sexta-feira, 25 de setembro de 2026

CASOS ESPÍRITAS: TORMENTOS DA MENTE[1]

 


Nubor Orlando Facure

 

Os pais de Amelinha dormem tranquilamente quando, no meio da noite, são despertados por gritos de desespero.

A filha, que repousa no quarto ao lado, apresenta mais um episódio de crise de pânico, com gritos aterradores. Os médicos diagnosticaram o problema como terror noturno.

Esses episódios já se repetem há dois anos, sem que os medicamentos tenham conseguido promover sua remissão.

Agora com 13 anos, Amelinha, vez por outra, é vista pela mãe conversando sozinha.

Nas consultas com profissionais competentes, os diagnósticos variam entre esquizofrenia e transtorno do espectro autista.

Ao ingressar na faculdade, aos 19 anos, o estresse provocado pelas frequentes avaliações agravou consideravelmente o quadro, perturbando o ambiente familiar e intensificando episódios de agressividade e comportamentos antissociais.

Em outras ocasiões, Amelinha permanecia horas isolada no quarto. Recusava-se a alimentar-se e a cuidar da própria higiene. Dizia ser perseguida por determinados professores e assediada por colegas da faculdade.

O quadro passou a surpreender cada vez mais o psiquiatra responsável pelo seu tratamento. Os surtos tornaram-se mais frequentes e intensos, acompanhados de mudanças estranhas de comportamento.

Deixou de cuidar de si mesma. Até a higiene pessoal foi completamente negligenciada.

Tornou-se excessivamente falante, leviana, exibicionista, sem qualquer inibição diante de pessoas estranhas, provocativa, de linguagem vulgar e com gostos exóticos incompatíveis com seu meio social.

 

Novos rumos

Há três meses, Amelinha e seus familiares passaram a frequentar assiduamente uma casa espírita, onde são atendidos por um médium dedicado e fraterno.

Certo dia, ao término da leitura do Evangelho, o médium psicografou uma mensagem esclarecedora.

Segundo a comunicação, nas últimas três encarnações Amelinha mantém grave conflito com Djalma M., um jovem agricultor de Portugal.

Uma paixão vivida sem equilíbrio emocional teria terminado, repetidas vezes, em adultério e morte.

Em outra existência, ambos viveram juntos como religiosos dedicados, mas um ciúme doentio destruiu a confiança mútua e culminou no suicídio de ambos.

 

Novas terras

Mais tarde, em uma existência nas fazendas de Minas Gerais, envolveram-se nos desmandos da escravidão, tornando-se patrões violentos e assassinos.

Na penúltima reencarnação, vivendo em um lar cristão, Amelinha abortou Djalma durante uma gravidez não planejada.

Desde então, segundo a mensagem espiritual, o quadro psiquiátrico de Amelinha passou a assumir diferentes manifestações, conforme a influência obsessiva exercida por Djalma.

A cobrança é impiedosa.

O perdão ainda não se tornou possível.

Djalma insiste na vingança e procura induzi-la à morte.

 

Lição de casa

A obsessão espiritual, com suas múltiplas formas de manifestação, frequentemente surpreende a psiquiatria, dificultando o diagnóstico e o tratamento.

Mesmo no meio espírita, o fenômeno obsessivo ainda é, muitas vezes, analisado de maneira superficial.

São situações que podem prolongar-se por sucessivas reencarnações, até que os envolvidos estejam verdadeiramente dispostos à reconciliação.

Sua solução definitiva exige uma luta perseverante de renovação íntima, inspirada na lição de Jesus: perdoar e amar os inimigos.

As palavras de ordem são:

§  reconciliar;

§  reeducar o espírito;

§  recomeçar pelo trabalho em benefício do próximo.

A Justiça Divina oferece, ao mesmo tempo, misericórdia e oportunidade.

Essas são as ferramentas colocadas à nossa disposição para construirmos um novo futuro.

Cabe a cada um de nós, porém, tomar a charrua e arar a própria terra.



[1] O CONSOLADOR - Ano 20 - N° 984 - 26 de Julho de 2026 - https://www.oconsolador.com.br/ano20/984/ca5.html

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

VIAGENS DOS ESPÍRITOS ERRANTES[1]

 


Miramez

 

Espíritos errantes

Podem os Espíritos errantes ir a todos os mundos?

Conforme. Pelo simples fato de haver deixado o corpo, o Espírito não se acha completamente desprendido da matéria e continua a pertencer ao mundo onde acabou de viver, ou a outro do mesmo grau, a menos que, durante a vida, se tenha elevado, o que, aliás, constitui o objetivo para que devem tender seus esforços, pois, do contrário, nunca se aperfeiçoaria. Pode, no entanto, ir a alguns mundos superiores, mas na qualidade de estrangeiro. A bem dizer, consegue apenas entrevê-los, donde lhe nasce o desejo de melhorar-se, para ser digno da felicidade de que gozam os que os habitam, para ser digno também de habitá-los mais tarde.

Questão 232 / O Livro dos Espíritos

 

Os Espíritos errantes podem viajar como turistas a outros mundos mais elevados, não obstante, necessário se faz que tenham preparo para tal empreendimento. Os prêmios somente vêm ao nosso encontro por merecimento.

