sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

O MISTÉRIO DE AZZO BASSOU - o homem que um dia foi chamado de “o último neandertal da Terra[1]”.

 


 

Em 1931, jornais locais de Marrakech, no Marrocos, começaram a noticiar uma descoberta estranha e inquietante: um homem vivendo longe da sociedade, isolado nas profundezas do Vale do Dades, próximo à cidade de Skoura. Diziam que seu nome era Azzo Bassou — e o que descreviam parecia mais uma figura da pré-história do que um homem do século XX.

Segundo os moradores da região, Azzo vivia em uma caverna.

Alimentava-se de carne crua.

Utilizava apenas ferramentas extremamente primitivas.

Andava nu — e o saco que às vezes colocavam sobre ele servia apenas para que pudesse ser fotografado.

Falavam dele como alguém com compreensão muito limitada do mundo ao redor, aparentemente intocado pela vida moderna, pela linguagem ou pelas regras sociais. Para o mundo exterior, ele se tornou uma sensação — um enigma que borrava a linha entre a antropologia e a lenda.

Logo surgiram sussurros ainda mais extraordinários: seria possível que Azzo não fosse totalmente um humano moderno?

Poderia ele ser… um neandertal que, de alguma forma, havia sobrevivido até os tempos atuais?

Em 1956, quase vinte e cinco anos após Azzo aparecer pela primeira vez nos jornais, o escritor francês Jean Boulet, acompanhado do etnólogo Marcel Gomet, viajou até a região para investigar o caso com mais rigor. Queriam respostas. Queriam ver o homem por trás dos rumores.

Quando cientistas e pesquisadores observaram Azzo, ficaram impressionados com suas características físicas — especialmente o formato de seu crânio. Alguns compararam suas feições a fósseis conhecidos de neandertais e apontaram semelhanças surpreendentes. A arcada superciliar proeminente, as proporções da cabeça, a estrutura do rosto — tudo alimentava a especulação de que ele pudesse representar algo muito mais antigo do que se imaginava encontrar vivo.

Mas a ciência exige mais do que aparência e boatos.

Tragicamente, antes que estudos detalhados pudessem ser concluídos, Azzo Bassou morreu, por volta dos sessenta anos de idade, no meio da investigação. Com ele, morreu também a possibilidade de compreender plenamente quem ele era, como viveu e o que moldou sua existência tão isolada.

Ainda assim, a história não terminou ali.

Duas mulheres foram identificadas como possíveis irmãs suas — Hissa e Gerkaya. Elas compartilhavam traços faciais semelhantes e, assim como Azzo, levavam vidas extremamente duras. Os moradores as descreviam como igualmente “selvagens”, capazes de realizar trabalhos físicos extenuantes sem reclamar, mas apresentando os mesmos sinais de desenvolvimento intelectual limitado.

A existência delas mudou tudo.

Já não se tratava mais de um homem estranho vivendo numa caverna.

Tratava-se de uma família.

Após novos estudos médicos e antropológicos, os pesquisadores chegaram a uma conclusão muito mais concreta — e muito mais triste. Os irmãos quase certamente não eram sobreviventes de uma espécie humana antiga, mas sim pessoas que sofriam de microcefalia, uma condição neurológica rara em que o crânio e o cérebro são significativamente menores do que o normal, enquanto o restante do corpo pode se desenvolver de forma relativamente típica.

A microcefalia costuma vir acompanhada de deficiência intelectual severa, afetando a comunicação, o aprendizado e a autonomia. Em ambientes rurais isolados, sem acesso a cuidados médicos ou apoio social, pessoas com essa condição facilmente se tornam marginalizadas, incompreendidas e empurradas para os limites da sociedade.

Em outras palavras, Azzo Bassou provavelmente não era um relicário da evolução humana.

Ele era um ser humano — profundamente vulnerável, vivendo sem proteção, sem cuidado e sem compreensão por parte do mundo ao seu redor.

E talvez essa seja a parte mais perturbadora de toda a história.

O que os jornais chamaram de milagre científico pode ter sido, na verdade, uma tragédia silenciosa: uma família marcada por graves condições médicas, sobrevivendo como podia, na pobreza e no isolamento, transformada em objeto de curiosidade em vez de receber compaixão.

Por décadas, Azzo Bassou foi lembrado como um mistério da evolução.

Hoje, sua história soa mais como um alerta sobre a facilidade com que a sociedade transforma sofrimento em espetáculo — e sobre como pessoas com deficiência, por muito tempo, dependeram mais da sorte do que de qualquer forma de amparo.

Ele não foi o último neandertal.

Foi apenas um homem que tentaram entender tarde demais.

E ao lembrá-lo, somos forçados a encarar que, às vezes, os maiores mistérios não dizem respeito a de onde viemos — mas a como tratamos aqueles que não conseguem se proteger sozinhos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

ORAR PELOS MORTOS[1]

 

“Oração” - José Ferraz de Almeida

Miramez

 

A Prece

Será útil que oremos pelos mortos e pelos Espíritos sofredores? E, neste caso, como lhes podem as nossas preces proporcionar alívio e abreviar os sofrimentos? Têm elas o poder de abrandar a justiça de Deus?

A prece não pode ter por efeito mudar os desígnios de Deus, mas a alma por quem se ora experimenta alívio, porque recebe assim um testemunho do interesse que inspira àquele que por ela pede e também porque o desgraçado sente sempre um refrigério, quando encontra almas caridosas que se compadecem de suas dores. Por outro lado, mediante a prece, aquele que ora concita o desgraçado ao arrependimento e ao desejo de fazer o que é necessário para ser feliz. Neste sentido é que se lhe pode abreviar a pena, se, por sua parte, ele secunda a prece com a boa-vontade. O desejo de melhorar-se, despertado pela prece, atrai para junto do Espírito sofredor Espíritos melhores, que o vão esclarecer, consolar e dar-lhe esperanças. Jesus orava pelas ovelhas desgarradas, mostrando-vos, desse modo, que culpados vos tornaríeis, se não fizésseis o mesmo pelos que mais necessitam das vossas preces.

