terça-feira, 11 de agosto de 2026

UM ESPÍRITO QUE NÃO SE ACREDITA MORTO[1]

 


Allan Kardec

 

Um dos nossos assinantes do departamento do Loiret, excelente médium escrevente, escreve-nos o que se segue, a respeito de várias aparições que testemunhou:

Não querendo deixar no esquecimento nenhum dos fatos que vêm apoiar a Doutrina Espírita, venho comunicar os novos fenômenos de que sou testemunha e médium e que, como haveis de reconhecer, concordam perfeitamente com tudo quanto tendes publicado em vossa Revista, a propósito dos diversos estados do Espírito depois que se separa do corpo.

Há cerca de seis meses eu me ocupava de comunicações espíritas com várias pessoas, quando me veio a ideia de perguntar se, entre os assistentes, havia um médium vidente. O Espírito respondeu afirmativamente, designou-me e acrescentou:

Tu já o és, mas em pequeno grau e somente durante o sono; mais tarde teu temperamento se modificará de tal maneira que te tornarás um excelente médium vidente, mas pouco a pouco e, a princípio, apenas durante o sono.

No decorrer deste ano experimentamos a dor de perder três de nossos parentes. Um deles, que era meu tio, apareceu-me em sonho algum tempo depois de sua morte; tivemos uma longa conversa e ele me conduziu ao lugar que habita, dizendo-me que era o último grau que conduzia à mansão da felicidade eterna. Era minha intenção dar-vos a descrição daquilo que admirei nessa morada incomparável, mas tendo consultado a respeito o meu Espírito familiar, respondeu-me ele:

A alegria e a felicidade que experimentaste poderiam influenciar a descrição das maravilhosas belezas que admiraste e tua imaginação poderia criar coisas inexistentes. Espera que teu Espírito esteja mais calmo.

Detenho-me, então, em obediência ao meu guia, ocupando-me apenas de duas outras visões mais positivas. Relatarei somente as últimas palavras de meu tio. Após haver admirado aquilo que me era permitido ver, ele me disse: Agora vais retornar à Terra.

Supliquei-lhe que me concedesse mais alguns instantes e ele respondeu:

Não; são cinco horas e deves retomar o curso de tua existência.

No mesmo instante despertei, ao som da batida de cinco horas do meu relógio.

Minha segunda visão foi a de um dos dois outros parentes mortos durante o ano. Tratava-se de um homem virtuoso, amável, bom pai de família, bom cristão e, embora doente desde muito tempo, morreu quase subitamente e talvez no momento em que menos esperava. Seu semblante tinha uma expressão indefinível, séria, triste e, ao mesmo tempo, feliz. Disse-me:

Expio minhas faltas; tenho, porém, um consolo: o de ser o protetor de minha família. Continuo a viver junto à minha mulher e meus filhos e lhes inspiro bons pensamentos. Orai por mim.

A terceira visão é mais característica e me foi confirmada por um fato material: é a do terceiro parente. Era um homem excelente, posto que vivaz, encolerizado, imperioso com os criados e, acima de tudo, apegado desmedidamente aos bens deste mundo. Além de céptico, ocupava-se desta vida mais do que da vida futura. Algum tempo depois de sua morte veio à noite e se pôs a sacudir as cortinas com impaciência, como para me despertar. Como lhe perguntasse se era realmente ele, respondeu-me:

Sim; vim procurar-te porque és a única pessoa que pode responder-me. Minha esposa e meu filho partiram para Orléans; quis acompanha-los, mas ninguém quer obedecer-me. Disse a Pedro que fizesse minhas malas, mas ele não me escuta. Ninguém me dá atenção. Se pudesses vir atrelar os cavalos na outra carruagem e providenciar a minha equipagem, prestar-me-ias um grande serviço, pois eu poderia ir reunir-me à minha esposa em Orléans.

– Mas não podes fazê-lo tu mesmo?

– Não. Não consigo levantar nada. Depois do sono que experimentei durante a doença, estou completamente mudado; não sei mais onde me encontro. Tenho pesadelos.

– De onde vens?

De B...

– Do castelo?

– Não!, respondeu-me com um grito de horror, levando a mão à fronte; ‘venho do cemitério!

Após um gesto de desespero, acrescentou:

– Olha, meu caro amigo, dize a todos os meus parentes que orem por mim, porque sou muito infeliz.