Muitos Espíritos, ao desencarnarem, permanecem na atmosfera do planeta, nas condições que deixaram o corpo. A consciência da liberdade em plenitude vem somente para aqueles que completaram a ronda da educação, nas linhas de todos os entendimentos dos ensinos de Jesus, o Cristo de Deus.

Ao deixarem o corpo, muitos são convidados a passeios em mundos melhores, de maneira a estimular em seus corações uma vontade poderosa de se melhorarem moralmente, e em tais circunstâncias eles trabalham com todas as suas forças para aquisição dos valores imortais da Boa Nova.

A Doutrina Espírita é esse convite de Jesus, ela nos mostra as oportunidades que os céus nos oferecem. Se o encarnado começar a se transformar, como se esforçaram e venceram os discípulos do Mestre, estará em preparo para essas viagens encantadoras que vêm a serviço da nossa esperança, nos mostrando que existe a felicidade. Essas viagens não se faz a sós; existem grandes almas que se dispõem a nos guiar, ensinando-nos, ao mesmo tempo, a respeitar, compreendendo as leis imutáveis da natureza divina.

Quando nos encontrarmos em completa posse da fé que nos assegura a estabilidade, nos entregaremos aos caminhos da perfeição, mesmo que eles pareçam ser de um preço excessivo para nossas forças. O mundo, do modo como os homens o veem, cheio de tribulações, de guerras, de pressões e de toda ordem de negatividade, é uma escola grandiosa, onde existe o princípio de todas as qualidades espirituais. Muitos dos mestres, sob a direção do Mestre maior, nele se encontram a ajudar os homens a abrirem os olhos e a aguçarem os ouvidos, para verem e ouvirem os convites da verdade para os tornarem livres.

Mesmo envolvido nos fluídos da carne, deve o encarnado se preparar para futuras excursões ao mundo espiritual: começando a melhorar e fazendo esforços no sentido de aprimoramento espiritual, que os Anjos do Senhor seguir-lhe-ão em todas as suas labutas de conquistar e vencer a si mesmo.

Comunguemos com o bem em todas as suas divisões. Amemos em todas as suas amostras de luz, e confraternizemos da maneira que a universalidade nos ensina, que já teremos dado um passo para a luz da verdadeira alegria. É preciso que todos compreendam que pelo simples fato de deixar o corpo físico por meio do chamamento do que chamamos morte, não se encontra a alma na inteireza dos seus poderes, tudo isso depende do aproveitamento que teve dos convites do amor, quando na carne.

Tudo é orientado pela justiça. Entreguemos o trabalho ao amor, de modo que a caridade brilhe no nosso coração de aprendizes de Nosso Senhor Jesus Cristo. Muitos deixam os corpos e continuam a viver como se estivessem presos à carne.

Por falta de preparo dos sentimentos, o coração preso às paixões forma laços difíceis de serem destruídos. Não basta somente decorar as páginas luminosas do Evangelho; é preciso que o entendamos e, acima do entendimento, que venhamos a vivenciá-lo.

Quem vive o amor se encontra livre e de posse de qualidades que o levarão às viagens instrutivas e salvadoras para os caminhos da perfeição.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 5 – João Nunes Maia

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

SEU CÉREBRO NÃO DESLIGA SIMPLESMENTE QUANDO VOCÊ MORRE. O QUE REALMENTE ACONTECE DESAFIA NOSSA COMPREENSÃO DA REALIDADE[1],[2].

 


Por editores da Popular Mechanics - Publicado: 30 de junho de 2026, 12:19 EDT

 

Alguns cientistas sugerem que existe um estado intermediário que divide a vida da morte.

 

O que acontece quando morremos?

É uma das maiores questões da história da humanidade, silenciosamente impulsionando a ciência e a religião por séculos. O modelo reducionista padrão diz que a consciência simplesmente cessa após a morte. Luzes apagadas. Obrigado, próximo. No entanto, isso não explica fenômenos como experiências de quase-morte (EQMs), onde as pessoas vivenciam algo profundo — frequentemente luzes fortes, túneis ou ouvir vozes de parentes falecidos — quando estão próximas da morte.

Mas onde uma hipótese falha, outras podem compensar. Alguns cientistas sugerem que há algo mais profundo acontecendo quando alguém morre — fenômenos que desafiam nossa compreensão da vida e talvez apontem para algum tipo de estado intermediário.

 

Uma 'consciência do crepúsculo' tentando se manter

Em um estudo da Universidade de Michigan em 2023, pesquisadores analisaram registros de eletroencefalograma (EEG) e eletrocardiograma (ECG) de quatro pacientes em coma cujos ventiladores haviam sido retirados. O EEG mede a atividade elétrica do cérebro, enquanto o ECG acompanha os sinais elétricos que regulam o ritmo cardíaco. Em dois dos pacientes, observaram um aumento repentino das ondas gamma-encefálicas em segundos após o declínio cardíaco. Esses surtos não eram aleatórios: eram sincronizados com ritmos cerebrais mais lentos (um padrão recorrente na percepção consciente e no sono REM). Eles também mostraram forte conectividade em todo o cérebro — especialmente na "zona quente posterior", uma área ligada à visão, consciência corporal e processamento sensorial. A conectividade também se estendia para as regiões frontais, imitando os padrões neurais observados em sonhos, estados psicodélicos e até mesmo na percepção consciente.

