sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

QUEM O ALHEIO VESTE, NA PRAÇA O DESPE — e o mundo já não se constrange

 


Wilson Garcia -  fev 5, 2026

 

“Quem o alheio veste, na praça o despe”, dizia o velho português com aquela sabedoria que vem da vida e não das teorias. Ouvi essa frase há cinquenta anos, e ela parecia carregar um juízo moral simples: quem toma o que não lhe pertence será desmascarado diante da consciência coletiva.

Hoje, porém, o cenário moral que sustentava esse provérbio parece ter se transformado profundamente. O mundo vive uma escalada de violência — física, simbólica, digital — que afeta não apenas os comportamentos, mas a própria crença de que a humanidade segue um curso evolutivo em direção ao bem. É como se, diante de tantas fraturas, a confiança no progresso moral estivesse em suspensão.

É precisamente aqui que o pensamento espírita oferece uma interpretação singular e surpreendentemente atual.

Segundo Allan Kardec, há dois movimentos fundamentais na evolução humana: o progresso intelectual, quase inevitável, e o progresso moral, lento e dependente do esforço individual (KARDEC, 1868, cap. XVIII). O primeiro avança por força da curiosidade e da experiência; o segundo exige escolhas, disciplina íntima e superação do egoísmo. É por isso que a humanidade pode desenvolver tecnologias extraordinárias — desde sistemas de inteligência artificial até redes de comunicação planetária — sem que isso se traduza automaticamente em fraternidade, justiça social ou respeito ao próximo.

Essa defasagem explica o paradoxo contemporâneo: quanto mais o mundo avança em meios, mais se perde em fins. Kardec já enumerava o egoísmo como o “mal predominante da humanidade” (KARDEC, 1857, q. 913), raiz psicológica que sabota o progresso moral mesmo em sociedades altamente instruídas. A violência crescente, sob essa perspectiva, não é apenas um fenômeno sociológico; é um sintoma espiritual da desigualdade entre essas duas formas de evolução.

O provérbio português pressupunha uma praça — uma consciência pública — capaz de reprovar desvios e restabelecer a ordem moral. Hoje, a praça se fragmentou em incontáveis microterritórios, especialmente no universo digital, onde cada grupo legitima a própria visão de mundo. O desmascaramento (“o despe”) já não produz vergonha; produz disputa narrativa. A correção moral, antes tácita, tornou-se volátil.

No entanto, segundo o Espiritismo, essa crise não significa retrocesso absoluto, mas sim transição. Kardec descreve momentos históricos em que os valores antigos se tornam insustentáveis, enquanto os novos ainda não se consolidaram (KARDEC, 1868, cap. XVIII). Chamou-os de “períodos de renovação” — tempos em que as contradições se acentuam justamente para revelar aquilo que precisa ser transformado.

Sob essa ótica, a violência e a desconfiança social não são o fim de um ciclo, mas o choque entre mundos:

         o mundo velho, centrado no privilégio, no egoísmo e na aparência;

         e o mundo novo, que ainda luta para nascer, estruturado na responsabilidade, na justiça e na solidariedade.

O velho português talvez não soubesse disso, mas intuía a dinâmica moral das leis espirituais. No plano profundo, ninguém “veste o alheio” sem enfrentar, mais cedo ou mais tarde, a verdade sobre si mesmo. E a “praça”, no sentido espírita, não é a rua pública — é a consciência, esse tribunal silencioso onde cada ato encontra consequência, aprendizado e reparação.

O que falta ao nosso tempo, mais do que punições, é o reencontro com essa consciência moral ampliada — aquilo que Kardec descreve como “substituição do egoísmo pela caridade” (KARDEC, 1857, q. 886), fundamento da regeneração espiritual do planeta.

Quando essa consciência desperta, o provérbio antigo deixa de ser advertência e se torna promessa: ninguém permanece indefinidamente oculto sob aquilo que não lhe pertence — porque o progresso moral, embora lento, é inevitável.

 

As duas praças: a da vida presente e a da vida futura

Se ampliamos o provérbio — “Quem o alheio veste, na praça o despe” — percebemos que ele se desdobra em duas praças simbólicas que atravessam a existência humana. A primeira é a praça visível, histórica, social: o espaço em que o indivíduo responde pelos atos cometidos na vida atual — corrupção, usurpação, violência, desonestidade. Ali, a consciência coletiva funciona como um espelho que, mais cedo ou mais tarde, revela o que foi indevidamente apropriado.

Mas existe também uma segunda praça, mais profunda e inevitável: a praça espiritual. Nela, não é a sociedade que convoca o indivíduo — é a própria lei de causa e efeito, descrita por Kardec como uma das dinâmicas fundamentais da justiça divina (KARDEC, 1865, cap. VII).

