domingo, 31 de julho de 2016

Descrição da morte por A. Jackson Davis[1]

 


"De manhã, nada resolvas fazer contra, mas tudo faça pelo Reino dos Céus na Terra.
À noite, retira-te em paz contigo mesmo - paz com todo o mundo.
Contenta-te com o passado e com tudo que ele te trouxe.
Agradece ao presente pelo que tens.
Sê paciente com o futuro e com o que ele te promete trazer".

(A. Jackson Davis)

 
Andrew Jackson Davis (1826 – 1910) foi um grande médium norte americano, considerado o "João Batista" do Espiritismo[2]. É dele que apresentamos abaixo um interessante texto[3] em que narra o que viu estado mediúnico durante o processo de desencarnação de uma pessoa.  Essa descrição obviamente não se aplica a todos os tipos de morte ou de pessoas (ele mesmo explica no texto as condições). Tradução de A. Xavier.

A morte é palavra para significar "fim da vida", usada por aqueles que não conseguem ver que a morte é, na verdade, "o começo da vida" e a entrada do saguão sagrado da eternidade. Mas, penetremos em sua visão, no que há além do véu.

A pessoa agora agoniza no que é para ser uma morte rápida. Observe algo em sua temperatura. Os pés estão frios; as mãos quentes e macilentas; uma frieza pervade seus dedos. Vejam. O que é aquilo que se acumula no ar, acima da cabeça sobre o travesseiro? É uma emanação etérea - um halo magnético dourado - uma atmosfera pulsante quase autoconsciente.

A temperatura do corpo agora abaixa rapidamente. A frieza se estende algo acima, dos pés aos joelhos, das pontas dos dedos aos cotovelos enquanto que, na mesma razão, a emanação ascende ainda mais alto sobre a cabeça. O frio agora se estende dos braços aos ombros, das pernas à cintura; e a emanação, embora não mais elevada no ar, está um pouco mais expandida, é um centro compacto que se assemelha a um núcleo brilhante como um sol em miniatura. O foco central brilhante é bem em verdade o cérebro do novo organismo espiritual que se forma.

O frio da morte agora se estende aos peitos em torno do qual a temperatura se reduz bastante. Vejam agora! A emanação contém a mesma proporção de cada princípio que compõe a alma - movimento, sensação vital, éteres; essências, magnetismo vital, eletricidade vital, instintos - e, bastante aumentada pela ascensão, ela flutua como uma massa compacta a ocupar agora mais elevação próxima ao teto.

Agora os pulmões pararam de respirar, o pulso se foi, o coração não mais bate; enquanto isso, as células do cérebro, o corpus callosum, a medula, a coluna vertebral e os gânglios se iluminam em contrações e expansões que pulsam de leve e parecem governadas por si mesmas, como por um tipo de automatismo autoconsciente. Vejam! A substância cinzenta do cérebro pulsa em seu interior - uma pulsação lenta, discernível e profunda - não dolorosa - como pesada, mas harmoniosa movimentação do mar.

Vejam! A emanação exaltada, obediente a suas próprias leis imutáveis agora se alongou e adquiriu posição em ângulo reto em relação ao corpo horizontal mais abaixo. Observem! Vejam como o perfil de uma bela figura humana se forma a partir da emanação. Ela prende o que está acima à medula e ao corpus callosum de dentro do cérebro por um cordão branco.

Você pode ver que um fio vital muito fino ainda conecta os vórtices e as fibras centrais ao cérebro moribundo com as extremidades inferiores da figura humana projetada na atmosfera. Não obstante esse fio vital, que age como um condutor telegráfico - transportando mensagens em direções opostas no mesmo instante - é possível ver que a sombra envolvida em emanação dourada continua quase que imperceptivelmente a ascender. 

Lá, o que se vê agora? Uma cabeça humana simetricamente igual a outra, acima da massa e elevando-se lenta e admiravelmente da nuvem dourada de princípios substanciais. E agora surge o esboço de um semblante espiritual - face serena e cheia de beleza que desafia a capacidade de descrição das palavras. Vejam de novo! Emergem o pescoço e os belos ombros e mais! Um após outro, em rápida sucessão, surgem todas as partes de um novo corpo, como que influenciados ou dirigidos por uma varinha mágica, uma imagem brilhante, totalmente natural, mas espiritual, uma perfeita cópia do corpo físico abandonado, um reencenamento de pessoa nas vizinhanças do céu, preparada para acompanhar o grupo celestial de inteligências superintendentes do paraíso. 

E o que foi aquilo? Em um piscar de olhos o fio telegráfico vital foi cortado - partículas e princípios foram imediatamente atraídos para cima e absorvidos pelo corpo espiritual - de forma que a nova organização está livre da gravitação terrestre, ela está instantânea e absolutamente independente dos pesos e cuidados que tão firmemente a prendiam à Terra. [Somente se libertam assim na morte aqueles que agiram de forma correta. Qualquer paixão cativante, último sentimento de dever não cumprido, de injustiça cometida, é suficiente para manter o espírito preso à Terra, como um navio atado por grande âncora. Somente os puros tornam-se livre].

