terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

PNEUMATOGRAFIA OU ESCRITA DIRETA[1]

 


Allan Kardec

 

A pneumatografia é a escrita produzida diretamente pelo Espírito, sem intermediário algum; difere da psicografia, por ser esta a transmissão do pensamento do Espírito, mediante a escrita feita com a mão do médium. Demos essas duas palavras no Vocabulário Espírita, posto no início de nossa Instrução Prática, com a indicação de sua diferença etimológica. Psicografia, do grego psykê, borboleta, alma; e graphus, eu escrevo; Pneumatografia, de pneuma, ar, sopro, vento, Espírito. No médium escrevente a mão é um instrumento, mas a sua alma, ou Espírito encarnado, é o intermediário, o agente ou o intérprete do Espírito estranho que se comunica; na Pneumatografia, é o próprio Espírito estranho que escreve diretamente, sem intermediário.

O fenômeno da escrita direta é, inegavelmente, um dos mais extraordinários do Espiritismo. Por anormal que pareça à primeira vista, é hoje um fato verificado e incontestável. Se dele ainda não falamos, é que esperávamos poder dar-lhe a explicação e já ter procedido às observações necessárias, a fim de tratar a questão com conhecimento de causa. A teoria, sempre necessária para nos inteirarmos da possibilidade dos fenômenos espíritas em geral, talvez ainda se faça mais necessária neste caso que, sem contestação, é um dos mais estranhos que se possam apresentar, deixando, porém, de parecer sobrenatural, desde que se lhe compreenda o princípio.

Da primeira vez que este fenômeno se produziu, a dúvida foi o sentimento dominante que deixou. Logo acudiu aos que o presenciaram a ideia de um embuste. Toda gente, com efeito, conhece a ação das tintas chamadas simpáticas, cujos traços, a princípio completamente invisíveis, aparecem ao cabo de algum tempo. Podia, pois, dar-se que tivessem, por esse meio, abusado da credulidade dos assistentes, e longe nos achamos de afirmar que nunca o tenham feito. Estamos até convencidos de que algumas pessoas, não com propósito mercenário, mas unicamente por amor-próprio e para fazer acreditar nas suas faculdades, hão empregado subterfúgios.

Na terceira das cartas escritas de Montaigne, J.-J. Rousseau refere o seguinte fato:

Em 1743 vi em Veneza uma nova espécie de sortilégio, mais estranho que os de Préneste; quem o quisesse consultar entrava numa câmara, ali permanecendo sozinho, caso o desejasse. De um livro de folhas brancas tirava uma de sua escolha; depois, segurando essa folha, pedia mentalmente, e não em voz alta, aquilo que desejava saber; em seguida, dobrava a folha branca, depositava-a num envelope, lacrava-o e o colocava, assim fechado, dentro de um livro. Finalmente e sem perder o livro de vista, depois de haver recitado algumas fórmulas muito extravagantes, verificava se o selo não tinha sido violado, abria o envelope, retirava o papel e encontrava escrita a resposta. O mágico que fazia estas sortes era o primeiro secretário da Embaixada da França e se chamava J.-J. Rousseau.

Duvidamos que Rousseau tenha conhecido a escrita direta, pois, do contrário, teria sabido outras coisas relativas às manifestações espíritas e não teria tratado do assunto com tanta leviandade. Como ele próprio reconheceu quando o interrogamos sobre este fato, é provável que utilizasse um processo que aprendera de um charlatão italiano.

Entretanto, do fato de se poder imitar uma coisa, fora absurdo concluir-se pela sua inexistência. Nestes últimos tempos, não se há encontrado meio de imitar a lucidez sonambúlica, a ponto de causar ilusão? Mas, porque esse processo de saltimbanco se tenha exibido em todas as feiras, dever-se-á concluir que não haja verdadeiros sonâmbulos? Porque certos comerciantes vendem vinho falsificado, será uma razão para que não haja vinho puro? O mesmo sucede com a escrita direta. Bem simples e fáceis eram, aliás, as precauções a serem tomadas para garantir a realidade do fato e, graças a essas precauções, hoje ele já não pode constituir objeto da mais ligeira dúvida.

Considerando-se que a possibilidade de escrever sem intermediário representa um dos atributos do Espírito; uma vez que os Espíritos sempre existiram desde todos os tempos e que desde todos os tempos se hão produzido os diversos fenômenos que conhecemos, o da escrita direta igualmente se há de ter operado na Antiguidade, tanto quanto nos dias atuais. Deste modo é que se pode explicar o aparecimento das três palavras célebres, na sala do festim de Baltazar. A Idade Média, tão fecunda em prodígios ocultos, mas que eram abafados por meio das fogueiras, também deve ter conhecido a escrita direta; igualmente é possível que, na teoria das modificações por que podem os Espíritos fazer passar a matéria, teoria que desenvolvemos em nosso artigo anterior, se encontre o fundamento da crença na transmutação dos metais. É um ponto que abordaremos qualquer dia.

Um de nossos assinantes ultimamente nos dizia que um de seus tios, cônego, que durante muitos anos havia sido missionário no Paraguai, obtinha, por volta do ano 1800, a escrita direta, juntamente com seu amigo, o célebre abade Faria. Seu processo, que nosso assinante jamais chegou a conhecer bem, e que de alguma sorte surpreendera casualmente, consistia numa série de anéis pendurados, aos quais eram adaptados lápis, dispostos em posição vertical, cujas pontas apoiavam-se no papel. Esse processo refletia a infância da arte; depois progredimos.

Todavia, quaisquer que tenham sido os resultados obtidos em diversas épocas, só depois de vulgarizadas as manifestações espíritas foi que se tomou a sério a questão da escrita direta. Ao que parece, o primeiro a torná-la conhecida, estes últimos anos, em Paris, foi o barão de Guldenstubbé, que publicou sobre o assunto uma obra muito interessante, com grande número de fac-símiles das escritas que obteve[2]. O fenômeno já era conhecido na América, havia algum tempo. A posição social do Sr. Guldenstubbé, sua independência, a consideração de que goza nas mais elevadas rodas incontestavelmente afastam toda suspeita de fraude intencional, porquanto não havia nenhum motivo de interesse a que ele obedecesse. Quando muito, o que se poderia supor, é que fora vítima de uma ilusão; a isto, porém, um fato responde peremptoriamente: o de haver outras pessoas obtido o mesmo fenômeno, cercadas de todas as precauções necessárias para evitar qualquer embuste e qualquer causa de erro.

A escrita direta é obtida, como em geral a maior parte das manifestações espíritas não espontâneas, por meio da concentração, da prece e da evocação. Tem-se produzido em igrejas, sobre túmulos, no pedestal de estátuas, ou imagens de personagens evocadas. Evidentemente, o local não exerce nenhuma outra influência, além da de facultar maior recolhimento espiritual e maior concentração dos pensamentos, porquanto provado está que o fenômeno se obtém, igualmente, sem esses acessórios e nos lugares mais comuns, sobre um simples móvel caseiro, desde que os que desejam obtê-lo se achem nas devidas condições morais e, entre esses, se encontre quem possua a necessária faculdade mediúnica.

Julgou-se, a princípio, ser preciso colocar aqui ou ali um lápis com o papel. O fato então podia, até certo ponto, explicar-se.

É sabido que os Espíritos produzem o movimento e a deslocação dos objetos; que, algumas vezes, os tomam e atiram longe. Bem podiam, pois, tomar também do lápis e servir-se dele para traçar letras. Visto que o impulsionam, utilizando-se da mão do médium, de uma prancheta etc., podiam, do mesmo modo, impulsioná-lo diretamente. Não tardou, porém, se reconhecesse que o lápis era dispensável, que bastava um pedaço de papel, dobrado ou não, para que, ao cabo de alguns minutos, se achassem nele grafadas as letras.

Aqui, o fenômeno já muda completamente de aspecto e nos transporta a uma ordem inteiramente nova de coisas. As letras hão de ter sido traçadas com uma substância qualquer. Ora, sendo certo que ninguém forneceu ao Espírito essa substância, segue-se que ele próprio a compôs. Donde a tirou? Esse o problema.

O general russo, conde de B... mostrou-nos uma estrofe de dez versos alemães obtida dessa maneira por intermédio da irmã do barão de Guldenstubbé, simplesmente colocando uma folha de papel, arrancada de sua própria caderneta, debaixo do pedestal do relógio da chaminé. Tendo-a retirado ao cabo de alguns minutos, nela encontrou versos em caracteres tipográficos alemães muito finos e de perfeita pureza. Através de um médium psicógrafo o Espírito lhe disse que queimasse esse papel; como hesitasse, lamentando sacrificar um espécimen tão precioso, o Espírito acrescentou: “Nada temais; dar-te-ei um outro”. Com essa garantia, lançou o papel ao fogo, depois colocou uma segunda folha, igualmente tirada de sua carteira, sobre a qual os versos se achavam reproduzidos, exatamente da mesma maneira. Foi essa segunda edição que vimos e examinamos com o maior cuidado e, coisa bizarra, os caracteres apresentavam um relevo como se tivessem saído do prelo. Não é, pois, apenas o lápis que os Espíritos podem fazer, mas a tinta e os caracteres de imprensa.