Houve um surto altamente organizado em regiões-chave do cérebro — como se todo o sistema fosse momentaneamente iluminado por dentro, diz Jimo Borjigin, PhD, professor associado de neurologia e fisiologia molecular e integrativa na Universidade de Michigan, e coautor do estudo. Ela acrescenta que a ativação apareceu em áreas ligadas ao movimento, à fala e até mesmo à junção temporoparietal — uma região do cérebro envolvida na integração de informações sensoriais e frequentemente ligada a experiências fora do corpo (EFCs), que são comumente relatadas como parte das EQMs. Borjigin observa que muitos dos visuais associados às EQMs podem estar relacionados aos padrões de atividade observados no estudo, especialmente em regiões cerebrais envolvidas na visão e no processamento sensorial.

Por que o cérebro moribundo sairia com uma agitação em vez de um leve desvio? Borjigin oferece uma teoria: o cérebro pode estar iniciando uma busca interna pela sobrevivência. Muitas pessoas que tiveram experiências de EQM relatam reviver momentos emocionais, ouvir mensagens como "Não é sua hora" ou ver entes queridos falecidos, ela diz. O cérebro moribundo pode estar vasculhando profundamente a memória, procurando um propósito não resolvido ou um motivo convincente para continuar vivendo. Ela também enfatiza como esses achados desafiam nossas suposições. "Pensamos em uma pessoa em coma como 'desaparecida', mas mesmo nesses estados, a atividade gama organizada apareceu em regiões ligadas à consciência visual. É uma espécie de consciência do crepúsculo, possivelmente oculta, mas ativa".

 

Construindo seu próprio paraíso

Um artigo de hipótese de março de 2026 publicado na Frontiers in Psychology propõe que visões de quase-morte e fim de vida podem ser uma espécie de "simulação" interna gerada internamente, construída não a partir de uma geografia externa compartilhada do céu ou do inferno, mas a partir dos próprios estoques de memória, emoção, crença e imagens culturais do cérebro moribundo. No modelo do autor e pesquisador Recai Kayış, uma breve tempestade de atividade cerebral terminal se combina com processamento de memórias oníricas e um colapso na percepção do tempo comum. Isso pode fazer com que os segundos pareçam vastos e transforma os apegos mais profundos, medos e expectativas de uma pessoa no que pode se tornar o último mundo em que a mente entra.

“À medida que o cérebro se aproxima da morte, o suprimento de oxigênio e energia começam a colapsar, e o equilíbrio normal da atividade cerebral pode se tornar instável. A entrada sensorial externa enfraquece, enquanto sistemas internos relacionados à memória, emoção, imagens e identidade podem se tornar brevemente altamente ativos ou desinibidos", diz Kayış, que estuda esse fenômeno na Universidade Aydın de Istambul, na Turquia. Nessa condição, ele argumenta, o cérebro pode começar a construir uma experiência quase inteiramente a partir de si mesmo: uma realidade interna fechada montada a partir de resíduos emocionais, imaginação, expectativas culturais e material simbólico profundamente codificado. "A memória fornece o conteúdo", diz Kayış. "A emoção dá essa força de contentamento. A cultura lhe dá forma simbólica”.

Enquanto isso, os sistemas de temporização do cérebro moribundo começam a falhar. Memórias e imagens internas se tornam extremamente densas. Alguns segundos de atividade biológica podem parecer uma longa jornada, uma revisão de vida ou até mesmo um estado sem limites temporais claros, permitindo que a experiência pareça subjetivamente vasta. Esse enquadramento, escreve Kayış no artigo, poderia ajudar a explicar por que as EQMs variam tão dramaticamente entre culturas, ao mesmo tempo em que compartilham certos temas emocionais amplos. Em vez de alucinações aleatórias, Kayış diz que essas visões podem refletir a arquitetura emocional e simbólica mais profunda já embutida na mente. Nessa interpretação, a "vida após a morte" não é necessariamente um lugar que o cérebro descobre, mas um mundo interior final que ele constrói.

 

Mudando para uma Realidade Alternativa

Entre as teorias mais alucinantes sobre o que acontece após a morte, a imortalidade quântica sugere que continuamos vivendo em outros universos depois de morrermos neste. A imortalidade quântica é um desdobramento da teoria dos "Muitos Mundos", proposta pelo então doutorando Hugh Everett III na Universidade de Princeton em 1957. Simplificando, Everett sugeriu a teoria dos muitos mundos ao tentar realizar medições em mecânica quântica. Em uma variação do efeito observador — um fenômeno em que um sistema é perturbado pelo próprio ato de observar — ele propôs que toda observação do estado quântico (ou função de onda) de um objeto irá separar uma cópia do nosso universo. E à medida que as observações se acumulam, universos alternativos também se acumulam.

Embora nem todos concordassem com a noção de muitos mundos (o pioneiro quântico Niels Bohr foi um deles), os estudos sobre a teoria continuaram — especialmente na década de 1980. Por exemplo, o físico do MIT Max Tegmark, PhD, investigou uma noção relacionada conhecida como "suicídio quântico". Ele reflete se você morreria em todos os universos, caso morresse deliberadamente neste. Tegmark apresentou isso como um experimento mental, que seria difícil ou impossível de resolver, já que não podemos acessar outros universos.