Eis aqui um corpo espiritual, substancial e imortal. Semeado na escuridão e na desonra, ele agora é colhido na beleza e na claridade. Vejam que contraste - uma diferença muito grande - entre um e outro. Percorram com os olhos a sala. Há muitos amigos, parentes idosos, crianças na câmera da morte, eles choram sem o conforto ainda que da fé cega; enlutam-se trocando sussurros de esperança entre ouvidos que duvidam; reúnem-se em torno do prostrado, corpo frio; pressionam as pálpebras daqueles olhos agora cegos; em silêncio e pesar deixam a cena; e agora outras mãos dão início às preparações com as quais os vivos consagram a morte.

Mas, abramos nossos olhos maiores que teremos um dia quando revestidos pelos paramentos da imortalidade. Vejam! O novo corpo espiritual formado - rodeado por grupo de anjos guardiões - move-se com graça em direção às praias celestiais. A personalidade emergida segue uma corrente vibratória de atração magnética que notamos penetrar no recinto e se ater ao cérebro do ressurreto enquanto agonizava o corpo. Ela desce a partir do sensorium das inteligências superiores - uma corrente fibrosa de luz telegráfica - enviadas de cima, para saudar com amor e guiar com sabedoria o recém-ressuscitado.  Essa corrente amorosa, alimentada por pensamento, guia tranquilamente o recém-emergido para cima e mais além. 

Por terras aveludadas e campos floridos do país celeste, um arco de promessa eterna torna-se visível e pende, preenchendo com beleza indescritível o oceano dos céus, a cobrir com amor infinito as zonas imensuráveis de Além-Túmulo.

sábado, 30 de julho de 2016

A IMPORTÂNCIA DO ESTUDO[1]


 

Manoel Philomeno de Miranda[2]
 

Muito já se falou sobre o apelo contido na abertura das Instruções dos Espíritos, Capítulo VI, item 5 de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”: Espíritas! Amai-vos, esse o primeiro ensinamento; instruí-vos, esse o segundo..., apelo este que vem antecedido por um vigoroso chamamento do Espírito Verdade: Escutai-me... O escutai-me reforça o instruí-vos, ações sem as quais não é possível a apreensão do conteúdo da Doutrina Espírita, nem de conhecimento algum, ficando a pessoa, que é desinteressada, totalmente insulada e mergulhada, por opção própria, na noite da ignorância.
A outra expressão imperativa do Espírito Verdade, “amai-vos”, coloca-se como primeiro mandamento, indissoluvelmente ligado ao “instruí-vos”, o segundo. Dizemos indissoluvelmente ligado porque o amor não dispensa instrumentos práticos para poder transformar-se em serviços, em doações conscientes e competentes a beneficio do próximo, da vida, do progresso.
Quando Albert Schweitzer tomou conhecimento da propaganda convocando voluntários para atender a miséria negra das selvas africanas, sentiu-se tocado, e algo em sua alma falou-lhe que aquela seria a obra de sua vida, a sua entrega verdadeira a Jesus. Mas, antes de se engajar, ele refletiu procurando saber como poderia ser útil aos seus irmãos sofredores.
"O que possuía, de concreto, no momento, para ajudar?" perguntou-se. O maior cultor de Bach, do mundo civilizado, o organista exímio e filósofo laureado, homem totalmente aclimatado à polidez e às exigências intelectuais e culturais dos movimentos de vanguarda de seu tempo, chegava à conclusão de que nada era e nada tinha com que servir aos seus irmãos quase primitivos das selvas africanas.
Aí, ele decidiu preparar-se e foi estudar Medicina, especializando-se em doenças tropicais a fim de poder ajudar. Foi o Amor que o inspirou, dizendo-lhe: "Dá-me, Albert, instrumentos para que eu possa agir...". E foi assim que o cidadão cósmico que viria a ser, mais tarde, o detentor do Prêmio Nobel da Paz, após ter-se habilitado pelo estudo e pela experiência, rumou para as florestas fechadas do Congo, às margens do Rio Ogowe, na África Equatorial Francesa, para escrever uma epopeia de amor a Deus e aos homens, convertendo-se num dos homens-símbolos do Mundo Contemporâneo.
Na trilogia de Joanna de Ângelis, o estudo corresponde ao “Qualificar” que, juntamente com o “Espiritizar e o Humanizar” formam um triângulo equilátero definidor de responsabilidades para o Centro Espírita. Viabilizar-se o estudo, encetar-se condições básicas para que ele se realize é responsabilidade do Centro Espírita; realizá-lo é tarefa do espírita.
