quarta-feira, 3 de junho de 2026

CIENTISTAS BUSCAM APRIMORAR NOSSA COMPREENSÃO DAS EXPERIÊNCIAS DE QUASE MORTE[1].

 


16 de abril de 2026

 

Pesquisadores da Faculdade de Medicina estão trabalhando para aprimorar o rigor científico das ferramentas de pesquisa para avaliar  experiências de quase morte  – encontros com a morte que frequentemente transformam a vida das pessoas.

Marieta Pehlivanova, PhD, e Bruce Greyson, MD, da Universidade da Virgínia (UVA), em colaboração com os colegas externos Rense Lange, PhD, e James Houran, PhD, analisaram duas escalas de pontuação utilizadas para avaliar experiências de quase morte, comumente chamadas de EQM (Experiências de Quase Morte).

A primeira escala, a Escala de Experiência de Quase Morte (Escala EQM) de 16 itens, foi desenvolvida na Universidade da Virgínia (UVA) em 1983 por Greyson e amplamente utilizada em centenas de estudos. A segunda, a Escala de Conteúdo da Experiência de Quase Morte (EQM-C), foi criada em 2020 com o objetivo de suprir as limitações da Escala EQM. A nova escala adicionou diversos itens para percepções adicionais, adaptou a redação dos itens e alterou a escala de resposta.

A nova análise sugere que as duas escalas são comparáveis, mas a Escala NDE mais antiga continua sendo o padrão ouro, concluem Pehlivanova e seus colegas. A análise, no entanto, identifica áreas em que ambas as escalas podem ser aprimoradas.

De acordo com Pehlivanova:

Descobrimos que ambas as escalas medem o mesmo construto subjacente de experiência de quase morte, mas os novos itens adicionados à NDE-C não se encaixaram consistentemente na hierarquia de percepções validada por análises psicométricas avançadas. Aprimorar nossas ferramentas para avaliar experiências de quase morte com precisão e eficiência é importante para o avanço da pesquisa, especialmente em contextos clínicos.

 

Otimizando ferramentas de pesquisa sobre experiências de quase morte

Greyson, um líder de longa data na área de pesquisa sobre experiências de quase morte, desenvolveu a Escala de EQM (Experiência de Quase Morte) para servir como uma estrutura para a análise científica de experiências que, à primeira vista, parecem desafiar a explicação científica. Pessoas que vivenciaram experiências de quase morte, por exemplo, frequentemente relatam que suas visões de mundo são radicalmente transformadas pelas coisas que viram ou experimentaram enquanto estavam clinicamente mortas ou em uma crise médica. Esses encontros com a morte dão a muitos desses indivíduos um novo propósito na vida, um desejo de servir aos outros e uma apreciação por fazerem parte de um todo maior. Mas outros podem ter dificuldade em compreender a experiência, especialmente se a sua EQM entrar em conflito com suas crenças religiosas ou existenciais, valores pessoais ou visões científicas.

A escala de Greyson tem sido a referência para a pesquisa científica dessas experiências por décadas. Mas ele estava ansioso para encontrar maneiras de aprimorar as ferramentas de pesquisa disponíveis, o que o levou, juntamente com seus colegas, a fazer uma comparação direta com a mais recente Escala NDE-C.

Para realizar uma avaliação imparcial, Pehlivanova, Greyson e seus colegas utilizaram a “modelagem de Rasch” – uma ferramenta matemática amplamente empregada para avaliar a eficácia de medidas utilizadas em pesquisas nas áreas da saúde, psicologia e educação. O modelo foi aplicado a questionários de ambas as escalas, respondidos por mais de 700 pessoas que vivenciaram experiências de quase morte.

O modelo identificou problemas nas categorias de resposta de ambas as escalas. Pessoas que vivenciaram experiências de quase morte frequentemente consideram a experiência "inefável" – quase impossível de descrever – e os dados mostram que pode ser difícil para elas diferenciarem de forma significativa a intensidade das diferentes percepções medidas pelas escalas. Os itens adicionados à escala NDE-C relacionam-se a percepções adicionais nessas experiências (como a sensação de estar morto), mas não se encaixam de forma consistente no modelo psicométrico avaliado no estudo.

Os pesquisadores relatam em um novo artigo científico:

Embora ambas as escalas possam ser aprimoradas e seja necessário trabalho adicional na avaliação de experiências de quase morte, recomendamos o uso contínuo da escala original de EQM. Este instrumento já foi utilizado em centenas de estudos desde a década de 1980, fornecendo uma base consistente para comparação com novas pesquisas. A modelagem de Rasch indica que as percepções de experiências de quase morte, medidas por esta escala, formam um espectro contínuo, o qual foi replicado em duas amostras independentes, reforçando a justificativa para sua adoção como uma avaliação bem estabelecida.

A análise sugere áreas específicas para melhoria em ambas as escalas. A escala de Greyson, por exemplo, poderia se beneficiar do aprimoramento das categorias de resposta, relatam os cientistas. Os resultados, segundo os pesquisadores, irão, em última análise, aprimorar a forma como exploramos e compreendemos as experiências de quase morte.

Pehlivanova disse:

Essas descobertas têm implicações não apenas para a forma como avaliamos as experiências de quase morte em pesquisas e contextos clínicos, mas também para nossa compreensão teórica dessas experiências. Um modelo de mensuração preciso das experiências de quase morte pode ajudar a fundamentar teorias sobre suas causas subjacentes.

 

Resultados publicados

Pehlivanova, Greyson e seus colegas  publicaram sua análise na revista científica Consciousness and Cognition. Os cientistas declaram não ter nenhum interesse financeiro no trabalho.

 

Sobre a Divisão de Estudos Perceptivos (DOPS) da UVA

Fundada em 1967 sob a liderança do psiquiatra da Universidade da Virgínia (UVA), Ian Stevenson, MD, a Divisão de Estudos Perceptivos (DOPS) da UVA se destaca como o grupo de pesquisa universitário mais produtivo do mundo dedicado à exploração de fenômenos que desafiam os paradigmas científicos convencionais sobre a consciência humana. No cerne da missão de pesquisa da DOPS está o compromisso com a avaliação rigorosa de evidências empíricas relacionadas a experiências e capacidades humanas excepcionais, incluindo a utilização de um laboratório de neuroimagem de última geração. A DOPS amplia seu foco além da pesquisa empírica fundamental e explora as profundas implicações dessa pesquisa para a teoria científica e a sociedade em geral. Ao compartilhar ativamente insights e descobertas, a DOPS busca contribuir significativamente para a compreensão da consciência, preenchendo a lacuna entre a investigação científica e a conscientização pública.  

