Allan Kardec
O Governo permitiu que jornais
avessos à política dessem notícias da guerra; como, porém, são abundantes os
relatos de todos os gêneros, seria inútil repeti-los aqui. O que talvez
constitua mais novidade para os nossos leitores é um relato que procede do
outro mundo. Embora não seja extraído da fonte oficial do Moniteur, nem
por isso oferece menor interesse, do ponto de vista dos nossos estudos. Assim,
pensamos em interrogar algumas das gloriosas vítimas da vitória, presumindo aí
pudéssemos encontrar alguma instrução de utilidade. Tais assuntos de observação
e, sobretudo, de atualidade, não se apresentam todos os dias. Não conhecendo
pessoalmente nenhum dos participantes da última batalha, rogamos aos Espíritos
assistentes que nos enviassem alguém. Pensamos até mesmo encontrar mais
liberdade num desconhecido do que na presença de amigos ou parentes dominados
pela emoção. Logrando resposta afirmativa, obtivemos as seguintes conversas:
O ZUAVO DE MAGENTA
PRIMEIRA CONVERSA
– (Sociedade, 10 de junho de 1859)
1. Rogamos a Deus Todo-Poderoso permitir ao Espírito de um
dos militares mortos na batalha de Magenta que se comunique conosco.
– Que quereis saber?
2. Onde vos encontráveis quando vos chamamos?
– Não saberia dizer.
3. Quem vos preveniu que desejaríamos nos entreter convosco?
– Alguém mais astuto do que eu.
4. Quando na carne duvidáveis que os mortos pudessem vir
conversar com os vivos?
– Oh! Isso não!
5. Que sensação experimentais por vos encontrardes aqui?
– Isso me dá prazer; conforme dizem, deveis fazer grandes
coisas.
6. A que Corpo do Exército pertencíeis? [Alguém diz em voz
baixa: Pela linguagem deve ser um zuzu.]
– Ah! Dissestes bem.
7. Qual era o vosso posto?
– O de todo o mundo.
8. Como vos chamáveis?
– Joseph Midard.
9. Como morrestes?
– Quereis saber tudo sem nada pagar?
10. Ora, vamos! Não perdestes o vosso bom humor. Falai
primeiro; depois pagaremos. Como morrestes?
– De uma ameixa que dispararam contra mim.
11. Ficastes contrariado com a morte?
– Não! Palavra de honra! Estou bem aqui.
12. No momento da morte percebestes logo que havíeis
morrido?
– Não; eu estava tão atordoado que não podia acreditar.
Observação – Isto concorda com o que temos
observado nos casos de morte violenta; não se dando conta imediatamente de sua
situação, o Espírito não se julga morto. Esse fenômeno se explica muito
facilmente; é análogo ao dos sonâmbulos que não acreditam que estejam dormindo.
Realmente, para o sonâmbulo, a ideia de sono é sinônimo de suspensão das
faculdades intelectuais. Ora, como ele pensa, não acredita que dorme; só mais
tarde reconhece a verdade, ao se familiarizar com o sentido ligado a essa
palavra. Acontece a mesma coisa com o Espírito surpreendido por morte súbita,
quando não se havia preparado para a separação do corpo. Para ele a morte é
sinônimo de destruição, de aniquilamento. Ora, desde que vê, sente e raciocina,
julga não ter morrido. É necessário certo tempo para poder reconhecer-se.
13. No momento em que morrestes a batalha não havia ainda
terminado. Acompanhastes as suas peripécias?
– Sim, pois já vos disse que não me julgava morto; queria
continuar maltratando os cães do outro lado.
14. Que sensação experimentáveis?
– Eu estava encantado; sentia-me muito leve.
15. Víeis os Espíritos dos vossos camaradas ao deixar o
corpo?
– Não me preocupava com isso, pois não me julgava morto.
16. Nesse momento, em que se tornava essa multidão de
Espíritos que deixava a vida no fragor da batalha?
– Creio que faziam o mesmo que eu.
17. Ao se acharem reunidos no mundo espiritual, que pensavam
os Espíritos que se batiam mais encarniçadamente? Ainda revelavam animosidade
uns contra os outros?
– Sim, durante algum tempo e conforme o seu caráter.
18. Reconhecei-vos melhor agora?
– Sem isso não me teriam enviado aqui.
