quarta-feira, 8 de abril de 2026

SETE MANEIRAS PELAS QUAIS A MENTE VAI ALÉM DO CÉREBRO[1]

 


Rupert Sheldrake - 24 de março de 2026

 

Sugiro que as mentes não estão confinadas ao interior da cabeça. Penso que elas se estendem para além do cérebro de pelo menos sete maneiras diferentes. Começo com a extensão óbvia e inegável das mentes através da cultura.

 

1. Cultura

Todas as culturas e línguas, todas as artes, toda a tecnologia, toda a ciência, todos os edifícios e móveis, todas as cidades, todos os templos e igrejas, todas as ferramentas e máquinas, todas as roupas e todas as refeições existem nas mentes antes de se tornarem realidades objetivas e externas. Livros, smartphones, redes sociais, os edifícios ao nosso redor, jardins e a paisagem moldada pela agricultura são todos produtos das mentes e extensões das mentes, e, por sua vez, afetam as nossas mentes. Nossas mentes habitam um mundo cultural que é uma externalização de muitas mentes, dentro do qual todos existimos como peixes no mar. Tudo isso é tão óbvio que geralmente o consideramos como certo.

Não somos os únicos animais que modificam o mundo ao nosso redor através da mente, ou de uma forma semelhante à mente. Castores constroem represas, pássaros tecelões constroem ninhos, cupinzeiros constroem formigueiros e aranhas constroem teias. Mas fazemos isso na maior escala possível. Nossas mentes afetam toda a vida na Terra.

 

2. Nos corpos

Nossa mente se estende por todo o nosso corpo.

Os materialistas partem do pressuposto de que todas as nossas experiências ocorrem dentro do nosso cérebro; eles acreditam que, se você sente dor no dedão do pé, a dor não está realmente no dedão, mas sim no cérebro, que produz uma sensação de dor que, de alguma forma misteriosa, é "referida" ao dedo.

Em contrapartida, estou sugerindo que nossa imagem corporal está onde parece estar, em nossos corpos. Uma dor no meu dedão do pé está no meu dedão do pé. A mente permeia o corpo.

O contraste entre essas perspectivas fica ainda mais evidente no caso dos membros fantasmas. Amputados sentem o braço fantasma no lugar onde o braço normal costumava estar e conseguem movê-lo. Após uma amputação, precisam se lembrar de que se trata, de fato, de um membro fantasma. Alguns amputados relatam que, logo após a cirurgia, ao ouvirem o telefone tocar, estenderam a mão para atendê-lo e perceberam que não conseguiam. O braço fantasma parecia tão real. No entanto, um braço fantasma pode fazer coisas que um braço normalmente não consegue; ele pode passar através de objetos sólidos, como paredes e portas.

Sugiro que a imagem corporal seja o campo mórfico do corpo experimentado de dentro para fora. Campos mórficos são campos que moldam a forma e possuem memória inerente. No caso de um braço fantasma, o campo do braço permanece mesmo quando o membro físico desaparece, e é nesse campo do braço que o amputado experimenta o braço como sendo, mesmo que não haja mais um braço físico naquele lugar.

A visão convencional é que o braço fantasma é um fantasma no cérebro; o braço fantasma não está onde parece estar, mas é "referido" a esse lugar.

Esta questão pode ser explorada experimentalmente. Em meus próprios testes, coloquei um amputado com um braço fantasma atrás de uma porta fechada. Na porta, havia seis regiões diferentes numeradas de 1 a 6, marcadas em ambos os lados. Por meio de um lançamento de dado, uma dessas regiões era selecionada aleatoriamente, digamos, a 4, e o amputado era instruído a empurrar seu braço fantasma através desse painel; assim, do outro lado da porta, havia um braço fantasma invisível saindo do painel 4. Um de cada vez, convidamos pessoas que praticam terapias de "energia sutil" para nos dizerem onde estava o braço fantasma. Elas apalpavam todas as seis regiões para tentar encontrar onde o braço fantasma estava saindo. Havia uma chance de 1 em 6 de acertar apenas por palpite, mas nos experimentos que realizamos até agora, as respostas foram significativamente maiores do que o esperado pelo acaso, sugerindo que era possível detectar o braço fantasma. Acredito que o que os praticantes de energia sutil estavam detectando era o campo do braço ausente. Esse campo corporal, que experimentamos internamente, permeia todo o corpo e continua a existir mesmo após uma amputação. A mente permeia o campo corporal e não se limita ao cérebro.

Curiosamente, quando amputados recebem uma prótese de braço ou perna para substituir o membro ausente, no meio médico costuma-se dizer que o membro fantasma "anima" a prótese. Se um membro fantasma encolhe com o tempo, como tende a acontecer, e então o amputado começa a usar uma prótese, o membro fantasma se expande novamente para preencher a prótese, como uma mão que preenche uma luva. Os membros fantasmas ajudam as pessoas a controlar suas próteses.

O corpo também pode ser estendido por meio de próteses de outras maneiras. Gregory Bateson, em seu livro Steps to an Ecology of Mind (Passos para uma Ecologia da Mente), dá o exemplo de uma pessoa cega com uma bengala. Quando a pessoa cega caminha usando uma bengala, ela se torna uma espécie de extensão do seu corpo, permitindo-lhe sentir o que está ao seu redor; ela o experimenta como se fosse uma extensão do próprio corpo. De fato, esse é um princípio geral. Quando usamos ferramentas ou máquinas, elas podem se tornar como uma prótese: um escultor com um cinzel, um pintor com um pincel, um esquiador com esquis, um motorista com um carro ou um pianista com um piano.

Em resumo, a mente se estende por todo o nosso corpo e através de extensões protéticas dele, e não se limita à nossa cabeça.

 

3. Visão

A mente se estende além do nosso cérebro através da visão. Quando olho para uma árvore, a imagem que tenho dela parece estar fora de mim, onde a árvore está. Mas, de acordo com a teoria materialista, tudo o que vejo está na minha cabeça. A imagem da árvore não está lá fora, onde parece estar; é uma "representação" no meu cérebro.

