terça-feira, 13 de outubro de 2026

CONSELHOS DE FAMÍLIA[1]

 


Allan Kardec

 

Certamente nossos leitores se lembram do artigo que publicamos no mês de setembro último, sob o título de Intimidade de uma Família Espírita. As comunicações seguintes são muito semelhantes. Com efeito, são conselhos ditados numa reunião íntima, por um Espírito eminentemente superior e benevolente.

Distinguem-se pelo encanto e pela doçura do estilo, a profundeza dos pensamentos e, além disso, por matizes de extrema delicadeza, apropriados à idade e ao caráter das pessoas a quem eram dirigidas.

O Sr. Rabache, negociante de Bordeaux, que serviu de intermediário, houve por bem autorizar a sua publicação. Só podemos felicitar os médiuns que obtêm coisas semelhantes. É uma prova de que têm simpatias felizes no mundo invisível.

 

Castelo de Pechbusque, novembro de 1859

(Primeira sessão)

 

Foi perguntado ao Espírito protetor da família se ele podia dar alguns conselhos aos membros presentes. Ele respondeu:

Sim. Tenham confiança em Deus e procurem instruir-se nas verdades imutáveis e eternas que lhes ensina o livro divino da Natureza. Ele contém toda a lei de Deus, e os que sabem ler e o compreendem são os únicos a seguirem o verdadeiro caminho da sabedoria. Que nada do que vejam seja negligenciado, porquanto cada coisa traz em si um ensinamento e deve, pelo uso do raciocínio, elevar a alma para Deus e dele aproximá-la. Em tudo quanto ferir a inteligência, procurem sempre distinguir o bem do mal: o primeiro, para o praticar; o segundo, para o evitar. Antes de formular um julgamento, voltem sempre o pensamento para o ETERNO, que os guiará ao bem, E NÃO OS ENGANARÁ JAMAIS.

 

(Segunda sessão)

 

Boa-noite, meus filhos. Se me amais, procurai instruir-vos; reuni-vos muitas vezes com este pensamento. Ponde vossas ideias em comum: é um excelente meio, pois em geral não comunicamos senão as coisas que julgamos boas; temos vergonha das más. Assim, são guardadas em segredo ou só são comunicadas aos que queremos tornar cúmplices. Distinguem-se os bons dos maus pensamentos, porque os primeiros podem, sem nenhum receio, ser transmitidos a todo o mundo, ao passo que os últimos não poderiam, sem perigo, ser comunicados senão a alguns.

Quando vos vier um pensamento, para julgar de seu valor perguntai-vos se podeis torná-lo público sem inconveniente e se não fará mal: se vossa consciência vo-lo autorizar, não temais, vosso pensamento é bom. Dai-vos mutuamente bons conselhos, tendo em vista somente o bem daquele a quem os dais, e não o vosso. Vossa recompensa estará no prazer que experimentareis por terdes sido úteis. A união dos corações é a mais fecunda fonte de felicidades; e, se muitos homens são infelizes, é que só procuram a felicidade para si mesmos. Ela lhes escapa precisamente porque julgam encontrá-la somente no egoísmo. Digo a felicidade e não a fortuna, porquanto esta última só tem servido como sustentáculo à injustiça, e o objetivo da existência é a justiça. Se a justiça fosse praticada entre os homens, o mais afortunado seria aquele que realizasse maior soma de boas obras. Se, pois, quiserdes tornar-vos ricos, meus filhos, praticai muitas ações boas. Pouco importam os bens do mundo; não é a satisfação da carne que se deve buscar, mas a da alma. Aquela é efêmera; esta é eterna.

Por hoje é bastante. Meditai estes conselhos e esforçai-vos para pô-los em prática: aí se encontra o caminho da salvação.

 

(Terceira sessão)

 

Sim, meus filhos, eis-me aqui. Tende confiança em Deus, que jamais abandona os que fazem o bem. Aquilo que julgais um mal, por vezes só o é em relação às vossas concepções. Muitas vezes, também, o mal real vem apenas de um desânimo ocasionado por uma dificuldade, que a calma de espírito e a reflexão teriam evitado. Assim, refleti sempre e, como já vos disse, reportai tudo a Deus. Quando experimentardes qualquer pesar, longe de vos abandonar à tristeza, ao contrário, resisti e fazei todo esforço para triunfar, pensando que nada se obtém sem trabalho, e que algumas vezes o sucesso faz-se acompanhar de dificuldades. Invocai em vosso auxílio os Espíritos benevolentes. Eles não podem, como vos ensinam, fazer boas obras em vosso lugar, nem obter coisa alguma de Deus para vós, pois é preciso que cada um ganhe, por si mesmo, a perfeição a que todos estamos destinados; mas podem inspirar-vos o bem, sugerir-vos conduta conveniente e ajudar-vos com o seu concurso. Não se manifestam ostensivamente, mas no recolhimento. Escutai a voz da vossa consciência, lembrando-vos de meus conselhos precedentes. Confiança em Deus, calma e coragem.