Segundo o Espiritismo, ninguém leva para além da morte aquilo que não lhe pertence por direito. As “vestes” do privilégio, da posse ilegítima ou da exploração do outro não atravessam o limiar da vida espiritual. Essa ideia é reafirmada em O Livro dos Espíritos, quando os Espíritos explicam que as condições de cada nova existência resultam do estado moral do Espírito e das consequências naturais de seus atos anteriores (KARDEC, 1857, q. 258; q. 971).

Assim, se a praça humana falha — se a época, a política ou os sistemas sociais não desnudam a injustiça — a praça espiritual, pela reencarnação, o fará. Não como castigo, mas como reparação educativa, mecanismo pelo qual o Espírito retorna à vida física para recompor o que distorceu, recuperar o que destruiu, reconstruir o que feriu. Kardec afirma que o Espírito escolhe novas provas com vistas à própria melhora e à reparação de faltas passadas (KARDEC, 1857, q. 266).

Dessa forma:

         Quem usurpou poder, muitas vezes renasce em condições de subalternidade, aprendendo o valor da humildade e da reciprocidade.

         Quem explorou o outro, renasce frequentemente em posições vulneráveis, compreendendo na própria carne a dor que causou.

         Quem acumulou às custas do sofrimento coletivo, retorna à vida para servir e restituir, como descreve Kardec ao tratar das provas reparadoras (KARDEC, 1864, cap. V, item 11).

A praça espiritual, portanto, não é pública — é íntima. É o cenário onde o Espírito, confrontado com sua própria consciência e com a verdade de si mesmo, se “despe” daquilo que jamais lhe pertenceu em essência.

Quando vistas em conjunto, as duas praças — a da vida presente e a da vida futura — revelam a coerência profunda das leis morais. A justiça humana corrige o que vê; a justiça divina corrige também o que não se vê. E o progresso moral, embora lento, confirma o que o provérbio português dizia de modo intuitivo: ninguém conserva indefinidamente o que tomou do outro, porque a evolução espiritual exige devolução, reparação e crescimento.

 

O esquecimento do passado como leveza moral e liberdade criadora

Se despir a veste alheia significa alcançar uma consciência ampliada, voltada para o bem comum e para a reconstrução ética da própria trajetória, então se torna evidente a importância do esquecimento do passado em cada nova existência no planeta.

Segundo Allan Kardec, ao reencarnar, o Espírito não traz à lembrança as faltas específicas cometidas anteriormente. Esse esquecimento — frequentemente mal compreendido — não é punição, mas recurso pedagógico essencial, destinado a favorecer o progresso moral e impedir que antigas emoções perturbadoras paralisem a nova etapa da vida (KARDEC, 1857, q. 392).

O passado não desaparece: permanece latente, influenciando tendências e predisposições, mas sem impor ao Espírito o peso emocional de lembranças vivas. Como explica Kardec, esse véu temporário é necessário para que o indivíduo não seja esmagado pela vergonha, pelo remorso ou pelo trauma, nem reacenda velhos conflitos com desafetos reencontrados (KARDEC, 1857, q. 393).

A alma renasce, então, livre do fardo e das imagens do passado, ainda que carregue, em profundidade, a experiência imortal que lhe molda o caráter. Esse esquecimento é um ato de misericórdia e de estratégia divina: permite ao Espírito recomeçar, sem amarras psicológicas que desviariam o propósito da nova existência.

Como afirma Kardec, o esquecimento é condição indispensável para que o Espírito cumpra, com eficácia, o programa de provas e reparações ao qual se vinculou antes de renascer. Lembranças demasiado vivas poderiam provocar confusões morais, impedir reconciliações e mesmo alimentar preconceitos ou animosidades (KARDEC, 1857, q. 399).

Assim, o esquecimento do passado funciona como leveza moral, como um esvaziamento interior que torna possível a construção do futuro com matéria-prima limpa.

A consciência chega ao novo corpo sem culpa esmagadora, sem vaidades antigas, sem humilhações que a imobilizem. Chega pronta para construir, não para repetir.

Livre do peso das lembranças, o Espírito torna-se mais apto a agir no presente; mais capaz de cooperar com a sociedade; e mais sensível à ética do bem comum, que substitui o antigo patrimônio egoístico pelo patrimônio coletivo da evolução.

 

 Referências

§  KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 1ª ed. Paris: Didier, 1857.

§  KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 92ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. (Questões 392, 393 e 399).

§  KARDEC, A. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1ª ed. Paris: Didier, 1864.