Sugiro que a visão envolva a extensão de nossas mentes para fora, assim como parece acontecer. A luz entra nos olhos, imagens invertidas se formam em ambas as retinas, ocorrem mudanças nas células bastonetes ou cones, impulsos viajam pelos nervos ópticos e mudanças acontecem no cérebro. Todos esses processos foram estudados cientificamente em grande detalhe. Os materialistas presumem que o cérebro então produz uma espécie de exibição de realidade virtual interna, em três dimensões e em cores, que de alguma forma experimentamos dentro de nossas cabeças. Em vez disso, acredito que essas imagens são projetadas para fora, para onde parecem estar.

Essa não é uma teoria original; é algo que praticamente todas as culturas do mundo consideram óbvio, inclusive as crianças em nossa própria cultura, até que sejam educadas para acreditar que tudo está dentro do cérebro. Mas, apesar dessa educação, a maioria das pessoas ainda presume que as imagens estão fora delas, onde parecem estar. Essa é a nossa experiência imediata. É preciso um esforço intelectual persistente para se convencer de que tudo o que você vê está dentro da sua cabeça.

Se eu projeto uma imagem ao olhar para algo, minha mente, de certa forma, toca o que estou observando e, portanto, pode afetá-lo. Isso não é uma especulação metafísica; é uma teoria científica testável. Se eu olhar para você por trás e você não souber que estou ali, você consegue sentir que estou olhando? Essa é uma experiência comum. Cerca de 95% das pessoas, incluindo crianças, já sentiram que estavam sendo observadas por trás. A maioria das pessoas simplesmente se vira sem pensar e encontra alguém olhando fixamente para elas. A maioria das pessoas também já teve a experiência inversa, de olhar fixamente para alguém por trás que se virou e olhou de volta. O nome científico para essa sensação de ser observado é scopaesthesia, “scop" de microscópio, relacionado ao ato de olhar, e aesthesia relacionado ao ato de sentir, como em anestesia e sinestesia. A existência da scopaesthesia é agora apoiada por um grande número de pesquisas experimentais. No entanto, sua existência é controversa; os materialistas a consideram impossível devido à sua crença de que as mentes estão confinadas aos cérebros.

A scopaesthesia é comum no reino animal. Muitos fotógrafos de vida selvagem descobriram que, mesmo estando escondidos (chamados de abrigo na América do Norte) e invisíveis para um animal, ao olharem através de uma teleobjetiva, mamíferos e aves frequentemente percebem quando estão sendo observados. Os fotógrafos aprendem com a experiência a tirar a foto rapidamente, pois o animal correrá ou voará para longe. Muitas pessoas já experimentaram a scopaesthesia com animais selvagens e domésticos, em ambas as direções: elas reagem ao olhar fixo de um animal, ou um animal reage ao olhar de alguém.

A scopaesthesia pode ter evoluído em animais de presa como resposta à predação. Um animal que conseguia sentir quando um predador escondido o observava teria uma chance maior de escapar do que um que não conseguia. Mesmo hoje, a sensação de estar sendo observado parece funcionar melhor quando as pessoas estão em situações de perigo potencial.

Agora é possível treinar a sensibilidade ao olhar através de um aplicativo chamado eyesense.training. Esta é uma pesquisa acessível a todos e que levanta uma questão profunda: como funciona a visão? O que nossas mentes projetam? A projeção da imagem está, de alguma forma, intimamente ligada à própria luz, sendo, por assim dizer, o inverso de um fóton? A luz segue em uma direção e há um fluxo de imagens virtuais na direção oposta?

Uma escola da física quântica propõe que, de fato, existem fluxos em ambas as direções quando a luz é emitida e absorvida. A interpretação transacional da mecânica quântica, proposta por John Cramer e posteriormente desenvolvida por Ruth Kastner, sugere que, quando a luz é absorvida, ocorre um processo inverso na direção oposta no espaço e no tempo. A luz entra do passado em direção ao futuro, enquanto a projeção externa se dá do futuro em direção ao passado, retrocedendo no tempo. Isso é chamado de "aperto de mãos" através do espaço e do tempo. A luz comum sai do emissor para o absorvedor, enquanto o absorvedor envia uma influência na direção oposta ao emissor. Observadores e observados estão reciprocamente interligados.

 

4. Laços sociais e telepatia

A expansão das nossas redes sociais se dá através dos nossos laços afetivos. Somos animais sociais, ligados a outras pessoas em grupos sociais. Estamos inseridos em famílias, sociedades, associações, grupos de trabalho, times de futebol, comunidades religiosas, instituições de ensino e assim por diante. Existem diversos tipos de grupos sociais aos quais pertencemos e através dos quais estamos conectados.

Espero que os ensaios e palestras que compartilho através do Substack ajudem a estimular um pensamento renovado e incentivem uma abordagem mais holística da ciência. No entanto, esse não é de forma alguma meu trabalho em tempo integral. Estou principalmente envolvido em pesquisa científica em várias frentes, algumas das quais ainda não discuti publicamente, e publico regularmente em periódicos científicos revisados por pares (veja a seção de Pesquisa sobre sheldrake.org para detalhes). Também resumo minhas descobertas de pesquisa em uma série contínua de vídeos chamada Findings, que publico aqui no Substack.

Instituições tradicionais de financiamento relutam em pagar por esse tipo de exploração, então a generosidade das pessoas que apoiam meu trabalho torna essa pesquisa possível. Mas se você não puder contribuir financeiramente, não se preocupe. Fico feliz em compartilhar ideias, e grande parte do meu conteúdo continuará livre e de acesso aberto.