A estas palavras fugiu e o perdi de vista. Quando veio me procurar e sacudir as cortinas com impaciência, seu rosto exprimia terrível alucinação. Ao lhe perguntar como foi capaz de sacudir as cortinas, logo ele que me dizia nada poder levantar, respondeu-me bruscamente: Com meu sopro!

No dia seguinte fiquei sabendo que sua viúva e seu filho haviam realmente partido para Orléans.

 

Esta última aparição é notável, pela ilusão que leva certos Espíritos a se crerem ainda vivos e, sobretudo, porque no presente caso essa ilusão prolongou-se por muito mais tempo do que em casos análogos. Muito comumente ela não dura senão alguns dias, ao passo que ele não se julgava morto apesar de já decorridos mais de três meses de seu trespasse. Aliás, a situação é perfeitamente idêntica à que observamos muitas vezes. Ele vê tudo como se estivera vivo; quer falar e se surpreende por não ser ouvido. Ocupa-se ou julga ocupar-se com suas tarefas habituais. A existência do perispírito é aqui demonstrada de maneira admirável, abstração feita da visão. Desde que se vê vivo, é que vê um corpo semelhante ao que deixou; esse corpo age como teria agido o outro; para ele nada parece ter mudado: apenas ainda não estudou as propriedades de seu novo corpo. Julga-o denso e material como o primeiro, e espanta-se, porque nada pode levantar. Entretanto, em sua situação percebe algo de estranho, que não compreende.

Supõe-se dominado por um pesadelo; toma a morte por um sono: é um estado misto entre a vida corporal e a vida espírita, estado sempre penoso e cheio de ansiedade, e que tem um pouco de ambas as vidas. Como já dissemos alhures, é o que ocorre de modo mais ou menos constante nas mortes instantâneas, tais como as que se dão por suicídio, apoplexia, suplício, combate etc.

Sabemos que a separação entre o corpo e o perispírito se opera gradualmente e não de modo brusco; começa antes da morte, quando esta sobrevém pela extinção natural das forças vitais, seja pela idade, seja pela doença, sobretudo nas pessoas que em vida pressentem seu fim e em pensamento se identificam com a existência futura, de tal sorte que, ao exalarem o último suspiro, a separação é mais ou menos completa. Quando a morte surpreende um corpo cheio de vida, a separação não começa senão nesse momento, para acabar pouco a pouco. Enquanto existir uma ligação entre o corpo e o Espírito, este estará perturbado e, caso entre bruscamente no mundo dos Espíritos, experimentará um sobressalto que não lhe permitirá reconhecer imediatamente a sua situação, bem como as propriedades de seu novo corpo. É necessário ensaiar de alguma maneira e é isso que o faz pensar que ainda pertence a este mundo.

Além das circunstâncias de morte violenta, há outras que tornam mais tenazes os laços entre o corpo e o Espírito, porque a ilusão de que falamos observa-se igualmente em certos casos de morte natural: é quando o indivíduo viveu mais a vida material que a vida moral. Concebe-se que o seu apego à matéria o retém ainda depois da morte, prolongando, assim, a ideia de que nada mudou para ele. Tal é o caso da pessoa de quem acabamos de falar.

Notemos a diferença existente entre a situação desse indivíduo e a do segundo parente: um ainda quer mandar; julga necessitar de suas malas, de seus cavalos, de sua carruagem, para ir ao encontro da esposa; ainda não sabe que, como Espírito, pode fazê-lo instantaneamente ou, melhor dizendo, seu perispírito ainda é tão material que se julga submetido a todas as necessidades do corpo. O outro, que viveu a vida moral, que tinha sentimentos religiosos, que se identificou com a vida futura, embora surpreendido de modo mais inesperado que o primeiro já está desprendido: diz que vive no meio da família, mas sabe que é um Espírito; fala à esposa e aos filhos, mas sabe que o faz pelo pensamento. Numa palavra, já não tem ilusões, ao passo que o outro ainda se acha perturbado e angustiado. De tal forma possui o sentimento da vida real que viu a esposa e o filho que partiam, como realmente partiram no dia indicado, fato ignorado pelo parente a quem apareceu.