§  KARDEC, A. O Céu e o Inferno. 1ª ed. Paris: Didier, 1865.

§  KARDEC, A. A Gênese. 1º ed. Paris: Didier, 1868.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

DESIGUALDADE[1]

 


Miramez

 

Encarnação nos diferentes mundos

Os seres que habitam cada mundo hão todos alcançado o mesmo nível de perfeição?

Não; dá-se em cada um o que ocorre na Terra: uns Espíritos são mais adiantados do que outros.

Questão 179 / O Livro dos Espíritos

 

As diferenças são uma constante em todos os mundos e em tudo que existe no universo. Nada é perfeitamente igual ao outro, mesmo que estejam ligados pela mesma linha de afinidades, quer seja no reino mineral, vegetal ou animal.

Dentro do entendimento da harmonia, as desigualdades são trecos de beleza. Oferece-nos exemplos vivo dessa afirmativa a própria natureza. Cabe a nós outros entender o porquê dessa desigualdade de tudo, para formar uma unidade universa na conjuntura da força de Deus como Soberano Senhor.

Os Espíritos que reencarnam em um planeta não são todos iguais no saber e no amor; existem diferenças entre uns e outros, para que a escola se faça entre os próprios Espíritos, uns ensinando aos outros. Daí se iniciam o amor e os laços da fraternidade, mediante as necessidades de uns para com os outros. Assim também alguns países são diferentes uns dos outros em tudo que neles se pensa e se faz; no entanto, carregam no fundo a unidade de ideais. Uma gota de água não e igualzinha à outra, no tamanho e na forma; entretanto, elas se juntam para beneficiarem de muitas formas. Assim é tudo que existe na Terra e no céu, assim é a vida em todas as suas características.

Se vamos para mundos superiores, encontraremos lá Espírito de muitos níveis espirituais, porém, pelo fato de ser mundo superior, todos que ali se encontram estão dispostos a aprender dentro do aperfeiçoamento que lhes cabe assimilar. Mesmo nos mundos inferiores, em que os Espíritos se apresentam também em escalas diversas, Deus usa uns para ensinar aos outros, uns compensando as deficiências dos outros; não há mestre que não aprenda com os alunos. Os alunos são livros que Deus usa para ensinar mais, enquanto adquirem novos conhecimentos.

Cada criatura é um mundo diferente da outra. Os caminhos que percorrem são variáveis, apresentando modalidades diversas, todavia, objetivando o mesmo fim: a perfeição espiritual. É proveitoso saber que todos somos livres para escolher, mas não temos liberdade de colher os frutos, a não ser aqueles cujas sementes plantamos.

As desigualdades nos parecem de relance, a falta de harmonia, mas não é: é o amor vencendo barreiras para amar mais, fazendo justiça e ampliando condições para verdadeira fraternidade. Nem entre os anjos existe igualdade; cada um se encontra em uma dimensão de amor e de saber e, entre eles, o aprendizado é mais proveitoso, pela humildade e pelo interesse na iluminação da própria consciência.

A compreensão é que faz nivelar todas as criaturas, mesmo que não vibrem na mesma faixa de entendimento. O Cristo veio nos ensinar os meios de compreender nossos semelhantes, bem como de eles nos entendem, pelo perdão, pelo trabalho, pela caridade e pelo amor.

Se desejamos ser maiores, é da lei que aprendamos a ser menores, policiando nossos pensamentos e vigiando nossas ideias, travando a nossa língua para que a nossa vida se torne exemplo da nobreza do bom comportamento.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 4 – João Nunes Maia

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

REENCARNAÇÃO E O PROBLEMA POPULACIONAL[1]

 

Tertuliano de Cartago

K.M. Wehrstein

 

O "problema populacional" na pesquisa sobre reencarnação refere-se ao argumento, apresentado inicialmente na antiguidade, de que o crescimento contínuo da população humana comprova a impossibilidade da reencarnação. Diversas soluções para o problema foram propostas.

 

História

O filósofo cristão primitivo Tertuliano de Cartago (160–222) foi a primeira pessoa conhecida a abordar o problema populacional. Em seu tratado sobre a alma humana De Anima[2], ele começa estabelecendo, a seu ver, que para que a reencarnação ocorra, a população humana deve permanecer em um número fixo:

Os vivos precederam os mortos, depois os mortos surgiram dos vivos, e então os vivos surgiram dos mortos. Ora, como esse processo sempre se repetia com as mesmas pessoas, elas, surgindo das mesmas, deviam sempre permanecer em número as mesmas. Pois aqueles que emergiam (para a vida) jamais poderiam ser mais ou menos do que aqueles que desapareciam (na morte)[3].