 

Rupert Sheldrake

terça-feira, 7 de abril de 2026

Conversas Familiares de Além-Túmulo - NOTÍCIAS DA GUERRA[1]


Allan Kardec

 

O Governo permitiu que jornais avessos à política dessem notícias da guerra; como, porém, são abundantes os relatos de todos os gêneros, seria inútil repeti-los aqui. O que talvez constitua mais novidade para os nossos leitores é um relato que procede do outro mundo. Embora não seja extraído da fonte oficial do Moniteur, nem por isso oferece menor interesse, do ponto de vista dos nossos estudos. Assim, pensamos em interrogar algumas das gloriosas vítimas da vitória, presumindo aí pudéssemos encontrar alguma instrução de utilidade. Tais assuntos de observação e, sobretudo, de atualidade, não se apresentam todos os dias. Não conhecendo pessoalmente nenhum dos participantes da última batalha, rogamos aos Espíritos assistentes que nos enviassem alguém. Pensamos até mesmo encontrar mais liberdade num desconhecido do que na presença de amigos ou parentes dominados pela emoção. Logrando resposta afirmativa, obtivemos as seguintes conversas:

 

O ZUAVO DE MAGENTA

PRIMEIRA CONVERSA – (Sociedade, 10 de junho de 1859)

 

1. Rogamos a Deus Todo-Poderoso permitir ao Espírito de um dos militares mortos na batalha de Magenta que se comunique conosco.

– Que quereis saber?

2. Onde vos encontráveis quando vos chamamos?

– Não saberia dizer.

3. Quem vos preveniu que desejaríamos nos entreter convosco?

– Alguém mais astuto do que eu.

4. Quando na carne duvidáveis que os mortos pudessem vir conversar com os vivos?

– Oh! Isso não!

5. Que sensação experimentais por vos encontrardes aqui?

– Isso me dá prazer; conforme dizem, deveis fazer grandes coisas.

6. A que Corpo do Exército pertencíeis? [Alguém diz em voz baixa: Pela linguagem deve ser um zuzu.]

– Ah! Dissestes bem.

7. Qual era o vosso posto?

– O de todo o mundo.

8. Como vos chamáveis?

– Joseph Midard.

9. Como morrestes?

– Quereis saber tudo sem nada pagar?

10. Ora, vamos! Não perdestes o vosso bom humor. Falai primeiro; depois pagaremos. Como morrestes?

– De uma ameixa que dispararam contra mim.

11. Ficastes contrariado com a morte?

– Não! Palavra de honra! Estou bem aqui.

12. No momento da morte percebestes logo que havíeis morrido?

– Não; eu estava tão atordoado que não podia acreditar.

 

Observação – Isto concorda com o que temos observado nos casos de morte violenta; não se dando conta imediatamente de sua situação, o Espírito não se julga morto. Esse fenômeno se explica muito facilmente; é análogo ao dos sonâmbulos que não acreditam que estejam dormindo. Realmente, para o sonâmbulo, a ideia de sono é sinônimo de suspensão das faculdades intelectuais. Ora, como ele pensa, não acredita que dorme; só mais tarde reconhece a verdade, ao se familiarizar com o sentido ligado a essa palavra. Acontece a mesma coisa com o Espírito surpreendido por morte súbita, quando não se havia preparado para a separação do corpo. Para ele a morte é sinônimo de destruição, de aniquilamento. Ora, desde que vê, sente e raciocina, julga não ter morrido. É necessário certo tempo para poder reconhecer-se.

 

13. No momento em que morrestes a batalha não havia ainda terminado. Acompanhastes as suas peripécias?

– Sim, pois já vos disse que não me julgava morto; queria continuar maltratando os cães do outro lado.

14. Que sensação experimentáveis?

– Eu estava encantado; sentia-me muito leve.

15. Víeis os Espíritos dos vossos camaradas ao deixar o corpo?

– Não me preocupava com isso, pois não me julgava morto.

16. Nesse momento, em que se tornava essa multidão de Espíritos que deixava a vida no fragor da batalha?

– Creio que faziam o mesmo que eu.

17. Ao se acharem reunidos no mundo espiritual, que pensavam os Espíritos que se batiam mais encarniçadamente? Ainda revelavam animosidade uns contra os outros?

– Sim, durante algum tempo e conforme o seu caráter.

18. Reconhecei-vos melhor agora?

– Sem isso não me teriam enviado aqui.

19. Poderíeis dizer-nos se, entre os Espíritos de pessoas mortas há muito tempo, não se encontravam alguns interessados no desfecho da batalha? [Rogamos a São Luís que o auxiliasse em suas respostas, a fim de que, para a nossa instrução, fossem elas tão explícitas quanto possível].

– Em grande quantidade. É bom saibais que esses combates e suas consequências são preparados com muita antecedência e que os nossos adversários não se envolveriam em crimes, como de fato ocorreu, se a isso não houvessem sido impelidos, tendo em vista as consequências futuras, que não tardareis a conhecer.

20. Deveria haver quem se interessasse pelo sucesso dos austríacos, estabelecendo dois campos entre eles?

– Evidentemente.

 

Observação – Não parece que aqui estamos vendo os deuses de Homero a tomar partido, uns pelos gregos, outros pelos troianos? Com efeito, quem eram esses deuses do paganismo, senão os Espíritos que os Antigos haviam transformado em divindades? Não temos razão quando dizemos que o Espiritismo é a luz que esclarecerá mais de um mistério, a chave de mais de um problema?

 

21. Eles exerciam uma influência qualquer sobre os combatentes?

– Muito considerável.

22. Poderíeis descrever a maneira pela qual eles exerciam essa influência?

– Da mesma maneira por que são exercidas todas as influências que os Espíritos produzem sobre os homens.

23. Que esperais fazer agora?

– Estudar mais do que o fiz durante minha última etapa.

24. Retornareis para assistir, como espectador, aos combates que ainda se travam?

– Ainda não sei. Tenho afeições que me prendem no momento. Contudo, de vez em quando pretendo dar umas escapadelas para me divertir com as escaramuças subsequentes.