Um dos nossos honrados colegas da Sociedade, o Sr. Didier obteve há alguns dias os resultados seguintes, que tivemos oportunidade de constatar, e cuja perfeita identidade podemos garantir. Tendo ido à igreja de Nossa Senhora das Vitórias, com a Sra. Huet, que há pouco obteve sucesso em experiências desse gênero, tomou uma folha de papel de carta com o timbre de sua casa comercial, dobrou-a em quatro e a colocou sobre os degraus de um altar, rogando, em nome de Deus, que um Espírito bom se dignasse escrever alguma coisa. Ao cabo de dez minutos de recolhimento encontrou no interior e numa das partes dobradas da folha a palavra e num dos outros campos a palavra Deus. A seguir, tendo pedido ao Espírito que dissesse quem havia escrito aquilo, recolocou o papel no mesmo lugar e, após dez minutos, encontrou estas palavras: por Fénelon.

Oito dias mais tarde, a 12 de julho, quis repetir a experiência e dirigiu-se ao Louvre, à sala Coyzevox, situada sob o pavilhão do relógio. Sobre a base do busto de Bossuet pôs uma folha de papel, dobrada como a primeira, mas nada obteve. Um menino de cinco anos o acompanhava e seu boné foi deixado no pedestal da estátua de Luís XIV, que se encontrava a alguns passos da primeira. Julgando que a experiência houvesse falhado, já se dispunha a sair quando, ao pegar o boné, percebeu embaixo deste, como se fora escrito a lápis sobre o mármore, a expressão amai a Deus, seguida da letra B. O primeiro pensamento que veio à mente dos assistentes foi o de que tais palavras poderiam ter sido escritas anteriormente por mãos estranhas, que não foram percebidas.

Entretanto, quiseram tentar a prova novamente, recolocando a folha dobrada em cima dessas palavras, cobrindo-as com o boné.

Decorridos alguns minutos perceberam que a folha continha três letras: a i m. Repuseram o papel e pediram fossem os escritos completados e obtiveram: Amai a Deus, isto é, aquilo que fora escrito no mármore, menos o B. Ficava assim evidente que as primeiras letras traçadas resultavam de escrita direta. Ressaltava, ainda, esse fato curioso: as letras foram grafadas sucessivamente e não de uma vez; quando da primeira inspeção, não houvera tempo de concluir as palavras. Saindo do Louvre, o Sr. D... dirigiu-se à igreja de Saint-Germain l'Auxerrois onde obteve, pelo mesmo processo, as palavras: Sede humildes. Fénelon, escritas de maneira muito clara e muito legível. Estas palavras ainda podem ser vistas no mármore da estátua a que nos referimos.

A substância de que são feitos esses caracteres tem toda a aparência da grafita do lápis e é facilmente apagada com a borracha. Examinamo-la ao microscópio e constatamos que não é incorporada ao papel, mas simplesmente depositada na superfície, de maneira irregular, sobre as suas asperezas, formando arborescências muito semelhantes às de certas cristalizações. A parte apagada pela borracha deixa à mostra as camadas de matéria negra introduzida nas pequenas cavidades das rugosidades do papel. Destacadas e retiradas com cuidado, essas camadas são a própria matéria que se produz durante a operação. Lamentamos que a pequena quantidade recolhida não nos tenha permitido fazer a sua análise química; mas não perdemos a esperança de o conseguir um dia.

Quem quiser reportar-se às explicações que foram dadas em nosso artigo anterior encontrará completa a teoria do fenômeno. Para escrever dessa maneira, o Espírito não se serve das nossas substâncias, nem dos nossos instrumentos. Ele próprio fabrica a matéria e os instrumentos de que há mister, tirando, para isso, os materiais preciosos, do elemento primitivo universal que, pela ação da sua vontade, sofre as modificações necessárias à produção do efeito desejado. Possível lhe é, portanto, fabricar tanto o lápis vermelho, a tinta de imprimir, a tinta comum, como o lápis preto, ou, até, caracteres tipográficos bastante resistentes para darem relevo à escrita.

Tal o resultado a que nos conduziu o fenômeno da tabaqueira, descrito em nosso número anterior, e sobre o qual nos estendemos longamente, porque nele percebemos oportunidade para perscrutarmos uma das importantes leis do Espiritismo, lei cujo conhecimento pode esclarecer mais de um mistério, mesmo do mundo visível. Assim é que, de um fato aparentemente vulgar, pode sair a luz. Tudo está em observar com cuidado e isso todos podem fazer como nós, desde que se não limitem a observar efeitos, sem lhes procurarem as causas. Se a nossa fé se fortalece de dia para dia, é porque compreendemos. Tratai, pois, de compreender, se quiserdes fazer prosélitos sérios. Ainda outro resultado decorre da compreensão das causas: o de deixar riscada uma linha divisória entre a verdade e a superstição.

Considerando a escrita direta do ponto de vista das vantagens que possa oferecer, diremos que, até o presente, sua principal utilidade há consistido na comprovação material de um  fato sério: a intervenção de um poder oculto que, nesse fenômeno, tem mais um meio de se manifestar. Todavia, raramente são extensas as comunicações que por essa forma se obtêm. Em geral espontâneas, elas se reduzem a algumas palavras ou proposições e, às vezes, a sinais ininteligíveis. Têm sido dadas em todas as línguas: em grego, em latim, em sírio, em caracteres hieroglíficos etc., mas ainda se não prestaram às dissertações seguidas e rápidas, como permite a psicografia ou a escrita pela mão do médium[3].



[1] REVISTA ESPÍRITA – agosto/1859 – Allan Kardec

[2] 20 La realité des Esprits et de leurs manifestations, démontrée par le phenomène de l`écriture directe, pelo barão de Guldenstubbé, 1 vol. in-8o, com 15 estampas e 93 fac-símiles. Preço 8 fr. Casa Frank, rua Richelieu. Encontra-se também nas Casas Dentu e Ledoyen.

[3] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – capítulo XII.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

LEÓN DENIS[1]

 


 

Léon Denis (lê-se Dení) nasceu em 1º de janeiro de 1846 em Foug, uma aldeia localizada na região da Lorena, nordeste da França. Sua casa era humilde, assim como os pais Josephine (que era materialista) e Ana Lúcia Denis (que era espírita). Desde cedo conheceu, por necessidade, os trabalhos manuais e os pesados encargos da família.

Sentia que os amigos invisíveis o auxiliavam já em seus primeiros passos neste mundo. Ao invés de participar de brincadeiras próprias da juventude, Denis procurava instruir-se o mais que podia. Lia obras sérias, conseguindo, com esforço próprio desenvolver sua inteligência. Era um autodidata sério e competente.

Aos 12 anos, concluiu o curso primário, mas a situação modesta de sua família não lhe permitiu grandes estudos. Desde cedo, apresentava problemas com a saúde física – principalmente os olhos.

Tinha 16 anos quando destacou-se como um dos melhores oradores e dos mais ardentes propagandistas. Com 18 anos tornou-se representante comercial, o que o obrigava a viajar constantemente – isto até quase a velhice.

Léon Denis adorava música e sempre que podia assistia a uma ópera ou concerto. Gostava de dedilhar, ao piano, melodias conhecidas, e de tirar acordes para seu próprio devaneio. Não fumava, era quase vegetariano e não fazia uso de bebidas fermentadas. Encontrava na água a bebida ideal.

Era seu hábito olhar, com interesse, para os livros expostos nas livrarias. Um dia, ainda com 18 anos, o chamado ‘acaso’ fez com que sua atenção fosse despertada para uma obra de título inusitado. Esse livro era O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec. Dispondo do dinheiro necessário, comprou-o e, recolhendo-se imediatamente ao lar, entregou-se com avidez à leitura. Denis afirmou:

Nele encontrei a solução clara, completa, lógica, acerca do problema universal. Minha convicção tornou-se firme. A teoria espírita dissipou minha indiferença e minhas dúvidas.

Seu espírito, nessa hora, sentiu-se sacudido em face dos compromissos assumidos no Espaço, para iniciar, em breve, o trabalho de propagação das verdades kardequianas. Disse ele:

Como tantos outros procurava provas, fatos precisos, de modo a apoiar a minha fé, mas esses fatos demoraram muito a chegar. A princípio insignificantes, contraditórios, mesclados de fraudes e mistificações, que não me satisfizeram, a ponto de, por vezes, pensar em não mais prosseguir as minhas investigações. Mas, sustentado, como estava, por uma teoria sólida e de princípios elevados, não desanimei. Parece que o invisível deseja experimentar-nos, medir o nosso grau de perseverança, exigir certa maturidade de espírito antes de entregar-nos aos seus segredos.

Encontrava-se em seus trabalhos de experimentações, quando importante acontecimento se verificou. Allan Kardec viera passar alguns dias na pacata cidade de Tours, com seus amigos. Todos os espíritas turenses foram convidados a recebê-lo e saudá-lo.

Em 1880, pelas cidades e vilas que percorria, por força de seus afazeres, Denis pronunciava conferências e fundava círculos e bibliotecas populares. É incalculável o número de conferências por ele proferidas na França, no propósito de propagar a Liga de Ensino, fundada por Jean Macé.

Contudo, o ano de 1882  marca, em realidade, o início do apostolado de Léon Denis, no qual teve que enfrentar sucessivos obstáculos: o materialismo e o positivismo dos que olham para o Espiritismo com ironia e risadas; além dos adeptos das demais correntes religiosas, que, juntamente com os ateus, buscavam ridicularizar e enfraquecer a Doutrina dos Espíritos.

Porém, como bom paladino, Denis enfrentou a tempestade; os companheiros invisíveis colocam-se ao seu lado para encorajá-lo e exortá-lo à luta. Diz-lhe o Espírito de Jeanne:

Coragem, amigo estaremos sempre contigo para te sustentar e inspirar. Jamais estarás só. Meios ser-te-ão dados, em tempo, para bem cumprires a tua obra.

