quinta-feira, 5 de março de 2026

RESGATE DAS FALTAS[1]

 


Miramez

 

Expiação e arrependimento

Já desde esta vida poderemos ir resgatando as nossas faltas?

Sim, reparando-as. Mas, não creiais que as resgateis mediante algumas privações pueris, ou distribuindo em esmolas o que possuirdes, depois que morrerdes, quando de nada mais precisais. Deus não dá valor a um arrependimento estéril, sempre fácil e que apenas custa o esforço de bater no peito. A perda de um dedo mínimo, quando se esteja prestando um serviço, apaga mais faltas do que o suplício da carne suportado durante anos, com objetivo exclusivamente pessoal. (726)

Só por meio do bem se repara o mal e a reparação nenhum mérito apresenta, se não atinge o homem nem no seu orgulho, nem no seus interesses materiais.

De que serve, para sua justificação, que restitua, depois de morrer, os bens mal adquiridos, quando se lhe tornaram inúteis e deles tirou todo o proveito?

De que lhe serve privar-se de alguns gozos fúteis, de algumas superfluidades, se permanece integral o dano que causou a outrem?

De que lhe serve, finalmente, humilhar-se diante de Deus, se, perante os homens, conserva o seu orgulho? (720-721)

Questão 1000 / O Livro dos Espíritos

 

O que chamamos de processos de despertamento espiritual, se dá em todo lugar, onde quer que seja. A vida é vida em qualquer ponto do universo de Deus; como pode ser que somente na carne se repare faltas? Como pensar que somente no corpo físico se evolui ou desperte as qualidades espirituais? Isso é um contrassenso; a nossa escola, e de todas as almas, é dentro da criação de Deus. Não podemos pensar que só na Terra recebemos lições e despertamos valores.

Estamos dentro do progresso e com ele avançamos para Deus, na programação que Ele mesmo fez. Em verdade, tudo o que ocorre conosco são processos de elevação espiritual, pelos quais todos temos de passar, para a luz dos nossos caminhos.

A natureza sabe o que fazer, sob a influência das leis de Deus. É necessário que saibamos nos conduzir diante dos nossos feitos passados que rios fizeram sofrer, Não é ficando em jejum que nos iluminamos; não é nos sacrificando exteriormente que alcançamos a paz; não é ficando calados que despertaremos as condições espirituais que nos fornecem a tranquilidade da consciência... Jesus nos ensinou, com a sua própria vida, o que deveremos fazer para a devida libertação espiritual. Vejamos o que os discípulos fizeram, estudemos suas vidas e copiemos seu procedimento.

O arrependimento deve ser sincero, compreendendo que fora da caridade não há salvação. Não podemos iludir a nós mesmos, diante da vida maior, o nosso dever é refazer nossas condições espirituais, e isso deve ser constante, para chegarmos ao amor sem condições. Não é levando o corpo físico a determinarias privações que a alma se ilumina. O fanatismo torce a verdade.

Caminhamos para a felicidade que nos chega e deve chegar de todas as direções, por variados processos de educação espiritual e sabedoria dos segredos da vitória, para sabermos como comportar no dia-a-dia. Só por meio do bem afastamos o mal, somente pelos canais da caridade nos livramos das prisões do mal e somente o amor nos coloca frente a frente com a nossa consciência, sem que ela nos condene.

Não é somente pelo arrependimento que nos salvamos, como muitos estudiosos bíblicos afirmam. Enquanto não dissiparmos do coração o orgulho e o egoísmo, não seremos livres das perseguições de natureza inferior. As paixões se enraízam nestes dois monstros das almas.

O combate ao mal, não aprendemos de homem nenhum e, sim, de Jesus, que vem nos acompanhando há milhões de anos com a mesma paciência de sempre e Paulo, o apóstolo, entendeu isto, tanto que diz em uma de suas epístolas:

Porque eu não o recebi, nem o aprendi de homem algum, mas mediante revelação de Jesus Cristo.

Galatas, 1:12

E a Doutrina Espírita, codificada por Allan Kardec, nos fala o mesmo; os mensageiros de Jesus que a ditaram nos mostram Jesus como único modelo para a humanidade ser feliz.

As nossas faltas, os nossos erros por ignorância das leis e por não termos forças para corrigi-los, devem ser corrigidos em qualquer lugar, tanto na carne como fora dela. Os sofrimentos existem em murtas dimensões.

“De que lhe serve, finalmente, humilhar-se diante de Deus, se, perante os homens, conserva o seu orgulho?”, concluem os Espíritos Superiores que responderam à pergunta em questão. Contudo, não basta ao homem cumprir exteriormente tão profunda recomendação. De que lhe valeria humilhar-se perante os homens, talvez por conveniência e mesmo interesses materiais, e ser orgulhoso ante a Paternidade Universal? Amemos a Deus em todas as coisas; aí estão incluídos o próximo e a própria criação da Majestade Divina.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 20 – João Nunes Maia

quarta-feira, 4 de março de 2026

RAYMOND LODGE[1]

 


Michael Tymn

 

Em 1916, o físico Oliver Lodge publicou Raymond, or Life and Death (Raymond, ou Vida e Morte), um relato de grande sucesso sobre mensagens transmitidas por um médium que Lodge acreditava virem de seu filho Raymond, uma vítima recente da Primeira Guerra Mundial. A narrativa atraiu muitos leitores que perderam entes queridos durante a guerra, embora suas descrições aparentemente fantasiosas do estado após a morte a tenham tornado alvo de controvérsia.

 

Fundo

O físico Oliver Lodge (1851–1940) era conhecido por seu trabalho em eletricidade, termoeletricidade e condutividade térmica. Ele ingressou na The Society for Psychical Research (SPR) pouco depois de sua fundação, em 1882, e sete anos depois se envolveu profundamente em uma investigação da médium americana Leonora Piper . Ao longo de oitenta e três sessões, ele se convenceu de que a habilidade de Piper era genuinamente paranormal, embora não necessariamente indicativa de sobrevivência após a morte. Na década seguinte, ele gradualmente passou a aceitar a hipótese da sobrevivência, tornando suas opiniões públicas em um livro de 1909, The Survival of Man.