Por associação com essas teorias, alguns defensores da imortalidade quântica dizem que nossa consciência abrange muitos mundos. Isso, claro, dá um salto amplo, assumindo que existam múltiplos universos paralelos. Então, é possível que, quando você morre em um universo, sua consciência se desloque para outro? Embora não possamos acessar esses outros universos em nossa própria experiência viva, a teoria supõe que alguma parte da sua consciência persistiria para sempre, pulando de uma vida para a outra — independentemente de você perceber ou não.



[2] Nota do Editor: Stav Dimitropoulos e Elizabeth Howell contribuíram com reportagens para esta matéria.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

UM ANTIGO CARRETEIRO[1]

 


Allan Kardec

 

O excelente médium Sr. V... é um rapaz que geralmente se distingue pela pureza de suas relações com o mundo espírita.

Todavia, desde que ocupa o cômodo em que atualmente reside, um Espírito inferior interfere em suas comunicações, intrometendo-se até mesmo em seus trabalhos pessoais. Achando-se uma noite – 6 de setembro de 1859 – em casa do Sr. Allan Kardec, com quem devia trabalhar, foi importunado por aquele Espírito, que lhe fazia traçar coisas incoerentes ou o impedia de escrever. Dirigindo-se ao Espírito, o Sr. Allan Kardec manteve com ele a seguinte conversa:

 

1. Por que vens aqui se ninguém te chamou?

– Quero atormentá-lo.

2. Quem és tu? Dize o teu nome.

– Não o direi.

3. Qual o teu objetivo, intrometendo-se naquilo que não te diz respeito? Isto não te traz nenhum proveito.

– Não; mas o impeço de ter boas comunicações e sei que isto o magoa bastante.

4. És um Espírito mau, pois te alegras em fazer o mal. Em nome de Deus, eu te intimo a que te retires e nos deixes trabalhar em paz.

– Pensas amedrontar-me com esse vozeirão?

5. Se não é de mim que tens medo, por certo o terás de Deus, em nome do qual te falo e que bem poderá fazer que te arrependas de tua maldade.

– Não nos zanguemos, burguês.

6. Repito que és um Espírito mau e mais uma vez te peço que não nos impeças de trabalhar.

– Sou o que sou; é a minha natureza.

 

Tendo sido chamado um Espírito superior, a quem foi pedido que afastasse o intruso, a fim de não ser interrompido o trabalho, o Espírito mau provavelmente foi embora, porque durante o resto da noite não houve mais nenhuma interrupção. Interrogado sobre a natureza desse Espírito, respondeu o que fora chamado:

Esse Espírito, da mais baixa classe, é um antigo carreteiro, falecido perto da casa onde mora o médium V... Escolheu para domicílio o próprio quarto do médium e há muito tempo é ele que o obsidia e o atormenta continuamente. Agora, que sabe que o médium deve deixar o alojamento, por ordem dos Espíritos superiores, atormenta-o mais que nunca. É ainda uma prova de que o médium não escreve o seu próprio pensamento. Vês, assim, que há boas coisas, mesmo nas mais desagradáveis aventuras da vida. Deus revela seu poder por todos os meios possíveis.

– Quando vivo, qual era o caráter desse homem?

– Tudo o que mais se aproxima do animal. Creio que seus cavalos tinham mais inteligência e sentimento do que ele.

– Por que meio pode o Sr. V... desembaraçar-se dele?

– Há dois: o meio espiritual, pedindo a Deus; o meio material, deixando a casa onde está.

– Então há realmente lugares assombrados por certos Espíritos?

– Sim, Espíritos que ainda estão sob a influência da matéria ligam-se a certos locais.

– Os Espíritos que assombram certos lugares podem torná-los fatalmente funestos ou propícios para as pessoas que os habitam?

– Quem os poderia impedir? Mortos, exercem sua influência como Espíritos; vivos, exercem-na como homens.

– Alguém que não fosse médium, que jamais tivesse ouvido falar de Espíritos ou que neles não acreditasse, poderia sofrer essa influência e ser alvo dos vexames de tais entidades?

– Indubitavelmente; isso acontece mais frequentemente do que pensais, e explica muitas coisas.

– Há algum fundamento na crença de que os Espíritos frequentam de preferência as ruínas ou as casas abandonadas?

– Superstição.

– Então os Espíritos assombrarão tanto uma casa nova da Rua de Rivoli quanto um velho casebre?

– Certamente, porquanto podem ser atraídos para um lugar, em vez de o serem para outro, consoante a disposição de espírito dos seus moradores.

 

Tendo sido evocado na Sociedade através do Sr. R..., o Espírito do carreteiro manifestou-se por sinais de violência, quebrando o lápis, que forçava contra o papel, e com uma escrita grosseira, trêmula, irregular e pouco legível.

1. Evocação

– Eis-me aqui.

2. Reconheceis o poder de Deus sobre vós?

– Sim; e daí?

3. Por que escolhestes o quarto do Sr. V... e não um outro?

– Isso me agrada.

4. Permanecereis ali muito tempo?

– Enquanto me sentir bem.

5. Então não tendes intenção de melhorar?

– Veremos isso depois; tenho tempo.