Mas, foi em 2 de novembro de 1882, Dia de Finados, que um evento de capital importância se produziu e sua vida: a manifestação, pela primeira vez, daquele Espírito que, durante meio século, havia de ser seu guia, seu melhor amigo e pai espiritual: Jerónimo de Praga. Este lhe disse:

Vai, meu filho. Pela estrada aberta diante de ti. Caminharei atrás de ti para te sustentar.

E, como Léon Denis indagasse se seu estado de saúde o permitiria estar à altura da tarefa, recebeu esta outra afirmativa:

Coragem, a recompensa será mais bela.

A partir de 1884, achou conveniente fazer palestras visando à maior difusão das ideias espíritas. Em 1885, escreveu o trabalho O Porquê da Vida, em que explica com nitidez e simplicidade o que é o Espiritismo.

Em 1892, recebeu um convite da Duquesa de Pomar para falar de Espiritismo em sua residência, numa dessas manhãs célebres em que se reunia quase toda Paris. Ele ficou indeciso e temeroso. Depois de muito meditar as responsabilidades, aceitou o convite.

O êxito de seu livro Depois da Morte situara-o como escritor de primeira ordem. Os grandes jornais e revistas ecléticas solicitavam-no e as tiragens sucessivas desse livro esgotavam-se rapidamente.

Eis a notícia publicada por Le Journal, de Paris, acerca da reunião na casa da duquesa:

A reunião de ontem, para ouvir a conferência de Léon Denis sobre a Doutrina Espírita, foi uma das mais elegantes. De uma eloquência muito literária, o orador soube encantar o numeroso auditório, falando-lhe do destino da alma, que pode, diz ele, reencarnar até à sua perfeita depuração. Ele possui a alma de um Bossuet e soube criar um entusiasmo espiritualista.

A principal obra literária de Denis foi a concernente ao Espiritismo, mas escreveu, outrossim, segundo o testemunho de Henri Sausse, várias outras, como: Tunísia, Progresso , Ilha de Sardenha etc.

A partir de 1910, a visão de Léon Denis foi enfraquecendo-se diariamente. A operação a que se submeteu, dois anos antes, não lhe proporcionou nenhuma melhora. Suportava, com calma e resignação, a marcha implacável desse mal que o castigava desde a juventude. Tudo aceitava com estoicismo e resignação. Jamais o viram queixar-se. No entanto, é possível avaliar quão grande devia ser o seu sofrimento.

Mantinha volumosa correspondência e jamais se aborrecia. Amava a juventude, a alegria da alma. Era inimigo da tristeza. Para ele, o mal físico devia ser bem menor do que a angústia que experimentava pelo fato de não mais poder manejar a pena. Secretárias ocasionais substituíam-no nesse ofício, mas, a grande dificuldade para Denis consistia em rever e corrigir as novas edições de seus livros e de seus escritos. Graças, porém, ao seu espírito de ordem e à sua incomparável memória, superava todos esses contratempos, sem molestar ou importunar os amigos.

Depois da morte de sua genitora, uma empregada cuidava de sua pequena habitação. Ele só exigia uma coisa: absoluto respeito às suas numerosas notas manuscritas, as quais ele arrumava com meticulosa precaução. E foi justamente por causa dessa sua velha mania que a Duquesa de Pomar o denominara de “O homem dos pequenos papéis”.

 

Enfermidade

Em 1911, após despender não pequeno esforço, no preparo da nova edição de O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Léon Denis caiu gravemente enfermo. O tratamento enérgico de seu médico para a pneumonia melhorou sua condição física em curto espaço de tempo.

Porém, grande e profunda dor estava para ele reservada. Veio a Guerra de 1914 e seu espírito condoía-se ao ver partir para o front a maioria de seus amigos. Léon padecia, então, de uma doença intestinal e estava parcialmente cego.

Pela incorporação, seus amigos do Espaço e, entre eles, um Espírito eminente, comunicavam-lhe, de tempos em tempos, suas opiniões sobre essa terrível guerra, avaliada em seus dois aspectos: o visível e o oculto.

Estas comunicações levaram-no a escrever alguns artigos, publicados na Revue Spirite, na Revue Suisse des Sciences Psychiques e no Echo Fid, onde transparece, dentro da lei de causa e efeito, o seu grande amor pela terra onde nasceu. Quando a Guerra se aproximava do fim, a Revue Spirite passou a publicar, em todos os seus números, artigos de Léon Denis.

Após a 1ª Grande Guerra, aprendeu braille, o que lhe permitiu fixar no papel os elementos de capítulos ou artigos que lhe vinham ao espírito, pois, nesta época da sua vida, estava praticamente cego.

Em 1915, Denis iniciava uma nova série de artigos, repassados de poesia profunda e serena, sobre a voz das coisas, preconizando o retorno à Natureza.

Nesta época, um “forte vento soprava” contra o kardecismo. O fenomenismo metapsiquista espalhava a doutrina do filósofo puro. P. Heuzé fazia muito barulho através de L´Opinion, com suas entrevistas e comentários tendenciosos. Afirmava, prematuramente, que, à medida que a metapsíquica fosse avançando, o Espiritismo iria perdendo terreno. Sua profecia, no entanto, ainda não se realizou.

Após a vigorosa resposta do Sr. Jean Meyer, pela Revue Spirite, Léon Denis, por sua vez, entrou na discussão, na qualidade de presidente de honra da União Espírita Francesa, em carta endereçada ao Matin, na qual estabelecia, com admirável nitidez, a diferença existente entre o Espiritismo e o Metapsiquismo.

A partir desse momento, Léon Denis teve que exercer grande atividade jornalística para responder às críticas e ataques de altos membros da Igreja Católica, saindo-se, como era de esperar-se, de maneira brilhante.

Em março de 1927, com 81 anos de idade, terminara o manuscrito que intitulou: O Gênio Céltico e o Mundo Invisível, e, neste mesmo mês, a Revue Spirite publicava o seu derradeiro artigo.

 

Desencarne

Em 12 de abril de 1927, Léon Denis sofreu um ataque de pneumonia, que causou-lhe dificuldades para respirar.  A vida parecia abandoná-lo, mas seu estado de lucidez era perfeito. Suas últimas palavras, pronunciadas com extraordinária calma, mas com muita dificuldade, foram dirigidas à empregada Georgette: É preciso terminar, resumir e… concluir. (fazia alusão ao prefácio da nova edição biográfica de Kardec).

Denis desencarnou às 21 horas do mesmo dia, mas as cerimônias fúnebres realizaram-se em 16 de abril, sendo sepultado no cemitério de La Salle, na cidade de Tours, região central da França. A seu pedido, teve um enterro modesto, sem ofício de qualquer igreja confessional.



[1] UEM – União Espírita Mineira - https://uemmg.org.br/biografias/leon-denis/#

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

ENTRE O CACHO DE UVAS E OS AMIGOS[1]

 


 

A analogia entre um cacho de uvas e os amigos é uma metáfora poderosa sobre união, diversidade e apoio mútuo. Assim como as uvas que compõem um cacho, os amigos estão unidos, mas mantêm suas individualidades.

Aqui estão os pontos principais dessa analogia:

 

Unidade na Diversidade: Um cacho de uvas é composto por várias uvas individuais que crescem juntas na mesma haste, assim como amigos diferentes que se unem por um laço comum.

Apoio e Sustentação: As uvas estão próximas umas das outras, oferecendo suporte físico e nutrição compartilhada. Amigos oferecem apoio emocional, ombro amigo e força nos momentos difíceis.

Amadurecimento Conjunto: Uvas em um mesmo cacho geralmente amadurecem juntas. Da mesma forma, amigos crescem, amadurecem e evoluem juntos através das experiências da vida.

Fortaleza e União: Separada do cacho, uma uva é frágil; no cacho, ela se torna parte de um todo forte e abundante. Amigos se fortalecem mutuamente, tornando-se mais resistentes juntos.

Sabor Individual, Doçura Coletiva: Cada uva tem um sabor único, mas juntas criam uma "bênção" (como citado em Isaías 65:8). Amigos trazem personalidades diferentes que tornam a amizade mais rica e saborosa.

 

Em suma, a amizade é como um cacho de uvas: juntos formamos algo precioso, mas cada um mantém seu próprio sabor.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

LIGAÇÕES ANTERIORES[1]

 

"O Centro das Atenções" - Eugenio Zampighi

Miramez

 

 Parentesco, filiação

Uma vez que temos tido muitas existências, a nossa parentela vai além da que a existência atual nos criou?

Não pode ser de outra maneira. A sucessão das existências corporais estabelece entre os Espíritos ligações que remontam às vossas existências anteriores. Daí, muitas vezes, a simpatia que vem a existir entre vós e certos Espíritos que vos parecem estranhos.

Questão 204 / O Livro dos Espíritos

 

Pertencemos à criação de Deus e estamos, por assim dizer, ligados uns aos outros por leis universais. Somos todos irmãos e não podemos viver sozinhos. Quando reencarnamos em uma família, por necessidade de aprendizado, criamos vínculos de amizade ou, às vezes de ódio; contudo, isso é processo que se desenvolve entre as criaturas. Se amamos, esse é o nosso dever, a nossa finalidade; se odiamos, tornamos a voltar, para que o amor se faça presente nos corações.

Querer dizer ou compreender que somente nascemos em uma só família, em muitas reencarnações, é esquecer a universalidade, é esquecer que o amor é força poderosa da vida em todos os despertamentos da criação. Podemos nos reencarnar em centenas e milhares de famílias. Basta a necessidade pedir, desempenhando papéis e aprendendo lições. Essa é a vida que corre cada vez mais para a frente, iluminando a alma e dando a ela o roteiro de que precisa para chegar às esferas superiores.