Raymond Lodge, integrante do Regimento South Lancashire, foi morto perto de Ypres em 14 de setembro de 1915, após ser atingido por um estilhaço de obus durante o ataque a Hooge Hill.

 

A mensagem de 'Faunus'

Em 8 de agosto de 1915, declarações enigmáticas dirigidas a Lodge apareceram nos escritos automáticos de Leonora Piper. Uma delas, que parecia ter se originado com o espírito sobrevivente de Frederic Myers e ter sido transmitida por Richard Hodgson (ambos investigadores de destaque da SPR até seu falecimento), dizia:

Bem, Lodge, embora não estejamos aqui como antigamente, ou seja, não exatamente, estamos aqui o suficiente para receber e transmitir mensagens. Myers diz que você assume o papel do poeta e ele atuará como Fauno.

Um estudioso de clássicos indicou a Lodge uma passagem da obra do poeta romano Horácio, que descreve Horácio sendo salvo de uma árvore que caía pela intervenção do poeta Fauno.

Um comunicado escrito alguns dias antes dizia:

Sim. Por ora, Lodge, tenham fé e sabedoria em tudo o que é mais elevado e melhor. Vocês não foram profundamente guiados e cuidados? Podem responder "Não"? É pela sua fé que tudo está bem e sempre esteve[2] .

Esta mensagem chegou por correio separado no mesmo dia que a mensagem do 'Faunus'.

Sabendo que uma árvore caída ou em queda é um símbolo frequente de morte (devido a uma interpretação errônea de Eclesiastes 11:3 no Antigo Testamento), Lodge se perguntou se seu velho amigo Myers queria prepará-lo para uma morte na família, ou talvez algum desastre financeiro. Tendo recebido o telegrama informando-o da morte de Raymond, ele interpretou a mensagem como um desejo de Myers de amenizar o impacto, informando-o de que seu filho ainda estava vivo.

 

Mensagens Evidenciais

Lodge e sua esposa posteriormente realizaram sessões com o médium Alfred Vout Peters e com Gladys Leonard, uma médium de voz em transe radicada em Londres, semelhante a Piper. Em ambos os casos, o casal acreditava estar em comunicação com o espírito sobrevivente de Raymond. Em uma aparente tentativa de fornecer provas disso, "Raymond" contou-lhes sobre uma fotografia de grupo do regimento na qual ele aparecia, tirada vinte e um dias antes de sua morte. Isso foi mencionado pela primeira vez em uma sessão que sua mãe realizou com Peters e novamente quando seu pai se encontrou com Leonard. "Raymond" disse-lhes que a fotografia o mostraria segurando uma bengala e alguém atrás dele apoiado em seu ombro. Os Lodges não tinham conhecimento dessa fotografia, e ela não estava entre seus pertences. No entanto, dois meses depois, a mãe de um dos colegas oficiais de Raymond enviou-lhes exatamente uma fotografia semelhante, na qual Raymond era visto sentado no chão com uma bengala sobre as pernas e o oficial atrás dele apoiava o braço em seu ombro.

Lodge ficou impressionado com o detalhe e a precisão dessa declaração verídica e não conseguiu encontrar nenhuma explicação plausível em termos de fraude por parte dos médiuns e/ou outros. O nível de detalhe argumentava contra a coincidência. Também não poderia ser razoavelmente explicado em termos de telepatia entre a pessoa retratada e o médium – uma explicação favorecida por muitos pesquisadores psíquicos da época – já que, mesmo que os Lodges tivessem adivinhado a existência da fotografia, não poderiam ter conhecido os detalhes descritos pelos médiuns. Lodge também ficou impressionado com o fato de a mesma mensagem ter sido transmitida por dois médiuns diferentes[3].

Foto em preto e branco de grupo de pessoas posando para foto

O conteúdo gerado por IA pode estar incorreto.

Leonard também facilitava, às vezes, a comunicação inclinando uma mesa, em que uma mesa tocada pelo médium e pelos participantes fazia movimentos que podiam ser contados para indicar letras do alfabeto. Em uma dessas sessões, em 28 de setembro, 'Raymond' se identificou pelo apelido 'Pat'. Como um teste adicional, Lodge pediu que ele nomeasse um de seus cinco irmãos. A mesa soletrava NORMAN- antes de Lodge interromper, sugerindo que ele estava confuso, e pedir que ele começasse novamente. O nome NOEL foi então soletrado, que era o nome de um dos irmãos de Raymond. Ao discutir isso com seus outros filhos, Lodge descobriu pela primeira vez que 'Norman' era um apelido jocoso que Raymond usava quando os meninos jogavam hóquei juntos, gritando 'E aí, Norman!' ou outras palavras de incentivo para qualquer um de seus irmãos mais velhos que ele quisesse animar[4] .

Lodge considerou isso um argumento contra a telepatia entre os vivos, já que nem ele nem sua esposa sabiam que Raymond usava o nome "Norman". Ele também interpretou isso como um indício de que Raymond, que havia discutido pesquisas psíquicas com ele quando ainda estava vivo, estava tentando fornecer informações verídicas ao usar um nome desconhecido para seus pais.

Em 21 de dezembro, Alec, o irmão mais velho de Raymond, sentou-se com Leonard e realizou um teste próprio. Alec perguntou a "Raymond" sobre sua música favorita. Em seguida, ouviu Feda, o "controlador espiritual" de Leonard, aparentemente questionando Raymond e sussurrando: "Uma senhora de laranja?". Aparentemente confuso, Feda disse: "Ele fala algo sobre uma senhora de laranja". Alec considerou isso uma evidência, já que "My Orange Girl" era um disco de vinil que Raymond havia comprado, o último antes de morrer. "Raymond" também mencionou "Irish Eyes", outra das favoritas de Raymond. Uma tentativa com uma terceira música produziu apenas as letras "M" e "A". Em uma sessão posterior, "Raymond" foi questionado sobre o significado das letras M e A e, então, conseguiu dizer claramente o nome "Maggie Magee", uma música desconhecida para qualquer pessoa da família, exceto sua irmã Norah, que não estava presente na sessão (outro possível indício contra a telepatia)[5] .