Para acompanhar as últimas pesquisas médicas da UVA e do novo Instituto de Biotecnologia Paul e Diane Manning da UVA, adicione o   blog Making of Medicine aos seus favoritos.

terça-feira, 2 de junho de 2026

O MAGNETISMO RECONHECIDO PELO PODER JUDICIÁRIO[1]

 

Tribunal Correctionnel de Douai

Allan Kardec

 

Na Revista Espírita de outubro de 1858, publicamos dois artigos intitulados Emprego Oficial do Magnetismo Animal e O Magnetismo e o Sonambulismo Ensinados pela Igreja. No primeiro, referimo-nos ao tratamento magnético do rei Oscar, da Suécia, aconselhado pelos seus próprios médicos; no segundo, citamos várias perguntas e respostas, extraídas de uma obra intitulada Curso Elementar de Instrução Cristã para uso dos Catecismos e Escolas Cristãs, publicado em 1853 pelo abade Marotte, vigário geral da diocese de Verdun, no qual o magnetismo e o sonambulismo são claramente definidos e reconhecidos. Eis que agora a justiça lhes vem dar uma sanção extraordinária, pelo julgamento do Tribunal Correcional de Douai, de 27 de agosto passado. Como todos os jornais noticiaram esse julgamento, seria inútil repeti-lo, razão por que apenas relataremos sumariamente as circunstâncias.

Um rapaz, que do magnetismo não conhecia senão o nome, e jamais o tinha praticado, consequentemente ignorando as medidas de prudência que a experiência aconselha, propôs-se um dia magnetizar o sobrinho do maître d'hôtel onde jantava. Depois de alguns passes o menino caiu em sonambulismo, mas o magnetizador improvisado não soube como se portar para fazê-lo sair daquele estado, o qual foi seguido de crises nervosas persistentes, de que resultou uma queixa à Justiça, apresentada pelo tio contra o magnetizador. Dois médicos foram chamados como peritos. Eis o extrato de seu depoimento, que é mais ou menos idêntico, pelo menos quanto à conclusão. Após haver descrito e constatado o estado sonambúlico do menino, acrescenta o primeiro médico:

Não creio absolutamente na existência de um fluido novo, de um agente físico mais ou menos análogo ao magnetismo terrestre, desenvolvendo-se no homem sob a influência de passes, toques etc., e que produziria nas pessoas influenciadas efeitos por vezes maravilhosos.

A existência de um tal fluido nunca foi cientificamente demonstrada. Longe disso: todas as vezes que homens difíceis de enganar, membros da Academia das Ciências e médicos eminentes quiseram verificar os fatos alegados, os príncipes do magnetismo sempre recuaram, estribados em pretextos por demais evidentes, e nem a questão do fato, nem muito menos a questão de doutrina pôde ser elucidada. Para o mundo científico, portanto, não existe magnetismo animal. Todavia, segue-se daí que as práticas dos magnetizadores não produzam nenhum efeito? Pelo fato de negarmos, e com razão, o magnetismo, não poderíamos admitir a magnetização?

Estou convencido de que, se as imaginações nervosas e impressionáveis são todos os dias abaladas pelas manobras de que se trata, é nelas mesmas que devemos ver os fenômenos que apresentam, e não numa espécie de irradiação por parte do experimentador. Esta explicação se aplicaria ao caso Jourdain se os ataques que se seguiram ao primeiro, supondo tenham sido determinados pela magnetização, fossem se espaçando e enfraquecendo: um impulso único logicamente deveria produzir efeitos decrescentes. Ora, dá-se justamente o contrário: à medida que o tempo passa, os ataques se aceleram e aumentam de intensidade. Esta circunstância me confunde. Evidentemente está em jogo uma influência indeterminada: qual seria? Os antecedentes e a maneira de ser física de Jourdain não me são suficientemente conhecidos para que eu os possa atribuir ao seu temperamento; e devo confessar não saber onde colocar a causa.

Neste ponto a criança é vitimada por um de seus ataques. Assim como o seu colega, a testemunha constata: contrações musculares gerais e clônicas[2]; pele e olhos com sensibilidade preservada; pupilas fotoreagentes; ausência de espuma na boca; polegares fletidos na palma das mãos. Além disso, o grito inicial não ocorreu e o acesso termina gradualmente, passando pelo período sonambúlico. À vista disso, os médicos declaram que a criança não é epiléptica, nem, menos ainda, cataléptica.

Interpelada a respeito da palavra sonambulismo, objetivando saber se tudo isso não se explicaria admitindo-se que o paciente, antes sonâmbulo, teria tido a 15 de agosto um acesso desse tipo de doença, a testemunha respondeu que,

em primeiro lugar não estava estabelecido que a criança fosse sonâmbula e, depois, tal fenômeno se teria produzido em condições absolutamente insólitas: em vez de ocorrer à noite, em meio ao sono natural, teria vindo em pleno meio-dia e em completa vigília. A mim, os passes magnéticos parecem ser a causa do estado atual da criança: não vejo outra razão.

O segundo médico depõe assim:

Vi o pequeno doente no dia 13 de outubro de 1858; estava em estado sonambúlico, gozando de locomoção voluntária; recitava o catecismo. Meu filho o viu na noite de 15: encontrava-se no mesmo estado e conjugava o verbo poder. Só algum tempo depois é que fiquei sabendo que ele fora magnetizado, e que um viajante teria dito: se não for desmagnetizado, talvez permaneça assim por toda a vida. Em minha juventude conheci um estudante no mesmo estado que, tendo sido curado sem recursos médicos, tornou-se um homem distinto na profissão que abraçou. Os acidentes que o doente experimentou não passaram de perturbações nervosas: não existe nenhum sintoma de epilepsia, nem de catalepsia.

O Tribunal pronunciou a seguinte sentença:

Considerando que o acusado, no dia 15 de agosto, ao exercer imprudentemente sobre a pessoa do jovem Jourdain, de 13 anos, toques e gestos qualificados como passes magnéticos, no mínimo ferindo com esse aparato e por essas manobras não costumeiras a fraca imaginação da criança, produzindo-lhe uma superexcitação, uma desordem nervosa e, por fim, uma lesão ou uma doença, cujos acessos se repetiram desde então a diversos intervalos;

Considerando que as manobras imprudentes que provocaram a dita lesão, ou doença, constituem delito previsto no artigo 320 do Código Penal;

Considerando que o fato de que se trata ocasionou à parte civil um prejuízo que deve ser reparado; e

Levando-se em conta que existem circunstâncias atenuantes,

O Tribunal condena o acusado a 25 francos de multa, 1200 francos de perdas e danos e a arcar com as custas do processo.

