83). The Society for Psychical Research: Objects of the
society. Proceedings of the
Society for Psychical Research 1, 3.
§ Barrett, W.F. (1881a).
Professor Barrett on Spiritualism and Christianity. Light.
§ Barrett, W.F. (1881b). Mind-reading versus
muscle-reading. Nature 24, 212.
§ Barrett, W.F. (1897). On the so-called divining
rod, or virgula divina. Proceedings of the Society for Psychical Research
13, 2-282.
§ Barrett, W.F. (1911). Psychical Research. New York: Henry Holt
& Co.
§ Barrett, W.F. (1918). Evidence of super-normal communications through motor
automatism. Proceedings of the
Society for Psychical Research 30, 230-50.
§ Barrett, W. (1924). Reminiscences of fifty years’ psychical research. Proceedings of the Society for Psychical Research
34, 275-97.
§ Creery, A.M. (1882). Note on thought-reading. Proceedings of the Society for Psychical Research
1 (17 July), 43-46.
§ Gurney, E., Myers, F.W.H., Podmore, F., & Barrett,
W.F. (1883). Third report on thought-transference. Proceedings of the Society for Psychical Research
1 (24 April), 161-216.
§ Jessop, C. (2009a). Biography and career: A most decorated lady. [Webpage.]
§ Jessop, C. (2009b). ‘The lovely brightness’: Psychical research. [Webpage.]
§ Noakes, R. (2004). The ‘bridge which is between physical and psychical
research’: William Fletcher Barrett, sensitive flames, and Spiritualism. History of Science 42, 419-64.
§ The Royal Society of
Edinburgh (2006). Barrett, Sir William Fletcher. [Webpage.]
§ Sidgwick, Mrs. H. (1932). The Society for Psychical Research: A short account of
its history and work on the occasion of the Society’s jubilee, 1932. Proceedings of the Society for Psychical Research
41, 1-59.
§ Thomas, C.D. (1937). Review of Personality Survives
Death: After-Death Communications from Sir William Barrett by F. Barrett. Journal
of the Society for Psychical Research 30, 145-47.
Traduzido com
Google Tradutor
[1] PSI-ENCYCLOPEDIA - https://psi-encyclopedia.spr.ac.uk/articles/william-f-barrett/
[2] Royal Society of
Edinburgh, 2006.
[3] Jessop, C. (2009a).
[4] Barrett (1881a), citado em Noakes (2004). Todas as
informações neste artigo foram retiradas desta fonte, exceto quando indicado de
outra forma.
[5] Creery (1882), 43.
[6] Barrett (1881b).
[7] Barrett (1897), 143-54.
[8] Barrett (1924), 287-8.
[9] Barrett (1918).
[10] Jessop (2009b).
[11] Barrett (1911), 54.
[12] Anônimo. (1882-83). Citado em Noakes (2004), 444.
[13] Gurney, Myers, Podmore e Barrett (1883), 171.
[14] Noakes (2004), 452-3.
[15] Sidgwick (1932), 10.
[16] Ver Thomas (1937).
[17] Thomas (1937), 147.