 

(Quarta sessão)

 

Boa-noite, meus filhos. Sim, é preciso continuar as sessões, até que um médium se manifeste, para substituir o que deve deixar-vos. O seu papel de iniciador entre vós está cumprido: continuai o que começastes, porque também servireis um dia à propagação da verdade que, neste momento, é proclamada no mundo inteiro pelas manifestações espíritas. Persuadi-vos, meus filhos, de que, em geral, o que se entende na Terra por Espírito, não é Espírito senão para vós. Depois que esse Espírito, ou alma, separa-se da matéria grosseira que o envolve, para vós não tem mais corpo, porque vossos olhos materiais não mais o veem. Mas é sempre matéria, relativamente aos que são mais elevados que ele.

Para vós, crianças, vou fazer uma comparação muito imperfeita, mas que, no entanto, poderá dar-vos uma ideia da transformação a que chamais, impropriamente, de morte. Imaginai uma lagarta, que vedes diariamente. Quando se esgota o tempo de sua existência nesse estado ela se transforma em crisálida; passa ainda algum tempo como tal e depois, chegado o momento, despoja-se de seu invólucro grosseiro e dá origem a uma borboleta, que voa. Ora, a lagarta, ao deixar sua natureza inferior, representa o homem que morre; a borboleta simboliza a alma que se eleva. A lagarta arrastasse no chão, a borboleta voa para o céu; mudou de matéria, mas ainda é material. Se a lagarta raciocinasse não veria a borboleta que, entretanto, teria saído da carapaça apodrecida da crisálida. Portanto, o corpo não pode ver a alma, mas a alma, envolvida pela matéria, tem consciência de sua existência e o próprio materialista por vezes o sente interiormente. Então seu orgulho o impede de concordar e fica com sua ciência sem crença, sem se elevar, até que finalmente lhe chegue a dúvida. Nem tudo, porém, está acabado, porque nele a luta é maior. Será apenas uma questão de tempo, porque, meus amigos, lembrai-vos de que todos os filhos de Deus foram criados para a perfeição. Felizes os que não perdem tempo pelo caminho.

A eternidade compõe-se de dois períodos: o da prova, que poderia chamar-se de incubação, e o da eclosão, ou entrada na vida verdadeira, que chamais a felicidade dos eleitos.

 

(Quinta sessão)

 

Meus Caros filhos, vejo com satisfação que começais a refletir nos avisos e conselhos que vos dou. Sei que para o atual desenvolvimento de vossa inteligência, há, simultaneamente, muito assunto para reflexão; contudo, devo aproveitar a ocasião que se apresenta, porquanto, dentro de alguns dias esse meio não mais estará à minha disposição, e era necessário ferir a vossa imaginação de maneira a vos sugerir o desejo de continuar as vossas sessões, até que algum de vós pudesse substituir o médium atual. Espero que essas poucas sessões, sobre as quais vos incito a meditar demoradamente, terão bastado para vos despertar a atenção e o desejo de aprofundar mais esse vasto campo de investigações.

Tomai por regra jamais buscar a satisfação da vã curiosidade e, sim, de vos instruir e de vos aperfeiçoar. É inútil vos preocupardes com a diferença que possa existir entre o que vos ensinarei e o que sabeis ou julgais saber. Cada vez que vos for dada uma instrução, perguntai se é justa e se responde às exigências da consciência e da equidade. Quando a resposta for afirmativa, não vos inquieteis por saber se concorda com o que vos tiver sido dito. Que vos importa isto! O importante é o justo, o consciencioso e o equitativo: tudo quanto reúne essas condições é de Deus. Obedecer a uma boa consciência, não fazer senão coisas úteis, evitar todas quanto, não sendo más, não tenham utilidade – eis o essencial; porque fazer algo de inútil já é fazer o mal. Evitai escandalizar, mesmo pelo vosso aperfeiçoamento: há situações em que a simples vista de vossa mudança pode produzir um mau efeito; assim, por exemplo, a luz do dia não poderia, sem perigo, ferir de súbito a vista de um homem encerrado num cárcere escuro. Que o vosso progresso, então, não seja entregue à investigação, senão conforme vos aconselhar a sabedoria. Aperfeiçoai-vos sempre; só o vereis quando for tempo. Aqueles para quem escrevo este conselho o compreendem, sem que eu tenha de ser mais explícito. Sua consciência lhes dirá.

