Wilson Garcia - fev
5, 2026
“Quem o alheio veste, na praça o
despe”, dizia o velho português com aquela sabedoria que vem da vida e não das
teorias. Ouvi essa frase há cinquenta anos, e ela parecia carregar um juízo
moral simples: quem toma o que não lhe pertence será desmascarado diante da
consciência coletiva.
Hoje, porém, o cenário moral que
sustentava esse provérbio parece ter se transformado profundamente. O mundo
vive uma escalada de violência — física, simbólica, digital — que afeta não
apenas os comportamentos, mas a própria crença de que a humanidade segue um
curso evolutivo em direção ao bem. É como se, diante de tantas fraturas, a
confiança no progresso moral estivesse em suspensão.
É precisamente aqui que o
pensamento espírita oferece uma interpretação singular e surpreendentemente
atual.
Segundo Allan Kardec, há dois
movimentos fundamentais na evolução humana: o progresso intelectual, quase
inevitável, e o progresso moral, lento e dependente do esforço individual
(KARDEC, 1868, cap. XVIII). O primeiro avança por força da curiosidade e da
experiência; o segundo exige escolhas, disciplina íntima e superação do
egoísmo. É por isso que a humanidade pode desenvolver tecnologias
extraordinárias — desde sistemas de inteligência artificial até redes de
comunicação planetária — sem que isso se traduza automaticamente em
fraternidade, justiça social ou respeito ao próximo.
Essa defasagem explica o
paradoxo contemporâneo: quanto mais o mundo avança em meios, mais se perde em
fins. Kardec já enumerava o egoísmo como o “mal predominante da humanidade”
(KARDEC, 1857, q. 913), raiz psicológica que sabota o progresso moral mesmo em
sociedades altamente instruídas. A violência crescente, sob essa perspectiva,
não é apenas um fenômeno sociológico; é um sintoma espiritual da desigualdade
entre essas duas formas de evolução.
O provérbio português
pressupunha uma praça — uma consciência pública — capaz de reprovar desvios e
restabelecer a ordem moral. Hoje, a praça se fragmentou em incontáveis
microterritórios, especialmente no universo digital, onde cada grupo legitima a
própria visão de mundo. O desmascaramento (“o despe”) já não produz vergonha;
produz disputa narrativa. A correção moral, antes tácita, tornou-se volátil.
No entanto, segundo o
Espiritismo, essa crise não significa retrocesso absoluto, mas sim transição.
Kardec descreve momentos históricos em que os valores antigos se tornam
insustentáveis, enquanto os novos ainda não se consolidaram (KARDEC, 1868, cap.
XVIII). Chamou-os de “períodos de renovação” — tempos em que as contradições se
acentuam justamente para revelar aquilo que precisa ser transformado.
Sob essa ótica, a violência e a
desconfiança social não são o fim de um ciclo, mas o choque entre mundos:
−
o mundo velho,
centrado no privilégio, no egoísmo e na aparência;
−
e o mundo novo,
que ainda luta para nascer, estruturado na responsabilidade, na justiça e na
solidariedade.
O velho português talvez não
soubesse disso, mas intuía a dinâmica moral das leis espirituais. No plano
profundo, ninguém “veste o alheio” sem enfrentar, mais cedo ou mais tarde, a
verdade sobre si mesmo. E a “praça”, no sentido espírita, não é a rua pública —
é a consciência, esse tribunal silencioso onde cada ato encontra consequência,
aprendizado e reparação.
O que falta ao nosso tempo, mais
do que punições, é o reencontro com essa consciência moral ampliada — aquilo
que Kardec descreve como “substituição do egoísmo pela caridade” (KARDEC, 1857,
q. 886), fundamento da regeneração espiritual do planeta.
Quando essa consciência
desperta, o provérbio antigo deixa de ser advertência e se torna promessa:
ninguém permanece indefinidamente oculto sob aquilo que não lhe pertence —
porque o progresso moral, embora lento, é inevitável.
As duas praças: a da vida presente e a da vida futura
Se ampliamos o provérbio — “Quem
o alheio veste, na praça o despe” — percebemos que ele se desdobra em duas
praças simbólicas que atravessam a existência humana. A primeira é a praça
visível, histórica, social: o espaço em que o indivíduo responde pelos atos
cometidos na vida atual — corrupção, usurpação, violência, desonestidade. Ali,
a consciência coletiva funciona como um espelho que, mais cedo ou mais tarde,
revela o que foi indevidamente apropriado.
Mas existe também uma segunda
praça, mais profunda e inevitável: a praça espiritual. Nela, não é a sociedade
que convoca o indivíduo — é a própria lei de causa e efeito, descrita por
Kardec como uma das dinâmicas fundamentais da justiça divina (KARDEC, 1865,
cap. VII).