Nesse sentido, estudar não é, apenas, proposta para absorção de valores externos, de informações apenas, mas um convite favorecedor do autodescobrimento através da reflexão atenta de todos os estímulos que recebemos, inclusive dos conteúdos psíquicos que emergem de nosso inconsciente, influenciando o comportamento pessoal. Justifica-se, assim, o chamamento da Benfeitora espiritual aos médiuns e a todos nós: Estuda a Doutrina Espírita e estuda-te.
Estudar, destarte, é palavra de ordem no dicionário da vida, pois o saber descortina, aos olhos deslumbrados do homem, o Mundo e a Criação Divina, suas leis, a beleza e harmonia que vigem em tudo, facultando-o integrar-se nesse todo e em si mesmo, de forma ajustada e consciente, felicitando e felicitando-se.
Recentemente, lemos, numa propaganda de determinada empresa comercial, a seguinte frase: "Aprender é ampliar o significado da vida." Efetivamente, o saber representa renovação, descobertas, possibilidades novas que se lançam de plataformas construídas a partir do que já foi adquirido, impondo-se como necessidade vital. Particularmente, a aprendizagem espírita é luz no caminho e nos meandros da alma humana, apontando as saídas libertadoras para o formoso mundo do Si. O saber espírita é tão importante para a prática mediúnica, que Allan Kardec inicia e conclui “O Livro dos Médiuns” com uma apologia ao estudo. Nas primeiras linhas da introdução ele escreve:
"Todos os dias a experiência nos traz a confirmação de que as dificuldades e os desenganos, com que muitos topam na prática do Espiritismo, se originam da ignorância dos princípios dessa ciência, e felizes nos sentimos de haver podido comprovar que o nosso trabalho, feito com o objetivo de precaver os adeptos contra os escolhos de um noviciado, produziu frutos e que à leitura desta obra devem muitos o terem logrado evitá-los".
E no final do livro, na última página e último parágrafo, após advertir quanto aos cuidados que é preciso tomar para frustrar a ação dos Espíritos embusteiros, ele coloca, enfático:"...Estudai, antes de praticardes, porquanto é esse o único meio de não adquirirdes experiência à vossa própria custa".
Recorrendo a “O Livro dos Espíritos”, obtemos preciosos estímulos para valorização do estudo. Na questão 227, respondendo a indagação de como se instruem os Espíritos errantes, os Benfeitores da Humanidade informaram: "Estudam e procuram meios de elevar-se", reforçando essa proposta na questão 967, ao afirmarem que a felicidade dos bons Espíritos consiste em "conhecerem todas as coisas; em não sentirem ódio, nem ciúmes, nem inveja, nem ambição, nem qualquer das paixões que ocasionam a desgraça dos homens" tendo o amor que os une e o bem que fazem como fonte de suprema felicidade.
Sintetizando essa proposta de harmonia e ventura espiritual, vemo-la apoiada em três condições essenciais: “o prazer do conhecimento”, que é o debruçar-se da inteligência sobre a Criação Divina a fim de compreendê-la e dela participar conscientemente, “a pureza”, que é vitória sobre as paixões materiais e o “amor”, que sustenta a vida e emula o ser a doar-se incondicionalmente.
Recorrendo a Emmanuel, destacamos esses lúcidos ensinamentos: "Já se disse que duas asas conduzirão o Espírito humano à presença de Deus - Amor e Sabedoria". Depois de referir-se ao amor, o Amigo Espiritual esclarece o papel da Sabedoria "que começa na aquisição do conhecimento, através do qual se recolhe a influência dos vanguardeiros do progresso", concluindo que estudar e servir são rotas inevitáveis na obra da elevação, realçando que "o livro representa vigoroso imã de força atrativa, plasmando as emoções e concepções de que nascem os grandes movimentos da Humanidade...".
De Joanna de Ângelis, em Estudos Espíritas, tomamos de empréstimo estas abençoadas reflexões: Estudar o Espiritismo na sua limpidez cristalina e sabedoria incontestável é dever que não nos é lícito postergar, seja qual for a justificativa a que nos apoiemos.
Cada conceito necessariamente examinado reluz e clarifica o entendimento, facultando mais amplas percepções em torno da vida e dos seus fenômenos. Estudar, pois, é atitude essencial à vida. Estudar de todas as formas ao alcance: lendo, ouvindo, refletindo, meditando e interagindo com as pessoas, com a Natureza, consigo mesmo, aproveitando essa maravilhosa viagem da evolução, minuto a minuto, com a consciência atenta para reter o que Deus tem para nos oferta Harmonia Espiritual.