Ele então apresenta um argumento correto em favor do aumento populacional em sua própria época e conclui que, portanto, a reencarnação não pode ocorrer.

Este é apenas um dos muitos argumentos contra a reencarnação que Tertuliano apresenta nos oito capítulos do tratado. Estes, juntamente com escritos de outros filósofos cristãos primitivos, provavelmente contribuíram para a rejeição oficial da reencarnação pelo cristianismo, decidida em 325 no Primeiro Concílio de Niceia, convocado pelo imperador romano Constantino, o Grande (274-337)[4]. Os argumentos de Tertuliano foram citados por céticos modernos como Paul Edwards[5] e Michael Shermer[6], que afirmam que a reencarnação requer um número fixo de indivíduos na população.

 

Contra-argumentos

Ian Stevenson , pioneiro na pesquisa sobre reencarnação, abordou o problema populacional em um artigo de 1974, apontando que muitas variáveis ​​são desconhecidas para que a reencarnação possa ser descartada apenas com base em dados demográficos. Ele observa que é possível que os intervalos entre as vidas na pré-história e no início da história tenham sido muito mais longos do que são hoje. Ele também sugere que as almas podem ter migrado de animais não humanos para humanos, ou até mesmo (de uma forma assumidamente ficção científica) de outros planetas.

O pesquisador da reencarnação James G. Matlock sugeriu que novas almas poderiam "se desprender da divindade" conforme necessário (como afirma o Vedanta). Outras alternativas, acrescenta ele, são a preexistência sem encarnação prévia; ou a noção, promovida pelo influente rabino e filósofo alemão do Renascimento, Yitzhak Luria, de uma alma composta por múltiplos níveis que reencarnam independentemente; ou que as almas são "promovidas na linha evolutiva", como acreditam os teosofistas. Finalmente , há a concepção animista de que "os espíritos podem se replicar à vontade[7]".

 

O experimento de Bishai

Interessado em explorar a matemática do problema populacional, o professor de saúde pública David Bishai tentou cálculos computadorizados e publicou os resultados em um artigo intitulado "O crescimento populacional pode descartar a reencarnação? Um modelo de migração circular", em 2000, sendo "migração circular" uma referência às migrações cíclicas das almas através dos estados encarnado e desencarnado[8]. Ele demonstrou que os dados demográficos não podem ser usados ​​para refutar a reencarnação, a menos que se assuma uma população fixa de almas (incluindo encarnadas e desencarnadas) – e mesmo assim, não se a duração do intervalo for variável.

Interface gráfica do usuário, Aplicativo

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

Neste excerto da tabela de resultados de Bishai[9], 'Estado A' refere-se à existência encarnada, 'Estado B' à existência desencarnada, ou ao que os pesquisadores da reencarnação chamam de intervalo. 'K' é uma população fixa presumida de almas encarnadas ou desencarnadas. Para uma população mínima provável de almas, Bishai usou o pico previsto pelas Nações Unidas para a população humana encarnada (10 bilhões); para um máximo, ele escolheu uma estimativa calculada do número de humanos que já viveram desde o primeiro sepultamento ritual de um homo sapiens (c. 50.000 a.C.), arredondando para 100 bilhões. Ele então calculou os tempos de permanência no Estado B, ou seja, a duração do intervalo, com base em

1.       taxas de natalidade e mortalidade conhecidas ou estimadas;

2.       populações humanas conhecidas ou estimadas e

3.       valores de 'K' dados, ou seja, populações de almas de 10 bilhões, 20 bilhões e 100 bilhões – para os anos 50.000 a.C., 4.000 a.C., 1650 d.C. e 2000 d.C.

Os resultados são mostrados na tabela acima.

 

Discussão

Os cálculos de Bishai partem do pressuposto de que não existem dados sobre a duração do intervalo. No entanto, os casos de reencarnação em que a encarnação anterior é identificada, como os cerca de 1.700 coletados por Stevenson e outros pesquisadores afiliados à Divisão de Estudos Perceptivos, geralmente incluem a data de falecimento da encarnação anterior e a data de nascimento do indivíduo, fornecendo uma duração precisa do intervalo. A partir desses valores, Stevenson calculou uma duração mediana de intervalo de quinze meses para 616 casos. Ele também conseguiu discernir padrões na duração do intervalo por meio de análise estatística.

Matlock contribuiu para este trabalho. Ele resume suas descobertas aqui[10], apontando fortes variações culturais na duração do intervalo entre os estudos, entre outros padrões. Culturalmente, a duração média do intervalo varia de quatro meses na tribo Haida do noroeste da América do Norte a quase doze anos em americanos não tribais, e ainda mais, se os casos americanos publicados após os cálculos de Stevenson também forem incluídos.