Coragem, pois, e perseverança! São as únicas leis do sucesso.

 

Observação – O último conselho não poderia ter aplicação geral. Evidentemente o Espírito teve um objetivo especial, como ele próprio o disse; do contrário, poderíamos enganar-nos quanto ao sentido e o alcance de suas palavras.



[1] REVISTA ESPÍRITA – janeiro/1860 – Allan Kardec

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

AUGUSTUS DE MORGAN[1]

 


Roberto R Narváez

 

Augustus De Morgan (1806–71), matemático, lógico e polímata britânico, passou a se interessar profundamente pelo mesmerismo e pelo espiritualismo. Experimentos pessoais e sessões o convenceram de que alguns fenômenos relatados eram genuínos, mas ele permaneceu agnóstico quanto à sua causa e incentivou uma investigação cuidadosa e historicamente informada.

§  As experiências de Morgan o convenceram de que alguns fenômenos eram reais.

§  Sessões com Maria Hayden testaram agência espiritual versus leitura de pensamentos.

§  Ele permaneceu agnóstico quanto à causa final.

 

Vida e carreira

Um exemplo clássico do sábio e polímata inglês do século XIX, Augustus De Morgan nasceu em Madurai, sul da Índia, em 27 de junho de 1806, em uma família britânica descendente de refugiados huguenotes. Seu pai, o Coronel John De Morgan, ocupou vários cargos no estado-maior militar na Índia. O Coronel De Morgan fez sua última visita a esse país em 1816. Uma doença o forçou a retornar à Inglaterra, mas ele morreu no mar no caminho. Por causa de suas visões e práticas evangélicas, seus colegas oficiais o conheciam pelo apelido de 'Bible John', e em um obituário ele foi descrito como o 'amigo do cristianismo na Índia'. Esse epíteto se mostraria inesperadamente relevante quatro décadas depois, durante uma sessão espírita que Augusto assistiu, como veremos[2].

O Coronel De Morgan estabeleceu-se com sua família primeiro em Worcester, depois em Devonshire e, finalmente, em Somersetshire. Por volta de 1810, mudaram-se para Bideford, onde Augustus foi educado em regime particular por seu próprio pai. Em 1812, a família mudou-se novamente para Barnstaple. No início da década de 1820, Augustus frequentou um internato em Redland, perto de Bristol. Naquela época, ele foi apresentado à matemática.

Em fevereiro de 1823, Augustus ingressou no Trinity College, Cambridge, onde foi profundamente influenciado por seus professores George Peacock (álgebra) e George Airy (astronomia). Era um leitor compulsivo em uma variedade de assuntos, desde filosofia e teologia até literatura e história. Talvez seu interesse vitalício pela história da ciência e da lógica tenha sido inspirado por Peacock e William Whewell. De qualquer forma, esses homens fortaleceram seu amor pelos estudos matemáticos[3].

Enquanto estava na universidade, Augusto renunciou ao credo evangélico e tornou-se não conformista, embora nunca tenha sido ateu. Essa atitude, no entanto, determinou sua saída de Cambridge, pois na época era obrigatório jurar fidelidade à Igreja da Inglaterra. Ele se tornou o primeiro professor de matemática (nomeado em 23 de fevereiro de 1828) na recém-criada Universidade de Londres (hoje, University College, Londres). Não demorou muito depois, ele renunciou, novamente exasperado por certas questões dos regulamentos acadêmicos, mas retornou em 1836 e manteve seu cargo por mais trinta anos.

Augustus era muito estimado como professor e admirado por muitos (famoso Charles S. Peirce) por suas contribuições à lógica formal e à lógica das relações[4]. Publicou diversos livros didáticos de matemática e milhares de revisões, artigos curtos, pesquisas e entradas de enciclopédias. Seus escritos estão repletos de anedotas paródicas, piadas, trocadilhos e enigmas, a maioria criados por ele mesmo.