[2] Consciência e Mediunidade – Divaldo Pereira Franco -Editora Leal

sexta-feira, 29 de julho de 2016

PREMONIÇÃO[1]


Eurípedes Kühl[2] - Ribeirão Preto, SP (Brasil)
 
Se fizermos ligeira pesquisa sobre “premonição” encontraremos casos de pessoas que, por exemplo, sonharam com determinada situação e ela aconteceu, ou que, certa vez, quando o telefone tocou, tiveram a certeza de que era o fulano e, no final, era realmente o fulano. A Doutrina Espírita considera esses casos como premonições? Como podemos diferenciar coincidências cotidianas de premonições verdadeiras?
 Premonição – Consultando o dicionário vê-se que premonição é uma sensação, um sentimento, uma espécie de advertência de algo que irá (ou está para) acontecer, sem vestígios que o justificassem ou mesmo o indicassem.
Sem esforço e sem prejuízo do significado, pode-se afirmar que presciência, precognição, presságio, pressentimento, em linhas gerais, representam a mesma coisa.
Já pelo enfoque do Espiritismo, premonição seria a faculdade psíquica — espécie de mediunidade — que todos temos, em maior ou menor grau, a qual possibilita o conhecimento antecipado de fatos ou situações futuras.
A premonição ocorre em várias circunstâncias:
§  pode representar um bom (ou mau) conselho de um Espírito desencarnado; obviamente, se bom, vem de um amigo; se mau, de inimigo, ou, às vezes, apenas de um zombador inconsequente, que se diverte com o medo ou euforia que provoca;
§  antes de nascer, o indivíduo toma conhecimento do seu programa reencarnatório e aí, quando encarnado, conquanto brindado pela Bondade divina com o esquecimento do passado, à aproximação de fato marcante previsto naquele programa, visita-o ligeira impressão daquilo que está para acontecer;
§  no sono, esse desdobramento proporciona emancipação parcial ao Espírito que, no plano espiritual, pode então se encontrar com Espíritos afins que lhe dão notícia de algo que está, de alguma forma, sendo engendrado em torno da sua existência, ou do seu círculo de parentesco ou amigos, ou no local em que reside e até mesmo relativamente ao plano terreno. Temos como exemplo dessa última hipótese as visões dos profetas, de todos os povos e em todos os tempos;
§  relato o instigante caso de “premonição coletiva”, isto é, muitas pessoas tiveram a mesma visão antecipada de um acontecimento marcante na história da navegação marítima... Refiro-me, sim, ao navio “Titanic”.
Para ilustrar sonhos premonitórios, valho-me de um fragmento extraído do meu livro “Sonhos: viagens à alma”, (cap. 1 – Tipos de sonhos), editado em 2001, pela Butterfly Editora, SP/SP:
(...)
- premonitórios: de propósito, deixamos para encerrar este capítulo o fascinante e antiquíssimo “sonho humano” de interpretar os sonhos premonitórios, tidos desde sempre à conta de sobrenaturais.
O encantamento de que se revestem os sonhos premonitórios induz-nos a uma atitude de máximo respeito com os pensadores antigos, modernos e contemporâneos, que se debruçaram e se debruçam na investigação de como é que eles, os sonhos, podem acontecer.
Uma coisa é certa: a todos aqueles pesquisadores, exclusive os que são espíritas, acometem ardentes perguntas irrespondidas, dando causa a redobradas reflexões, teses e hipóteses, sem que o consenso seja alcançado.
Só para exemplificar, vejamos alguns:
Sonhos sobre tragédias – Existem sonhos que são mesmo impressionantes: noticiam tragédias com antecipação, com detalhes.
Titanic - Talvez o acontecimento trágico humano que mais predições teve foi o afundamento do navio “Titanic”, em 14.abril.1912, no qual morreram mais de mil e quinhentas pessoas:
- Um jornalista inglês, William Thomas Stead escreveu uma reportagem fictícia na década de 1880 sobre um grande navio de passageiros que afundara no meio do Oceano Atlântico. A reportagem foi publicada no “Pall Mall Gazette”. Em 1892, escreveu outro artigo citando uma imaginária colisão de um navio com um iceberg, no Atlântico. Em 1910, fez uma palestra, sempre citando a necessidade dos construtores de navios equipá-los com botes salva-vidas suficientes, do contrário, haveria tragédias. Na palestra, citou que ele próprio se via morrendo afogado nas águas geladas, vítima de um naufrágio. Stead, sabendo que a “Cia. White Star” estava construindo um transatlântico, que se chamaria “Titanic”, resolveu consultar vários videntes. Um deles (W. de Kerlor) sonhou que Stead faria uma viagem aos EUA e o via junto a mais de mil pessoas, afogando-se e pedindo socorro. Stead sequer pensava em viajar.
Mas acabou mesmo como náufrago do “Titanic”...
Em 26.abril.1912, isto é, doze dias após o naufrágio do “Titanic”, o Espírito Stead, pela mediunidade da Srª Coates, em Glanberg House, Escócia, comunicou-se. Sabia-se já desencarnado. Pedia preces pelos demais náufragos, aos quais ele próprio não podia ajudar, pois que ainda sentia dificuldades. Citou que a maioria dos náufragos, desconhecendo a vida após a morte, sofria terríveis angústias, aturdidos ante a situação inesperada. A seguir faz exortação evangélica, recomendando o não engrandecimento pelos bens terrenos. Informou que, a seu pedido, os músicos de bordo tocaram “Perto de Ti, meu Deus, mais perto de Ti!”. Narrou que tanta foi a emoção dos músicos executando aquele hino, que logo ouviram-se Espíritos cantando-o em voz melodiosa, espargindo, em profusão, eflúvios de luz suavíssima.
De fato, sobreviventes da tragédia do “Titanic” relataram que William T. Stead, ante a iminência da morte, nos terríveis momentos que precederam à morte inevitável, amparava e confortava seus companheiros de desdita. (Admirável)
A mensagem mediúnica de Stead foi publicada no “American Register”, por iniciativa do Sr. James Coates, marido da médium; - Morgan Robertson, autor nova-iorquino, em 1898, após ter entrado em transe, segundo declarou, escreveu e publicou um romance, a que deu o título Futilidade. No livro, descrevia que um navio, numa noite gélida de abril, com velocidade imprudente devido às brumas, com três mil passageiros, chocava-se com iceberg. Nome do navio: “Titan”...;
- Um negociante de Londres (J. Connon Midleton) sonhou, duas noites seguidas, que estava vendo os destroços do “Titanic” e os passageiros e tripulação nadando ao redor do navio. Cancelou a viagem que havia programado naquele transatlântico...;
- Anos após a tragédia do “Titanic”, pesquisadores concluíram que eram autênticas, pelo menos, dezenove premonições, através de sonhos, transes, visões e vozes.