Notemos, além disso, uma expressão muito característica de sua parte, que bem descreve a sua posição. À pergunta: “De onde vens?” respondeu inicialmente pelo nome do lugar que habitava; a seguir, a esta outra pergunta: “Do castelo?” Não! Venho do cemitério – respondeu com pavor. Ora, isto prova uma coisa: que não sendo completo o desprendimento, uma espécie de atração ainda existia entre o Espírito e o corpo, que o levou a dizer que vinha do cemitério. Mas nesse momento parece que começou a compreender a verdade. A própria pergunta parece colocá-lo no caminho, chamando-lhe a atenção para seus despojos. Daí por que pronunciou a palavra cemitério com pavor.

Os exemplos desta natureza são muito numerosos. Um dos mais admiráveis é o do suicida da Samaritana, que referimos no nosso número de junho de 1858. Evocado vários dias após sua morte, esse homem também afirmava estar ainda vivo, embora dissesse: “Entretanto, sinto os vermes a me corroerem”. Como fizemos observar em nosso relato, não se tratava de uma lembrança, desde que em vida não era corroído pelos vermes. Era, pois, um sentimento atual, uma espécie de repercussão, transmitida do corpo ao Espírito pela comunicação fluídica ainda existente entre ambos. Esta comunicação nem sempre se traduz da mesma maneira, mas é sempre mais ou menos penosa, como se fora um primeiro castigo para aquele que em vida se identificou demasiadamente com a matéria.

Que diferença da calma, da serenidade, da suave quietude dos que morrem sem remorsos, com a consciência de terem bem empregado seu tempo de estágio na Terra, dos que não se deixaram dominar pelas paixões! A passagem é curta e sem amargura; a morte, para eles, é o retorno do exílio à pátria verdadeira. Haverá nisso uma teoria, um sistema? Não; é o quadro que nos oferecem todos os dias nossas comunicações de além-túmulo, quadro cujos aspectos variam ao infinito, e onde cada um pode colher um ensinamento útil, porque encontra exemplos que poderá aproveitar, caso se dê ao trabalho de consultá-los. É um espelho onde se pode reconhecer todo aquele que não se ache enceguecido pelo orgulho.



[1] REVISTA ESPÍRITA – Dezembro/1859 – Allan Kardec

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

 


Roberto R Narváez

 

A inovação elétrica e o experimento espiritualista se encontraram de forma incomum em Cromwell Fleetwood Varley (1828–83). Um dos principais engenheiros de telégrafo envolvidos no trabalho com cabos no Atlântico, ele trouxe aparelhos técnicos e confiança científica às sessões espíritas, testando meios e argumentando que alguns fenômenos iam além das leis físicas conhecidas.

§  Varley foi membro da Royal Society e um proeminente engenheiro de telégrafo ligado ao projeto do cabo atlântico.

§  Ele investigou DD Home, Kate Fox e Florence Cook, usando tanto solicitações mentais quanto aparelhos elétricos em testes de espírito.

§  Suas visões espiritualistas tratavam a consciência como independente do corpo e enquadravam fenômenos mediúnicos como evidência para um estado futuro.

 

Vida e carreira

Varley nasceu na paróquia de Westminster em 6 de abril de 1828, sendo o segundo filho de Cornelius Varley, um artista profissional. Em 1844, após concluir a escola em St Saviour's, Southwark, Inglaterra, iniciou seus estudos e pesquisas ao longo da vida em eletricidade, química, filosofia natural e telegrafia. Em 1846, foi empregado pela Electric and International Telegraph Company, onde trabalhou até sua aposentadoria em 1868. Ele também trabalhou como eletricista consultor para a Atlantic Telegraph Company[2].

Quando o primeiro cabo telegráfico do Atlântico falhou em 1858, Varley usou suas habilidades como inventor para construir um novo. Ele experimentou uma linha artificial que representava as condições de trabalho de um cabo submarino; depois, ele criou um condensador de sinalização para aguçar os pulsos elétricos da transmissão e aumentar a velocidade de operação. Eventualmente, essa proposta foi bem-sucedida e a confiança pública na telegrafia atlântica foi restaurada. William Thomson e outros engenheiros notáveis colaboraram com ele nesse empreendimento. Depois disso, o reconhecimento de Varley como especialista em telegrafia aumentou, assim como sua riqueza pessoal.