Nada temos a dizer quanto ao julgamento em si mesmo. O Tribunal teve ou não teve razão de condenar? A pena é muito forte ou é excessivamente fraca? Isto não nos diz respeito; a justiça se pronunciou e nós respeitamos a sua decisão. Entretanto, não deixaremos de examinar as consequências do julgamento, que tem um alcance capital. Houve condenação, portanto, houve um delito. Como foi este cometido? A sentença diz: por toques e gestos qualificados como passes magnéticos; portanto, os toques e passes magnéticos têm uma ação e não resultam de mera simulação. Esses toques e esses passes diferem, de algum modo, dos toques e gestos ordinários; como os distinguir? Eis aí uma coisa importante, porque, se não houvesse diferença, não poderíamos tocar a primeira pessoa que encontrássemos, nem lhe fazer sinais, sem nos expormos a fazê-la cair em crise e sem incorrermos numa multa. Não compete ao Tribunal nos ensinar, nem, muito menos, dizer como os passes e toques, quando têm o caráter magnético, podem produzir um efeito qualquer. Ele constata o fato de um acidente e a causa do acidente; sua missão é apreciar o dano e a reparação que é devida. Mas os peritos chamados a esclarecer o Tribunal por certo nos vão ensinar a respeito; mesmo sem terem feito um curso sobre a matéria, devem fundamentar sua opinião, como se faz em todos os casos de medicina legal, e provar que falam com conhecimento de causa, considerando ser essa a primeira condição a ser preenchida por um perito. Ora! Ficamos decepcionados com a lógica desses senhores; seu depoimento revela completa ignorância sobre aquilo que devem opinar; não apenas desconhecem o magnetismo, como não lhes são familiares os fatos do sonambulismo natural, pois imaginam, um deles pelo menos, que tais fatos só se produzem à noite e durante o sono natural, o que é contrariado pela experiência.

Não é aí, porém, que se acha a parte mais notável do depoimento, especialmente da primeira testemunha: “Pelo fato de negarmos, e com razão, o magnetismo, não poderíamos admitir a magnetização?” Na verdade, não sei se há uma lógica muito difícil de ser entendida, mas confesso com toda humildade que isso ultrapassa a minha inteligência e que muitas pessoas estão comigo, porque seria o mesmo que afirmar ser possível magnetizar sem magnetismo, absolutamente como se disséssemos que um homem houvera recebido bordoadas na ausência do bordão responsável.

Ora, acreditamos firmemente, de acordo com um velho ditado, e até prova em contrário, que para dar bordoadas faz-se necessário o bordão e, por analogia, para magnetizar é preciso magnetismo, do mesmo modo que, para purgar, é preciso o purgante. Nossa inteligência não vai até a ponto de compreender os efeitos sem as causas.

Direis que não nego o efeito; pelo contrário, eu o constato. O que nego é a causa que atribuís a esse efeito. Dizeis que entre os vossos dedos e o paciente existe algo invisível, a que chamais de fluido magnético. Quanto a mim, assevero não haver coisa alguma; que esse fluido não existe. Ora, o que existe é o magnetismo; vossos gestos são a magnetização. De acordo.

Admitis, assim, que simples gestos sem intermediário podem produzir crises nervosas e efeitos sonambúlicos, catalépticos e outros, unicamente porque a imaginação foi ferida. Admitamos que sim. Gostaria de ver uma pessoa ser impressionada por meio desses gestos e essa impressão chegar a ponto de fazê-la dormir em pleno dia, e contra a sua vontade, o que, haveis de convir, já seria um fato admirável. Mas será esse um sono natural, causado, como dizem alguns, pela monotonia dos movimentos? Neste caso, como explicaríeis a instantaneidade do sono produzido em alguns segundos? Por que não despertais facilmente esse dorminhoco, sacudindo-lhe tão-somente os braços? Deixemos de lado, por razões óbvias, muitos outros fenômenos igualmente pouco explicáveis pelo vosso sistema; não obstante, existe um cuja solução sem dúvida podereis dar, porquanto não creio que tenhais elaborado uma teoria sobre um assunto de tamanha gravidade sem vos terdes assegurado de que ele resolve todos os casos, teoria que deve ser pouco arriscada, permitindo que a enuncieis em pleno tribunal. Deveis, pois, estar bem seguros. Pois bem! Eu vos peço, para a instrução do público e de todas as pessoas bastante simples para acreditarem na existência de um fluido magnético, que resolvais pelo vosso sistema as duas questões seguintes:

1º Se os efeitos atribuídos ao fluido magnético resultam apenas de uma imaginação excitada e fortemente impressionável, como se produzem à revelia da pessoa, quando é magnetizada durante o sono natural, ou quando se encontra num aposento vizinho, sem ver o magnetizador e sem saber que é magnetizada?

2º Se os toques ou passes magnéticos podem produzir crises nervosas e estados sonambúlicos, como podem esses mesmos toques e passes produzir o efeito contrário, destruir o que fizeram, acalmar as crises nervosas mais violentas que ocasionaram e fazer cessar o estado sonambúlico subitamente, como se fora um golpe de mágica? É por efeito da imaginação que a pessoa não vê, nem ouve o que se passa à sua volta? Ou é preciso admitir que se pode agir sobre a imaginação sem o concurso da imaginação, o que seria muito possível, já que se pode magnetizar sem magnetismo?

Isto me lembra uma pequena anedota. Um imprudente manejava um fuzil; o tiro disparado matou outro indivíduo. O perito foi chamado para examinar a arma, declarando que o indivíduo havia sido morto por um tiro de fuzil, embora este não se encontrasse carregado. Não é exatamente esse o caso do nosso magnetizador, que fere ao magnetizar, mas sem magnetismo?

Seguramente o Tribunal de Douai, na sua alta sabedoria, não meditou nestas contradições, sobre as quais não devia pronunciar-se.

Como dissemos, ele não considerou senão o efeito produzido, declarando-o produzido por toques e passes magnéticos; não havia por que decidir se em nós existe, ou não existe, um fluido magnético.

Mas o julgamento não constata de maneira menos autêntica que o magnetismo é uma realidade; de outro modo não teria condenado alguém por ter feito gestos insignificantes. Que isto sirva de lição aos imprudentes, que brincam com o que não conhecem.

Na opinião que emitiram, esses senhores não perceberam que chegavam a um resultado diametralmente oposto ao seu objetivo, o de atribuir aos magnetizadores um poder que estes estão longe de reivindicar. Com efeito, os magnetizadores sustentam que não agem senão com o auxílio de um intermediário; que, quando esse intermediário lhes falta, sua ação é nula; não se reconhecem com o poder de dar bordoadas sem bordões, nem de matar a tiros com um fuzil descarregado. Muito bem! Com a sua teoria esses senhores ainda operam outro prodígio, porque agem sem ter nada nas mãos e nos bolsos. Realmente, há coisas que não podem ser levadas a sério; nós lhes pedimos muitas desculpas, mas isso não diminui em nada o seu mérito. Eles podem ser muito hábeis e médicos assaz competentes; sem dúvida foi por isso que o Tribunal os consultou. Permitimo-nos apenas criticar a sua opinião sobre o magnetismo.

Finalizamos com uma observação importante. Se o magnetismo é uma realidade, por que não é reconhecido oficialmente pela Faculdade? A tal respeito há muitas coisas a dizer.