25. Que gênero de afeição vos retém ainda?

– Uma velha mãe doente e sofredora, que chora por mim.

26. Peço me desculpeis o mau pensamento que acaba de me atravessar o Espírito, relativamente à afeição que vos retém.

– Não vos quero mal por isso. Falo tolices para que possais rir um pouco. É natural que não me tomeis por grande coisa, tendo em vista o honroso corpo a que pertencia. Ficai tranquilos, eu só me engajei por causa de minha pobre mãe. Mereço um pouco que me tenham mandado a vós.

27. Quando vos encontrastes entre os Espíritos ouvíeis o rumor da batalha? Víeis as coisas tão claramente como em vida?

– A princípio eu a perdi de vista, mas depois de algum tempo via muito melhor, porque percebia todas as artimanhas.

28. Pergunto se ouvíeis o troar dos canhões.

– Sim.

29. No momento da ação, pensáveis na morte e naquilo em que vos tornaríeis, caso fôsseis morto?

– Eu pensava no que seria de minha mãe.

30. Era a primeira vez que entráveis no fogo de uma batalha?

– Não, não; e a África?

31. Vistes a entrada dos franceses em Milão?

– Não.

32. Aqui sois o único dos que morreram na Itália?

– Sim.

33. Pensais que a guerra durará muito?

– Não. É fácil e, ademais, de pouco valor essa predição.

34. Quando entre os Espíritos vedes um de vossos chefes, ainda o reconheceis como vosso superior?

– Se ele o for, sim; se não, não.

 

Observação – Em sua simplicidade e em seu laconismo, esta resposta é eminentemente profunda e filosófica. No mundo espírita a superioridade moral é a única que se reconhece. Quem não a teve na Terra, qualquer que tenha sido a sua posição, não terá nenhuma superioridade. Naquele mundo o chefe pode estar abaixo do soldado, o patrão em posição inferior à do servo. Que lição para o nosso orgulho!

 

35. Pensais na justiça de Deus e vos inquietais por isso?

– Quem não pensaria? Mas, felizmente, não tenho muito a temer. Resgatei, por algumas ações que Deus considerou boas, as raras escapadelas que pude cometer na qualidade de zuzu, conforme dissestes.

36. Assistindo a um combate, poderíeis proteger um de vossos camaradas e desviar-lhe um golpe fatal?

– Não; isso não está em nosso poder; a hora da morte é marcada por Deus. Se devemos passar por ela, nada o poderá impedir, como ninguém a poderia atingir se sua hora não houvesse soado.

37. Vedes o General Espinasse?

– Ainda não o vi, mas espero vê-lo em breve.

 

SEGUNDA CONVERSA – (17 de junho de 1859)

 

38. Evocação.

– Presente! Firme! Em frente!

39. Lembrais de ter vindo aqui há oito dias?

– Claro!

40. Dissestes ainda não ter visto o General Espinasse; como poderíeis reconhecê-lo, já que ele não estará envergando o seu hábito de general?

– De fato, mas eu o conheço de vista; além disso, temos uma porção de amigos sempre prontos a nos dar a senha. Aqui não é como aí, pois não temos medo de trombar com ninguém e vos asseguro que somente os velhacos ficam sozinhos.

41. Sob que aparência vos encontrais aqui?

– Zuavo.

42. Se vos pudéssemos ver, como vos veríamos?

– De turbante e culote.

43. Pois bem! Supondo-se que nos aparecêsseis de turbante e culote, perguntamos onde adquiristes essas roupas, considerando-se que deixastes as vossas no campo de batalha.

– Ora essa! Não sei de nada; tenho um alfaiate que me consegue algumas.

44. De que são feitos o turbante e o culote que usais? Tendes alguma ideia?

– Não; isto concerne ao negociante de roupas usadas.

 

Observação – Esta questão da vestimenta dos Espíritos, e várias outras não menos interessantes que se ligam ao mesmo princípio, são completamente elucidadas por novas observações, feitas no seio da Sociedade. Delas daremos conta no próximo número. Nosso bravo zuavo não se acha assaz adiantado para resolver por si mesmo. Para isso foi-nos necessário o concurso de circunstâncias que se apresentaram fortuitamente e que nos puseram no caminho certo.

 

45. Dai-vos conta da razão por que nos vedes, ao passo que não vos podemos ver?

– Acho que vossos óculos estão muito fracos.

46. Não será por essa mesma razão que não podeis ver o general em uniforme?

– Sim, mas ele não o veste todos os dias.

47. Em que dias o veste?

– Ora essa! Quando o chamam ao palácio.

48. Por que estais aqui vestido de zuavo, já que não vos podemos ver?

– Naturalmente porque ainda sou zuavo, lá se vão quase oito anos e, também, porque entre os Espíritos conservamos a forma durante muito tempo. Mas isso é apenas entre nós; compreendeis que quando vamos a um mundo completamente estranho, como a Lua ou Júpiter, não nos damos muito ao trabalho de fazer toalete.

49. Falais da Lua e de Júpiter; já os visitastes depois de morto?

– Não; não me compreendeis. Depois da morte já percorremos bastante o Universo. Não nos explicaram uma porção de problemas da nossa Terra? Não conhecemos Deus e os outros seres muito melhor do que há quinze dias? Com a morte o Espírito passa por uma metamorfose que não podeis compreender.

50. Revistes o corpo que deixastes no campo de batalha?

– Sim; ele não está nada belo.

51. Que impressão vos deixou tal visão?

– Tristeza.

52. Tendes conhecimento de vossa existência anterior?

– Sim; mas não era bastante gloriosa para que eu possa envaidecer-me.

53. Dizei-nos apenas o gênero de vida que levastes.

– Simples mercador de peles selvagens.

54. Agradecemos por haverdes voltado uma segunda vez.

– Até breve. Isto me diverte e me instrui; desde que me tolerem bem aqui, retornarei de bom grado.

