sexta-feira, 20 de março de 2026

O DESPREZO À METODOLOGIA DE KARDEC: A FORMAÇÃO MEDIÚNICA EM CRISE[1]

 


Ruy Marcelo[2]

 

Este artigo propõe uma reflexão sobre a fragilidade da formação de médiuns e suas consequências para o Espiritismo prático contemporâneo. Questiona o desprezo à metodologia espírita como causa do empobrecimento das práticas e comunicações mediúnicas, bem como da falta de avanço da ciência espírita.

 

Introdução

A Doutrina Espírita apresenta-se como uma síntese admirável de ciência psicológica e filosofia moral, tornada possível e estruturada mediante o estudo metódico da fenomenologia espiritual e da mediunidade.

No entanto, ao observar o cenário atual do Espiritismo prático — especialmente no que tange à formação de médiuns e à condução dos grupos mediúnicos e das comunicações — é inevitável reconhecer que muitos dos princípios fundamentais têm sido negligenciados. Disso resulta a escassez de produção instrutiva e a estagnação do avanço do conhecimento espírita.

 

A fragilidade da formação mediúnica

A mediunidade, por sua natureza delicada e complexa, exige estudo, disciplina e orientação segura. Infelizmente, o que se vê em muitos grupos espíritas é uma formação superficial, marcada por improvisações e ausência de método.

O médium iniciante — ou mesmo o candidato à mediunidade — não é habituado a lidar com sua faculdade de forma consciente e racional. Tampouco é incentivado a reconhecer os Espíritos simpáticos que o rodeiam, muito menos a identificar e estabelecer comunicações regulares com seu guia espiritual.

Essa lacuna formativa compromete não apenas a qualidade das comunicações, mas também a segurança espiritual dos envolvidos. Sem preparo adequado, o médium torna-se vulnerável a influências perturbadoras e a mistificações que poderiam ser evitadas com o estudo sério e a observância da metodologia constante de O Livro dos Médiuns, Guia dos Médiuns e dos Evocadores.

 

O desprezo às instruções de O Livro dos Médiuns

Allan Kardec oferece, em O Livro dos Médiuns, um verdadeiro tratado de orientação para o desenvolvimento da mediunidade e a prática mediúnica. No entanto, muitas dessas instruções têm sido ignoradas ou relativizadas.

O capítulo 25, por exemplo, trata com profundidade da evocação dos Espíritos familiares e dos guias espirituais — prática que tem sido abandonada por diversos grupos, sob o argumento equivocado de que seria mais “seguro” e “elevado” ater-se apenas a manifestações espontâneas.

Kardec refuta essa ideia com clareza, demonstrando que a evocação feita com consciência e racionalidade é um instrumento legítimo e indispensável de controle, elevação e aprofundamento do intercâmbio espiritual.

A ausência dessa prática nas reuniões de formação mediúnica empobrece o conteúdo das comunicações e abre espaço para fontes duvidosas, muitas vezes desprovidas de valor moral ou filosófico edificante.

Diante desse cenário, é fundamental que os grupos de formação mediúnica assumam a responsabilidade de instruir os médiuns iniciantes segundo os princípios estabelecidos por Kardec, especialmente quanto à importância das evocações conscientes e das relações com os bons Espíritos.

Desde os primeiros passos, o médium deve ser encorajado a se esforçar no sentido de estabelecer comunicações regulares com seus Espíritos familiares e, sobretudo, a lidar com seu guia espiritual, cuja presença assídua nas experimentações atesta o ápice de formação do médium para contribuir com os trabalhos do grupo.

O guia espiritual é um colaborador essencial e insubstituível para que o médium desenvolva sua faculdade com segurança, discernimento e utilidade moral. E sua importância transcende o período de formação.

Conforme ensina Kardec na Revista Espírita, os médiuns que mantêm relação contínua com seus guias espirituais podem evocá-los para consultá-los durante as sessões, sobre aspectos duvidosos nos estudos e na ordem dos trabalhos, e até mesmo sobre a segurança e a conveniência de tentar comunicações com outros Espíritos, recebendo conselhos prudentes e proteção contra mistificações.

Além disso, o guia do médium pode desempenhar valioso papel de comunicador intermediário quando não houver disposições favoráveis ao estabelecimento da conexão entre o Espírito evocado e o médium não maleável.

Conforme exemplos presentes nas obras fundamentais do Espiritismo, especialmente na Revista Espírita e em O Céu e o Inferno (segunda parte), nesses casos o guia pode transmitir ao grupo o pensamento do Espírito que não consiga se comunicar diretamente.

Esse recurso, longe de ser um detalhe secundário, constitui um dos pilares da mediunidade séria e esclarecida. Sua ausência compromete a qualidade e a finalidade superior das reuniões mediúnicas.

Sem acesso a conteúdo sólido sobre o processo de formação e sobre a metodologia espírita, os membros dos grupos, os médiuns e dirigentes acabam por repetir fórmulas vazias, desconectadas da proposta original da Doutrina Espírita: iluminar a razão, promover o autoconhecimento e favorecer o progresso moral da humanidade.

 

Conclusão

É urgente que os grupos espíritas retomem o estudo sistemático das obras fundamentais da Doutrina Espírita, especialmente de O Livro dos Médiuns, Guia dos Médiuns e dos Evocadores.

A formação mediúnica deve ser conduzida com seriedade, método e respeito à ciência espiritual. As evocações conscientes, o reconhecimento dos guias espirituais, o estudo das influências e a vigilância moral devem voltar a ocupar o centro dos núcleos de formação e das reuniões mediúnicas.

O Espiritismo prático não pode se reduzir a fenômenos desconexos, mensagens genéricas ou procedimentos empíricos. Ele deve ser, como propôs Kardec, um campo de experimentação lúcida, de educação espiritual e de construção moral, embasado na responsabilidade do estudo sério.



