segunda-feira, 15 de junho de 2026

EUGÈNE BONNEMÈRE[1]

 

Imagem gerada pelo Chat GPT

Bernard Desmars[2]

 

Nascido 20 ou 21 de fevereiro de 1813, em Saumur (Maine-et-Loire), morreu 01 novembro de 1893, em Louerre (Maine-et-Loire).

Neto de um deputado da assembleia legislativa de Maine-et-Loire, filho de um conselheiro geral e prefeito de Saumur, Eugène Bonnemère iniciou seus estudos no Colégio de Saumur, seguindo para o Liceu Henri IV, em Paris. Ingressou na Escola Central, em 1831, mas uma doença grave interrompeu seus estudos.

Depois, ele fez direito e tornou-se advogado. No entanto, não exerceu esta profissão porque, muito rapidamente, dedicou-se à literatura e ao teatro.

Em 1841, interpretou uma comédia, As Pimeiras Charretes, e a espetacular Micromegas. Em 1843, mudou-se para Angers, onde trabalhou no Precursor do Ocidente, liderado por seu amigo Edmond Adam. Em 1844, foi admitido na Sociedade Industrial de Angers, uma sociedade intelectual local onde seu pai já possuía cadeira.

Ele continua a escrever peças e também a representar no cenário local uma comédia, uma revista e uma ópera cômica. Desde essa época, interessava-se particularmente pela situação do campo. Em 1846, a Sociedade Acadêmica de Nantes e da Loire-Inférieur investem na seguinte questão:

Causas que geram o movimento das populações agrícolas para os principais centros de produção e formas remediá-lo.

O memorial Bonnemère é premiado, publicado em 1847 sob o título “Os Camponeses no Século XIX”. O autor propõe como solução ao êxodo rural o ensino agrícola, a associação e a organização do trabalho, mas bastante vago e sem referência explícita a Fourier.

Ele critica o comportamento de alguns proprietários em relação a seus agricultores e arrendatários, provocando fortes reações dentro da Sociedade Industrial de Angers, o que leva Bonnemère a deixar a associação na qual havia sido vice-secretário. Regressando a Paris em 1848, ele continuou sua obra literária e também de publicista, com, além de peças de teatro e romances, obras de história que concerniam frequentemente ao mundo rural e às revoltas camponesas.

Também se interessou pelas associações agrícolas e recebeu um prêmio da Academia de Ciências, Letras e Artes de Besançon pelo memorial sobre “A Fragmentação Agrícola e a Associação”; contribuiu com vários jornais (O Século) e revistas (A Revista Moderna), publicada em 1857-1858 por alguns membros da Escola Societária; O Amigo das Ciências, fundada pelo fourierista Arsène Meunier; O Jornal da Agricultura Prática, por um dado momento dirigido por Jean-Augustin Barral, também discípulo de Fourier). Bonnemère participou da reconstrução do movimento falansteriano na década de 1860, em torno de Barrier.

Ele assista aos banquetes que reuniam os discípulos de Fourier, cada 7 de abril, a partir de 1865. Acionista da União do Sig, ele fazia parte do conselho de administração da sociedade, mas renunciou em 1869 devido a seu distanciamento de Paris.

Em 1872, fez parte do “Comitê de Execução”, responsável pela execução das decisões do Congresso falansteriano a fim de reorganizar a Escola Societária. Colaborou com o novo órgão fourierista, o Boletim do Movimento Social, para o qual escreveu notadamente uma série de artigos sobre a “Deserção dos Campos”, de 1873 a 1875.

Com alguns outros fourieristas, debateu sobre a próxima realização da associação agrícola. Continuou a frequentar as reuniões gerais de acionistas do Sig (é novamente eleito administrador, em 1880, mas abandona a função no ano seguinte), assim como os banquetes de 7 de abril.

Durante a década de 1870, engajou-se claramente no campo republicano, esforçando-se em difundir a ideia republicana nos campos: foi um dos dirigentes da Sociedade de Instrução Republicana, para a qual escreveu vários cadernos (Os agricultores antes de 1789; Os camponeses depois de 1789; O Mestre-escola) sempre colaborando com seu órgão, O Patriota. Também publicou alguns textos na “Biblioteca democrática” de Victor Poupin; aderiu à Liga de Ensino, em 1877, e fez parte do comitê do círculo parisiense da Liga, onde atuou até sua morte. Além disso, foi membro dos Amigos da Paz.