 

UM OFICIAL SUPERIOR MORTO EM MAGENTA

(Sociedade, 10 de junho de 1859)

1. Evocação.

– Eis-me aqui.

2. Poderíeis dizer-nos como atendestes tão prontamente ao nosso apelo?

– Eu estava prevenido do vosso desejo.

3. Por quem fostes prevenido?

Por um emissário de Luís[2].

4. Tínheis conhecimento da existência de nossa Sociedade?

– Vós o sabeis.

 

Observação – O oficial em questão tinha realmente auxiliado a Sociedade para a obtenção do seu registro de funcionamento[3].

 

5. Sob que ponto de vista consideráveis a nossa Sociedade quando concorrestes para a sua formação?

– Eu não estava ainda inteiramente decidido, mas me inclinava muito a crer; não fossem os acontecimentos que sobrevieram, por certo teria ido instruir-me no vosso círculo.

6. Há criaturas deveras notáveis que comungam as ideias espíritas, mas que não o confessam de público. Seria desejável que as pessoas influentes desfraldassem abertamente essa bandeira?

– Paciência; Deus o quer e, desta vez, a expressão é verdadeira.

7. De que classe influente da sociedade pensais deverá partir em primeiro lugar o exemplo?

– No início, de algumas; depois, de todas.

8. Do ponto de vista do estudo, poderíeis dizer-nos se vossas ideias são mais lúcidas que as do zuavo que há pouco esteve aqui, embora ambos hajam falecido mais ou menos na mesma época?

– Muito. Aquilo que ele vos disse, testemunhando uma certa elevação de pensamento, foi-lhe soprado, porque ele é bom mas muito ignorante e um tanto leviano.

9. Ainda vos interessais pelo sucesso de nossos exércitos?

– Muito mais do que nunca, pois hoje conheço o seu objetivo.

10. Tende a bondade de definir o vosso pensamento; o objetivo sempre foi abertamente confessado e, sobretudo em vossa posição, devíeis conhecê-lo?

– O fim que Deus se propôs, vós o sabeis?

 

Observação – Ninguém desconhecerá a gravidade e a profundeza desta resposta. Assim, quando vivo, ele conhecia o objetivo dos homens; como Espírito, vê o que há de providencial nos acontecimentos.

 

11. Que pensais da guerra em geral?

– Desejo que progridais rapidamente, a fim de que ela se torne tão impossível quanto inútil. Eis a minha opinião.

12. Acreditais que chegará o dia em que ela será impossível e inútil?

– Sim, não tenho dúvida, e posso dizer que esse momento não está tão longe quanto pensais, embora não vos possa dar esperança de que o vereis.

13. Vós vos reconhecestes imediatamente no momento da morte?

– Quase que imediatamente, graças às vagas noções que possuía do Espiritismo.

14. Podeis dizer algo a respeito de M..., morto também na última batalha?

– Ele ainda se encontra enredado na matéria; sente muita dificuldade em se desvencilhar; seus pensamentos não se tinham voltado para este lado.

 

Observação – O conhecimento do Espiritismo auxilia o desprendimento da alma após a morte; assim, concebe-se que abrevie o período de perturbação que acompanha a separação; o Espírito conhecia antecipadamente o mundo em que ora se encontra.

 

15. Assististes à entrada de nossas tropas em Milão?

– Sim, e com alegria. Fiquei encantado pela ovação com que nossas armas foram acolhidas, a princípio por patriotismo; depois, pelo futuro que as aguarda.

16. Como Espírito, podeis exercer uma influência qualquer sobre as disposições estratégicas?

– Acreditais que isso não tenha sido feito desde o princípio, e tendes dificuldade de adivinhar por quem?

17. Como foi possível que os austríacos abandonassem tão rapidamente uma praça forte como Pavia?

– Medo.

18. Então estão desmoralizados?

– Completamente. De mais a mais, se agimos sobre os nossos num sentido, deveis pensar que sobre eles age uma influência de outra natureza.

 

Observação – Aqui a intervenção dos Espíritos nos acontecimentos é inequívoca. Eles preparam os caminhos para a realização dos desígnios da Providência. Os Antigos teriam dito que era obra dos deuses; nós dizemos que é dos Espíritos, por ordem de Deus.

 

19. Podeis dar a vossa opinião sobre o General Giulay, como militar, pondo de lado qualquer sentimento nacionalista?

– Pobre, pobre general!

20. Voltaríeis de bom grado se vos pedíssemos?

– Estou à vossa disposição e prometo vir, mesmo sem ser chamado. A simpatia que eu nutria por vós não fez senão aumentar. Adeus.



[1] REVISTA ESPÍRITA – Julho/1859 – Allan Kardec

[2] N. do T.: São Luís [Luís IX, Rei da França] patrono da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

[3] N. do T.: Desde 1854, quando pela primeira vez ouviu falar das mesas girantes, até a sua desencarnação, em 1869, Allan Kardec conviveu com a França de Napoleão III. Esse sobrinho do grande corso, através de um Golpe de Estado desferido em dezembro de 1851, abriu caminho para ser proclamado Imperador no ano seguinte.

Reconhecendo intimamente a fragilidade do regime que fundara, adotou medidas coercitivas e autoritárias de modo a garantir a sua permanência no poder, entre as quais a censura à imprensa e a proibição de reuniões em recintos fechados, além de outros expedientes que restringiam a liberdade do povo francês. Assim, compreendemos melhor por que o Codificador encontrou alguns obstáculos para registrar a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas nos organismos oficiais competentes.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

EDWARD ‘SERJEANT’ COX[1]

 


Roberto R Narváez

 

Edward William Cox ajudou a moldar uma resposta naturalista precoce aos fenômenos mediunísticos, tratando-os como efeitos genuínos, porém não espirituais, de uma 'Força Psíquica' corporal. Sua carreira vinculou direito, publicação e psicologia experimental em um momento formativo dos debates vitorianos sobre Espiritismo, ciência, mente e agência humana.