Embora, quando Lodge se encontrou com Leonard em 3 de março, estivesse convencido de que ela não era uma charlatã, ainda sentiu necessidade de testá-la. Naquela ocasião, perguntou a "Raymond" se ele conhecia o "Sr. Jackson". Feda teve dificuldade em entender a resposta, mas acabou comunicando: "Belo pássaro... coloque-o em um pedestal". Lodge tinha certeza de que Leonard não poderia saber que Sr. Jackson era o nome do pavão de estimação de sua esposa, nem que o pássaro havia morrido uma semana antes e estava sendo empalhado e colocado em um pedestal de madeira[6] .

Lodge concluiu:

O número de provas mais ou menos convincentes que obtivemos já é muito grande. Algumas agradam mais a uma pessoa, outras a outra; mas, considerando-as todas em conjunto, parece que toda e qualquer possível motivo de suspeita ou dúvida foi agora dissipado para a família[7].

 

Mensagens sem evidências

Incomum para comunicadores mediúnicos, 'Raymond' tinha muito a dizer sobre as condições em que se encontrava. Explicou que não encontrava palavras para descrevê-las, exceto que eram sólidas e maravilhosamente reais: vivia numa casa de tijolos, com árvores e flores crescendo em solo firme. A princípio, presumiu que tudo era criação do pensamento, mas percebeu que era muito mais do que isso, embora não compreendesse. Disse que seu corpo era semelhante ao que tinha antes, embora os órgãos internos não parecessem constituídos da mesma forma que seu antigo corpo físico. Acrescentou que tinha olhos e ouvidos, até cílios, e que tinha um dente novo no lugar do que perdera enquanto vivia na Terra. Além disso, nunca vira ninguém sangrar. Conhecia um homem que perdera o braço em sua vida terrena, mas o vira crescer novamente aos poucos.

Raymond mencionou que, a princípio, havia um desejo por comida, mas que isso passou com o tempo. Até charutos e uísque com soda estavam disponíveis para quem os desejasse. Ele disse ainda que visitou uma biblioteca onde se podiam encontrar livros que, eventualmente, seriam "impressos" no cérebro de alguma pessoa na Terra e publicados.

Raymond disse que a princípio ficou confuso e não conseguia se orientar, mas se adaptou rapidamente. Mais tarde, ele contou que estava ajudando outras almas que estavam passando para o outro lado durante a guerra e que algumas, sem saber que haviam morrido, continuaram lutando. Era seu trabalho explicar a elas que haviam deixado o corpo físico para trás e que agora estavam em uma realidade diferente.

Lodge escreveu que muito disso lhe parecia absurdo e que hesitou em incluir em seu livro, mas sentiu que não deveria omitir nada simplesmente por parecer sem sentido.

 

Elogios e críticas

Uma breve resenha sobre Raymond, publicada no SPR Journal de janeiro de 1917, concluiu:

Haverá muitas opiniões divergentes quanto ao grau de aceitação a ser concedido às revelações de outra esfera da vida aqui apresentadas. Céticos obstinados e talvez crentes rigidamente ortodoxos não as aceitarão... o mínimo que se pode dizer é que uma exposição tão abrangente, tão lúcida e tão franca será de grande auxílio a todos que dedicarem reflexão séria ao assunto.

Uma resenha mais completa de Eleanor Sidgwick foi publicada nos SPR Proceedings de 1917. Ela observou que o livro já havia passado por sete edições e atribuiu seu sucesso ao "dom de Lodge para uma exposição simples e popular" em um momento em que muitos estavam de luto pela perda de entes queridos. Ela escreveu:

E não há dúvida de que a contribuição deste livro é sólida e valiosa. Para quem se sentir desapontado com o fato de a quantidade de evidências aqui apresentadas não ser maior ou mais contundente, posso salientar que boas evidências de sobrevivência e comunicação são mais difíceis de obter — além das dificuldades inerentes à sua produção — do que aqueles que são novos no assunto costumam imaginar.

Sidgwick ficou especialmente impressionada com o caso da fotografia em grupo, já que aparentemente ia além das teorias normais de telepatia ou leitura da mente inconsciente às quais ela aderiu. Contudo, Sidgwick opinou que grande parte da comunicação poderia ter ocorrido por tais meios e, após mencionar os próprios alertas de Lodge sobre vários aspectos da mediunidade, concluiu sua resenha sugerindo que os riscos de o leitor se deparar com médiuns profissionais desonestos podem muito bem superar o conforto obtido com médiuns genuínos[8] .

Em um livro de 1917, Reflections on ‘Raymond: An Appreciation and Analysis , Walter Cook criticou a obra, especulando longamente sobre os métodos pelos quais Lodge poderia ter sido enganado. Ele argumentou que a Sra. Kennedy, a pessoa que apresentou Lady Lodge a Leonard, poderia ter fornecido ao médium informações sobre a família Lodge. Cook também tentou desconsiderar a fotografia de grupo, apontando que não era incomum soldados serem fotografados em seus grupos, nem oficiais possuírem bengalas, mas optou por ignorar o detalhe evidente do oficial atrás de Raymond, apoiado em seu ombro. Cook especulou ainda que a foto havia chegado à Inglaterra antes que os Lodges recebessem uma cópia, e que eles poderiam ter visto outra cópia ou ouvido falar dela. Ele observou que a Sra. Kennedy e um Sr. J. A. Hill, que confirmou a história da fotografia de grupo, eram ambos membros da SPR e "investigadores fervorosos em assuntos espiritualistas", insinuando que seus testemunhos não deveriam ser levados a sério[9] .

Também em 1917, Charles Arthur Mercier, um psiquiatra britânico, publicou um artigo intitulado Spiritualism and Sir Oliver Lodge, no qual questionava as qualificações de Lodge para investigar médiuns, argumentando que isso deveria ser deixado para o ilusionista profissional[10]. Mercier examinou criticamente um caso no livro anterior de Lodge, de 1909, mas fez pouca tentativa de explicar os casos descritos em "Raymond".

James Hyslop escreveu resenhas mordazes de ambos os textos[11].