6. Estais contrariado por vos termos chamado?

– Sim.

7. Que fazíeis quando vos chamamos?

– Estava na taverna.

8. Estáveis bebendo?

– Que tolice! Como poderia beber?

9. O que queríeis dizer falando de taverna?

– Quis dizer o que disse.

10. Quando vivo, maltratáveis os vossos cavalos?

– Sois agente de polícia?

11. Desejais que oremos por vós?

– Faríeis isso?

12. Certamente. Oramos por todos os que sofrem, porque temos piedade dos infelizes e porque sabemos que grande é a misericórdia divina.

– Oh! Mesmo assim sois bons camaradas. Gostaria de vos poder apertar a mão. Procurarei merecê-lo. Obrigado!

 

Observação – Confirma esta conversa o que a experiência já provou muitas vezes, relativamente à influência que os homens podem exercer sobre os Espíritos, e por meio da qual podem contribuir para a sua melhoria. Mostra a influência da prece.

Assim, essa natureza bruta, arredia e quase selvagem encontra-se como que subjugada pelo pensamento do interesse que se pode ter por ele. Temos numerosos exemplos de criminosos que vieram comunicar-se espontaneamente através de médiuns que haviam orado por eles, a fim de testemunharem o seu arrependimento.

Às observações acima, aditaremos as considerações que se seguem, a propósito da evocação de Espíritos inferiores.

Porque ciosos de conservar suas boas relações de além-túmulo, temos visto médiuns que se recusam a servir de intérprete aos Espíritos inferiores que podemos evocar. É de sua parte uma susceptibilidade mal entendida. Pelo fato de evocarmos um Espírito vulgar, e mesmo mau, não significa que iremos ficar sob a sua dependência. Longe disso; ao contrário, nós é que o dominaremos. Não é ele que vem impor-se, mau grado nosso, como na obsessão; nós é que nos impomos; ele não ordena, obedece; somos o seu juiz e não a sua presa. Além disso, podemos ser-lhes úteis por nossos conselhos e nossas preces, e eles nos serão reconhecidos pelo interesse que lhes demonstramos. Estender a mão em socorro é fazer uma boa ação; recusá-la, é faltar com a caridade; ainda mais: é egoísmo e orgulho. Esses seres inferiores, aliás, são para nós um grande ensinamento. Foi por seu intermédio que aprendemos a conhecer as camadas inferiores do mundo espírita, bem como a sorte que aguarda aqueles que aqui fazem mau uso de sua vida. Notemos, ademais, que é quase sempre tremendo que eles comparecem às reuniões sérias, onde dominam os Espíritos bons; ficam envergonhados e se mantêm afastados, ouvindo para se instruírem. Muitas vezes vêm com esse objetivo, mesmo sem terem sido chamados. Por que, então, nos recusaríamos a ouvi-los, quando muitas vezes seu arrependimento e seus sofrimentos são um motivo de edificação ou, pelo menos, de instrução? Não há nada a temer dessas comunicações, desde que ocorram com vistas ao bem. Que seria dos pobres feridos se os médicos se recusassem a tocar em suas chagas?



[1] REVISTA ESPÍRITA – dezembro/1859 – Allan Kardec

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

MARIETA PEHLIVANOVA[1]

 


Michael Duggan – 05/dezembro/2025

 

Trabalhos recentes na Universidade da Virgínia relacionam pesquisas sobre quase-morte a questões sobre ansiedade de morte, espiritualidade e experiências anômalas. Marieta Pehlivanova, formada em neurociência cognitiva, estatística e psiquiatria, ajudou a trazer métodos mais quantitativos para temas a parapsicologia frequentemente aborda por meio de narrativas e testemunhos.

§  Seu trabalho sugere que seres místicos e revisão da vida, mais do que a desencarnação, preveem uma redução do medo da morte após experiências de quase-morte.

§  Ela também estudou necessidades de apoio após experiências de quase-morte e os correlatos de personalidade das crenças e experiências psi.

§  Sua formação combina bioestatística, psicologia experimental e pesquisa psiquiátrica.

 

Carreira

Pehlivanova é professora assistente de pesquisa em psiquiatria e ciências neurocomportamentais na Divisão de Estudos Perceptuais (DOPS) da Faculdade de Medicina da Universidade da Virgínia. Seu doutorado em psicologia experimental (neurociência cognitiva) pela Universidade da Pensilvânia foi concedido em 2017. Um mestrado em psicologia experimental pela mesma instituição foi recebido em 2016. Um bacharelado em estatística (trilha estatística matemática) summa cum laude[2] pela American University foi obtido em 2007.

Pehlivanova trabalhou como bioestatística no MedStar Health Research Institute de 2007 a 2011 antes de ingressar no DOPS. Seus interesses de pesquisa abrangem experiências de quase-morte, crianças relatando memórias de vidas passadas, comunicações pós-morte e correlatos de personalidade e cognição de crenças e experiências psi.