 

Obras Publicadas

§  Paysans au dix-neuvième siècle, Nantes, Vve C. Mellinet, 1845;

§  Histoire de l’association agricole, Paris, Dusacq, 1849;

§  Histoire des Paysans, Paris, F. Chamerot, 1856;

§  La Vendée en 1793, Paris, [S.n.], 1866;

§  Le Roman de l’avenir, Paris, A. Lacroix, 1867;

§  La France sous Louis XIV, Paris, A. Lacroix Verboeckhoven & Cie, 1864-1865;

§  Louis Hubert, curé vendéen, Paris, A. Lacroix Verboeckhoven & Cie, 1868;

§  Histoire des Camisards, Paris, Décembre-Alonnier, 1869;

§  Études historiques saumuroises, Saumur, Roland, 1868;

§  Les Paysans avant 1789, Paris, Le Chevalier, 1872;

§  Histoire de la Jacquerie, Paris, Bellaire, 1873;

§  Histoire populaire de la France, 3 vols., Paris, Bellaire, 1874-79;

§  L’Âme et ses manifestations à travers l’histoire, Paris, Dentu, 1881;

§  Histoire de quatre paysans, Paris, Librairie centrale des publications populaires, 1881;

§  La Prise de la Bastille, Paris, H.-E. Martin, 1881;

§  Les Guerres de la Vendée, Paris, Librairie d’éducation de la jeunesse, 1884;

§  Hier et aujourd’hui, Paris, Librairie centrale des publications populaires, 1886;

§  Histoire des guerres de religion, xvie siècle, Paris, Librairie Centrale des Publications Populaires, 1886.

 

 

No Campo do Espiritismo

 

Eugène Bonnemère como contemporâneo de Allan Kardec participou ativamente do Movimento Espírita de sua época com muitos artigos e de obras que foram publicadas nas Revistas Espíritas dirigida por Allan Kardec…

Em 1867, publicou “O romance do amanhã”, obra que foi escrita “por um médium inconsciente”, filósofo e romancista e que delegou [a Bonnemère] apenas o cuidado de dar a ela uma forma mais literária.

Bonnemère argumenta, relativamente à origem mediúnica do livro:

Se um indivíduo que jamais abriu um livro de Medicina prescreve, sem ter consciência disso, remédios que podem curar, em muitos casos, a maioria dos males hoje declarados incuráveis, parece-me incontestável que tais coisas lhe são reveladas por uma força desconhecida e misteriosa. Em presença de semelhante fato, a questão me parece resolvida.

Deve-se aceitar como demonstrado que existem sensitivos aos quais é concedido servir de intermediários aos amigos desaparecidos que, não mais tendo órgãos ao serviço de sua vontade, vêm utilizar a voz ou a mão desses seres privilegiados, quando querem curar o nosso corpo, ou fortalecer a nossa alma, esclarecendo-a sobre coisas que lhes é permitido nos dar a conhecer.

Pouco importa que riam de mim durante alguns dias; mas importa muito que esses segredos, que o acaso me fez depositário, não morram comigo, se contiverem algo de sério, e que se saiba que existem relações possíveis entre as inteligências superiores do outro lado da vida e as inteligências dóceis do lado de cá. Creio que seria muito importante para nós travarmos relações cada vez mais seguidas com esses mortos de boa vontade que parecem dispostos a nos prestar semelhantes serviços.

Um único reparo é feito por Allan Kardec à carta do sr. Bonnemère: quando ele se felicita pelo acaso que lhe pôs em mãos os documentos fornecidos pelo médium bretão. O Espiritismo não admite o acaso nem o sobrenatural nos acontecimentos da vida. Foi, pois, intencionalmente que aqueles documentos lhe haviam chegado, porque nas mãos do jovem bretão teriam, com certeza, ficado perdidos. Era preciso que alguém se encarregasse de os tirar da obscuridade. Ao sr. Bonnemère, sugere o Codificador, coube essa missão.

Eugène Bonnemère publica ainda mais um trecho de uma obra que foi comentado por Allan Kardec intitulado “História dos Calvinistas das Cevenas”, que relata como foi a guerra empreendida sob o reinado de Luís XIV contra os calvinistas, um dos mais tristes episódios da História da França.

            Na obra há referências aos inumeráveis casos de sonambulismo, êxtase, dupla vista, previsões e fenômenos semelhantes que se produziram durante todo o curso dessa infeliz cruzada e que sustentaram a coragem dos calvinistas.

Os fenômenos referidos pelo sr. Bonnemère não buscavam, para se produzir, nem a sombra nem o mistério, e manifestavam-se ante os intendentes, os generais e os bispos, como ante os ignorantes e as pessoas mais simples. Em setembro de 1704, segundo Villars e Chamillard, as mulheres de uma cidade inteira pareciam possuídas do “diabo”. É que elas tremiam e profetizavam publicamente nas ruas, fato tido então como sobrenatural.

Allan Kardec que esteve à frente da Revista Espírita durante 10 anos interruptos foi um balão de ensaio de comprovações de verdades imortais do espírito humano.