Outros críticos sugeriram que o julgamento de Lodge foi influenciado por uma "vontade de acreditar" que seu filho havia sobrevivido à morte em batalha, embora esse evento trágico não justificasse a declaração de Lodge sobre sua crença na sobrevivência em seu livro de 1909, que o precedeu em seis anos.

Em uma resenha publicada no New York Times, Van Buren Thorne afirmou que nada indicava que Oliver Lodge não pudesse ter sido enganado em relação à sua alegação de que médiuns forneceram comunicações comprobatórias em um momento em que desconheciam sua identidade ou a de seus familiares. No entanto, Thorne admitiu que os médiuns poderiam não ter visto a fotografia do grupo em nenhum momento antes de ela ser descrita a Lodge[12].

 

O livro Raymond ou Vida e Morte

O livro de 404 páginas está dividido em três partes. A Parte Um apresenta informações biográficas sobre Raymond Lodge e inclui trechos de cartas recebidas dele antes de sua morte. A Parte Dois aborda as comunicações de 'Raymond' e de outras pessoas por meio de médiuns. A Parte Três oferece um tratado filosófico sobre a vida e a morte.

Uma sequência, Raymond Revised, foi publicada em 1922, resumindo as principais evidências do livro de 1916 e acrescentando novas evidências e comentários.

 

Literatura

§  Cook, W. (1917). Reflections on “Raymond: An Appreciation and Analysis. London: Grant Richards.

§  Hyslop, J. (1919a). Review of ‘Spiritualism and Sir Oliver Lodge’ by Charles Mercier, ‘Reflections on ‘Raymond” by Walter Cook, and ‘The Question: “If a Man Die, Shall he Live Again?”‘ by Edward Clodd. Journal of the American Society for Psychical Research 13, 318-30.

§  Hyslop, J. (1919b). Contact with the Other World. New York: The Century Co.

§  Kollar, R. (2000). Searching for Raymond: Anglicanism, Spiritualism, and Bereavement between the Two World Wars. Lanham, Maryland, USA: Lexington Books.

§  Lodge, O. (1909). The Survival of Man. New York: Moffat, Yard and Co.

§  Lodge, O. (1916). Raymond, or Life and Death. New York: George H. Doran Company.

§  Lodge, O. (1922). Raymond Revised. London: Psychic Book Club.

§  Lodge, O. (1932). Past Years. New York: Charles Scribner’s Sons.

§  Mercier, C.A. (1917/2012). Spiritualism and Sir Oliver Lodge. London: Forgotten Books.

§  Sidgwick, E. (1917). Sir Oliver Lodge’s ‘Raymond’. Proceedings of the Society for Psychical Research 29, 404-9.

§  Thorne, V.B. (1917). Sir Oliver Lodge says his son’s spirit talks to him. Slain in battle, the youngest son of the scientist is asserted to have communicated facts of existence in another world. The New York Times, SM3.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Lodge (1916), 90-91.

[3] Lodge (1916), 105-16 e Anais da Sociedade de Pesquisa Psíquica (1916), vol. 29, 132-49.

[4] Lodge (1916), 139-40.

[5] Lodge (1916), 208-13.

[6] Lodge (1916), 256-57, 278.

[7] Lodge (1916), 279.

[8] Sidgwick (1917), 404-9.

[9] Cook (1917), 88.

[10] Mercier (1917), 13.

[11] Hyslop (1909a).

[12] Thorne (1917).

terça-feira, 3 de março de 2026

PROCESSO PARA AFASTAR OS ESPÍRITOS MAUS[1]

 


Allan Kardec

 

A ingerência dos Espíritos enganadores nas comunicações escritas é uma das maiores dificuldades do Espiritismo. Sabe-se, por experiência, que eles não têm nenhum escrúpulo de tomar nomes supostos e até mesmo respeitáveis.

Haverá meios de os afastar? Eis a questão. Com essa finalidade, certas pessoas empregam aquilo que se poderia chamar processos, isto é, fórmulas particulares de evocação, ou espécies de exorcismos, por exemplo, fazê-los jurar em nome de Deus que dizem a verdade, fazê-los escrever certas coisas etc. Conhecemos alguém que, a cada frase, obriga o Espírito a assinar o nome; se este é o verdadeiro, escreve-o sem dificuldade; se não o é, para de repente, sem poder concluí-lo. Vimos essa pessoa receber as comunicações mais ridículas de Espíritos que assinavam um nome falso com notável ousadia. Pensam outras criaturas que um meio eficaz é fazê-los confessar Jesus em carne, ou outras verdades da religião. Pois bem! Declaramos que se alguns Espíritos um pouco mais escrupulosos se detêm ante a ideia de perjúrio ou de uma profanação, há os que juram tudo o que quisermos, assinam todos os nomes, riem-se de tudo e afrontam a presença das mais veneradas figuras, de onde se conclui que, entre o que se pode chamar processos, não existe nenhuma fórmula, nenhum expediente material que possa funcionar como preservativo eficaz.

Dir-se-á, neste caso, que nada há a fazer, senão deixar de escrever. Este meio não seria melhor. Longe disso, em muitos casos seria pior. Já dissemos – e nunca seria demais repetir – que a ação dos Espíritos sobre nós é incessante e, por ser oculta, não deixa de ser menos real. Se ela deve ser má, será ainda mais perniciosa, pela própria razão de o inimigo encontrar-se escondido.

Através das comunicações escritas ele se revela e se desmascara.

Assim, sabemos com quem lidamos e podemos combatê-lo. Mas, se não há nenhum meio de o afastar, que fazer então? Não dissemos que não haja nenhum meio, mas apenas que a maioria dos que empregamos são ineficazes. Esta a tese que nos propomos desenvolver.

