terça-feira, 20 de outubro de 2026

AS PEDRAS DE JAVA[1]

 


Allan Kardec

 

Bruxelas, 9 de dezembro de 1859.

Senhor Diretor,

Li na Revista Espírita o fato relatado por Ida Pfeiffer sobre as pedras caídas em Java, na presença de um oficial superior holandês, com o qual estive muito ligado em 1817, pois foi ele quem me emprestou suas pistolas e serviu de testemunha em meu primeiro duelo. Chamava-se Michiels, de Maestricht, e tornou-se general em Java. A carta que relatava o fato acrescentava que essa queda de pedras, na habitação isolada do distrito de Chéribon, não durou menos de doze dias, sem que as sentinelas postas pelo general tivessem algo descoberto, nem ele também, durante todo o tempo em que lá ficou. Essas pedras, formadas de uma espécie de pedra-pomes, pareciam criadas no ar, a alguns pés do teto. Com elas o general mandou encher vários cestos; os habitantes vinham buscá-las para fazer amuletos e mesmo remédios. Este fato é muito conhecido em Java, pois se repete com muita frequência, sobretudo as cusparadas de siri. Várias crianças foram perseguidas a pedradas em campo raso, sem serem atingidas. Dir-se-ia que os Espíritos farsistas se divertiam em amedrontar as pessoas. Evocai o Espírito General Michiels; talvez ele vos explique o fato. O Dr. Vanden Kerkhove, que durante muito tempo morou em Java, confirmou-me, como vos afirmo, que vossa Revista torna-se cada dia mais interessante, mais moralizadora e mais procurada em Bruxelas.

Aceitai,

Jobard

 

O conhecido caráter da Sra. Ida Pfeiffer, o cunho de veracidade que marca todos os seus relatos não nos deixam nenhuma dúvida quanto à realidade do fenômeno em questão; mas compreende-se toda a importância que a ela vem juntar-se a carta do Sr. Jobard, pelo depoimento da principal testemunha ocular encarregada de verificar o fato, e que não tinha o menor interesse em fazê-lo acreditado, se o tivesse reconhecido falso. Em primeiro lugar, a natureza esponjosa dessa chuva de pedras poderia fazer atribuí-la a uma origem vulcânica ou aerolítica, e os céticos não deixariam de dizer que a superstição havia tomado o lugar de um fenômeno natural. Se não contássemos senão com o testemunho dos javaneses, a suposição seria fundada, e as pedras, caindo em campo raso, viriam sem dúvida em apoio dessa opinião. Mas o General Michiels e o Dr. Vanden Kerkhove não eram malaios, e sua afirmação tem valor. A essa consideração, por si só muito forte, é preciso acrescentar que as pedras não caíam somente em pleno ar, mas no quarto onde parece que se formavam, a alguma distância do teto: é o general quem o afirma. Ora, imaginamos que jamais se tenham visto aerólitos se formarem na atmosfera de um quarto.

Admitindo a causa meteorológica ou vulcânica, o mesmo não se poderia dizer das cusparadas de siri, que os vulcões jamais vomitaram, pelo menos de nosso conhecimento. Afastada essa hipótese pela própria natureza dos fatos, resta saber como tais substâncias puderam ser formadas. Encontraremos sua explicação em nosso artigo do mês de agosto de 1859, sobre o Mobiliário de Além-túmulo.



[1] REVISTA ESPÍRITA – janeiro/1860 – Allan Kardec

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

LUIS OLÍMPIO TELES DE MENEZES[1]

 


 

Luis Olímpio Teles de Menezes nasceu na cidade de Salvador em 26 de julho de 1825. Era filho do Capitão graduado Fernando Luís Teles de Menezes e D. Francisca Umbelina de Figueiredo Menezes. Casou-se pela primeira vez aos 23 anos com D. Ana Amélia Xavier de Menezes e pela segunda vez com D. Elisa Pereira de Figueiredo Menezes.

Dedicou-se ao magistério, participando ardorosamente da campanha contra o analfabetismo e ao incentivo da literatura entre os jovens baianos, foi “Oficial de Biblioteca”, jornalista e um dos pioneiros do Espiritismo no Brasil.