[1] O CONSOLADOR - Ano 19 - N° 965 - 15 de Março de 2026 - https://www.oconsolador.com.br/ano19/965/ca7.html

[2] Ruy Marcelo é palestrante e divulgador espírita no Amazonas.

quinta-feira, 19 de março de 2026

LETARGIA E CATALEPSIA[1]

 


Miramez

 

Letargia, catalepsia, mortes aparentes

Os letárgicos e os catalépticos, em geral, veem e ouvem o que em derredor se diz e faz, sem que possam exprimir que estão vendo e ouvindo. É pelos olhos e pelos ouvidos que têm essas percepções?

Não; pelo Espírito. O Espírito tem consciência de si, mas não pode comunicar-se.

Por quê?

“Porque a isso se opõe o estado do corpo. E esse estado especial dos órgãos vos prova que no homem há alguma coisa mais do que o corpo, pois que, então, o corpo já não funciona e, no entanto, o Espírito se mostra ativo.”

Questão 422 / O Livro dos Espíritos

 

A criatura em estado de letargia ou catalepsia fica impedida de falar e, por vezes, ver e ouvir pelos canais físicos; no entanto, ela percebe tudo o que se passa, pela sensibilidade espiritual. Isso também ocorre com o Espírito, livre do corpo, que pode ter os mesmos impedimentos em relação ao corpo espiritual ou perispírito.

Nada há a não ser Deus que possa impedir o Espírito de manifestar seus sentidos mais profundos, porque o Espírito é luz de Deus, com dons que Ele mesmo deu, por amor. Nos casos focalizados, o Espírito fica impossibilitado de manifestar-se na área humana por impedimento dos órgãos materiais; o mesmo acontece com o perispírito que, mesmo com a tenuidade de seu corpo sutil, impede o Espírito de manifestar-se nesses casos. E assim acontece com outros corpos, que têm funções, como vestes e aparelhos no resguardo da alma, para que se estenda gradativamente a luz nos caminhos do Espírito imortal.

Outra letargia e outra catalepsia piores que as do corpo, são aquelas dos sentimentos espirituais, dos que dormem no mal. Esses são os “mortos”, como diz o Evangelho, naquela passagem que Jesus afirma:

“Deixai aos mortos o cuidado de enterrarem os seus mortos”

Lucas, 9: 59 e 60

Os seres humanos que param nas paixões inferiores se encontram em estado de letargia profunda, da qual podem demorar a se desligar. Outros, estão envolvidos na catalepsia do crime e da violência, vindo, depois, a sofrerem as consequências da aceitação desse estado anormal. A cabeça do indivíduo que somente forma ideias perniciosas está em fase de horrível catalepsia e somente o tempo, a ajuda dos benfeitores espirituais e a sua boa vontade poderão ajudá-lo a sair dessas trevas. As sequelas ainda o acompanham por muito tempo. Os que ainda se encontram na letargia da fornificação, do egoísmo, do orgulho, da vaidade, do ciúme e da violência demoram muito tempo recebendo a dor como terapia divina, para despertar do sono e fazer lugar com certas reformas no mundo íntimo, ao amor, à paz e ao desprendimento, dedicando-se ao perdão sem condições, com pulso forte, para a conquista da fraternidade.

As letargias e catalepsias de momento, provocadas pelos hipnotizadores e os magnetizadores, são breves. As piores são aquelas em que nós mesmos caímos em transe pela falta de vigilância, desconhecendo o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo.

O Espiritismo com o Cristo tem o poder de nos acordar para a luz de Deus, moldando as nossas forças para as forças do bem, conduzindo-nos para a paz de consciência. É Jesus voltando e curando as nossas enfermidades por amor, mostrando-nos como devemos fazer para consolidar a cura definitiva no nosso mundo da consciência. É bom que compreendamos que somente vivendo as leis de amor entramos em plena sintonia com o amor de Deus, de modo a receber e guardar as bênçãos de Jesus para sempre no coração.

Convidamos os irmãos da Terra, para estudarmos juntos todas as filosofias espirituais, selecionando o que for conveniente, como diz Paulo:

Não frustreis o Espírito, não desprezeis as escrituras, mas, retende o que é bom

Tessalonicenses, 5:19 a 22

O estudante de boa vontade, o honesto trabalhador nunca fica sozinho em caminho, pois tem sempre mãos amigas que o ajudam a compreender as leis, facilitando-lhe em suas práticas. Vamos acordar, pois Jesus nos chama todos para viver.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 9 – João Nunes Maia

quarta-feira, 18 de março de 2026

PAM REYNOLDS (Experiência de Quase Morte)[1]

 


K.M. Wehrstein

 

Pam Reynolds (1956–2010) foi uma cantora e compositora americana de Atlanta, Geórgia, EUA, cuja experiência de quase morte (EQM) é uma das mais frequentemente citadas na literatura. A experiência aparentemente ocorreu durante uma completa paralisação das funções cerebrais e corporais, provocada propositalmente para permitir uma delicada cirurgia de aneurisma cerebral. Incluiu visões nítidas da sala de cirurgia e dos equipamentos, hiperconsciência, visões de luz e interações com parentes falecidos. Seu caso é considerado por muitos como uma evidência convincente de sobrevivência, visto que seus sinais vitais foram monitorados continuamente, comprovando que ela estava clinicamente morta naquele momento.

 

Investigação e Publicação

Em 1994, Michael Sabom, um cardiologista de Atlanta, iniciou um estudo sobre a relação entre EQMs (Experiências de Quase Morte) e crenças espirituais. Ele entrevistou 160 pessoas, a maioria pacientes de sua clínica, e descobriu que 47 delas relataram ter tido tal experiência, de acordo com os critérios identificados pelo pesquisador de EQM Bruce Greyson[2] . O caso de Pam Reynolds foi um dos vários resumidos por Sabom em seu livro Light and Death [3]. Reynolds descreveu seu caso em um documentário da BBC[4].