Os intervalos propostos por Bishai são muito mais longos: no modelo de menor população de Bishai (10 bilhões), mesmo o menor intervalo médio (trinta anos no ano 2000), embora talvez plausível para um caso americano, está muito acima da média mundial, enquanto os valores de cinco dígitos para 50.000 a.C. e 4.000 a.C. estão muito fora de cogitação. Portanto, é improvável que uma diminuição no intervalo possa reconciliar a reencarnação com um número fixo de almas.

Em todo caso, não há evidências de grandes mudanças na duração do intervalo ao longo da história. Para explicar completamente a duplicação da população humana entre 1960 (3 bilhões) e 1999 (6 bilhões)[11], a duração média do intervalo teria que ter diminuído pela metade durante o período em que Stevenson coletava os casos – um fato que ele e outros pesquisadores certamente teriam observado. Em vez disso, há algumas evidências de estabilidade, visto que os relatos de reencarnação em fontes orientais antigas e medievais apresentam muitas características semelhantes às investigadas pelos pesquisadores atualmente, incluindo a duração típica do intervalo asiático de alguns anos ou meses[12].

Possivelmente, a solução mais lógica e parcimoniosa para o problema populacional é assumir uma contínua vinda à existência de almas. Nossa presença prova que as almas vieram à existência em algum momento, e nenhuma razão para que esse processo tenha cessado, ou evidência de tal cessação, foi apresentada. Como escreve o biólogo e parapsicólogo Michael Nahm : "Já estamos aqui, então por que outros não deveriam vir e se juntar a nós?[13]"

Este modelo tem implicações importantes para a teoria e crença na reencarnação. Ele refuta a crença comum de que todos têm inúmeras vidas passadas, ao mesmo tempo que apoia a crença comum em almas de diferentes idades. De fato, sugere que a vasta maioria das pessoas que vivem atualmente devem ser almas relativamente "novas" e que os jovens, em especial, provavelmente são "primeiras almas". Uma preponderância de almas novas pode parecer apresentar problemas; no entanto, o modelo não confirma (nem aborda) a crença comum de que almas antigas são invariavelmente mais sábias e espiritualmente avançadas, assim como a idade dentro de uma vida não garante sabedoria ou avanço espiritual, portanto, isso provavelmente não é uma preocupação.

 

Literatura

§  Bishai, D. (2000). Can population growth rule out reincarnation? A model of circular migration. Journal of Scientific Exploration 14/3, 411-20.

§  Edwards, P. (1996). Reincarnation: A Critical Examination. Amherst, New York, USA: Prometheus Books.

§  Haraldsson, E., & Matlock, J.G. (2016). I Saw a Light and Came Here: Children’s Experiences of Reincarnation. Hove, UK: White Crow Books.

§  Matlock, J.G. (2017a). Patterns in reincarnation cases. Psi Encyclopedia. [Web page.]

§  Matlock, J.G. (2017b). Reincarnation accounts from before 1900. Psi Encyclopedia. [Web page.]

§  Matlock, J.G. (2019). Signs of Reincarnation: Exploring Beliefs, Cases, and Theory. Lanham, Maryland, USA: Rowman & Littlefield.

§  Nahm, M. (2023). Climbing Mount Evidence: A strategic assessment of the best available evidence for the survival of human consciousness after permanent bodily death. Posted on The 2021 BICS Essay Contest Runners-Up web page, Bigelow Institute for Consciousness Studies, 2021. In Winning Essays 2023: Proof of Survival of Human Consciousness Beyond Permanent Bodily Death, 108-200. Las Vegas, Nevada, USA: Bigelow Institute for Consciousness Studies.

§  Shermer, M. (2018). Heavens on Earth: The Scientific Search for the Afterlife, Immortality, and Utopia. New York: Henry Holt.

§  Stevenson, I. (1974). Questions related to cases of the reincarnation type. Journal of the American Society for Psychical Research 68, 395-416.

§  Tertullian of Carthage (n.d./1998), trans. Holmes, P. De Anima [A Treatise on the Soul]. [Web page published on Tertullian.org, derived from the Christian Classics Electronic Library at Wheaton College.]

§  World Bank (2018). A changing world population. [Web page, published on the World Bank website, 8 October).

 

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Tertuliano (s/d/1998).

[3] Tertuliano (s/d/1998), Capítulo 30 .

[4] Matlock (2019), 74. Além de Tertuliano, Matlock também observa que Teófilo de Antióquia (falecido por volta de 181), Irineu de Lyon (falecido em 202) e Marco Minúcio Félix (falecido em 260) argumentaram contra a reencarnação.