Questão 664 / O Livro dos Espíritos

 

Devemos sempre orar pelos Espíritos desencarnados, principalmente pelos sofredores que ignoram a bondade de Deus. Mesmo que seja uma alma devedora em todas as circunstâncias, violenta em todas as suas atividades, devemos a ela um gesto cristão, oferecendo as nossas orações, o nosso carinho, para que possa modificar suas intenções e despertar em seu coração o interesse de ser útil aos que sofrem igualmente. Não é perda de tempo, como alguns pensam, e certas filosofias ensinam; é dever do homem de bem orar pelos que sofrem ou causam sofrimento aos outros. São os doentes que precisam ser tratados.

A prece não vai mudar os desígnios de Deus, nem diminuir as provas dos que incorreram em faltas, porém é força poderosa que parte do coração misericordioso que se instrui com Jesus. O Mestre é a misericórdia viva que veio de Deus para a humanidade.

A oração tem o poder de levar ao desesperado a paciência; ao violento, a calma, ao odiento, o amor, ao sofredor, o alívio. É nesse processo de socorro que se vê o tesouro da prece, quando feita por amor às criaturas. E, ainda mais, a súplica direcionada a outrem tem a propriedade de condicionar no Espírito visado os sentimentos que a acompanham, de modo que o aliviado medite sobre essas bênçãos e tenha o ensejo de modificar seu modo de vida, passando a trabalhar dentro de si e aprimorando seus pensamentos, palavras e obras, pelo simples toque de uma oração a serviço da caridade.

Oremos sempre, entretanto, esquecendo o fanatismo que sempre carrega consigo o apego às coisas materiais, acreditando mais nas formas do que na energia que circula em nome d'Aquele que é tudo para nós outros.

Se devemos orar pelos mortos? Claro que devemos; eles são os mesmos que antes carregavam um fardo físico, e a energia circulante e divina da oração, quando é doada por amor, tem o poder de buscar a criatura visada em qualquer lugar do universo em frações que segundo, envolvendo o Espírito doente e abatido no carinho e no amor que se desprendeu dos sentimentos de quem ofertou a oração nas linhas da caridade.

Para saber orar do modo que Jesus ensinou, necessário se faz que amemos a Deus sobre todas as coisas, e em todas as coisas. Nesse ritmo de súplica, o que ora já está vislumbrando o reino da felicidade e gozando do reino de Deus, como Espírito livre de todos os agravos com que a humanidade possa tentar atingir seu coração.

Para buscar no Evangelho mais segurança quanto à conduta da alma iluminada, verifiquemos o que o Mestre disse, anotado por Marcos, no capítulo doze, versículo trinta e quatro:

Vendo Jesus que ele havia respondido sabiamente, declarou-lhe: Não estás longe do reino de Deus. E já ninguém mais ousava interrogá-lo.

O primeiro passo para o caminho da serenidade é não responder à ofensa, porque o agravo vem com o magnetismo inferior do ofensor e cria ambiente para discussões estéreis, de modo que pode surgir a discórdia e mesmo inimizade, a durarem por tempo indeterminado. A violência é fonte de sofrimento e de mal-estar, e em seu lugar deve nascer o perdão, porque ele asserena todas as fúrias. Se o ofensor continuar, os Espíritos superiores isolarão suas investidas no homem de bem, e ele ficará a sós com as suas maldades e suas paixões inferiores.

É útil, sim, orar pelos Espíritos sofredores em qualquer estágio em que se encontrarem, pois a prece do coração em Cristo é luz que estabiliza a harmonia, onde for direcionada.


[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 14 – João Nunes Maia

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

AS CORRESPONDÊNCIAS CRUZADAS[1]

 

Frederic William Henry Myers


Trevor Hamilton

 

Frederic Myers, cofundador da Sociedade de Pesquisa Psíquica e, supostamente, uma força motriz por trás do fenômeno da correspondência cruzada após sua morte.

Em parapsicologia, o termo "correspondências cruzadas" descreve um fenômeno que surgiu no início do século XX no estudo da "escrita automática", uma prática na qual uma pessoa escrevendo em estado de semitranse pode obter textos aparentemente originários do inconsciente, mas também, ocasionalmente, de uma fonte externa. Investigadores da Sociedade de Pesquisa Psíquica notaram que declarações em um texto produzido por uma pessoa às vezes pareciam conectadas a declarações semelhantes em textos produzidos por uma ou mais pessoas em outro lugar, aproximadamente na mesma época, sem que tivesse ocorrido qualquer comunicação entre essas pessoas. Eles concluíram que tais "correspondências" estavam sendo criadas deliberadamente por certos colegas recentemente falecidos para convencê-los de que haviam sobrevivido à morte, e de forma a excluir outras explicações possíveis.

Em 1936, mais de 3.000 manuscritos estavam disponíveis para avaliação. O fenômeno foi minuciosamente analisado por figuras importantes da Sociedade de Pesquisa Psíquica (SPR, na sigla em inglês) e, durante décadas, foi considerado por muitos na comunidade de pesquisa psíquica como uma prova convincente da sobrevivência após a morte. Hoje, essa opinião é menos contundente, visto que a extrema complexidade de algumas das correspondências alegadas e a obscuridade das referências literárias em que frequentemente se baseiam dificultam uma avaliação precisa. Alguns continuam a considerá-las convincentes, enquanto outros argumentam que sua força foi exagerada.

Este artigo introdutório descreve o contexto e os princípios básicos. As fontes para uma leitura mais detalhada são fornecidas abaixo.

 

Fundo

Frederic Myers , um dos fundadores da Sociedade de Pesquisa Psíquica, faleceu em 17 de janeiro de 1901. Em 13 de março, Margaret Verrall, colega, vizinha e amiga íntima de Myers e professora de estudos clássicos na Universidade de Cambridge, começou a experimentar a escrita automática. Um dos principais objetivos era oferecer a Myers, caso (por mais improvável que fosse) ele tivesse sobrevivido à morte do corpo, a possibilidade de se comunicar com os vivos. Eventualmente, mensagens assinadas por "Myers" começaram a aparecer em seus manuscritos, algumas escritas em grego ou latim.

Dois anos depois, a filha de Verrall, Helen, seguiu seus passos e começou a praticar a escrita automática, na qual mensagens semelhantes de "Myers" às vezes apareciam. Independentemente, Alice Fleming (irmã de Rudyard Kipling), que então vivia na Índia, também se dedicou à prática: em um de seus primeiros escritos, "Myers" a incentivava a entrar em contato com Verrall em Cambridge, fornecendo o endereço de Verrall naquela cidade. Outra automatista importante desse período foi Winifred Coombe-Tennant, cunhada de Myers, uma mulher com amplos interesses sociais e culturais, cujos dons mediúnicos foram intensamente estudados por pesquisadores da SPR e que iniciou a escrita automática em 1908 (ela é referida na literatura como "Sra. Willett"). Essas mulheres eram altamente instruídas e capazes de ter uma visão objetivamente crítica do material que produziam.