Se nos apegarmos muito a um grupo familiar, certamente que teremos de nos apegar a outros que nos receberão por caridade, e é assim que vamos nos aperfeiçoando cada vez mais na extensa escala da subida para a libertação, até que possamos sentir a família na humanidade, e a humanidade se sentir fazendo parte de um todo universal. Esse é o amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Tudo e todos saímos de uma só fonte: o Soberano Senhor do Universo.

Queiramos ou não, estamos ligados a tudo que nos rodeia; queiramos ou não, estamos participando de todos os acontecimentos da humanidade. Cabe a nós, já despertos para a luz, participar ajudando no progresso espiritual. Eis o momento de semear a semente do bem, do amor e da caridade, pois somente colhemos o que plantamos.

Não podem existir estrangeiros para nós, se moramos na mesma casa e participamos da mesma família espiritual. Mediante o amor puro, caem todas as barreiras, desaparecem as línguas diversas, que impedem por vezes, as raças de se comunicarem com mais facilidade. As raças deixam de existir e a cor não é empecilho, para que a unidade se apresente na equação do amor.

As dificuldades, que são inúmeras para os Espíritos que dormem, são criações deles mesmos. São nascidas do orgulho, do separativismo e do egoísmo. Quando descobrirem que viver amando como Jesus ensinou é melhor, a razão irá lhes mostrar o caminho a seguir porque, por instinto e intuição, todos nós procuramos a felicidade. As divisões de povos e de países, de raças e famílias, que já não existem de forma tão acentuada, vão desaparecendo com o progresso, como é o caso da escravidão do ser humano e sua venda como animal, o desprezo de raças, os duelos para manter a “honra”, o holocausto de adultos e crianças para acalmar os deuses, e mais inúmeros fatos, fáceis de serem verificados.

Estamos nos unindo, por lei de Deus, em uma grande família universal, onde ninguém se perde, e todos têm o mesmo valor diante de Deus e de Cristo.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 4 – João Nunes Maia

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O MEDO DO PSI - Por que tantas pessoas se apavoram com a ideia de poderes psíquicos?[1]

 


Stephen Braude                                                        

 

Minha primeira experiência com psicocinese (PK) aparentemente em grande escala ocorreu muito antes de eu saber qualquer coisa sobre parapsicologia. Era 1968 e eu estava na pós-graduação, cursando meu doutorado em filosofia. Na época, eu não tinha nenhum interesse em parapsicologia e, na medida em que possuía alguma opinião filosófica sólida, me considerava uma espécie de materialista pragmático. Isso não se devia a nenhuma reflexão cuidadosa e constante que eu tivesse dedicado ao assunto (embora, é claro, eu conhecesse parte da literatura relevante). Era, em grande parte, apenas uma postura intelectual semicrítica, algo que eu sentia que combinava com a pessoa que eu acreditava que deveria ser.

De qualquer forma, era uma tarde tranquila em Northampton, Massachusetts (como costumava ser a maioria das tardes em Northampton), e dois amigos próximos apareceram na minha casa, só para bater um papo. Como já tínhamos visto o único filme em cartaz e não conseguíamos pensar em mais nada para fazer, meus amigos sugeriram que fizéssemos uma sessão espírita (eles consideravam isso um jogo chamado "mesa de leitura"). Disseram que já tinham feito isso várias vezes e que era muito divertido.

Embora eu tenha ficado um tanto desapontado com a proposta e desconfiado da previsão deles de que a mesa se moveria sem a ajuda de ninguém, aceitei e aceitei meus amigos como instrutores no jogo de "mesa para cima". Usamos uma pequena mesa dobrável que eu tinha e colocamos os dedos levemente sobre a superfície, concentrando-nos em silêncio no comando (e às vezes murmurando baixinho): "mesa para cima!". Para minha surpresa, durante as três horas seguintes, a mesa inclinou-se e acenou com a cabeça em resposta às perguntas, soletrando as respostas de acordo com um código ingenuamente complicado que meus amigos haviam recomendado (acenando uma vez para a letra 'A', duas vezes para 'B' e assim por diante).

Aparentemente, contatamos três entidades diferentes, das quais apenas uma forneceu informações que pareciam verificáveis. Esse comunicador alegava ser alguém chamado Horace T. Jecum (a grafia pode ter sido alterada durante a implementação do nosso código complicado) e afirmava ter construído a casa onde eu morava (uma casa clássica e bastante antiga no estilo da Nova Inglaterra, construída em algum momento no final do século XVIII). Comparado às afirmações feitas pelos "comunicadores" anteriores (especialmente aquele que alegava, de forma implausível, ser o Rio Estige), imaginei que essa informação seria fácil de confirmar, bastava consultar os registros da prefeitura. Infelizmente, descobri que minha casa era tão antiga que antecede os registros da cidade. Portanto, nunca descobri quem construiu a casa, muito menos se o nome da pessoa era sequer parecido com o de Horace T. Jecum.

É claro que, além das informações supostamente transmitidas pela inclinação da mesa, havia o fato peculiar de que ela permaneceu inclinada por três horas. Duvido que eu consiga descrever o evento de forma a dissipar todas as dúvidas. No entanto, posso afirmar que estou pessoalmente convencido de que meus amigos não estavam me pregando uma peça. Era dia, não estávamos sob o efeito de substâncias lícitas ou ilícitas, eu conhecia bem meus amigos e eles não eram propensos a pegadinhas, o fenômeno ocorreu por um longo período, permitindo ampla oportunidade para inspeção. Estou convencido de que nada além de nossos dedos tocaram a mesa (e que eles repousaram levemente sobre sua superfície), e, por fim, mesmo quando um dos meus amigos se levantou da mesa para ir a outro cômodo, a mesa continuou a inclinar e a soletrar respostas às perguntas, elevando-se sob os dedos dos dois que permaneceram sentados. E isso aconteceu mesmo quando estávamos em pé ao lado da mesa, obviamente sem levantá-la com os joelhos.

Fiquei tão impressionado com o fenômeno que resolvi abordá-lo filosoficamente assim que resolvesse algumas questões práticas desagradáveis, como obter meu doutorado, conseguir um emprego e, posteriormente, a titularidade. Como sabia que meus mentores e colegas, em sua maioria, adotariam uma atitude arrogante e condescendente em relação ao meu interesse por assuntos psíquicos, simplesmente deixei o assunto de lado por cerca de oito anos – na verdade, esqueci-o completamente – até que (como professor titular) eu tivesse a liberdade acadêmica para me dedicar à pesquisa filosófica que desejasse.

 

Um medo desconhecido

Ora, embora o fenômeno físico da inclinação da mesa seja sem dúvida interessante, o que me intriga igualmente nesse episódio da minha vida é a minha reação visceral imediata ao que observei. Não só experimentei alternâncias de ceticismo, perplexidade e curiosidade, como o fenômeno me deixou apavorado. Mas por que eu deveria ter sentido um medo tão intenso? Na época, eu não entendia minha reação (embora, como era de se esperar, eu não ficasse sem hipóteses inadequadas). Agora, porém, acho que posso ter uma pista do que estava acontecendo e, se eu estiver certo, isso ajuda a explicar por que tanto as evidências quanto a literatura sobre a PK apresentam certas características peculiares marcantes.

É tentador explicar minha reação simplesmente pelo medo do desconhecido. Mas isso não nos levará muito longe. Há muitas coisas desconhecidas que não nos assustam em nada. Então, o que foi, especificamente , que me assustou? Claro, pelo menos superficialmente, parecia que algo além das três pessoas na sala havia feito a mesa se mover. Então, talvez eu estivesse com medo da possibilidade de uma ação desencarnada. Mas por que isso deveria ser assustador? É verdade que eu poderia ter reconhecido que os movimentos da mesa foram ostensivamente produzidos por um agente desencarnado, mas isso não significa que eu tenha levado essa opção a sério. Embora eu não tenha certeza disso, eu posso muito bem ter estado tão cegamente e completamente entrincheirado em minhas poucas concepções filosóficas que a possibilidade de influência desencarnada jamais tenha sido uma opção viável em minha mente, mesmo inconscientemente.

Em todo caso (e mais importante), desde então houve outros contextos nos quais eu genuinamente suspendi meus preconceitos filosóficos habituais e me permiti considerar seriamente a possibilidade de que personalidades desencarnadas sobreviventes estivessem influenciando os eventos ao meu redor. Por exemplo, fiz isso frequentemente durante os vários anos em que conheci a curandeira Olga Worrall. Mas em nenhum momento senti medo em relação aos fenômenos que observei.

Reconheço, é claro, que a própria possibilidade de ação póstuma evoca o espectro de hostilidade e vingança do além-túmulo, por uma questão de princípio. Se podemos influenciar o mundo após a morte do corpo, essa influência pode ser tanto positiva quanto negativa. No entanto, acredito que a ameaça potencial de influência desencarnada não seja tão intimidante quanto outra possibilidade: a de que uma ou mais pessoas presentes na sala tenham, psicocineticamente – e inconscientemente – movido a mesa. Embora eu tenha certeza de que não compreendi esse ponto claramente na época (isto é, da maneira informada como o compreendo agora, após muitos anos refletindo sobre as questões e suas implicações), também tenho certeza de que não o ignorava completamente. Afinal, talvez eu não tenha refletido seriamente sobre parapsicologia naquela época, mas não era como se eu fosse totalmente ignorante do conceito de psicocinese.

Ainda assim, por que isso deveria ser assustador? O que há de tão assustador na PK entre os vivos? Em alguns dos meus outros trabalhos e em outras publicações, os leitores interessados ​​podem encontrar respostas mais ou menos elaboradas para essa pergunta. Por ora, no entanto, uma breve provocação terá que bastar. O ponto crucial, creio eu, é este: não é preciso quase nenhum salto conceitual para conectar a possibilidade de movimentos psicocinéticos inócuos de objetos com outras aplicações da PK, muito mais perturbadoras.