19. Poderíeis dizer-nos se, entre os Espíritos de pessoas
mortas há muito tempo, não se encontravam alguns interessados no desfecho da
batalha? [Rogamos a São Luís que o auxiliasse em suas respostas, a fim de que,
para a nossa instrução, fossem elas tão explícitas quanto possível].
– Em grande quantidade. É bom saibais que esses combates
e suas consequências são preparados com muita antecedência e que os nossos
adversários não se envolveriam em crimes, como de fato ocorreu, se a isso não
houvessem sido impelidos, tendo em vista as consequências futuras, que não
tardareis a conhecer.
20. Deveria haver quem se interessasse pelo sucesso dos
austríacos, estabelecendo dois campos entre eles?
– Evidentemente.
Observação – Não parece que aqui estamos vendo
os deuses de Homero a tomar partido, uns pelos gregos, outros pelos troianos?
Com efeito, quem eram esses deuses do paganismo, senão os Espíritos que os
Antigos haviam transformado em divindades? Não temos razão quando dizemos que o
Espiritismo é a luz que esclarecerá mais de um mistério, a chave de mais de um
problema?
21. Eles exerciam uma influência qualquer sobre os
combatentes?
– Muito considerável.
22. Poderíeis descrever a maneira pela qual eles exerciam
essa influência?
– Da mesma maneira por que são exercidas todas as
influências que os Espíritos produzem sobre os homens.
23. Que esperais fazer agora?
– Estudar mais do que o fiz durante minha última etapa.
24. Retornareis para assistir, como espectador, aos combates
que ainda se travam?
– Ainda não sei. Tenho afeições que me prendem no
momento. Contudo, de vez em quando pretendo dar umas escapadelas para me
divertir com as escaramuças subsequentes.
25. Que gênero de afeição vos retém ainda?
– Uma velha mãe doente e sofredora, que chora por mim.
26. Peço me desculpeis o mau pensamento que acaba de me
atravessar o Espírito, relativamente à afeição que vos retém.
– Não vos quero mal por isso. Falo tolices para que
possais rir um pouco. É natural que não me tomeis por grande coisa, tendo em
vista o honroso corpo a que pertencia. Ficai tranquilos, eu só me engajei por
causa de minha pobre mãe. Mereço um pouco que me tenham mandado a vós.
27. Quando vos encontrastes entre os Espíritos ouvíeis o
rumor da batalha? Víeis as coisas tão claramente como em vida?
– A princípio eu a perdi de vista, mas depois de algum
tempo via muito melhor, porque percebia todas as artimanhas.
28. Pergunto se ouvíeis o troar dos canhões.
– Sim.
29. No momento da ação, pensáveis na morte e naquilo em que
vos tornaríeis, caso fôsseis morto?
– Eu pensava no que seria de minha mãe.
30. Era a primeira vez que entráveis no fogo de uma batalha?
– Não, não; e a África?
31. Vistes a entrada dos franceses em Milão?
– Não.
32. Aqui sois o único dos que morreram na Itália?
– Sim.
33. Pensais que a guerra durará muito?
– Não. É fácil e, ademais, de pouco valor essa predição.
34. Quando entre os Espíritos vedes um de vossos chefes,
ainda o reconheceis como vosso superior?
– Se ele o for, sim; se não, não.
Observação – Em sua simplicidade e em seu
laconismo, esta resposta é eminentemente profunda e filosófica. No mundo espírita
a superioridade moral é a única que se reconhece. Quem não a teve na Terra,
qualquer que tenha sido a sua posição, não terá nenhuma superioridade. Naquele
mundo o chefe pode estar abaixo do soldado, o patrão em posição inferior à do
servo. Que lição para o nosso orgulho!
35. Pensais na justiça de Deus e vos inquietais por isso?
– Quem não pensaria? Mas, felizmente, não tenho muito a
temer. Resgatei, por algumas ações que Deus considerou boas, as raras
escapadelas que pude cometer na qualidade de zuzu, conforme dissestes.
36. Assistindo a um combate, poderíeis proteger um de vossos
camaradas e desviar-lhe um golpe fatal?
– Não; isso não está em nosso poder; a hora da morte é
marcada por Deus. Se devemos passar por ela, nada o poderá impedir, como
ninguém a poderia atingir se sua hora não houvesse soado.
37. Vedes o General Espinasse?
– Ainda não o vi, mas espero vê-lo em breve.
SEGUNDA CONVERSA –
(17 de junho de 1859)
38. Evocação.
– Presente! Firme! Em frente!