Sabom entrevistou Reynolds pela primeira vez em novembro de 1994. Ao saber que ela conhecia detalhes da sala de cirurgia que só poderia ter visto enquanto estivesse profundamente inconsciente, ele contatou a equipe médica e tomou outras medidas para tentar verificá-los.

 

A experiência de Pam Reynolds

Em 1991, aos 35 anos, Reynolds começou a apresentar sintomas de tontura, perda da fala e dificuldade para movimentar o corpo. Uma tomografia computadorizada revelou um aneurisma gigante na base do cérebro. O neurologista para quem ela foi encaminhada previu pouca ou nenhuma chance de sobrevivência[5]; devido ao tamanho e à localização do aneurisma, as técnicas neurocirúrgicas convencionais para removê-lo não seriam eficazes. Ela foi então encaminhada ao Dr. Robert Spetzler, em Phoenix, Arizona, pioneiro em um procedimento cirúrgico, a parada cardíaca hipotérmica, que tornaria o aneurisma operável. Esse procedimento consistia em resfriar o corpo do paciente a 15 graus Celsius, interromper os batimentos cardíacos e a respiração e drenar todo o sangue do cérebro.

Mais de vinte médicos, enfermeiros e técnicos participaram. A operação exigiu que os sinais vitais e a temperatura corporal de Reynolds fossem monitorados de perto por múltiplos instrumentos colocados em vários locais sobre e dentro de seu corpo. Alto-falantes moldados foram colocados em seus ouvidos, produzindo cliques em intervalos regulares, para que outros instrumentos pudessem detectar as reações de seu cérebro a eles.

Reynolds estava acordada quando foi levada para a sala de cirurgia às 7h15. Ela sentiu uma "perda de noção do tempo" e desmaiou quando a anestesia geral fez efeito. Então, ela percebeu um tom musical que parecia puxá-la para fora do topo de sua cabeça.

Quanto mais eu me distanciava do meu corpo, mais nítido o som se tornava. Tive a impressão de que era como uma estrada, uma frequência pela qual você viaja… Lembro-me de ter visto várias coisas na sala de cirurgia quando olhava para baixo. Foi a experiência de maior consciência que já tive em toda a minha vida… Era mais brilhante, mais focado e mais nítido do que a visão normal… Havia tanta coisa na sala de cirurgia que eu não reconhecia, e tantas pessoas[6] .

Ela lembrou-se de ter ficado surpresa ao ver que a equipe havia raspado apenas parcialmente sua cabeça. Ela também se lembrou de ter visto a serra óssea que Spetzler usou para remover uma parte de seu crânio:

A serra... parecia uma escova de dentes elétrica e tinha uma reentrância, um sulco na parte superior onde a serra parecia encaixar no cabo, mas não encaixava... E a serra também tinha lâminas intercambiáveis, mas essas lâminas estavam em algo que parecia um estojo de chave de soquete... Ouvi a serra ligar[7].

Ela achou esse som desagradável[8]. 'Alguém disse algo sobre minhas veias e artérias serem muito pequenas', lembrou Reynolds, acrescentando que era uma voz feminina. Nessa fase da operação, uma cirurgiã cardíaca, tendo determinado que as artérias da perna direita de Reynolds eram muito pequenas para suportar o fluxo sanguíneo exigido pela máquina coração-pulmão, abriu também a perna esquerda.

Spetzler avaliou o aneurisma e ordenou a realização de parada cardíaca hipotérmica. A partir das 10h50, o sangue foi retirado das artérias e veias femorais por meio de tubos, resfriado em cilindros de reservatório e devolvido ao corpo dela. À medida que a temperatura corporal de Reynolds caía, seus batimentos cardíacos passaram a fibrilar e, em seguida, pararam completamente. Suas ondas cerebrais se achatavam e, quando sua temperatura corporal atingiu sessenta graus, o tronco encefálico entrou em colapso. De acordo com as definições padrão, ela estava clinicamente morta.

Às 11h25, a máquina de circulação extracorpórea foi desligada, a mesa cirúrgica foi inclinada e o sangue foi drenado de seu corpo. O saco do aneurisma, agora vazio, foi facilmente removido. A máquina de circulação extracorpórea foi então reativada e o sangue aquecido foi reinfundido no sistema circulatório de Reynolds. O tronco encefálico começou lentamente a apresentar atividade novamente, seguido pelo cérebro superior, à medida que o processo de aquecimento continuava. Ao meio-dia, tornou-se evidente que seu coração não voltaria a bater apenas com o aquecimento; choques elétricos de um desfibrilador foram usados ​​para fazê-lo voltar a bater. Tendo permanecido clinicamente morta por cerca de uma hora, Reynolds retornou à sala de recuperação em condição estável às 14h10.

Conforme citado por Sabom, as próximas lembranças de Reynolds situam-se entre a menção de suas artérias serem muito pequenas e o momento em que os assistentes mais jovens de Spetzler estavam fechando suas incisões:

Havia uma sensação de ser puxado, mas não contra a minha vontade. Eu estava indo por conta própria, porque queria ir. Tenho várias metáforas para tentar explicar isso. Era como no Mágico de Oz – ser levado por um vórtice de tornado, só que você não fica girando como se tivesse vertigem. Você está muito concentrado e tem um lugar para ir. A sensação era como subir em um elevador muito rápido. E havia uma sensação, mas não era uma sensação corporal, física. Era como um túnel, mas não era um túnel.

Em algum momento, bem no início do vórtice do túnel, percebi minha avó me chamando. Mas eu não a ouvi com meus ouvidos... Era uma audição mais clara do que com meus ouvidos. Confio mais nessa sensação do que nos meus próprios ouvidos. A impressão era de que ela queria que eu fosse até ela, então continuei sem medo descendo o poço. Era um poço escuro pelo qual passei, e bem no final havia um minúsculo ponto de luz que continuava a crescer, crescer e crescer.