Quer reconheçamos isso conscientemente ou não, se podemos mover um lápis, um cigarro ou uma mesa – para não mencionar curar uma pessoa – por meio da cinesiologia[2], então, em princípio, deveríamos ser capazes de causar acidentes de carro, ataques cardíacos ou simplesmente dores e cócegas incômodas em outra pessoa. Por um lado (e por razões que Jule Eisenbud e eu já consideramos em outro lugar), dado o atual (e considerável) estado de nossa ignorância a respeito do funcionamento psíquico, simplesmente não podemos supor que as ocorrências de psi devam sempre ser de pequena ou média escala. Na verdade, não temos a menor ideia de quão refinada ou de grande escala a psi pode ser. Mas, independentemente dessa questão, não há razão para pensar que acidentes de carro ou avião, ataques cardíacos e assim por diante, exijam mais (ou mais refinada) cinesiologia do que a necessária para movimentos de pequenos objetos. Afinal, eventos de pequena magnitude podem ter consequências extensas, portanto, um acidente de carro (por exemplo) poderia ser causado, em princípio, por um pequeno estímulo psíquico bem aplicado. Assim, parece inevitável concluir que, se a cinesiologia pode ser desencadeada por intenções inconscientes, então podemos ser responsáveis ​​por uma série de eventos (em particular, acidentes e outras calamidades) dos quais a maioria de nós preferiria ser apenas espectadora inocente. Além disso, todos seríamos vítimas potenciais de eventos psiquicamente desencadeados (intencionais ou não), cujas fontes não poderíamos identificar conclusivamente e cujas limitações não poderíamos avaliar.

De maneira mais geral, o que é tão perturbador nisso tudo é que temos que considerar seriamente uma visão de mundo que a maioria de nós associa, geralmente de forma condescendente, apenas às chamadas sociedades primitivas. É uma imagem mágica da realidade segundo a qual as pessoas podem interferir na vida umas das outras de todos os tipos de maneiras que preferiríamos que fossem impossíveis. Claro, algumas dessas interações podem ser benéficas; mas o que nos assusta, acredito, é o espectro da espionagem psíquica, da influência telepática e dos usos malévolos e potentes da cinesiologia (por exemplo, o "mau-olhado" e feitiços). É verdade que existem lugares no mundo onde crenças desse tipo são bastante comuns e tratadas como algo natural. Mas essa visão da realidade não é bem aceita na maioria das sociedades industrializadas. Aliás, ao longo de várias décadas de palestras públicas, tive muitas oportunidades de ver o quanto de angústia eu provoco quando simplesmente levanto o assunto para o meu público. Curiosamente, essa reação tem sido especialmente intensa em várias convenções da Nova Era, onde os participantes se concentram exclusivamente nos benefícios potenciais da influência psíquica, aparentemente recusando-se a reconhecer que nenhum poder pode ser usado exclusivamente para o bem (devo confessar que achei maliciosamente satisfatório desempenhar o papel da voz do mal nessas ocasiões).

A maioria (ou pelo menos muitos) dos parapsicólogos hoje em dia admite que o medo de fenômenos psi é prevalente tanto dentro quanto fora da parapsicologia. De fato, os parapsicólogos podem demonstrá-lo de maneiras bastante sutis. Como Eisenbud argumentou de forma convincente, uma das maneiras pelas quais os pesquisadores de laboratório demonstram esse medo é por meio de erros, descuidos e omissões aparentemente inocentes ou descuidados que comprometem um experimento. Eisenbud considerava esses deslizes análogos a lapsos de língua aparentemente inocentes, comportamentos que revelam pensamentos e sentimentos dos quais o falante pode não estar consciente. Mas talvez uma manifestação ainda mais interessante do medo de fenômenos psi seja um tipo generalizado de "piedade metodológica", na qual os pesquisadores exibem "uma meticulosidade pseudocientífica interminável e uma obsessão por detalhes insignificantes, que, na maioria das vezes, resulta em nunca se conseguir nada, a menos que sob condições que praticamente sufocam o surgimento de qualquer coisa que se assemelhe remotamente a uma ocorrência psi".

Em outras palavras, alguns pesquisadores conseguem criar experimentos tão complexos e artificiais que eliminam todas as manifestações de fenômenos paranormais, exceto, aparentemente, o suficiente para ser significativo no nível de 0,05 (ou seja, apenas marginalmente significativo de acordo com o padrão vigente nas ciências comportamentais). Isso ainda é suficiente para justificar a publicação de um artigo e ajuda o pesquisador a se sentir realizado e a justificar seu trabalho na área em geral. Mas não é o bastante para contestar seriamente um desejo possivelmente mais profundo de que os fenômenos paranormais simplesmente não ocorram.

 

Lute contra o poder

Mas o que é indiscutivelmente ainda mais interessante é a forma como o medo da psi parece ter moldado o curso da parapsicologia na virada do século XX. Os céticos costumam zombar do fato de que fenômenos físicos paranormais dramáticos, como levitações e materializações de mesas inteiras, parecem ter desaparecido do cenário parapsicológico. A principal razão, alegam, é que a tecnologia moderna simplesmente tornou muito difícil a fraude que era mais fácil de perpetrar no final do século XIX e início do século XX. Mas, embora essa posição seja frequentemente propagada como um consenso óbvio, ela é (para dizer francamente) claramente falha – se não simplesmente tola. Muitas vezes, demonstra um domínio tão superficial dos dados e das questões que só podemos nos perguntar por que os defensores dessa visão arriscariam passar vergonha ostentando sua ignorância por escrito.

Sem entrar em detalhes aqui, devemos observar, em primeiro lugar, que o apelo do cético à tecnologia moderna é uma faca de dois gumes. O primitivismo tecnológico do início do século XX afetou não apenas os meios de detecção de fraudes, mas também os meios de as produzir. (Da mesma forma, a tecnologia avançada de hoje tornou possível uma série de práticas fraudulentas e dispositivos de espionagem que não poderiam ter sido empregados durante o auge do espiritismo). Assim como não havia pequenos dispositivos elétricos (como câmeras de vídeo em miniatura) no final do século XIX capazes de flagrar médiuns fraudulentos em ação, também não havia dispositivos semelhantes capazes de produzir os fenômenos em larga escala, sob condições controladas, para os quais temos boas evidências. Esqueçamos aqueles fenômenos explicáveis, em princípio, por meio de truques de mágica e técnicas de distração. Os céticos costumam se concentrar nesses casos, mas eles são relativamente pouco importantes, senão totalmente irrelevantes, para uma avaliação adequada das evidências de psicocinese observável. O que realmente importa é que existe um resíduo substancial de fenômenos produzidos em condições nas quais nenhum cúmplice ou dispositivo poderia ter sido ocultado, alguns dos quais nem mesmo a tecnologia atual consegue reproduzir (por exemplo, as mãos materializadas de D.D. Home).

Um dos meus exemplos favoritos diz respeito aos fenômenos do acordeão de D.D. Home. Muitos observadores relataram que Home conseguia fazer acordeões tocarem sem serem tocados, ou quando segurados pela extremidade, longe das teclas. De fato, às vezes dizia-se que os acordeões tocavam melodias a pedido. Ora, Home preferia que o acordeão fizesse seu trabalho debaixo da mesa de sessão espírita, porque dizia que o "poder" era mais forte ali. Obviamente, isso poderia ser motivo de suspeita, mas para um investigador mais generoso ou de mente aberta, poderia simplesmente indicar as crenças peculiares de Home sobre o funcionamento da psi. O renomado cientista William Crookes se enquadrava nessa última categoria, embora também compreendesse por que outros poderiam – com toda a razão – se preocupar com fenômenos que o médium preferia produzir debaixo da mesa. Assim, em vez de adotar uma atitude displicente em relação às crenças declaradas de Home, Crookes elaborou uma maneira de testar os fenômenos do acordeão de Home, respeitando as preferências do médium.

Primeiro, Crookes comprou um acordeão novo para a ocasião; portanto, não era o instrumento de Home, nem um que ele tivesse tido a oportunidade de adulterar previamente. Segundo, Crookes buscou Home em seu apartamento e o observou trocar de roupa. Isso permitiu que ele determinasse que Home não estava escondendo nenhum dispositivo capaz de produzir o fenômeno (embora, no início da década de 1870, não esteja claro o que tal dispositivo poderia ser). Crookes então levou Home para sua casa, onde havia construído uma gaiola especial para o acordeão. A gaiola cabia sob a mesa de jantar de Crookes, e havia espaço suficiente acima dela apenas para Home alcançar e segurar o acordeão pela extremidade oposta às teclas. Não havia espaço suficiente para Home alcançar mais abaixo e manipular o instrumento e seu teclado. Observadores foram posicionados em ambos os lados de Home, e outro foi para debaixo da mesa com uma lâmpada para observar o acordeão. Nessas condições, e em outras ligeiramente modificadas (como passar uma corrente elétrica pela gaiola e Home retirar a mão do acordeão, colocando ambas as mãos sobre a mesa), o acordeão teria se expandido e contraído, tocado melodias simples e flutuado dentro da gaiola.

Considero isso uma evidência interessante e especialmente importante. No entanto, o fato permanece (como o cético gosta de observar): não vemos mais tais coisas. Mas se não podemos explicar esse fato recorrendo ao advento da tecnologia moderna (ou a um maior grau de credulidade na virada do século), que sentido podemos dar a isso? Gostaria de sugerir que o medo da psi provavelmente desempenhou um papel importante.