Outras contribuições foram feitas por Leonora Piper, uma médium profissional que estava sendo investigada por pesquisadores da SPR, e cuja escrita automática também continha declarações de 'Myers' ao mesmo tempo em que estas começaram a aparecer em textos de outros automatistas. Nem Fleming, nem Willett, nem Piper possuíam conhecimento significativo de grego ou latim, o que refuta a hipótese de que tenham influenciado o conteúdo dos textos.

Em um relatório inicial sobre os roteiros publicado nos Anais da Sociedade de Pesquisa em Literatura (SPR) em 1906, Margaret Verrall mostrou-se desdenhosa em relação a grande parte do material que ela e sua filha haviam produzido[2]. Aparentemente, incluíam exemplos de telepatia e clarividência, mas muitos eram desconexos e apresentavam frases confusas. Ela estava intrigada com as frequentes referências à literatura e à história.

No entanto, em abril daquele ano, a pesquisadora da SPR, Alice Johnson, chegou a uma conclusão surpreendente: que, ao conectar certos fragmentos produzidos por diferentes automatistas, um padrão emergia, como se fossem peças de um quebra-cabeça[3]. Tal coisa, argumentou Johnson, só poderia ser alcançada sob a direção de uma única mente, pelo menos na ausência de qualquer conluio deliberado entre os automatistas, alguns dos quais, durante algum tempo, viveram em continentes diferentes. Se essa mente fosse a de Myers, como parecia ser o caso, teria sido uma manobra deliberada de sua parte para superar a objeção comum de que as mensagens transmitidas por médiuns, ostensivamente provenientes de desencarnados, na verdade se originavam nas mentes de pessoas vivas, ou seja, por meio de percepção extrassensorial (o que hoje é frequentemente chamado de "super-psi" ou psi de "agente vivo").

Isso foi confirmado por 'Myers' e outros supostos autores dos manuscritos: eles afirmaram que um tema único, distribuído entre vários automatistas, nenhum dos quais sabia o que os outros estavam escrevendo, provaria que uma única mente independente, ou grupo de mentes, estava por trás de todo o fenômeno. O propósito de incluir alusões obscuras à literatura greco-romana antiga era estabelecer a identidade de Myers e de dois outros colegas falecidos que, como ele, eram estudiosos clássicos com profundo conhecimento do assunto: Henry Sidgwick e Edmund Gurney, cofundadores da SPR com Myers. Posteriormente, juntaram-se a eles como comunicadores Henry Butcher, professor de grego na Universidade de Edimburgo, e A.W. Verrall, membro do Trinity College, em Cambridge, e marido de Margaret Verrall.

Algumas das correspondências cruzadas e enigmas literários nos manuscritos parecem impressionantes, assim como certos casos de aparente telepatia e clarividência. Também fica evidente nos relatórios a determinação dos investigadores em descartar todas as vias normais para a obtenção de informações aparentemente paranormais, incluindo criptomnésia (memória inconsciente) e conhecimento dos manuscritos uns dos outros no momento da escrita[4]. Foram feitos esforços para manter os automatistas na ignorância da produção uns dos outros[5].

 

Alguns exemplos

Amarelo

Um exemplo de ligação simples é o seguinte. Em 6 de agosto de 1906, Alice Fleming, em sua casa na Índia, escreveu estas palavras em um script automático:

amarelo… marfim amarelo

Dois dias depois, em 8 de agosto, Margaret Verrall, escrevendo de sua casa em Cambridge, escreveu estas palavras:

Eu fiz isso esta noite, amarelo é a palavra escrita… Diga apenas amarelo

Essas correspondências podem ser distinguidas das coincidências comuns pelo fato de ocorrerem quase simultaneamente e serem sinalizadas, ou comentadas de alguma forma, pela inteligência comunicadora[6].

 

Tânatos

Essa correspondência cruzada inicial, mais complexa, baseia-se em um tema simples que conecta três pessoas em diferentes partes do mundo. Foi descoberta por John Piddington, secretário honorário da Sociedade de Pesquisa Psíquica, que se interessou particularmente pelo fenômeno e dedicou as décadas seguintes ao seu estudo[7].

Margaret Verrall (na Grã-Bretanha), em um script automático em 29 de abril, escreveu:

Aquecei as duas mãos diante do fogo da vida. Ele se apaga e estou pronto para partir.

Ela também desenhou a letra grega δ (delta).

Ela então escreveu em latim as palavras 'Dê lírios com as mãos cheias'; as palavras em inglês 'Venha, venha'; e, novamente em latim, as palavras 'morte pálida'.

Por fim, ela escreveu:

Você tem a palavra claramente escrita em todo o seu próprio texto. Releia.

A última declaração, aparentemente uma instrução, encorajou Piddington a procurar outras possíveis conexões. Em transcrições de sessões com a médium Leonora Piper (em Boston), ele descobriu que ela havia sido ouvida pronunciando a palavra "thanatos" ao sair do transe, ao final de quatro sessões entre 17 de abril e 7 de maio. Ela não sabia o que significava, mas disse que sentiu um impulso de dizer a palavra.

Piddington também descobriu que Alice Fleming (na Índia), em um script automático em 16 de abril, havia escrito:

Maurice Morris Mors. E com isso, a sombra da morte caiu sobre seus membros.

Para Piddington, a intenção era clara. A palavra "thanatos" é grego antigo para morte (Piper não conhecia grego), sinalizando um tema que, na época, estava sendo amplamente abordado em outros roteiros. Fleming fez referência a um poema inglês sobre a morte; Maurice era um jovem soldado amigo dela que havia morrido em batalha; "mors" é latim para morte (Fleming não conhecia latim). Verrall havia feito referência a um poema de Walter Savage Landor sobre o tema da morte; uma citação de Shakespeare sobre a morte; uma passagem da Eneida de Virgílio onde Anquises prevê a morte prematura de Marcelo ("dai lírios com as mãos cheias"); e uma referência às Odes de Horácio onde se diz que a "morte pálida" atinge igualmente mendigos e reis.