Premonição e formas-pensamento – A psicosfera terrena (atmosfera astral da Terra) está é, toda ela, permeada e entrecruzada de formas-pensamento, de Espíritos encarnados e desencarnados, e aí, algumas pessoas, uma ou outra vez, na vigília ou no sono, em uma ou outra sintonia, pode estar com seu canal psíquico (estado mental) receptivo e captar fragmentos do conteúdo de fatos ou situações futuras inevitáveis que já são do conhecimento de outros Espíritos — testemunhas ou os que engendram tais fatos ou situações. Quanto mais abertura mental, mais precisão na premonição (detalhes – quando, onde, com quem etc.).
Premonição e instinto – O instinto (sublime ferramenta de sobrevivência de todos os seres vivos) responde por grande número de pressentimentos; nesse caso, a forma absolutamente autônoma como o instinto opera torna totalmente imprevisível seu mecanismo, não sendo, pois, passível de ser “administrado” (processado, desenvolvido, aumentado).
Premonição e intuição – Já a intuição, que tanto maior será em razão da elevação moral, também justifica e contempla o conhecimento de fatos futuros, por situar o indivíduo em sintonia mais ou menos permanente com os Espíritos evoluídos responsáveis pela realização de tarefas neste planeta. Se me permitem, imagino que a intuição é a depuração máxima do instinto: quanto mais depuração moral, ocorrerá aumento intuitivo e decréscimo instintivo; assim, quanto mais virtuoso for o Espírito, maior será sua intuição e, inversamente, menor seu instinto.
Premonição e “dupla vista” – A “dupla vista” (o indivíduo, na vigília, ver com os olhos da alma fatos distantes ou futuros) pode também proporcionar pressentimentos. Voltando a falar dos profetas, parece-me que foi pela dupla vista de vários profetas que temos registros históricos de vários perigos que foram afastados ou, ao menos, minimizados. Como exemplo podemos citar a interpretação exata de incontáveis sonhos bíblicos: José – in Gênesis 41:15-30, 47-49, 54; Gideão – in Juízes 6:11, 7:13-22; Nabucodonosor II – in Daniel 2:1-9, 29-45; e 4:10-17; José, pai de Jesus – in Mateus 1:20-21; 2:13; 2:20. Quer-me parecer que a “dupla vista” é atributo de Espíritos evoluídos, sendo que Jesus é o exemplo máximo de Espíritos que a possuem, como, aliás, de todas as demais faculdades e dons morais.
Coincidências cotidianas – No exemplo citado (da pessoa “saber” antecipadamente quem está ao telefone que tilinta) nada objeta supor que isso acontece pelos mesmos insondáveis, conquanto frequentes, casos de telepatia (comunicação direta de duas mentes, sem intermediários). Uma coisa, porém, parece governar tais ocorrências: que os dois Espíritos sejam afins e estejam sintonizados numa mesma faixa vibratória.
*
Pode-se dizer que uma pessoa que tem premonições é médium? Qual é a definição de médium?
Não. Não pode. Médium, em linhas gerais, é um indivíduo que possui a faculdade mediúnica orgânica que o possibilita ser intermediário do plano espiritual com o terreno, comunicando-se com Espíritos desencarnados. Há casos, mais raros, de comunicação de Espíritos intervivos, isto é, encarnados ambos: o médium e o locutor, o qual, nesse caso, onde estiver estará desdobrado pelo sono (dormindo), ou, no mínimo, em lassidão.
Por oportuno, registro que “mediunidade” é faculdade orgânica, variável de existência terrena para existência terrena, e constitui bênção divina, verdadeira ferramenta evolutiva para ser usada a benefício do próximo, jamais como usufruto de quem a tem; já “dom” é conquista individual, patrimônio inalienável, que demonstra mérito aquisitivo, fruto de não poucas vitórias ante toda sorte de dificuldades ou adversidades próprias do roteiro evolutivo terreno. Num e noutro caso, inexoravelmente prevalece o livre-arbítrio do detentor, episódico (da mediunidade) ou definitivo (do dom), para o uso que fizer disso... respondendo, porém, por tal opção, segundo a Lei de Ação e Reação.
Como o Espiritismo explica que algumas pessoas tenham a faculdade de prever acontecimentos futuros e outras não?
A premonição (previsão de acontecimentos futuros) é faculdade que apresenta “n” graus. As pessoas que a têm em alto nível se tornam marcantes. Mas, via de regra, todos temos essa faculdade, por isso é que aparentemente há quem não a possua...
Pessoas que têm a faculdade da premonição também podem ter visões de Espíritos? Uma coisa está necessariamente relacionada à outra?
Sim, para a primeira pergunta; não, para a segunda.
No Espiritismo, como uma pessoa que tem a faculdade da premonição ou da clarividência aprende a conviver com essa faculdade?
Essa pessoa será a responsável única pelo emprego que fizer dessa faculdade. Explicam os Espíritos Superiores, relembrando Jesus, que deve ser dado de graça, tudo aquilo que de graça for recebido... O melhor emprego, evidentemente, será pautado pelo bom senso: muito tato, para não desandar a contar tudo o que pressente, evitando causar desconforto ou inaugurar preocupação em quem quer que seja; divulgar só aquilo que promova o bem, coletivo ou individual, ou que resulte em atitudes de precaução, de prudência, de vigilância.
Como uma pessoa pode ter a certeza de que ela é médium? Existem alguns sinais que indicam isso?
Obs.: Responderei essa pergunta, conquanto ela não se enquadre no estudo da premonição, até porque nada objeta que um médium eventualmente tenha alguma premonição, não necessariamente advinda de mediunidade.
Normalmente não se poderá e nem se deverá afirmar “a priori”, de imediato, que é médium aquele indivíduo que apresenta alguma anormalidade psíquica ou comportamental, ou que esteja sendo visitado por acontecimentos estranhos, inusitados, inexplicáveis.
Existem, sim, alguns sinais ou sintomas que podem, subjetivamente, serem indicativos — apenas indicativos — de eclosão da mediunidade.
Prudente, nesses casos, será aguardar a repetência ou continuidade dos sintomas e que esse indivíduo passe a frequentar um Centro Espírita, para ser orientado por espíritas estudiosos e prudentes, detentores de experiência mediúnica ou doutrinária, os quais analisarão o caso, sem emitir diagnósticos apressados, do tipo “é mediunidade a desenvolver!”. Aí, com observação fraternal e contínua, o próprio tempo definirá se realmente se trata de mediunidade ou se a pessoa deve ser encaminhada à Medicina terrena — outra grande bênção neste planeta. Só no primeiro caso, essa pessoa deverá ser matriculada em cursos de mediunidade, passar a assistir palestras doutrinárias, receber passes, engajar-se em alguma atividade filantrópica, para então, mais tarde, ser convidada a participar de grupo mediúnico.