É preciso não perder de vista que os Espíritos constituem todo um mundo, toda uma população que enche o espaço, circula ao nosso lado, mistura-se a tudo quanto fazemos. Se o véu que no-los oculta viesse a ser levantado, nós os veríamos à nossa volta, indo e vindo, seguindo-nos ou nos evitando, conforme o grau de simpatia; uns indiferentes, verdadeiros desocupados do mundo oculto, outros muito ocupados, quer consigo mesmos, quer com os homens aos quais se ligam, com um propósito mais ou menos louvável, segundo as qualidades que os distinguem. Numa palavra, veríamos uma cópia perfeita do gênero humano, com suas boas e más qualidades, com suas virtudes e vícios. Esse envolvimento, ao qual não podemos escapar, já que não há recantos por demais ocultos que sejam inacessíveis aos Espíritos, exerce sobre nós e à nossa revelia, uma influência permanente. Uns nos impelem ao bem, outros ao mal; muitas vezes as nossas determinações resultam de suas sugestões; felizes daqueles que têm juízo suficiente para discernir o bom ou o mau caminho por onde nos procuram arrastar. Considerando-se que os Espíritos nada mais são que os próprios homens despojados de sua indumentária grosseira, ou almas que sobrevivem aos corpos, segue-se que há Espíritos desde que há seres humanos no Universo. São uma das potências da Natureza, e não esperam que haja médiuns escreventes para agir; a prova disso é que, em todos os tempos, os homens hão cometido inconsequências. Eis por que dizemos que sua influência é independente da faculdade de escrever; essa faculdade é um meio de conhecer tal influência, de saber quais são os que nos rodeiam e quais aqueles que se ligam a nós. Pensar que nos podemos subtrair a essa influência, abstendo-nos de escrever, é agir como crianças que acreditam escapar a um perigo pelo simples tapar dos olhos. Ao revelar aqueles que temos por camaradas, como amigos ou inimigos, por isso mesmo a escrita nos proporciona uma arma para combater estes últimos, pelo que devemos agradecer a Deus. Na ausência da visão para reconhecer os Espíritos, temos as comunicações espíritas, por onde eles se revelam tais quais são; isso é, para nós, um sentido que nos permite julgá-los. Repeli-lo é comprazer-se em ficar cego e exposto ao engano sem controle.

A ingerência dos Espíritos maus nas comunicações escritas não constitui, pois, um perigo ao Espiritismo, porque, se perigo há, continuará havendo e em caráter permanente. Nunca estaríamos bastante persuadidos desta verdade; trata-se apenas de uma dificuldade, da qual o Espiritismo triunfará, se a ele nos dedicarmos de maneira conveniente.

Antes de tudo podemos estabelecer como princípio que os Espíritos maus não aparecem senão onde alguma coisa os atrai.

Portanto, quando se intrometem nas comunicações, é que encontram simpatias no meio onde se apresentam ou, pelo menos, lados fracos que esperam aproveitar; em todo caso, porque não encontram  uma força moral suficiente para os repelir. Entre as causas que os atraem, é preciso colocar em primeira linha as imperfeições morais de qualquer natureza, porque o mal simpatiza sempre com o mal; em segundo lugar, a excessiva confiança com que são acolhidas suas palavras. Quando uma comunicação revela uma origem má, seria ilógico inferir daí uma paridade necessária entre o Espírito e os evocadores. Frequentemente vemos pessoas muito distintas expostas às patifarias dos Espíritos enganadores, como ocorre no mundo com as pessoas honestas, enganadas pelos espertalhões; mas quando tomamos precauções, estes últimos nada têm a fazer; é o que acontece também com os Espíritos. Quando uma pessoa honesta é enganada por eles, isso pode decorrer de duas causas: a primeira é uma confiança absoluta, que a leva a desistir de todo exame; a segunda é que as melhores qualidades não excluem certos lados fracos que dão guarida aos Espíritos maus, ávidos por se agarrarem às menores falhas da couraça. Não nos referimos ao orgulho e à ambição, que são mais do que entraves, mas a uma certa fraqueza de caráter e, sobretudo, aos preconceitos que esses Espíritos sabem explorar com habilidade, lisonjeando-os; com vistas a isso, eles usam de todas as máscaras, a fim de inspirar mais confiança.

As comunicações francamente grosseiras são as menos perigosas, visto a ninguém poderem enganar. As que mais enganam são as que têm uma falsa aparência de sabedoria ou de seriedade: numa palavra, as dos Espíritos hipócritas e pseudossábios. Uns podem enganar-se de boa-fé, por ignorância ou presunção; os outros não agem senão pela astúcia. Vejamos, então, qual o meio de nos desembaraçarmos deles.

A primeira coisa é não os atrair e evitar tudo quanto lhes possa dar acesso.

Como vimos, as disposições morais são uma causa preponderante. Todavia, abstração feita dessa causa, o modo empregado não deixa de ter influência. Há pessoas que têm por princípio jamais fazer evocações e esperar a primeira comunicação espontânea que saia do lápis do médium. Ora, se nos recordarmos do que já dissemos sobre a variada e numerosa população dos Espíritos que nos cercam, compreenderemos sem dificuldade que isso seria colocar-nos à mercê do primeiro que viesse, bom ou mau.

E como nessa multidão há mais Espíritos maus do que bons, existe mais oportunidade para os maus, exatamente como se abríssemos a porta a todos os passantes da rua, ao passo que, pela evocação, fazemos a escolha; ademais, cercando-nos de Espíritos bons, impomos silêncio aos maus que, apesar disso, bem poderão procurar insinuar-se algumas vezes. Os bons chegam mesmo a permiti-lo para exercitar a nossa sagacidade em reconhecê-los, mas não terão nenhuma influência. As comunicações espontâneas têm uma grande utilidade quando estamos cientes da qualidade daqueles que nos cercam. Devemos, então, felicitar-nos pela iniciativa deixada aos Espíritos. O inconveniente não se encontra senão no sistema absoluto, que consiste em nos abstermos do apelo direto e das perguntas.

Entre as causas que influem poderosamente sobre a qualidade dos Espíritos que frequentam as casas espíritas, não se deve omitir a natureza das coisas que ali são tratadas. Aquelas que se propõem um fim sério e útil atraem, por isso mesmo, os Espíritos sérios; as que somente visam satisfazer a vã curiosidade ou seus interesses pessoais, expõem-se pelo menos a mistificações, quando não a coisas piores. Em resumo, podemos extrair das comunicações espíritas os mais sublimes e os mais úteis ensinamentos, desde que os saibamos dirigir. Toda a questão se resume em não nos deixarmos levar pela astúcia dos Espíritos zombeteiros ou malévolos. Ora, para isso o essencial é saber com quem tratamos. Inicialmente, ouçamos a propósito os conselhos que foram dados pelo Espírito São Luís à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas através do Sr. R..., um de seus bons médiuns.