Para entender isso, devemos observar primeiro que os dramáticos fenômenos paranormais ocorridos por volta da virada do século se deram no contexto do movimento espiritualista, que era enormemente popular na época e que deu origem à prática generalizada de realizar sessões espíritas em torno de uma mesa com o objetivo de contatar amigos e parentes falecidos. Além disso, os grandes médiuns daquela época eram todos espíritas sinceros. Ou seja, eles acreditavam que estavam apenas facilitando fenômenos produzidos por espíritos desencarnados, não acreditavam que eles próprios produzissem os fenômenos. Mas isso significa que esses indivíduos estavam psicologicamente isentos de responsabilidade, independentemente do que acontecesse. Assim, se nada (ou apenas fenômenos banais) ocorresse, o médium sempre podia atribuir as falhas a um comunicador inepto ou a uma "má conexão" entre este mundo e o mundo espiritual. Mais importante ainda, porém, quando fenômenos impressionantes ocorriam, os médiuns não precisavam temer a extensão de seus próprios poderes. Eles não precisavam se preocupar com o que poderiam produzir (consciente ou inconscientemente) fora dos limites seguros da sala de sessão espírita.

Com o passar do tempo, cada vez mais pessoas – dentro e fora do campo da pesquisa psíquica – passaram a levar a sério a possibilidade de que médiuns físicos pudessem ser agentes de fenômenos paranormais e, portanto, a causa real de fenômenos atribuídos por outros a espíritos sobreviventes. Mesmo quando os médiuns e outros espíritas resistiam a essa crença, o fato é que ela estava cada vez mais presente e difícil de ignorar, à medida que um número crescente de pesquisadores seculares começou a investigar os fenômenos por conta própria. Mas creio que isso só pode ter tido um efeito inibidor na psicologia da mediunidade em geral. Os médiuns sabiam que até mesmo os investigadores mais simpáticos os consideravam causas – e não meros receptáculos – de fenômenos físicos paranormais. Assim, eles passaram a ter uma preocupação que possivelmente nunca lhes ocorrera antes: a de possuírem poderes que não conseguiam controlar e que, possivelmente, poderiam causar grandes danos.

Não é surpreendente, portanto, constatar que os impressionantes fenômenos de Eusápia Palladino na década de 1890 e na primeira década do século XX eram menos impressionantes do que os de Home vinte anos antes. E é ainda menos surpreendente constatar que as "superestrelas" mediúnicas nas décadas seguintes do século XX apresentavam repertórios de fenômenos cada vez menos intimidantes. De fato, quando chegamos a Rudi Schneider nas décadas de 1920 e 30, os fenômenos mais sensacionais tendiam a ser apenas movimentos de objetos de tamanho médio. E, mais recentemente, supostas superestrelas da cinesiologia fonética, como Nina Kulagina e Felicia Parise, produziram fenômenos em escala ainda menor.

Além disso, é interessante notar como os grandes nomes da cinesiologia na segunda metade do século XX pareciam sofrer bastante ao produzir seus fenômenos. Seus predecessores espíritas geralmente entravam em transe ou, pelo menos, em um estado de receptividade passiva, e ocasionalmente ficavam cansados ​​depois. Mas os cinestas mais modernos se veem como o foco de seus fenômenos e parecem claramente fazer um esforço consciente para alcançar seus resultados. Mas, é claro, como reconhecem seu próprio papel na produção dos fenômenos, não é surpreendente que precisem se esforçar tanto (digamos) para fazer um cigarro ou um frasco de comprimidos se mover um milímetro ou uma polegada. Aliás, considere o quão conveniente isso é psicologicamente – isto é, do ponto de vista do médium. Se os praticantes de cinesiologia sentem que é necessário gastar muita energia para produzir apenas um pequeno efeito, então (em uma linha de pensamento descuidada, característica de muita autoilusão) pode facilmente parecer a eles que sua vida ou saúde estariam em perigo ao tentar produzir um fenômeno que valesse a pena se preocupar.

 

O Pesadelo dos Céticos

Não posso deixar de lado o tema do medo de fenômenos paranormais sem mencionar outra de suas aparentes e (pelo menos para mim) impressionantes manifestações, tão comuns hoje quanto na época áurea do espiritualismo. Continua a me surpreender a maneira descuidada e inescrupulosa com que pessoas inteligentes e honestas, em geral, argumentam contra a existência de fenômenos paranormais – e, em particular, contra suas manifestações mais dramáticas.

Existem, é claro, críticos cuidadosos, corajosos e ponderados na área. Mas, com muita frequência, esses críticos recorrem facilmente a linhas de argumentação que, em outros contextos, seriam prontamente identificadas como sórdidas ou indefensáveis ​​— por exemplo, se esses argumentos fossem dirigidos a eles. De fato, é quase como se um véu de idiotice descesse repentinamente sobre aqueles que, de outra forma, são perspicazes e inteligentes. Na minha opinião, é improvável que, na maioria dos outros contextos, os céticos recorressem tão facilmente a ataques pessoais e argumentos falaciosos. Mas é precisamente isso que domina a literatura cética.

No caso de argumentos ad hominem[3] , vemos Trevor Hall dedicando uma parte considerável de seu pequeno livro sobre D.D. Home a tentar estabelecer a vaidade do médium (baseando-se em parte no depoimento de alguém cujas mentiras sobre Home já foram comprovadas) e a se preocupar se Home teve um caso com um de seus benfeitores. Da mesma forma, vemos Ruth Brandon especulando sobre a possibilidade de Home ser homossexual. E quanto aos argumentos do espantalho (isto é, generalizar a partir dos casos mais fracos), é bastante comum encontrarmos céticos argumentando, por exemplo, que o caso de Home deve ser ignorado porque os fenômenos de pequena escala do médium podem ser imitados por truques de mágica, ou porque as evidências mais mal documentadas (como a suposta levitação de Home pela janela da Ashley House) são fracas.

Agora, devemos acreditar que, de repente, esses críticos não entendem que as evidências mais cuidadosamente documentadas e os fenômenos mais difíceis de explicar são os que realmente importam? No caso de Home, o que realmente importa é que Home frequentemente produzia fenômenos em grande escala, de forma espontânea, em locais nunca antes visitados, com objetos fornecidos pelos participantes, sob boa luz e com ampla oportunidade de observar os fenômenos de perto enquanto aconteciam. Também é importante notar que Home fez isso por quase vinte e cinco anos sem nunca ser descoberto como um farsante.

É óbvio que muitos céticos são pessoas inteligentes, e eu sugiro que é altamente improvável que essas críticas superficiais às evidências parapsicológicas sejam simplesmente o tipo de espasmos ocasionais e mais ou menos aleatórios de estupidez que todas as pessoas experimentam às vezes. De fato, se fossem apenas isso, presumivelmente esses lapsos não ocorreriam de forma tão exclusiva e transparente em relação à parapsicologia. É muito mais plausível que muitos céticos estejam simplesmente em uma espécie de pânico conceitual, que, dominados por esse pânico, sua razão e integridade sejam deixadas de lado, e que seu medo da psi sejTa pouco diferente do que eu sentia em 1968.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Cinesiologia é a ciência que estuda o movimento humano, analisando como o corpo se move, as forças envolvidas e a interação entre músculos, ossos e articulações, aplicando esses conhecimentos para reabilitar, melhorar o desempenho atlético, promover a saúde e prevenir lesões, integrando anatomia, fisiologia e biomecânica. É fundamental para profissionais da saúde como educadores físicos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. (AI)

[3] Ad hominem (do latim, "contra a pessoa") é uma falácia lógica onde, em vez de refutar um argumento, ataca-se o caráter, a reputação ou alguma característica pessoal do oponente, visando descredibilizar a pessoa e, por extensão, sua ideia, desviando o foco do debate real.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

MOBILIÁRIO DE ALÉM-TÚMULO[1]

 


Allan Kardec

 

Extraímos a seguinte passagem de uma carta que um dos correspondentes do Departamento do Jura enviou à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:

 

(...) Como já vos tinha dito, senhor, os Espíritos gostavam da nossa velha habitação. No mês de outubro passado (1858), a senhora condessa de C., amiga íntima de minha filha, veio passar alguns dias em nossa mansão, acompanhada do filhinho de oito anos. O menino dormia no mesmo apartamento que a mãe. A fim de que ele e minha filha pudessem prolongar as horas do dia e da conversa, a porta comum que comunicava seus quartos ficava aberta. O garoto não dormia e dizia à sua mãe: ‘O que a senhora fará com esse homem que está sentado junto à sua cama? Ele fuma um grande cachimbo. Veja como enche o quarto de fumaça; mandai-o embora; ele sacode as cortinas.’ Tal visão durou a noite inteira. A mãe não conseguiu fazer a criança calar e ninguém pôde pregar os olhos. Essa circunstância não surpreendeu a mim nem à minha filha, pois sabemos que há manifestações espíritas. Quanto à mãe, imaginou que o filho sonhava acordado ou se divertia.