§  Advogado e editor que fundou ou dirigiu vários jornais e periódicos antes de dedicar atenção séria à psicologia e aos fenômenos das sessões espíritas.

§  Sustentava que os efeitos meditécnicos eram reais, mas produzidos por uma força automática gerada dentro do organismo humano, e não por espíritos.

§  Trabalhou com William Crookes em investigações mediunísticas, tendo posteriormente rompido com ele por causa do caso de materialização de Florence Cook.

 

Vida e carreira

Filho de um fabricante, Edward William Cox (1809–1879) nasceu em Taunton, Somerset, cidade onde se tornou advogado[2]. Seus empreendimentos editoriais começaram em 1836, quando fundou o Somerset County Gazette e depois o Law Times, que dirigiu por quase 25 anos. Ele também fundou ou adquiriu outros jornais em inglês: The Critic, The Field, The Queen e County Courts' Chronicle.

Em 1843, foi admitido na ordem dos advogados e ingressou no Western Circuit, mudando-se posteriormente para Londres. De 1857 a 1868, ocupou cargos jurídicos como oficial judicial ou juiz, como Recorder de Helston e Recorder de Falmouth em Portsmouth. Ele escreveu livros e manuais sobre direito penal, a formação do advogado e do orador, sono e sonhos, hereditariedade, fisiologia e outros assuntos. Isso, junto com sua trajetória no ramo editorial, foram fundamentais para sua ascensão ao posto de Serjeant-at-Law (membro da ordem dos advogados da ordem inglesa), título pelo qual é conhecido na literatura parapsicológica.

Conservador na política, concorreu sem sucesso ao parlamento. Seus investimentos e empreendimentos comerciais o tornaram muito rico, e ele adquiriu grandes propriedades em Londres e em outros lugares.

 

Pesquisa Psíquica e Psicologia

No final da década de 1860, Cox interessou-se pelo fenômeno do espiritualismo e participou de um comitê nomeado pela London Dialectical Society. Durante a década de 1870, participou de sessões espíritas com D.D. Home e outros médiuns celebrados. Ele acreditava que os fenômenos das sessões eram genuínos, mas não os atribuía a nenhum agente sobrenatural, preferindo enxergá-los como uma questão de psicologia experimental[3]. Ele foi cofundador e único presidente da efêmera Psychological Society of Great Britain, que tinha como objetivo investigar alegações espiritualistas sobre a ação de agentes descarnados[4].

Para Cox, o objetivo da psicologia era revelar as 'nascentes ocultas' do 'mecanismo do homem', ajudando a resolver os problemas mais profundos da vida e da mente[5]. Ele argumentou que os efeitos mediáticos eram produzidos por uma força corporal natural — o que ele chamou de Psychic Force — gerada dentro do organismo humano e operando automaticamente através do sistema nervoso. Essa força, ele acreditava, poderia agir além dos limites da força muscular, muito parecido com magnetismo ou eletricidade, e por isso deveria ser estudada experimentalmente. A psicologia de Cox rejeitava tanto as ideias religiosas de alma separada quanto o materialismo grosseiro, posicionando a mediunidade como evidência de um processo psicofísico natural, porém pouco compreendido, em vez de intervenção espiritual.

 

William Crookes

Cox atuou como assistente de William Crookes em alguns de seus experimentos com médiuns. Ele concordou com Crookes que os experimentos deste último com D.D. Home forneceram evidências da Psychic Force, consistente com a teoria de Benjamin W. Richardson sobre uma 'atmosfera' gasosa dentro do sistema nervoso, que envolvia o corpo e mediava as experiências sensoriais[6]. Mais tarde, ele ficou desiludido com Crookes, acreditando que ele havia agido fraudulentamente no caso das supostas materializações de Florence Cook de 'Katie King[7]'.

 

William Carpenter

O fisiologista e psicólogo William B. Carpenter foi um opositor vocal do espiritualismo e da pesquisa psíquica, fazendo comentários públicos hostis sobre Crookes e outros investigadores[8]. Ele argumentou que os fenômenos das sessões espíritas eram causados pelo que chamava de 'cérebro inconsciente'. Cox escreveu que tal hipótese talvez não fosse totalmente incorreta, mas se opôs totalmente à rejeição da alma por Carpenter como um 'fato positivo'. Ele enfatizou que 'a psicologia começa ... onde a fisiologia termina', e que afirma 'a existência de algo além do cérebro, algo invisível ... mas não menos real'. A mente, acrescentou, pode ou não ser uma função do corpo, mas há evidências científicas da existência da alma. Tais evidências estão em nossa consciência e são fortalecidas pela ação da Psychic Force [9].

 

Experimento com Henry Slade

Em 1876, Cox teve uma sessão privada em Londres com o controverso médium americano Henry Slade, testando sua suposta capacidade de se comunicar com espíritos por meio da escrita em ardósia. Cox afirmou que testemunhou materializações e outros fenômenos espiritualistas, mas acrescentou que como isso era feito, e por qual ação, era 'um problema para a psicologia resolver[10]'.

 

Obras Selecionadas

§  Cox, E.W. (1872). Spiritualism Answered by Science; with the Proofs of a Psychic Force. London: Longmans and Co.

§  Cox, E.W. (1876). A sitting with Dr. Slade. The Spiritualist 11 August, 18-19.

§  Cox, E.W. (1878). A Monograph of Sleep and Dream. London: Longman and Co.

§  Cox, E.W. (1879a). The progress of psychology I. The Spiritualist 14 November, 229-31.

§  Cox, E.W. (1879b). The progress of psychology II. The Spiritualist November 21, 247-51.

§  Cox, E.W. (1879c). The Mechanism of Man: An answer to the Question What am I? (2 vols.) London: Longmans and Co.

 

Literatura

§  Berger, A.S., & Berger, J. (1991). The Encyclopedia of Parapsychology and Psychical Research. New York: Paragon House.