[5] Edwards (1996), 226-33.

[6] Shermer (2018), 98-99.

[7] Matlock (2019), 111.

[8] Bishai (2000).

[9] Bishai (2000), 418, Tabela 2.

[10] Matlock (2017a). Para mais detalhes sobre a duração do intervalo, veja Haraldsson & Matlock (2016), 224-45, Tabela 26-4.

[11] Banco Mundial (2018); veja o gráfico intitulado "A população mundial aumentou de 3 bilhões em 1960 para 7,5 bilhões atualmente".

[12] Ver Matlock (2017b).

[13] Nahm (2023; itálico no original.), 160

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

ALBERTO RIBEIRO DE ALMEIDA[1]

 


 

Natural de Belém, no Pará.

Espírita de berço, envolveu-se no Movimento Espírita muito jovem, participando da juventude do Centro Espírita Yvon Costa. Atualmente, além de colaborar com a União Espírita Paraense, é diretor da Associação Médico-Espírita do Pará (AME-PA) e do Jardim das Oliveiras.

Realizando sua primeira palestra espírita aos 17 anos, profere conferências, seminários, workshop e encontros coloquiais no Brasil e no Exterior.

Tem publicadas, de sua lavra, as seguintes obras:

§  A Arte do Reencontro –

§  Casamento (2010),

§  O Perdão como Caminho...e o caminho do perdão (2012),

§  O Amor Pede Passagem (2013),

§  Pais e Filhos...fortalecendo vínculos (2014),

§  Respeito à Criança - cidadania desde a concepção (2015),

§  Espiritualidade em Gotas - 2 volumes (2016 e 2019),

§  Cuidando da sua criança interior (2018) e

§  Espiritismo e Meditação (2021).

Trabalha na educação e na promoção social das famílias abaixo da linha da pobreza no Jardim das Oliveiras, na capital paraense.

No Movimento Espírita do Paraná tem prestado sua colaboração desde outubro de 1991, quando realizou um périplo doutrinário pelas cidades de Curitiba, Guarapuava, Pato Branco, Cascavel, Foz do Iguaçu e Ponta Grossa.

Profissionalmente, é médico clínico geral e homeopata. Terapeuta de Família e Transpessoal.



[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=2716

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

LIMITAÇÕES DO ESPÍRITO[1]

 

Execução de Giordano Bruno - Samir Rakhmanov


Eder Andrade

 

Todos nós somos portadores de limitações que nos acompanham há várias encarnações como sombras que seguem nossa jornada evolutiva.

Elas refletem nosso atraso espiritual assim como nossa dificuldade em superar questões pessoais. Em alguns casos são problemas tão antigos quanto nossa existência, pois fazem parte até mesmo das nossas crenças e tradições transgeracionais.

Essas limitações se confundem com nossa história de vida, pois não conseguimos superar nossos bloqueios e atribuímos à nossa maneira de ser. Na verdade podem estar atreladas a questões de escolhas equivocadas da nossa parte, feitas em algum momento de uma existência passada.

Somos portadores de estruturas de pensamento muito empedernidas, cristalizadas por preconceitos e que para serem modificadas envolvem um forte desejo de transformação e mudança.

Segundo Emmanuel, muitos dos nossos erros estão relacionados ao nosso atraso moral e não propriamente a um sentimento de perversidade da nossa parte, segundo ele, somos reféns das nossas limitações e ignorância:

Recorda que há mais ignorância que maldade, em torno de teu destino[2].

Se o ser humano tivesse uma maior compreensão da sua realidade espiritual, cometeria menos erros, pois faria escolhas menos equivocadas. Dessa forma cometeria menos imprudências, uma vez que seria capaz de antever as consequências das suas escolhas.

É muito difícil admitir que deveríamos rever nossa história e nossas verdades, principalmente quando elas já se tornaram paradigmas da nossa existência, ou seja, uma crença quase inquestionável.

No crepúsculo da civilização em que rumamos para a alvorada de novos milênios, o homem que amadureceu o raciocínio supera as fronteiras da inteligência comum e acorda, dentro de si mesmo, com interrogativas que lhe incendeiam o coração.

À margem da senda em que jornadeia, surgem os escuros estilhaços dos ídolos mentirosos que adorou e, enquanto sensações de cansaço lhe assomam à alma enfermiça, o anseio da vida superior lhe agita os recessos do seu, qual braseiro vivo do ideal, sob a espessa camada de cinzas do desencanto[3].