Atuou como jornalista escrevendo em vários jornais e revistas da imprensa leiga da cidade de Salvador. Dentre estes, em 1872, no “Diário da Bahia”, jornal de linha liberal e no “Jornal da Bahia”, de linha conservadora. Atuou ainda no periódico “Interesse Público”, considerado o mais importante do Estado. Fez parte ainda da revista “A Época Literária”, como redator principal. Nesta revista publicou, ainda sem muita experiência e quando ainda não era espírita, a novela “Os Dois Rivais”, em estilo ultrarromântico, considerada por David Salles uma das primeiras manifestações da ficção na Bahia.

Aos 24 anos escreveu um artigo para a primeira edição da revista “A Época Literária”, sob as iniciais L.O.T.M., e se intitulava, simplesmente, “LEDE”. De forma patriota e revolucionária, Teles de Menezes enalteceu o Brasil: “O colosso americano começou a caminhar a passos de gigante para o progresso e a civilização, e, consequentemente, muito avulta a sua literatura, por que é esta o órgão do progresso e da civilização de um povo”.

Sempre muito estudioso, foi professor primário, estenógrafo, funcionário da Assembleia Legislativa e Oficial da Biblioteca Pública da Bahia. Falava inglês, francês, castelhano e latim. Interessou-se pelos fenômenos “inexplicáveis” que ocorriam em todos os continentes e que chamavam a atenção da humanidade. Durante toda a fase de implantação da Doutrina Espírita na França, por Allan Kardec, Teles de Menezes manteve relações de amizade com espíritas franceses. O compartilhamento de ideias resultante dessa amizade fez chegar à Bahia as tendências filosóficas e culturais que fervilhavam no velho mundo, fazendo de Teles de Menezes o sócio honorário correspondente da “Sociedade Magnética da Itália”, filiando-se igualmente a várias entidades espíritas e espiritualistas europeias.

Ainda como grande defensor da causa espírita, foi tradutor da 13ª edição francesa do O Livro dos Espíritos, conseguindo também que a livraria Garnier fosse autorizada a traduzir para o português, todas as obras de Kardec, fazendo de Teles de Menezes o pioneiro da imprensa espírita no Brasil.

Outro feito inédito ocorreu no dia 17 de setembro de 1865, quando Teles de Menezes funda o primeiro Centro Espírita do Brasil, o "Grupo Familiar Do Espiritismo", primeira agremiação doutrinária em terras brasileiras. Foi um verdadeiro ato de heroísmo, pois naquela época o ambiente era totalmente hostil à prática da nova doutrina, visto que o Estado tinha o Catolicismo como religião oficial. Na sessão ocorrida nesse dia, os membros do Grupo receberam, assinada por "Anjo de Deus", a primeira página psicografada de que se tem notícia na Bahia.

Em 8 de março de 1869 publica o primeiro jornal espírita brasileiro: "Eco de Além-Túmulo", contendo os princípios imortais do Espiritismo, cuja assinatura custava nove mil réis. Teles de Menezes deixa transparecer, pelas páginas do jornal, sua filiação à obra emancipadora levada a efeito pelos grandes liberais baianos daquele tempo, como Castro Alves.

No periódico havia uma seção destinada a publicação de mensagens espíritas recebidas por médiuns brasileiros e estrangeiros. Era considerada a mais importante e trazia instruções sobre como os adeptos do Espiritismo deveriam proceder, além de encoraja-los na luta contra o materialismo e a descrença nos espíritos. O “Eco de Além-Túmulo” também reproduzia artigos traduzidos por Teles de Menezes da Revista Espírita, editada na França por Kardec. Relacionava e sugeria a leitura de obras espíritas e tinha até um tipo de folhetim, a “Aurora da Ressurreição” que teve sete capítulos. Teles de Menezes destinava mil reis de cada assinatura vendida para comprar a liberdade de escravas do sexo feminino, de 04 a 07 anos de idade, nascidas no Brasil.