§  Brock, W.H. (2008). William Crookes (1832–1919) and the Commercialization of Science. Ashgate Publishing, Ltd.

§  Crookes, W., Huggins, W., & Cox, E.W. (1871). An experimental investigation of spiritual phenomena. The Spiritualist 15 July, 180-82.

§  Noakes, R. (2019). Physics and Psychics. The Occult and the Sciences in Modern Britain. Cambridge: Cambridge University Press.

§  Oppenheim, J. (1985). The Other World: Spiritualism and Psychical Research in Britain, 1850-1914. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

§  Shepard, L. & Spence, L. (1991). Encyclopedia of Occultism & Parapsychology (3rd ed., vol 1). Detroit, Michigan, USA: Gale Research, Inc.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Esta seção é baseada principalmente em Berger & Berger (1991), 81-82.

[3] Noakes (2019), 47, 250.

[4] Oppenheim (1985), 30.

[5] Cox (1878), iv.

[6] Noakes (2019), 170; Crookes, Huggins & Cox (1871), 181

[7] Oppenheim (19985), 18. Berger & Berger (1991), 82. Shepard & Spence (1991), 334.

[8] Noakes (2019), 251-52.

[9] Cox (1872), 76-77.

[10] Cox (1876).

quinta-feira, 2 de abril de 2026

INTERESSE PELA BATALHA[1]

 

Miramez

 

Os Espíritos durante os combates

No tumulto dos combates, que se passa com os Espíritos dos que sucumbem? Continuam, após a morte, a interessar-se pela batalha?

Alguns continuam a interessar-se, outros se afastam.

Dá-se, nos combates, o que ocorre em todos os casos de morte violenta: no primeiro momento, o Espírito fica surpreendido e como que atordoado. Julga não estar morto. Parece-lhe que ainda toma parte na ação. Só pouco a pouco a realidade lhe surge. (Allan Kardec)

Questão 546 / O Livro dos Espíritos

 

O Espírito que lutou como encarnado na guerra, ao desencarnar durante a batalha, fica mais ou menos atordoado, de acordo com a sua evolução espiritual. O fragor da batalha lhe toma os sentidos e o prende à luta, levando-o a se demorar naquele ambiente o quanto a sua evolução o permitir.

É o sofrimento que o irá tirando da ignorância, levando-o à procura da paz. A alma precisa de tempo para o seu aprendizado espiritual. Não podemos dizer o procedimento dos Espíritos, generalizando suas ideias depois das batalhas, porque cada um é diferente na maneira de proceder. Os processos de educação das criaturas são diversos, na diversidade da própria natureza.

A ignorância, movida pelo instinto, nos traz violência. A violência é estado natural do homem ou do Espírito primitivo, e todos passam por esse estado ligado à ignorância. É muito grande o trabalho dos benfeitores espirituais em uma guerra. Eles redobram seus esforços para socorrer a todos, dando a cada um segundo suas necessidades espirituais.

Convém a todos que já entendem essa operação benfeitora ajudar pela oração os Espíritos evangélicos que socorrem os desencarnados nas guerras e nas catástrofes, o que ocorre quase todos os dias no mundo. As mortes violentas atordoam as almas que assim desencarnam, e as mãos benfeitoras as assistem pela força do amor e da renúncia em favor de todas essas criaturas de Deus. Existem muitas delas que julgam não estarem mortas, por desencarnar sob influência do ódio. Oremos juntos, para que no amanhã o homem não desperdice mais o tempo com lutas, intrigas e discórdia encarniçada.

O trabalho do Cristo é maravilhoso, por ser de educação da humanidade. Ele delegou forças aos Seus discípulos de todos os tempos para continuarem essa operação divina de instruir os seres humanos na ciência do amor, transformando os dez mandamentos em apenas dois, que têm a força de fazer desaparecer as guerras fratricidas, as injúrias, a maledicência e todas as espécies de crimes.

Muitos Espíritos, ao desencarnarem em plena batalha, passam a não se interessar mais pela guerra, por sentirem que ela é inútil para eles, sendo, então, recolhidos por mãos generosas às casas de recuperação espiritual. Outros ficam envolvidos nas batalhas cada vez mais, sofrendo todas as consequências que advêm da brutalidade que nasce da ignorância.

É bom que compreendamos que guerra não é somente de irmãos que matam irmãos; ela existe em muitas dimensões, como as lutas motivadas pela ignorância, em que o orgulho toma a dianteira, aquelas em que o egoísmo inspira a vaidade sem comedimento, as lutas internas que sempre travamos, para construir e destruir...

Devemos sempre lembrar Jesus, na Sua fala divina, para recompor as forças da alma nos seus devidos lugares. Muitas vezes os que lutam em uma guerra pensam que estão iluminados em defender suas pátrias, que a honra é um dever que devem cumprir. Recordemos o Mestre:

Vê, pois, que a luz que há em ti não seja treva.

Lucas, 11:35

Existem muitas ações humanas que nasceram das trevas, por faltar conhecimento das leis universais, onde se apoiam o amor e a justiça de Deus.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 11 – João Numes Maia

quarta-feira, 1 de abril de 2026

ALGUMAS CRIANÇAS EM FASE TERMINAL RECUPERAM A CONSCIÊNCIA E CONVERSAM COM SERES POUCO ANTES DE FALECER[1].

 


Greg - 5 de março de 2026

 

Uma das muitas experiências estranhas relatadas perto do momento da morte é o que ficou conhecido como Lucidez Terminal (LT): um "surto inesperado de clareza mental pouco antes da morte" que geralmente contraria as expectativas médicas. Ou seja, casos como indivíduos que estavam em coma ou com demência grave repentinamente se tornando conscientes e reconhecendo aqueles que estavam reunidos ao seu lado nos minutos, horas ou dias que antecederam seu falecimento.