39. Lembrais de ter vindo aqui há oito dias?
– Claro!
40. Dissestes ainda não ter visto o General Espinasse; como
poderíeis reconhecê-lo, já que ele não estará envergando o seu hábito de
general?
– De fato, mas eu o conheço de vista; além disso, temos
uma porção de amigos sempre prontos a nos dar a senha. Aqui não é como aí, pois
não temos medo de trombar com ninguém e vos asseguro que somente os velhacos
ficam sozinhos.
41. Sob que aparência vos encontrais aqui?
– Zuavo.
42. Se vos pudéssemos ver, como vos veríamos?
– De turbante e culote.
43. Pois bem! Supondo-se que nos aparecêsseis de turbante e
culote, perguntamos onde adquiristes essas roupas, considerando-se que
deixastes as vossas no campo de batalha.
– Ora essa! Não sei de nada; tenho um alfaiate que me
consegue algumas.
44. De que são feitos o turbante e o culote que usais? Tendes
alguma ideia?
– Não; isto concerne ao negociante de roupas usadas.
Observação – Esta questão da vestimenta dos
Espíritos, e várias outras não menos interessantes que se ligam ao mesmo princípio,
são completamente elucidadas por novas observações, feitas no seio da
Sociedade. Delas daremos conta no próximo número. Nosso bravo zuavo não se acha
assaz adiantado para resolver por si mesmo. Para isso foi-nos necessário o
concurso de circunstâncias que se apresentaram fortuitamente e que nos puseram
no caminho certo.
45. Dai-vos conta da razão por que nos vedes, ao passo que
não vos podemos ver?
– Acho que vossos óculos estão muito fracos.
46. Não será por essa mesma razão que não podeis ver o
general em uniforme?
– Sim, mas ele não o veste todos os dias.
47. Em que dias o veste?
– Ora essa! Quando o chamam ao palácio.
48. Por que estais aqui vestido de zuavo, já que não vos podemos
ver?
– Naturalmente porque ainda sou zuavo, lá se vão quase
oito anos e, também, porque entre os Espíritos conservamos a forma durante
muito tempo. Mas isso é apenas entre nós; compreendeis que quando vamos a um
mundo completamente estranho, como a Lua ou Júpiter, não nos damos muito ao
trabalho de fazer toalete.
49. Falais da Lua e de Júpiter; já os visitastes depois de morto?
– Não; não me compreendeis. Depois da morte já percorremos
bastante o Universo. Não nos explicaram uma porção de problemas da nossa Terra?
Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhor do que há quinze dias? Com a
morte o Espírito passa por uma metamorfose que não podeis compreender.
50. Revistes o corpo que deixastes no campo de batalha?
– Sim; ele não está nada belo.
51. Que impressão vos deixou tal visão?
– Tristeza.
52. Tendes conhecimento de vossa existência anterior?
– Sim; mas não era bastante gloriosa para que eu possa
envaidecer-me.
53. Dizei-nos apenas o gênero de vida que levastes.
– Simples mercador de peles selvagens.
54. Agradecemos por haverdes voltado uma segunda vez.
– Até breve. Isto me diverte e me instrui; desde que me
tolerem bem aqui, retornarei de bom grado.
UM OFICIAL
SUPERIOR MORTO EM MAGENTA
(Sociedade, 10 de
junho de 1859)
1. Evocação.
– Eis-me aqui.
2. Poderíeis dizer-nos como atendestes tão prontamente ao
nosso apelo?
– Eu estava prevenido do vosso desejo.
3. Por quem fostes prevenido?
Por um emissário de Luís[2].
4. Tínheis conhecimento da existência de nossa Sociedade?
– Vós o sabeis.
Observação – O oficial em questão tinha
realmente auxiliado a Sociedade para a obtenção do seu registro de funcionamento[3].
5. Sob que ponto de vista consideráveis a nossa Sociedade
quando concorrestes para a sua formação?
– Eu não estava ainda inteiramente decidido, mas me
inclinava muito a crer; não fossem os acontecimentos que sobrevieram, por certo
teria ido instruir-me no vosso círculo.
6. Há criaturas deveras notáveis que comungam as ideias
espíritas, mas que não o confessam de público. Seria desejável que as pessoas
influentes desfraldassem abertamente essa bandeira?
– Paciência; Deus o quer e, desta vez, a expressão é
verdadeira.
7. De que classe influente da sociedade pensais deverá partir
em primeiro lugar o exemplo?