Defensor intransigente dos princípios espíritas, Teles de Menezes escreveu uma carta aberta ao Metropolitano e Primaz do Brasil, D. Manoel Joaquim da Silveira, refutando a pastoral que este publicara sob o título "Erros perniciosos do Espiritismo". Essa carta, que teve duas edições no mesmo ano, parece ter sido a primeira obra espírita de brasileiro publicada no Brasil.

Também foi o primeiro presidente da Associação Espírita Brasileira, que visava "ao desenvolvimento moral e intelectual do homem nas largas bases que cria a filosofia espírita, e a exemplificação do sublime e celestial preceito da caridade cristã".

Considerando sua missão cumprida na Bahia, Teles de Menezes transferiu-se para o Rio de janeiro, onde veio a falecer, aos 65 anos de idade, no dia 16 de março de 1893.

 

Fontes:

https://casadocaminho-pae.org.br/temas-doutrinarios/teles-de-menezes-pioneiro-da-imprensa-espirita-no-brasil   https://pt.wikipedia.org/wiki/Lu%C3%ADs_Ol%C3%ADmpio_Teles_de_Menezes  http://www.feparana.com.br/topico/?topico=659

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

UM ESTUDO DE 1998[1]

 


Rachael Funnell

 

Um estudo de 1998 pediu a um homem que lesse um número durante uma "experiência fora do corpo". Em uma reviravolta estranha, ele viu algo completamente diferente.

 

A menos que você esteja olhando para uma tela ou um espelho, é impossível se ver de uma perspectiva em terceira pessoa. Todos estamos presos dentro de nossos corpos, e ainda assim há alguns poucos que relatam – através de drogas, meditação e até experiências de quase-morte – conseguirem olhar para si mesmos como se flutuassem no teto.

Esses eventos são conhecidos como "experiências fora do corpo" e já foram relatados por uma grande variedade de pessoas ao longo do tempo e em todo o mundo.

Acredita-se que cerca de 10 a 20% das pessoas já tiveram algum tipo de experiência fora do corpo, mas será que elas realmente conseguem enxergar além de sua forma corpórea? É uma pergunta que vários estudos tentaram responder.

 

O misterioso caso da Srta. Z

Um cientista chamado Charles Tart foi um dos primeiros a tentar investigar sistematicamente a possibilidade de ver coisas reais durante uma experiência fora do corpo.

Um de seus primeiros experimentos em um laboratório do sono girava em torno de uma sujeita chamada Srta. Z, que lhe contou casualmente do lado de fora do laboratório que vinha tendo essas experiências a vida toda. Eram tão comuns para ela que a Srta. Z achava que todo mundo tinha experiências fora do corpo até que alguém lhe disse o contrário quando adolescente.

Testes informais realizados em casa revelaram uma habilidade surpreendente: ela conseguia "ver" um número aleatório escolhido por outra pessoa durante o sono. Tart queria estudar a Srta. Z em um laboratório do sono, acabando publicando as descobertas em um artigo de 1968.

No laboratório, eles realizaram estudos durante quatro noites, durante as quais a Srta. Z dormiu em uma cama e um número de cinco dígitos foi guardado em uma prateleira alta, fora de vista. Se ela flutuasse acima do corpo à noite, deveria pegar o número e reportar de volta pela manhã.

Ao final das quatro noites, ela teve três episódios flutuantes, dois episódios de dissociação e um número recuperado com sucesso durante a última noite: 25132.

Considerando que ela tinha uma chance de 1 em 100.000 de adivinhar isso por acaso, dá para entender por que o interesse de Tart foi despertado.

 

O que Robert Monroe viu

Avançando para 1998, Tart estava apresentando outro artigo, desta vez sobre um homem chamado Robert Monroe, que também relatou ter tido experiências fora do corpo. Então, mais uma vez, Tart mostrou ao homem seu quarto de laboratório do sono – com número oculto completo – para ver o que aconteceria.

Monroe não conseguiu recuperar o número misterioso. No entanto, ele viu algo ainda mais estranho. Algo que seria quase impossível para ele adivinhar.