Finalizando sua análise, Allan Kardec lembra que o objetivo providencial da manifestação dos Espíritos é atestar a sua existência, provar ao homem que nem tudo acaba para ele com a vida corporal e instruí-lo sobre sua condição futura.

 

Irmãos W. e Jorge Hessen



[1] GRUPO DE ESTUDOS AVANÇADOS ESPÍRITAS - https://geae1992.com.br/eugene-bonnemere/

[2] Tradutora da Biografia Fabiana Rangel

sexta-feira, 12 de junho de 2026

RECADO DE UM DEFICIENTE VISUAL[1],[2]

 


 

Eu perdi um pouco de minha visão aos quatro anos. Bastante visão aos dezesseis e, praticamente tudo, do pouco que me restava, uns três anos depois.

Tive momentos difíceis na hora de estudar, na hora de querer namorar, na hora de querer dançar em uma festa.

Não é fácil se adaptar ao mundo quando não se enxerga, mas é importante entender que poucas coisas realmente valiosas são fáceis.

Rapidamente, percebi que tinha só duas opções. Eu podia ficar fechado em casa, chorando, porque era uma vítima. Ou podia sair e viver a vida.

Foi fácil entender isso intelectualmente. Emocionalmente, demorei um pouco para aceitar esta simples lógica.

Eu queria trabalhar, ter responsabilidade, ser produtivo, ser amado, casar, ser independente. Nada disso me seria garantido se eu arriscasse e fosse à luta.

Mas, se eu ficasse me sentindo uma vítima, era certo que nunca teria nada do que queria. A decisão era fácil, embora a luta não fosse.

Acredito que algo que sempre incomoda quando se está enfrentando um desafio, como a cegueira, é que acreditamos que tudo isso é injusto. Por que eu? Por que eu estou ficando cego?

Com certeza, outras pessoas se perguntam outras coisas como: Por que eu tenho câncer? Por que não tenho dinheiro? Por que não sou o homem mais bonito ou popular?

O interessante é que sempre achamos que o nosso problema é o mais sério.

O certo é que não damos valor a nada do que temos. Então, sempre parece que não temos nada. Só damos valor a coisas que perdemos.

Quando estava fazendo mestrado em Washington, triste por algum motivo, nem sei se era porque, como cego, estava tendo dificuldades ou se meu computador estava com problemas, escutei, através do rádio, as notícias de um professor universitário na Califórnia que era quadriplégico.

Ele precisava pegar um lápis com sua boca e escrever no seu computador, apertando uma tecla de cada vez.

Imagine: eu me sentindo a maior vítima. No entanto, eu podia andar por todo o campus, sem ajuda de ninguém, podia escrever mais rápido à máquina do que qualquer pessoa na minha sala.

Aquele professor me ajudou a valorizar muitas coisas que eu não estava dando importância. Perguntei-me: O que é justo? O que é injusto?

É justo eu ter pernas quando não as utilizo para ganhar medalhas nas Olimpíadas? Ou não as uso para ajudar o próximo e nem sequer as valorizo?

É justo eu ter um cérebro e não utilizá-lo ao máximo? É justo eu ter braços fortes e não usá-los para abraçar, demonstrar meu amor a quem, todos os dias, me dá tanto?

É justo eu ter uma vida e não me lembrar de agradecer, todos os dias, aos meus pais por me terem permitido nascer?

É justo eu ter uma esposa, um curso universitário, um coração que pulsa, rins que funcionam, pulmões fortes, mãos rijas, e não me recordar de dizer ao meu criador: Obrigado, Deus, por me teres criado?

 

A carta que acabamos de ler é de um jovem brasileiro, que trabalha em Nova Iorque. Sua filosofia pessoal, com certeza, não alentará somente aqueles que estão enfrentando cegueira física, mas também a todos aqueles de nós que portamos a cegueira espiritual, que não nos permite enxergar as bênçãos de que somos portadores.

Pensemos nisso e mudemos o foco das nossas vidas de lutas, dissabores e dificuldades para vidas de oportunidades, testes e aprendizado.



[2] Redação do Momento Espírita, a partir de carta de Fernando Botelho, endereçada a um jovem cego de nome Juliano, residente em Curitiba, Estado do Paraná (7.3.2014).

quinta-feira, 11 de junho de 2026

MUNDOS HABITADOS[1]

 


Miramez

 

Pluralidade dos mundos

São habitados todos os globos que se movem no espaço?

Sim e o homem terreno está longe de ser, como supõe, o primeiro em inteligência, em bondade e em perfeição. Entretanto, há homens que se têm por espíritos muito fortes e que imaginam pertencer a este pequenino globo o privilégio de conter seres racionais. Orgulho e vaidade! Julgam que só para eles criou Deus o Universo.