A luz era incrivelmente forte, como estar sentado no meio de uma lâmpada. Era tão forte que coloquei as mãos em frente ao rosto, esperando vê-los, mas não consegui. Mas eu sabia que eles estavam lá. Não pelo tato. Novamente, é terrivelmente difícil de explicar, mas eu sabia que eles estavam lá…

Percebi que, à medida que comecei a discernir diferentes figuras na luz — e todas estavam cobertas de luz, eram luz , e a luz as permeava por completo —, elas começaram a formar figuras que eu conseguia reconhecer e compreender. Vi que uma delas era minha avó. Não sei se era realidade ou projeção, mas eu reconheceria minha avó, a voz dela, a qualquer hora, em qualquer lugar.

Olhando para trás, todas as pessoas que vi se encaixavam perfeitamente na minha ideia de como elas eram em seus melhores momentos de vida.

Reconheci muita gente. Meu tio Gene estava lá. Assim como minha tia-avó Maggie, que na verdade era minha prima. Do lado da família do meu pai, meu avô estava lá… Eles estavam cuidando especialmente de mim, zelando por mim.

Eles não me permitiram ir mais longe… Foi-me comunicado – essa é a melhor maneira que sei de dizer, porque eles não falavam como eu estou falando – que se eu fosse completamente para a luz, algo aconteceria comigo fisicamente. Eles seriam incapazes de trazer esse meu eu de volta para o meu corpo, como se eu tivesse ido longe demais e eles não conseguissem se reconectar. Então, eles não me deixaram ir a lugar nenhum nem fazer nada[9] .

Então eles estavam me alimentando. Não faziam isso pela minha boca, como com comida, mas me nutriam com algo. A única maneira que consigo descrever é como algo brilhante. Brilho é a imagem que me vem à mente. Definitivamente me lembro da sensação de ser nutrida, alimentada e fortalecida. Sei que soa engraçado, porque obviamente não era algo físico, mas dentro da experiência eu me sentia fisicamente forte, pronta para qualquer coisa[10].

Minha avó não me levou de volta pelo túnel, nem me mandou de volta ou me pediu para ir. Ela apenas olhou para mim. Eu esperava ir com ela, mas me disseram que ela simplesmente não achava que faria isso. Meu tio disse que faria. Foi ele quem me levou de volta pelo final do túnel. Estava tudo bem. Eu queria ir.

Mas aí terminei e vi aquilo, meu corpo. Não queria entrar naquilo... Parecia horrível, como um acidente de trem. Parecia o que era: morto. Acho que estava coberto. Me assustou e eu não queria olhar.

Disseram-me que era como pular numa piscina. Sem problema, era só pular na piscina. Eu não queria, mas acho que estava atrasado ou algo assim, porque ele [o tio] me empurrou. Senti uma forte repulsão e, ao mesmo tempo, uma sensação de puxão no corpo. O corpo puxava e o túnel empurrava… Era como mergulhar numa piscina de água gelada… Doeu[11]!

Os assistentes terminaram a operação ao som de música rock, lembrou Reynolds:

Eles estavam tocando 'Hotel California' e o verso era 'Você pode fazer o check-out quando quiser, mas nunca poderá ir embora'. Mencionei [mais tarde] ao Dr. Brown que aquilo era incrivelmente insensível e ele me disse que eu precisava dormir mais. [risos] Quando recuperei a consciência, ainda estava no respirador[12].

De acordo com a escala de EQM de Greyson, a EQM de Reynolds foi particularmente profunda. A pontuação máxima possível é 32, a pontuação média entre os participantes do estudo de Greyson na época em que Sabom escreveu era 15, e a média entre os participantes do estudo de Sabom era 13,3. Reynolds obteve 27 pontos.

Após sua experiência, Reynolds perdeu todo o medo da morte. Ela disse, conforme citado em uma transmissão da MSNBC:

Se a morte é a pior coisa que nos acontece, que coisa incrível! Se no fim de nossas vidas, é isso que vai acontecer com todos, não vejo problema algum, realmente não entendo. Eu temo a dor, mas não temo a morte[13].

Pam Reynolds recuperou-se totalmente da operação e viveu uma vida saudável até 2010, quando faleceu aos 53 anos de insuficiência cardíaca.

Veja também Experiências de Quase Morte – Aspectos Paranormais

 

Verificações

Após examinar o relatório cirúrgico e entrevistar Spetzler, Sabom determinou que a experiência de Reynolds não poderia ter sido resultado de uma crise epiléptica no lobo temporal, visto que nenhuma crise desse tipo havia sido registrada. O relatório mencionava uma médica comentando sobre os pequenos vasos sanguíneos, aparentemente confirmando a lembrança de Reynolds de ter ouvido o comentário. É importante ressaltar que Reynolds não poderia ter ouvido o comentário normalmente, pois, a essa altura, seus ouvidos já estavam obstruídos pelos alto-falantes moldados que geravam estalos altos. Sabom também descobriu que o comentário foi feito quase ao mesmo tempo em que a serra foi ligada.

Sabom não estava familiarizado com a serra óssea usada na operação e não tinha como confirmar a descrição de Reynolds de que ela se assemelhava a uma escova de dentes elétrica e seu estojo a um estojo de chave de soquete. Ele contatou o fabricante, que lhe enviou fotos de ambos. As semelhanças eram claras[14].

 

Cobertura da mídia

A experiência de quase morte (EQM) de Reynolds acabou se tornando tema de diversas reportagens televisivas e artigos de jornal. No programa de rádio Coast to Coast AM, que se concentra em fenômenos inexplicáveis[15], o apresentador Art Bell conduziu uma entrevista aprofundada de 90 minutos com ela em 2002. Um segmento de 2009 da National Public Radio inclui um pequeno trecho de uma música de rock que Reynolds escreveu baseada em sua experiência[16]. Poucos dias antes de sua morte, Reynolds deu mais detalhes da experiência em uma entrevista transcrita pelo anestesista e cético em relação às EQMs , G.M. Woerlee[17].

