terça-feira, 3 de março de 2026

PROCESSO PARA AFASTAR OS ESPÍRITOS MAUS[1]

 


Allan Kardec

 

A ingerência dos Espíritos enganadores nas comunicações escritas é uma das maiores dificuldades do Espiritismo. Sabe-se, por experiência, que eles não têm nenhum escrúpulo de tomar nomes supostos e até mesmo respeitáveis.

Haverá meios de os afastar? Eis a questão. Com essa finalidade, certas pessoas empregam aquilo que se poderia chamar processos, isto é, fórmulas particulares de evocação, ou espécies de exorcismos, por exemplo, fazê-los jurar em nome de Deus que dizem a verdade, fazê-los escrever certas coisas etc. Conhecemos alguém que, a cada frase, obriga o Espírito a assinar o nome; se este é o verdadeiro, escreve-o sem dificuldade; se não o é, para de repente, sem poder concluí-lo. Vimos essa pessoa receber as comunicações mais ridículas de Espíritos que assinavam um nome falso com notável ousadia. Pensam outras criaturas que um meio eficaz é fazê-los confessar Jesus em carne, ou outras verdades da religião. Pois bem! Declaramos que se alguns Espíritos um pouco mais escrupulosos se detêm ante a ideia de perjúrio ou de uma profanação, há os que juram tudo o que quisermos, assinam todos os nomes, riem-se de tudo e afrontam a presença das mais veneradas figuras, de onde se conclui que, entre o que se pode chamar processos, não existe nenhuma fórmula, nenhum expediente material que possa funcionar como preservativo eficaz.

Dir-se-á, neste caso, que nada há a fazer, senão deixar de escrever. Este meio não seria melhor. Longe disso, em muitos casos seria pior. Já dissemos – e nunca seria demais repetir – que a ação dos Espíritos sobre nós é incessante e, por ser oculta, não deixa de ser menos real. Se ela deve ser má, será ainda mais perniciosa, pela própria razão de o inimigo encontrar-se escondido.

Através das comunicações escritas ele se revela e se desmascara.

Assim, sabemos com quem lidamos e podemos combatê-lo. Mas, se não há nenhum meio de o afastar, que fazer então? Não dissemos que não haja nenhum meio, mas apenas que a maioria dos que empregamos são ineficazes. Esta a tese que nos propomos desenvolver.

É preciso não perder de vista que os Espíritos constituem todo um mundo, toda uma população que enche o espaço, circula ao nosso lado, mistura-se a tudo quanto fazemos. Se o véu que no-los oculta viesse a ser levantado, nós os veríamos à nossa volta, indo e vindo, seguindo-nos ou nos evitando, conforme o grau de simpatia; uns indiferentes, verdadeiros desocupados do mundo oculto, outros muito ocupados, quer consigo mesmos, quer com os homens aos quais se ligam, com um propósito mais ou menos louvável, segundo as qualidades que os distinguem. Numa palavra, veríamos uma cópia perfeita do gênero humano, com suas boas e más qualidades, com suas virtudes e vícios. Esse envolvimento, ao qual não podemos escapar, já que não há recantos por demais ocultos que sejam inacessíveis aos Espíritos, exerce sobre nós e à nossa revelia, uma influência permanente. Uns nos impelem ao bem, outros ao mal; muitas vezes as nossas determinações resultam de suas sugestões; felizes daqueles que têm juízo suficiente para discernir o bom ou o mau caminho por onde nos procuram arrastar. Considerando-se que os Espíritos nada mais são que os próprios homens despojados de sua indumentária grosseira, ou almas que sobrevivem aos corpos, segue-se que há Espíritos desde que há seres humanos no Universo. São uma das potências da Natureza, e não esperam que haja médiuns escreventes para agir; a prova disso é que, em todos os tempos, os homens hão cometido inconsequências. Eis por que dizemos que sua influência é independente da faculdade de escrever; essa faculdade é um meio de conhecer tal influência, de saber quais são os que nos rodeiam e quais aqueles que se ligam a nós. Pensar que nos podemos subtrair a essa influência, abstendo-nos de escrever, é agir como crianças que acreditam escapar a um perigo pelo simples tapar dos olhos. Ao revelar aqueles que temos por camaradas, como amigos ou inimigos, por isso mesmo a escrita nos proporciona uma arma para combater estes últimos, pelo que devemos agradecer a Deus. Na ausência da visão para reconhecer os Espíritos, temos as comunicações espíritas, por onde eles se revelam tais quais são; isso é, para nós, um sentido que nos permite julgá-los. Repeli-lo é comprazer-se em ficar cego e exposto ao engano sem controle.

A ingerência dos Espíritos maus nas comunicações escritas não constitui, pois, um perigo ao Espiritismo, porque, se perigo há, continuará havendo e em caráter permanente. Nunca estaríamos bastante persuadidos desta verdade; trata-se apenas de uma dificuldade, da qual o Espiritismo triunfará, se a ele nos dedicarmos de maneira conveniente.

Antes de tudo podemos estabelecer como princípio que os Espíritos maus não aparecem senão onde alguma coisa os atrai.

Portanto, quando se intrometem nas comunicações, é que encontram simpatias no meio onde se apresentam ou, pelo menos, lados fracos que esperam aproveitar; em todo caso, porque não encontram  uma força moral suficiente para os repelir. Entre as causas que os atraem, é preciso colocar em primeira linha as imperfeições morais de qualquer natureza, porque o mal simpatiza sempre com o mal; em segundo lugar, a excessiva confiança com que são acolhidas suas palavras. Quando uma comunicação revela uma origem má, seria ilógico inferir daí uma paridade necessária entre o Espírito e os evocadores. Frequentemente vemos pessoas muito distintas expostas às patifarias dos Espíritos enganadores, como ocorre no mundo com as pessoas honestas, enganadas pelos espertalhões; mas quando tomamos precauções, estes últimos nada têm a fazer; é o que acontece também com os Espíritos. Quando uma pessoa honesta é enganada por eles, isso pode decorrer de duas causas: a primeira é uma confiança absoluta, que a leva a desistir de todo exame; a segunda é que as melhores qualidades não excluem certos lados fracos que dão guarida aos Espíritos maus, ávidos por se agarrarem às menores falhas da couraça. Não nos referimos ao orgulho e à ambição, que são mais do que entraves, mas a uma certa fraqueza de caráter e, sobretudo, aos preconceitos que esses Espíritos sabem explorar com habilidade, lisonjeando-os; com vistas a isso, eles usam de todas as máscaras, a fim de inspirar mais confiança.