Eis um outro fato pessoal que comigo aconteceu no mesmo aposento, em maio de 1858. É a aparição do Espírito de uma pessoa viva que ficou muito admirada por ter vindo me visitar. Eis as circunstâncias: Eu estava muito doente e há tempos não  dormia, quando vi, às dez horas da noite, um amigo da família sentado perto de meu leito. Manifestei-lhe minha surpresa por sua visita àquela hora. Disse-me ele: ‘Não fale; venho velá-la; não fale; é preciso dormir.’ E estendeu a mão sobre a minha cabeça. Abri os olhos várias vezes para saber se ele ainda estava lá, e de cada vez me fazia sinal para os fechar e calar-me. Ele girava uma caixa de rapé entre os dedos e, de quando em quando, tomava uma pitada, como o fazia costumeiramente. Por fim adormeci e, ao despertar, a visão havia desaparecido. Diferentes circunstâncias me provaram que no momento dessa visita inesperada eu estava perfeitamente acordada, e que aquilo não era um sonho. Quando de fato me visitou pela primeira vez apressei-me em agradecer-lhe. Trazia a mesma caixa de rapé e, ao escutar-me, estampava o mesmo sorriso de bondade que eu notara quando me velava. Como me garantiu não ter vindo, o que aliás não me foi difícil acreditar, porquanto não teria havido nenhum motivo que o impelisse a vir a tal hora passar a noite junto a mim, compreendi que apenas o seu Espírito tinha vindo visitar-me, enquanto seu corpo repousava tranquilamente em sua casa[2].

Os fatos de aparição são tão numerosos que seria impossível registrar todos aqueles que são do nosso conhecimento ou que foram obtidos de fontes perfeitamente autênticas. Aliás, hoje que os fatos estão explicados, e que nos damos conta exatamente da maneira por que são produzidos, sabemos que pertencem às leis da Natureza e, portanto, nada têm de maravilhoso. Como já demos a sua teoria completa, apenas a recordaremos, em poucas palavras, para a desejável compreensão do que se segue. Além do envoltório corporal, exterior, sabemos que o Espírito possui um outro, semimaterial, a que chamamos perispírito. A morte nada mais é do que a destruição do primeiro.

Em seu estado errante o Espírito conserva o perispírito, que constitui uma espécie de corpo etéreo, invisível para nós em seu estado normal. Os Espíritos povoam o espaço e, se num determinado momento, o véu que no-los oculta fosse levantado, veríamos uma imensa população agitar-se à nossa volta e percorrer os ares. Temo-los constantemente ao nosso lado, observando-nos e, muitas vezes, associando-se às nossas ocupações e aos nossos prazeres, conforme o seu caráter. A invisibilidade não é uma propriedade absoluta dos Espíritos; muitas vezes eles se nos mostram sob a aparência que tinham em vida, e não são poucas as pessoas que, rebuscando as lembranças, não se recordem de algum fato desse gênero. A teoria dessas aparições é muito simples e se explica por uma comparação que nos é bastante familiar: a do vapor que, quando muito rarefeito, é completamente invisível. Um primeiro grau de condensação o torna nebuloso; cada vez mais condensado passa ao estado líquido, depois ao estado sólido. Algo semelhante se opera pela vontade dos Espíritos na substância do perispírito; como já dissemos, pretendemos estabelecer apenas uma comparação, e não uma assimilação. Servimo-nos do exemplo do vapor para mostrar as mudanças de aspecto que pode sofrer um corpo invisível, não se devendo concluir, por isso, que haja no perispírito uma condensação, no sentido próprio da palavra.

Opera-se na sua contextura uma modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível, podendo dar-lhe, até certo ponto, as propriedades dos corpos sólidos.

Sabemos que os corpos perfeitamente transparentes tornam-se opacos por uma simples mudança na posição das moléculas, ou pela adição de outro corpo igualmente transparente, mas não sabemos bem como fazem os Espíritos para tornar visível o seu corpo etéreo. A maior parte deles não chega mesmo a dar-se conta disso, embora, pelos exemplos citados, compreendamos a sua possibilidade física, o que é suficiente para tirar do fenômeno aquilo que, à primeira vista, poderia parecer sobrenatural. Pode, pois, o Espírito operar, quer por simples modificação íntima, quer assimilando uma porção de fluido estranho que altera momentaneamente o aspecto de seu perispírito. É mesmo esta última hipótese que ressalta das explicações que nos têm sido dadas e que relatamos ao tratar do assunto (maio, junho e dezembro).

Até aí não há nenhuma dificuldade no que concerne à personalidade do Espírito. Sabemos, no entanto, que eles se apresentam com vestimentas cujo aspecto mudam à vontade; muitas vezes até possuem certos acessórios de toalete, joias etc.

Nas duas aparições que citamos no início, uma tinha um cachimbo e produzia fumaça; a outra possuía uma caixa de rapé e tomava pitadas; e notai bem o fato de que este Espírito pertencia a uma pessoa viva e que sua tabaqueira era em tudo semelhante à de que se servia habitualmente, e que ficara em sua casa. O que significaria essa caixa de rapé, esse cachimbo, essas vestimentas e essas joias?

Teriam os objetos materiais terrenos uma representação etérea no mundo invisível? A matéria condensada que forma tais objetos teria uma parte quintessenciada, que escapa aos nossos sentidos? Eis aí um imenso problema, cuja solução pode dar a chave de uma multidão de coisas até então inexplicadas; e é essa tabaqueira que nos põe no caminho, não apenas desse fato, mas do fenômeno mais extraordinário do Espiritismo: o da pneumatografia ou escrita direta, de que falaremos logo em seguida.

Se alguns críticos ainda nos censuram pelo fato de estarmos avançando muito na teoria, responderemos que não vemos razão alguma para nos manter na retaguarda quando encontramos uma oportunidade para avançar. Se ainda estão se distraindo com as mesas girantes, sem saber por que giram, não é motivo para nos determos no caminho. O Espiritismo, sem dúvida, é uma ciência de observação, mas talvez ainda seja mais uma ciência de raciocínio; e o raciocínio é o único meio de fazê-lo progredir e triunfar de certas resistências. Tal fato é contestado unicamente por que não é compreendido; a explicação lhe tira todo o caráter maravilhoso, fazendo-o entrar nas leis gerais da Natureza. Eis por que vemos diariamente pessoas que nunca viram e creram, simplesmente porque compreenderam, enquanto outras viram e não creem, porque não compreendem. Fazendo entrar o Espiritismo no caminho do raciocínio, nós o tornamos aceitável para aqueles que querem conhecer o porquê e o como de todas as coisas; e o número destes é grande neste século, pois a crença cega já não faz parte dos costumes. Ora, se não tivéssemos senão indicado a rota já teríamos a consciência de haver contribuído para o progresso desta nova ciência, objeto de nossos constantes estudos. Mas voltemos à nossa tabaqueira.

Todas as teorias que apresentamos, relativamente ao Espiritismo, foram dadas pelos Espíritos, muitas vezes contrariando as nossas próprias ideias, como aconteceu no caso presente, provando que as respostas não eram o reflexo de nosso pensamento. Mas a maneira de obter-se uma solução não é coisa de somenos importância. Sabemos, por experiência, que não basta pedir bruscamente uma coisa para a obtermos; nem sempre as respostas são suficientemente explícitas; é necessário desenvolver o assunto com certa precaução, chegar ao fim gradativamente e por um encadeamento de deduções, que exigem um trabalho prévio.

Em princípio, a maneira de formular as perguntas, a ordem, o método e a clareza são coisas que não devem ser negligenciadas e que agradam aos Espíritos sérios, porque veem nisso um sério objetivo.

Eis a conversa que tivemos com o Espírito São Luís, a propósito da tabaqueira, com vistas à solução do problema da produção de certos objetos no mundo invisível. (Sociedade, 24 de junho de 1859):

 

1. No relato da Sra. R..., trata-se de uma criança que viu, perto do leito de sua mãe, um homem a fumar um grande cachimbo. Compreende-se que esse Espírito possa ter tomado a aparência de um homem que fumava, mas parece que fumava realmente, pois o menino via o quarto repleto de fumaça. O que era essa fumaça?

– Uma aparência, produzida para o garoto.

2. A Sra. R... cita igualmente um caso de aparição pessoal, do Espírito de uma pessoa viva. Esse Espírito tinha uma caixa de rapé, do qual tomava pitadas. Experimentava ele a sensação que experimenta um indivíduo que faz o mesmo?

–Não.

3. Aquela caixa de rapé tinha a forma da de que ele se servia habitualmente e que se achava guardada em sua casa. Que era a dita caixa nas mãos da aparição?

– Sempre aparência. Era para que a circunstância fosse notada, como realmente foi, e não tomassem a aparição por uma alucinação devida ao estado de saúde da vidente. O Espírito queria que a senhora em questão acreditasse na realidade da sua presença e, para isso, tomou todas as aparências da realidade.

4. Dizes que é uma aparência; mas uma aparência nada tem de real, é como uma ilusão de óptica. Desejaríamos saber se aquela tabaqueira era apenas uma imagem sem realidade, por exemplo, a de um objeto que se reflete num espelho.

[O Sr. Sanson, um dos membros da Sociedade, faz observar que na imagem reproduzida no espelho há qualquer coisa de real; se ela não fica nele é que nada a fixa; mas se fosse projetada sobre uma chapa do daguerreótipo deixaria uma impressão, prova evidente de que é produzida por uma substância qualquer e não simplesmente uma ilusão de óptica].

A observação do Sr. Sanson é perfeitamente justa.

Teríeis a bondade de dizer-nos se existe alguma analogia com a caixa de rapé, isto é, se nela havia alguma coisa de material?

– Certamente. É com o auxílio deste princípio material que o perispírito toma a aparência de vestuários semelhantes aos que o Espírito usava quando encarnado.

 

Observação – É evidente que a palavra aparência deve ser aqui tomada no sentido de aspecto, imitação. A caixa de rapé real não estava lá; a que o Espírito deixava ver era apenas uma reprodução daquela: era, pois, com relação ao original, uma simples aparência, embora formada de um princípio material.

Ensina a experiência que nem sempre se deve dar significação literal a certas expressões usadas pelos Espíritos.