Limitar-nos-emos a uma única consideração, perguntando por que as descobertas hoje mais aceitas não o foram de imediato pelas corporações científicas? Deixo a outros o cuidado de responder. A classe médica está dividida sobre a questão do magnetismo, assim como em relação à homeopatia, à alopatia, à frenologia, ao tratamento da cólera, aos purgantes, às sangrias e sobre tantas outras coisas, de tal sorte que uma opinião a favor ou contra não passa de uma opinião individual, sem força de lei. O que faz a lei é a opinião geral, que se forma pelos fatos, a despeito de toda oposição, e que sobre os mais recalcitrantes exerce uma pressão irresistível. É o que acontece com o magnetismo, bem assim com o Espiritismo, e não será avançar muito dizer que metade dos médicos hoje reconhece e admite o magnetismo, e que três quartos dos magnetizadores são médicos. Dá-se o mesmo com o Espiritismo, que conta em suas fileiras uma infinidade de médicos e homens de ciência. Que importa, pois, a oposição sistemática ou mais ou menos interessada de alguns? Deixemos passar o tempo, que varre o amor-próprio ferido e as mesquinhas preocupações! A verdade pode ser abalada, mas não destruída, e a posteridade registra o nome dos que a combateram ou sustentaram. Se o magnetismo fosse uma utopia, há muito tempo dele não se cuidaria, ao passo que, como seu irmão, o Espiritismo, finca raízes por todos os lados. Lutai, pois, contra as ideias que invadem o mundo inteiro, de alto a baixo da escala social!



[1] REVISTA ESPÍRITA – outubro/1859 – Allan Kardec

[2] N. do T.: Grifo nosso: Espasmos em que se alternam, em rápida sucessão, rigidez e relaxamento. No original está grafada a palavra chroniques, sem correlação com o quadro clínico descrito acima.

segunda-feira, 1 de junho de 2026

MERHY SEBA[1]

 


 

Se a divulgação espírita desperta o interesse, o acolhimento fraterno faz a diferença

 

Merhy Seba, nasceu em 27 de abril de 1937, na cidade de Pirangi, no estado de São Paulo. Casado com Maria Clélia Mendonça Seba, com que tem quatro filhos e cinco netos.

Merhy Seba, pós-graduado em Comunicação, em Marketing e com Mestrado em Educação, e residente atualmente em Ribeirão Preto, ambos municípios paulistas. Professor universitário e publicitário, é espírita desde 1966 e vincula-se à Casa Assistencial Meimei,  da   cidade  onde  mora,  na qual atua no setor de orientação doutrinária.

Diretor de Relações Públicas da USE-União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e Coordenador Nacional da Área de Comunicação Social do CFN-Conselho Federativo Nacional da FEB, nosso entrevistado acumula vasta experiência com a temática de sua formação acadêmica, em favor da causa espírita. Autor de quatro livros e de campanhas muito conhecidas para expansão do pensamento espírita[2], ele nos concedeu a entrevista a seguir.

 

Quando e como foi seu primeiro contato com o Espiritismo?

Tudo começou em 1966, após o meu casamento com Maria Clélia, espírita de berço e de minha forte inclinação para o espiritualismo. Conheci, no mesmo ano, o prof. José Herculano Pires, que me indicou o caminho e, na esteira dos acontecimentos, ingressei no Conselho Metropolitano Espírita, órgão da USE na Capital (1967), depois na USE Estadual (1970) e, finalmente, no Conselho Federativo Nacional da FEB (1992), no qual respondo pela coordenação nacional da Área de Comunicação Social Espírita.

 

Dessas passagens em várias posições no Movimento Espírita, quais os fatos mais marcantes?

São vários, mas o mais significativo relaciona-se à campanha “Comece pelo Começo” que acompanhei, desde a sua criação e lançamento em 1972, na Capital paulista, tendo, após quatro décadas, participado de sua recente aprovação, em novembro de 2013, pelo Conselho Federativo Nacional. Foi uma emoção muito grande saber que, a partir de agora, tornou-se uma campanha nacional, graças aos mecanismos proporcionados pela organização do movimento espírita. 

 

Quais os progressos mais marcantes alcançados nos últimos anos, considerando o avanço da tecnologia virtual e a importância de tornar o conhecimento espírita disponível para o grande público?

Inúmeros avanços foram registrados nas federativas estaduais: a comunicação off-line (mídia tradicional) foi aprimorada e a comunicação on-line (mídia digital) foi assimilada pelos comunicadores, de tal forma que lidar, hoje, com a internet e seus produtos é algo familiar e gratificante, em termos de retorno. 

 

Como o Conselho Federativo Nacional tem-se postado diante dos progressos da comunicação humana, especialmente com o avanço da tecnologia virtual?

Toda novidade encontra certa resistência para ser aceita, até mesmo por questão de prudência; porém, a partir do momento da instalação do Portal da FEB e da TV CEI (a primeira no mundo via Rede de Computadores), o caminho ficou aberto à multiplicação de Sites, rádios Web, lojas virtuais e a outras modalidades, como ferramentas de divulgação e relacionamento com os diversos públicos. 

 

Podemos afirmar que a tecnologia virtual alavancou a Comunicação social espírita?

Reconhecemos que a tecnologia virtual provocou forte impacto social e mudou os modelos de comunicação da sociedade moderna e, obviamente, repercutiu na seara espírita; a área de Comunicação social espírita assimilou essa nova cultura de modo natural e se implantou gradativamente. Atualmente, todas as federações estaduais estão aparelhadas e, diga-se de passagem, a presença e a colaboração de jovens em muito têm contribuído para a dinamização do setor.

 

Como os conceitos de Marketing podem ser aplicados mais eficientemente a favor da divulgação pelo movimento espírita?

O Marketing aplicado a organizações não lucrativas merece ser considerado, na medida em que ilumina o raciocínio do administrador/comunicador espírita, independente do porte e/ou da natureza da instituição. Definir objetivos, analisar a realidade, planejar e estabelecer estratégias ou caminhos, dimensionar recursos e/ou meios, implementar e, finalmente, controlar ações e avaliar resultados – são atitudes de Marketing indispensáveis no mundo moderno.

 

O que vem a ser o Plano de Trabalho para o Movimento Espírita Brasileiro?

Desde 2007 o Conselho Federativo Nacional instituiu o Plano de Trabalho para o Movimento Espírita Brasileiro, em torno do qual as federativas estaduais desenvolvem planejamentos e ações, com total flexibilidade de adaptar e/ou ampliar, de acordo com as peculiaridades de cada região. Sob o ponto de vista de Marketing, isto representa um grande avanço em termos estratégicos, uma vez que assegura a unidade de vistas, estimula a troca de ideias e, sobretudo, facilita a discussão e a avaliação de experiências – fatores imprescindíveis à expansão das atividades doutrinárias. 

 

Algo marcante que gostaria de relatar de sua experiência junto aos esforços do CFN na área de sua atuação?