Monroe deu um relato detalhado de um dos técnicos encontrando um homem em uma sala em outra parte do prédio. Geralmente era contra o protocolo que qualquer pessoa de fora aparecesse no laboratório, mas a equipe depois conseguiu verificar que um dos maridos da técnica havia aparecido naquela noite em particular.

Na opinião de Tart, talvez isso fosse evidência de que alguém em uma experiência fora do corpo poderia ser mais capaz de fixar alvos em movimento do que em objetos fixos como um número de cinco dígitos.

Uma conclusão curiosa, relevante para um estudo muito recente sobre experiências fora do corpo que também trouxe resultados bem assustadores.

Até que essa escritora consiga subir no telhado de forma extracorporal para ver qual pássaro está nidificando na chaminé, ela permanece cética. Mas você tem que admitir, seria bem legal explorar sem a velha bola e corrente (leia-se: corpo).

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

FACULDADE PREDOMINANTE[1]

 


Miramez

 

 Livre-arbítrio

Qual a faculdade predominante no homem em estado de selvageria: o instinto, ou o livre-arbítrio?

O instinto, o que não o impede de agir com inteira liberdade, no tocante a certas coisas. Mas, aplica, como a criança, essa liberdade às suas necessidades e ela se amplia com a inteligência. Conseguintemente, tu, que és mais esclarecido do que um selvagem, também és mais responsável pelo que fazes do que um selvagem o é pelos seus atos.

Questão 849 / O Livro dos Espíritos

 

A faculdade predominante no selvagem, certamente que é o instinto, impulso que parte de Deus para as necessidades do homem primitivo, como também dos animais. No entanto, ele evolui cada vez mais, de acordo com o crescimento do homem em busca da razão mais esclarecida. Mesmo assim, o instinto não desaparece no homem; ele se desenvolve, alcançando o estado que se chama raciocínio e se expressando como inteligência, de modo que a criatura se torna mais responsável pelos seus atos.

A razão, com o percorrerdes milênios, se transforma em intuição, que igualmente domina uma escala, até chegar ao ponto de a alma intuitiva do futuro não precisar mais da razão, por simplesmente saber, ou seja, a alma dispensará o raciocínio para concluir, porque já sabe.

A faculdade predominante no selvagem é o instinto, e a predominante no intelectual é a inteligência, que trabalha como razão na engrenagem da mente. O homem civilizado é mais responsável pelos seus atos do que o animal, destituído totalmente de raciocínio. No selvagem, a razão começa a desabrochar, assim como no civilizado existe algo de intuição começando a crescer.

A liberdade, mesmo relativa, nasce e cresce com a alma, dotando-a de algo mais, do que a natureza divina é pródiga. Porém, a liberdade diante de Deus é sempre relativa, porque dependemos do Pai para sempre. Quanto mais crescemos, mais fazemos a Sua vontade. Quando necessário, sejamos evoluídos ou atrasados, somos enviados para outros mundos, se precisamos buscar neles experiências que não podemos realizar na Terra. E é por mandato de Jesus que assim se processa.

Vamos consultar o Evangelho, em João, no capítulo dez, versículo dezoito:

 

Ninguém a tira de mim, pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para entregar e também para reavê-la. Este mandato, recebi de meu Pai.

 

O Espírito, quando é preciso, Jesus o envia para outras casas no universo, mas torna a buscá-lo, por fazer parte do rebanho que Ele tanto ama. Vamos trabalhar e compreender, para que as faculdades predominantes em nós sejam as virtudes espirituais tão afloradas nos santos quanto nos sábios. Esse é, pois, o caminho a que todos estamos destinados a seguir. Entrementes, não podemos desdenhar dos que se encontram na retaguarda, porque também nós outros passamos por lá, tendo recebido tantas bênçãos nos próprios desequilíbrios!

O selvagem é uma criança espiritual; o homem primitivo é quase igual ao animal, tocado pelos instintos mais profundos, mas, o tempo dota-o de melhores condições no correr dos anos, porque também ele é filho de Deus, dotado de todas as qualidades espirituais que os Espíritos elevados desfrutam agora no reino da luz. A criança, com a idade não se torna adulto? Assim é o selvagem de hoje; no amanhã, passará a ser civilizado, e depois espiritualizado. Essa é a lei de amor e de justiça, que olha a tudo que Deus criou com o mesmo carinho e a mesma graça.