Em 1865, Varley foi eleito membro da Instituição de Engenheiros Civis. Seis anos depois, tornou-se Fellow da Royal Society. A fundação final da Society of Telegraph Engineers (mais tarde Institution of Electrical Engineers) em 1871 deveu-se muito aos seus esforços; foi nomeado membro do conselho. Naquele ano, também teorizou sobre a natureza elétrica da radiação catódica; sua alegação era que tais raios deveriam carregar uma carga elétrica. No entanto, ele nunca conseguiu provar isso.

Varley publicou vários artigos, anotações, cartas e depoimentos sobre temas elétricos e telegráficos, e também foi colaborador regular de periódicos sobre Espiritismo e pesquisa psíquica.

Varley faleceu em sua casa, Cromwell House, Bexley Heath, Kent, em 2 de setembro de 1883, aos 55 anos[3].

 

Pesquisa Psíquica

Visão geral

Varley interessou-se por fenômenos paranormais como mediunidade, raps e virar a mesa, telepatia, clarividência, premonições em sonhos e a eficácia da oração no início da década de 1850. Ele afirmava que, em algumas ocasiões, enquanto dormia, podia 'transcender' seu próprio 'corpo material' e usar seu próprio espírito como 'agente de sua vontade' para realizar diversas ações. Assim, ele ficou convencido de que 'não somos nossos corpos' e que nosso espírito pode agir como uma força independente[4].

A esposa de Varley, Ada, aparentemente era médium. Espíritos afirmavam ler sua mente e ela canalizava suas mensagens para ele, convencendo Varley da existência de 'seres invisíveis'. Ele afirmou uma vez que, em uma ocasião, os 'invisíveis' (ou seja, os Espíritos) o ajudaram a prever o momento exato de uma mudança séria na saúde de Ada[5].

No início da década de 1860, Varley começou a realizar experimentos com médiuns profissionais e amadores. Esse programa de pesquisa durou vários anos. As sessões ocorreram em diferentes locais na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos. O objetivo básico de Varley era testar sua crença de que fenômenos espiritualistas não dependem do cérebro ou de qualquer outra fonte material. Como afirmou perante o Comitê Espiritualista da London Dialectical Society em 25 de maio de 1869, 'a parte pensante do homem forma, na próxima vida, o corpo ... somos seres pensantes, e essas ideias que originamos nesta vida são realidades permanentes na próxima'[6].

Varley passou sete meses nos Estados Unidos, aplicando 'testes mecânicos e mentais' para comparar as 'forças ativas' que observava com os efeitos da eletricidade e do magnetismo. No final, concluiu que tais forças 'não eram devido a ... qualquer uma das leis físicas reconhecidas da natureza, e que [havia] existido ... alguma inteligência além da do meio e dos observadores. 'Os fenômenos', acrescentou, 'não podem ser explicados nem pelo magnetismo nem pela eletricidade'. Esses dois termos, em sua opinião, não devem ser aplicados a quaisquer 'forças desconhecidas'[7].

 

Experiências com o DD Home

Em uma carta a John Tyndall em 19 de maio de 1868, Varley descreveu em detalhes consideráveis três sessões que teve com o famoso médium Daniel Dunglas Home. Os dois primeiros aconteceram em 1860 nos apartamentos de Home em Londres. Eles foram organizados por Varley por iniciativa própria. Havia oito retratados, incluindo Ada Varley, e antes de cada sessão Cromwell fazia uma análise minuciosa de todo o prédio para garantir que não havia instrumentos ocultos de engano[8].

Cerca de vinte minutos após o início da primeira sessão espírita, os primeiros golpes foram sinalizados. Esses primeiros raps deveriam ser entendidos de acordo com um 'alfabeto telegráfico': um som ou movimento significava não, três sons ou movimentos significavam sim, e assim por diante, com outras convenções criptográficas. Era, claro, um sistema de comunicação muito lento.

Em seguida, a mesa se movia de várias formas. Não havia evidências de exercício de qualquer força muscular pelos retratados. Varley pedia mentalmente para os 'invisíveis' criarem algum 'efeito', e quando isso acontecia, outros participantes faziam pedidos mentais semelhantes. Então 'os raps eram produzidos nas paredes, no teto, em nossas cadeiras, que depois foram claramente sacudidas por eles'. Outros movimentos e sons mais espetaculares se seguiram[9].