As comunicações francamente grosseiras são as menos perigosas, visto a ninguém poderem enganar. As que mais enganam são as que têm uma falsa aparência de sabedoria ou de seriedade: numa palavra, as dos Espíritos hipócritas e pseudossábios. Uns podem enganar-se de boa-fé, por ignorância ou presunção; os outros não agem senão pela astúcia. Vejamos, então, qual o meio de nos desembaraçarmos deles.

A primeira coisa é não os atrair e evitar tudo quanto lhes possa dar acesso.

Como vimos, as disposições morais são uma causa preponderante. Todavia, abstração feita dessa causa, o modo empregado não deixa de ter influência. Há pessoas que têm por princípio jamais fazer evocações e esperar a primeira comunicação espontânea que saia do lápis do médium. Ora, se nos recordarmos do que já dissemos sobre a variada e numerosa população dos Espíritos que nos cercam, compreenderemos sem dificuldade que isso seria colocar-nos à mercê do primeiro que viesse, bom ou mau.

E como nessa multidão há mais Espíritos maus do que bons, existe mais oportunidade para os maus, exatamente como se abríssemos a porta a todos os passantes da rua, ao passo que, pela evocação, fazemos a escolha; ademais, cercando-nos de Espíritos bons, impomos silêncio aos maus que, apesar disso, bem poderão procurar insinuar-se algumas vezes. Os bons chegam mesmo a permiti-lo para exercitar a nossa sagacidade em reconhecê-los, mas não terão nenhuma influência. As comunicações espontâneas têm uma grande utilidade quando estamos cientes da qualidade daqueles que nos cercam. Devemos, então, felicitar-nos pela iniciativa deixada aos Espíritos. O inconveniente não se encontra senão no sistema absoluto, que consiste em nos abstermos do apelo direto e das perguntas.

Entre as causas que influem poderosamente sobre a qualidade dos Espíritos que frequentam as casas espíritas, não se deve omitir a natureza das coisas que ali são tratadas. Aquelas que se propõem um fim sério e útil atraem, por isso mesmo, os Espíritos sérios; as que somente visam satisfazer a vã curiosidade ou seus interesses pessoais, expõem-se pelo menos a mistificações, quando não a coisas piores. Em resumo, podemos extrair das comunicações espíritas os mais sublimes e os mais úteis ensinamentos, desde que os saibamos dirigir. Toda a questão se resume em não nos deixarmos levar pela astúcia dos Espíritos zombeteiros ou malévolos. Ora, para isso o essencial é saber com quem tratamos. Inicialmente, ouçamos a propósito os conselhos que foram dados pelo Espírito São Luís à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas através do Sr. R..., um de seus bons médiuns.

Trata-se de uma comunicação espontânea por ele recebida certo dia, em sua casa, com a missão de transmiti-la à referida Sociedade:

Por maior que seja a legítima confiança que inspira os Espíritos que presidem aos vossos trabalhos, há uma recomendação que nunca será por demais repetida e que deveis tê-la sempre presente em vossa mente, quando vos entregardes aos vossos estudos: pesai e amadurecei; submetei ao controle da mais severa razão a totalidade das comunicações que receberdes; não hesiteis, desde que uma resposta vos pareça duvidosa ou obscura, de demandar os esclarecimentos necessários para fixá-la.

Sabeis que a revelação existiu desde os tempos mais recuados, sempre apropriada ao grau de adiantamento dos que a recebiam. Hoje não se trata de vos falar por imagens e parábolas; deveis receber nossos ensinamentos de uma maneira clara, precisa e sem ambiguidade. Entretanto, seria muito cômodo ter apenas de questionar para ser esclarecido; aliás, isso seria escapar às leis progressivas que presidem à evolução universal. Não vos admireis, pois, se, para vos deixar o mérito da escolha e do trabalho, e também para punir as infrações que possais cometer aos nossos conselhos, algumas vezes é permitido a certos Espíritos, mais ignorantes que mal-intencionados, a responder em certos casos às vossas perguntas. Em vez de ser isso um motivo de desencorajamento, deve ser um poderoso excitante, para que pesquiseis ardentemente a verdade. Ficai, pois, bem convictos de que, seguindo este caminho, não podereis deixar de chegar a resultados felizes. Sede unidos de coração e de intenção; trabalhai todos; procurai, procurai sempre e encontrareis.

Luís

 

Por pouco tato, raciocínio ou hábito de observação que tenhamos, a linguagem dos Espíritos bons e sérios traz um selo que torna impossível nos enganarmos. Quanto aos Espíritos maus, por mais que cubram as suas torpezas com o véu da hipocrisia, jamais poderão representar indefinidamente o seu papel; acabam deixando cair a máscara. De outro modo, se sua linguagem fosse impoluta, seriam Espíritos bons. A linguagem dos Espíritos é, pois, o verdadeiro critério pelo qual podemos julgá-los. Sendo a linguagem a expressão do pensamento, tem sempre um reflexo das boas ou más qualidades do indivíduo. Não é também pela linguagem que julgamos os homens que não conhecemos? Se recebermos vinte cartas de vinte pessoas que jamais vimos, não nos deixaremos impressionar de modo diverso pela sua leitura? Não será pelas qualidades do estilo, pela escolha das expressões, pela natureza dos pensamentos, e até por certos detalhes de forma, que reconheceremos, naquele que nos escreve, o homem rústico e o bem-educado, o sábio e o ignorante, o orgulhoso e o modesto?

Dá-se absolutamente a mesma coisa com os Espíritos.

Suponhamos que sejam homens que nos escrevem: devemos julgá-los da mesma maneira. Julguemo-los severamente, porquanto os Espíritos bons de modo algum se sentirão ofendidos com essa escrupulosa investigação, porque são eles próprios que no-la recomendam como meio de controle. Sabendo que podemos ser enganados, nosso primeiro sentimento deve ser o de desconfiança. Somente os Espíritos maus, que procuram nos induzir em erro, podem temer o exame, porque, longe de o provocar, querem ser acreditados sob palavra.