O que é admirável e, ao mesmo tempo, um desafio no Movimento Espírita Brasileiro é a diversidade de olhares; cada região é como se fosse um país, daí as abordagens serem diferentes e peculiares a cada uma; mas, diante dessa diversidade, encontramos a unidade em torno de Allan Kardec e seus continuadores. E a Área de Comunicação Social Espírita tem como objetivo intensificar as ações em todo o território nacional, com a adoção do Plano Nacional de Comunicação Social Espírita, um trabalho compartilhado com as 27 representações estaduais. 

 

Qual é o investimento prioritário para tornar o Espiritismo ainda mais conhecido do grande público?

Entendemos que é necessário investir, basicamente, em dois campos: na divulgação permanente e na recepção do centro espírita; enquanto o primeiro mostra a “carinha” da Doutrina ao público e desperta o seu desejo de saber mais, o segundo permite o contato “tête-à-tête”, favorecendo o diálogo, seguido do esclarecimento, do consolo e da orientação. Se a divulgação espírita desperta o interesse, o acolhimento fraterno faz a diferença, pois certamente conduz à convicção.  

 

Suas palavras finais.

Agradeço a oportunidade de participar desse espaço e desejo que esse canal continue em seus propósitos de comunicar a Boa Nova.

 

Livros de autoria do entrevistado

§  Orientação à Comunicação Social Espírita (FEB Editora, 2013)

§  Construção de Relacionamento das Instituições espíritas com a Mídia (Turby On Editora, 2010)

§  Dinâmica da Publicidade Espírita (Turby On Editora, 2005)

§  Comunicação e Vida (Turby On Editora, 2013).

 

Campanhas doutrinárias espíritas elaboradas:

§  Comece pelo Começo

§  Viver em Família

§  “O Evangelho no Lar e no Coração”

 

Depois de enfrentar corajosamente grave problema de saúde que o foi consumindo a pouco e pouco, desencarnou no dia 14 de dezembro de 2023. Despedimo-nos dele, em prece, agradecidos por sua amizade, guardando a certeza de que os Bons Espíritos bem o recepcionaram, conferindo-lhe, sob as bênçãos do Mestre Jesus um merecido repouso, antes do retorno ao prosseguimento do bom trabalho[3].



[2] Notas do entrevistador

[3] FEP – Federação Espírita do Paraná

sexta-feira, 29 de maio de 2026

AGORA E DEPOIS: VIVER O PRESENTE SEM ANSIEDADE ESPIRITUAL É POSSÍVEL?[1]

 


Wilson Garcia - maio 24, 2026

 

Uma reflexão sobre o Espiritismo, a herança religiosa e o desafio contemporâneo de reconciliar tempo, consciência e existência.

 Durante séculos, a humanidade foi educada a viver sob a sombra do futuro. Não de um futuro qualquer, mas de um futuro absoluto: o destino final da alma. Céu ou inferno, salvação ou perdição, prêmio ou castigo — categorias que moldaram não apenas sistemas religiosos, mas a própria psicologia coletiva.

Nesse contexto, a vida presente tornou-se, frequentemente, um espaço de transição. Vive-se aqui, mas espera-se ali. Age-se agora, mas projeta-se depois. A felicidade, por sua vez, foi deslocada para além da experiência imediata, convertendo-se em promessa.

Essa lógica, profundamente enraizada nas religiões dogmáticas, produziu uma mentalidade que ainda hoje resiste: a dificuldade de viver plenamente o presente sem ansiedade quanto ao destino espiritual futuro.

Mas o Espiritismo — surgido no século XIX com Allan Kardec — propõe uma inflexão nesse paradigma. A questão que se impõe, então, é inevitável: é possível viver intensamente o presente sem se preocupar com a vida futura?

 

A pedagogia do adiamento: religião e a promessa de felicidade futura

A tradição religiosa ocidental construiu uma pedagogia do tempo baseada na espera. Sofrer agora para ser feliz depois. Renunciar hoje para alcançar a eternidade. Submeter-se no presente para garantir a salvação.

Essa estrutura não é apenas teológica — é psicológica e social.

Friedrich Nietzsche denunciou esse mecanismo como uma forma de negação da vida, uma moral que desloca o valor da existência para além dela mesma. Já Karl Marx interpretou essa promessa como uma compensação simbólica diante das injustiças materiais: a religião como alívio, mas também como adiamento.

Em ambos os casos, a crítica converge: a vida presente é esvaziada quando subordinada integralmente a um futuro idealizado.

Ao emergir no século XIX, o Espiritismo não apenas contesta dogmas — ele reconfigura a própria estrutura do tempo espiritual.

Para Kardec, não há condenações eternas nem recompensas arbitrárias. O que existe é um processo contínuo de evolução, no qual cada existência é etapa de um desenvolvimento mais amplo.

A vida futura, portanto, não é um evento isolado, mas prolongamento natural da vida presente.

Essa concepção desloca o eixo da preocupação: não se trata de temer um julgamento final, mas de compreender que o futuro já está sendo tecido no presente. Nesse sentido, a ansiedade perde lugar para a responsabilidade.

 

Entre a ansiedade e a consciência: dois modos de viver o tempo

A questão central não é apenas teórica — ela é existencial. Como viver, então? Podemos distinguir dois modos fundamentais:

1.       A vida sob ansiedade espiritual – caracteriza-se por medo de punição, obsessão por mérito, culpa recorrente e vigilância constante de si. Esse modelo, embora presente em práticas religiosas, é pouco compatível com a proposta espírita de evolução gradual.

2.       A vida sob consciência espiritual – aqui encontramos responsabilidade sem medo, ética sem angústia, ação presente com sentido e confiança no processo evolutivo.

Essa postura não ignora o futuro — ela o integra de forma serena. Se, por um lado, o medo do futuro pode aprisionar, por outro, sua negação pode empobrecer a existência. Na contemporaneidade, marcada pelo imediatismo e pela cultura da experiência instantânea, surge uma reação: “Viva o presente e não pense no depois”.

Embora sedutora, essa ideia pode conduzir a um esvaziamento ético. Sem horizonte, o presente pode tornar-se apenas consumo, impulso ou distração. O Espiritismo não propõe essa ruptura. Ao contrário, ele sustenta uma visão ampliada do tempo, em que o presente é significativo, o futuro é continuidade e o passado é aprendizado.

A filosofia contemporânea oferece instrumentos valiosos para aprofundar essa reflexão. Martin Heidegger, ao tratar do ser humano como um “ser-no-tempo”, propõe que a autenticidade nasce da relação equilibrada com o futuro. Não se trata de ignorá-lo, nem de temê-lo, mas de reconhecê-lo como dimensão constitutiva da existência.

O futuro, nesse sentido, não é ameaça — é horizonte de sentido. Essa leitura dialoga profundamente com a visão espírita: viver o presente não apesar do futuro, mas à luz dele. Diante dessas tensões, podemos propor uma síntese que preserva tanto a riqueza do presente quanto a profundidade do futuro: Viver intensamente o presente, com a consciência de que ele participa de uma existência maior.