Resumindo, tudo indicava que uma única inteligência, num período de cerca de três semanas, havia disseminado elementos de um tema marcante de forma calculada para chamar a atenção dos investigadores.

 

Esperança, Estrela e Browning (1906-7)

Este exemplo mais complexo foi iniciado por John Piddington com a médium Leonora Piper, que foi convidada para a Inglaterra em 1906 para ver se ela poderia contribuir para o fenômeno da correspondência cruzada[8]. Piddington teve a ideia de pedir à inteligência comunicante que afirmava ser Frederic Myers que enviasse uma mensagem diferente para dois automatistas e, em seguida, enviasse uma mensagem para uma terceira pessoa que revelaria uma conexão oculta entre as duas primeiras.

A tentativa teve início em uma sessão em dezembro de 1906. Quando Piper entrou em transe, Piddington iniciou uma conversa com seu controlador, o Rector (uma suposta personalidade desencarnada atuando como intermediária), lendo uma mensagem escrita em latim (que não teria significado para a própria Piper) com o pedido de que fosse repassada a "Myers". Piddington pediu ainda que Myers transmitisse o conteúdo da mensagem a Margaret Verrall e que acrescentasse algumas palavras-código ou símbolos para confirmar que a mensagem era dele.

Em sessões posteriores, Rector informou Piddington de que a mensagem havia sido transmitida a 'Myers', e também que 'Myers' estava sendo auxiliado na tarefa por Richard Hodgson, um pesquisador da SPR que havia falecido no ano anterior.

Em uma sessão realizada em 16 de janeiro, o Rector transmitiu uma breve declaração de 'Myers', na qual ele afirmava acreditar que poderia fazer o que Piddington havia solicitado. Referindo-se à sua sugestão anterior, Piddington especificou os símbolos que desejava que 'Myers' acrescentasse à sua mensagem para Verrall, a fim de indicar que uma correspondência cruzada estava sendo tentada: um círculo contendo um triângulo.

Num roteiro de Margaret Verrall, datado de 23 de janeiro, constava o seguinte:

A justiça segura a balança. Isso dá as palavras, mas um anagrama seria melhor. Diga a ele que – ratos, estrela, alcatrão e assim por diante. Tente isto. Já foi tentado antes. RATS. Reorganize essas cinco letras ou novamente lágrimas… olhar fixo.

(Os anagramas eram um interesse particular de Hodgson e Myers.)

Novamente em 28 de janeiro, Margaret Verrall escreveu:

Aster [latim para estrela] Teras [grego] para signo e também um anagrama para estrela… E tudo uma maravilha e um desejo selvagem… a esperança que deixa a terra para ir para o céu – Abt Vogler…

Isso foi acompanhado por um desenho de um triângulo dentro de um círculo.

Piper, em uma sessão de 11 de fevereiro, disse (em transe):

Eu me referi a Hope e Browning… Também mencionei Star… fiquem de olho em Hope, Star e Browning.

Num roteiro de Margaret Verrall, datado de 17 de fevereiro, apareceu o desenho de uma estrela e as palavras:

Esse foi o sinal que ela entenderá quando vir... Nenhuma arte adianta... ratos por toda parte na cidade de Hamelin.

O Flautista de Hamelin é um poema de Browning que narra a lenda medieval do misterioso caçador de ratos que atraía os ratos da cidade tocando sua flauta.

Em uma sessão de Piper em 13 de março:

Isso me sugeriu um poema, daí BHS [Browning Hope Star]

Em uma sessão com Piper em 20 de março, 'Myers' foi lembrado de que havia prometido dizer qual poema específico de Browning ele estava se referindo. Finalmente, em 24 de abril, o poema Abt Vogler foi indicado. Questionado sobre o motivo, ele disse: 'Escolhi esse por causa das condições apropriadas mencionadas nele, que se aplicavam à minha própria vida'.

Piddington considerou que este episódio cumpriu com sucesso os critérios que delineou no início. 'Myers' acatou sua sugestão inicial, enviando mensagens para Margaret Verrall e Helen Verrall, e eventualmente entregando a uma terceira pessoa, Piper, uma mensagem final que, ao mencionar Abt Vogler, confirmava amplamente Browning como o tema unificador. Além disso, as mensagens eram acompanhadas por frequentes alusões, por parte da inteligência comunicadora, à tarefa que estava sendo tentada, indicando que as coincidências não eram puramente aleatórias.

Entretanto, referências a anagramas de 'rats/star' e palavras semelhantes continuaram a aparecer. Mais tarde, Piddington descobriu rabiscos de tentativas de anagramas dessas palavras entre os documentos pessoais do falecido Hodgson.

 

A Orelha de Dionísio (1918)

Este complexo enigma literário surgiu em roteiros automáticos escritos pela médium 'Sra. Willett' (Winifred Coombe-Tennant). Tudo começou com uma declaração dirigida a Margaret Verrall, supostamente vinda de seu falecido marido, A.W. Verrall: 'Você se lembra de que não sabia e eu reclamei da sua ignorância clássica?'.

Seguiram-se referências à acústica, uma galeria de sussurros, escravos, tirano, "lugar de uma orelha só", Campo de Enna e Siracusa. Todas essas são alusões à Orelha de Dionísio, uma gruta rochosa em Siracusa com formato semelhante ao de uma orelha de burro, construída por Dionísio quando ele era o tirano governante daquela cidade. A gruta funcionava como uma galeria de sussurros, amplificando os sons, e era usada por Dionísio para ouvir as conversas dos prisioneiros ali confinados. Margaret Verrall então lembrou-se de ter perguntado certa vez ao marido sobre a gruta e de ter sido repreendida, em tom de riso, por sua ignorância.

Os comunicadores, que se identificaram como A.W. Verrall e seu falecido colega Henry Butcher, também um estudioso de literatura clássica, ofereceram então uma série de outras alusões obscuras como um enigma para os investigadores desvendarem. Estas centravam-se na história do monstro de um olho só, Polifemo, descrito na Odisseia de Homero , cujo amor por Galateia é rejeitado e que, num acesso de ciúme, esmaga seu amado Ácis até à morte com uma pedra. Outro tema forte é a Sicília, cenário da história.