Desse princípio resulta muito naturalmente e com bastante lógica o meio mais eficaz de afastar os Espíritos maus e de nos premunirmos contra as suas falsidades. O homem que não é ouvido deixa de falar; aquele que vê os seus estratagemas constantemente descobertos vai causar aborrecimentos em outros lugares; o espertalhão, ciente de que nos mantemos em estado de alerta, não faz tentativas inúteis. Do mesmo modo, os Espíritos enganadores deixam a partida quando percebem que nada podem fazer, ou quando encontram pessoas vigilantes que desprezam tudo quanto lhes pareça suspeito.

Para terminar, resta passar em revista os principais caracteres que revelam a origem das comunicações espíritas.

1.       Os Espíritos superiores, como já dissemos em várias ocasiões, têm uma linguagem sempre digna, nobre, elevada, sem qualquer mistura de trivialidade. Dizem tudo com simplicidade e modéstia, jamais se vangloriam e não fazem ostentação de seu saber nem de sua posição entre os demais. A dos Espíritos inferiores ou vulgares tem sempre algum reflexo das paixões humanas; toda expressão que denota baixeza, suficiência, arrogância, bazófia ou acrimônia é indício característico de inferioridade e de embuste, caso o Espírito se apresente com um nome respeitável e venerado.

2.       Os Espíritos bons não dizem senão o que sabem; calam-se ou confessam a sua ignorância sobre aquilo que não sabem. Os maus falam de tudo com segurança, sem se incomodarem com a verdade. Toda heresia científica notória, todo princípio que choca a razão e o bom-senso denuncia fraude, desde que o Espírito se apresente como um ser esclarecido.

3.       A linguagem dos Espíritos elevados é sempre idêntica, se não quanto à forma, pelo menos quanto ao fundo. Os pensamentos são os mesmos, quaisquer que sejam o tempo e o lugar. Podem ser mais ou menos desenvolvidos, conforme as circunstâncias, as necessidades e as facilidades de se comunicarem, mas não são contraditórios. Se duas comunicações, que trazem a mesma assinatura, encontram-se em oposição, uma delas será evidentemente apócrifa, e a verdadeira será aquela onde nada desminta o caráter conhecido do personagem. Quando uma comunicação apresenta o caráter de sublimidade e de elevação, sem nenhum defeito, é porque emana de um Espírito superior, seja qual for o seu nome; se encerrar uma mistura de bom e de mau, procede de um Espírito vulgar, caso se apresente como é; será de um Espírito impostor se ele se ornar de um nome que não pode justificar.

4.       Os Espíritos bons jamais dão ordens; não impõem: aconselham e, se não são ouvidos, retiram-se. Os maus são imperiosos: ordenam e querem ser obedecidos. Todo Espírito que impõe trai a sua origem.

5.       Os Espíritos bons não adulam. Aprovam quando se faz o bem, mas sempre com reservas; os maus são pródigos em elogios exagerados, estimulam o orgulho e a vaidade, mesmo pregando a humildade, e procuram exaltar a importância pessoal daqueles a quem desejam apanhar.

6.       Os Espíritos superiores estão acima das puerilidades formais em todas as coisas; para eles o pensamento é tudo, a forma nada vale. Somente os Espíritos vulgares podem ligar importância a certos detalhes incompatíveis com as ideias verdadeiramente elevadas. Toda prescrição meticulosa é sinal certo de inferioridade e de embuste da parte de um Espírito que toma um nome imponente.

7.       É preciso desconfiar dos nomes estranhos e ridículos tomados por certos Espíritos que se querem impor à credulidade; seria supremo absurdo levar esses nomes a sério.

8.       Deve-se igualmente desconfiar daqueles que muito facilmente se apresentam com nomes extremamente venerados, e não aceitar suas palavras senão com a maior reserva. É sobretudo nesses casos que se torna necessário um severo controle, porquanto muitas vezes é uma máscara que utilizam para nos fazer crer em supostas relações íntimas com os Espíritos de elevada hierarquia. Por esse meio lisonjeiam a vaidade, aproveitando frequentemente para induzir a atitudes lamentáveis ou ridículas.

9.       Os Espíritos bons são muito escrupulosos sobre as providências que podem aconselhar; em todos os casos estas têm sempre um objetivo sério e eminentemente útil. Deve-se, pois, olhar como suspeitas todas as que não tiverem esse caráter, refletindo maduramente antes de adotá-las.

10.   Os Espíritos bons só prescrevem o bem. Toda máxima, todo conselho que não estiver estritamente conforme a pura caridade evangélica não pode ser obra de Espíritos bons; acontece o mesmo com toda insinuação malévola, tendente a excitar ou a alimentar sentimentos de ódio, de ciúme e de egoísmo.

11.   Os Espíritos bons jamais aconselham coisas que não sejam perfeitamente racionais. Toda recomendação que se afaste da linha reta do bom-senso ou das leis imutáveis da Natureza denuncia um Espírito limitado e ainda sob a influência dos preconceitos terrestres; consequentemente, pouco digno de confiança.

12.   Os Espíritos maus, ou simplesmente imperfeitos, ainda se traem por sinais materiais com os quais não nos poderíamos enganar. Sua ação sobre o médium por vezes é violenta, provocando na sua escrita movimentos bruscos e irregulares, uma agitação febril e convulsiva, que contrasta com a calma e a suavidade dos Espíritos bons.

13.   Um outro sinal de sua presença é a obsessão. Os Espíritos bons jamais obsidiam. Os maus se impõem em todos os momentos, razão por que todo médium deve desconfiar da necessidade irresistível de escrever que dele se apodera nas ocasiões menos oportunas. Jamais se trata de um Espírito bom, e ele nunca deve ceder.

Entre os Espíritos inferiores que se intrometem nas comunicações, há os que, por assim dizer, se insinuam furtivamente, como para fazer uma brincadeira, mas que se retiram tão facilmente como vieram, e isto na primeira intimação; outros, ao contrário, são tenazes, agarram-se ao indivíduo e não cedem senão a contragosto e com persistência. Apoderam-se dele, subjugam-no e o fascinam a ponto de fazê-lo tomar os mais grosseiros absurdos por coisas admiráveis. Feliz dele quando criaturas de sangue-frio conseguem abrir-lhe os olhos, o que nem sempre é fácil, já que tais Espíritos são mestres em inspirar a desconfiança e o afastamento de quem quer que os possa desmascarar. Daí se segue que devemos ter por suspeito de inferioridade ou de má intenção todo Espírito que prescreve o isolamento e o afastamento das pessoas que podem dar bons conselhos. O amor-próprio vem em seu auxílio, porque nos é penoso confessar que fomos vítimas de uma mistificação e reconhecer um velhaco naquele sob cujo patrocínio nos sentíamos honrados em nos colocar. Essa ação do Espírito é independente da faculdade de escrever. À falta da escrita, o Espírito malévolo dispõe de cem maneiras diferentes de agir e ludibriar. Para ele a escrita é um meio de persuasão, mas não é uma causa; para o médium, é um meio de esclarecer-se.