Tu que te encontras na sociedade e és mais esclarecido do que o selvagem, ajuda-o, de modo que ele reconheça a necessidade de melhorar. Dentro dele existe, em germe, a luz que pode levá-lo ao conhecimento da verdade. Não percas a oportunidade de ajudar, porque tu também já foste ajudado por outros que estão à tua dianteira.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 17 – João Nunes Maia

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

YORK ASSOMBRADA[1]

 


Melvyn Willin

 

A reputação de York como a cidade mais assombrada da Grã-Bretanha se baseia em uma longa história de relatos de aparições, poltergeists e outras anomalias. Este artigo examina casos notáveis, desde os soldados romanos de Harry Martindale até igrejas, pubs e teatros assombrados, distinguindo relatos com fontes pouco confiáveis ​​de incidentes que permanecem difíceis de explicar.

§  O caso mais conhecido de York é o avistamento, por Harry Martindale em 1953, de soldados romanos cuja aparência e nível de caminhada posteriormente se mostraram consistentes com as descobertas arqueológicas.

§  Outros relatos envolvem aparições, atividade poltergeist e sons inexplicáveis ​​na Catedral de York, na Igreja da Santíssima Trindade, no Teatro Real, em bares e outros locais históricos.

§  O artigo distingue o folclore comercial sobre fantasmas e histórias com fontes duvidosas de um número menor de casos considerados suficientemente documentados para merecerem interesse em pesquisa psíquica.

 

Introdução

York, na Inglaterra, é há muito descrita como a cidade mais assombrada do Reino Unido. Isso deu origem a inúmeros passeios fantasmagóricos bastante concorridos e a muitas histórias de eventos anômalos, que vão desde mitos e lendas a alegações fraudulentas e fenômenos muito difíceis de explicar dentro do paradigma científico vigente.

A cidade de York data do início do primeiro milênio d.C., mas as evidências arqueológicas da presença humana na região remontam a tempos muito mais antigos, entre 8000 e 7000 a.C.. York é mencionada como uma cidade importante na época romana, quando era chamada de Eboracum ou Eburacum, seguida pelos anglos, que a denominavam Eoforwīc ou Eoforīc. Quando os vikings tomaram a região dos anglos, deram-lhe o nome de Jórvík. York sofreu com a conquista normanda de 1066, mas prosperou na Idade Média. Durante a Guerra Civil Inglesa, de 1642 a 1651, foi um reduto realista, mas, apesar da derrota para as forças parlamentares, em 1660 era a terceira maior cidade da Inglaterra, depois de Londres e Norwich. Mais recentemente, tornou-se um importante centro ferroviário. Sua famosa rua medieval, Shambles; sua catedral gótica, a Minster; e as apresentações de peças de mistério são alguns dos seus atrativos. Festivais e eventos regulares atraem milhares de turistas todos os anos.

 

Eventos anômalos em York

Os alegados casos de fenômenos paranormais geralmente considerados fora da compreensão atual podem ser classificados em diferentes categorias, incluindo aparições e poltergeists, e outras atividades que se encaixam perfeitamente no mundo das lendas, como cães espectrais. Relatos deste último tipo não são abordados neste artigo, mas os leitores interessados ​​podem encontrá-los tratados pelo historiador local John Mitchell em Ghosts of an Ancient City (Fantasmas de uma Cidade Antiga)[2].

As evidências de fenômenos que são menos claramente lendas folclóricas foram fornecidas por uma ampla gama de testemunhas e pesquisadas por caçadores de fantasmas amadores, bem como por acadêmicos. As investigações foram conduzidas por meio de relatos anedóticos e análise profissional. Em termos de quantidade, consta que foram registrados mais de cento e quarenta avistamentos de fantasmas dentro das muralhas de York nos últimos anos[3].

