sexta-feira, 1 de maio de 2026

JORGE DE BURGOS FICARIA SATISFEITO: A CRUZADA CONTRA O RISO E O APLAUSO EM CERTOS CENTROS ESPÍRITAS[1].

 


 Marco Milani

 

Eventualmente, observam-se em algumas casas espíritas restrições ao aplauso após palestras ou outras apresentações públicas. Em tais ambientes, o público é orientado a substituir o gesto espontâneo de reconhecimento por movimentos silenciosos das mãos ou, em situações mais rígidas, por completo silêncio. O expositor, ao final, permanece sem qualquer indicativo claro da recepção de sua fala, como se a expressão natural de apreço representasse risco à harmonia espiritual do ambiente.

Essa preocupação com a contenção de manifestações espontâneas está longe de ser uma inovação de alguns espíritas. Na excelente obra “O Nome da Rosa”, Umberto Eco constrói uma narrativa em que o verdadeiro risco não reside na ignorância, mas na leveza e descontração diante do que alguns supõem deveria aparentar sisudez. É nesse ambiente que destaca-se a figura severa do personagem Jorge de Burgos, um monge beneditino da Idade Média para quem o riso representaria uma forma muito perigosa de perturbação: não por seu conteúdo, mas por seu efeito corrosivo sobre o temor e a autoridade. Afinal, se o homem risse, talvez deixasse de temer; e, se deixasse de temer, a reverência perderia parte de sua eficácia. Para alguns adeptos, a lógica assume contornos mais técnicos: não seria o riso em si o problema, mas o ruído que ele produziria, capaz de interferir em uma suposta harmonia fluídica do ambiente. Guardadas as proporções, o paralelo permanece sugestivo: quando o aplauso precisa ser administrado como variável de risco vibratório, talvez não seja o som que incomode, mas a dificuldade de lidar com manifestações humanas que não se deixam enquadrar pelo silêncio protocolar presente na cultura de algumas casas espíritas.

Tal postura apresentada como prudência espiritual não encontra respaldo na obra de Allan Kardec. Em O Livro dos Médiuns, por exemplo, Kardec dedica extensa análise às condições dos fenômenos mediúnicos, destacando fatores como a qualidade moral dos participantes, a seriedade dos propósitos e a disciplina do grupo. Em nenhum momento, contudo, sugere que manifestações naturais de apreço, como o aplauso, comprometeriam a chamada harmonia dos fluidos espirituais. A preocupação kardequiana dirige-se ao conteúdo moral e à intenção dos participantes, não à supressão de gestos sociais legítimos. Se assim não fosse, bastaria o silêncio exterior para garantir elevação espiritual.

Kardec distingue claramente a frivolidade da leveza. A primeira compromete a finalidade da reunião; a segunda não é sequer objeto de censura. Ao contrário, a ênfase recai sempre sobre o discernimento, e não sobre a imposição de regras de conduta desvinculadas de fundamentação doutrinária.

Há, na excessiva vigilância sonora, um deslocamento sutil, mas relevante, do eixo de análise das apresentações. Em vez de se avaliar o conteúdo da mensagem, a intenção do expositor e o benefício moral da atividade, passa-se a monitorar a forma exterior de reação do público, como se a espiritualidade dependesse de um controle acústico do ambiente. Esse deslocamento aproxima-se mais de uma estética do comportamento do que de uma ética fundamentada em princípios. E, nesse ponto, o paralelo com a obra de Eco deixa de ser apenas literário e passa a ser interpretativo.

Não se trata, evidentemente, de defender o aplauso indiscriminado ou de ignorar que certos ambientes requerem sobriedade silenciosa. A questão é outra. Trata-se de reconhecer que a elevação espiritual não decorre da supressão sistemática de manifestações humanas legítimas, mas do aprimoramento moral que lhes dá sentido. Quando a forma passa a prevalecer sobre o conteúdo, corre-se o risco de transformar a disciplina em formalismo e a prudência em rigidez infundada.

Em última instância, a pergunta que se impõe é simples. O que efetivamente desarmoniza um ambiente espiritual? Um breve aplauso de reconhecimento ou a substituição da espontaneidade por um conjunto de práticas cuja justificativa repousa mais em tradição local do que em fundamento doutrinário claro? A resposta, ao que tudo indica, não se resolve no plano do ruído, mas no da coerência entre princípios e práticas.

quinta-feira, 30 de abril de 2026

DEUS E O UNIVERSO[1]

 


Miramez

 

            Formação dos Mundos

O Universo abrange a infinidade dos mundos que vemos e dos que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço, assim como os fluidos que o enchem.

Allan Kardec

 

O Universo foi criado, ou existe de toda a eternidade, como Deus?

É fora de dúvida que ele não pode ter-se feito a si mesmo. Se existisse, como Deus, de toda a eternidade, não seria obra de Deus.

Diz-nos a razão não ser possível que o Universo se tenha feito a si mesmo e que, não podendo também ser obra do acaso, há de ser obra de Deus. (Allan Kardec)

Questão 37 / O Livro dos Espíritos

 

O termo DEUS é a partida para todos os assuntos, é a gênese de todo existir, e o universo é o seu trabalho, é o seu "corpo ciclópico" que fala para todos nós, mais de perto, da grandeza do Criador.

Deus é uma causa invisível, mas real. Constatamos sua existência pela sua criação visível, com o que apalpamos e enxergamos. Crer em Deus é função da inteligência. A própria ciência já não pode andar mais sem a convicção da existência de uma força superior que conduz e sustenta todos, na maior expressão que se pode ser. O que a história universal nos oferece está fora dos limites da percepção comum dos homens, os segredos, a ciência, a filosofia e a religião que se constatam no saber são sobremaneira avançados no sistema que a sabedoria nos expõe para que possamos entender, ou começar a entender, os primeiros passos da grandeza universal.

