Allan Kardec
A ingerência dos Espíritos
enganadores nas comunicações escritas é uma das maiores dificuldades do
Espiritismo. Sabe-se, por experiência, que eles não têm nenhum escrúpulo de
tomar nomes supostos e até mesmo respeitáveis.
Haverá meios de os afastar? Eis
a questão. Com essa finalidade, certas pessoas empregam aquilo que se poderia
chamar processos, isto é, fórmulas particulares de evocação, ou espécies
de exorcismos, por exemplo, fazê-los jurar em nome de Deus que dizem a verdade,
fazê-los escrever certas coisas etc. Conhecemos alguém que, a cada frase,
obriga o Espírito a assinar o nome; se este é o verdadeiro, escreve-o sem
dificuldade; se não o é, para de repente, sem poder concluí-lo. Vimos essa
pessoa receber as comunicações mais ridículas de Espíritos que assinavam um
nome falso com notável ousadia. Pensam outras criaturas que um meio eficaz é
fazê-los confessar Jesus em carne, ou outras verdades da religião. Pois bem!
Declaramos que se alguns Espíritos um pouco mais escrupulosos se detêm ante a ideia
de perjúrio ou de uma profanação, há os que juram tudo o que quisermos, assinam
todos os nomes, riem-se de tudo e afrontam a presença das mais veneradas
figuras, de onde se conclui que, entre o que se pode chamar processos, não
existe nenhuma fórmula, nenhum expediente material que possa funcionar como
preservativo eficaz.
Dir-se-á, neste caso, que nada
há a fazer, senão deixar de escrever. Este meio não seria melhor. Longe disso,
em muitos casos seria pior. Já dissemos – e nunca seria demais repetir – que a
ação dos Espíritos sobre nós é incessante e, por ser oculta, não deixa de ser
menos real. Se ela deve ser má, será ainda mais perniciosa, pela própria razão
de o inimigo encontrar-se escondido.
Através das comunicações
escritas ele se revela e se desmascara.
Assim, sabemos com quem lidamos
e podemos combatê-lo. Mas, se não há nenhum meio de o afastar, que fazer então?
Não dissemos que não haja nenhum meio, mas apenas que a maioria dos que
empregamos são ineficazes. Esta a tese que nos propomos desenvolver.
É preciso não perder de vista
que os Espíritos constituem todo um mundo, toda uma população que enche o
espaço, circula ao nosso lado, mistura-se a tudo quanto fazemos. Se o véu que
no-los oculta viesse a ser levantado, nós os veríamos à nossa volta, indo e
vindo, seguindo-nos ou nos evitando, conforme o grau de simpatia; uns
indiferentes, verdadeiros desocupados do mundo oculto, outros muito ocupados,
quer consigo mesmos, quer com os homens aos quais se ligam, com um propósito
mais ou menos louvável, segundo as qualidades que os distinguem. Numa palavra,
veríamos uma cópia perfeita do gênero humano, com suas boas e más qualidades,
com suas virtudes e vícios. Esse envolvimento, ao qual não podemos escapar, já
que não há recantos por demais ocultos que sejam inacessíveis aos Espíritos,
exerce sobre nós e à nossa revelia, uma influência permanente. Uns nos impelem
ao bem, outros ao mal; muitas vezes as nossas determinações resultam de suas
sugestões; felizes daqueles que têm juízo suficiente para discernir o bom ou o
mau caminho por onde nos procuram arrastar. Considerando-se que os Espíritos
nada mais são que os próprios homens despojados de sua indumentária grosseira,
ou almas que sobrevivem aos corpos, segue-se que há Espíritos desde que há
seres humanos no Universo. São uma das potências da Natureza, e não esperam que
haja médiuns escreventes para agir; a prova disso é que, em todos os tempos, os
homens hão cometido inconsequências. Eis por que dizemos que sua influência é
independente da faculdade de escrever; essa faculdade é um meio de conhecer tal
influência, de saber quais são os que nos rodeiam e quais aqueles que se ligam
a nós. Pensar que nos podemos subtrair a essa influência, abstendo-nos de
escrever, é agir como crianças que acreditam escapar a um perigo pelo simples
tapar dos olhos. Ao revelar aqueles que temos por camaradas, como amigos ou
inimigos, por isso mesmo a escrita nos proporciona uma arma para combater estes
últimos, pelo que devemos agradecer a Deus. Na ausência da visão para reconhecer
os Espíritos, temos as comunicações espíritas, por onde eles se revelam tais
quais são; isso é, para nós, um sentido que nos permite julgá-los.