Durante esse período de lucidez, os pacientes frequentemente expressam compreensão e aceitação (e às vezes até felicidade e entusiasmo) em relação à sua morte iminente, tranquilizam seus entes queridos de que tudo ficará bem e, ocasionalmente, relatam a presença e a comunicação com entidades invisíveis, incluindo pessoas falecidas ou figuras espirituais (esta última é frequentemente chamada de "visão no leito de morte").

A LT é tão comum que passou a ser conhecida por diversos nomes, desde "clareamento" e "a recuperação" até o termo mais acadêmico "onda pré-morte". Mas também é uma das áreas menos estudadas, e até recentemente havia pouquíssima pesquisa sobre o tema, apesar de o fenômeno levantar questões intrigantes sobre a natureza e a origem da consciência humana.

Como é possível que uma pessoa com o cérebro gravemente danificado recupere repentinamente a lucidez e converse com as pessoas ao seu redor, pouco antes de falecer?

Embora o interesse acadêmico pelo assunto tenha crescido lentamente nas últimas décadas, um subconjunto específico de casos de LT que tem sido alvo de pesquisas nos últimos anos são as experiências de crianças em fase terminal – e um novo artigo científico publicado na semana passada apresentou o que considera ser a primeira coleta sistemática de casos contemporâneos de LT em crianças de até 16 anos.

A ocorrência inesperada de uma clareza mental excepcionalmente aguçada pouco antes da morte tem sido relatada ao longo do tempo e em diferentes culturas. Casos que parecem ser característicos da LT em crianças têm sido documentados esporadicamente na literatura histórica e mais recente, porém nenhum estudo examinou sistematicamente as características da LT em crianças. Utilizando um questionário online com 42 itens, este estudo coletou relatos de casos de LT em 11 crianças com 16 anos ou menos. Registramos a progressão da doença e o regime de tratamento, as alterações comportamentais e emocionais antes e durante a LT, a proximidade da LT à morte e a duração da LT.

Os casos foram coletados de sete indivíduos que testemunharam LT em uma criança, seis dos quais trabalhavam como médico, enfermeiro, profissional de cuidados paliativos ou assistente social, e o outro era o irmão mais velho de uma criança falecida que havia vivenciado a LT.

O estudo constatou que a LT nesse grupo de crianças “tendia a ocorrer nas últimas horas ou minutos antes da morte da criança” e que “tipicamente se manifestava como mudanças notáveis ​​nas habilidades mentais, bem como mudanças comportamentais e emocionais marcantes”. Apesar de 10 das 11 crianças apresentarem “deficiência mental grave” (a outra apresentava “deficiência mental leve”), pouco antes da morte, seu estado mental mudou drasticamente.

Por exemplo, o Caso 7 “passou de um estado semicomatoso para um estado de alerta, conseguindo se comunicar com as enfermeiras, enquanto, antes do evento lúcido”; o Caso 8 “não respondia aos profissionais de saúde nem aos pais. Durante o evento, ela se comunicou normalmente”. O Caso 3 também foi descrito como “seu comportamento era o normal, mas sem dor e muito tranquilo”. Outras respostas também indicaram que “uma sensação de paz havia se instalado na criança durante a LT”. Por exemplo, a pessoa que presenciou a LT no Caso 2 afirmou: “ele estava alerta e conversando. Parecia conhecer a todos, como se estivesse perfeitamente bem. Também estava tranquilo. Sabia que ia morrer e não estava com medo nenhum”, enquanto a pessoa que presenciou a LT no Caso 6 afirmou que “após sair do coma e ter clareza, ele também pareceu ter uma sensação de paz e aceitação do que estava acontecendo”.

Mais surpreendente ainda, durante esse período de lucidez, 10 das 11 crianças também interagiram com "outros não identificados" que não eram visíveis para mais ninguém. Uma das crianças "conversava apenas com alguém que só ela podia ver. Ela não olhava para os outros no quarto", enquanto outra "parecia se comunicar com pessoas que não estavam presentes, conversando e dialogando como se tivesse recuperado seu estado normal de saúde". Após ter estado em estado semicomatoso, uma criança "comunicou-se com as enfermeiras para dizer aos pais que ficaria bem e que fulano de tal a ajudaria a partir", enquanto outra "relatou ter conversado com uma avó falecida". Duas das crianças descreveram ter interagido com outras crianças que estavam no hospital ao mesmo tempo que elas, mas que já haviam falecido.

E, surpreendentemente, duas das crianças chegaram a falar sobre interagir com familiares falecidos dos quais não tinham conhecimento.

O Caso 10 discutiu a reunião com um irmão falecido que os pais não haviam mencionado à criança antes: “Ele falou sobre se juntar ao irmão que nasceu morto e disse aos pais que ficaria bem”, enquanto o Caso 1 descreveu a comunicação com um tio falecido que ele não conhecia, pois a morte do tio ocorreu antes do nascimento da criança: “ele ‘conheceu’ alguém que o fazia rir e ser feliz. Quando ele descreveu essa pessoa para a mãe, ela me disse: ‘ele está descrevendo meu irmão mais novo que morreu quando eu era mais nova’”.

Os autores do artigo deixam claro que esse período de lucidez e as visões de 'outros' invisíveis não estavam relacionados a nenhum tratamento médico ou medicamento: "A LT não pareceu ser impedida por quaisquer mudanças no regime médico", observam eles, "e pareceu ocorrer apesar de muitas crianças estarem em estados semicomatosos ou comatosos pouco antes do episódio de lucidez".

Embora reconheçam o tamanho reduzido da amostra, os pesquisadores afirmam que seu estudo

“é um primeiro passo necessário e importante para construir uma compreensão mais robusta do que é a LT” e concluem que – assim como já foi observado em adultos – “um aumento de clareza mental em crianças com doenças terminais ocorre, apesar das expectativas médicas de que não deveria”. E, mais importante, que suas descobertas podem ajudar a “aprimorar os cuidados paliativos em crianças com doenças terminais, bem como a desenvolver uma compreensão sobre a natureza da consciência no fim da vida”.