É tão amplo o campo de conhecimento na Terra, que está para nascer nela um homem que conheça todas as coisas em um só conjunto de sistema doutrinário. As divisões existentes em tudo o que se sabe, são para facilitar a compreensão de tudo que se quer aprender. E neste sentido que a medicina, o direito, a mecânica, a religião e a própria cultura se dividem em variadas especialidades. Tudo se divide para ser melhor compreendido e disseminado e para entendermos melhor. Se enchêssemos um saco de letras do alfabeto, nunca entenderíamos o seu grande objetivo, ao passo que se as ordenarmos com inteligência, divididas na harmonia que a mente determina, compreenderemos a sua incomparável missão de instruir as criaturas. Deus dividiu o seu saber pelas leis que determinou, e fez nascer o universo.

Homem algum é capaz de alcançar, e mesmo sentir, o que é a grandeza da vida universal. Mesmo da Terra, em que estagia, a mente humana não tem condições para sentir a sua extensão, visualizando as águas, os mares, as matas, as árvores, o ar, a luz, as trevas, o fogo, os minerais, os animais e eles próprios, cada um com o seu dever específico de acordo com a sua missão e os seus limites. Para tanto, os mesmos homens criaram as leis, e na intuição fizeram uma cópia das leis naturais, não tão perfeitas quanto elas, por não suportarem sua harmonia, mas nessa cópia, é que poderão viver mais ou menos em paz na Terra que habitam por misericórdia de Deus.

O universo não é Deus, no modo que muitos pensam ser. Ele está ligado ao Criador por fios que desconhecemos, por enquanto, porém é obra das suas mãos, na ternura do seu magnânimo coração. Deus fez tudo em perfeita harmonia, por ter em evidência o atributo do Amor. É bom que comparemos as coisas da Terra, no sentido de compreendermos a separação do Criador com as coisas criadas, separação no sentido de entendermos que uma não pode ser a mesma coisa que a outra.

Se no planeta em que vivemos não existissem homens inteligentes, estaria tudo dentro do padrão primitivo, mas, como existem há milênios, os seres capacitados de razão, encontramos grandes obras que revelam os criadores, porque, por si só elas não se fazem.

Essa é a equação que devemos dominar, para reconhecer a existência de um Criador fora da criação, com a sua personalidade diferente, com a sua existência própria, a fazer leis, a construir mundos e sóis, estrelas, galáxias e universos sem conta, que fogem à capacidade humana e mesmo às espirituais.

A mente do homem é insignificante, em comparação com a mente divina, mas pode tornar-se gigante, se ela for obediente aos preceitos organizados pela fonte criadora. E, ainda mais, se o universo existisse de toda a eternidade, como Deus, não poderia ser obra sua. E se ele está submetido às leis, ele não tem vontade própria qual Deus, é uma mecânica dirigida por uma sabedoria, e esta é esse Deus de que falamos e que todos sentem na profundeza da consciência.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 1 – João Nunes Maia

quarta-feira, 29 de abril de 2026

JOTT: FENÔMENOS DE DESCONTINUIDADES ESPACIAIS[1]

 

Imagem das chaves da casa na mesa do salão


Maria Rosa Barrington

 

JOTT (Just One of Those Things - Apenas uma dessas coisas) refere-se à possibilidade de que erros comuns de posicionamento de objetos, normalmente atribuídos a percepções falsas, falhas de observação ou memórias equivocadas, possam, por vezes, ter uma causa não convencional. O termo foi cunhado por Mary Rose Barrington, pesquisadora de fenômenos paranormais e membro da Sociedade de Pesquisa Psíquica.

Jott considera alguns episódios de objetos desaparecidos como possíveis anomalias, e não como mera distração, falhas de observação ou erros de memória.

Barrington identifica formas recorrentes como retornos, andanças, fugas, surpresas, ganhos inesperados, trocas e a anomalia ambiental mais rara que ela chama de oddjott.

Em sua teoria, nada se desloca fisicamente; os objetos deixam de se concretizar em um contexto e se concretizam novamente em outro.

 

Definições

Mary Rose Barrington caracteriza jott como "coisas que inexplicavelmente vêm e vão, embora mais comumente elas vão e podem ou não voltar, seja para o seu local original ou para outro lugar". Mais formalmente, jott "significa descontinuidades espaciais, e quando estas equivalem ao deslocamento de objetos, esses incidentes são chamados de jottles [2]".

Barrington argumenta, com base em sua vasta coleção de casos, que, embora muitos desses incidentes possam ser atribuídos a "distração, alucinação ou... transtorno dissociativo de identidade", alguns desafiam qualquer explicação e constituem uma categoria semelhante a outros fenômenos psicofísicos mais amplamente relatados e estudados, como efeitos poltergeist, telecinese e materialização, para os quais as evidências são "abundantes e robustas[3]”.

 

Tipos

Barrington identifica seis tipos de jottle, conforme descrito a seguir. Para mais detalhes, incluindo exemplos, consulte o PDF "Samples of JOTT: Phenomena of Spatial Discontinuities".

 

Voltar

Um objeto que se sabia ter estado em determinado local deixa de estar lá e, posteriormente, é encontrado novamente no mesmo local ou muito próximo a ele.