Repeli-lo é comprazer-se em ficar cego e exposto ao engano sem controle.
A ingerência dos Espíritos maus
nas comunicações escritas não constitui, pois, um perigo ao Espiritismo,
porque, se perigo há, continuará havendo e em caráter permanente. Nunca
estaríamos bastante persuadidos desta verdade; trata-se apenas de uma dificuldade,
da qual o Espiritismo triunfará, se a ele nos dedicarmos de maneira
conveniente.
Antes de tudo podemos
estabelecer como princípio que os Espíritos maus não aparecem senão onde alguma
coisa os atrai.
Portanto, quando se intrometem
nas comunicações, é que encontram simpatias no meio onde se apresentam ou, pelo
menos, lados fracos que esperam aproveitar; em todo caso, porque não
encontram uma força moral suficiente
para os repelir. Entre as causas que os atraem, é preciso colocar em primeira
linha as imperfeições morais de qualquer natureza, porque o mal simpatiza
sempre com o mal; em segundo lugar, a excessiva confiança com que são acolhidas
suas palavras. Quando uma comunicação revela uma origem má, seria ilógico
inferir daí uma paridade necessária entre o Espírito e os evocadores. Frequentemente
vemos pessoas muito distintas expostas às patifarias dos Espíritos enganadores,
como ocorre no mundo com as pessoas honestas, enganadas pelos espertalhões; mas
quando tomamos precauções, estes últimos nada têm a fazer; é o que acontece
também com os Espíritos. Quando uma pessoa honesta é enganada por eles, isso
pode decorrer de duas causas: a primeira é uma confiança absoluta, que a leva a
desistir de todo exame; a segunda é que as melhores qualidades não excluem
certos lados fracos que dão guarida aos Espíritos maus, ávidos por se agarrarem
às menores falhas da couraça. Não nos referimos ao orgulho e à ambição, que são
mais do que entraves, mas a uma certa fraqueza de caráter e, sobretudo, aos
preconceitos que esses Espíritos sabem explorar com habilidade, lisonjeando-os;
com vistas a isso, eles usam de todas as máscaras, a fim de inspirar mais
confiança.
As comunicações francamente
grosseiras são as menos perigosas, visto a ninguém poderem enganar. As que mais
enganam são as que têm uma falsa aparência de sabedoria ou de seriedade: numa
palavra, as dos Espíritos hipócritas e pseudossábios. Uns podem enganar-se de
boa-fé, por ignorância ou presunção; os outros não agem senão pela astúcia.
Vejamos, então, qual o meio de nos desembaraçarmos deles.
A primeira coisa é não os atrair
e evitar tudo quanto lhes possa dar acesso.
Como vimos, as disposições
morais são uma causa preponderante. Todavia, abstração feita dessa causa, o
modo empregado não deixa de ter influência. Há pessoas que têm por princípio
jamais fazer evocações e esperar a primeira comunicação espontânea que saia do
lápis do médium. Ora, se nos recordarmos do que já dissemos sobre a variada e
numerosa população dos Espíritos que nos cercam, compreenderemos sem
dificuldade que isso seria colocar-nos à mercê do primeiro que viesse, bom ou
mau.
E como nessa multidão há mais
Espíritos maus do que bons, existe mais oportunidade para os maus, exatamente
como se abríssemos a porta a todos os passantes da rua, ao passo que, pela
evocação, fazemos a escolha; ademais, cercando-nos de Espíritos bons, impomos
silêncio aos maus que, apesar disso, bem poderão procurar insinuar-se algumas
vezes. Os bons chegam mesmo a permiti-lo para exercitar a nossa sagacidade em
reconhecê-los, mas não terão nenhuma influência. As comunicações espontâneas
têm uma grande utilidade quando estamos cientes da qualidade daqueles que nos
cercam. Devemos, então, felicitar-nos pela iniciativa deixada aos Espíritos. O
inconveniente não se encontra senão no sistema absoluto, que consiste em nos
abstermos do apelo direto e das perguntas.