 

Caso dos soldados romanos

O exemplo mais famoso de um suposto avistamento paranormal ocorreu no porão da Casa do Tesoureiro, em Minster Yard, em 1953. Um aprendiz de engenheiro de aquecimento de dezoito anos chamado Harry Martindale (1935–2014) testemunhou o que ficou conhecido como o Caso dos Soldados Romanos. Martindale manteve silêncio sobre sua experiência por muitos anos, receoso do efeito que isso poderia ter em sua carreira e em seu emprego subsequente como policial. Ele acabou relatando o ocorrido a John Mitchell, que ficou intrigado porque os avistamentos de Martindale eram consistentes com o que se sabia sobre o local e a aparência dos soldados, detalhes dos quais eram desconhecidos na época da experiência de Martindale.

O relato a seguir, ligeiramente editado, do episódio, extraído de uma entrevista gravada em áudio com Martindale por Melvyn Willin no porão do Minster Yard por volta de 1976, foi fornecido a Mitchell.

Eu era um aprendiz de dezoito anos fazendo alguns trabalhos no sistema de aquecimento central no porão. No meu segundo dia de trabalho, eu estava alguns degraus acima de uma escada quando, de repente, ouvi um som que parecia de trombeta, vindo de uma parede, ficando cada vez mais alto. Então, vi o que parecia ser um soldado romano, seguido por um cavalo e vários outros soldados, atravessando a parede e entrando no porão. Todos eles tinham as pernas cortadas na altura dos joelhos, a cerca de 45 centímetros do chão. Caí da escada e me escondi num canto, apavorado com a possibilidade de me verem, mas eles não demonstraram nenhum sinal de que eu estivesse ali. Usavam saias verdes e capacetes de metal, carregavam espadas curtas e escudos redondos. Não falavam e não se pareciam em nada com os soldados romanos que eu tinha visto no cinema. Quando finalmente consegui fugir do porão, o zelador me disse: "Você viu os soldados romanos, não é?"

A gravação de uma palestra dada por Mitchell e Martindale na conferência anual da SPR em 1998 está preservada no arquivo audiovisual da Sociedade de Pesquisa Psíquica. Mitchell relata que Martindale o informou que "ficou surpreso com a baixa estatura e a aparência desleixada deles... as roupas rústicas e caseiras que usavam. As sandálias, com ligas cruzadas até os joelhos... mas depois foram vistos caminhando no nível da própria estrada romana[4]". Escavações arqueológicas revelaram que a antiga Via Decumana romana passava pelo local da casa, aproximadamente 45 centímetros abaixo da superfície[5]. Os soldados romanos que Martindale viu foram vistos por outros desde então[6].

 

York Arms

Um incidente curioso, até então não descrito, ocorreu no York Arms em 1975 com um pequeno grupo de pesquisadores interessados, incluindo Willin. O pub era conhecido pela aparição de uma mulher e por alguma atividade poltergeist. Uma sessão espírita foi realizada utilizando um tabuleiro Ouija em forma de mesa, com um copo virado para cima e letras com as palavras "sim" e "não" ao redor.

Willin não participou da sessão, mas observou os diversos movimentos do copo, sem perceber nenhuma "mensagem" óbvia. Willin afastou-se da mesa e, com um pequeno pedaço de papel, escreveu a letra maiúscula "G", fora da vista dos participantes. Até onde ele sabia, a letra não tinha significado para nenhuma das pessoas presentes, nem para ele próprio. Contudo, quando perguntou se os "espíritos" poderiam se mover em direção à letra que havia escrito, o copo deslizou imediatamente e rapidamente pela mesa, derrubando a letra "G" no chão. Willin ficou chocado – assim como os participantes quando ele lhes mostrou a letra que havia escrito sorrateiramente. Isso pode ter sido um caso de telepatia inconsciente de uma das pessoas presentes, a própria psicocinese de Willin, ou simplesmente uma coincidência bastante significativa, em vez de ação espiritual. Nenhum outro evento anômalo ocorreu durante a sessão.