 

Exemplo: Duas caixas de fósforos grandes, uma contendo fósforos novos e a outra fósforos usados, estão lado a lado sobre uma pequena bancada. Vendo apenas uma das caixas, o morador da casa a pegou, mas, ao encontrar fósforos usados ​​dentro dela, a colocou de volta no lugar e acendeu o gás de outra forma. Alguns minutos depois, ele percebeu que a outra caixa estava de volta ao lugar, ao lado daquela que ele acabara de pegar.

 

Passeio

Um objeto deixa de estar presente em um local conhecido e é posteriormente encontrado em um local diferente.

 

Exemplo: Uma tigela de plástico usada para lavar louça desaparece momentos depois de ser usada. Semanas mais tarde, ela é encontrada encaixada entre outros objetos em um armário que raramente é aberto e que fica bloqueado pela mesa da cozinha.

 

Voar para longe

Um objeto que se sabia ter estado em determinado local deixa de estar presente e (até hoje) permanece desaparecido.

 

Exemplo: Um pincel de 35 centímetros cai no chão de linóleo, fazendo um barulho alto ao cair, mas não é encontrado e nunca mais é visto.

 

Virar para cima

Um objeto conhecido por quem o encontrou, mas de localização incerta, é encontrado em um local onde se sabe que ele não estava antes.

 

Exemplo: uma mulher perde seus óculos de leitura enquanto ela e o marido estão hospedados em um aposento alugado em uma casa antiga. Ao desocupar o imóvel, ela o incentiva a tirar o pó do topo de um guarda-roupa excepcionalmente alto, que exige o uso de uma escada: os óculos são encontrados lá.

 

Ganho inesperado

Um objeto de procedência desconhecida foi encontrado inexplicavelmente presente.

 

Exemplo: o condutor de uma mobilete (uma pequena motocicleta) fica parado quando a única vela de ignição do motor fica repetidamente engordurada. Ao levar o veículo para uma rua lateral, ele vê uma vela de ignição nova e limpa na sarjeta, exatamente da marca e tamanho necessários, instala-a e continua sua viagem.

 

Troca

Um objeto deixa de estar presente em um local conhecido ou nas proximidades, e logo depois um objeto semelhante é encontrado nesse mesmo local.

 

Exemplo: um broche predileto, com um design complexo de ferraduras fixadas em uma barra de prata, desaparece. Semanas depois, um broche quase idêntico é encontrado preso a um vestido pouco usado. No entanto, não se trata do mesmo broche: o design é muito semelhante, mas também difere em certos aspectos.

 

Oddjott

Barrington identifica um fenômeno separado e mais raro que ela denomina 'oddjott', uma anomalia ambiental na qual a realocação não é a característica principal.

 

Exemplo: Uma capa de edredom inserida na máquina de lavar com o zíper aberto sai do avesso e totalmente fechada.

 

Teorias

A teoria de Barrington sobre o jott pressupõe uma Mente Cósmica coletiva que abrange todos os participantes de uma rede telepática (como sugerido por pesquisas de campo e estudos experimentais em telepatia e outros fenômenos psi).

Ela então postula que o mundo material é atualizado pela atenção focada da mente inconsciente dos participantes em potencialidades selecionadas, e que as instruções sobre como atualizar um ambiente estritamente sequencial e causalmente consistente são transmitidas a eles (isto é, a nós mesmos) pelo sistema de controle autônomo da Mente Cósmica, por meio de ordens quase hipnóticas (análogas aos comandos de hipnose telepática relatados por F.W.H. Myers).

Os erros de atualização (isto é, jott) ocorrem principalmente quando os receptores telepáticos do participante estão fatigados ou desordenados pela intrusão de material telepático da rede. Às vezes, a mente inconsciente do participante parece motivada a desencadear o jott.

Embora a característica principal de um objeto aleatório seja o deslocamento, nada se move. O objeto não se concretiza na presença do perdedor e é reatualizado por quem o encontra.

Para obter mais detalhes, consulte o PDF em anexo, "From Jott To Cosmic Control".

 

Obras citadas

§  Barrington, M.R. (2017). From JOTT to cosmic control and the normalization of the paranormal: Does ‘just one of those things’ solve the problem of psi? Paranormal Review 81 (Winter).

§  Barrington, M.R. (2018). JOTT: When Things Disappear – and Come Back or Relocate – and Why it Really Happens. Charlottesville, Virginia, USA: Anomalist Books.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Barrington (2017, 2018).

[3] Barrington (2017).

terça-feira, 28 de abril de 2026

MORTE DE UM ESPÍRITA[1]



Allan Kardec

 

(Sociedade – 8 de julho de 1859)

 

M. J..., negociante do departamento do Sarthe, morto no dia 15 de junho de 1859, era, sob todos os aspectos, um homem de bem e de uma caridade sem limites. Tinha feito um estudo sério do Espiritismo, do qual era fervoroso adepto. Como assinante da Revista Espírita, encontrava-se em contato indireto conosco, sem que nos tivéssemos visto. Evocando-o, tivemos como objetivo não apenas atender ao desejo de seus parentes e amigos, mas testemunhar-lhe pessoalmente a nossa simpatia e agradecer-lhe as gentilezas que de nós houve por bem dizer e pensar. Além disso, para nós era motivo de estudo interessante, do ponto de vista da influência que o conhecimento aprofundado do Espiritismo pode ter sobre o estado da alma após a morte.

 

1. Evocação

– Estou aqui há muito tempo.

2. Jamais tive o prazer de vos ver. Contudo, reconheceis-me?

– Reconheço-vos tanto melhor quanto frequentemente vos visitei e tive mais de uma conversa convosco, como Espírito, durante minha vida.