Passando todas as comunicações escritas pelo controle das considerações precedentes, reconheceremos facilmente a sua origem e poderemos frustrar a malícia dos Espíritos enganadores, que só se dirigem àqueles que se deixam enganar voluntariamente.

Se perceberem que nos dobramos ante as suas palavras, disso tirarão partido, exatamente como fariam os simples mortais.

Compete, pois, a nós provar-lhes que perdem o tempo. Acrescentemos que, para isso, a prece é poderoso auxílio; por ela atraímos a assistência de Deus e dos Espíritos bons, aumentando nossa própria força. É conhecido o preceito: “Ajuda-te, e o céu te ajudará.” Por certo Deus quer assistir-nos, contanto que, de nosso lado, façamos aquilo que é necessário.

A esse preceito acrescentamos um exemplo. Um senhor que eu não conhecia veio ver-me certo dia, dizendo que era médium e recebia comunicações de um Espírito muito elevado, que o havia encarregado de vir a mim, fazer-me uma revelação a respeito de uma trama que, segundo ele, era urdida contra mim, por parte de inimigos secretos que designou. “Quereis – acrescentou – que eu escreva em vossa presença?” – “Com prazer – respondi – mas de início devo dizer-vos que esses inimigos são menos temerosos do que supondes. Sei que os tenho; quem não os tem?

E os mais obstinados em geral são aqueles a quem mais beneficiamos. Tenho consciência de jamais ter feito voluntariamente mal a quem quer que seja. O mesmo não poderão dizer aqueles que me fizeram mal e, entre nós, Deus será juiz. Vejamos, no entanto, o conselho que vosso Espírito quer dar-me.” Então esse senhor escreveu o seguinte:

Ordenei a C... (nome daquele senhor), que é o farol de luz dos Espíritos bons, dos quais recebeu a missão de a espalhar entre seus irmãos, que se dirigisse à casa do Sr. Allan Kardec, o qual deverá crer cegamente no que eu lhe disser, porque pertenço ao número dos eleitos prepostos por Deus para velar a salvação dos homens, e porque lhe venho anunciar a verdade...

É bastante – disse-lhe eu – não se dê ao trabalho de continuar. Este exórdio é suficiente para mostrar com que espécie de Espírito estais tratando. Acrescentarei apenas uma palavra: para um Espírito que pretende ser astucioso, ele é bem desajeitado.

Esse senhor pareceu bastante escandalizado do pouco caso que eu fazia de seu Espírito, que havia tomado por algum arcanjo ou, pelo menos, por algum santo de primeira classe, vindo expressamente para ele. Disse-lhe eu: Esse Espírito se trai em cada uma das palavras que acaba de escrever e, convenhamos, esconde muito mal o seu jogo. Primeiro ele ordena; quer, portanto, manter-vos sob sua dependência, o que é característico dos Espíritos obsessores; ele vos chama de farol de luz dos Espíritos bons, linguagem sofrivelmente enfática e incompreensível, muito distante da simplicidade que caracteriza a dos Espíritos bons; por ela lisonjeia o vosso orgulho e vos exalta a importância, o que é suficiente para torná-lo suspeito. Coloca-se sem a menor cerimônia no rol dos eleitos prepostos de Deus: jactância indigna de um Espírito verdadeiramente superior. Por fim me diz que devo crer cegamente; isso coroa a obra. É bem o estilo desses Espíritos mentirosos, que querem que neles acreditemos sob palavra, pois sabem que num exame sério têm tudo a perder. Com um pouco mais de perspicácia saberia que não me deixo convencer por belas palavras, nem teria sido tão inábil a ponto de prescrever-me uma confiança cega. Daí concluo que sois joguete de um Espírito mistificador que abusa da vossa boa-fé. Exorto-vos seriamente a prestar muita atenção a isso, porque, se não vos acautelardes, podereis ser vítima de um golpe lamentável de sua parte.

Não sei se aquele senhor aproveitou a advertência, pois não mais o vi, nem ao seu Espírito. Eu jamais terminaria se fosse narrar todas as comunicações desse gênero a mim submetidas, por vezes muito seriamente, como emanando dos maiores santos, da Virgem Maria e do próprio Cristo, e seria realmente curioso ver as torpezas debitadas à conta desses nomes venerados. É preciso ser cego para se deixar enganar quanto à sua origem, quando, muitas vezes, uma única palavra equívoca, um só pensamento contraditório é suficiente para fazer descobrir o embuste a quem se der ao trabalho de refletir. Como exemplos notáveis em seu apoio, concitamos nossos leitores a se reportarem aos artigos publicados na Revista Espírita referentes aos meses de julho e outubro de 1858.



[1] REVISTA ESPÍRITA – setembro/1859 – Allan Kardec

segunda-feira, 2 de março de 2026

JOSÉ BERNARDINO GONÇALVES TEIXEIRA[1]

 


 Rebuscando em edições remotas da “Revista de Espiritismo”, precisamente no número 4, 5 e 6 de Julho/Dezembro de 1938, fomos encontrar notícia acerca de mais uma ilustre personalidade do movimento espírita português das décadas de 20 e 30.

Infelizmente é difícil encontrar alusões a muitas outras personalidades que alimentaram o movimento de então, quer na sua florescência, quer na clandestinidade a que se viu remetido devido às atitudes perseguidoras do Estado Novo.

Sob o título “Figuras que Marcam”, encontrámos esta rubrica da autoria de Sousa Carvalho, editor da “Revista de Espiritismo”, em 1938, e que transcrevemos pelo seu interesse:

Em 25 de Janeiro de 1934[2], isto é, dois anos certos depois de ter perdido a esposa (20 de Novembro de 1932), falece, em Lisboa o Dr. José Bernardino Gonçalves Teixeira.

Possuidor de uma sólida cultura, este homem ilustre era, a par disso, de um carácter lídimo, de uma modéstia impressionante e de uma bondade difícil de igualar.