A grande jornada entre a antiguidade e a sociedade moderna exigiu profundas mudanças e transformações, exigindo a destruição de antigos modelos e renovação de velhas crenças. Tradições que mantém a cultura ancorada em um passado obsoleto e ultrapassado, impedindo que novas ideias e concepções possam ser aceitas. O Velho Mundo deveria dar espaço para uma nova realidade cultural e científica, era o advento da Idade Moderna.

Essa visão épica dos grandes descobrimentos reflete o nosso atraso enquanto pensadores, pois ainda estamos com um pé na Idade Média e esse fato dificulta nossa aceitação de novas ideias e conceitos. Vivemos no presente, mas nossa estrutura de pensamento, em alguns aspectos ainda é ultrapassada.

Sem o paralelo da visão espiritual oferecida por Emmanuel, às vezes fica difícil compreender na íntegra a nossa dificuldade íntima evolutiva:

De portas abertas à glória do ensino, a Terra, nas linhas da atividade carnal, é, realmente, uma universidade sublime, funcionando, em vários cursos e disciplinas, com dois bilhões de alunos, aproximadamente, matriculados nas várias raças e nações.

Para a maioria dessas criaturas, necessitadas de experiência nova e mais ampla, a reencarnação não é somente um impositivo natural, mas também um prêmio pelo ensejo de aprendizagem3.

O homem se assusta com o novo, as mudanças geram desconfianças, pois nossas crenças nos prendem a valores atávicos tanto familiares como sociais, principalmente devido ao medo de nos tornarmos excluídos do grupo social em que vivemos.

O conhecimento da história, associada a visão espiritual de Emmanuel, é reforçado pela psicografia de Chico Xavier, onde interessantes passagens nos ajudam a compreender o processo de renovação e transformação da Idade Moderna:

O comércio se desloca das águas estreitas do Mediterrâneo para as grandes correntes do Atlântico, procurando as estradas esquecidas para o Oriente. Para facilitar a obra extraordinária dessa imensa tarefa de renovação, os auxiliares do Divino Mestre conseguem ambientar na Europa antigas invenções e utilidades do Oriente, como a bússola para as experiências marítimas e o papel para a divulgação do pensamento[4].

A evolução intelectual e moral dos espíritos vem passando por grandes ciclos evolutivos ao longo da História da Humanidade terrestre. Desde a Idade da Pedra Lascada mais remota da Antiguidade Oriental, até o atual século XXI.

Encontramos indivíduos visionários capazes de perceber as tênues diferenças entre a sombra e a luz, enquanto outras pessoas permanecem endurecidas em seus pontos de vista. Uma forte cultura atávica tradicional familiar ou até mesmo social, que estabelece um conjunto de crenças e ideias que formam a base da nossa visão de mundo, influenciando como interpretamos a realidade e tomamos decisões.

O rompimento com esse modelo não é uma questão de lógica, às vezes reflete nossa dificuldade de perceber uma realidade que está além do conhecimento convencional.

Um bom exemplo foi no dia 17 de fevereiro de 1600, uma quinta-feira ensolarada, Roma presenciou um espetáculo dantesco. Centenas de pessoas lotaram o Campo dei Fiori, uma praça no centro da cidade, para assistir à morte na fogueira de Giordano Bruno, por ordem da Santa Inquisição, quando disse em suas últimas palavras:

...que haja nesse espaço inúmeros corpos como nossa Terra e outras terras, nosso Sol e outros sóis, todos os quais executam revoluções nesse espaço infinito[5].



[1] O CONSOLADOR - Ano 19 - N° 951 - 30 de Novembro de 2025 - https://www.oconsolador.com.br/ano19/951/ca4.html

[2] Xavier, Francisco Cândido; Vida e Caminho (1994) Espíritos Diversos; Carta ao Ano Novo (Emmanuel); Ed. GEEM.

[3] Xavier, Francisco Cândido; Roteiro (1952); Cap. 1 - O Homem ante a vida; Cap. 9 - O grande Educandário (Emmanuel); Ed. FEB.

[4] Xavier, Francisco Cândido; A Caminho da Luz (1938); Cap XX – Renascença do Mundo – it.: Movimentos Regeneradores; Ed. FEB.

[5] Wikipédia (Enciclopédia Livre) - “Condenação à morte de Giordano Bruno, em Roma”.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

SEGUNDO A LEI NATURAL[1]

 


Miramez

 

Justiça e direitos naturais

Posto de parte o direito que a lei humana consagra, qual a base da justiça, segundo a lei natural?