 

Observação – Isto confirma o fato muito importante, do qual tivemos numerosos exemplos, das comunicações que os homens têm entre si, mau grado seu, durante a vida. Assim, durante o sono do corpo, os Espíritos viajam e se visitam reciprocamente.

Ao despertar conservam intuição das ideias que brotaram nessas conversas ocultas, mas cuja fonte ignoram. De certa maneira, durante a vida temos uma dupla existência: a corporal, que nos dá a vida de relação exterior, e a espírita, que nos dá a vida de relação oculta.

 

3. Sois mais feliz do que na Terra?

– E sois vós que perguntais?

4. Eu o concebo. Entretanto, desfrutáveis de uma fortuna honradamente adquirida, que vos proporcionava os prazeres da vida. Tínheis a estima e a consideração obtidos pela vossa bondade e pela vossa benevolência. Poderíeis dizer-nos em que consiste a superioridade de vossa felicidade atual?

– Consiste naturalmente na satisfação que me proporciona a lembrança do pouco bem que fiz e na certeza do futuro que ele me promete. E contais por nada a ausência de inquietudes e os aborrecimentos da vida? Os sofrimentos corporais e todos os tormentos que criamos para satisfazer às necessidades do corpo? Durante a vida, a agitação, a ansiedade, as angústias incessantes, mesmo em meio à fortuna; aqui, a tranquilidade e o repouso: é a bonança após a tempestade.

5. Seis semanas antes de morrer afirmáveis ter ainda cinco anos de vida. De onde vinha essa ilusão, enquanto tantas pessoas pressentem a morte próxima?

– Um Espírito benévolo queria afastar da minha mente esse momento que, embora sem o confessar, por fraqueza eu o temia, não obstante o que já sabia sobre o futuro do Espírito.

6. Havíeis vos aprofundado seriamente na ciência espírita. Poderíeis dizer-nos, se, ao entrar no mundo dos Espíritos, encontrastes as coisas tais como se vos afiguravam?

– Aproximadamente a mesma coisa, exceto algumas questões de detalhe, que eu havia compreendido mal.

7. A leitura atenta que fazíeis da Revista Espírita e de O Livro dos Espíritos vos auxiliaram muito nisso?

– Incontestavelmente. Foi, sobretudo, o que preparou a minha entrada na verdadeira vida.

8. Experimentastes um sobressalto qualquer quando vos encontrastes no mundo dos Espíritos?

– Impossível que não fosse de outro modo; mas sobressalto não é bem o termo: admiração, de preferência. É tão difícil fazer uma ideia do que possa ser isso!

 

Observação – Aquele que, antes de ir habitar um país, o estudou nos livros, identificou-se com os costumes de seus habitantes, sua configuração, seu aspecto, por meio de desenhos, de plantas e de descrições, sem dúvida ficam menos surpreendido do que aquele que não possui nenhuma ideia. Entretanto, mostra-lhe a realidade uma porção de detalhes que ele não tinha previsto e que o impressionam. Deve dar-se o mesmo no mundo dos Espíritos, cujas maravilhas não podemos compreender, porquanto há coisas que ultrapassam o nosso entendimento.

10. Deixando o corpo, vistes e reconhecestes imediatamente os Espíritos que vos cercavam?

– Sim, e Espíritos queridos[2].

11. Que pensais agora do futuro do Espiritismo?

– Um futuro ainda mais belo do que imaginais, malgrado vossa fé e vosso desejo.

12. Vossos conhecimentos no tocante aos assuntos espíritas sem dúvida vos permitirão responder com precisão a algumas perguntas. Poderíeis descrever claramente o que se passou convosco no instante em que vosso corpo deu o último suspiro e o vosso Espírito se achou livre?

– Pessoalmente acho muito difícil encontrar um meio de vos fazer compreender de outra maneira o que já foi feito, comparando a sensação que experimentamos ao despertar de um sono profundo. Esse despertar é mais ou menos lento e difícil, em razão direta da situação moral do Espírito, e nunca deixa de ser fortemente influenciado pelas circunstâncias que acompanham a morte.

 

Observação – Isto concorda com todas as observações que foram feitas sobre o estado do Espírito no momento de separar-se do corpo. Vimos sempre as circunstâncias morais e materiais que acompanham a morte reagirem poderosamente sobre o estado do Espírito nos primeiros momentos.

 

13. Vosso Espírito conservou a consciência de sua existência até o último momento e a recobrou imediatamente? Houve um instante de falta de lucidez? Qual foi a sua duração?

– Houve um instante de perturbação, mas quase inapreciável para mim.

14. O momento de despertar teve algo de penoso?

– Não; pelo contrário. Sentia-me alegre e disposto, se assim posso falar, como se tivesse respirado um ar puro ao sair de uma sala enfumaçada.

 

Observação – Comparação engenhosa e que não pode ser senão a expressão da verdade.

 

15. Lembrai-vos da existência que tivestes antes da que acabais de deixar? Qual foi ela?

– Melhor não poderia lembrar. Eu era um bom criado junto de um bom senhor, que me recebeu ao mesmo tempo em companhia de outros, à minha entrada neste mundo bem aventurado.

16. Creio que vosso irmão se ocupa menos das questões espíritas do que vos ocupáveis.

– Sim; farei com que ele tome mais interesse, se isso me for permitido. Se ele soubesse o que ganhamos com isso, dar-lhes-ia mais importância.

17. Vosso irmão encarregou o Sr. B... de me comunicar a vossa morte. Ambos esperam, impacientes, o resultado de nossa conversa; mas serão ainda mais sensíveis a uma lembrança direta de vossa parte se quiserdes incumbir-me de dizer-lhes algumas palavras, para eles e para outras pessoas que vos pranteiam.