A obra mais lembrada de Augustus é a póstuma A Budget of Paradoxes (1877), uma coletânea de resenhas originalmente publicada no The Athenaeum. É um monumento de erudição sobre uma vasta gama de temas, mas fundamentalmente matemática e astronomia. Ele também era um habilidoso bibliógrafo e colecionador de livros.

Em 3 de agosto de 1837, Augusto casou-se com Sophia Elizabeth Frend, que mais tarde se tornaria sua primeira biógrafa. Como descrito abaixo, os de Morgan foram dos primeiros na Grã-Bretanha a se interessarem pelo Espiritismo, então recentemente importado da América. Augustus realizou pesquisas com médiuns, décadas antes da criação da Society for Psychical Research em 1882[5].

Augusto foi profundamente afetado pela morte de dois de seus filhos. Após sua aposentadoria do London College, sofreu um derrame do qual nunca se recuperou. Ele morreu de insuficiência renal em 18 de março de 1871 e foi sepultado no Cemitério Kensal Green, em Londres[6].

 

Experimentos em Mesmerismo e Espiritualismo

Início

As visões de Augustus sobre pesquisa psíquica se desenvolveram ao testemunhar, ou ouvir sobre, os experimentos de mesmerismo de sua esposa durante as décadas de 1840 e 1850. Certa vez, por exemplo, Sophia De Morgan hipnotizou uma jovem em uma tentativa de cura, e a paciente se tornou, aparentemente, uma clarividente (enquanto estava em uma espécie de transe) que podia 'viajar mentalmente' e realizar outras façanhas. Em uma ocasião, ela descreveu com muita precisão para Sofia a casa onde Augusto estava com um amigo. Ele ficou surpreso e se recusou a justificar a habilidade como resultado de coincidência[7].

Anos depois, os De Morgan tinham uma jovem criada cujos poderes mediúnicos a tornaram objeto de vários experimentos. Um dia, seu filho William (que mais tarde se tornaria um famoso oleiro e romancista) implorou aos 'espíritos' que 'transferissem a batida da mesa onde estavam sentados para um armário do outro lado da sala'. E aparentemente ele foi ouvido, pois todas as raps seguintes vieram daquele armário[8].

Sobre todos esses eventos, Augusto escreveu em uma carta a William Heald:

Já vi bastante hipnotismo, e já tentei eu mesmo... para a remoção de doenças que exigiam muitos remédios, mas que o mesmerismo atendia sem remédio desde o momento em que foi empregado. Sobre os poderes curativos desse agente, não tenho mais dúvidas do que se tem de coisas que ele vê constantemente há anos ... Eu já tinha ouvido falar de... clarividência, e tinha certeza de que ela ocorria em minha própria casa, mas sempre a considerei algo de que não tinha provas diretas ou pessoais, e que não poderia admitir até que tais evidências aparecessem[9].

 

Sessões com Maria Hayden

Em 1853, os De Morgan conheceram a médium americana Maria Hayden, responsável por introduzir o Espiritismo na Grã-Bretanha[10]. Na época, a morte da filha dos Morgan, Alice, aumentou o interesse de Sophia pelo Espiritismo, que ela considerava uma ciência. Parece que, por meio de Hayden, o pai de Sophia e sua irmã, Harriet, se comunicavam do além. A partir de então, Sophia passou a acreditar que Alice vivia feliz em um mundo de espíritos, cercada por Cupido, Deus e Cristo, entre outros personagens altamente reverenciados[11].

Duas sessões importantes com Hayden são registradas. Em ambos os casos, Augusto tentou determinar se os eventos foram produzidos por uma agente desencarnada ou pela habilidade de 'leitura de pensamentos' do médium. Na primeira ocasião, ele insistiu em fazer mentalmente uma pergunta cuja resposta, como só ele deveria saber, era monossilábica. Então ele começou a apontar para letras em um alfabeto impresso, e um som alto era ouvido toda vez que ele acertava em uma letra certa. Augustus tomou precauções para impedir que Hayden visse seu rosto e o alfabeto impresso à sua frente. Por essa razão, ele descartou a possibilidade de algum truque elaborado e favoreceu a hipótese da leitura de mentes[12].

Em outra sessão, foi anunciado que o espírito do Coronel De Morgan estava presente. Augustus planejou um teste para corroborar essa identificação. Embora Sophia tenha descrito esse experimento[13], o seguinte é retirado da versão de Anna M Stirling.