quinta-feira, 28 de julho de 2016

Pagar o Mal com o Bem[1]


 

Se o amor do próximo é o princípio da caridade, amar aos inimigos é a sua aplicação sublime, porque essa virtude constitui uma das maiores vitórias conquistadas sobre o egoísmo e o orgulho.
Não obstante, geralmente nos equivocamos quanto ao sentido da palavra amor, aplicada a esta circunstância. Jesus não entendia, ao dizer essas palavras, que se deve ter pelo inimigo a mesma ternura que se tem por um irmão ou por um amigo. A ternura pressupõe confiança.
Ora, não se pode ter confiança naquele que se sabe que nos quer mal. Não se pode ter para com ele as efusões da amizade, desde que se sabe que é capaz de abusar delas. Entre pessoas que desconfiam uma das outras, não pode haver os impulsos de simpatia existentes entre aquelas que comungam nos mesmos pensamentos. Não se pode, enfim, ter a mesma satisfação ao encontrar inimigo, que se tem com um amigo.
Esse sentimento, por outro lado, resulta de uma lei física: assimilação e repulsão dos fluidos.
O pensamento malévolo emite uma corrente fluídica que causa penosa impressão; o pensamento benévolo envolve-nos num eflúvio agradável. Daí a diferença de sensações que se experimenta, à aproximação de um inimigo ou de amigo. Amar aos inimigos não pode, pois, significar que não se deve fazer nenhuma diferença entre eles e os amigos. Este preceito parece difícil, e até mesmo impossível de se praticar, porque falsamente supomos que ele prescreve darmos a uns e a outros o mesmo lugar no coração. Se a pobreza das línguas humanas nos obriga a usar a mesma palavra, para exprimir formas diversas de sentimento, a razão deve fazer as diferenças necessárias, segundo os casos.
Amar aos inimigos, não é, pois, ter por eles uma afeição que é natural, uma vez que o contato de um inimigo faz bater o coração de maneira inteiramente diversa que o de um amigo. Mas é não ter ódio, nem rancor, ou desejo de vingança. É perdoá-los sem segunda intenção e incondicionalmente, pelo mal que nos fizeram. É opor nenhum obstáculo à reconciliação. É desejar-lhes o bem em vez do mal. É alegrar-nos em lugar de aborrecer-nos com o bem que os atinge. É estender-lhes a mão prestativa em caso de necessidade. É abster-nos, por atos e palavras, de tudo o que possa prejudicá-lo enfim, pagar-lhes em tudo o mal com o bem, sem a intenção humilhá-los. Todo aquele que assim fizer, cumpre as condições do mandamento: Amai aos vossos inimigos.
Amar aos inimigos é um absurdo para os incrédulos. Aquele para quem a vida presente é tudo, só vê no seu inimigo uma criatura perniciosa, a perturbar-lhe o sossego, e do qual somente a morte o pode libertar. Daí o desejo de vingança. Não há nenhum interesse em perdoar, a menos que seja para satisfazer o seu orgulho aos olhos do mundo. Perdoar, até mesmo lhe parece, em certos casos, uma fraqueza indigna da sua personalidade. Se não se vinga, pois, nem por isso deixa de guardar rancor e um secreto desejo de fazer o mal.
Para o crente, e mais ainda para o espírita, a maneira de ver é inteiramente diversa, porque ele dirige o seu olhar para o passado e o futuro, entre os quais, a vida presente é um momento apenas. Sabe que, pela própria destinação da Terra, nela devem encontrar homens maus e perversos; que as maldades a que está exposto fazem parte das provas que deve sofrer. O ponto de vista em que se coloca torna-lhe as vicissitudes menos amargas, quer venham dos homens ou das coisas. Se não se queixa das provas, não deve queixar-se também dos que lhe servem de instrumentos. Se, em lugar de lamentar, agradece a Deus por experimentá-lo, deve também agradecer a mão que lhe oferece a ocasião de mostrara sua paciência e a sua resignação. Esse pensamento o dispõe naturalmente ao perdão. Ele sente, aliás, que quanto mais generoso for, mais se engrandece aos próprios olhos e mais longe se encontra do alcance dos dardos do seu inimigo.
O homem que ocupa no mundo uma posição elevada não se considera ofendido pelos insultos daquele que olha como seu inferior. Assim acontece com aquele que se eleva, no mundo moral, acima da humanidade material. Compreende que o ódio e o rancor o envileceriam e rebaixariam, pois, para ser superior ao seu adversário, deve ter a alma mais nobre, maior e mais generosa.