 

Críticas

Em 2007, o periódico Journal of Near-Death Studies publicou três artigos do filósofo Keith Augustine questionando a validade das EQMs (Experiências de Quase Morte) com memórias supostamente verídicas e descartando-as como fantasiosas. A edição incluiu respostas de estudiosos de EQMs, como Sabom, Greyson, Kenneth Ring e Raymond Moody.

O debate continuou no ano seguinte e recomeçou em 2011 com um artigo crítico de Woerlee na mesma revista. Ele argumenta que Reynolds manteve consciência suficiente, mesmo sob anestesia, para ouvir o som da serra, os comentários do cirurgião cardíaco sobre o tamanho dos vasos sanguíneos e a música "Hotel California". Alternativamente, ele especula que o som da serra pode ter reverberado em seu crânio, e ela pode ter adivinhado os comentários sobre os vasos sanguíneos por saber que tinha vasos sanguíneos pequenos[18]. Contrariando isso, segundo Sabom, o técnico que inseriu os alto-falantes apontou que a fita adesiva e a gaze usadas para mantê-los no lugar cobriam toda a entrada do ouvido, impossibilitando a audição normal de uma conversa na sala de cirurgia[19].

Augustine argumenta que a lembrança visual da serra óssea por Reynolds é confusa em um ponto e, portanto, provavelmente incorreta. Ele sugere que ela pode ter adivinhado a aparência da serra com base em sua experiência com brocas odontológicas. Ele postula que sua experiência extracorpórea começou e terminou antes do início do período de parada cardíaca e, portanto, ela ainda poderia estar ligeiramente consciente e capaz de perceber fisicamente aspectos da sala de cirurgia. Ele argumenta que suas memórias podem ter sido contaminadas pelo conhecimento desses detalhes adquirido durante os três anos que se passaram entre a experiência e sua primeira entrevista com Sabom[20].

Sabom argumenta que, embora Agostinho esteja correto quanto ao momento em que a experiência fora do corpo começou – quando a serra foi ligada –, a própria Reynolds identificou seu término como a operação sendo encerrada pelos assistentes, durante a execução de "Hotel California", confirmando que estava em andamento no momento da parada cardíaca[21]. Com relação à questão da suposta confusão em sua memória da serra, o parapsicólogo Charles Tart argumenta que um pequeno erro na recordação de um instrumento desconhecido não é suficiente para descartar sua memória de tê-lo visto como se nunca tivesse ocorrido. Quanto ao atraso de três anos, Tart aponta para evidências estatísticas de que as memórias de EQMs tendem a permanecer consistentes ao longo do tempo[22].

O relato que Reynolds deu em sua última entrevista sugere que as primeiras confirmações de suas memórias extracorporais foram, na verdade, fornecidas pela equipe médica logo em seguida:

Achei que estava tendo alucinações e, quando conversei com minha família e meu marido, estávamos brincando. Isso fez todos rirem, com exceção das enfermeiras, do médico, do anestesista e dos neurofisiologistas… Eles não pareceram achar graça e mal ousavam olhar para mim. Na verdade, eles sabiam que eu não estava alucinando e que aquilo realmente tinha acontecido. Nunca tinham ouvido falar de algo assim. Pensei que talvez fosse imaginação minha e que eu tivesse sonhado, mas eles me disseram que não era o caso e que o que eu vi realmente aconteceu… Eles insistiam que não era uma alucinação[23].

Spetzler confirma isso, conforme citado na MSNBC:

O que ela relatou tão rapidamente após a cirurgia foi notavelmente preciso em relação a alguns detalhes que ocorreram durante o procedimento[24].

 

Literatura e mídia

§  Augustine, K. (2007). Does paranormal perception occur in near-death experiences? Journal of Near-Death Studies 25/4, 203-36.

§  Broome, K. [Producer and Director] (2002) The Day I Died. [BBC documentary, published on YouTube.]

§  Greyson, B. (1983). The near-death experience scale: Construction, reliability, and validity. Journal of Nervous & Mental Disease 171, 369-75.

§  Hagerty, B.B. (2009). Decoding the Mystery of Near-Death Experiences. [Episode of NPR’s All Things Considered (22 May), with approximate transcript provided.]

§  MSNBC (n. d.). Back from the dead. [Web page.]

§  Sabom, M. (1998). Light and Death: One Doctor’s Fascinating Account of Near-Death Experiences. Grand Rapids, Michigan, USA: Zondervan.

§  Sabom, M. (2007). Commentary on ‘Does paranormal perception occur in near-death experiences?’ Journal of Near-Death Studies 25/4, 257-60.

§  Tart, C. (2007). Commentary on ‘Does paranormal perception occur in near-death experiences?’ Journal of Near-Death Studies 25/4, 254-6.

§  Woerlee, G.M. (2011). Could Pam Reynolds hear? A new investigation into the possibility of hearing during this famous near-death experience. Journal of Near-Death Studies, 30/1, 3-25.

§  Woerlee, G.M. (2010). Pam Reynolds NDE – 2 Supplement – Pam Reynold’s last interview. [Transcript on web page.]

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Greyson (1983).

[3] Sabom (1998). Todas as informações neste artigo foram retiradas desta fonte, exceto quando indicado o contrário.

[4] Ver Broome (2002); o segmento sobre ela começa em 17:40.

[5] Broome (2002), 18:50. Imagem do aneurisma em 20:29. Spetzler explica sua localização através do uso de um modelo de cérebro e amostra de tecido cerebral a partir de 20:37.

[6] Sabom (1998), 41.

[7] Sabom (1998), 41.