Trata-se de uma comunicação espontânea por ele recebida certo dia, em sua casa, com a missão de transmiti-la à referida Sociedade:

Por maior que seja a legítima confiança que inspira os Espíritos que presidem aos vossos trabalhos, há uma recomendação que nunca será por demais repetida e que deveis tê-la sempre presente em vossa mente, quando vos entregardes aos vossos estudos: pesai e amadurecei; submetei ao controle da mais severa razão a totalidade das comunicações que receberdes; não hesiteis, desde que uma resposta vos pareça duvidosa ou obscura, de demandar os esclarecimentos necessários para fixá-la.

Sabeis que a revelação existiu desde os tempos mais recuados, sempre apropriada ao grau de adiantamento dos que a recebiam. Hoje não se trata de vos falar por imagens e parábolas; deveis receber nossos ensinamentos de uma maneira clara, precisa e sem ambiguidade. Entretanto, seria muito cômodo ter apenas de questionar para ser esclarecido; aliás, isso seria escapar às leis progressivas que presidem à evolução universal. Não vos admireis, pois, se, para vos deixar o mérito da escolha e do trabalho, e também para punir as infrações que possais cometer aos nossos conselhos, algumas vezes é permitido a certos Espíritos, mais ignorantes que mal-intencionados, a responder em certos casos às vossas perguntas. Em vez de ser isso um motivo de desencorajamento, deve ser um poderoso excitante, para que pesquiseis ardentemente a verdade. Ficai, pois, bem convictos de que, seguindo este caminho, não podereis deixar de chegar a resultados felizes. Sede unidos de coração e de intenção; trabalhai todos; procurai, procurai sempre e encontrareis.

Luís

 

Por pouco tato, raciocínio ou hábito de observação que tenhamos, a linguagem dos Espíritos bons e sérios traz um selo que torna impossível nos enganarmos. Quanto aos Espíritos maus, por mais que cubram as suas torpezas com o véu da hipocrisia, jamais poderão representar indefinidamente o seu papel; acabam deixando cair a máscara. De outro modo, se sua linguagem fosse impoluta, seriam Espíritos bons. A linguagem dos Espíritos é, pois, o verdadeiro critério pelo qual podemos julgá-los. Sendo a linguagem a expressão do pensamento, tem sempre um reflexo das boas ou más qualidades do indivíduo. Não é também pela linguagem que julgamos os homens que não conhecemos? Se recebermos vinte cartas de vinte pessoas que jamais vimos, não nos deixaremos impressionar de modo diverso pela sua leitura? Não será pelas qualidades do estilo, pela escolha das expressões, pela natureza dos pensamentos, e até por certos detalhes de forma, que reconheceremos, naquele que nos escreve, o homem rústico e o bem-educado, o sábio e o ignorante, o orgulhoso e o modesto?

Dá-se absolutamente a mesma coisa com os Espíritos.

Suponhamos que sejam homens que nos escrevem: devemos julgá-los da mesma maneira. Julguemo-los severamente, porquanto os Espíritos bons de modo algum se sentirão ofendidos com essa escrupulosa investigação, porque são eles próprios que no-la recomendam como meio de controle. Sabendo que podemos ser enganados, nosso primeiro sentimento deve ser o de desconfiança. Somente os Espíritos maus, que procuram nos induzir em erro, podem temer o exame, porque, longe de o provocar, querem ser acreditados sob palavra.

Desse princípio resulta muito naturalmente e com bastante lógica o meio mais eficaz de afastar os Espíritos maus e de nos premunirmos contra as suas falsidades. O homem que não é ouvido deixa de falar; aquele que vê os seus estratagemas constantemente descobertos vai causar aborrecimentos em outros lugares; o espertalhão, ciente de que nos mantemos em estado de alerta, não faz tentativas inúteis. Do mesmo modo, os Espíritos enganadores deixam a partida quando percebem que nada podem fazer, ou quando encontram pessoas vigilantes que desprezam tudo quanto lhes pareça suspeito.

Para terminar, resta passar em revista os principais caracteres que revelam a origem das comunicações espíritas.

1.       Os Espíritos superiores, como já dissemos em várias ocasiões, têm uma linguagem sempre digna, nobre, elevada, sem qualquer mistura de trivialidade. Dizem tudo com simplicidade e modéstia, jamais se vangloriam e não fazem ostentação de seu saber nem de sua posição entre os demais. A dos Espíritos inferiores ou vulgares tem sempre algum reflexo das paixões humanas; toda expressão que denota baixeza, suficiência, arrogância, bazófia ou acrimônia é indício característico de inferioridade e de embuste, caso o Espírito se apresente com um nome respeitável e venerado.

2.       Os Espíritos bons não dizem senão o que sabem; calam-se ou confessam a sua ignorância sobre aquilo que não sabem. Os maus falam de tudo com segurança, sem se incomodarem com a verdade. Toda heresia científica notória, todo princípio que choca a razão e o bom-senso denuncia fraude, desde que o Espírito se apresente como um ser esclarecido.

3.       A linguagem dos Espíritos elevados é sempre idêntica, se não quanto à forma, pelo menos quanto ao fundo. Os pensamentos são os mesmos, quaisquer que sejam o tempo e o lugar. Podem ser mais ou menos desenvolvidos, conforme as circunstâncias, as necessidades e as facilidades de se comunicarem, mas não são contraditórios. Se duas comunicações, que trazem a mesma assinatura, encontram-se em oposição, uma delas será evidentemente apócrifa, e a verdadeira será aquela onde nada desminta o caráter conhecido do personagem. Quando uma comunicação apresenta o caráter de sublimidade e de elevação, sem nenhum defeito, é porque emana de um Espírito superior, seja qual for o seu nome; se encerrar uma mistura de bom e de mau, procede de um Espírito vulgar, caso se apresente como é; será de um Espírito impostor se ele se ornar de um nome que não pode justificar.