Entre as causas que influem
poderosamente sobre a qualidade dos Espíritos que frequentam as casas
espíritas, não se deve omitir a natureza das coisas que ali são tratadas.
Aquelas que se propõem um fim sério e útil atraem, por isso mesmo, os Espíritos
sérios; as que somente visam satisfazer a vã curiosidade ou seus interesses
pessoais, expõem-se pelo menos a mistificações, quando não a coisas piores. Em
resumo, podemos extrair das comunicações espíritas os mais sublimes e os mais
úteis ensinamentos, desde que os saibamos dirigir. Toda a questão se resume em
não nos deixarmos levar pela astúcia dos Espíritos zombeteiros ou malévolos.
Ora, para isso o essencial é saber com quem tratamos. Inicialmente, ouçamos a
propósito os conselhos que foram dados pelo Espírito São Luís à Sociedade
Parisiense de Estudos Espíritas através do Sr. R..., um de seus bons médiuns.
Trata-se de uma comunicação
espontânea por ele recebida certo dia, em sua casa, com a missão de
transmiti-la à referida Sociedade:
Por maior que seja a legítima confiança que inspira os Espíritos
que presidem aos vossos trabalhos, há uma recomendação que nunca será por
demais repetida e que deveis tê-la sempre presente em vossa mente, quando vos
entregardes aos vossos estudos: pesai e amadurecei; submetei ao controle da
mais severa razão a totalidade das comunicações que receberdes; não hesiteis,
desde que uma resposta vos pareça duvidosa ou obscura, de demandar os
esclarecimentos necessários para fixá-la.
Sabeis que a revelação existiu desde os tempos mais recuados,
sempre apropriada ao grau de adiantamento dos que a recebiam. Hoje não se trata
de vos falar por imagens e parábolas; deveis receber nossos ensinamentos de uma
maneira clara, precisa e sem ambiguidade. Entretanto, seria muito cômodo ter
apenas de questionar para ser esclarecido; aliás, isso seria escapar às leis progressivas
que presidem à evolução universal. Não vos admireis, pois, se, para vos deixar
o mérito da escolha e do trabalho, e também para punir as infrações que possais
cometer aos nossos conselhos, algumas vezes é permitido a certos Espíritos,
mais ignorantes que mal-intencionados, a responder em certos casos às vossas
perguntas. Em vez de ser isso um motivo de desencorajamento, deve ser um
poderoso excitante, para que pesquiseis ardentemente a verdade. Ficai, pois,
bem convictos de que, seguindo este caminho, não podereis deixar de chegar a resultados
felizes. Sede unidos de coração e de intenção; trabalhai todos; procurai,
procurai sempre e encontrareis.
Luís
Por pouco tato, raciocínio ou
hábito de observação que tenhamos, a linguagem dos Espíritos bons e sérios traz
um selo que torna impossível nos enganarmos. Quanto aos Espíritos maus, por mais
que cubram as suas torpezas com o véu da hipocrisia, jamais poderão representar
indefinidamente o seu papel; acabam deixando cair a máscara. De outro modo, se
sua linguagem fosse impoluta, seriam Espíritos bons. A linguagem dos Espíritos
é, pois, o verdadeiro critério pelo qual podemos julgá-los. Sendo a linguagem a
expressão do pensamento, tem sempre um reflexo das boas ou más qualidades do
indivíduo. Não é também pela linguagem que julgamos os homens que não
conhecemos? Se recebermos vinte cartas de vinte pessoas que jamais vimos, não
nos deixaremos impressionar de modo diverso pela sua leitura? Não será pelas qualidades
do estilo, pela escolha das expressões, pela natureza dos pensamentos, e até
por certos detalhes de forma, que reconheceremos, naquele que nos escreve, o
homem rústico e o bem-educado, o sábio e o ignorante, o orgulhoso e o modesto?
Dá-se absolutamente a mesma
coisa com os Espíritos.