 

Rebeca e Livônia

Existem dois relatos aparentemente verídicos de regressão a vidas passadas que são de interesse para pesquisadores psíquicos que investigam fenômenos em York. Um deles é a história de "Rebecca", uma judia assassinada no século XII. Rebecca se apresentou como uma personalidade de vida passada de Jane Evans em regressões de idade conduzidas por Arnall Bloxham e descritas por Jeffrey Iverson em More Lives than One[7]. Sob regressão, Evans também assumiu uma vida anterior como "Livonia", uma romana que viveu em York no século III. Posteriormente , pesquisas arqueológicas confirmaram algumas das alegações de memória de Evans, notavelmente como "Rebecca"[8].

 

Outras Aparições e Poltergeists

A seguir, são listados outros casos documentados de fenômenos anônimos em York, com referências para os leitores que desejarem aprofundar-se em casos específicos. Estes representam apenas a ponta de um iceberg muito maior[9].

§  O Museu de Yorkshire foi palco de uma figura fantasmagórica em 1953, vista e ouvida pelo zelador e sua esposa. Eles forneceram um relato detalhado da experiência, que foi analisado pelos pesquisadores Eric Dingwall e Trevor Hall[10].

§  A Catedral de York é o local da aparição do fantasma do Deão Gale, um clérigo de alta patente que morreu em 1702. Há também registros do retorno de um soldado que morreu durante a Primeira Guerra Mundial. Ele apareceu lá para sua irmã e uma amiga dela[11].

§  A igreja da Santíssima Trindade é assombrada por vários fantasmas, incluindo três figuras distintas vistas à luz do dia, e em 1957, um professor de uma escola local relatou uma mudança repentina na atmosfera, descrita como "terrosa e fria, uma atmosfera de ossuário, de morte e decadência[12]".

§  A igreja de St. Crux foi identificada por um policial local de York, que ouviu o órgão sendo tocado quando a igreja estava vazia. Também houve relatos de pessoas que viram uma figura feminina envolta em um sudário e ouviram o farfalhar de um vestido quando não havia ninguém presente[13].

§  O Theatre Royal tinha uma "Dama Cinzenta" que cantava. Ela era vista com tanta frequência que um comitê organizou um exorcismo, após o qual o fantasma não retornou por um tempo[14]. Antes disso, várias testemunhas registraram o aparecimento de uma freira fantasmagórica. As ruínas do Hospital St. Leonard, que era administrado por ordens religiosas, fazem parte do teatro atual[15]. A suposta visitação da Dama Cinzenta retornou por volta de 1981, de acordo com a companhia teatral, incluindo a Srta. Evelyn Laye[16].

§  A escola de dança que funcionava na Igreja de Santa Maria, em Bishophill Junior, foi palco de várias supostas perturbações sonoras paranormais e atividades poltergeist, bem como aparições de uma 'figura' desconhecida, muitas das quais foram corroboradas por diversas testemunhas confiáveis[17].

§  Existem vários pubs com histórias de aparições e atividades poltergeist, incluindo o Cock & Bottle, o Black Swan, o Golden Fleece e o York Arms. O Cock & Bottle alega ter visto a aparição de uma figura que se acredita ser o fantasma de George Villiers, o 2º Duque de Buckingham, que pode ter frequentado o estabelecimento quando este se chamava Plumber's Arms. Também houve relatos de atividades poltergeist, com utensílios de cozinha se movendo sozinhos e portas se trancando misteriosamente por dentro quando não havia ninguém presente[18].

§  As partes mais antigas de York têm relatos de experiências vindas de Shambles e da área de Bedern. Esta última consistia em uma praça que, no século XVI, funcionou como asilo para pobres e, a partir de 1847, como casa de trabalho, onde crianças teriam sido tratadas com muita severidade e até morrido. A área, agora modernizada, tem sido citada como local de vozes de crianças desconhecidas e outras manifestações[19].

 

Conclusão

Será York a cidade mais assombrada da Europa?[20] O surgimento de passeios turísticos sobre fantasmas, com foco comercial e sensacionalista, desde que Mitchell e Martindale os inauguraram em 1973[21], proporcionou interesse e entretenimento, embora não tenha aumentado a veracidade das experiências relatadas por diversas pessoas. No entanto, existem alguns exemplos que podem, pelo menos, fornecer material para reflexão sobre fenômenos que não se encaixam no paradigma científico atual. Uma alternativa aos avistamentos de aparições e fenômenos poltergeist como evidência de sobrevivência pós-morte é o conceito de "deslizamentos temporais"[22], ainda mais considerando as recentes conexões feitas com a mecânica quântica[23].