4.       Os Espíritos bons jamais dão ordens; não impõem: aconselham e, se não são ouvidos, retiram-se. Os maus são imperiosos: ordenam e querem ser obedecidos. Todo Espírito que impõe trai a sua origem.

5.       Os Espíritos bons não adulam. Aprovam quando se faz o bem, mas sempre com reservas; os maus são pródigos em elogios exagerados, estimulam o orgulho e a vaidade, mesmo pregando a humildade, e procuram exaltar a importância pessoal daqueles a quem desejam apanhar.

6.       Os Espíritos superiores estão acima das puerilidades formais em todas as coisas; para eles o pensamento é tudo, a forma nada vale. Somente os Espíritos vulgares podem ligar importância a certos detalhes incompatíveis com as ideias verdadeiramente elevadas. Toda prescrição meticulosa é sinal certo de inferioridade e de embuste da parte de um Espírito que toma um nome imponente.

7.       É preciso desconfiar dos nomes estranhos e ridículos tomados por certos Espíritos que se querem impor à credulidade; seria supremo absurdo levar esses nomes a sério.

8.       Deve-se igualmente desconfiar daqueles que muito facilmente se apresentam com nomes extremamente venerados, e não aceitar suas palavras senão com a maior reserva. É sobretudo nesses casos que se torna necessário um severo controle, porquanto muitas vezes é uma máscara que utilizam para nos fazer crer em supostas relações íntimas com os Espíritos de elevada hierarquia. Por esse meio lisonjeiam a vaidade, aproveitando frequentemente para induzir a atitudes lamentáveis ou ridículas.

9.       Os Espíritos bons são muito escrupulosos sobre as providências que podem aconselhar; em todos os casos estas têm sempre um objetivo sério e eminentemente útil. Deve-se, pois, olhar como suspeitas todas as que não tiverem esse caráter, refletindo maduramente antes de adotá-las.

10.   Os Espíritos bons só prescrevem o bem. Toda máxima, todo conselho que não estiver estritamente conforme a pura caridade evangélica não pode ser obra de Espíritos bons; acontece o mesmo com toda insinuação malévola, tendente a excitar ou a alimentar sentimentos de ódio, de ciúme e de egoísmo.

11.   Os Espíritos bons jamais aconselham coisas que não sejam perfeitamente racionais. Toda recomendação que se afaste da linha reta do bom-senso ou das leis imutáveis da Natureza denuncia um Espírito limitado e ainda sob a influência dos preconceitos terrestres; consequentemente, pouco digno de confiança.

12.   Os Espíritos maus, ou simplesmente imperfeitos, ainda se traem por sinais materiais com os quais não nos poderíamos enganar. Sua ação sobre o médium por vezes é violenta, provocando na sua escrita movimentos bruscos e irregulares, uma agitação febril e convulsiva, que contrasta com a calma e a suavidade dos Espíritos bons.

13.   Um outro sinal de sua presença é a obsessão. Os Espíritos bons jamais obsidiam. Os maus se impõem em todos os momentos, razão por que todo médium deve desconfiar da necessidade irresistível de escrever que dele se apodera nas ocasiões menos oportunas. Jamais se trata de um Espírito bom, e ele nunca deve ceder.

Entre os Espíritos inferiores que se intrometem nas comunicações, há os que, por assim dizer, se insinuam furtivamente, como para fazer uma brincadeira, mas que se retiram tão facilmente como vieram, e isto na primeira intimação; outros, ao contrário, são tenazes, agarram-se ao indivíduo e não cedem senão a contragosto e com persistência. Apoderam-se dele, subjugam-no e o fascinam a ponto de fazê-lo tomar os mais grosseiros absurdos por coisas admiráveis. Feliz dele quando criaturas de sangue-frio conseguem abrir-lhe os olhos, o que nem sempre é fácil, já que tais Espíritos são mestres em inspirar a desconfiança e o afastamento de quem quer que os possa desmascarar. Daí se segue que devemos ter por suspeito de inferioridade ou de má intenção todo Espírito que prescreve o isolamento e o afastamento das pessoas que podem dar bons conselhos. O amor-próprio vem em seu auxílio, porque nos é penoso confessar que fomos vítimas de uma mistificação e reconhecer um velhaco naquele sob cujo patrocínio nos sentíamos honrados em nos colocar. Essa ação do Espírito é independente da faculdade de escrever. À falta da escrita, o Espírito malévolo dispõe de cem maneiras diferentes de agir e ludibriar. Para ele a escrita é um meio de persuasão, mas não é uma causa; para o médium, é um meio de esclarecer-se.

Passando todas as comunicações escritas pelo controle das considerações precedentes, reconheceremos facilmente a sua origem e poderemos frustrar a malícia dos Espíritos enganadores, que só se dirigem àqueles que se deixam enganar voluntariamente.

Se perceberem que nos dobramos ante as suas palavras, disso tirarão partido, exatamente como fariam os simples mortais.

Compete, pois, a nós provar-lhes que perdem o tempo. Acrescentemos que, para isso, a prece é poderoso auxílio; por ela atraímos a assistência de Deus e dos Espíritos bons, aumentando nossa própria força. É conhecido o preceito: “Ajuda-te, e o céu te ajudará.” Por certo Deus quer assistir-nos, contanto que, de nosso lado, façamos aquilo que é necessário.

A esse preceito acrescentamos um exemplo. Um senhor que eu não conhecia veio ver-me certo dia, dizendo que era médium e recebia comunicações de um Espírito muito elevado, que o havia encarregado de vir a mim, fazer-me uma revelação a respeito de uma trama que, segundo ele, era urdida contra mim, por parte de inimigos secretos que designou. “Quereis – acrescentou – que eu escreva em vossa presença?” – “Com prazer – respondi – mas de início devo dizer-vos que esses inimigos são menos temerosos do que supondes. Sei que os tenho; quem não os tem?