Outros elementos nos roteiros incluíam menção a 'Filox Ciclópico', que outrora trabalhara nas pedreiras perto da gruta e escrevera uma sátira intitulada Ciúme. Essa pista acabou por levar os investigadores a um poema num obscuro livro académico intitulado Poetas Mélicos Gregos, que A.W. Verrall usara como texto para as suas palestras. As várias alusões nos roteiros foram todas encontradas aqui e em nenhum outro lugar, e parecia que apenas estudiosos clássicos do calibre de Verrall e Butcher teriam sido capazes de identificar a fonte. Os investigadores também ficaram impressionados com as características facilmente reconhecíveis dos comunicadores e convenceram-se de que estavam em contacto com as mentes sobreviventes de Verrall e Butcher[9] .

 

Avaliações e debates

As correspondências cruzadas foram tema de numerosos e extensos relatórios de pesquisa em publicações da SPR, de autoria de Margaret Verrall, Alice Johnson, John Piddington e outros. Esses relatórios geraram considerável debate dentro da SPR (veja aqui a lista e os resumos).

A visão predominante dos investigadores da SPR pode ser resumida numa avaliação de 1917 feita por Eleanor Sidgwick :

Precisamos encontrar o criador. Não pode ser a inteligência supraliminar (isto é, consciente) de nenhum dos automatistas, pois, por hipótese, nenhum deles tem consciência do projeto até que ele esteja concluído. Nem, por uma razão semelhante, pode ser atribuído a alguma outra pessoa viva, já que, até onde se sabe, nenhuma outra pessoa viva tinha conhecimento do que estava acontecendo. É extremamente difícil supor que o projeto seja um plano elaborado da inteligência subliminar (isto é, subconsciente) de um ou de ambos os automatistas agindo independentemente e sem qualquer conhecimento por parte da consciência supraliminar; e a única hipótese restante parece ser que o criador seja uma inteligência externa, não interna ao corpo…

Devo admitir que o efeito geral das evidências em minha própria mente é que há cooperação conosco por parte de amigos e ex-companheiros de trabalho que não fazem mais parte da organização[10].

Essa visão continuou a ser defendida por comentaristas mais recentes que escreveram sobre sobrevivência. Em um estudo de 1959, Hornell Hart concluiu:

Somente com extrema dificuldade as correspondências cruzadas podem ser explicadas como resultado de fabricações de mentes fisicamente corporificadas… [Elas] fornecem evidências persuasivas, não apenas da sobrevivência das personalidades representadas, mas também de sua inteligência alerta contínua e de sua persistente determinação em demonstrar sua existência contínua de maneiras inexplicáveis ​​até mesmo pela percepção extrassensorial superior[11].

 

Crítica

Críticas contundentes também foram feitas. Nos primeiros anos, os espiritualistas convencidos da sobrevivência espiritual consideravam o movimento elitista e excessivamente complexo, além de inferior às melhores evidências fornecidas por certos médiuns mentais e físicos[12].

No entanto, a maior parte das críticas provém de uma perspectiva anti-sobrevivência. Alguns comentadores sustentam que, apesar do caráter complexo e aparentemente proposital das correspondências cruzadas, a possibilidade de que elas tenham surgido por meio de telepatia e clarividência dos vivos não está conclusivamente descartada[13]. Uma objeção específica diz respeito ao papel proeminente desempenhado por Margaret Verrall, que, como estudiosa de clássicos, possuía o conhecimento detalhado que poderia tê-la permitido, subconscientemente, elaborar os enigmas em seus próprios roteiros e se comunicar telepaticamente com outros médiuns e automatistas durante suas próprias produções. Uma teoria ainda mais elaborada é a de que os enigmas foram elaborados, novamente subconscientemente, por Myers, A.W. Verrall, Butcher e os demais durante suas próprias vidas e "plantados" nas mentes dos automatistas. Tais teorias se baseiam no que mais tarde passou a ser chamado de "hipótese super-psi", segundo a qual a aparente evidência de sobrevivência espiritual é, na verdade, causada pela operação inconsciente e virtualmente ilimitada da psi.

Os críticos também argumentaram que o acaso pode ter desempenhado um papel importante na criação de ilusórias correspondências cruzadas[14]. Sugere-se que falsas 'correspondências cruzadas' podem ser plausivelmente encontradas em qualquer grande conjunto de material literário.

Outra perspectiva, apresentada por Trevor Hamilton (2017), é que os investigadores estavam demasiado próximos do seu objeto de estudo para formularem uma avaliação objetiva. Eram amigos e colegas de Myers, partilhando na sua maioria a sua formação academica em Cambridge e as suas atitudes, e é legítima a suspeita de que, embora houvesse muito material ostensivamente paranormal nos guiões, as suas conclusões foram em parte produto de desejos e pensamento de grupo[15].

Hamilton também discute o caso entre Winifred Coombe-Tennant, uma das principais automatistas, e Gerald Balfour, um importante intérprete dos textos posteriores, e o impacto que isso pode ter tido em uma avaliação objetiva do material.

 

Contra-argumentos dos sobrevivencialistas

Contra-argumentos foram apresentados pelos defensores da visão sobrevivencialista. A possibilidade de um efeito espúrio criado por correspondências aleatórias foi reconhecida em um estágio inicial pelos investigadores da SPR. No entanto, quando realizaram pesquisas experimentais, não encontraram evidências que apoiassem essa ideia[16]. A alegação também foi examinada em profundidade e rejeitada por pesquisadores mais recentes[17].

A explicação "super-psi" das correspondências cruzadas tem sido vigorosamente contestada, principalmente por Chris Carter, que, juntamente com outros materiais úteis, fornece um resumo detalhado e claro do Caso Lete, por vezes considerado o padrão ouro das correspondências cruzadas[18].

Com relação a qualquer contribuição psi inconsciente por parte de Margaret Verrall, Archie Roy destaca que, se ela tivesse sido de fato indiretamente responsável, seria de se esperar que sua morte pusesse fim ao fenômeno, quando na verdade ele continuou tão forte quanto antes, e por vários anos.

Roy acrescenta mais dois pontos:

Em primeiro lugar, vários dos diversos casos de correspondência cruzada envolvem um processo bidirecional, em que os esforços dos investigadores para decifrar os textos provocam uma reação contemporânea por parte da Script Intelligence, quando esta se vê obrigada a facilitar o trabalho dos investigadores para que cheguem a uma solução…

Em segundo lugar, a natureza das objeções [super-psi], cada vez mais elaboradas – alguns diriam irremediavelmente bizantinas em sua engenhosidade – e que invocam a operação de alguma faculdade envolvendo telepatia, clarividência e precognição em larga escala para evitar a simples hipótese de que os comunicadores eram quem diziam ser, demonstra o poder das Correspondências Cruzadas em exibir o paranormal em ação[19].