A primeira tarefa de Augusto foi selecionar uma informação que só pai e filho pudessem conhecer; era a frase mencionada na primeira seção acima:

… 'o amigo do Cristianismo na Índia.' Augusto ... perguntou ao suposto espírito se ele conseguia se lembrar de uma certa resenha publicada logo após a morte do Coronel De Morgan, e se poderia dar as iniciais de um título em cinco palavras ... O médium e o resto da companhia ... estavam sentados à mesa enquanto [De Morgan] ficava separado, onde não podiam vê-lo, segurando um lápis com o qual apontava para cada letra do alfabeto ... Com as palavras da frase necessária em mente, ele esperava totalmente que um golpe fosse dado pela mesa ao chegar à letra F. Mas seu lápis passou na letra crucial, e quando chegou a K decidiu que o teste foi um fracasso. Alguém presente ... [então] chamou: 'Você passou; ouvi um rap há muito tempo.' [De Morgan] recomeçou; e raps distintos vieram primeiro no C e depois no D. Ele então ficou mais [convencido do fracasso] ... De repente, porém, ele percebeu que os golpes indicavam corretamente as letras que eram o início da frase que continha o título. 'Entendo o que você está fazendo,' comentou gravemente, 'por favor, continue.' As acusações então prosseguiram, e por sua vez enfatizaram claramente as seguintes letras: 'C.D.M.T.F.O.C.I.I.' [ou seja, Coronel De Morgan The Friend...][14].

Sophia descreveu esses experimentos com Hayden e outros médiuns em From Matter to Spirit[15], que ela inicialmente assinou como 'C.D.'. Augustus escreveu o Prefácio sob o pseudônimo 'A.B.'. Lá ele escreveu:

Estou satisfeito, pela evidência dos meus próprios sentidos, de alguns fatos narrados; de outros tenho evidências tão boas quanto o testemunho pode fornecer. Estou perfeitamente convencido de que vi e ouvi de uma forma que tornaria a descrença impossível, coisas chamadas espirituais que não podem ser consideradas por um ser racional como capazes de explicação por impostura, coincidência ou erro ... Mas quando se trata do que é a causa desses fenômenos ... Não posso adotar nenhuma explicação que tenha sido sugerida até agora[16].

 

A Hipótese do Espírito

Augusto argumenta que a 'hipótese espiritual' deveria ser suficiente, se não fosse 'pesadamente difícil'. Ele considerava que o Espiritismo moderno representava uma 'epidemia' que 'parece ser feita para o avanço tanto da verdade quanto da falsidade'. Exigia um reconhecimento universal dos fenômenos 'que a investigação histórica mostra nunca ter sido totalmente desconhecidos'. Por tais fenômenos, Augusto queria dizer certas aparências 'que devem ser finalmente ligadas a alguma verdade ou a alguma ilusão'[17].

Sobre a questão das evidências em assuntos semelhantes, ele refletiu:

Seja como for, é um erro supor que deveria produzir o mesmo efeito em pessoas diferentes. É um absurdo dizer: 'Retire sua mente de todo viés e a deixe igualmente pronta para todas as impressões: você poderia muito bem dizer a um galho mal curvado para ... se endireitar, para então lhe dar outra curva da maneira correta'. É uma evidência que deve tanto se desdobrar quanto dobrar: não está no poder de ninguém alterar seu estado pela vontade. Uma pessoa 'que acha outro mais fácil de convencer do que a si mesma chama o outro de crédulo; mas quando o outro é mais difícil, o primeiro o chama de irracional...'[18]

O ponto de vista histórico (em relação às ciências físicas, filosofia e teologia) precisava ser central no debate sobre tais pesquisas. Os espiritualistas seguiram o mesmo caminho que levou outros a melhorar a ciência física, porque 'eles têm o espírito e o método do grande tempo em que aqueles caminhos eram cortados pela floresta não desmatada onde hoje é rotina diária caminhar'. Esse espírito era 'de exame universal, totalmente sem controle pelo medo de serem descobertos na investigação de bobagens'[19].Ele acrescentou:

Os espiritualistas ... podem ser divididos entre aqueles que acreditam que as comunicações são espirituais, aqueles que não veem o que mais podem ser, e aqueles que não veem o que podem ser. Todos que investigarem mais a fundo ... serão, se moldarem suas investigações com base na hipótese espiritual, serão imitadores sensatos daqueles que lideraram o caminho na ciência física, nos tempos antigos[20].