Deus povoou de seres vivos os mundos, concorrendo todos esses seres para o objetivo final da Providência. Acreditar que só os haja no planeta que habitamos fora duvidar da sabedoria de Deus, que não fez coisa alguma inútil. Certo, a esses mundos há de ele ter dado uma destinação mais séria do que a de nos recrearem a vista. Aliás, nada há, nem na posição, nem no volume, nem na constituição física da Terra, que possa induzir à suposição de que ela goze do privilégio de ser habitada, com exclusão de tantos milhares de milhões de mundos semelhantes. (Allan Kardec)

Questão 55 / O Livro dos Espíritos

 

Dependendo da forma de vida sobre a qual queiramos saber, ela existe em todo lugar! Tudo que saiu das mãos do Criador esplende vida; no entanto, em se tratando de vida física, com pelo menos as aparências da que existe na Terra, a resposta toma outras direções.

Se alguém que não conhecesse a Terra tivesse uma visão de todas as casas nela construídas, e perguntasse se todas elas são habitadas por seres humanos, o que responderíamos? "Certamente, que nem todas. Muitas delas estão desabitadas; outras foram feitas com determinados objetivos que não o de moradia; outras serão destruídas por já terem cumprido suas missões"... e, assim, sucessivamente. O mesmo se dá com os mundos que circulam no universo de Deus. Nem todos são habitados, por seres humanos, por formas visíveis. A lógica nos leva a essa realidade, constatada durante nosso aprendizado, nas oportunidades de visitar alguns mundos desabitados, estudando a missão dos mesmos em outros rumos da harmonia divina, quando tivemos a ventura de constatar mundos habitados por seres com aparência idêntica à dos companheiros da Terra, uns mais adiantados, outros mais atrasados. É bom que salientemos que não existe algo inútil no seio da criação, pois, se Deus é a Inteligência Suprema, como iria fazer coisas sem proveito? Isso não cabe na mente do homem dotado de raciocínio e dominado pelo saber.

Cabe-nos dizer que o homem deste século se encontra ansioso para conhecer outros mundos, e o prêmio dos esforços consecutivos será as próprias descobertas. Entrementes, é preciso que os cientistas materiais descubram-se e ensinem aos seus irmãos a se descobrirem. Cada Espírito é um universo em miniatura e as leis de fora são as mesmas de dentro das almas. Basta sejam estudadas e respeitadas, para que a luz se faça nos caminhos das criaturas. O que existe fora, existe dentro; o que está no alto está no baixo. O empenho na Terra é o de educar os outros, o que muito louvamos, mas necessário se faz que nos eduquemos em primeiro lugar.

Quando estamos viajando, temos de aprender primeiro os caminhos do lugar objetivado; e os caminhos para a grande viagem dos conhecimentos exteriores começa por dentro do coração. Muitos insistem, perguntam e estudam, as prováveis vindas de seres superiores à Terra, por veículos siderais, e mesmo nos perguntam se são prováveis essas visitas. Respondemos que sim, com toda a certeza. No entanto, é necessário o preparo, e o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo é a melhor cartilha para tal empreendimento. Podes trocar experiências com irmãos de outros mundos, essa é a lei, mas, é bom te conscientizares do que deves fazer dessas experiências assimiladas dos companheiros de pátrias mais elevadas que a tua. E quando alcançares igualmente outros mundos, que estejas preparado para levar a mensagem da fraternidade nas linhas do amor. Essa é a cooperação de uns para com os outros, no serviço do bem imortal.

Deus está vendo tudo o que se passa em todas as Suas casas, por intermédio dos Seus agentes, que moram em todos os mundos, e através das leis que palpitam em toda a criação.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 2 – João Nunes Maia

quarta-feira, 10 de junho de 2026

APARIÇÕES RECÍPROCAS[1]

 


James G. Matlock

 

Aparições recíprocas estão entre os relatos mais intrigantes porque ambos os lados da experiência são representados: o perceptor afirma ter visto uma aparição enquanto o agente relata uma experiência correspondente. Tais casos têm relação diretamente com debates sobre telepatia, experiência fora do corpo e a possível exteriorização da consciência.

§  A divisão interpretativa central é entre a transmissão telepática de imagens e a ideia de que a consciência pode operar além do corpo.

§  Casos de aparição recíproca incluem depoimentos tanto de perceptivos quanto de agentes, conferindo-lhes uma estrutura de evidência mais forte do que relatos unilaterais de aparição.

§  Eles ocorrem em diversas condições, incluindo a vida acordada comum, estados fora do corpo e crises de quase-morte.