 

Literatura

Nota: Uma lista de artigos acadêmicos sobre as correspondências cruzadas por pesquisadores da SPR, com resumos breves, pode ser encontrada aqui.

 

§  Balfour, G. (1918). The Ear of Dionysius: Further scripts affording evidence of personal survival. Proceedings of the Society for Psychical Research 29, 197-244.

§  Blum, D. (2007). Ghost Hunters: The Victorians and the Hunt for Proof of Life after Death. London: Arrow Books.

§  Braude, S.E. (2003). Immortal Remains: The Evidence for Life after Death. Lanham, Maryland, USA: Rowman and Littlefield.

§  Carter, C. (2012). Science and the Afterlife Experience: Evidence for the Immortality of Consciousness. Rochester, Vermont, USA: Inner Traditions.

§  Hamilton, T. (2013). The cross-correspondence atomatic writings and the Spiritualists. In The Spiritualist Movement. Speaking with the Dead in America and around the World (Vol. 2), ed. by C. Moreman, 265-82. Santa Barbara, California, USA: Praeger.

§  Hamilton, T. (2017). Arthur Balfour’s Ghosts: An Edwardian Elite and the Riddle of the Cross-Correspondence Automatic Writings. Exeter, UK: Imprint Academic.

§  Hart, H. (1959). The Enigma of Survival: The Case For and Against an After Life. London: Rider.

§  Johnson, A. (1911). Coincidences in pseudo-scripts. Journal of the Society for Psychical Research 15, 291-96.

§  Johnson, A. (1908). On the automatic writing of Mrs Holland. Proceedings of the Society for Psychical Research 21 (June), 166-391.

§  Keen, M., & Roy, A.E. (2004). Chance coincidence in the cross-correspondences. Journal of the Society for Psychical Research 68, 57-59.

§  Moreman, C.M. (2003). A re-examination of the possibility of chance coincidence as an alternative explanation for mediumistic communication in the cross-correspondences. Journal of the Society for Psychical Research 67, 225-42

§  Moreman, C.M. (2004). [Correspondence]. Journal of the Society for Psychical Research 68, 60-61.

§  Piddington, J.G. (1908). A series of concordantautomatisms. Proceedings of the Society for Psychical Research 22.

§  Roy, A. (1990). A Sense of Something Strange. Glasgow, UK: Dog and Bone Press.

§  Sudduth, M. (2016). A Philosophical Critique of Empirical Arguments for Postmortem Survival. Basingstoke, UK: Palgrave Macmillan.

§  Verrall, A.W. (1906). On a series of automatic writings. Proceedings of the Society for Psychical Research 20.

§  Verrall, H. de G. (1911). The element of chance in cross-correspondences. Journal of the Society for Psychical Research 15, 153-72.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Verrall (1906).

[3] Johnson (1908).

[4] Em Balfour (1927).

[5] Roy (1990), 250.

[6] Hamilton (2013), 266.

[7] Piddington (1908), 59-77. Um resumo pode ser encontrado em Blum (2007), 276-81.

[8] Piddington (1908), 59-77. Um resumo pode ser encontrado em Blum (2007), 276-81.

[9] Balfour (1918), 197-244. Um resumo pode ser encontrado em Roy (1990), 252-53.

[10] Citado em Roy (1990), 254-55.

[11] Hart (1959).

[12] Hamilton (2013).

[13] Braude (2003); Sudduth (2016).

[14] Moreman (2003); Moreman (2004).

[15] Hamilton (2017).

[16] Veja, por exemplo, Verrall (1911), 153-72; Johnson (1912), 291-96.

[17] Keen e Roy (2004).

[18] Carter (2012).

[19] Roy (1990), 254.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

PNEUMATOGRAFIA OU ESCRITA DIRETA[1]

 


Allan Kardec

 

A pneumatografia é a escrita produzida diretamente pelo Espírito, sem intermediário algum; difere da psicografia, por ser esta a transmissão do pensamento do Espírito, mediante a escrita feita com a mão do médium. Demos essas duas palavras no Vocabulário Espírita, posto no início de nossa Instrução Prática, com a indicação de sua diferença etimológica. Psicografia, do grego psykê, borboleta, alma; e graphus, eu escrevo; Pneumatografia, de pneuma, ar, sopro, vento, Espírito. No médium escrevente a mão é um instrumento, mas a sua alma, ou Espírito encarnado, é o intermediário, o agente ou o intérprete do Espírito estranho que se comunica; na Pneumatografia, é o próprio Espírito estranho que escreve diretamente, sem intermediário.

O fenômeno da escrita direta é, inegavelmente, um dos mais extraordinários do Espiritismo. Por anormal que pareça à primeira vista, é hoje um fato verificado e incontestável. Se dele ainda não falamos, é que esperávamos poder dar-lhe a explicação e já ter procedido às observações necessárias, a fim de tratar a questão com conhecimento de causa. A teoria, sempre necessária para nos inteirarmos da possibilidade dos fenômenos espíritas em geral, talvez ainda se faça mais necessária neste caso que, sem contestação, é um dos mais estranhos que se possam apresentar, deixando, porém, de parecer sobrenatural, desde que se lhe compreenda o princípio.

Da primeira vez que este fenômeno se produziu, a dúvida foi o sentimento dominante que deixou. Logo acudiu aos que o presenciaram a ideia de um embuste. Toda gente, com efeito, conhece a ação das tintas chamadas simpáticas, cujos traços, a princípio completamente invisíveis, aparecem ao cabo de algum tempo. Podia, pois, dar-se que tivessem, por esse meio, abusado da credulidade dos assistentes, e longe nos achamos de afirmar que nunca o tenham feito. Estamos até convencidos de que algumas pessoas, não com propósito mercenário, mas unicamente por amor-próprio e para fazer acreditar nas suas faculdades, hão empregado subterfúgios.