 

Medo da Morte (Thanatofobia)

Em uma publicação de 2022, Pehlivanova e colegas discutem o medo existencial generalizado da morte, observando que em inúmeros estudos ele diminui drasticamente após uma experiência de quase-morte, e buscando descobrir quais de suas características são as principais responsáveis. O preditor mais forte foi o encontro com seres místicos e uma revisão de vida. No entanto, ao contrário das previsões, a sensação de desincorporação frequentemente relatada por quem experimenta não estava associada a mudanças nas atitudes em relação à morte. Os autores discutem essas descobertas no contexto da Terror Management Theory, concluindo que elas têm implicações para intervenções clínicas para ajudar pessoas no final da vida[3].

Pehlivanova e colegas examinaram separadamente tais intervenções para tanatofobia[4], analisando 15 estudos realizados entre 2009 e 2019 em quatro categorias: psicoterapia, mindfulness, drogas psicodélicas e realidade virtual. Abordagens psicoterapêuticas, incluindo terapias centradas no significado e de revisão da vida que fortaleceram a crença em uma vida após a morte, mostraram reduzir a ansiedade de morte, embora esses achados tenham sido enfraquecidos por amostras pequenas e ausência de grupos controle. Exercícios de mindfulness[5] mostraram reduzir a ansiedade, mas normalmente sem alterar crenças sobre a vida após a morte.

As drogas psicodélicas (LSD e psilocibina) mostraram potencial para dissociar a mente do corpo e reduzir a ansiedade de morte, embora o acesso a elas seja limitado por regulamentações governamentais. Simulações de realidade virtual de experiências fora do corpo pareceram eficazes, possivelmente fortalecendo as crenças sobre a vida após a morte.

Os autores encontraram benefícios em todas as quatro abordagens e recomendaram que pesquisas futuras explorem seus mecanismos em populações maiores e mais diversas[6].

 

Necessidades de Apoio após Experiências de Quase-Morte (EQMs)

Pehlivanova e colegas realizaram uma investigação exploratória examinando as necessidades de apoio entre 167 pessoas que viveram em situações de quase-morte. Os participantes responderam a questionários online avaliando o tipo de ajuda profissional buscada, a percepção de utilidade do apoio e as barreiras para acessar assistência. Sessenta e quatro por cento dos participantes relataram buscar apoio para processar suas EQMs. Setenta e oito por cento acharam esse tipo de apoio útil.

Maior intensidade de EQM e dificuldades psicológicas prévias aumentaram significativamente a probabilidade de um experiente buscar apoio. Reações iniciais positivas ao revelar a EQM e o apoio de organizações amigas da EQM mostraram que aumentaram significativamente a percepção de utilidade do apoio recebido. Os participantes frequentemente citaram o medo de serem rotulados como doentes mentais ou mal compreendidos como barreiras à divulgação.

Os autores enfatizaram uma notável 'lacuna de cuidado', com profissionais de saúde mental frequentemente vistos como menos prestativos devido à falta de treinamento especializado suficiente. O estudo destacou a importância da validação e da segurança psicológica na integração pós-EQMs[7].

 

Meditação, Atenção Plena e Experiências Paranormais

Pehlivanova e colegas investigaram a relação entre meditação, mindfulness e experiência paranormal, comparando 98 indivíduos inscritos em retiros intensivos de meditação com 40 participantes controle ao longo de um período de duas semanas. O grupo de meditação demonstrou níveis significativamente mais altos de crenças e experiências paranormais e atribuiu maior significado a essas (p = 0,002). O desempenho em tarefas psi (precognição, psicocinese e intuição) não melhorou em nenhum dos grupos ao longo do tempo, ao contrário do esperado. O histórico de meditação esteve associado a um desempenho intuitivo mais preciso (p = 0,023)[8].

 

Espiritualidade na Psiquiatria

Em um artigo na Psychiatric Times, Pehlivanova e colegas exploraram até que ponto a espiritualidade, em oposição à religiosidade, está integrada à prática psiquiátrica, destacando sua relevância em vários diagnósticos do DSM-5 (incluindo transtornos depressivos persistentes, transtorno de luto prolongado e transtorno de estresse pós-traumático). O artigo discutiu a teoria do manejo do terror juntamente com uma estrutura alternativa orientada para abordar a conscientização sobre mortalidade. Os autores enfatizaram como o confronto direto com a morte fomentou o crescimento pessoal e o bem-estar existencial. Pesquisas em neuroimagem revelaram o envolvimento da rede de modos padrão e da rede de saliência em experiências espirituais.

Os autores recomendaram avaliações espirituais estruturadas, como a ferramenta FICA, para aprimorar o cuidado psiquiátrico holístico, juntamente com modalidades terapêuticas como psicoterapia centrada no significado, terapia de aceitação e compromisso, e intervenções baseadas em mindfulness[9].

 

Obras Citadas

§  Penberthy, J.K., Hodge, A.S., Hook, J.N., Delorme, A., Pehlivanova, M., & Vieten, C. (2020). Meditators and nonmeditators: A descriptive analysis over time with a focus on unusual and extraordinary experiences. Journal of Yoga and Physiotherapy 8/3, 555744.

§  Pehlivanova, M., Carroll, A., & Greyson, B. (2022). Which near-death experience features are associated with reduced fear of death? Mortality 28/3, 493-509.

§  Pehlivanova, M., McNally, K.C., Funk, S., & Greyson, B. (2025a). Support needs after a near-death experience: A quantitative study with experiencers. Psychology of Consciousness: Theory, Research, and Practice. Advance online publication.