Suponhamos que sejam homens que
nos escrevem: devemos julgá-los da mesma maneira. Julguemo-los severamente, porquanto
os Espíritos bons de modo algum se sentirão ofendidos com essa escrupulosa
investigação, porque são eles próprios que no-la recomendam como meio de
controle. Sabendo que podemos ser enganados, nosso primeiro sentimento deve ser
o de desconfiança. Somente os Espíritos maus, que procuram nos induzir em erro,
podem temer o exame, porque, longe de o provocar, querem ser acreditados sob
palavra.
Desse princípio resulta muito
naturalmente e com bastante lógica o meio mais eficaz de afastar os Espíritos
maus e de nos premunirmos contra as suas falsidades. O homem que não é ouvido
deixa de falar; aquele que vê os seus estratagemas constantemente descobertos
vai causar aborrecimentos em outros lugares; o espertalhão, ciente de que nos
mantemos em estado de alerta, não faz tentativas inúteis. Do mesmo modo, os
Espíritos enganadores deixam a partida quando percebem que nada podem fazer, ou
quando encontram pessoas vigilantes que desprezam tudo quanto lhes pareça
suspeito.
Para terminar, resta passar em
revista os principais caracteres que revelam a origem das comunicações
espíritas.
1.
Os Espíritos superiores, como já dissemos em
várias ocasiões, têm uma linguagem sempre digna, nobre, elevada, sem qualquer
mistura de trivialidade. Dizem tudo com simplicidade e modéstia, jamais se
vangloriam e não fazem ostentação de seu saber nem de sua posição entre os
demais. A dos Espíritos inferiores ou vulgares tem sempre algum reflexo das
paixões humanas; toda expressão que denota baixeza, suficiência, arrogância,
bazófia ou acrimônia é indício característico de inferioridade e de embuste,
caso o Espírito se apresente com um nome respeitável e venerado.
2.
Os Espíritos bons não dizem senão o que sabem; calam-se
ou confessam a sua ignorância sobre aquilo que não sabem. Os maus falam de tudo
com segurança, sem se incomodarem com a verdade. Toda heresia científica
notória, todo princípio que choca a razão e o bom-senso denuncia fraude, desde que
o Espírito se apresente como um ser esclarecido.
3.
A linguagem dos Espíritos elevados é sempre idêntica,
se não quanto à forma, pelo menos quanto ao fundo. Os pensamentos são os
mesmos, quaisquer que sejam o tempo e o lugar. Podem ser mais ou menos
desenvolvidos, conforme as circunstâncias, as necessidades e as facilidades de
se comunicarem, mas não são contraditórios. Se duas comunicações, que trazem a mesma
assinatura, encontram-se em oposição, uma delas será evidentemente apócrifa, e
a verdadeira será aquela onde nada desminta o caráter conhecido do personagem.
Quando uma comunicação apresenta o caráter de sublimidade e de elevação, sem
nenhum defeito, é porque emana de um Espírito superior, seja qual for o seu
nome; se encerrar uma mistura de bom e de mau, procede de um Espírito vulgar,
caso se apresente como é; será de um Espírito impostor se ele se ornar de um
nome que não pode justificar.
4.
Os Espíritos bons jamais dão ordens; não impõem:
aconselham e, se não são ouvidos, retiram-se. Os maus são imperiosos: ordenam e
querem ser obedecidos. Todo Espírito que impõe trai a sua origem.
5.
Os Espíritos bons não adulam. Aprovam quando se faz
o bem, mas sempre com reservas; os maus são pródigos em elogios exagerados,
estimulam o orgulho e a vaidade, mesmo pregando a humildade, e procuram exaltar
a importância pessoal daqueles a quem desejam apanhar.
6.
Os Espíritos superiores estão acima das
puerilidades formais em todas as coisas; para eles o pensamento é tudo,
a forma nada vale. Somente os Espíritos vulgares podem ligar importância a
certos detalhes incompatíveis com as ideias verdadeiramente elevadas. Toda
prescrição meticulosa é sinal certo de inferioridade e de embuste da parte
de um Espírito que toma um nome imponente.
7.
É preciso desconfiar dos nomes estranhos e
ridículos tomados por certos Espíritos que se querem impor à credulidade; seria
supremo absurdo levar esses nomes a sério.
8.