Essa formulação evita dois extremos: o da ansiedade religiosa e o da superficialidade contemporânea. Ela afirma uma vida plena, mas responsável; livre, mas consciente e presente, mas contínua.

 

Conclusão — quando o futuro deixa de ser problema

Talvez a questão inicial precise ser reformulada. Não se trata de perguntar se é possível viver sem se preocupar com o futuro espiritual, mas sim: é possível viver de tal modo que o futuro espiritual deixe de ser uma preocupação?

No horizonte espírita, a resposta tende a ser afirmativa. Porque, quando a vida é vivida com lucidez, ética e consciência, o futuro deixa de ser ameaça — e passa a ser apenas continuidade.

 

Para saber mais:

§  KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos.

§  DENIS, Léon. Depois da Morte.

§  PIRES, José Herculano. Educação para a Morte.

§  HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo.

§  NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral.

§  MARX, Karl. Crítica da Filosofia do Direito de Hegel.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

INFANTICÍDIO COMO COSTUME[1]

 


Miramez

 

Assassínio

Como se explica que entre alguns povos, já adiantados sob o ponto de vista intelectual, o infanticídio seja um costume e esteja consagrado pela legislação?

O desenvolvimento intelectual não implica a necessidade do bem. Um Espírito, superior em inteligência, pode ser mau. Isso se dá com aquele que muito tem vivido sem se melhorar: apenas sabe.

Questão 751 / O Livro dos Espíritos

 

Nos dias atuais, o infanticídio é permitido por lei, entre alguns povos intelectualmente desenvolvidos, sob o nome de aborto legal.

É a crueldade exteriorizada pela alma presa em sentimentos inferiores, dominada pelas paixões brutais, com grande experiência nas trevas.

É o progresso intelectual defasado do progresso moral que alarga as possibilidades de criações voltadas para o mal.

Em tempos idos, crianças eram sacrificadas aos deuses pagãos, por influência de falanges das trevas, que se utilizavam de homens distanciados do amor.

Foi por essa razão também que Jesus desceu à Terra, a nos dar a lição de amor, e em certa época mostra uma criança como símbolo do reino dos céus.

O desenvolvimento intelectual não implica em progresso dos sentimentos, ficando esquecido o amor, para se apoiar somente na justiça feita pelas mãos dos próprios homens.

Pedimos a Deus que no terceiro milênio possam os Espíritos e os encarnados inaugurarem a reforma bendita na sua intimidade. Foi para isso que a Doutrina dos Espíritos surgiu na Terra, pelas mãos de Jesus Cristo, e foi nesse sentido que Ele disse:

Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; eu não vo-la dou como a dá o mundo. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize.

A paz de Jesus é diferente da paz do mundo, desta paz com a qual os homens estão acostumados, de facilidades que se apoiam nos bens materiais. A paz de Jesus é a paz de consciência, nascida do esforço próprio. É por isso que Ele é, por excelência, o nosso Mestre.

Jesus veio destruir todas as leis humanas que não se apoiavam no amor, desfazendo todos os sentimentos onde a hipocrisia se salientava e a desonestidade mostrava o caráter das pessoas, mostrando o Mestre que tudo pertencia a Deus, que tudo que os homens possuíam era apenas empréstimo, pela misericórdia do Pai.

O desenvolvimento intelectual é necessário, mas que o amor possa dirigi-lo, para que haja equilíbrio das emoções. Devemos esquecer o passado que não esteja convenientemente inspirado no amor, porque somente o amor salva as criaturas de todas as transgressões.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 15 – João Nunes Maia

quarta-feira, 27 de maio de 2026

COIN APPORTS - O Caso da Cidade do México[1]

 


Michael Duggan

 

Os apports de moedas são uma forma especializada de fenômenos de "apport", nos quais moedas supostamente aparecem sem uma fonte ou causa normal óbvia. Este artigo centra-se num caso recente na Cidade do México e compara-o com exemplos históricos mais gerais de apports, destacando tanto o interesse probatório desses relatos quanto os problemas metodológicos que representam para os pesquisadores.

§  Um caso recente na Cidade do México está entre as investigações modernas de contrabando de moedas mais bem documentadas, com 42 ocorrências registradas durante um inquérito que durou um ano.

§  Relatos históricos envolvendo Indridi Indridason e Lajos Pap sugerem que os apports de objetos são muito anteriores ao caso do México, embora as condições de controle tenham variado bastante.

§  A pesquisa sobre o tema do apport continua sendo metodologicamente complexa: a vigilância pode fortalecer a documentação, mas a espontaneidade, as restrições à privacidade e a possibilidade de fraude permanecem problemas centrais.

 

Introdução

Apports são um tipo de fenômeno de materialização que envolve o suposto aparecimento paranormal de objetos físicos. O termo deriva do francês apporter, que significa "trazer[2]". Casos de apport foram relatados em diversas culturas e períodos históricos. Os objetos variam de pequenos itens, como moedas, a criaturas vivas. A maioria dos casos tradicionais ocorreu durante sessões espíritas, mas relatos recentes têm surgido envolvendo indivíduos não médiuns[3].

Os apports de moedas representam um subconjunto específico de fenômenos de apport. Moedas aparecem espontaneamente em locais onde não existe uma fonte convencional. Frequentemente, as moedas chegam em perfeito estado de conservação e, às vezes, incluem exemplares raros que parecem estatisticamente improváveis[4]. O caso de apport de moedas moderno mais amplamente documentado envolveu um casal perto da Cidade do México, investigado por Ramsés D'León, Alfredo Silva e Alex A. Álvarez da Unidad Parapsicológica de Investigación, Difusión y Enseñanza (UPIDE) após encaminhamento do Rhine Research Center, em 2021 e 2022[5]. A equipe realizou sua investigação em duas fases: a primeira, que denominaram uma "abordagem metodológica" para pesquisa in loco; a segunda, consultas com médiuns na esperança de melhor compreender a dinâmica psicológica envolvida.

 

Fase 1: Abordagem Metodológica

Fundo

'HM' tinha quase 60 anos, enquanto sua esposa 'LS' tinha 45 anos na época. Nenhum dos dois se identificava como médium ou praticava atividades espiritualistas[6]. Entre junho de 2021 e julho de 2022, D'León, Silva e Álvarez documentaram 42 eventos de apport em sua casa. Em 2012, HM sofreu uma lesão cerebral leve que afetou os lobos frontal e temporal. Os exames neurológicos, no entanto, mostraram funções normais. As avaliações psicológicas identificaram episódios depressivos e Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade (TDAH), mas nada mais grave[7].

 

Metodologia

A investigação utilizou uma estratégia de pesquisa cooperativa na qual HM e LS participaram como pesquisadores ativos, e não como sujeitos passivos. O potencial de viés foi reduzido pelo uso de seis câmeras de vigilância de alta definição instaladas em toda a residência. As câmeras criaram campos de visão sobrepostos nos locais onde os fenômenos ocorriam com maior frequência, a fim de maximizar as condições de observação. As câmeras foram conectadas a computadores locais e a sistemas de armazenamento de dados em nuvem[8] .