A terceira sessão espírita ocorreu na casa de Varley em Beckenham, Kent, no verão de 1864. O lar nunca foi naquela residência. Vários fenômenos do tipo testemunhado quatro anos antes foram registrados novamente. Em um momento, Home, visivelmente alarmado, exclamou: 'Oh! Olhe para trás', e então, escreve Varley:

[Home] coloquei as duas pernas dele sobre meu joelho esquerdo, e a pedido dele segurei as duas pernas entre as minhas e segurei as duas mãos dele nas minhas. Todos nós olhamos na direção que ele indicou — havia uma mesinha lateral perto da janela da estufa, dois metros atrás das costas do Sr. Home, e eu e o Sr. Home estávamos mais próximos. Fomos sentados assim:

 

Pouco depois, a mesa lateral começou a se mover, e foi levada até Varley por algum 'meio invisível', e a grande mesa ... foi movido e levado até o pianoforte[10].

Varley, na mesma carta a Tyndall, concluiu que a possibilidade de impostura estava fora de questão. A natureza do agente ou 'força', no entanto, dificilmente podia ser afirmada, mas Varley pensava que provavelmente 'a fonte das manifestações era uma combinação dos sistemas vitais dos modelos e do médium'.

 

Experimentos com Catherine (Kate) Fox

Os testes com Catherine (Kate) Fox foram realizados em Nova York em 1867. Varley preparou 'cinco células da bateria nítrica-ácido de Grove, duas hélices, um eletroímã, chave, interruptores e fios'. Uma bateria ficava em uma mesa lateral conectada a um interruptor de onde oito fios iam até a mesa dos cuidadores. Apenas Varley conhecia as 'leis da eletricidade'[11].

Alguns testes foram realizados no escuro, outros em plena luz do dia. Em uma ocasião, Varley observou que, sempre que segurava um fio pelo qual a corrente passava, os 'invisíveis' reconheciam a direção do fluxo elétrico, mas isso nunca acontecia quando ele colocava a hélice ao redor da cabeça, no escuro. Quando ele pressionou a tecla e a corrente fluiu, sons altos foram ouvidos e 'a mesa balançou violentamente'. Então Fox escreveu involuntariamente uma mensagem dizendo que Varley não deveria colocar a cabeça dentro da hélice, pois isso deixava os 'invisíveis' inquietos[12].

 

Experimentos com Florence Cook

Em 1874, Varley participou de dois experimentos com Florence Cook. No primeiro, ele era o maestro. William Crookes, o cientista distinto mais lembrado na história da parapsicologia por sua ligação com as supostas materializações mediúnicas de Cook, estava presente[13]. O segundo teste ocorreu sob a orientação de Crookes e em sua casa, mas na ausência de Varley. No entanto, foi desenvolvido de acordo com os métodos e objetivos de Varley, e com o uso de seus equipamentos técnicos.

O plano básico de Varley era garantir que Florence Cook permanecesse dentro de um gabinete caso 'Katie King' se materializasse do lado de fora. Ele decidiu tratar o médium, usando suas próprias palavras, como um 'cabo telegráfico', enviando 'uma corrente do pulso direito ao longo dos braços direito e esquerdo até o pulso esquerdo'. Isso criava um circuito estável sinalizado por um galvanômetro refletor. A quebra do circuito seria prova automática de que Cook deixou o gabinete para se passar por King. A chave do teste, então, era 'continuidade e resistência'.

Em seu relatório da primeira sessão espírita, Varley escreveu que King realmente compareceu, mas apenas parcialmente. Não havia sinal de que o circuito estava se rompendo. Ele comentou para King que ela era exatamente igual à Cook, e a resposta estranha foi 'Yeth! Yeth!' Mais tarde, quando a escuridão na sala aumentou, Varley se aproximou de King, tocou suas mãos e percebeu que elas eram bem diferentes das de Cook. Então, quase na escuridão total, King disse a Varley para acordar Cook[14]. Isso foi feito com 'passes cruzados'. Os fios pareciam estar completamente em suas posições originais.

Curiosamente, em 1880 Varley escreveu que o nome da mulher materializada era 'Annie Morgan' e não Katie King[15].

Varley tendia a sofrer uma séria perda de energia após experiências tão dramáticas[16]. Por isso ele não pôde comparecer à segunda sessão espírita. No entanto, na casa de Crookes, a médium não era Florence Cook, mas um filho de Crookes que nem sequer era médium. Isso pode ser explicado dizendo que Varley apenas queria que Crookes se familiarizasse com o galvanômetro, independentemente do assunto. De qualquer forma, o papel exato desempenhado por Crookes em todo o caso tem sido motivo de debate entre alguns críticos[17].