– No início, de algumas; depois, de todas.
8. Do ponto de vista do estudo, poderíeis dizer-nos se vossas
ideias são mais lúcidas que as do zuavo que há pouco esteve aqui, embora ambos
hajam falecido mais ou menos na mesma época?
– Muito. Aquilo que ele vos disse, testemunhando uma
certa elevação de pensamento, foi-lhe soprado, porque ele é bom mas muito
ignorante e um tanto leviano.
9. Ainda vos interessais pelo sucesso de nossos exércitos?
– Muito mais do que nunca, pois hoje conheço o seu
objetivo.
10. Tende a bondade de definir o vosso pensamento; o objetivo
sempre foi abertamente confessado e, sobretudo em vossa posição, devíeis
conhecê-lo?
– O fim que Deus se propôs, vós o sabeis?
Observação – Ninguém desconhecerá a gravidade
e a profundeza desta resposta. Assim, quando vivo, ele conhecia o objetivo dos
homens; como Espírito, vê o que há de providencial nos acontecimentos.
11. Que pensais da guerra em geral?
– Desejo que progridais rapidamente, a fim de que ela se
torne tão impossível quanto inútil. Eis a minha opinião.
12. Acreditais que chegará o dia em que ela será impossível
e inútil?
– Sim, não tenho dúvida, e posso dizer que esse momento
não está tão longe quanto pensais, embora não vos possa dar esperança de que o
vereis.
13. Vós vos reconhecestes imediatamente no momento da morte?
– Quase que imediatamente, graças às vagas noções que
possuía do Espiritismo.
14. Podeis dizer algo a respeito de M..., morto também na
última batalha?
– Ele ainda se encontra enredado na matéria; sente muita
dificuldade em se desvencilhar; seus pensamentos não se tinham voltado para
este lado.
Observação – O conhecimento do Espiritismo
auxilia o desprendimento da alma após a morte; assim, concebe-se que abrevie o
período de perturbação que acompanha a separação; o Espírito conhecia
antecipadamente o mundo em que ora se encontra.
15. Assististes à entrada de nossas tropas em Milão?
– Sim, e com alegria. Fiquei encantado pela ovação com
que nossas armas foram acolhidas, a princípio por patriotismo; depois, pelo
futuro que as aguarda.
16. Como Espírito, podeis exercer uma influência qualquer
sobre as disposições estratégicas?
– Acreditais que isso não tenha sido feito desde o princípio,
e tendes dificuldade de adivinhar por quem?
17. Como foi possível que os austríacos abandonassem tão
rapidamente uma praça forte como Pavia?
– Medo.
18. Então estão desmoralizados?
– Completamente. De mais a mais, se agimos sobre os
nossos num sentido, deveis pensar que sobre eles age uma influência de outra
natureza.
Observação – Aqui a intervenção dos Espíritos
nos acontecimentos é inequívoca. Eles preparam os caminhos para a realização
dos desígnios da Providência. Os Antigos teriam dito que era obra dos deuses;
nós dizemos que é dos Espíritos, por ordem de Deus.
19. Podeis dar a vossa opinião sobre o General Giulay, como
militar, pondo de lado qualquer sentimento nacionalista?
– Pobre, pobre general!
20. Voltaríeis de bom grado se vos pedíssemos?
– Estou à vossa disposição e prometo vir, mesmo sem ser
chamado. A simpatia que eu nutria por vós não fez senão aumentar. Adeus.
[1] REVISTA ESPÍRITA – Julho/1859 – Allan Kardec
[2] N. do T.: São Luís [Luís IX, Rei da França]
patrono da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.
[3] N. do T.: Desde 1854, quando pela primeira vez
ouviu falar das mesas girantes, até a sua desencarnação, em 1869, Allan Kardec
conviveu com a França de Napoleão III. Esse sobrinho do grande corso, através
de um Golpe de Estado desferido em dezembro de 1851, abriu caminho para ser
proclamado Imperador no ano seguinte.
Reconhecendo intimamente
a fragilidade do regime que fundara, adotou medidas coercitivas e autoritárias
de modo a garantir a sua permanência no poder, entre as quais a censura à
imprensa e a proibição de reuniões em recintos fechados, além de outros expedientes
que restringiam a liberdade do povo francês. Assim, compreendemos melhor por
que o Codificador encontrou alguns obstáculos para registrar a Sociedade
Parisiense de Estudos Espíritas nos organismos oficiais competentes.