Na terceira das cartas escritas de Montaigne, J.-J. Rousseau refere o seguinte fato:

Em 1743 vi em Veneza uma nova espécie de sortilégio, mais estranho que os de Préneste; quem o quisesse consultar entrava numa câmara, ali permanecendo sozinho, caso o desejasse. De um livro de folhas brancas tirava uma de sua escolha; depois, segurando essa folha, pedia mentalmente, e não em voz alta, aquilo que desejava saber; em seguida, dobrava a folha branca, depositava-a num envelope, lacrava-o e o colocava, assim fechado, dentro de um livro. Finalmente e sem perder o livro de vista, depois de haver recitado algumas fórmulas muito extravagantes, verificava se o selo não tinha sido violado, abria o envelope, retirava o papel e encontrava escrita a resposta. O mágico que fazia estas sortes era o primeiro secretário da Embaixada da França e se chamava J.-J. Rousseau.

Duvidamos que Rousseau tenha conhecido a escrita direta, pois, do contrário, teria sabido outras coisas relativas às manifestações espíritas e não teria tratado do assunto com tanta leviandade. Como ele próprio reconheceu quando o interrogamos sobre este fato, é provável que utilizasse um processo que aprendera de um charlatão italiano.

Entretanto, do fato de se poder imitar uma coisa, fora absurdo concluir-se pela sua inexistência. Nestes últimos tempos, não se há encontrado meio de imitar a lucidez sonambúlica, a ponto de causar ilusão? Mas, porque esse processo de saltimbanco se tenha exibido em todas as feiras, dever-se-á concluir que não haja verdadeiros sonâmbulos? Porque certos comerciantes vendem vinho falsificado, será uma razão para que não haja vinho puro? O mesmo sucede com a escrita direta. Bem simples e fáceis eram, aliás, as precauções a serem tomadas para garantir a realidade do fato e, graças a essas precauções, hoje ele já não pode constituir objeto da mais ligeira dúvida.

Considerando-se que a possibilidade de escrever sem intermediário representa um dos atributos do Espírito; uma vez que os Espíritos sempre existiram desde todos os tempos e que desde todos os tempos se hão produzido os diversos fenômenos que conhecemos, o da escrita direta igualmente se há de ter operado na Antiguidade, tanto quanto nos dias atuais. Deste modo é que se pode explicar o aparecimento das três palavras célebres, na sala do festim de Baltazar. A Idade Média, tão fecunda em prodígios ocultos, mas que eram abafados por meio das fogueiras, também deve ter conhecido a escrita direta; igualmente é possível que, na teoria das modificações por que podem os Espíritos fazer passar a matéria, teoria que desenvolvemos em nosso artigo anterior, se encontre o fundamento da crença na transmutação dos metais. É um ponto que abordaremos qualquer dia.

Um de nossos assinantes ultimamente nos dizia que um de seus tios, cônego, que durante muitos anos havia sido missionário no Paraguai, obtinha, por volta do ano 1800, a escrita direta, juntamente com seu amigo, o célebre abade Faria. Seu processo, que nosso assinante jamais chegou a conhecer bem, e que de alguma sorte surpreendera casualmente, consistia numa série de anéis pendurados, aos quais eram adaptados lápis, dispostos em posição vertical, cujas pontas apoiavam-se no papel. Esse processo refletia a infância da arte; depois progredimos.

Todavia, quaisquer que tenham sido os resultados obtidos em diversas épocas, só depois de vulgarizadas as manifestações espíritas foi que se tomou a sério a questão da escrita direta. Ao que parece, o primeiro a torná-la conhecida, estes últimos anos, em Paris, foi o barão de Guldenstubbé, que publicou sobre o assunto uma obra muito interessante, com grande número de fac-símiles das escritas que obteve[2]. O fenômeno já era conhecido na América, havia algum tempo. A posição social do Sr. Guldenstubbé, sua independência, a consideração de que goza nas mais elevadas rodas incontestavelmente afastam toda suspeita de fraude intencional, porquanto não havia nenhum motivo de interesse a que ele obedecesse. Quando muito, o que se poderia supor, é que fora vítima de uma ilusão; a isto, porém, um fato responde peremptoriamente: o de haver outras pessoas obtido o mesmo fenômeno, cercadas de todas as precauções necessárias para evitar qualquer embuste e qualquer causa de erro.

A escrita direta é obtida, como em geral a maior parte das manifestações espíritas não espontâneas, por meio da concentração, da prece e da evocação. Tem-se produzido em igrejas, sobre túmulos, no pedestal de estátuas, ou imagens de personagens evocadas. Evidentemente, o local não exerce nenhuma outra influência, além da de facultar maior recolhimento espiritual e maior concentração dos pensamentos, porquanto provado está que o fenômeno se obtém, igualmente, sem esses acessórios e nos lugares mais comuns, sobre um simples móvel caseiro, desde que os que desejam obtê-lo se achem nas devidas condições morais e, entre esses, se encontre quem possua a necessária faculdade mediúnica.

Julgou-se, a princípio, ser preciso colocar aqui ou ali um lápis com o papel. O fato então podia, até certo ponto, explicar-se.

É sabido que os Espíritos produzem o movimento e a deslocação dos objetos; que, algumas vezes, os tomam e atiram longe. Bem podiam, pois, tomar também do lápis e servir-se dele para traçar letras. Visto que o impulsionam, utilizando-se da mão do médium, de uma prancheta etc., podiam, do mesmo modo, impulsioná-lo diretamente. Não tardou, porém, se reconhecesse que o lápis era dispensável, que bastava um pedaço de papel, dobrado ou não, para que, ao cabo de alguns minutos, se achassem nele grafadas as letras.

Aqui, o fenômeno já muda completamente de aspecto e nos transporta a uma ordem inteiramente nova de coisas. As letras hão de ter sido traçadas com uma substância qualquer. Ora, sendo certo que ninguém forneceu ao Espírito essa substância, segue-se que ele próprio a compôs. Donde a tirou? Esse o problema.

O general russo, conde de B... mostrou-nos uma estrofe de dez versos alemães obtida dessa maneira por intermédio da irmã do barão de Guldenstubbé, simplesmente colocando uma folha de papel, arrancada de sua própria caderneta, debaixo do pedestal do relógio da chaminé. Tendo-a retirado ao cabo de alguns minutos, nela encontrou versos em caracteres tipográficos alemães muito finos e de perfeita pureza. Através de um médium psicógrafo o Espírito lhe disse que queimasse esse papel; como hesitasse, lamentando sacrificar um espécimen tão precioso, o Espírito acrescentou: “Nada temais; dar-te-ei um outro”. Com essa garantia, lançou o papel ao fogo, depois colocou uma segunda folha, igualmente tirada de sua carteira, sobre a qual os versos se achavam reproduzidos, exatamente da mesma maneira. Foi essa segunda edição que vimos e examinamos com o maior cuidado e, coisa bizarra, os caracteres apresentavam um relevo como se tivessem saído do prelo. Não é, pois, apenas o lápis que os Espíritos podem fazer, mas a tinta e os caracteres de imprensa.