 

Obras citadas

§  Bardens, D. (1991). Ahead of Time. London: Hale.

§  Brooks, J.A. (1990). Britain’s Haunted Heritage. London: Jarrold Publishing/BTA.

§  Danks, V. (2018). Haunted York. Wellington, Somerset, UK: Halsgrove.

§  Dingwall, E.J., & Hall, T.H. (1958). Four Modern Ghosts. London: Gerald Duckworth & Co.

§  Evans, S. (2006). Ghosts: Mysterious Tales from the National Trust. London: National Trust Books.

§  Fontana, D. (2004). Is There an Afterlife? A Comprehensive Overview of the Evidence. Ropley, Hampshire, UK: O Books.

§  Iverson, J. (1977). More Lives Than One? The Evidence of the Remarkable Bloxham Tapes. London: Pan Books.

§  Kirkup, R. (2012). Ghosts of York. Stroud, UK: Amberley.

§  Linahan, L. (1997). The North of England Ghost Trail. London: Constable & Company Ltd.

§  MacKenzie, A. (1997). Adventures in Time. London: Athlone Press.

§  Matthews, R. (1992). Haunted York. Andover, UK: Pitkin.

§  Mitchell, J.V. (1996). Ghosts of an Ancient City: Stories of Haunted York. York: Archives Department, St Peter’s School.

§  O’Dierno, E. (2023). Einstein, Quantum Physics, and the Pursuit of the Paranormal (Annotated ed). Privately published.

§  O’Donnell, E. (1939). Haunted Churches. London: Quality Press Ltd.

§  Pearse, B. (2008). Ghost-Hunter’s Casebook: The Investigations of Andrew Green Revisited. Stroud: Tempus Publishing.

§  Playfair, G.L. (1985). The Haunted Pub Guide. London: Harrap.

§  Sterling-Vete, B., & Wuorio, H.R. (2025). Quantum Paranormal: Quantum Physics Explaining Paranormal Phenomena. Independently published.

§  Underwood, P. (1984). This Haunted Isle: The Ghosts and Legends of Britain’s Historic Buildings. London: Harrap.

§  Underwood, P. (1993). Ghosts and How to See Them. London: BCA.

§  Willin, M. (2016). Past life regression (PLR). Psi-Encyclopedia. Web page.

§  Willin, M.J. (2022). Music and the Paranormal: An Encyclopedic Dictionary. Jefferson, North Carolina, USA: McFarland & Company.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Mitchell (1996).

[3] Linahan (1997), 195.

[4] Mitchell (1996), 70.

[5] Evans (2006), 133.

[6] Veja Mitchell (1996, 70-73) and Underwood (1984, 233-38).

[7] Iverson (1977).

[8] Para detalhes, veja aqui.

[9] Para visões gerais, veja Danks (2018); Kirkup (2023); Matthews (1992); Mitchell (1996).

[10] Dingwall & Hall (1958), 27-45 e citado em Fontana (2004), 31-32.

[11] Brooks (1990), 146; O’Donnell (1939), 82-83.

[12] Mitchell (1996), 4-5.

[13] O’Donnell (1939), 87-88; Willin (2021), 215-16.

[14] Brooks (1990), 147.

[15] Pearse (2007), 186-87.

[16] Mitchell (1996), 14-16.

[17] Mitchell (1996), 44-47.

[18] Linahan (1997), 199-200; Playfair (1985), 229-30.

[19] Mitchell (1996), 48-49.

[20] Underwood (1993), 76.

[21] Willin observou que atores às vezes são contratados para pular nos participantes nessas caminhadas fantasmas.

[22] Bardens (1991); MacKenzie (1997).

[23] e.g., by O’Dierno (2018) and Sterling-Vete & Wuorio (2025).