 

Avaliação Geral do Espiritualismo Moderno

Na visão de Varley, o Espiritismo era uma 'introdução a um extenso campo de conhecimento mental e físico que, em grande medida, explicará e reconciliará as crenças de todas as épocas e nações' e também despertará 'a percepção das verdades e princípios mais puros e elevados'[18]. Esse despertar deve nos ajudar a transcender 'o estado do nosso conhecimento presente'[19].

 

Obras Citadas

§  Anon. (1868). Lyon v Home. The Spiritual Magazine 3 (June), 241-88. [Google Books. Download PDF.]

§  Anon. (1870). Facts for non-Spiritualists. The Spiritualist 1/12 (15 August), 96. [IAPSOP. Download PDF.]

§  Anon. (1883). Cromwell F. Varley (1828–1883). The Telegraphic Journal and Electrical Review (8 September). [Web [page. Full text.]

§  Boase, G.C. (n.d.). Varley, Cromwell Fleetwood. In Dictionary of National Biography, 1885–1900, vol. 58. [Web page. Full text.]

§  Broad, C.D. (1964). Cromwell Varley’s electrical tests with Florence Cook. Proceedings of the Society for Psychical Research 54/195, 158-72.

§  Gauld, A. (1968). The Founders of Psychical Research. London: Routledge & Kegan Paul.

§  Harrison, W.H. (ed.) (1880). Psychic Facts: A Selection from the Writings of Various Authors on Physical Phenomena. London: W.H. Harrison. [Web page. Full text.]

§  London Dialectical Society. (1871). Report on Spiritualism of the Committee of the London Dialectical Society. London: Longmans, Green, Reader and Dyer. [Wikimedia. Full text.]

§  Morton, L. (2021). Calling the Spirits: A History of Séances. London: Reaktion Books.

§  Noakes, R. (1999). Telegraphy is an occult art: Cromwell Fleetwood Varley and the diffusion of electricity to the other world. British Journal for the History of Science 32/4, 421-59. [Web page. Abstract.]

§  Varley, C.F. (1872). The efficacy of prayer. The Spiritualist 1/30 (15 February), 12. [IAPSOP. Embedded in PDF.]

§  Varley, C.F. (1874). Electrical experiments with Miss Cook when entranced. The Spiritualist 4 (20 March), 134-35. [IAPSOP. Embedded in PDF.]

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Esta seção é baseada em Anon. (1870); Varley (1872); Anon. (1883); and Boase (n.d.).

[3] Anon. (1883).

[4] Noakes (1999), 437-39.

[5] London Dialectical Society (1871), 157-59.

[6] London Dialectical Society (1871), 170.

[7] London Dialectical Society (1871), 170.

[8] Anon. (1868), 273-74; Anon. (1870), 96; Noakes (1999), 436-37.

[9] Anon. (1868), 274-76.

[10] Anon. (1870), 271.

[11] Harrison (1880), 35-36.

[12] London Dialectical Society (1871), 165-66; Gauld (1968), 26n.

[13] Varley era um bom amigo de Crookes. Ele defendeu as posições de Crookes durante uma controvérsia sobre uma suposta 'nova força' que Crookes sustentou contra WB Carpenter em 1870–71. Veja Harrison (1880), 38-39.

[14] Varley (1874); Harrison (1880), 37.

[15] Harrison (1880), 37.

[16] Harrison (1880), 37-38; Morton (2020), 122.

[17] Broad (1964), 170-71; Morton (2020), 151.

[18] Anon. (1870), 96.

[19] Anon. (1868), 278.

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

COGUMELOS MÁGICOS E LUCIDEZ TERMINAL[1]

 


Alexander Batthyány Ph.D. - 30 de julho de 2026 - Resenha por Davia Sills

 

Pela primeira vez, um episódio lúcido em um caso avançado de Alzheimer que ocorreu após uma intervenção.

 

Ponto Principais

Uma mulher com Alzheimer em estágio avançado falou de forma coerente durante horas após ingerir uma alta dose de psilocibina.

Ela também recuperou a continência, passou a andar sem ajuda e a se vestir sozinha, conquistas que nenhum viés de observação pode proporcionar.

Como ela não estava morrendo, o episódio separa o retorno da pessoa da fisiologia da morte.