Interpretando-as de acordo com as nossas ideias, expomo-nos a grandes equívocos. Daí a necessidade de aprofundar-se o sentido de suas palavras, toda vez que apresentem a menor ambiguidade. É essa uma observação que os Espíritos constantemente nos fazem.

Sem a explicação que provocamos, o termo aparência, que de contínuo se reproduz nos casos análogos, poderia prestar-se a uma interpretação falsa.

5. Dar-se-á que a matéria inerte se desdobre? Ou que haja no mundo invisível uma matéria essencial, capaz de tomar a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, terão estes o seu duplo etéreo no mundo invisível como os homens são nele representados pelos Espíritos?

 

Observação – Trata-se de uma teoria como qualquer outra e esse era o nosso pensamento; o Espírito, porém, não a levou em consideração, o que absolutamente não nos humilhou, porque a sua explicação nos pareceu muito lógica e sustentada num princípio mais geral, cuja aplicação muitas vezes encontramos.

– Não é assim que as coisas se passam. Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, concentrar à vontade esses elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objetos materiais.

6. Formulo novamente a questão, de modo categórico, a fim de evitar todo e qualquer equívoco: São alguma coisa as vestes de que os Espíritos se cobrem?

– Parece que a minha resposta precedente resolve a questão. Não sabes que o próprio perispírito é alguma coisa?

7. Resulta, desta explicação, que os Espíritos fazem passar a matéria etérea pelas transformações que queiram e que, portanto, em relação à caixa de rapé, o Espírito não a encontrou completamente feita; fê-la ele próprio, no momento em que teve necessidade dela. E, do mesmo modo que a fez, pôde desfazê-la. Outro tanto naturalmente se dá com todos os demais objetos, como vestuários, joias etc. Será assim?

– Mas, evidentemente.

8. A caixa de rapé se tornou tão visível para a senhora de que se trata que lhe produziu a ilusão de uma tabaqueira material. Teria o Espírito podido torná-la tangível para ela?

– Teria.

9. Aquela senhora poderia tê-la tomado nas mãos, crente de estar segurando uma caixa de rapé verdadeira?

– Sim.

10. Se a abrisse, teria achado nela rapé? E, se o aspirasse, ele a faria espirrar?

– Sem dúvida.

11. Pode, então, o Espírito dar a um objeto não só a forma, mas, também propriedades especiais?

– Se o quiser. Baseado neste princípio foi que respondi afirmativamente às perguntas anteriores. Tereis provas da poderosa ação que os Espíritos exercem sobre a matéria, ação que estais longe de suspeitar, como eu disse há pouco.

12. Suponhamos, então, que quisesse fazer uma substância venenosa. Se uma pessoa a ingerisse, ficaria envenenada?

– Teria podido, mas não faria, por não lhe ser isso permitido.

13. Poderá fazer uma substância salutar e própria para curar uma enfermidade? E já se terá apresentado algum caso destes?

– Já, muitas vezes.

 

Observação – Encontramos um fato semelhante, acompanhado de interessante explicação teórica, no artigo que damos a seguir, sob o título Um Espírito serviçal.

14. Então, poderia fazer também uma substância alimentar? Suponhamos que tenha feito uma fruta, uma iguaria qualquer: se alguém pudesse comer a fruta ou a iguaria, ficaria saciado?

– Ficaria, sim; mas, não procureis tanto para achar o que é tão fácil de compreender. Basta um raio de sol para tornar perceptíveis aos vossos órgãos grosseiros essas partículas materiais que enchem o espaço onde viveis. Não sabeis que o ar contém vapores d'água? Condensai-os e os fareis voltar ao estado normal.

Privai-as de calor e eis que essas moléculas impalpáveis e invisíveis se tornarão um corpo sólido e bem sólido; e, assim, muitas outras substâncias de que os químicos tirarão maravilhas ainda mais espantosas. Simplesmente, o Espírito dispõe de instrumentos mais perfeitos do que os vossos: a vontade e a permissão de Deus.

 

Observação – A questão da saciedade é aqui muito importante. Como pode produzir a saciedade uma substância cuja existência e propriedades são meramente temporárias e, de certo modo, convencionais? O que se dá é que essa substância, pelo seu contato com o estômago, produz a sensação da saciedade, mas não a saciedade que resulta da plenitude. Desde que uma substância dessa natureza pode atuar sobre a economia e modificar um estado mórbido, também pode, perfeitamente, atuar sobre o estômago e produzir a impressão da saciedade. Rogamos, todavia, aos senhores farmacêuticos e inventores de reconstituintes que não se encham de zelos, nem creiam que os Espíritos lhes venham fazer concorrência. Esses casos são raros, excepcionais e nunca dependem da vontade. Doutro modo, toda gente se alimentaria e curaria a preço baratíssimo.

15. Da mesma forma poderia o Espírito fabricar moedas?

– Pela mesma razão.

16. Os objetos que, pela vontade do Espírito, se tornam tangíveis, poderiam permanecer com esse caráter de permanência e de estabilidade?

– Isso poderia dar-se, mas não acontece. Está fora das leis.

17. Têm todos os Espíritos, no mesmo grau, esse poder?

– Não, não!

18. Quais são os que têm mais particularmente esse poder?

– Aqueles a quem Deus concede, quando isso é útil.

19. A elevação do Espírito tem alguma utilidade?

– Por certo; quanto mais elevado o Espírito, mais facilmente obtém esse poder; mas isso ainda depende das circunstâncias: Espíritos inferiores também podem ter esse poder.

20. A produção dos objetos semimateriais resulta sempre de um ato da vontade do Espírito, ou algumas vezes exerce ele esse poder, mau grado seu?

– Ele o exerce frequentemente, mesmo sem o saber.

21. Seria, então, esse poder um dos atributos, uma das faculdades inerentes à própria natureza do Espírito? Seria, de algum modo, uma de suas propriedades, como a de ver e ouvir?

– Certamente, embora muitas vezes ele próprio o ignore. Então, outro o exerce por ele, mau grado seu, quando as circunstâncias o exigem. O alfaiate do zuavo era justamente o Espírito de que acabo de falar e ao qual ele fazia alusão na sua linguagem espirituosa.

 

Observação – Encontramos uma comparação desta faculdade na de certos animais – o peixe-elétrico, por exemplo – que emite eletricidade sem saber o que faz, nem como isso se dá e, menos ainda, sem conhecer o mecanismo que a põe em ação. Frequentemente nós mesmos não produzimos certos efeitos por atos espontâneos, dos quais não nos damos conta? – Parece-nos, portanto, muito natural que o Espírito possa agir nesta circunstância por uma espécie de instinto. Ele produz por sua vontade, sem saber como, assim como andamos sem calcular as forças que estão em jogo.

22. Nos dois casos citados pela Sra. R..., compreendemos que um dos Espíritos quisesse ter um cachimbo e o outro uma caixa de rapé, para ferir os olhos de uma pessoa viva. Pergunto, porém, se o Espírito poderia pensar que possuía esses objetos, caso não tivesse chegado a fazê-la ver, criando, assim, uma ilusão para si mesmo.

– Não, se ele tiver uma certa superioridade, porque tem perfeita consciência de sua condição. Outro tanto não se dá com os Espíritos inferiores.

 

Observação – Tal era, por exemplo, o caso da rainha de Oude, cuja evocação está relatada em nosso número de março de 1858 e que ainda se julgava coberta de diamantes.

23. É possível que dois Espíritos se reconheçam pela aparência material que possuíam em vida?

– Não é por esse meio que eles se reconhecem, porque não tomarão essa aparência um para o outro. Entretanto, se em certas circunstâncias se acharem em presença um do outro, revestidos dessa aparência, por que não se haveriam de reconhecer?

24. Como podem os Espíritos reconhecer-se em meio a uma multidão de outros Espíritos, e, sobretudo, como podem fazê-lo quando um deles vai procurar longe, e frequentemente em outros mundos, aqueles que o chamam?

– Isto é um problema cuja solução demandaria muito tempo; é preciso esperar. Não estais suficientemente adiantados. Contentai-vos, no momento, com a certeza de que assim o é, pois tendes provas suficientes.

25. Desde que o Espírito pode extrair do elemento universal os materiais para fazer todas as coisas, e com suas propriedades dar a elas uma realidade temporária, pode perfeitamente extrair o que lhe seja necessário para escrever. Consequentemente, isto nos dará a chave do fenômeno da escrita direta?

– Finalmente compreendestes.

26. Se a matéria de que se serve o Espírito não tem persistência, como não desaparecem os traços da escrita direta?

– Não julgueis ao pé da letra; desde o início eu não disse: jamais; tratava-se de um objeto material volumoso; aqui são sinais grafados que convém conservar e são conservados.

A teoria acima pode ser resumida desta maneira: o Espírito atua sobre a matéria; da matéria cósmica universal tira os elementos necessários para formar, a seu bel-prazer, objetos que tenham a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. Pode igualmente, pela ação da sua vontade, operar na matéria elementar uma transformação íntima, que lhe confira determinadas propriedades. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce de modo instintivo, quando necessário, sem disso se aperceber. Os objetos que o Espírito forma têm existência temporária, subordinada à sua vontade, ou a uma necessidade que ele experimenta. Pode fazê-los e desfazê-los livremente. Em certos casos, esses objetos, aos olhos de pessoas vivas, podem apresentar todas as aparências da realidade, isto é, tornarem-se momentaneamente visíveis e até mesmo tangíveis. Há formação; porém, não criação, considerando que, do nada, o Espírito nada pode tirar[3].



[1] REVISTA ESPÍRITA – agosto/1859 – Allan Kardec

[2] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo VII – item 116.

[3] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo VIII.