§  Pehlivanova, M., Weiler, M., Penberthy, J.K., & Cozzolino, P.J. (2025b). Psychiatry and spirituality: Exploring the intersections of meaning and mental health. Psychiatric Times, August 2025.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] A expressão summa cum laude vem do latim e é usada para indicar que um estudante alcançou o nível máximo de excelência acadêmica durante sua graduação

[3] Pehlivanova et al. (2022).

[4] Tanatofobia é um medo excessivo, irracional e paralisante da morte ou do ato de morrer.

[5] Mindfulness, ou atenção plena, é a prática de focar a atenção no momento presente de forma intencional e sem julgamentos

[6] Blomstrom et al. (2020).

[7] Pehlivanova et al. (2025a).

[8] Penberthy et al. (2020).

[9] Pehlivanova et al. (2025b).

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

A VALORIZAÇÃO DA VIDA SOB A ÓTICA ESPÍRITA[1]

 


Marco Milani

 

 Valorizar a vida não significa apenas preservar a existência corporal. Significa compreender sua finalidade, reconhecer sua dignidade e orientar as escolhas de acordo com a responsabilidade decorrente dessa compreensão. Sob a ótica espírita, a vida humana não constitui um acidente biológico nem um intervalo sem sentido entre o nascimento e a morte. É uma etapa necessária da trajetória evolutiva do Espírito, na qual experiências, relações e dificuldades oferecem condições para o desenvolvimento intelectual e moral.

Nas questões 132 e 133 de O Livro dos Espíritos, a encarnação é apresentada como instrumento de aperfeiçoamento. O Espírito passa pela existência corporal para avançar, cumprir tarefas e participar da obra geral da criação. Essa perspectiva modifica a maneira de avaliar a vida. Se a existência atual integra um processo mais amplo, nenhuma experiência é absolutamente inútil, ainda que seu significado não seja imediatamente compreendido. Isso não significa atribuir artificialmente uma finalidade específica a todo sofrimento, mas reconhecer que mesmo as circunstâncias adversas podem ser enfrentadas de maneira construtiva.

A imortalidade da alma não reduz a importância da vida física. Ao contrário, amplia sua relevância. O corpo é o instrumento por meio do qual o Espírito atua no mundo material, estabelece vínculos, exercita faculdades e enfrenta as consequências de suas escolhas. A crença na continuidade da existência, portanto, não autoriza o desprezo pela saúde ou pelas responsabilidades terrenas. Desconsiderar o corpo em nome de uma espiritualidade abstrata seria tão incoerente quanto reduzir o ser humano exclusivamente à matéria.

É justamente nesse ponto que as concepções materialistas constituem um dos maiores entraves à plena valorização da vida. Ao reduzirem o ser humano à sua organização biológica, limitam o sentido da existência às condições imediatas do mundo físico. Isso não significa afirmar que todo materialista despreze a vida, mas reconhecer a insuficiência dessa concepção para explicar sua finalidade transcendente. Quando a consciência é considerada apenas um fenômeno temporário, torna-se mais fácil subordinar o valor da existência à utilidade, ao prazer, à autonomia ou à ausência de sofrimento.

O problema se agrava quando ideologias nocivas, apoiadas nessa visão reducionista, apresentam o abortamento ou o suicídio como soluções para as dores humanas. Em ambos os casos, procura-se responder ao sofrimento pela supressão da vida corporal. Para o Espiritismo, entretanto, o Espírito sobrevive à morte e conserva sua individualidade, suas aquisições e suas necessidades. Eliminar o corpo não significa eliminar os conflitos do ser, razão pela qual a morte não pode ser racionalmente convertida em solução para os problemas da existência.

Nas questões 344 e 358 de O Livro dos Espíritos, a vinculação do Espírito ao corpo é relacionada à concepção, e o abortamento deliberado é tratado como violação do direito à vida, ressalvada, na questão 359, a situação em que a continuidade da gestação coloca em risco a vida da mãe. Em relação ao suicídio, a posição espírita também é inequívoca quanto à sua incompatibilidade com a lei de conservação. Essa compreensão, contudo, não autoriza julgamentos cruéis. A crítica deve recair sobre a falsa solução, não sobre a pessoa fragilizada, que necessita de acolhimento, proteção e assistência adequada.

Ainda na mesma obra, a questão 728 apresenta o instinto de conservação como uma lei da natureza, enquanto a questão 880 reconhece o direito de viver como o primeiro dos direitos naturais do ser humano. Há, assim, uma relação direta entre valorização da vida, responsabilidade individual e respeito ao próximo. A liberdade não representa um poder absoluto de dispor da própria existência ou da vida alheia, pois encontra seu limite na responsabilidade moral e nos direitos dos demais.

Essa conclusão impede que a valorização da vida seja reduzida a um discurso utilitarista. Não basta recomendar perseverança a quem sofre e ignorar as condições que tornam sua existência mais difícil. Fome, abandono, violência, humilhação, preconceito e indiferença também constituem formas de desvalorização da vida. A caridade espírita exige acolhimento e ação concreta. Do mesmo modo, transtornos emocionais, doenças e situações de sofrimento intenso devem receber acompanhamento adequado. O amparo espiritual pode fortalecer a pessoa, mas não substitui cuidados médicos, psicológicos ou sociais quando necessários.