E os mais obstinados em geral são aqueles a quem mais beneficiamos. Tenho consciência de jamais ter feito voluntariamente mal a quem quer que seja. O mesmo não poderão dizer aqueles que me fizeram mal e, entre nós, Deus será juiz. Vejamos, no entanto, o conselho que vosso Espírito quer dar-me.” Então esse senhor escreveu o seguinte:

Ordenei a C... (nome daquele senhor), que é o farol de luz dos Espíritos bons, dos quais recebeu a missão de a espalhar entre seus irmãos, que se dirigisse à casa do Sr. Allan Kardec, o qual deverá crer cegamente no que eu lhe disser, porque pertenço ao número dos eleitos prepostos por Deus para velar a salvação dos homens, e porque lhe venho anunciar a verdade...

É bastante – disse-lhe eu – não se dê ao trabalho de continuar. Este exórdio é suficiente para mostrar com que espécie de Espírito estais tratando. Acrescentarei apenas uma palavra: para um Espírito que pretende ser astucioso, ele é bem desajeitado.

Esse senhor pareceu bastante escandalizado do pouco caso que eu fazia de seu Espírito, que havia tomado por algum arcanjo ou, pelo menos, por algum santo de primeira classe, vindo expressamente para ele. Disse-lhe eu: Esse Espírito se trai em cada uma das palavras que acaba de escrever e, convenhamos, esconde muito mal o seu jogo. Primeiro ele ordena; quer, portanto, manter-vos sob sua dependência, o que é característico dos Espíritos obsessores; ele vos chama de farol de luz dos Espíritos bons, linguagem sofrivelmente enfática e incompreensível, muito distante da simplicidade que caracteriza a dos Espíritos bons; por ela lisonjeia o vosso orgulho e vos exalta a importância, o que é suficiente para torná-lo suspeito. Coloca-se sem a menor cerimônia no rol dos eleitos prepostos de Deus: jactância indigna de um Espírito verdadeiramente superior. Por fim me diz que devo crer cegamente; isso coroa a obra. É bem o estilo desses Espíritos mentirosos, que querem que neles acreditemos sob palavra, pois sabem que num exame sério têm tudo a perder. Com um pouco mais de perspicácia saberia que não me deixo convencer por belas palavras, nem teria sido tão inábil a ponto de prescrever-me uma confiança cega. Daí concluo que sois joguete de um Espírito mistificador que abusa da vossa boa-fé. Exorto-vos seriamente a prestar muita atenção a isso, porque, se não vos acautelardes, podereis ser vítima de um golpe lamentável de sua parte.

Não sei se aquele senhor aproveitou a advertência, pois não mais o vi, nem ao seu Espírito. Eu jamais terminaria se fosse narrar todas as comunicações desse gênero a mim submetidas, por vezes muito seriamente, como emanando dos maiores santos, da Virgem Maria e do próprio Cristo, e seria realmente curioso ver as torpezas debitadas à conta desses nomes venerados. É preciso ser cego para se deixar enganar quanto à sua origem, quando, muitas vezes, uma única palavra equívoca, um só pensamento contraditório é suficiente para fazer descobrir o embuste a quem se der ao trabalho de refletir. Como exemplos notáveis em seu apoio, concitamos nossos leitores a se reportarem aos artigos publicados na Revista Espírita referentes aos meses de julho e outubro de 1858.



[1] REVISTA ESPÍRITA – setembro/1859 – Allan Kardec

segunda-feira, 2 de março de 2026

JOSÉ BERNARDINO GONÇALVES TEIXEIRA[1]

 


 Rebuscando em edições remotas da “Revista de Espiritismo”, precisamente no número 4, 5 e 6 de Julho/Dezembro de 1938, fomos encontrar notícia acerca de mais uma ilustre personalidade do movimento espírita português das décadas de 20 e 30.

Infelizmente é difícil encontrar alusões a muitas outras personalidades que alimentaram o movimento de então, quer na sua florescência, quer na clandestinidade a que se viu remetido devido às atitudes perseguidoras do Estado Novo.

Sob o título “Figuras que Marcam”, encontrámos esta rubrica da autoria de Sousa Carvalho, editor da “Revista de Espiritismo”, em 1938, e que transcrevemos pelo seu interesse:

Em 25 de Janeiro de 1934[2], isto é, dois anos certos depois de ter perdido a esposa (20 de Novembro de 1932), falece, em Lisboa o Dr. José Bernardino Gonçalves Teixeira.

Possuidor de uma sólida cultura, este homem ilustre era, a par disso, de um carácter lídimo, de uma modéstia impressionante e de uma bondade difícil de igualar.

A morte de um filho, já formado em medicina, levou-o a procurar no espiritismo os lenitivos para a sua dura provação.

Sendo Director Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros — não hesitou em aceitar o cargo de presidente da Assembleia Geral da Federação Espírita Portuguesa, onde prestou os mais relevantes serviços.

Os graves desgostos, infligidos por alguns CORIFEUS do espiritismo, que por cá campeavam, levaram o Dr. José Bernardino Gonçalves Teixeira a abandonar um cargo, a que dera tanto lustre e elevação.

Que os adeptos da causa saibam enviar ao espírito do Dr. José Bernardino Gonçalves Teixeira pensamentos de amor e de gratidão.

Pelos vistos, a par das grandes figuras que perfilavam no movimento espírita português, evidenciam-se os problemas de entendimento que sempre os acompanharam, quando as diferentes perspectivas sobre um assunto não conseguiam ultrapassar as nuvens teimosas do personalismo paralisante. Ao fim e ao cabo, uma situação ainda do nosso quotidiano, a urgir mudança interior.

 

 

Atuação no movimento espírita[3]

Como Presidente da Assembleia Geral da Federação Espírita Portuguesa, exerce funções principalmente de natureza institucional e administrativa, entre as quais:

§  Coordenar e dirigir as reuniões da Assembleia Geral;

§  Garantir o cumprimento dos estatutos da Federação;

§  Supervisionar processos eleitorais internos;

§  Promover a participação democrática das associações espíritas federadas;

§  Representar a Assembleia Geral em atos oficiais e institucionais.

A sua atuação é associada ao incentivo da união entre centros espíritas portugueses, à formação doutrinária e ao fortalecimento organizacional do movimento espírita no país.



[2] Informação retificada pelo Chat GPT

[3] Informações obtidas pelo Chat GPT