A morte de um filho, já formado em medicina, levou-o a procurar no espiritismo os lenitivos para a sua dura provação.

Sendo Director Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros — não hesitou em aceitar o cargo de presidente da Assembleia Geral da Federação Espírita Portuguesa, onde prestou os mais relevantes serviços.

Os graves desgostos, infligidos por alguns CORIFEUS do espiritismo, que por cá campeavam, levaram o Dr. José Bernardino Gonçalves Teixeira a abandonar um cargo, a que dera tanto lustre e elevação.

Que os adeptos da causa saibam enviar ao espírito do Dr. José Bernardino Gonçalves Teixeira pensamentos de amor e de gratidão.

Pelos vistos, a par das grandes figuras que perfilavam no movimento espírita português, evidenciam-se os problemas de entendimento que sempre os acompanharam, quando as diferentes perspectivas sobre um assunto não conseguiam ultrapassar as nuvens teimosas do personalismo paralisante. Ao fim e ao cabo, uma situação ainda do nosso quotidiano, a urgir mudança interior.

 

 

Atuação no movimento espírita[3]

Como Presidente da Assembleia Geral da Federação Espírita Portuguesa, exerce funções principalmente de natureza institucional e administrativa, entre as quais:

§  Coordenar e dirigir as reuniões da Assembleia Geral;

§  Garantir o cumprimento dos estatutos da Federação;

§  Supervisionar processos eleitorais internos;

§  Promover a participação democrática das associações espíritas federadas;

§  Representar a Assembleia Geral em atos oficiais e institucionais.

A sua atuação é associada ao incentivo da união entre centros espíritas portugueses, à formação doutrinária e ao fortalecimento organizacional do movimento espírita no país.



[2] Informação retificada pelo Chat GPT

[3] Informações obtidas pelo Chat GPT

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

QUEM O ALHEIO VESTE, NA PRAÇA O DESPE — e o mundo já não se constrange

 


Wilson Garcia -  fev 5, 2026

 

“Quem o alheio veste, na praça o despe”, dizia o velho português com aquela sabedoria que vem da vida e não das teorias. Ouvi essa frase há cinquenta anos, e ela parecia carregar um juízo moral simples: quem toma o que não lhe pertence será desmascarado diante da consciência coletiva.

Hoje, porém, o cenário moral que sustentava esse provérbio parece ter se transformado profundamente. O mundo vive uma escalada de violência — física, simbólica, digital — que afeta não apenas os comportamentos, mas a própria crença de que a humanidade segue um curso evolutivo em direção ao bem. É como se, diante de tantas fraturas, a confiança no progresso moral estivesse em suspensão.

É precisamente aqui que o pensamento espírita oferece uma interpretação singular e surpreendentemente atual.

Segundo Allan Kardec, há dois movimentos fundamentais na evolução humana: o progresso intelectual, quase inevitável, e o progresso moral, lento e dependente do esforço individual (KARDEC, 1868, cap. XVIII). O primeiro avança por força da curiosidade e da experiência; o segundo exige escolhas, disciplina íntima e superação do egoísmo. É por isso que a humanidade pode desenvolver tecnologias extraordinárias — desde sistemas de inteligência artificial até redes de comunicação planetária — sem que isso se traduza automaticamente em fraternidade, justiça social ou respeito ao próximo.

Essa defasagem explica o paradoxo contemporâneo: quanto mais o mundo avança em meios, mais se perde em fins. Kardec já enumerava o egoísmo como o “mal predominante da humanidade” (KARDEC, 1857, q. 913), raiz psicológica que sabota o progresso moral mesmo em sociedades altamente instruídas. A violência crescente, sob essa perspectiva, não é apenas um fenômeno sociológico; é um sintoma espiritual da desigualdade entre essas duas formas de evolução.

O provérbio português pressupunha uma praça — uma consciência pública — capaz de reprovar desvios e restabelecer a ordem moral. Hoje, a praça se fragmentou em incontáveis microterritórios, especialmente no universo digital, onde cada grupo legitima a própria visão de mundo. O desmascaramento (“o despe”) já não produz vergonha; produz disputa narrativa. A correção moral, antes tácita, tornou-se volátil.

No entanto, segundo o Espiritismo, essa crise não significa retrocesso absoluto, mas sim transição. Kardec descreve momentos históricos em que os valores antigos se tornam insustentáveis, enquanto os novos ainda não se consolidaram (KARDEC, 1868, cap. XVIII). Chamou-os de “períodos de renovação” — tempos em que as contradições se acentuam justamente para revelar aquilo que precisa ser transformado.

Sob essa ótica, a violência e a desconfiança social não são o fim de um ciclo, mas o choque entre mundos:

         o mundo velho, centrado no privilégio, no egoísmo e na aparência;

         e o mundo novo, que ainda luta para nascer, estruturado na responsabilidade, na justiça e na solidariedade.

O velho português talvez não soubesse disso, mas intuía a dinâmica moral das leis espirituais. No plano profundo, ninguém “veste o alheio” sem enfrentar, mais cedo ou mais tarde, a verdade sobre si mesmo. E a “praça”, no sentido espírita, não é a rua pública — é a consciência, esse tribunal silencioso onde cada ato encontra consequência, aprendizado e reparação.

O que falta ao nosso tempo, mais do que punições, é o reencontro com essa consciência moral ampliada — aquilo que Kardec descreve como “substituição do egoísmo pela caridade” (KARDEC, 1857, q. 886), fundamento da regeneração espiritual do planeta.

Quando essa consciência desperta, o provérbio antigo deixa de ser advertência e se torna promessa: ninguém permanece indefinidamente oculto sob aquilo que não lhe pertence — porque o progresso moral, embora lento, é inevitável.

 

As duas praças: a da vida presente e a da vida futura

Se ampliamos o provérbio — “Quem o alheio veste, na praça o despe” — percebemos que ele se desdobra em duas praças simbólicas que atravessam a existência humana. A primeira é a praça visível, histórica, social: o espaço em que o indivíduo responde pelos atos cometidos na vida atual — corrupção, usurpação, violência, desonestidade. Ali, a consciência coletiva funciona como um espelho que, mais cedo ou mais tarde, revela o que foi indevidamente apropriado.

Mas existe também uma segunda praça, mais profunda e inevitável: a praça espiritual. Nela, não é a sociedade que convoca o indivíduo — é a própria lei de causa e efeito, descrita por Kardec como uma das dinâmicas fundamentais da justiça divina (KARDEC, 1865, cap. VII).