Nesse sentido, é interessante entender o rigor técnico e histórico com que Augusto definiu um paradoxo: 'algo que está à parte da opinião geral, seja no tema, no método ou na conclusão', e o que ele chamou de paradoxista: alguém cuja atitude 'em relação ao sentido ou ao absurdo não dependerá do que sustenta, mas de ter ou não feito conhecimento suficiente do que foi feito por outros, especialmente sobre o modo de fazê-lo, um preliminar para inventar o conhecimento para si mesmo[21].'

Em A Budget of Paradoxes, Augustus fala do Espiritismo como 'o grande paradoxo do nosso tempo'[22], examinou brevemente dois livros sobre Espiritismo e incluiu uma longa consideração das resenhas de De Matéria para o Espírito, de Sofia. Ele afirmou sua certeza 'de muitos fatos do espiritualismo', mas admitiu que não podia 'fingir afirmar ou negar qualquer coisa sobre sua causa'. Ele recomendou a 'hipótese do espírito' para dar uma direção à investigação, mas não baseou a evidência do espiritismo 'na ocorrência de certos fatos que provam a possibilidade desses mesmos fatos'. Ele acrescentou, de forma bastante significativa: 'Toda pessoa que sabe algo sobre o progresso da física entende o que é querido...'[23].

Sophia De Morgan era uma crente fervorosa na hipótese do espírito, embora Augusto nunca a tenha considerado mais do que uma possibilidade teórica. Isso, concluiu Augusto, os críticos não perceberam[24].

 

Recursos Arquivísticos

Algumas resenhas relacionadas à pesquisa sobrenatural e psíquica que Augustus publicou no The Athenaeum (algumas delas anonimamente), mas não coletadas em A Budget of Paradoxes[25], estão listadas neste catálogo. A maioria das edições correspondentes do periódico (1830–1920) pode ser acessada aqui. Para uma descrição completa e detalhada de vários arquivos e bibliografias referentes ao legado de De Morgan, veja Augustus De Morgan, Polymath: New Perspectives on his Life and Legacy[26].

 

Obras Citadas

§  Attar, K., Rice, A., & Stray, C. (eds.) (2024). Augustus De Morgan, Polymath: New Perspectives on His Life and Legacy. [Full text.] Cambridge, UK: Open Book Publishers.

§  De Morgan, A. (1877). A Budget of Paradoxes. [Full text.] London: Longmans, Green.

§  De Morgan, A. (1954). A Budget of Paradoxes (2nd ed., ed. by D.E. Smith; unabridged republication of the 1915 second edition, two volumes bound as one.) New York: Dover Publications.

§  De Morgan, S.E. [C.D.] (1863). From Matter to Spirit: The Result of Ten Years’ Experience in Spirit Manifestations. Intended as a Guide to Enquirers. [Full text.] London: Longman, Green, Longman, Roberts, & Green.

§  De Morgan, S.E. (1882). Memoir of Augustus De Morgan, with Selections from His Letters. [Full text.] London: Longmans, Green, and Co.

§  Halsted, G.B. (1897). Biography: De Morgan. The American Mathematical Monthly 4/1, 1-5.

§  Noakes, R. (2019). Physics and Psychics: The Occult and the Sciences in Modern Britain. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

§  Stirling, A.M.W. (1922). William De Morgan and His Wife. [Full text.] London: Thornton Butterworth Ltd.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Attar, Rice, & Stray (2024), xiii-xiv.; Stirling (1922), 24.

[3] Attar, Rice, & Stray (2024), xv-xvii.

[4] Attar, Rice, & Stray (2024), xviii-xxvi; Halsted (1897), 2.

[5] Sobre esse assunto, veja aqui.

[6] Attar, Rice, & Stray (2024), xx-xxiv.

[7] Stirling (1922), 108; S.E. De Morgan (1863), 47-49.

[8] Attar, Rice, & Stray (2024), 231ss; Stirling (1922), 108.

[9] S.E. De Morgan (1882), 206.

[10] Carmack (2020).

[11] Attar, Rice, & Stray (2024), 233-34; S.E. De Morgan (1863), xli ss.

[12] S.E. De Morgan (1863), xlii-xliii.

[13] S.E. De Morgan (1863), xliii-xliv.

[14] Stirling (1922), 35-36.

[15] S.E. De Morgan (1863).

[16] S.E. De Morgan (1863), v.

[17] S.E. De Morgan (1863), v-vi, x. Cf. Noakes (2019), 137-38.

[18] S.E. De Morgan (1863), xvi-xvii.

[19] S.E. De Morgan (1863), xviii-xx.

[20] S.E. De Morgan (1863), xxv-xxvi.