Diversos eventos de apport foram registrados em vídeo. Moedas apareceram repentinamente no campo de visão da câmera, sem nenhum mecanismo de entrega visível. Nos casos mais convincentes, as moedas pareciam se materializar no ar. O som característico de uma moeda caindo em uma superfície dura também foi ouvido de 1,5 a 2 segundos antes do objeto se tornar visível ali[9] .

 

Análise Numismática

As moedas distribuídas apresentavam características distintas, com a maioria aparentando estar em estado de conservação impecável. A análise numismática revelou uma sobrerrepresentação estatisticamente significativa de moedas comemorativas mexicanas de 20 pesos (p < 0,001). Essas moedas representam apenas 0,51% de todas as moedas em circulação no México. No entanto, elas constituíam uma porcentagem desproporcional dos exemplares distribuídos[10].

As outras moedas eram originárias de vários países que HM e LS haviam visitado, incluindo rupias indianas, pesos colombianos e euros. Coroas checas também apareceram, embora nem HM nem LS tivessem viajado para a República Checa[11].

D'León, Silva e Álvarez propuseram que os padrões poderiam conter simbolismo psicológico. HM mantinha uma coleção de moedas da infância, mas a família havia passado por dificuldades financeiras significativas antes do fenômeno. O aparecimento de moedas comemorativas raras poderia refletir processos psicocinéticos inconscientes, especularam os pesquisadores[12].

 

Desafios técnicos

A investigação enfrentou desafios técnicos. As desconexões das câmeras ocorreram com frequência crescente após outubro de 2021, às vezes quando nem HM nem LS estavam presentes. A análise de vídeo confirmou que nenhuma entidade visível se aproximou das conexões das câmeras antes da interrupção da transmissão. Além de moedas, outros objetos apareceram ocasionalmente. Entre eles, material vegetal, pedaços de papel com texto incompreensível e uma medalha do Papa Francisco[13].

 

Conclusões

Os pesquisadores concluíram que as evidências refutavam fortemente a hipótese de fraude intencional. A investigação destacou possíveis influências psicocinéticas inconscientes, como as associadas a muitos surtos de poltergeist, que também tendem a estar relacionadas a estados emocionais e psicológicos. O histórico de lesão cerebral de HM foi considerado potencialmente relevante. O estudo enfatizou o rigor metodológico e as abordagens interdisciplinares[14].

 

Fase 2: Abordagem Mediúnica

Após vários meses de trabalho na casa de HM e LS, D'León, Silva e Álvarez chegaram ao limite do que podiam aprender com sua abordagem metodológica e decidiram abordar o caso de uma maneira diferente. Eles queriam tentar responder às perguntas que HM e LS persistentemente levantavam, mas para as quais suas técnicas não eram adequadas. Uma dessas perguntas era: por que esses fenômenos estavam acontecendo ao redor deles? Eles haviam sido escolhidos e, portanto, eram especiais de alguma forma significativa? Havia mensagens que eles deveriam levar em consideração ou ações que deveriam realizar?

Consequentemente, os investigadores conceberam um segundo estudo, envolvendo médiuns. Consultaram três médiuns – um dos quais era certificado pelo Windbridge Research Center – e um canalizador, nenhum dos quais tinha tido qualquer conhecimento prévio de HM e LS ou sabia nada sobre os apports. Após uma série inicial de sessões em que D'León explicou o processo aos praticantes, estes foram apresentados a HM, LS e membros disponíveis da equipa de investigação através de entrevistas online. O relatório publicado afirma:

Uma das médiuns ouviu a palavra "Santería" (em espanhol), que é uma religião afro-americana derivada do iorubá, embora nunca a tivesse ouvido antes, nem soubesse o seu significado. Outra médium disse que LS não estava respondendo ao chamado relacionado às suas raízes iorubás.

Os três médiuns concordaram que havia uma consciência não humana ligada aos fenômenos, e dois deles mencionaram que não havia más intenções. Dois deles disseram que tanto HM quanto LS eram cocriadores dos estranhos fenômenos que ocorriam em sua casa.

Um médium mencionou que LS era a principal “força” ou “combustível” do fenômeno, enquanto os outros dois concordaram que HM era o gatilho, o que pode ser corroborado por casos em que um apport foi associado a seus estados emocionais[15].

Infelizmente, HM e LS optaram por não prosseguir para uma segunda rodada de entrevistas e não quiseram que o médium os visitasse em casa para tentar fazer contato com a suposta entidade desencarnada envolvida. A fase mediúnica da investigação, portanto, chegou a uma conclusão insatisfatória.

 

Casos históricos

Esta seção apresenta outros fenômenos de apport para comparar com a experiência de HM e LS.

 

Indridi Indridasson (1883–1912)

Indridi Indridason foi um médium físico islandês que produziu fenômenos comparáveis ​​aos de D.D.Home, embora tenha permanecido relativamente desconhecido fora da Islândia devido ao isolamento geográfico e às barreiras linguísticas[16]. A mediunidade de Indridason desenvolveu-se por volta de 1904, quando ele trabalhava como aprendiz de tipógrafo em Reykjavik e foi convidado a participar de um experimento com uma mesa basculante. A mesa reagiu violentamente enquanto ele estava presente[17].

Uma Sociedade Experimental foi formada para investigar fenômenos relacionados a Indidi. Entre seus membros estavam moradores proeminentes, como Björn Jónsson, que mais tarde se tornou primeiro-ministro da Islândia[18]. Entre 1904 e 1909, a sociedade documentou inúmeros fenômenos[19].

Os apports constituíam uma categoria entre os diversos fenômenos de Indridason. Testemunhas relataram que pedras “choviam” nos cômodos. Pequenos sinos se materializavam e tocavam espontaneamente[20]. Muitos eventos ocorreram em condições de boa iluminação. Isso não era típico de sessões espíritas. Pesquisadores notaram esse fato como significativo[21].

Gudmundur Hannesson submeteu Indridi a um escrutínio minucioso. Hannesson era um médico cético que mais tarde se tornou professor de medicina na University of Iceland. Ele não conseguiu detectar fraude em Indridi e concluiu que "os fenômenos são realidades inquestionáveis[22]".

Em 1909, Indridi contraiu febre tifoide, da qual nunca se recuperou completamente. Ele morreu de tuberculose em 31 de agosto de 1912, aos 28 anos de idade[23].

 

Lajos Pap (1928–38)

O médium húngaro Lajos Pap (1883–1941) produziu fenômenos de apport espetaculares. Elemér Chengery Pap , que criou um “Metapsychical Laboratory” para o estudo de médiuns físicos, investigou-o entre 1928 e 1938 em Budapeste. O resumo da pesquisa de Chengery Pap está entre as maiores monografias de parapsicologia escritas por um único pesquisador[24].