Segundo o Espiritismo, ninguém leva para além da morte aquilo que não lhe pertence por direito. As “vestes” do privilégio, da posse ilegítima ou da exploração do outro não atravessam o limiar da vida espiritual. Essa ideia é reafirmada em O Livro dos Espíritos, quando os Espíritos explicam que as condições de cada nova existência resultam do estado moral do Espírito e das consequências naturais de seus atos anteriores (KARDEC, 1857, q. 258; q. 971).

Assim, se a praça humana falha — se a época, a política ou os sistemas sociais não desnudam a injustiça — a praça espiritual, pela reencarnação, o fará. Não como castigo, mas como reparação educativa, mecanismo pelo qual o Espírito retorna à vida física para recompor o que distorceu, recuperar o que destruiu, reconstruir o que feriu. Kardec afirma que o Espírito escolhe novas provas com vistas à própria melhora e à reparação de faltas passadas (KARDEC, 1857, q. 266).

Dessa forma:

         Quem usurpou poder, muitas vezes renasce em condições de subalternidade, aprendendo o valor da humildade e da reciprocidade.

         Quem explorou o outro, renasce frequentemente em posições vulneráveis, compreendendo na própria carne a dor que causou.

         Quem acumulou às custas do sofrimento coletivo, retorna à vida para servir e restituir, como descreve Kardec ao tratar das provas reparadoras (KARDEC, 1864, cap. V, item 11).

A praça espiritual, portanto, não é pública — é íntima. É o cenário onde o Espírito, confrontado com sua própria consciência e com a verdade de si mesmo, se “despe” daquilo que jamais lhe pertenceu em essência.

Quando vistas em conjunto, as duas praças — a da vida presente e a da vida futura — revelam a coerência profunda das leis morais. A justiça humana corrige o que vê; a justiça divina corrige também o que não se vê. E o progresso moral, embora lento, confirma o que o provérbio português dizia de modo intuitivo: ninguém conserva indefinidamente o que tomou do outro, porque a evolução espiritual exige devolução, reparação e crescimento.

 

O esquecimento do passado como leveza moral e liberdade criadora

Se despir a veste alheia significa alcançar uma consciência ampliada, voltada para o bem comum e para a reconstrução ética da própria trajetória, então se torna evidente a importância do esquecimento do passado em cada nova existência no planeta.

Segundo Allan Kardec, ao reencarnar, o Espírito não traz à lembrança as faltas específicas cometidas anteriormente. Esse esquecimento — frequentemente mal compreendido — não é punição, mas recurso pedagógico essencial, destinado a favorecer o progresso moral e impedir que antigas emoções perturbadoras paralisem a nova etapa da vida (KARDEC, 1857, q. 392).

O passado não desaparece: permanece latente, influenciando tendências e predisposições, mas sem impor ao Espírito o peso emocional de lembranças vivas. Como explica Kardec, esse véu temporário é necessário para que o indivíduo não seja esmagado pela vergonha, pelo remorso ou pelo trauma, nem reacenda velhos conflitos com desafetos reencontrados (KARDEC, 1857, q. 393).

A alma renasce, então, livre do fardo e das imagens do passado, ainda que carregue, em profundidade, a experiência imortal que lhe molda o caráter. Esse esquecimento é um ato de misericórdia e de estratégia divina: permite ao Espírito recomeçar, sem amarras psicológicas que desviariam o propósito da nova existência.

Como afirma Kardec, o esquecimento é condição indispensável para que o Espírito cumpra, com eficácia, o programa de provas e reparações ao qual se vinculou antes de renascer. Lembranças demasiado vivas poderiam provocar confusões morais, impedir reconciliações e mesmo alimentar preconceitos ou animosidades (KARDEC, 1857, q. 399).

Assim, o esquecimento do passado funciona como leveza moral, como um esvaziamento interior que torna possível a construção do futuro com matéria-prima limpa.

A consciência chega ao novo corpo sem culpa esmagadora, sem vaidades antigas, sem humilhações que a imobilizem. Chega pronta para construir, não para repetir.

Livre do peso das lembranças, o Espírito torna-se mais apto a agir no presente; mais capaz de cooperar com a sociedade; e mais sensível à ética do bem comum, que substitui o antigo patrimônio egoístico pelo patrimônio coletivo da evolução.

 

 Referências

§  KARDEC, A. O Livro dos Espíritos. 1ª ed. Paris: Didier, 1857.

§  KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Tradução de Guillon Ribeiro. 92ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2001. (Questões 392, 393 e 399).

§  KARDEC, A. O Evangelho segundo o Espiritismo. 1ª ed. Paris: Didier, 1864.

§  KARDEC, A. O Céu e o Inferno. 1ª ed. Paris: Didier, 1865.

§  KARDEC, A. A Gênese. 1º ed. Paris: Didier, 1868.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

DESIGUALDADE[1]

 


Miramez

 

Encarnação nos diferentes mundos

Os seres que habitam cada mundo hão todos alcançado o mesmo nível de perfeição?

Não; dá-se em cada um o que ocorre na Terra: uns Espíritos são mais adiantados do que outros.

Questão 179 / O Livro dos Espíritos

 

As diferenças são uma constante em todos os mundos e em tudo que existe no universo. Nada é perfeitamente igual ao outro, mesmo que estejam ligados pela mesma linha de afinidades, quer seja no reino mineral, vegetal ou animal.

Dentro do entendimento da harmonia, as desigualdades são trecos de beleza. Oferece-nos exemplos vivo dessa afirmativa a própria natureza. Cabe a nós outros entender o porquê dessa desigualdade de tudo, para formar uma unidade universa na conjuntura da força de Deus como Soberano Senhor.

Os Espíritos que reencarnam em um planeta não são todos iguais no saber e no amor; existem diferenças entre uns e outros, para que a escola se faça entre os próprios Espíritos, uns ensinando aos outros. Daí se iniciam o amor e os laços da fraternidade, mediante as necessidades de uns para com os outros. Assim também alguns países são diferentes uns dos outros em tudo que neles se pensa e se faz; no entanto, carregam no fundo a unidade de ideais. Uma gota de água não e igualzinha à outra, no tamanho e na forma; entretanto, elas se juntam para beneficiarem de muitas formas. Assim é tudo que existe na Terra e no céu, assim é a vida em todas as suas características.