– Direi a eles, por vosso intermédio, o que eu mesmo lhes teria dito, mas receio muito não ter mais influência junto a alguns deles, como outrora. No entanto eu os conjuro, no meu e no nome de seus amigos, que vejo, a refletirem e estudarem seriamente esta grave questão do Espiritismo, ainda que fosse pelo auxílio que ela traz para passar esse momento tão temido pela maior parte, e tão pouco assustador para aquele que se preparou previamente pelo estudo do futuro e pela prática do bem. Dizei-lhes que estou sempre com eles, em meio a eles, que os vejo e que serei feliz se suas disposições puderem assegurar-lhes, no mundo em que me encontro, um lugar de que só terão de se felicitar. Dizei-o sobretudo ao meu irmão, cuja felicidade é o meu mais caro desejo, do qual não me esqueço, embora eu seja mais feliz.

18. A simpatia que tivestes a bondade de me testemunhar em vida, mesmo sem jamais ter-me visto, faz-me esperar que nos encontremos facilmente quando eu estiver entre vós. E até lá serei feliz se vos dignardes assistir-me nos trabalhos que me restam fazer para concluir a minha tarefa.

– Julgais-me com excessiva benevolência; no entanto, convencei-vos de que, se vos puder ser de alguma utilidade, não deixarei de o fazer, talvez mesmo sem que o suspeiteis.

19. Agradecemos por terdes atendido ao nosso apelo, e pelas instrutivas explicações que nos destes.

– À vossa disposição. Estarei muitas vezes convosco.

 

Observação – Incontestavelmente esta comunicação é uma das que descrevem a vida espírita com a maior clareza.

Oferece um poderoso ensino no que diz respeito à influência que as ideias espíritas exercem sobre a nossa situação depois da morte.

Esta conversa parece haver deixado algo a desejar ao amigo que nos participou a morte do Sr. J... “Este último – respondeu ele – não conservou na linguagem o cunho da originalidade que tinha conosco. Mantém uma reserva que não observava com ninguém; seu estilo, incorreto e vacilante, afetava inspiração. Entre nós ele ousava tudo; derrotava quem quer que formulasse uma objeção contra suas crenças. Reduzia-nos em pedaços para nos convencer. Em sua aparição psicológica não dá a conhecer nenhuma particularidade das numerosas relações que tinha com uma porção de pessoas que frequentava. Todos nós gostaríamos de nos ver citados por ele, não para satisfazer a curiosidade, mas para nossa instrução. Gostaríamos que nos tivesse falado claramente de algumas ideias por nós emitidas em sua presença, em nossas conversas. A mim, pessoalmente, poderia ter dito se eu tinha ou não tinha razão de deter-me em tal ou qual consideração; se aquilo que eu lhe havia dito era verdadeiro ou falso. De modo algum nos falou de sua irmã, ainda viva e tão digna de interesse”.

De acordo com esta carta evocamos novamente o Sr. J..., dirigindo-lhe as seguintes perguntas:

20. Tomastes conhecimento da carta que recebi em resposta à que se referia à vossa evocação?

– Sim; vi quando a escreviam.

21. Teríeis a bondade de dar algumas explicações sobre certas passagens dessa carta e isso, como bem o compreendeis, com um fim instrutivo, unicamente para me fornecer elementos para uma resposta?

– Se o considerais útil, sim.

22. Acharam estranho que a vossa linguagem não tenha conservado o cunho da originalidade. Parece que em vida éreis severo na discussão.

– Sim, mas o Céu e a Terra são muito diferentes e aqui encontrei mestres. Que quereis? Eles me impacientavam com suas objeções extravagantes; eu lhes mostrava o Sol e não o queriam ver. Como manter o sangue-frio? Aqui não temos que discutir; todos nos entendemos.

23. Esses senhores admiram-se de que não os tenhais interpelado nominalmente para os refutar, como fazíeis em vida.

– Que se admirem! Eu os espero. Quando vierem juntar-se a mim, verão qual de nós estava com a razão. Será necessário que venham para cá, queiram ou não queiram, e uns mais cedo do que imaginam. Sua jactância cairá como a poeira abatida pela chuva; sua bazófia... (aqui o Espírito se detém e recusa concluir a frase).

24. Eles inferem que não lhes demonstrais todo o interesse que julgavam esperar de vós.

– Desejo-lhes o bem, mas nada posso fazer contra a vontade deles.

25. Surpreendem-se, igualmente, de que nada tenhais dito sobre vossa irmã.

– Acaso eles estão entre mim e ela?

26. O Sr. B... gostaria que tivésseis dito algo do que vos contou na intimidade; para ele e para os outros teria sido um meio de esclarecimento.

– De que serviria repetir o que ele já sabe? Pensa que não tenho outra coisa a fazer? Não dispõem dos mesmos meios de esclarecimento que tive? Que os aproveitem! Garanto-lhes que se sentirão bem. Quanto a mim, bendigo o céu por ter enviado a luz que me abriu o caminho da felicidade.

27. Mas é justamente essa luz que eles desejam e que ficariam felizes se a recebessem de vós.

– A luz brilha para todos; cego é aquele que não quer ver: cairá no precipício e amaldiçoará a sua cegueira.

28. Vossa linguagem me parece marcada por grande severidade.

– Eles não me acharam brando demais?

29. Nós vos agradecemos por terdes vindo e pelos esclarecimentos que nos destes.

– Sempre à vossa disposição, pois sei que é para o bem.