 

Natureza das Aparições Recíprocas

O termo pparition (aparição) é usado em pesquisas psi para o que popularmente são chamados de fantasmas. Aparições diferem das alucinações porque representam pessoas reais; muitos são verídicos de alguma forma. Normalmente, são apresentações visuais vistas sob boa luz e confundidas com a pessoa que representam, embora possam ser imagens parciais dele ou dela, e podem ser estritamente auditivas, táteis, olfativas ou (pelo menos em princípio) gustativas, em vez de, ou além delas, visuais. Aparições podem aparecer em sonhos, assim como em visões acordadas.

Aparição recíproca é o termo usado para uma aparição para a qual há (geralmente) um relatório correspondente da pessoa percebida, o agente presumido. Aparições recíprocas são comumente conectadas a experiências fora do corpo e experiência de quase-morte: o agente sente que sua consciência deixou o corpo e viajou para um local distante onde sua aparição é vista ou ouvida. Algumas aparições recíprocas resultam de esforços intencionais para projetar a consciência para o lugar distante. Aparições recíprocas podem ter agentes falecidos e foram relatadas em memórias do intervalo, onde um sujeito de caso de reencarnação lembra ter estado onde sua aparição é percebida.

Várias aparições recíprocas foram descritas no clássico Phantasms of the Living, publicado em 1886[2]. Outras foram coletadas em um estudo de acompanhamento por Eleanor Sidgwick em 1922[3]. Hornell e E.B. Hart analisaram uma série de aparições recíprocas uma década depois[4]. Exemplos mais recentes são apresentados por Titus Rivas e colegas e por Tricia Robertson[5]. A Aparição Wilmot,  tratado em uma entrada separada da Psi-Encyclopedia, é uma aparição recíproca bem conhecida. O caso de Maung Yin Maung (veja abaixo) relatado por Ian Stevenson inclui uma aparição recíproca relacionada a uma memória de intervalo.

 

Exemplos de aparições recíprocas

Connie e Margaret

Este caso recíproco de Phantasms of the Living apresenta uma aparição auditiva coletiva. Connie e Margaret, boas amigas de treze e quatorze anos, corriam por um caminho próximo a uma cerca viva quando ambas ouviram distintamente seus nomes serem chamados, duas vezes seguidas, assim: 'Connie, Margaret – Connie, Margaret'. Eles não viram ninguém no pomar ao lado, então foram até a casa, presumindo que um dos irmãos de Margaret os havia chamado de lá. No entanto, a mãe de Margaret garantiu que ninguém os havia chamado e eles então presumiram que deviam ter alucinado seus nomes.

Enquanto isso, o irmão de Connie, Ted, estava na cama em sua casa, febril e delirante. Quando a mãe de Margaret foi no dia seguinte perguntar por ele, foi informada de que, em seu delírio, ele de repente se sentou, apontou animado e declarou que viu Connie e Margaret correndo pela cerca viva da casa de Margaret. Ele chamou seus nomes, mas eles não lhe deram atenção. A mãe de Margaret perguntou em que horas isso aconteceu. Aconteceu que já passava do meio-dia, ao mesmo tempo em que Connie e Margaret tinham ido à casa, dizendo que tinham ouvido seus nomes serem chamados[6].

 

Sra. Smith

Esse caso também foi incluído em Phantasms of the Living. O agente era uma estudante de um grande internato que se retirou para se casar com o antigo diretor da escola, o Sr. Smith. Eles se mudaram e, por insistência do marido, ela cortou todo contato com os colegas de escola. Seis meses após o casamento, ela acordou de um sonho em que parecia estar de volta ao dormitório da escola com quatro meninas, duas das quais eram desconhecidas para ela. Uma das meninas desligou o gás e elas se recolheram para a noite. Ela seguiu duas até o quarto delas e as observou se preparando para dormir. Então ela foi até uma, pegou sua mão e disse: 'Bessie, vamos ser amigas'. Ao acordar do sonho, a Sra. Smith imediatamente confidenciou ao marido, que estava lendo ao seu lado na cama.

Três meses depois, a Sra. Smith visitou sua mãe e descobriu que havia recebido uma carta de Bessie, que estava escrevendo para perguntar se a Sra. Smith estava viva ou morta. Sua mãe não encaminhou a carta sem abrir, pois foi avisada de que não haveria comunicação entre a Sra. Smith e seus amigos da escola. O Sr. Smith posteriormente procurou e entrevistou Bessie, sem revelar o sonho, e soube que, aparentemente na mesma noite, Bessie havia ido dormir quando de repente gritou que tinha acabado de ver a Sra. Smith, que a tocou e disse 'Vamos ser amigas.' O Sr. Smith também soube que as outras duas meninas na suíte do dormitório eram recém-chegadas e não teriam sido conhecidas pela Sra. Smith quando ela estava na escola[7].