[21] A. De Morgan (1954), 4; itálico no original.

[22] A. De Morgan (1954), 54.

[23] A. De Morgan (1954), 196-98; itálico no original.

[24] A. De Morgan (1954), 198, 202-3.

[25] A. De Morgan (1954).

[26] Attar, Rice, & Stray (2024), seção 11.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

APRENDER, APRENDER SEMPRE[1]

 


Antônio Moris Cury - outubro/2026

 

É excelente aprender, seja o que for, sob todos os pontos de vista.

 

Aprender é obter conhecimento das ciências, das artes, das letras, da música, da filosofia, da história. São alguns poucos exemplos apenas para ilustrar, uma vez que é incontável a quantidade do que se pode aprender a cada dia e, deveras importante, consolidar o conhecimento adquirido, pois ele será nosso para todo o sempre.

Somos Espíritos, neste momento encarnados no planeta Terra com o objetivo de aprender, crescer, evoluir, progredir em seu mais amplo sentido e avançar na busca incessante pelo aperfeiçoamento pessoal, na direção da Luz e de Deus.

Quando ocorrer a desencarnação, que a seu tempo chegará para todos, sairemos do corpo físico, que irá se decompor ou será cremado, mas não sairemos da vida, pois somos Espíritos imortais.

Todo o conhecimento adquirido e consolidado permanecerá conosco, uma vez que o Espírito é o arquivo da memória e jamais se perderá, vale dizer, pertence-nos verdadeiramente. Também nos pertencem as virtudes conquistadas e a inteligência desenvolvida.

Com este brevíssimo apanhado, não é difícil concluir que trabalharemos, estudaremos e aprenderemos sempre, e cada vez mais, diante da imortalidade do Espírito, valendo repetir para enfatizar: viveremos para sempre!

Entendemos que essa é uma conclusão racional, que para nós faz todo o sentido, fruto de convicção pessoal obtida com o estudo contínuo da Doutrina Espírita, que não impõe nada a ninguém.

Por outro lado, vale relembrar a definição de educação dada por Allan Kardec, o ínclito professor e codificador da Doutrina Espírita:

A educação é o conjunto dos hábitos adquiridos[2].

Vale destacar que a leitura é um saudável hábito, que incorporamos com muita facilidade se tivermos interesse, esta mola propulsora que nos movimenta no mundo físico.

A leitura e o estudo, além de serem tarefas agradáveis e prazerosas, têm enorme significado pessoal para todos nós, porquanto aumentam o índice de nossa informação e de nosso conhecimento, facilitam a compreensão dos mais diversos assuntos, enriquecem o nosso vocabulário, aperfeiçoam o nosso modo de escrever e de falar, permitem-nos incontáveis comparações e, por isso, sólido embasamento nas conclusões. Por consequência, passamos a ter novas ideias e maior lucidez, frutos dos conhecimentos adquiridos.

Parece-nos muito claro o benefício de quem lê e estuda, uma vez que o conhecimento adquirido e consolidado nos pertence individualmente, não havendo ladrão capaz de roubá-lo nem ferrugem que o possa corroer, assim como ele é absolutamente inalienável, visto que nem mesmo a morte do corpo físico tem o poder de transferi-lo aos nossos herdeiros e sucessores.

A informação, o estudo e o conhecimento da Doutrina Espírita estão à nossa disposição através do empréstimo gratuito de obras que as Casas Espíritas oferecem.

Com efeito, as cinco obras básicas do Espiritismo (O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese) podem ser consideradas uma síntese do conhecimento humano, razão suficiente para recomendar-se a sua leitura e, principalmente, o seu estudo.

Relevante mencionar que a informação pode ser obtida por amplos e variados modos: leitura de livros, jornais, revistas, além do rádio e da televisão, e também pela internet, a rede mundial de computadores, que coloca o mundo à nossa disposição, onde quer que nos encontremos, mas que precisa ser acessada com bastante cuidado, atenção e bom senso, diante de tantos absurdos e desinformação que temos visto em profusão no dia a dia.

Se usada a Inteligência Artificial (IA), por exemplo, é importante observar o que está escrito ao final de qualquer pesquisa feita: A IA pode cometer erros. Por isso, cheque as respostas.

Não podemos deixar de registrar aqui a interessantíssima  observação sobre instrução feita pelo eminente médium, escritor e palestrante espírita Raul Teixeira:

É através da instrução, de ajuntar por dentro de nós tanto saber, que nos candidatamos a sábios, vivendo o amor de Deus na relação com o próximo[3].