[1] REVISTA ESPÍRITA – setembro/1859 – Allan Kardec

[2] N. do T.: No original a questão no 9 foi saltada.


segunda-feira, 27 de abril de 2026

VICTORIEN SARDOU[1]

 


 

Seu trabalho revela o distinto escritor que, jovem ainda, conquistou um lugar de honra na literatura e alia, ao talento de escritor, profundos conhecimentos de sábio. É uma outra prova de que o Espiritismo não recruta entre tolos e ignorantes[2].

Victorien Sardou nasceu em 5 de setembro de 1831 em Paris. Filho de Antoine Léandre Sardou e de Eveline Viard, tinha dois irmãos, Pierre e Geneviève. De família modesta, viviam da plantação de oliveiras, próximo a Cannes. Tendo sofrido grande revés na lavoura, depois de um inverno rigoroso, mudaram-se para Paris. O pai trabalhou como contador, professor de contabilidade, preceptor e diretor de uma escola privada. Mesmo assim, não conseguia dinheiro suficiente para manter a família.

Victorien, muito jovem, lecionou francês para estrangeiros, ensinou latim, história, matemática e escreveu artigos para enciclopédias populares. Precisou trancar a faculdade de medicina. Sua família mudou-se para Nice e ele permaneceu em Paris.

Seu começo como escritor foi difícil. Sua primeira peça, La Taverne des Étudiants, no Teatro Odéon, em 1º de abril de 1854, não foi bem recebida, pelo boato de que ele teria sido contratado pelo governo para provocar os estudantes.

À beira da miséria, lutou contra a crítica negativa de seu trabalho. Contraiu tifo e ficou à beira da morte. Socorrido pela vizinha Laurentine de Brécourt, que conhecia a célebre atriz Virginie Déjazet, conseguiu que ela se tornasse madrinha de Sardou, o que alavancou sua carreira. Logo, ele ombreava com dois grandes mestres do teatro, Émile Augier e Alexandre Dumas, filho.

Alguns episódios de sua vida chamam a atenção[3].

No ano de 1842, tinha ele onze anos, seu pai, recompensando-o por uma distinção escolar obtida, decidiu levá-lo a Versailles por estrada de ferro. Mas, no momento da partida, em radiosa manhã de maio, o menino sentiu uma das dores de cabeça que o atormentariam durante toda a sua vida. De início tentou dissimular a perturbação, todavia, em breve, as dores aumentaram a um tal ponto que, não podendo manter-se em pé, deixou-se cair. E o aborrecimento do pai, ante o passeio estragado, não fez mais do que aumentar-lhe o tormento.

Veio depois a notícia 3:

 […] o comboio que deveriam tomar tinha-se descarrilhado em Bellevue, e trinta e dois passageiros encontraram a morte na catástrofe. […]. Assim, a enxaqueca salvou a família e deixou no espírito do menino um dos motivos centrais, que iriam inspirá-lo para a trama teatral.

Outro episódio se deu aos vinte e três anos3:

Uma noite, regressando à casa e cogitando na possibilidade de mudar-se de Paris, cruza a Rue de Ia Calandre. Uma carreta sobrecarregada de sacos de carvão obstrui completamente a passagem. Sardou encosta-se a uma parede, mas o veículo não avança. Instintivamente ele atravessa a rua, indo se refugiar no lado oposto. Alguns segundos depois, um carregador de água passa pelo sítio, e, no lugar onde o escritor estivera antes, é esmagado pela carreta.

Nessa época, ele escreveu o primeiro romance, Carlin. Mais tarde, diria que era um trabalho preliminar de sua mediunidade. Sua missão estava na divulgação do Espiritismo em um meio em que só um grande dramaturgo poderia levar com responsabilidade e brilhantismo.

O Espiritismo estava na moda. Nos salões da sociedade, Victorien trazia uma ideia inovadora e revolucionária. Logo, tornou-se alvo do interesse dos artistas marginalizados e incompreendidos em uma sociedade preconceituosa, que se identificaram e procuraram conhecê-lo.

Tornou-se um dos mais dedicados discípulos de Allan Kardec. Acompanhou-o nas primeiras experiências das mesas girantes e na elaboração de O Livro dos Espíritos.

Fazemos votos para que o Sr. Sardou complete, o mais breve possível, o seu trabalho tão auspiciosamente começado. Se os astrônomos nos desvendam, por sábias pesquisas, o mecanismo do Universo, por suas revelações, os Espíritos nos dão a conhecer o seu estado moral e, como eles mesmos dizem, é com o fito de nos excitar ao bem a fim de merecermos uma vida melhor!2

No ano de 1896, no Teatro Renaissance, em Paris, estreou a primeira peça teatral espírita de que se tem notícia: Spiritisme. Como estrela principal, ninguém menos do que Sara Bernhardt, a Divina, como era conhecida, uma das mulheres mais famosas do mundo no final do século XIX e começo do XX. Considerada a primeira celebridade mundial, sua voz, segundo os críticos, semelhava ao som de uma flauta. A peça foi um sucesso. Sardou diz que Spiritisme teve a honra de ser incluída no Index da Igreja Católica Romana.

Profissionalmente foi autor de mais de 578 trabalhos, entre artigos, peças teatrais, livretos de óperas. Como médium pictógrafo, produziu ilustrações assombrosas sobre a vida em outros mundos. Acumulou espantosa documentação sobre o Espiritismo e participou de numerosas sessões experimentais, sobretudo com a famosa médium italiana, Eusápia Paladino[4].

Casou-se com Laurentine Eléonore Désirée de Moisson de Brécourt, que morreu apenas oito anos depois. Voltou a casar em 1872, com Marie Anne Corneille Soulié, filha do erudito Eudore Augustin Soulié. Em 1877, foi eleito para a Académie Française.