[8] Broome (2002), 23:20.

[9] Sabom (1998), 43-5.

[10] Sabom (1998), 45.

[11] Sabom (1998), 46.

[12] Sabom (1998), 47.

[13] MSNBC (sem data).

[14] Veja também Broome (2002), 24:10 para a descrição de Reynold da serra óssea, além de fotografias de uma serra do mesmo tipo e seu estojo.

[15] Veja o arquivo do programa aqui .

[16] Hagerty (2009).

[17] Woerlee (2010).

[18] Woerlee (2011).

[19] Sabom (2007), 259.

[20] Augustine (2007).

[21] Sabom (2007), 258.

[22] Tart (2007).

[23] Woerlee (2010).

[24] MSNBC (sem data).

terça-feira, 17 de março de 2026

CONFISSÃO DE VOLTAIRE[1]

 


Allan Kardec

 

A propósito da entrevista de Voltaire e Frederico, publicada no último número da Revista, um de nossos correspondentes de Boulogne nos envia a seguinte comunicação, que inserimos com a maior satisfação por apresentar um lado eminentemente instrutivo do ponto de vista espírita. Nosso correspondente a fez preceder de algumas reflexões que os nossos leitores nos agradecerão por não omiti-las.

“Se existe um homem, mais do que qualquer outro, que deve sofrer castigos eternos, esse homem é Voltaire. A cólera e a vingança de Deus haverão de persegui-lo sempre. É o que nos dizem os teólogos da velha escola.

“Que dizem agora os mestres da teologia moderna? É possível – dizem eles – que desconheçais o homem, não menos que o Deus de que falais. Guardai-vos das paixões inferiores do ódio e da vingança e com elas não maculeis o vosso Deus. Se Deus se inquieta com esse pobre pecador, se toca nesse inseto, será para arrancar-lhe o ferrão, para fazer retornar até Ele uma cabeça exaltada, um coração transviado. Digamos, além disso, que Deus lê nos corações de modo diverso que vós, encontrando o bem onde não achais senão o mal. Se dotou esse homem de um grande gênio, foi em benefício da raça, e não para a sua desventura. Que importa, então, suas primeiras extravagâncias, suas atitudes de francoatirador entre vós? Uma alma dessa têmpera não poderia proceder senão desse modo: a mediocridade era-lhe impossível, fosse no que fosse. Agora ele se orientou, viu-se livre das patas e dentes de potro indomável e vem a Deus como um dócil corcel, sempre grande e tão soberbo para o bem quanto o fora para o mal. No artigo seguinte veremos por que meios se operou essa transformação; veremos nosso garanhão dos desertos, a crina ainda alta, narinas ao vento, correndo através dos espaços universais. É que lá, com o pensamento solto, reencontrou essa liberdade que era a sua essência, sorvendo a plenos pulmões esse hálito gerador da vida. E o que lhe aconteceu? Perdeu-se, confundiu-se. O grande pregador do nada encontrou, finalmente, o nada, mas não como o compreendia. Humilhado, transtornado consigo mesmo, fulminado pela pequenez, ele, que se julgava tão grande, foi aniquilado diante de seu Deus. Ei-lo de rosto no chão; espera a sua sentença, que diz: “Levanta-te meu filho, ou vai-te, miserável!” Encontraremos o veredicto na comunicação que se segue.

“Esta confissão de Voltaire ganhará maior destaque na Revista Espírita nos mostrar em seu duplo aspecto. Vimos alguns Espíritos naturalistas e materialistas que, de cabeça virada tanto quanto seu mestre, embora sem o sentimento deste, persistiam em se vangloriar em seu cinismo. Que fiquem no seu inferno enquanto se derem ao prazer de afrontar o céu e ridicularizar tudo o que constitui a felicidade do homem; isso é lógico, é o seu próprio lugar. Mas também achamos lógico que aqueles que reconhecem seus erros possam aproveitar-lhes os frutos. Assim, acreditamos não estar fazendo apologia ao velho Voltaire. Aceitamo-lo somente em seu novo papel e nos regozijamos com a sua conversão, que glorifica a Deus e não pode deixar de impressionar profundamente aqueles que ainda hoje se deixam arrebatar pelos seus escritos. Lá está o veneno, aqui está o antídoto.

“Esta comunicação, traduzida do inglês, é extraída da obra do juiz Edmonds, publicada nos Estados Unidos. Tem a forma de uma conversa entre Voltaire e Wolsey, o célebre cardeal inglês do tempo de Henrique VIII. Dois médiuns atuaram separadamente para a transmissão desse diálogo”.

 

VoltaireQue imensa revolução ocorreu no pensamento humano desde que deixei a Terra!

WolseyCom efeito, essa infidelidade de que então vos censuravam, cresceu desmesuradamente desde aquela época. Não que ela tenha hoje tantas pretensões, mas é mais profunda e mais universal e, a menos que consigam detê-la, ameaça tragar a Humanidade no materialismo, mais do que o fez durante séculos.

VoltaireInfidelidade em que e em relação a quem? Pertence à lei de Deus e do homem? Pretendeis acusar-me de infidelidade porque não me submeti aos acanhados preconceitos das seitas que me cercavam? É que a minha alma demandava uma amplidão de pensamento, um raio de luz, além das doutrinas humanas. Sim, minha alma entenebrecida tinha sede de luz.

WolseyEu também não queria falar senão da infidelidade que vos era atribuída, mas, infelizmente, não sabeis o quanto essa imputação ainda vos pesa. Eu não queria vos censurar, mas manifestar o meu pesar, porquanto vosso desprezo pelas doutrinas correntes, que eram apenas materiais e inventadas pelos homens, não poderia prejudicar um Espírito semelhante ao vosso. Mas essa mesma causa que agia sobre o vosso Espírito operava igualmente sobre outros, por demais fracos e pequenos para chegarem aos mesmos resultados que vós. Eis, pois, como aquilo que em vós não era senão uma negação dos dogmas dos homens se traduzia nos outros pela negação de Deus. Foi dessa fonte que se espalhou com terrível rapidez a dúvida sobre o futuro do homem. Eis também por que o homem, limitando todas as suas aspirações somente a este mundo, caiu cada vez mais no egoísmo e no ódio ao próximo. É a causa, sim, a causa desse estado de coisas que importa ser procurada, porquanto uma vez achada, o remédio será relativamente fácil. Dizei-me, conheceis essa causa?