 

Sr. L

Este é outro caso recíproco de Phantasms of the Living, com o agente em estado de vigília quando sua aparição foi percebida. O marido inválido de Augusta Parker estava sendo tratado com passagens magnéticas nas costas e pernas pelo Sr. L, um hipnotista americano visitante. Numa tarde, o marido de Augusta pediu para ficar mais tempo do que o normal no jardim, em sua cadeira de rodas. Após o almoço, pouco depois das 14h, Augusta o observava de uma janela da casa quando viu um homem estranhamente vestido se aproximar e parecer falar com ele. Quando o marido dela chegou pouco tempo depois, ela perguntou quem era o homem, mas ele não sabia do que ela estava falando. Ninguém se aproximou ou falou com ele, afirmou.

Na visita seguinte do Sr. L, dois dias depois, ele se ofereceu para dizer que havia experimentado duas vezes uma sensação estranha, enquanto estava em outro lugar, de estar perto do marido de Augusta, uma vez na sala de estar deles e outra no jardim. Augusta percebeu que ele estava vestido da mesma forma que a figura que ela havia percebido com o marido. Ela perguntou quando isso aconteceu pela última vez e o Sr. L disse que foi dois dias antes. Ele tinha acabado de comer e estava sentado diante da lareira lendo um jornal, quando de repente parecia que estava em frente ao marido dela em sua cadeira de rodas no jardim. Ela lembrou perfeitamente do horário: era pouco depois das 14h. Augusta depois perguntou ao marido se ele havia contado ao Sr. L sobre sua visão, mas ele garantiu que não[8].

 

Olga Gearhardt

Em um caso recíproco mais recente, Olga Gearhardt quase morreu quando um transplante cardíaco deixou de funcionar corretamente. Durante várias horas de ressuscitação, ela teve o que acreditava ser um 'sonho estranho' no qual sentiu sua consciência sair do corpo. Por alguns minutos, ela observou médicos operando-a, depois foi para a sala de espera onde viu membros de sua grande família aguardando. Frustrada pela incapacidade de se comunicar com eles, ela deixou o hospital e viajou até a casa do único familiar que não estava lá – um genro que tinha um medo extremo de hospitais.

O genro acordou por volta das 2h15 da manhã e viu Olga parada aos pés de sua cama. Achando que, por algum motivo, a cirurgia dela havia sido adiada e ela tinha ido à casa dele, ele se sentou e perguntou como ela estava. 'Estou bem', ela respondeu. 'Eu vou ficar bem. Não há nada com que nenhum de vocês precise se preocupar.' Com isso, Olga desapareceu, e ele percebeu que ela não estava lá pessoalmente. Ele saiu da cama e anotou as horas e exatamente o que ela tinha dito para ele. Quando a filha de Olga ligou para ele depois para dizer que a operação foi um sucesso, ele respondeu: 'Eu sei que ela está bem. Ela já me contou pessoalmente[9]'.

 

Jenny

Tricia Robertson descreveu outro caso recente, envolvendo uma mulher escocesa que ela chama de Jenny, cujo filho havia se mudado para a África do Sul quando se casou. Ele tinha um filho, que Jenny viu uma vez como recém-nascido, mas não há dois anos e meio. Ela sentia falta do neto e estava ansiosa para ver como ele estava naquela época, então decidiu tentar se projetar para fora do corpo e visitá-lo. Na primeira vez que fez isso, se viu em um espaço negro, olhando para uma luz vaga à distância; assustada, ela 'se afastou' de volta ao corpo. Algumas noites depois, ela tentou novamente, com mais sucesso. Ela visualizou a sala de estar da casa do filho e se concentrou nela. Ela se imaginou ali, mas viu que estava vazia de todos os móveis. No dia seguinte, ela ligou para o filho e soube que ele havia se mudado e que a casa que ela havia visto agora estava vazia.

Sem contar ao filho o que estava tentando fazer, Jenny decidiu ir para a casa dos sogros dele, onde já havia ido em sua viagem anterior à África do Sul. Do teto, ela viu o sogro do filho sentado em uma cadeira, lendo um jornal. O homem olhou devagar e, aparentemente ao vê-la, gritou: 'Você não pode me tocar, eu sou Christian!' Mais divertida do que alarmada, Jenny 'wooo' voltou para o corpo. Após mais investigações, ela determinou a localização da nova casa do filho e fez outra tentativa de viajar para lá fora do corpo. Desta vez, ela se viu em uma casa que ela era desconhecida. Ela notou o estilo e as cores da suíte, as cortinas e outros móveis antes de 'voar' de volta para seu corpo. No dia seguinte, ela escreveu para o filho, pedindo que ele descrevesse sua suíte, entre outras coisas. A descrição que recebeu combinava com o quarto que ela havia visto.