Um dos nossos honrados colegas da Sociedade, o Sr. Didier obteve há alguns dias os resultados seguintes, que tivemos oportunidade de constatar, e cuja perfeita identidade podemos garantir. Tendo ido à igreja de Nossa Senhora das Vitórias, com a Sra. Huet, que há pouco obteve sucesso em experiências desse gênero, tomou uma folha de papel de carta com o timbre de sua casa comercial, dobrou-a em quatro e a colocou sobre os degraus de um altar, rogando, em nome de Deus, que um Espírito bom se dignasse escrever alguma coisa. Ao cabo de dez minutos de recolhimento encontrou no interior e numa das partes dobradas da folha a palavra e num dos outros campos a palavra Deus. A seguir, tendo pedido ao Espírito que dissesse quem havia escrito aquilo, recolocou o papel no mesmo lugar e, após dez minutos, encontrou estas palavras: por Fénelon.

Oito dias mais tarde, a 12 de julho, quis repetir a experiência e dirigiu-se ao Louvre, à sala Coyzevox, situada sob o pavilhão do relógio. Sobre a base do busto de Bossuet pôs uma folha de papel, dobrada como a primeira, mas nada obteve. Um menino de cinco anos o acompanhava e seu boné foi deixado no pedestal da estátua de Luís XIV, que se encontrava a alguns passos da primeira. Julgando que a experiência houvesse falhado, já se dispunha a sair quando, ao pegar o boné, percebeu embaixo deste, como se fora escrito a lápis sobre o mármore, a expressão amai a Deus, seguida da letra B. O primeiro pensamento que veio à mente dos assistentes foi o de que tais palavras poderiam ter sido escritas anteriormente por mãos estranhas, que não foram percebidas.

Entretanto, quiseram tentar a prova novamente, recolocando a folha dobrada em cima dessas palavras, cobrindo-as com o boné.

Decorridos alguns minutos perceberam que a folha continha três letras: a i m. Repuseram o papel e pediram fossem os escritos completados e obtiveram: Amai a Deus, isto é, aquilo que fora escrito no mármore, menos o B. Ficava assim evidente que as primeiras letras traçadas resultavam de escrita direta. Ressaltava, ainda, esse fato curioso: as letras foram grafadas sucessivamente e não de uma vez; quando da primeira inspeção, não houvera tempo de concluir as palavras. Saindo do Louvre, o Sr. D... dirigiu-se à igreja de Saint-Germain l'Auxerrois onde obteve, pelo mesmo processo, as palavras: Sede humildes. Fénelon, escritas de maneira muito clara e muito legível. Estas palavras ainda podem ser vistas no mármore da estátua a que nos referimos.

A substância de que são feitos esses caracteres tem toda a aparência da grafita do lápis e é facilmente apagada com a borracha. Examinamo-la ao microscópio e constatamos que não é incorporada ao papel, mas simplesmente depositada na superfície, de maneira irregular, sobre as suas asperezas, formando arborescências muito semelhantes às de certas cristalizações. A parte apagada pela borracha deixa à mostra as camadas de matéria negra introduzida nas pequenas cavidades das rugosidades do papel. Destacadas e retiradas com cuidado, essas camadas são a própria matéria que se produz durante a operação. Lamentamos que a pequena quantidade recolhida não nos tenha permitido fazer a sua análise química; mas não perdemos a esperança de o conseguir um dia.

Quem quiser reportar-se às explicações que foram dadas em nosso artigo anterior encontrará completa a teoria do fenômeno. Para escrever dessa maneira, o Espírito não se serve das nossas substâncias, nem dos nossos instrumentos. Ele próprio fabrica a matéria e os instrumentos de que há mister, tirando, para isso, os materiais preciosos, do elemento primitivo universal que, pela ação da sua vontade, sofre as modificações necessárias à produção do efeito desejado. Possível lhe é, portanto, fabricar tanto o lápis vermelho, a tinta de imprimir, a tinta comum, como o lápis preto, ou, até, caracteres tipográficos bastante resistentes para darem relevo à escrita.

Tal o resultado a que nos conduziu o fenômeno da tabaqueira, descrito em nosso número anterior, e sobre o qual nos estendemos longamente, porque nele percebemos oportunidade para perscrutarmos uma das importantes leis do Espiritismo, lei cujo conhecimento pode esclarecer mais de um mistério, mesmo do mundo visível. Assim é que, de um fato aparentemente vulgar, pode sair a luz. Tudo está em observar com cuidado e isso todos podem fazer como nós, desde que se não limitem a observar efeitos, sem lhes procurarem as causas. Se a nossa fé se fortalece de dia para dia, é porque compreendemos. Tratai, pois, de compreender, se quiserdes fazer prosélitos sérios. Ainda outro resultado decorre da compreensão das causas: o de deixar riscada uma linha divisória entre a verdade e a superstição.

Considerando a escrita direta do ponto de vista das vantagens que possa oferecer, diremos que, até o presente, sua principal utilidade há consistido na comprovação material de um  fato sério: a intervenção de um poder oculto que, nesse fenômeno, tem mais um meio de se manifestar. Todavia, raramente são extensas as comunicações que por essa forma se obtêm. Em geral espontâneas, elas se reduzem a algumas palavras ou proposições e, às vezes, a sinais ininteligíveis. Têm sido dadas em todas as línguas: em grego, em latim, em sírio, em caracteres hieroglíficos etc., mas ainda se não prestaram às dissertações seguidas e rápidas, como permite a psicografia ou a escrita pela mão do médium[3].



[1] REVISTA ESPÍRITA – agosto/1859 – Allan Kardec

[2] 20 La realité des Esprits et de leurs manifestations, démontrée par le phenomène de l`écriture directe, pelo barão de Guldenstubbé, 1 vol. in-8o, com 15 estampas e 93 fac-símiles. Preço 8 fr. Casa Frank, rua Richelieu. Encontra-se também nas Casas Dentu e Ledoyen.

[3] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – capítulo XII.