Disse o Cristo: Queira cada um para os outros o que quereria para si mesmo. No coração do homem imprimiu Deus a regra da verdadeira justiça, fazendo que cada um deseje ver respeitados os seus direitos. Na incerteza de como deva proceder com o seu semelhante, em dada circunstância, trate o homem de saber como quereria que com ele procedessem, em circunstância idêntica. Guia mais seguro do que a própria consciência não lhe podia Deus haver dado.

Efetivamente, o critério da verdadeira justiça está em querer cada um para os outros o que para si mesmo quereria e não em querer para si o que quereria para os outros, o que absolutamente não é a mesma coisa. Não sendo natural que haja quem deseje o mal para si, desde que cada um tome por modelo o seu desejo pessoal, é evidente que nunca ninguém desejará para o seu semelhante senão o bem. Em todos os tempos e sob o império de todas as crenças, sempre o homem se esforçou para que prevalecesse o seu direito pessoal. A sublimidade da religião cristã está em que ela tomou o direito pessoal por base do direito do próximo. (Allan Kardec)

Questão 876 / O Livro dos Espíritos

 

Segundo a lei natural, o direito de um é o direito de outro, por serem todos iguais diante de Deus. Não é justo que uns tenham direitos diferentes dos outros, ante o Pai que se encontra na direção de tudo que existe.

Podemos observar a justiça interna, mesmo entre os órgãos que trabalham, sem nada exigir, para garantir a harmonia do conjunto sobre uma mente instintiva, recebendo ordens e mais ordens da consciência. Cada órgão, em seu lugar, tem trabalho a fazer. Segundo a lei natural, a lei de Deus é a mesma lei interna, que podemos observar quando despertados para tal, pelos processos que chamamos de dor e depois de amor.

Uma das nuances da lei da justiça é que cada um seja respeitado em seus direitos, sejam homens, países ou mesmo os mundos habitados. Os próprios átomos e planetas têm suas órbitas como sinal de respeito pelos que circulam por perto. O que chamamos de "lei da gravidade" nos mostra onde termina o direito do outro vizinho. Assim no mundo, com os pertences das criaturas: a lei se expressa em cercas, muros e papéis, afigurando o dono. Invadir os direitos dos outros passa a ser injustiça e falta grave, que merece punição.

Em Atos dos Apóstolos, capítulo nove, versículo vinte e quatro, passamos a ler o seguinte:

Porém o plano deles chegou ao conhecimento de Saulo; dia e noite guardaram também as portas para o matarem.

Vejamos aí a falta de respeito para com a vida alheia, a injustiça; por que Saulo não teria direito de pregar as ideias de vida e de justiça? Paulo sabia na carne o que era lutar contra Deus; o seu próprio mestre Gamaliel o informou sobre isso.

Desrespeitar a justiça é criar fogo para o seu próprio caminho. É o que não devem fazer os homens que estão lendo todos os dias o Evangelho. A primeira coisa que devemos fazer é respeitar os direitos dos outros, para que os outros respeitem os nossos. Se queremos colher bons frutos, não podemos esquecer as boas sementes. Busquemos a vida, que a vida mais intensa nos busca; demos a paz, ou estimulemos essa paz, que a paz vem ao nosso encontro, com todas as nuances de vida; perdoemos aos nossos ofensores, que eles tornar-se-ão nossos amigos do coração. Quando nos descuidamos dos nossos órgãos, eles se descuidam de nós; quando maltratamos as crianças, o coração sente.

As normas de vida mais excelentes são as dadas por Jesus em Seu Evangelho, porque ele estimula a vida e dá visão aos que padecem de cegueira.

Segundo a lei natural, é dando que recebemos; se escolhemos a dádiva, a vida, senão a lei, escolhe a recompensa na mesma dimensão. O verdadeiro critério de justiça começa na intimidade de cada um, porque a injustiça que pensamos fazer aos outros começa a ser deturpada dentro de nós mesmos.

Os erros alimentares são uma injustiça com o nosso próprio organismo. Os vícios são injustiça com muitos dos corpos que nos servem, para que tenhamos harmonia no coração. A perca do sono em demasia, por coisas vãs, é uma injustiça para com o instrumento de carne. O trabalho que ultrapassa nossas forças é, igualmente, injustiça com as nossas qualidades de servir.

A Doutrina Espírita é um manancial de orientações espirituais, que vão chegando do céu de acordo com as necessidades da alma. Não a desprezes, pois é na luta para compreendermos a justiça, que o amor nos chega ao coração.

Se acordamos para o direito pessoal, devemos saber em seguida que devemos respeitar o direito do próximo. Jesus não pediu aos homens para amarem ao próximo como a eles mesmos? Eis ai a lei com mais evidência, buscando-nos, para que nos tornemos felizes, no cumprimento dos nossos deveres.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 9 – João Nunes Maia