[1] O Evangelho Segundo o Espiritismo – Allan Kardec – Capítulo XII – Amai os vossos Inimigos

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Atuação do Princípio Inteligente não Começa nos Minerais[1]



Dr. Ary Lex


Perguntaram-me se a atuação do princípio inteligente começava a partir dos minerais. Respondi: não. Aos amigos leitores do [JE], ante o debate que se abriu em sua edição de agosto/99, com a mesma pergunta, digo, antes de respondê-la que é mister lembrar as características dos seres vivos.
Já há séculos, distribuíram tudo quanto existe na Terra em três reinos: mineral, vegetal e animal. Tentou a vaidade humana criar para o homem um quarto reino – seria o reino hominal, o que não se justifica, pois o homem está enquadrado no reino animal.
SERES BRUTOS E SERES VIVOS – Os vegetais e os animais, dadas as qualidades que os aproximam, podem ser agrupados com o rótulo de seres organizados. Para os cientistas, existe uma barreira intransponível entre os seres brutos (inorgânicos) e os seres vivos, pois as propriedades peculiares à vida só se encontram nos animais e vegetais.
Este é um ponto em que o Espiritismo está inteiramente de acordo com as ciências biológicas. O Espiritismo ensina que a matéria precisa ser impregnada pelo fluido vital para que possa ser utilizada pelo espírito (nos seres inferiores) costuma-se chamar de “princípio espiritual”.
Gabriel Delanne, em seu livro “A Evolução Anímica”, explica a diferenciação entre seres brutos e vivos com uma clareza meridiana. Mas em que qualidade reside a diferença entre eles? Podemos responder que não há uma qualidade que, sozinha, permita distinguir os minerais dos seres vivos, mas um conjunto de caracteres o permite: forma, propriedades físico-químicas, metabolismo, irritabilidade e evolução.
a) FORMA: Geralmente os seres brutos não têm forma própria, ao passo que os vivos possuem forma específica. Por exemplo: quando falamos “areia”, não estamos determinando forma alguma, nem quantidade; quando dizemos “mosca”, estamos nos referindo a um ser que tem forma e tamanho certos. Se a areia tivesse um principio inteligente ou espiritual, ele corresponderia a um grão de areia ou a toda a areia do litoral?
b) PROPRIEDADES FÍSICO-QUÍMICAS: Os mineiras apresentam composição química simples, sendo as moléculas formadas de poucos átomos, ao passo que a substância viva é complexa. Suas moléculas possuem milhares de átomos, como o caso da hemoglobina e das proteínas em geral. A composição dos seres brutos, além de simples, é estável, enquanto que a instabilidade caracteriza os vivos, pois a matéria organizada está em constante renovação.
Mas não é só. Para haver vida, é preciso haver protoplasma, componente das células, formado principalmente por proteínas. Na Terra, só pôde surgir a vida no momento em que, na atmosfera, por meio das descargas elétricas, uniram-se metano, amônia, água e hidrogênio, formando-se os primeiros aminoácidos (Experiências de Urey e Miller). Estes se combinaram, formando proteínas, as quais se aglomeraram nos coacervados e estes originaram células (Oparim, cientista russo). Todas as células têm cromossomos e ADN, que não existem nos minerais.
c) IRRITABILIDADE: Frente aos estímulos do meio exterior, os seres vivos reagem, por meio de movimentos, produção de secreções, reações agressivas ou tantas outras. Os minerais não têm irritabilidade: podemos bater numa pedra, aquecê-la, dar choques elétricos, que não teremos resposta alguma.
d) METABOLISMO: O ser vivo retira do meio ambiente os alimentos de que necessita, incorporando-os ao seu organismo (anabolismo). No desgaste vital, decompõem-se substâncias do seu corpo, produzindo-se resíduos, que são eliminados (catabolismo). A glicose é queimada, produzindo energia, gás carbônico e água. Os minerais não têm metabolismo. Uma pedra do pico do Jaraguá, lá está, do mesmo jeito, há muitos milhões de anos.
e) EVOLUÇÃO: Todo ser vivo nasce, cresce, vive, reproduz-se e morre. Os minerais não apresentam esse ciclo vital: eles não nascem e nem morrem – sua duração é ilimitada. Imaginemos, por um desvario da imaginação, que um bloco de granito tivesse um princípio espiritual. Coitado dele – ficaria preso, imutável, sem evoluir, durante muitos milhões de anos.
Imagine mais, se cada átomo ou partícula atômica componente do bloco tivessem também um agente estruturador, como se diz atualmente, a comandar-lhe o equilíbrio intimo – coitado deles.
Uma das leis que o Espiritismo prega é a sublime lei da Evolução: todos os seres evoluem permanentemente, desde a ameba até o homem; todos eles, através de múltiplas vivências no mundo físico, estão se aperfeiçoando, estão aprendendo, estão plasmando corpos cada vez mais perfeitos, enquanto o espírito vai progredindo sempre. A evolução da forma é concomitante com a evolução do espírito.