Segundo o Espiritismo, ninguém
leva para além da morte aquilo que não lhe pertence por direito. As “vestes” do
privilégio, da posse ilegítima ou da exploração do outro não atravessam o
limiar da vida espiritual. Essa ideia é reafirmada em O Livro dos Espíritos,
quando os Espíritos explicam que as condições de cada nova existência resultam
do estado moral do Espírito e das consequências naturais de seus atos
anteriores (KARDEC, 1857, q. 258; q. 971).
Assim, se a praça humana falha —
se a época, a política ou os sistemas sociais não desnudam a injustiça — a
praça espiritual, pela reencarnação, o fará. Não como castigo, mas como
reparação educativa, mecanismo pelo qual o Espírito retorna à vida física para
recompor o que distorceu, recuperar o que destruiu, reconstruir o que feriu.
Kardec afirma que o Espírito escolhe novas provas com vistas à própria melhora
e à reparação de faltas passadas (KARDEC, 1857, q. 266).
Dessa forma:
−
Quem usurpou
poder, muitas vezes renasce em condições de subalternidade, aprendendo o valor
da humildade e da reciprocidade.
−
Quem explorou o
outro, renasce frequentemente em posições vulneráveis, compreendendo na própria
carne a dor que causou.
−
Quem acumulou às
custas do sofrimento coletivo, retorna à vida para servir e restituir, como
descreve Kardec ao tratar das provas reparadoras (KARDEC, 1864, cap. V, item
11).
A praça espiritual, portanto,
não é pública — é íntima. É o cenário onde o Espírito, confrontado com sua
própria consciência e com a verdade de si mesmo, se “despe” daquilo que jamais
lhe pertenceu em essência.
Quando vistas em conjunto, as
duas praças — a da vida presente e a da vida futura — revelam a coerência
profunda das leis morais. A justiça humana corrige o que vê; a justiça divina
corrige também o que não se vê. E o progresso moral, embora lento, confirma o
que o provérbio português dizia de modo intuitivo: ninguém conserva
indefinidamente o que tomou do outro, porque a evolução espiritual exige
devolução, reparação e crescimento.
O esquecimento do passado como leveza moral e liberdade
criadora
Se despir a veste alheia
significa alcançar uma consciência ampliada, voltada para o bem comum e para a
reconstrução ética da própria trajetória, então se torna evidente a importância
do esquecimento do passado em cada nova existência no planeta.
Segundo Allan Kardec, ao
reencarnar, o Espírito não traz à lembrança as faltas específicas cometidas
anteriormente. Esse esquecimento — frequentemente mal compreendido — não é
punição, mas recurso pedagógico essencial, destinado a favorecer o progresso moral
e impedir que antigas emoções perturbadoras paralisem a nova etapa da vida
(KARDEC, 1857, q. 392).
O passado não desaparece:
permanece latente, influenciando tendências e predisposições, mas sem impor ao
Espírito o peso emocional de lembranças vivas. Como explica Kardec, esse véu
temporário é necessário para que o indivíduo não seja esmagado pela vergonha,
pelo remorso ou pelo trauma, nem reacenda velhos conflitos com desafetos
reencontrados (KARDEC, 1857, q. 393).
A alma renasce, então, livre do
fardo e das imagens do passado, ainda que carregue, em profundidade, a
experiência imortal que lhe molda o caráter. Esse esquecimento é um ato de
misericórdia e de estratégia divina: permite ao Espírito recomeçar, sem amarras
psicológicas que desviariam o propósito da nova existência.
Como afirma Kardec, o
esquecimento é condição indispensável para que o Espírito cumpra, com eficácia,
o programa de provas e reparações ao qual se vinculou antes de renascer.
Lembranças demasiado vivas poderiam provocar confusões morais, impedir reconciliações
e mesmo alimentar preconceitos ou animosidades (KARDEC, 1857, q. 399).
Assim, o esquecimento do passado
funciona como leveza moral, como um esvaziamento interior que torna possível a
construção do futuro com matéria-prima limpa.
A consciência chega ao novo
corpo sem culpa esmagadora, sem vaidades antigas, sem humilhações que a
imobilizem. Chega pronta para construir, não para repetir.
Livre do peso das lembranças, o
Espírito torna-se mais apto a agir no presente; mais capaz de cooperar com a
sociedade; e mais sensível à ética do bem comum, que substitui o antigo
patrimônio egoístico pelo patrimônio coletivo da evolução.
Referências
§ KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 1ª ed. Paris: Didier,
1857.
§ KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução
de Guillon Ribeiro. 92ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. (Questões 392, 393 e
399).
§ KARDEC, A. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1ª
ed. Paris: Didier, 1864.
§ KARDEC, A. O Céu e o Inferno. 1ª ed. Paris: Didier,
1865.
§ KARDEC, A. A Gênese.
1º ed. Paris: Didier, 1868.