Também é preciso evitar interpretações simplistas da dor. A doutrina das vidas sucessivas não autoriza afirmar, diante de qualquer dificuldade, que alguém esteja apenas pagando uma dívida do passado. Esse tipo de julgamento pode transformar uma explicação geral sobre a justiça divina em instrumento de insensibilidade. Não conhecemos suficientemente o passado espiritual de ninguém para estabelecer relações precisas entre determinada aflição e uma causa anterior. A reencarnação esclarece princípios, mas não legitima diagnósticos imaginários sobre a vida alheia.

Sob essa perspectiva, a esperança não é a expectativa vaga de que forças superiores resolverão nossos problemas. É a confiança racional de que nenhuma situação presente define definitivamente o destino do Espírito. A dor pode ser superada, o erro pode ser corrigido e novas possibilidades podem surgir mediante apoio, esforço e tempo. A imortalidade e a reencarnação retiram da experiência atual o caráter de sentença definitiva, sem eliminar o dever de agir no presente.

Valorizar a vida, em última instância, é cuidar de si sem egoísmo, auxiliar o próximo sem paternalismo e reconhecer que liberdade e responsabilidade são inseparáveis. A perspectiva espírita não promete uma existência sem dificuldades, mas oferece fundamentos para compreendê-la como oportunidade valiosa. Se a vida corporal é instrumento de progresso, respeitá-la, protegê-la e torná-la moralmente fecunda constitui consequência necessária da própria compreensão espírita do ser humano.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

IMAGENS[1]

 


Miramez

 

O sono e os sonhos

Doutras vezes, num estado que ainda não é bem o do adormecimento, estando com os olhos fechados, vemos imagens distintas, figuras cujas mínimas particularidades percebemos. Que há aí, efeito de visão ou de imaginação?

Estando entorpecido o corpo, o Espírito trata de desprender-se. Transporta-se e vê. Se já fosse completo o sono, haveria sonho.

Questão 409 / O Livro dos Espíritos

 

As imagens que se percebem, estando o corpo em estado de torpor, ocorrem pela dilatação visual da alma, quando ela percebe com mais nitidez o mundo espiritual que a rodeia. Quando não há entorpecimento do corpo e evidenciam-se os dons espirituais, é que a criatura é dotada de vidência ou clarividência, ao passo que, no estado de relaxamento, todas as criaturas podem perceber imagens, por entrarem mais diretamente no mundo espiritual. Tudo isso é uma amostra espiritual de que existe a continuação da vida, que todos podem perceber, sendo, assim, um dom generalizado. É bênção de Deus aos Seus filhos do coração.

Importa dizer que a vida é fonte de pesquisa contínua que todas as criaturas podem realizar, de acordo com as possibilidades que já dominam no campo da evolução espiritual. Podemos e devemos analisar todos os dias os fenômenos que acontecem nos caminhos: veremos facilmente que o real se encontra invisível pelos processos humanos e muito visíveis pelos métodos naturais que todos podem alcançar.

A vidência é um dom comum a todas as almas encarnadas. Sempre, em estado de silêncio, podem-se observar imagens, vultos esses dos quais às vezes, não se podem registrar as transmissões mentais. Isso requer outro dom mais especial, que se chama audição, que se divide em duas etapas ou formas: a que se ouve dentro da cabeça, que é a telepatia, e os sons registrados pelos ouvidos, o que se chama audição espiritual.

Na primeira faculdade, funcionam duas glândulas que existem dentro da cabeça: a Pituitária e a Pineal, que captam as transmissões mentais do Espírito comunicante. Na segunda, funcionam as mesmas glândulas, mas, de modo mais físico. Elas entram em conexão com algo mais de efeito físico, materializando-se os sons, e esses tornando-se audíveis para o receptor. É como se fosse mesmo uma telefonia, mas com muito mais perfeição, dependendo da condição de quem transmite a mensagem.

Quando se tem visões de alguma imagem, pode-se dar mais vida a essas figuras pela oração, e mesmo pelo amor que se pode desprender do coração. Quem ama é mais feliz em todas as pesquisas deste mundo para o outro; quem entra em completo relaxamento, se encontra em transe; saindo dele, já é mesmo sonho, quando se pode recordar ou não as façanhas, no mundo dos Espíritos. Com a prática destes exercícios, podem-se orientar e desenvolver essas faculdades, até se chegar à intuição verdadeira. As faculdades vão se abrindo como uma flor à claridade solar.

Cinzelar os dons espirituais é a nossa parte e devemos dar mão nela, compreendendo que cada dia que passa é uma nova oportunidade de crescer. O “nada se perde e nada se cria” é uma lei, e podemos nos basear nela, de modo que, se nos encontrarmos percebendo imagens, elas têm um fundamento: são filhas de alguma vida que se mostra como tal.

Amemos tudo e todos, no mais puro amor que se pode sentir, que todos os caminhos florescerão, entregando-nos mais vida e mais alegria, mais paz e mais amor. Então, o Cristo resplandecerá para a nossa vitória, onde quer que estejamos. Nunca nos esqueçamos do aprimoramento, que ele faz parte das nossas promessas ante a paternidade divina. É essa paternidade dentro de nós que se chama consciência.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 9 – João Nunes Maia