VoltaireMinhas opiniões, tais quais foram dadas ao mundo, estavam impregnadas de um sentimento de amargura e de sátira. Mas notai bem que então eu tinha o Espírito assediado, por assim dizer, por uma luta interior. Considerava a Humanidade como se me fosse inferior em inteligência e em sagacidade; nela somente via marionetes, que podiam ser conduzidos por qualquer homem dotado de vontade forte, e me indignava de ver essa Humanidade, arrogando-se uma existência imortal, ser modelada por elementos ignóbeis. Seria possível crer que um ser dessa espécie fizesse parte da Divindade e pudesse, com suas frágeis mãos, apoderar-se da imortalidade? Esta lacuna entre duas existências tão desproporcionadas me chocava e eu não a podia preencher. No homem eu via apenas o animal, e não Deus.

Reconheço, em alguns casos, que minhas opiniões tiveram deploráveis desdobramentos, mas estou convencido de que, sob outros aspectos, apresentaram o seu lado bom. Conseguiram soerguer várias almas que se haviam degradado na escravidão; quebraram as cadeias do pensamento e deram asas às grandes aspirações. Mas, lamentavelmente, também eu, que planava tão alto, me perdi como os outros.

Se em mim a parte espiritual tivesse se desenvolvido tão bem quanto a parte material, teria podido raciocinar com mais discernimento. Entretanto, confundindo-as, perdi de vista esta imortalidade da alma, que tanto procurava e não pedia senão para encontrar. Assim, tão entusiasmado me achava nessa luta com o mundo que cheguei, quase contra a minha vontade, a negar a existência de um futuro. A oposição que fazia às tolas opiniões e à cega credulidade dos homens impelia-me ao mesmo tempo a negar e a opor-me a todo o bem que a religião cristã pudesse fazer.

Todavia, por mais descrente que eu fosse, sentia que era superior aos meus adversários; sim, muito além do alcance de sua inteligência. A bela face da Natureza revelava-me o Universo e me inspirava o sentimento de uma vaga veneração, mesclada ao desejo de uma liberdade sem limites, sentimento que eles jamais experimentavam, por se encontrarem agachados nas trevas da escravidão.

Tiveram, pois, minhas obras o seu lado bom, porque sem elas o mal que tivesse atingido a Humanidade, por falta de qualquer oposição, teria sido pior. Muitos homens não aceitavam mais a escravidão; muitos dentre eles se libertaram e, se aquilo que eu pregava lhes deu um único pensamento elevado ou lhes fez dar um único passo no caminho da Ciência, não seria abrir-lhes os olhos para a sua verdadeira condição? Só lamento ter vivido tanto tempo na Terra sem saber o que teria podido ser e o que teria podido fazer. O que não teria feito se tivesse sido abençoado por essas luzes do Espiritismo que hoje se derramam sobre os Espíritos dos homens!

Descrente e vacilante entrei no mundo espírita. Por si só minha presença era suficiente para banir qualquer clarão de luz que pudesse iluminar a minha alma obscurecida; apenas a parte material de meu corpo se havia desenvolvido na Terra; quanto à parte espiritual, havia-se perdido em meio aos meus descaminhos, na busca da luz, tal como se houvera sido encerrada numa jaula de ferro. Altivo e zombeteiro, ali me iniciava, não conhecendo nem procurando conhecer esse futuro que em vida tanto havia combatido. Mas façamos aqui esta confissão: houve sempre em minha alma uma débil voz que se fazia ouvir através dos grilhões materiais e que pedia luz. Era uma luta incessante entre o desejo de saber e uma obstinação em não saber. Assim, pois, minha entrada estava longe de ser agradável. Não acabava eu de descobrir a falsidade, o nada das opiniões que havia sustentado com todas as forças de minhas faculdades? Depois de tudo, o homem se reconhecia imortal, e eu não podia deixar de ver que, igualmente, deveria existir um Deus, um Espírito imortal, que estava à frente e que governava esse espaço ilimitado que me cercava.

Como viajava incessantemente, sem me conceder nenhum repouso, a fim de me convencer de que o mundo em que me encontrava bem podia ser um mundo material, minha alma lutou contra a verdade que me esmagava! Não pude realizar-me como Espírito que acabava de deixar o seu domicílio mortal! Não houve ninguém com quem pudesse estabelecer relações, porque a todos eu havia recusado a imortalidade. Para mim não existia repouso: estava sempre errante e desconfiado. Em mim o Espírito, tenebroso e amargo, comportava-se como um maníaco, incapaz de ser detido ou de perseguir um objetivo.

Como já disse, eu debochava de tudo, e foi lançando um desafio que abordei o mundo espírita. Inicialmente fui levado para longe das moradas dos Espíritos e percorri o espaço incomensurável. Em seguida foi-me permitido lançar os olhos sobre as maravilhosas construções que serviam de habitação aos Espíritos e, com efeito, pareceram-me surpreendentes. Fui empurrado, aqui e ali, por uma força irresistível; era obrigado a ver, até que minha alma fosse saciada pelos esplendores e esmagada ante o poder que controlava tais maravilhas. Finalmente, vi-me obrigado a esconder-me e a refugiar-me nas concavidades das rochas, mas não o conseguia.