A demência tardia pode envolver tanto bloqueio quanto perda, deixando as capacidades inacessíveis em vez de destruídas.

A lucidez terminal resistiu ao estudo sistemático menos por ceticismo do que por questões logísticas: não sabemos como provocá-la. Famílias, enfermeiros, médicos e funcionários de cuidados paliativos descrevem a mesma sequência: uma pessoa com demência avançada, inacessível por anos, retorna repentinamente, fala em frases completas, se despede e então, geralmente em questão de horas ou dias, morre.

Tais episódios não podem ser agendados ou interrompidos para medição e frequentemente terminam antes que alguém entenda o que está acontecendo. O que faltava ao campo não eram mais casos, mas sim um que alguém provocasse de propósito, e um relatório recente na Frontiers in Neuroscience pode ser exatamente isso[2].

 

O caso

A paciente era uma nipo-americana de 80 e poucos anos, com 10 anos de doença de Alzheimer e cinco anos de hipofunção que a deixara monossilábica, incontinente e incapaz de andar sem ajuda. Em um ambiente supervisionado, ela recebeu cinco gramas de cogumelos contendo psilocibina, e a fase aguda foi tudo menos tranquila: sudorese profusa, suspeita de hipertermia e um estado prolongado semelhante ao sono. No entanto, cerca de 19 horas depois, ela começou a falar espontaneamente e de forma coerente sobre sua própria vida, e continuou falando por horas.

Nos dias seguintes, a melhora continuou: ela reconheceu parentes, caminhou sem ajuda, vestiu-se sozinha, recuperou memórias contextuais, perguntou sobre pessoas ausentes e recuperou o controle urinário. Um mês depois, grande parte dessa melhora ainda se mantinha.

 

Por que isso me parece familiar?

Qualquer pessoa que tenha trabalhado com lucidez terminal reconhecerá o padrão, porque o que retorna raramente é uma única habilidade, mas a pessoa como um todo — linguagem, memória, reconhecimento, humor, tudo ao mesmo tempo. Essa simultaneidade é a assinatura: na maior amostra sistemática de casos contemporâneos que meu grupo de pesquisa reuniu até agora, 124 pessoas, a maioria com demência avançada, aproximadamente quatro em cada cinco se comunicaram de forma clara e coerente durante seu episódio[3],[4].

 

As diferenças importam mais do que as semelhanças.

Duas características diferenciam o novo caso: essa mulher não estava morrendo, e sua melhora durou semanas, em vez de minutos ou horas. Isso pode parecer uma fragilidade na analogia, mas talvez seja o aspecto mais valioso do relato, já que separa a recuperação da pessoa da própria morte.

É também para onde o campo tem se direcionado. Quando a lucidez na demência grave recebeu pela primeira vez uma estrutura formal de pesquisa, o termo foi ampliado para lucidez paradoxal[5], e o trabalho de tipologia liderado pela Clínica Mayo, do qual participo, mostrou desde então o quão amplamente variam em duração, profundidade e proximidade da morte, muitas delas longe do leito de morte[6],[7]. A lucidez terminal parece cada vez mais um caso limite de algo maior, e este relatório se situa no extremo desse continuum, onde uma intervenção veio primeiro.

 

A objeção e o que mudou.

No outono de 2025, o fenômeno tornou-se um debate público no The Wall Street Journal entre Charles Murray, Steven Pinker e eu[8],[9],[10]. Pinker argumentou que as pessoas que anseiam por contato interpretarão como lucidez qualquer lampejo de receptividade e pediu o que nenhum relatório havia fornecido — um indicador objetivo.

O registro responde a esse desafio apenas em parte: muitos episódios foram testemunhados por médicos e funcionários de cuidados paliativos cujos relatos coincidem com os das famílias, enquanto outros consistem em pouco mais do que um olhar, onde a objeção pode ser válida. O que o caso da psilocibina acrescenta, então, é a evidência de que a interpretação não pode fabricar: o anseio não restaura o controle da bexiga, e o pensamento positivo não faz uma mulher acamada caminhar por um cômodo. Como as observações seguem uma intervenção realizada há algum tempo, elas fornecem um verdadeiro antes e depois, não uma memória reconstruída posteriormente.