Deve-se igualmente desconfiar daqueles que muito
facilmente se apresentam com nomes extremamente venerados, e não aceitar suas
palavras senão com a maior reserva. É sobretudo nesses casos que se torna
necessário um severo controle, porquanto muitas vezes é uma máscara que
utilizam para nos fazer crer em supostas relações íntimas com os Espíritos de
elevada hierarquia. Por esse meio lisonjeiam a vaidade, aproveitando frequentemente
para induzir a atitudes lamentáveis ou ridículas.
9.
Os Espíritos bons são muito escrupulosos sobre
as providências que podem aconselhar; em todos os casos estas têm sempre um
objetivo sério e eminentemente útil. Deve-se, pois, olhar como suspeitas todas
as que não tiverem esse caráter, refletindo maduramente antes de adotá-las.
10.
Os Espíritos bons só prescrevem o bem. Toda máxima,
todo conselho que não estiver estritamente conforme a pura caridade
evangélica não pode ser obra de Espíritos bons; acontece o mesmo com toda
insinuação malévola, tendente a excitar ou a alimentar sentimentos de ódio, de
ciúme e de egoísmo.
11.
Os Espíritos bons jamais aconselham coisas que não
sejam perfeitamente racionais. Toda recomendação que se afaste da linha reta
do bom-senso ou das leis imutáveis da Natureza denuncia um Espírito
limitado e ainda sob a influência dos preconceitos terrestres; consequentemente,
pouco digno de confiança.
12.
Os Espíritos maus, ou simplesmente imperfeitos, ainda
se traem por sinais materiais com os quais não nos poderíamos enganar. Sua ação
sobre o médium por vezes é violenta, provocando na sua escrita movimentos
bruscos e irregulares, uma agitação febril e convulsiva, que contrasta com a calma
e a suavidade dos Espíritos bons.
13.
Um outro sinal de sua presença é a obsessão. Os Espíritos
bons jamais obsidiam. Os maus se impõem em todos os momentos, razão por que
todo médium deve desconfiar da necessidade irresistível de escrever que dele se
apodera nas ocasiões menos oportunas. Jamais se trata de um Espírito bom, e ele
nunca deve ceder.
Entre os Espíritos inferiores
que se intrometem nas comunicações, há os que, por assim dizer, se insinuam furtivamente,
como para fazer uma brincadeira, mas que se retiram tão facilmente como vieram,
e isto na primeira intimação; outros, ao contrário, são tenazes, agarram-se ao
indivíduo e não cedem senão a contragosto e com persistência. Apoderam-se dele,
subjugam-no e o fascinam a ponto de fazê-lo tomar os mais grosseiros absurdos
por coisas admiráveis. Feliz dele quando criaturas de sangue-frio conseguem
abrir-lhe os olhos, o que nem sempre é fácil, já que tais Espíritos são mestres
em inspirar a desconfiança e o afastamento de quem quer que os possa desmascarar.
Daí se segue que devemos ter por suspeito de inferioridade ou de má intenção
todo Espírito que prescreve o isolamento e o afastamento das pessoas que podem
dar bons conselhos. O amor-próprio vem em seu auxílio, porque nos é penoso
confessar que fomos vítimas de uma mistificação e reconhecer um velhaco naquele
sob cujo patrocínio nos sentíamos honrados em nos colocar. Essa ação do
Espírito é independente da faculdade de escrever. À falta da escrita, o
Espírito malévolo dispõe de cem maneiras diferentes de agir e ludibriar. Para
ele a escrita é um meio de persuasão, mas não é uma causa; para o médium, é um meio
de esclarecer-se.
Passando todas as comunicações
escritas pelo controle das considerações precedentes, reconheceremos facilmente
a sua origem e poderemos frustrar a malícia dos Espíritos enganadores, que só
se dirigem àqueles que se deixam enganar voluntariamente.
Se perceberem que nos dobramos
ante as suas palavras, disso tirarão partido, exatamente como fariam os simples
mortais.
Compete, pois, a nós provar-lhes
que perdem o tempo. Acrescentemos que, para isso, a prece é poderoso auxílio;
por ela atraímos a assistência de Deus e dos Espíritos bons, aumentando nossa própria
força. É conhecido o preceito: “Ajuda-te, e o céu te ajudará.” Por certo Deus
quer assistir-nos, contanto que, de nosso lado, façamos aquilo que é
necessário.