Foi nesse momento que o meu coração começou a sentir a necessidade de expandir-se; uma associação qualquer se tornava urgente, porque me sentia queimar pelo desejo de confessar o quanto tinha sido induzido em erro, não pelos outros, mas por meus próprios sonhos. Já não me restavam ilusões sobre a minha importância pessoal, porque percebia a minha insignificância neste grande mundo dos Espíritos. Enfim, de tal forma me deixara cair na lassidão e na humilhação, que me foi permitido reunir-me a alguns habitantes. Só então pude contemplar a posição em que me havia colocado na Terra e o que disso resultava no mundo espírita. Julgai se esta apreciação poderia favorecer-me.

Uma revolução completa, uma transformação de alto a baixo ocorreu na minha organização espírita e, de mestre que era, tornei-me o mais ardente dos discípulos. Quantos progressos realizei com a expansão intelectual que em mim se encontrava!

Minha alma se sentia iluminada e aquecida pelo amor divino; suas aspirações à imortalidade, de reprimidas que eram, tomaram gigantesco impulso. Via quão grandes tinham sido os meus erros e quão grande devia ser a reparação para expiar tudo quanto havia feito ou dito, que tivesse podido seduzir e enganar a Humanidade.

Como são magníficas essas lições da sabedoria e da beleza celestes!

Ultrapassam tudo aquilo que na Terra teria podido imaginar.

Em suma, vivi bastante para reconhecer, em minha existência terrestre, uma guerra implacável entre o mundo e a minha natureza espiritual. Lamentei profundamente as opiniões que emiti e que desviaram muita gente; mas, ao mesmo tempo, é penetrado de gratidão ao Criador, o infinitamente sábio, que sinto ter sido um dos instrumentos de que se serviram os Espíritos dos homens para impulsionar o seu progresso.

 

Observação – Não adicionaremos nenhum comentário a esta comunicação, cuja profundidade e elevado alcance todos apreciarão, e na qual se encontra toda a superioridade do gênio. Um quadro tão grandioso e impressionante do mundo espírita, assim como a influência das ideias terrenas sobre as ideias de além túmulo, talvez jamais tenha sido dado. Na conversa que publicamos em nosso número anterior encontra-se a mesma essência de ideias, embora menos desenvolvidas e, sobretudo, expressas menos poeticamente. Aqueles que apenas se ligam à forma sem dúvida dirão que não reconhecem o mesmo Espírito nessas duas comunicações e que principalmente a última não lhes parece à altura de Voltaire, concluindo que uma delas não é dele.

Certamente, quando o chamamos, ele não nos trouxe sua certidão de nascimento; entretanto, quem quer que veja menos superficialmente ficará surpreendido pela identidade de pontos de vista e de princípios existentes entre essas duas comunicações, obtidas em épocas diversas, a uma enorme distância e em línguas diferentes. Se o estilo não é o mesmo, não há contradição de pensamento, e isso é o essencial. Mas se foi o mesmo Espírito que falou nas duas comunicações, por que é tão explícito e tão poético em uma delas, enquanto é lacônico e vulgar na outra? É preciso não ter estudado os fenômenos espíritas para não o compreender. Isso resulta da mesma causa que leva o mesmo Espírito a dar encantadoras poesias por um médium e não poder ditar um único verso por outro. Conhecemos médiuns que absolutamente não são poetas e que obtêm versos admiráveis, assim como há outros que jamais aprenderam a desenhar mas desenham coisas maravilhosas.

É necessário, pois, reconhecer, abstração feita das qualidades intelectuais, que entre os médiuns há aptidões especiais que os tornam, para certos Espíritos, instrumentos mais ou menos flexíveis, mais ou menos cômodos. Dizemos para certos Espíritos porque também os Espíritos têm a sua preferência, fundada em razões que nem sempre conhecemos. Desse modo, o mesmo Espírito será mais ou menos explícito, conforme o médium que lhe sirva de intérprete e, sobretudo, conforme o hábito que tenha de servir-se dele. Por outro lado, um Espírito que se comunica frequentemente pela mesma pessoa o faz com mais facilidade do que outro que venha pela primeira vez. A emissão do pensamento pode, pois, ser entravada por uma multidão de causas; quando, porém, se trata do mesmo Espírito, o fundo do pensamento é o mesmo, embora a forma seja diferente, o que faz com que um observador atento o reconheça facilmente, mediante certos traços característicos. A propósito, relataremos o seguinte fato:

O Espírito de um soberano, que no mundo representou um papel preponderante, foi evocado em uma de nossas reuniões, manifestando-se inicialmente por um ato de cólera, ao rasgar o papel e quebrar o lápis. Sua linguagem estava longe de ser benevolente, porque se sentia humilhado de comparecer entre nós, perguntando se julgávamos que devesse rebaixar-se para nos responder. Confessava, entretanto, que, se o fazia, era como que constrangido e obrigado por uma força superior à sua, mas se isso dependesse dele jamais o faria.

Um dos nossos correspondentes da África, que não tinha nenhum conhecimento do fato, escreveu-nos que, numa reunião de que participara, quiseram evocar o mesmo Espírito. Sua linguagem foi idêntica em todos os pontos. Disse ele:

Acreditais que eu viria voluntariamente a esta casa de mercadores, onde talvez um dos meus criados não quisesse morar? Não vos respondo; isto me lembra meu reino, onde eu era tão feliz; tinha autoridade sobre todo o meu povo, e agora é preciso que me submeta.

O Espírito de uma rainha, que em vida não se distinguira pela bondade, respondeu no mesmo centro:

Não me interrogueis mais; aborreceis-me; se ainda tivesse o poder que detinha na Terra, eu vos faria arrepender bastante; agora, porém, zombais de mim e da minha miséria, pois já não tenho nenhum poder sobre vós. Sou muito infeliz.

Não estará aqui um curioso estudo dos costumes espíritas?



[1] REVISTA ESPÍRITA – setembro/1859 – Allan Kardec