 

O que o caso não demonstra

Nada disso, por si só, torna o relatório uma evidência robusta, visto que se refere a um único paciente sem grupo de controle, testes cognitivos, exames de imagem ou confirmação por biomarcadores, e nem patologia mista nem flutuação espontânea podem ser descartadas. A dose foi alta e não padronizada, e a reação aguda representou um sério sinal de alerta de segurança em um paciente frágil; portanto, nada aqui estabelece a psilocibina como tratamento ou deve ser interpretado como um convite à experimentação. Mas cautela não significa rejeição.

 

A hipótese que isso torna testável

Há alguns anos, uma das minhas hipóteses de trabalho — reconhecidamente bastante especulativa — tem sido a de que a demência avançada pode envolver não apenas perda, mas também bloqueio: a memória, a linguagem e o conhecimento relacional talvez não sejam apagados na mesma proporção em que desaparecem externamente, mas persistam latentemente porque as redes danificadas não conseguem mais coordená-los ou expressá-los, de modo que o que é funcionalmente inacessível não precisa ter sido destruído. A lucidez paradoxal sempre foi o indício mais forte nessa direção.

Curiosamente, os autores da Frontiers propõem a mesma lógica com um mecanismo associado: a psilocibina afrouxa a dinâmica rígida e excessivamente segregada da rede cerebral afetada pela doença, permitindo que os sistemas residuais voltem a funcionar brevemente em conjunto2, o que significaria que suas capacidades nunca foram reconstruídas, apenas reabertas. Os próximos estudos praticamente se autodesenham, exigindo dosagem padronizada, diagnósticos confirmados e exames de imagem; o que define se as duas literaturas são pertinentes é se os episódios lúcidos espontâneos apresentam uma assinatura de rede comparável.

 

Uma ideia antiga, inesperadamente útil.

O caso também revive uma ponte filosófica mais antiga: Bergson propôs que o cérebro pode funcionar não apenas como produtor de cognição , mas como um órgão seletivo e limitador, que Huxley posteriormente reformulou como uma válvula redutora. Esses modelos permanecem especulativos e precisam ser tratados como tal4, mas a especulação não é inútil quando gera previsões: se o dano às vezes bloqueia a expressão da memória sem extingui-la, a lucidez paradoxal e a reorganização induzida pela psilocibina seriam duas portas para uma mesma sala.

 

Um caso é um caso

Uma palavra de cautela: este caso ainda pode se revelar excepcional, classificado erroneamente ou impossível de reproduzir, razão pela qual deve ser examinado com rigor. Mas a ciência não avança recusando-se a examinar anomalias; ela avança descrevendo-as com precisão e questionando o que seria necessário para que fossem possíveis. A mente perdida pode não ser completamente destruída e, se a porta ainda estiver de pé, poderemos em breve ter uma pista de como ela se abre, pelo menos em alguns casos.

 

Traduzido com Google Tradutor

 



[2] Lago, M., Cerveira, M., & Simonet, J. X. (2026). Transient multidomain functional improvement in advanced Alzheimer's disease following high-dose psilocybin-containing mushroom administration: A case report. Frontiers in Neuroscience, 20, 1813281.

[3] Batthyány, A., & Greyson, B. (2021). Spontaneous remission of dementia before death: Results from a study on paradoxical lucidity. Psychology of Consciousness: Theory, Research, and Practice, 8(1), 1–8.

[4] Batthyány, A. (2023). Threshold: Terminal Lucidity and the Border of Life and Death. St. Martin's Essentials.

[5] Mashour, G. A., et al. (2019). Paradoxical lucidity: A potential paradigm shift for the neurobiology and treatment of severe dementias. Alzheimer's & Dementia, 15(8), 1107–1114.

[6] Griffin, J. M., et al. (2024). Developing and describing a typology of lucid episodes among people with Alzheimer's disease and related dementias. Alzheimer's & Dementia, 20(4), 2434–2443.

[7] Griffin, J. M., et al. (2025). Lucid episodes in people with advanced dementia: Characterizing caregiver reports to advance definition and measurement of episodes. The Gerontologist, 65(12), gnaf282.

[8] Murray, C. (2025, October 16). Can science reckon with the human soul? The Wall Street Journal.

[9] Pinker, S. (2025, October 30). Charles Murray's unscientific case for the soul. The Wall Street Journal.

[10] Batthyány, A. (2025, November 5). Setting the terminal-lucidity record straight. The Wall Street Journal.