Morreu na manhã de 8 de novembro de 1908. Paris inteira compareceu às suas exéquias, no quadro imponente do aparato militar a que lhe dava direito a Grã-Cruz da Legião de Honra. Gaston Doumerge, em nome do Governo e Valdal, representando a Academia e Paul Hervieu, pela Sociedade de Autores, pronunciaram discursos enaltecendo a obra do dramaturgo de escol e convicto espírita.

Em 1924 foi inaugurado o seu monumento, em Paris, obra do escultor Bartolomé. Suas obras estavam traduzidas para inúmeros idiomas, mas ninguém pensava que, com ele, uma época inteira desaparecia4.



[2] KARDEC, Allan. Revista Espírita: Jornal de Estudos Psicológicos. Ano 1858, v. 8. São Paulo: EDICEL, 1999. Habitações em Júpiter. (nota de Kardec)

[3] SARDOU, Victorien. Amargo despertar: comédia dramática em três atos. Matão: O Clarim, 1978.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

COMO FALAR SOBRE MORTE E SEXUALIDADE COM CRIANÇAS: O QUE A PSICOLOGIA ENSINA E O QUE O ESPIRITISMO ACRESCENTA[1]

 


Wilson Garcia - abr 19, 2026

 

Não estamos apenas explicando o mundo — estamos ajudando-as a construir o sentido da própria existência.

Falar sobre temas difíceis com os filhos é um dos maiores desafios da maternidade e paternidade. Morte, sexualidade, separação dos pais, medos e perdas: assuntos que muitas vezes preferimos adiar ou explicar pela metade. Mas será que o silêncio realmente protege as crianças?

Especialistas em psicologia infantil são enfáticos: não. Evitar conversas importantes pode gerar ainda mais confusão, ansiedade e insegurança nos pequenos. E, curiosamente, essa orientação atual da psicologia encontra eco em uma tradição pedagógica que vem de longe — a proposta educativa do Espiritismo.

Neste artigo, vamos explorar o que a ciência psicológica e a visão espírita têm a dizer sobre como abordar a morte e a sexualidade com crianças, e como esses dois olhares podem se complementar na tarefa de educar para a vida — e para além dela.

 

A morte como parte da vida

Por volta dos nove anos, a criança já compreende que a morte é irreversível. É nessa fase que as perguntas começam a surgir — e também os medos. O artigo recente do El País reforça que os adultos não devem fugir do assunto. Explicações claras, adequadas à idade e à sensibilidade da criança, são fundamentais para que ela processe a perda sem traumas.

O Espiritismo, desde Allan Kardec, propõe exatamente isso: falar sobre a morte com naturalidade. Não como fim, mas como transformação. Em O Livro dos Espíritos, Kardec explica que a morte é apenas a interrupção da vida orgânica — o espírito segue adiante em sua trajetória evolutiva.

Essa visão não elimina a dor da perda, mas oferece um horizonte de sentido. Quando a criança compreende que a vida continua de outra forma, o medo do desaparecimento absoluto se dissipa. O que permanece é a saudade, sim, mas também a certeza de que o amor sobrevive.

 

Educação para a morte: um ensinamento necessário

O filósofo espírita Léon Denis já dizia que a compreensão da imortalidade transforma a maneira como vivemos. E o educador brasileiro José Herculano Pires levou essa ideia adiante: em seu livro Educação para a Morte, ele critica a cultura moderna por esconder esse tema das crianças.

Segundo ele, a morte deveria fazer parte da educação humana tanto quanto o nascimento. Negá-la cria um tabu que, mais tarde, se traduz em angústia e desespero diante do luto.

Quando explicada com serenidade, a morte ajuda a criança a entender que:

§  a vida tem ciclos;

§  os laços afetivos vão além do corpo físico;

§  a memória e o amor mantêm viva a presença de quem partiu.

Não se trata de amenizar a dor, mas de evitar o desespero.

 

Sexualidade: educação com respeito e responsabilidade

Outro tema delicado é a sexualidade. O artigo do El País destaca que falar sobre o corpo, a intimidade e os limites pessoais desde cedo é essencial para a autonomia e a proteção da criança contra abusos.

No Espiritismo, a sexualidade é vista como uma dimensão natural da experiência humana, ligada ao afeto, à reprodução e à evolução do espírito. Autores espíritas contemporâneos reforçam que a educação sexual deve ser baseada em três pilares:

§  respeito ao próprio corpo e ao corpo do outro;

§  responsabilidade nas relações;

§  dignidade humana.

A criança precisa aprender desde cedo que seu corpo lhe pertence e que ela tem o direito de dizer “não” a qualquer situação desconfortável. Essa orientação está em total sintonia com as recomendações da psicologia para a prevenção de abusos.

 

Antes de ensinar, escute

Talvez o ponto mais importante de convergência entre psicologia e Espiritismo seja a escuta.

O El País enfatiza que os pais devem primeiro ouvir o que a criança sente e pensa, antes de oferecer qualquer explicação. A educação não é um monólogo — é um diálogo.

Kardec já orientava nessa direção: a educação moral não se faz por imposição, mas por esclarecimento progressivo. A criança não precisa de discursos prontos. Precisa de:

§  segurança emocional;

§  verdade adequada à sua compreensão;

§  presença afetiva.

Quando escutamos de verdade, criamos um espaço seguro para que a criança confie em nós — e isso faz toda a diferença.

 

Vida, morte e continuidade

Ao unir essas duas perspectivas, formamos uma visão mais ampla da educação infantil. A criança aprende que a existência envolve nascimento, crescimento, perdas e transformações. E o Espiritismo acrescenta a essa visão a ideia de que a vida não se limita ao corpo.