Lajos Pap supostamente transmitia uma extraordinária variedade de objetos. Estes incluíam líquidos, neve, plantas, insetos vivos e vertebrados de até o tamanho de um gavião-peneira[25]. Em 26 de agosto de 1933, ocorreram transmissões documentadas em uma sala trancada. As mãos do médium eram seguradas por pessoas presentes. As transmissões incluíam sete pedras, dezesseis gafanhotos vivos, doze borboletas vivas e dois peixinhos dourados. Uma borboleta foi fotografada imediatamente após a materialização[26].

Chengery Pap desenvolveu controles elaborados, incluindo a busca no médium e o uso de vestes especiais com listras luminosas para detectar movimentos suspeitos. Ele também empregou uma lâmpada verde para exame[27]. Os objetos transportados foram exibidos em um "Museu de Apports" que foi destruído durante o regime comunista após a Segunda Guerra Mundial[28].

A recepção científica à pesquisa de Chengery Pap foi amplamente desfavorável. Nandor Fodor conduziu sessões experimentais em 1935 no International Institute for Psychical Research. Os procedimentos revelaram falhas metodológicas significativas[29]. Theodore Besterman participou de sessões espíritas em 1928, concluindo que os fenômenos eram fraudulentos[30]. Uma análise recente de Michael Nahm conclui que, embora a abordagem de Chengery Pap contivesse falhas substanciais, a autenticidade dos fenômenos de Lajos Pap permanece questionável[31].

 

Desafios metodológicos

Os fenômenos de apport apresentam desafios metodológicos extraordinários para os investigadores. Sua natureza espontânea dificulta o estudo sistemático e a replicação em condições controladas permanece difícil de alcançar[32]. Casos históricos ocorreram em contextos de sessões espíritas onde a escuridão era necessária, o que impedia a observação direta durante momentos cruciais[33].

A vigilância moderna oferece novas possibilidades. O caso da Cidade do México demonstrou tanto o potencial quanto as limitações. As câmeras podem documentar a aparência dos objetos. Desconexões inexplicáveis ​​criam lacunas, no entanto. Considerações sobre privacidade limitam o alcance da vigilância[34].

A fraude continua sendo uma preocupação persistente. Revelações históricas mostraram médiuns escondendo objetos em cavidades corporais. Cavalheiros da era vitoriana eram socialmente impedidos de realizar buscas minuciosas em médiuns mulheres, como observou o neurologista Terence Hines[35]. Heinrich Melzer foi flagrado em 1926. Pequenas pedras foram fixadas atrás de suas orelhas com fita adesiva cor da pele[36].

A investigação da Cidade do México sobre HM e LS abordou a fraude por meio de evidências convergentes. A análise numismática revelou padrões difíceis de serem forjados. A sobrerrepresentação estatística de moedas raras exigiria aquisição seletiva. Moedas de países não visitados representaram desafios logísticos. A documentação em vídeo reforçou a tese contra a fraude[37].

Fatores psicológicos e neurológicos devem ser considerados na avaliação de casos desse tipo. O caso da Cidade do México envolveu um indivíduo com lesão cerebral documentada, o que levanta questões sobre as relações entre anomalias neurológicas e fenômenos psi. O trauma cerebral facilita a cinesiologia inconsciente? O estresse psicológico desencadeia eventos de apport?[38] Essas questões permanecem sem resposta, mas existem experimentos de Morris Freedman que mostram certos déficits neurológicos associados à influência da cinesiologia em sistemas aleatórios sob condições controladas[39].

 

Status atual

A investigação sistemática dos fenômenos de apport ainda é rara. A maioria das pesquisas parapsicológicas tem se desviado das investigações de campo para estudos micro-PK em laboratório, que oferecem melhor controle experimental, mas sacrificam a validade ecológica e o caráter dramático dos eventos macro-PK[40].

O caso da Cidade do México, publicado em 2025, representa uma das investigações de campo sobre apport mais rigorosas das últimas décadas. O estudo empregou uma metodologia de investigação cooperativa que tratou os participantes como colaboradores ativos, e não como sujeitos passivos[41]. Pesquisas futuras enfrentam o desafio de equilibrar o rigor com eventos espontâneos. A parapsicologia observacional pode complementar o trabalho experimental, embora possa se beneficiar da colaboração interdisciplinar que integre parapsicologia, psicologia, neurologia e ciências ambientais[42].

 

Obras citadas

§  Braude, S. (2019). Review of the book JOTT: When Things Disappear and Come Back or Relocate—and Why It Really Happens by M. R. Barrington. Journal of Scientific Exploration 33/1, 128-31.

§  D’León, R., Silva, A., & Álvarez, A. (2025). Investigating coin-based apports: A methodological approach to non-mediumistic recurrent physical anomalies. Journal of the Society for Psychical Research 89/4, 193-224.

§  Freedman, M., Binns, M., Comishen, M., Strother, S., Chen, R., Cusimano, M.D., Black, S.E., & Alain, C. (2018). Mind-matter interactions and the brain: A pilot EEG study. Proceedings of the 37th Annual Meeting of the Society for Scientific Exploration.

§  Hannesson, G. (1924). Remarkable phenomena in Iceland. Journal of the American Society for Psychical Research 18, 239-72.

§  Haraldsson, E. (2018). Indridi Indridason (medium). Psi Encyclopedia. [Web page, last updated 8 February 2026.]

§  Hines, T. (2003). Pseudoscience and the Paranormal (2nd ed.) Amherst, New York, USA: Prometheus Books.

§  Nahm, M. (2019). Out of thin air? Apport studies performed between 1928 and 1938 by Elemér Chengery Pap. Journal of Scientific Exploration 33/4, 683-737.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Nahm (2019).

[3] D'León et al. (2025).

[4] D'León et al. (2025).

[5] D'León et al. (2025).

[6] D'León et al. (2025).

[7] D'León et al. (2025).

[8] D'León et al. (2025).

[9] D'León et al. (2025).

[10] D'León et al. (2025).

[11] D'León et al. (2025).

[12] D'León et al. (2025).

[13] D'León et al. (2025).

[14] D'León et al. (2025).

[15] D'León et al. (2025), 212-13.

[16] Haraldsson (2018).

[17] Haraldsson (2018).

[18] Haraldsson (2018).

[19] Haraldsson (2018).

[20] Haraldsson (2018).

[21] Haraldsson (2018).

[22] Hannesson (1924).

[23] Haraldsson (2018).

[24] Nahm (2019).

[25] Nahm (2019).

[26] Nahm (2019).

[27] Nahm (2019).

[28] Nahm (2019).

[29] Nahm (2019).

[30] Nahm (2019).

[31] Nahm (2019).

[32] Braude (2019).

[33] Braude (2019).

[34] D'León et al. (2025).

[35] Hines (2003).

[36] Hines (2003).

[37] D'León et al. (2025).

[38] D'León et al. (2025).

[39] Freedman et al. (2018).

[40] Braude (2019).

[41] D'León et al. (2025).

[42] D'León et al. (2025).