[1] MUNDO ESPÍRITA – nº 1707 - Ano 94

[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1987. pt. 3, cap. III, q. 685a. Comentários de Kardec.

[3] TEIXEIRA, Raul. “Vida e valores”. Curitiba: FEP, 2016. v. 1, pt. 2, cap. 10.

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

INSULAMENTO ABSOLUTO[1]

 


Miramez

 

 Necessidade da vida social

Concebe-se que, como princípio geral, a vida social esteja na Natureza. Mas, uma vez que também todos os gostos estão na Natureza, por que será condenável o do insulamento absoluto, desde que cause satisfação ao homem?

Satisfação egoísta. Também há homens que experimentam satisfação na embriaguez. Merece-te isso aprovação? Não pode agradar a Deus uma vida pela qual o homem se condena a não ser útil a ninguém.

Questão 769 / O Livro dos Espíritos

 

Somente existe um absoluto, que é Deus e as Suas leis. Todas as coisas criadas pelos homens são relativas, dentro da relatividade que o tempo, o espaço e a maturidade comportam.

O homem é cheio de manias criadas por ele mesmo, e ainda pensa, quando não tem compreensão, que suas ideias estão certas. Ele enverga uma roupagem ilusória, julgando-se o próprio Deus. A presunção carrega-o para a perdição, até que encontre a verdade.

As almas, no começo da sua evolução, se nos parecem egocêntricas, por lhes faltar sabedoria. Tudo que existe pertence a Deus. Nós outros, em todos os planos que podemos habitar, somos usufrutuários, e não proprietários; até os corpos que periodicamente vestimos são doados por Deus, para que sirvam de instrumento à nossa evolução.

Que direito tem o ser humano de se isolar dos seus companheiros? Qual a finalidade desse gesto, que não o leva a nada? Isolar-se é desprezar as companhias que Deus proporciona às almas, para completarem o que buscam. O progresso vai nos dotando de novas condições, e os nossos dons passam a se desenvolver, atendendo muitas das nossas necessidades.

O futuro vai nos dizer que, na extensão dos evos, a diferença entre homem e mulher deverá desaparecer, para concentrar as qualidades em uma só pessoa. É a evolução nos mostrando a integração das qualidades. Não é que retrogradaremos envolvidos pela prosápia; é que, com esse espaço, já estaremos livres do egoísmo e do orgulho para sempre, porque conheceremos a verdade e porque já teremos dado conta de nós mesmos ao Criador.

Escutemos o que Paulo disse aos Romanos, no capítulo quatorze, versículo doze, demonstrando conscientização das leis naturais feitas pelo Senhor:

 

Assim, pois, cada um de nós dará conta de si mesmo a Deus.

 

Se nos insulamos por vaidade, para nos mostrar aos que passam, somente nós iremos dar conta a Deus dos nossos atos; é por isso que devemos, por lei do bem, viver em conjunto, para ensinar e aprender o que sabemos e o que ainda precisamos saber. Toda satisfação presunçosa é falta que fere a consciência. As nossas lutas devem ser sempre em favor de todas as criaturas, não somente em benefício próprio.

O homem que se condena a não ser útil a alguém está à beira da falência, comungando com o desprezo de si mesmo; ele está morrendo, quando não serve para servir. O Espírito hiperbólico vai automaticamente para os extremos, onde ele sofre as conseqüências da sua ignorância. Foi para nos moderarmos que Deus nos deu inteligência, para que ela nos guie naquilo que pode e deve.

A Doutrina dos Espíritos surgiu no mundo para impulsionar a humanidade, juntando todos os povos em um só ideal, o de confraternizar todos os povos, de fundar uma filosofia social cristã, de sentir todos os nossos semelhantes como a nós mesmos. Todos têm os mesmos direitos e, certamente, deveres.

A dor e os problemas, os infortúnios de toda ordem, devem desaparecer dentre os homens, quando não existir mais orgulho e egoísmo nos corações. Compete a cada criatura trabalhar dentro de si para expulsar tudo o que é contrário ao amor, deixando lugar para o nascimento do Cristo no coração, de que Deus possa comandar os nossos destinos na nossa plena consciência de viver.

Que Deus nos abençoe sempre nas nossas atitudes, que Jesus nos oriente pelo Evangelho, de maneira a não só falarmos da Boa Nova, mas passarmos a vivenciá-la em todos os momentos da nossa vida.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 16 – João Nunes Maia