A imortalidade da alma, quando apresentada com simplicidade e respeito à liberdade de pensamento, oferece à criança um sentimento de continuidade. A morte deixa de ser um abismo e passa a ser compreendida como uma passagem.

Isso não elimina o sofrimento, mas transforma a forma como lidamos com ele.

 

Educar para a vida inteira

Falar sobre morte ou sexualidade com crianças não é tirar a inocência delas. É prepará-las para compreender o mundo com serenidade, confiança e responsabilidade.

Se os adultos evitam essas conversas, as crianças continuarão a fazer perguntas — mas podem buscar respostas em lugares menos confiáveis.

Por isso, tanto a psicologia contemporânea quanto a tradição espírita nos lembram de algo essencial:

Educar não é apenas transmitir informações. É formar consciências capazes de enfrentar a vida com lucidez, sensibilidade e esperança.

E, no fundo, quando conversamos com as crianças sobre os temas mais difíceis, não estamos apenas explicando o mundo — estamos ajudando-as a construir o sentido da própria existência.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

DEUS E O UNIVERSO[1]

 


Miramez

 

Formação dos Mundos

O Universo abrange a infinidade dos mundos que vemos e dos que não vemos, todos os seres animados e inanimados, todos os astros que se movem no espaço, assim como os fluidos que o enchem.

Allan Kardec

 

O Universo foi criado, ou existe de toda a eternidade, como Deus?

É fora de dúvida que ele não pode ter-se feito a si mesmo. Se existisse, como Deus, de toda a eternidade, não seria obra de Deus.

Diz-nos a razão não ser possível que o Universo se tenha feito a si mesmo e que, não podendo também ser obra do acaso, há de ser obra de Deus. (Allan Kardec)

Questão 37 / O Livro dos Espíritos

 

O termo DEUS é a partida para todos os assuntos, é a gênese de todo existir, e o universo é o seu trabalho, é o seu "corpo ciclópico" que fala para todos nós, mais de perto, da grandeza do Criador.

Deus é uma causa invisível, mas real. Constatamos sua existência pela sua criação visível, com o que apalpamos e enxergamos. Crer em Deus é função da inteligência. A própria ciência já não pode andar mais sem a convicção da existência de uma força superior que conduz e sustenta todos, na maior expressão que se pode ser. O que a história universal nos oferece está fora dos limites da percepção comum dos homens, os segredos, a ciência, a filosofia e a religião que se constatam no saber são sobremaneira avançados no sistema que a sabedoria nos expõe para que possamos entender, ou começar a entender, os primeiros passos da grandeza universal.

É tão amplo o campo de conhecimento na Terra, que está para nascer nela um homem que conheça todas as coisas em um só conjunto de sistema doutrinário. As divisões existentes em tudo o que se sabe, são para facilitar a compreensão de tudo que se quer aprender. E neste sentido que a medicina, o direito, a mecânica, a religião e a própria cultura se dividem em variadas especialidades. Tudo se divide para ser melhor compreendido e disseminado e para entendermos melhor. Se enchêssemos um saco de letras do alfabeto, nunca entenderíamos o seu grande objetivo, ao passo que se as ordenarmos com inteligência, divididas na harmonia que a mente determina, compreenderemos a sua incomparável missão de instruir as criaturas. Deus dividiu o seu saber pelas leis que determinou, e fez nascer o universo.

Homem algum é capaz de alcançar, e mesmo sentir, o que é a grandeza da vida universal. Mesmo da Terra, em que estagia, a mente humana não tem condições para sentir a sua extensão, visualizando as águas, os mares, as matas, as árvores, o ar, a luz, as trevas, o fogo, os minerais, os animais e eles próprios, cada um com o seu dever específico de acordo com a sua missão e os seus limites. Para tanto, os mesmos homens criaram as leis, e na intuição fizeram uma cópia das leis naturais, não tão perfeitas quanto elas, por não suportarem sua harmonia, mas nessa cópia, é que poderão viver mais ou menos em paz na Terra que habitam por misericórdia de Deus.

O universo não é Deus, no modo que muitos pensam ser. Ele está ligado ao Criador por fios que desconhecemos, por enquanto, porém é obra das suas mãos, na ternura do seu magnânimo coração. Deus fez tudo em perfeita harmonia, por ter em evidência o atributo do Amor. É bom que comparemos as coisas da Terra, no sentido de compreendermos a separação do Criador com as coisas criadas, separação no sentido de entendermos que uma não pode ser a mesma coisa que a outra.

Se no planeta em que vivemos não existissem homens inteligentes, estaria tudo dentro do padrão primitivo, mas, como existem há milênios, os seres capacitados de razão, encontramos grandes obras que revelam os criadores, porque, por si só elas não se fazem.

Essa é a equação que devemos dominar, para reconhecer a existência de um Criador fora da criação, com a sua personalidade diferente, com a sua existência própria, a fazer leis, a construir mundos e sóis, estrelas, galáxias e universos sem conta, que fogem à capacidade humana e mesmo às espirituais.

A mente do homem é insignificante, em comparação com a mente divina, mas pode tornar-se gigante, se ela for obediente aos preceitos organizados pela fonte criadora. E, ainda mais, se o universo existisse de toda a eternidade, como Deus, não poderia ser obra sua. E se ele está submetido às leis, ele não tem vontade própria qual Deus, é uma mecânica dirigida por uma sabedoria, e esta é esse Deus de que falamos e que todos sentem na profundeza da consciência.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 1 – João Nunes Maia