A esse preceito acrescentamos um
exemplo. Um senhor que eu não conhecia veio ver-me certo dia, dizendo que era médium
e recebia comunicações de um Espírito muito elevado, que o havia
encarregado de vir a mim, fazer-me uma revelação a respeito de uma trama que,
segundo ele, era urdida contra mim, por parte de inimigos secretos que
designou. “Quereis – acrescentou – que eu escreva em vossa presença?” – “Com
prazer – respondi – mas de início devo dizer-vos que esses inimigos são menos temerosos
do que supondes. Sei que os tenho; quem não os tem?
E os mais obstinados em geral
são aqueles a quem mais beneficiamos. Tenho consciência de jamais ter feito
voluntariamente mal a quem quer que seja. O mesmo não poderão dizer aqueles que
me fizeram mal e, entre nós, Deus será juiz. Vejamos, no entanto, o conselho
que vosso Espírito quer dar-me.” Então esse senhor escreveu o seguinte:
Ordenei a C... (nome daquele senhor), que é o farol de luz
dos Espíritos bons, dos quais recebeu a missão de a espalhar entre seus irmãos,
que se dirigisse à casa do Sr. Allan Kardec, o qual deverá crer cegamente no
que eu lhe disser, porque pertenço ao número dos eleitos prepostos por Deus
para velar a salvação dos homens, e porque lhe venho anunciar a verdade...
É bastante – disse-lhe eu – não
se dê ao trabalho de continuar. Este exórdio é suficiente para mostrar com que
espécie de Espírito estais tratando. Acrescentarei apenas uma palavra: para um
Espírito que pretende ser astucioso, ele é bem desajeitado.
Esse senhor pareceu bastante
escandalizado do pouco caso que eu fazia de seu Espírito, que havia tomado por
algum arcanjo ou, pelo menos, por algum santo de primeira classe, vindo expressamente
para ele. Disse-lhe eu: Esse Espírito se trai em cada uma das palavras que
acaba de escrever e, convenhamos, esconde muito mal o seu jogo. Primeiro ele
ordena; quer, portanto, manter-vos sob sua dependência, o que é característico
dos Espíritos obsessores; ele vos chama de farol de luz dos Espíritos bons,
linguagem sofrivelmente enfática e incompreensível, muito distante da
simplicidade que caracteriza a dos Espíritos bons; por ela lisonjeia o vosso
orgulho e vos exalta a importância, o que é suficiente para torná-lo suspeito.
Coloca-se sem a menor cerimônia no rol dos eleitos prepostos de Deus: jactância
indigna de um Espírito verdadeiramente superior. Por fim me diz que devo crer cegamente;
isso coroa a obra. É bem o estilo desses Espíritos mentirosos, que querem que
neles acreditemos sob palavra, pois sabem que num exame sério têm tudo a
perder. Com um pouco mais de perspicácia saberia que não me deixo convencer por
belas palavras, nem teria sido tão inábil a ponto de prescrever-me uma confiança
cega. Daí concluo que sois joguete de um Espírito mistificador que abusa da
vossa boa-fé. Exorto-vos seriamente a prestar muita atenção a isso, porque, se
não vos acautelardes, podereis ser vítima de um golpe lamentável de sua parte.
Não sei se aquele senhor
aproveitou a advertência, pois não mais o vi, nem ao seu Espírito. Eu jamais
terminaria se fosse narrar todas as comunicações desse gênero a mim submetidas,
por vezes muito seriamente, como emanando dos maiores santos, da Virgem Maria e
do próprio Cristo, e seria realmente curioso ver as torpezas debitadas à conta
desses nomes venerados. É preciso ser cego para se deixar enganar quanto à sua
origem, quando, muitas vezes, uma única palavra equívoca, um só pensamento contraditório
é suficiente para fazer descobrir o embuste a quem se der ao trabalho de
refletir. Como exemplos notáveis em seu apoio, concitamos nossos leitores a se
reportarem aos artigos publicados na Revista Espírita referentes aos
meses de julho e outubro de 1858.