Se vamos para mundos superiores, encontraremos lá Espírito de muitos níveis espirituais, porém, pelo fato de ser mundo superior, todos que ali se encontram estão dispostos a aprender dentro do aperfeiçoamento que lhes cabe assimilar. Mesmo nos mundos inferiores, em que os Espíritos se apresentam também em escalas diversas, Deus usa uns para ensinar aos outros, uns compensando as deficiências dos outros; não há mestre que não aprenda com os alunos. Os alunos são livros que Deus usa para ensinar mais, enquanto adquirem novos conhecimentos.

Cada criatura é um mundo diferente da outra. Os caminhos que percorrem são variáveis, apresentando modalidades diversas, todavia, objetivando o mesmo fim: a perfeição espiritual. É proveitoso saber que todos somos livres para escolher, mas não temos liberdade de colher os frutos, a não ser aqueles cujas sementes plantamos.

As desigualdades nos parecem de relance, a falta de harmonia, mas não é: é o amor vencendo barreiras para amar mais, fazendo justiça e ampliando condições para verdadeira fraternidade. Nem entre os anjos existe igualdade; cada um se encontra em uma dimensão de amor e de saber e, entre eles, o aprendizado é mais proveitoso, pela humildade e pelo interesse na iluminação da própria consciência.

A compreensão é que faz nivelar todas as criaturas, mesmo que não vibrem na mesma faixa de entendimento. O Cristo veio nos ensinar os meios de compreender nossos semelhantes, bem como de eles nos entendem, pelo perdão, pelo trabalho, pela caridade e pelo amor.

Se desejamos ser maiores, é da lei que aprendamos a ser menores, policiando nossos pensamentos e vigiando nossas ideias, travando a nossa língua para que a nossa vida se torne exemplo da nobreza do bom comportamento.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 4 – João Nunes Maia

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

REENCARNAÇÃO E O PROBLEMA POPULACIONAL[1]

 

Tertuliano de Cartago

K.M. Wehrstein

 

O "problema populacional" na pesquisa sobre reencarnação refere-se ao argumento, apresentado inicialmente na antiguidade, de que o crescimento contínuo da população humana comprova a impossibilidade da reencarnação. Diversas soluções para o problema foram propostas.

 

História

O filósofo cristão primitivo Tertuliano de Cartago (160–222) foi a primeira pessoa conhecida a abordar o problema populacional. Em seu tratado sobre a alma humana De Anima[2], ele começa estabelecendo, a seu ver, que para que a reencarnação ocorra, a população humana deve permanecer em um número fixo:

Os vivos precederam os mortos, depois os mortos surgiram dos vivos, e então os vivos surgiram dos mortos. Ora, como esse processo sempre se repetia com as mesmas pessoas, elas, surgindo das mesmas, deviam sempre permanecer em número as mesmas. Pois aqueles que emergiam (para a vida) jamais poderiam ser mais ou menos do que aqueles que desapareciam (na morte)[3].

Ele então apresenta um argumento correto em favor do aumento populacional em sua própria época e conclui que, portanto, a reencarnação não pode ocorrer.

Este é apenas um dos muitos argumentos contra a reencarnação que Tertuliano apresenta nos oito capítulos do tratado. Estes, juntamente com escritos de outros filósofos cristãos primitivos, provavelmente contribuíram para a rejeição oficial da reencarnação pelo cristianismo, decidida em 325 no Primeiro Concílio de Niceia, convocado pelo imperador romano Constantino, o Grande (274-337)[4]. Os argumentos de Tertuliano foram citados por céticos modernos como Paul Edwards[5] e Michael Shermer[6], que afirmam que a reencarnação requer um número fixo de indivíduos na população.

 

Contra-argumentos

Ian Stevenson , pioneiro na pesquisa sobre reencarnação, abordou o problema populacional em um artigo de 1974, apontando que muitas variáveis ​​são desconhecidas para que a reencarnação possa ser descartada apenas com base em dados demográficos. Ele observa que é possível que os intervalos entre as vidas na pré-história e no início da história tenham sido muito mais longos do que são hoje. Ele também sugere que as almas podem ter migrado de animais não humanos para humanos, ou até mesmo (de uma forma assumidamente ficção científica) de outros planetas.

O pesquisador da reencarnação James G. Matlock sugeriu que novas almas poderiam "se desprender da divindade" conforme necessário (como afirma o Vedanta). Outras alternativas, acrescenta ele, são a preexistência sem encarnação prévia; ou a noção, promovida pelo influente rabino e filósofo alemão do Renascimento, Yitzhak Luria, de uma alma composta por múltiplos níveis que reencarnam independentemente; ou que as almas são "promovidas na linha evolutiva", como acreditam os teosofistas. Finalmente , há a concepção animista de que "os espíritos podem se replicar à vontade[7]".

 

O experimento de Bishai

Interessado em explorar a matemática do problema populacional, o professor de saúde pública David Bishai tentou cálculos computadorizados e publicou os resultados em um artigo intitulado "O crescimento populacional pode descartar a reencarnação? Um modelo de migração circular", em 2000, sendo "migração circular" uma referência às migrações cíclicas das almas através dos estados encarnado e desencarnado[8]. Ele demonstrou que os dados demográficos não podem ser usados ​​para refutar a reencarnação, a menos que se assuma uma população fixa de almas (incluindo encarnadas e desencarnadas) – e mesmo assim, não se a duração do intervalo for variável.

Interface gráfica do usuário, Aplicativo

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

 

Neste excerto da tabela de resultados de Bishai[9], 'Estado A' refere-se à existência encarnada, 'Estado B' à existência desencarnada, ou ao que os pesquisadores da reencarnação chamam de intervalo. 'K' é uma população fixa presumida de almas encarnadas ou desencarnadas. Para uma população mínima provável de almas, Bishai usou o pico previsto pelas Nações Unidas para a população humana encarnada (10 bilhões); para um máximo, ele escolheu uma estimativa calculada do número de humanos que já viveram desde o primeiro sepultamento ritual de um homo sapiens (c. 50.000 a.C.), arredondando para 100 bilhões. Ele então calculou os tempos de permanência no Estado B, ou seja, a duração do intervalo, com base em

1.       taxas de natalidade e mortalidade conhecidas ou estimadas;

2.       populações humanas conhecidas ou estimadas e

3.       valores de 'K' dados, ou seja, populações de almas de 10 bilhões, 20 bilhões e 100 bilhões – para os anos 50.000 a.C., 4.000 a.C., 1650 d.C. e 2000 d.C.