Ainda sem contar ao filho sobre seu empreendimento, Jenny tentou novamente, desta vez para ver o neto, onde quer que ele estivesse. Ela se viu na beira de um parque olhando para as crianças brincando. Ela escolheu um garotinho que sentia ser ele. O garoto olhou para cima, puxou a saia da mãe, apontou para Jenny com um sorriso e disse: 'Olhe para a senhora'. Sua mãe espiou na direção que ele indicava, mas não viu nada; Ela disse que não, querido, não havia ninguém ali[10].

 

Sr. e Sra. EJ

Este caso incluído por Eleanor Sidgwick em sua resenha de 1922 tem uma percepção coletiva de uma pessoa há muito falecida; embora não tenhamos um relato do agente falecido, é natural classificar como um caso recíproco. Um Sr. e uma Sra. EJ sonharam independentemente com a mãe do Sr. EJ, que havia falecido dezessete anos antes. O Sr. EJ sonhou que ela entrava no quarto deles, passava pela cama dele, olhava para ele e ia até o pé da cama da esposa. Sua esposa sonhou que a mulher entrava no quarto, se inclinava sobre os pés da cama com os braços cruzados do jeito que sempre tinha na vida, e lhe contou que ouvira do falecido irmão do Sr. EJ, Fred, que não percebia o quão doente sua própria mãe estava; ela não viveria mais três meses. No final, a mãe da Sra. EJ viveu mais seis meses antes de falecer[11].

 

Maung Yin Maung

Ian Stevenson relatou este caso birmanês de um homem que aparentemente renasceu para seu irmão e cunhada após morrer quando seu avião leve caiu não muito longe de sua casa. Numa noite, pouco depois de sua morte, sua cunhada precisou usar o banheiro; quando saiu, ouviu o portão do complexo ranger, virou-se e viu ele entrar, caminhar até ela, depois parar. A princípio, ela acreditava que ele estava fisicamente presente, mas depois lembrou que ele estava morto. Ela falou com ele, dizendo que, como parecia que ele estava fixado neles, ele era bem-vindo para reencarnar na família, desde que não fosse desfigurado pelo acidente.

Seu marido, de dentro da casa, a ouviu falar e perguntou com quem ela conversava. Ela explicou, ao que ele respondeu: 'Você deve estar louca', mas quando ele se juntou a ela e eles olharam novamente, a aparição havia sumido. Naquela noite, porém, ele apareceu no sonho da mulher. No sonho, ele dormia na cama que ela e o marido normalmente ocupavam, enquanto eles estavam sentados por perto. Então viu sua mãe e uma de suas irmãs entrando no quarto. Eles imploraram para que ele fosse para casa com eles, mas ele recusou, dizendo que ficaria com o irmão e ela.

Quando Maung Yin Maung já tinha idade suficiente para falar, ele dava sua versão elogiosa da história. Depois que morreu, ele inicialmente ficou naquele local, mas de alguma forma se viu no portão da casa do irmão. Ele se lembrou de ter visto sua cunhada (agora sua mãe) sair do banheiro e 'se mostrou' para ela como uma aparição. Ele caminhou até ela até sentir que não podia avançar mais. Ele lembrou que ela disse: 'Se você tem essa fixação por nós, por que não se torna meu filho?' Ele também se lembrou de ter se comunicado com sua mãe e irmã de vidas passadas, que pediram que ele voltasse com elas, mas ele disse que ficaria com seu irmão e sua cunhada. Como se viu, na vida anterior, Maung Yin Maung teve uma briga com a irmã quando ela se casou com um homem que ele não aprovava[12].

 

Explicando Aparições Recíprocas

Aparições recíprocas podem ser explicadas de forma mais direta como a projeção da consciência, seja inconsciente ou deliberadamente, para um lugar distante. É assim que eles foram entendidos por FWH Myers, um dos autores de Phantasms of the Living. Em seu clássico Human Personality and Its Survival of Bodily Death, Myers forneceu exemplos marcantes de 'aparições experimentais', como são chamadas aquelas ligadas à projeção intencional da consciência, e então disse:

Nessas autoprojeções que temos diante de nós, não digo a realização mais útil, mas a mais extraordinária da vontade humana. O que pode estar além de qualquer capacidade conhecida além do poder de fazer com que uma aparência de si mesmo apareça à distância? … De todos os fenômenos vitais, eu digo, este é o mais significativo; essa autoprojeção é o único ato certo que parece que um homem poderia realizar igualmente bem antes e depois da morte corporal[13].

No entanto, o ponto de vista de Myers não tem sido unânime na pesquisa psíquica. O primeiro autor de Phantasms, Edmund Gurney, acreditava que tais casos poderiam ser melhor descritos como transmissões telepáticas. Sobre o caso de Connie e Margaret, ele concluiu:

Parece que temos, por parte das duas meninas, uma alucinação telepática, reproduzindo exatamente as palavras que estavam na boca e no ouvido do menino doente; e, por sua vez, uma visão refletida de suas mentes, ilustrando mais uma vez como o que poderia ser descrito como clarividência pode ser uma verdadeira variedade de transferência de pensamento[14].

Gurney achava que o agente telepático provavelmente era a pessoa no estado de consciência mais 'anormal', independentemente de ser o agente aparente ou o perceptivo. Assim, no caso da Sra. Smith, ele achava que ela era mais provável de ser a agente do que Bessie, que estava acordada quando viu a aparição[15]. Ele teve algumas dificuldades com o Sr. L, mas concluiu que a transmissão telepática provavelmente se originou nele, já que, segundo sua admissão, ele estava em um estado ligeiramente alterado na época[16].

Eleanor Sidgwick tendia a concordar com Gurney quanto à base telepática das aparições coletivas e recíprocas[17], mas CD Broad estava menos confiante. Broad considerou que, com aparições recíprocas, a teoria telepática 'é muito menos plausível como relato das experiências da pessoa cuja aparição é ostensivamente vista do que como relato das experiências daqueles que ostensivamente a veem. A teoria telepática precisa minimizar, ou interpretar de forma muito forçada, os relatos de experiências exploratórias dados por um número considerável de pessoas que as tiveram e relataram[18]'.

Os Harts também favoreciam a posição de Myers[19], assim como Stevenson, que, assim como Myers, observou que, em casos recíprocos, 'o agente frequentemente tem um forte desejo ou intenção de 'ir' até" o percipiente no momento da aparição. Se aceitarmos a reivindicação do agente vivo sobre atividade (e muitas vezes iniciativa) na experiência combinada, não podemos facilmente negar a possibilidade de um papel semelhante em pelo menos alguns casos em que o agente morreu[20]'.

 

Obras Citadas

§  Broad, C.D. (1962). Lectures on Psychical Research. London: Routledge & Kegan Paul.

§  Gurney, E., Myers, F.W.H., & Podmore, F. (1886). Phantasms of the Living (2 vols). Vol. 2. London: Society for Psychical Research.

§  Hart, H., & Hart, E.B. (1932–1933). Visions and apparitions collectively and reciprocally perceived. Proceedings of the Society for Psychical Research 41, 205-49.

§  Morse, M., with Perry, P. (1994). Parting Visions: Uses and Meanings of Pre-Death, Psychic, and Spiritual Experiences. New York: Villard Books.

§  Myers, F.W.H. (1903). Human Personality and Its Survival of Bodily Death (2 vols.). London: Longmans, Green and Co.

§  Rivas, T., Dirven, A., & Smit, R.H. (2016). The Self Does Not Die: Verified Paranormal Phenomena from Near-Death Experiences. Durham, North Carolina, USA: International Association for Near-Death Studies.

§  Robertson, T. J. (2015). More Things You Can Do When You’re Dead: What Can You Truly Believe? Guildford, Surrey, UK: White Crow Books.

§  Sidgwick, E.M. (1922). Phantasms of the living. Proceedings of the Society for Psychical Research 33/86, 23-429.

§  Stevenson, I. (1982). The contribution of apparitions to the evidence for survival. Journal of the American Society for Psychical Research 76, 341-58.

§  Stevenson, I. (1983). Cases of the Reincarnation Type. Volume IV: Twelve Cases in Thailand and Burma. Charlottesville, Virginia, USA: University Press of Virginia.

 

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[2] Gurney, Myers, & Podmore (1886), vol. 2, 153-67; cases 303–308.

[3] Sidgwick (1922), 354-423.

[4] Hart & Hart (1932–33).

[5] Rivas, Dirven, & Smit (2016), 157-70; Robertson (2015), 91-92.

[6] Gurney, Myers, & Podmore (1886), vol. 2, 164-65; case 308

[7] Gurney, Myers, & Podmore (1886), vol. 2, 159-62; case 306.

[8] Gurney, Myers, & Podmore (1886), vol. 2, 162-64; case 307.

[9] Morse with Perry (1994), 22-24.

[10] Robertson (2015), 91-92.

[11] Sidgwick (1922), 358-59.

[12] Stevenson (1983), 280-81. 288-89.

[13] Myers (1903), vol. 1, 296-97. Seus relatos de aparições experimentais aparecem nas páginas 292-96.

[14] Gurney, Myers, & Podmore (1886), vol. 2, 165.

[15] Gurney, Myers, & Podmore (1886), vol. 2, 161.

[16] Gurney, Myers, & Podmore (1886), vol. 2, 164.

[17] Sidgwick (1922), 354-423.

[18] Broad (1962), 238; italics in original.

[19] Hart & Hart (1932–33).

[20] Stevenson (1982), 352-53.