Os resultados são mostrados na tabela acima.

 

Discussão

Os cálculos de Bishai partem do pressuposto de que não existem dados sobre a duração do intervalo. No entanto, os casos de reencarnação em que a encarnação anterior é identificada, como os cerca de 1.700 coletados por Stevenson e outros pesquisadores afiliados à Divisão de Estudos Perceptivos, geralmente incluem a data de falecimento da encarnação anterior e a data de nascimento do indivíduo, fornecendo uma duração precisa do intervalo. A partir desses valores, Stevenson calculou uma duração mediana de intervalo de quinze meses para 616 casos. Ele também conseguiu discernir padrões na duração do intervalo por meio de análise estatística.

Matlock contribuiu para este trabalho. Ele resume suas descobertas aqui[10], apontando fortes variações culturais na duração do intervalo entre os estudos, entre outros padrões. Culturalmente, a duração média do intervalo varia de quatro meses na tribo Haida do noroeste da América do Norte a quase doze anos em americanos não tribais, e ainda mais, se os casos americanos publicados após os cálculos de Stevenson também forem incluídos.

Os intervalos propostos por Bishai são muito mais longos: no modelo de menor população de Bishai (10 bilhões), mesmo o menor intervalo médio (trinta anos no ano 2000), embora talvez plausível para um caso americano, está muito acima da média mundial, enquanto os valores de cinco dígitos para 50.000 a.C. e 4.000 a.C. estão muito fora de cogitação. Portanto, é improvável que uma diminuição no intervalo possa reconciliar a reencarnação com um número fixo de almas.

Em todo caso, não há evidências de grandes mudanças na duração do intervalo ao longo da história. Para explicar completamente a duplicação da população humana entre 1960 (3 bilhões) e 1999 (6 bilhões)[11], a duração média do intervalo teria que ter diminuído pela metade durante o período em que Stevenson coletava os casos – um fato que ele e outros pesquisadores certamente teriam observado. Em vez disso, há algumas evidências de estabilidade, visto que os relatos de reencarnação em fontes orientais antigas e medievais apresentam muitas características semelhantes às investigadas pelos pesquisadores atualmente, incluindo a duração típica do intervalo asiático de alguns anos ou meses[12].

Possivelmente, a solução mais lógica e parcimoniosa para o problema populacional é assumir uma contínua vinda à existência de almas. Nossa presença prova que as almas vieram à existência em algum momento, e nenhuma razão para que esse processo tenha cessado, ou evidência de tal cessação, foi apresentada. Como escreve o biólogo e parapsicólogo Michael Nahm : "Já estamos aqui, então por que outros não deveriam vir e se juntar a nós?[13]"

Este modelo tem implicações importantes para a teoria e crença na reencarnação. Ele refuta a crença comum de que todos têm inúmeras vidas passadas, ao mesmo tempo que apoia a crença comum em almas de diferentes idades. De fato, sugere que a vasta maioria das pessoas que vivem atualmente devem ser almas relativamente "novas" e que os jovens, em especial, provavelmente são "primeiras almas". Uma preponderância de almas novas pode parecer apresentar problemas; no entanto, o modelo não confirma (nem aborda) a crença comum de que almas antigas são invariavelmente mais sábias e espiritualmente avançadas, assim como a idade dentro de uma vida não garante sabedoria ou avanço espiritual, portanto, isso provavelmente não é uma preocupação.

 

Literatura

§  Bishai, D. (2000). Can population growth rule out reincarnation? A model of circular migration. Journal of Scientific Exploration 14/3, 411-20.

§  Edwards, P. (1996). Reincarnation: A Critical Examination. Amherst, New York, USA: Prometheus Books.

§  Haraldsson, E., & Matlock, J.G. (2016). I Saw a Light and Came Here: Children’s Experiences of Reincarnation. Hove, UK: White Crow Books.

§  Matlock, J.G. (2017a). Patterns in reincarnation cases. Psi Encyclopedia. [Web page.]

§  Matlock, J.G. (2017b). Reincarnation accounts from before 1900. Psi Encyclopedia. [Web page.]

§  Matlock, J.G. (2019). Signs of Reincarnation: Exploring Beliefs, Cases, and Theory. Lanham, Maryland, USA: Rowman & Littlefield.

§  Nahm, M. (2023). Climbing Mount Evidence: A strategic assessment of the best available evidence for the survival of human consciousness after permanent bodily death. Posted on The 2021 BICS Essay Contest Runners-Up web page, Bigelow Institute for Consciousness Studies, 2021. In Winning Essays 2023: Proof of Survival of Human Consciousness Beyond Permanent Bodily Death, 108-200. Las Vegas, Nevada, USA: Bigelow Institute for Consciousness Studies.

§  Shermer, M. (2018). Heavens on Earth: The Scientific Search for the Afterlife, Immortality, and Utopia. New York: Henry Holt.

§  Stevenson, I. (1974). Questions related to cases of the reincarnation type. Journal of the American Society for Psychical Research 68, 395-416.

§  Tertullian of Carthage (n.d./1998), trans. Holmes, P. De Anima [A Treatise on the Soul]. [Web page published on Tertullian.org, derived from the Christian Classics Electronic Library at Wheaton College.]

§  World Bank (2018). A changing world population. [Web page, published on the World Bank website, 8 October).

 

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Tertuliano (s/d/1998).

[3] Tertuliano (s/d/1998), Capítulo 30 .

[4] Matlock (2019), 74. Além de Tertuliano, Matlock também observa que Teófilo de Antióquia (falecido por volta de 181), Irineu de Lyon (falecido em 202) e Marco Minúcio Félix (falecido em 260) argumentaram contra a reencarnação.

[5] Edwards (1996), 226-33.

[6] Shermer (2018), 98-99.

[7] Matlock (2019), 111.

[8] Bishai (2000).

[9] Bishai (2000), 418, Tabela 2.

[10] Matlock (2017a). Para mais detalhes sobre a duração do intervalo, veja Haraldsson & Matlock (2016), 224-45, Tabela 26-4.

[11] Banco Mundial (2018); veja o gráfico intitulado "A população mundial aumentou de 3 bilhões em 1960 para 7,5 bilhões atualmente".

[12] Ver Matlock (2017b).

[13] Nahm (2023; itálico no original.), 160