Delanne, em seu livro “A Evolução Anímica”, capítulo 1, A Vida, diz: “Organização e evolução não podem ser compreendidas só pelo jogo das leis físico-químicas. Os materialistas, com o negarem a existência da alma, privam-se voluntariamente de noções indispensáveis à compreensão dos fenômenos vitais do ser animado; e os filósofos espiritualistas por sua vez, empregando o senso intimo como instrumento único de investigação, não conheceram a verdadeira natureza da alma; de sorte que, até agora não lhes foi possível conciliar numa explicação comum, os fenômenos físicos e os mentais”.
Continua Delanne: “No mundo inorgânico, tudo é cego, passivo, fatal; jamais se verifica progresso; não há mais que mudanças de estados, que em nada modificam a natureza íntima da substância”.
AS FRONTEIRAS DA VIDA – Embora sejam tão evidentes essas diferenças entre os seres brutos e os seres vivos, podem surgir certas dúvidas. Quantas vezes já foram a nós trazidas estas objeções: e os cristais, que têm formas próprias, serão vivos? E os vírus?
Realmente, os cristais têm formas características: as suas moléculas se agregam formando cubos, pirâmides de bases hexagonais ou octogonais, e assim por diante. Porém aqui a única semelhança é a forma, mas esta é consequência apenas de leis físicas de atração, que levam as moléculas do cristal a se agruparem formando figuras geométricas. Os cristais não têm nenhuma das outras qualidades dos seres vivos: são formados geralmente de moléculas pequenas; não nascem, nem crescem, nem morrem, permanecendo indefinidamente, até que um agente externo dissolva as moléculas no líquido que os abriga. Não reagem aos estímulos externos, não têm metabolismo e não evoluem.
Os fogos de artifício traçam no céu desenhos interessantes, de variadas cores e tamanhos. Vamos dizer que têm vida porque plasmaram figuras?
Quanto aos vírus, o problema já é mais difícil. Vejamos um resumo do que nos ensina Luc Montagner, um dos maiores virologistas do mundo, que conseguiu identificar o vírus da AIDS (“Vírus e Homens”, Luc Montagner. Tradução de Maria Luiza Borges – Jorge Zahar Editor -1995). Diz ele: “No fim do século XIX, quando a origem bacteriana das doenças infecciosas foi reconhecida, o termo vírus ou vírus filtrantes passou a ser aplicado a agentes transmissíveis, que são invisíveis ao microscópio e passam através dos filtros de porcelana, que retêm as bactérias. Foi assim que se demonstrou a origem viral de doenças que afetam plantas, como o mosaico do tabaco, e outras responsáveis por doenças animais e humanas, como a gripe, a poliomielite, a varíola etc.. A invenção do microscópio eletrônico permitiu observá-los diretamente”.
Continua Montagner: “Os vírus são seres vivos? Não exatamente, porque só existem no interior das células de que são parasitas. O programa genético está inscrito na banda magnética formada pelo ARN ou pelo ADN. Ele é centenas de milhares de vezes mais curto que aquele que contém o programa genético da célula. Para poder sobreviver no exterior da célula, o vírus está encerrado numa casca de proteínas, a qual por vezes está cercada por um invólucro de lipídios”.
Penetrando célula, o vírus começa a se reproduzir, usando o material da própria célula. Enzimas especificas produzem milhares de cópias do ADN, cujo mecanismo não citaremos, por desnecessário. Todas elas são mensagens que dirigem a síntese das proteínas virais. Formam-se nossos vírus, que saem das células, indo infectar outras.
Estudando esses fatos, os biologistas e infectologistas ficaram na dúvida se poderiam ou não considerar os vírus como seres vivos. Primeiro, porque só conseguem viver dentro de células, reproduzindo-se às custas do material destas. Segundo porque não têm as demais características dos seres vivos.
A CODIFICAÇÃO E OS NEGOCODIFICADORES – Kardec, em O Livro dos Espíritos, livro I, cap. IV, Principio Vital, comentando a questão 71, explica: “Podemos fazer a seguinte distinção:
1.       os seres inanimados, formados somente de matéria, sem vitalidade, nem inteligência: são os corpos brutos;
2.       os seres animados não pensantes, formados de matéria e dotados de vitalidade, mas desprovidos de inteligência;
3.       os seres animados pensantes, formados de matéria, dotados de vitalidade e tendo ainda um principio inteligente que lhes dá a faculdade de pensar”.
Na resposta à questão 136-a, os Espíritos disseram que “a vida orgânica pode animar um corpo sem alma, mas a alma não pode habitar um corpo sem vida orgânica”. Portanto, o principio espiritual não pode habitar um mineral.
Como introdução ao estudo do Princípio Vital, a partir da questão 60, Kardec escreve que “os seres orgânicos são os que trazem em si mesmos uma fonte de atividade intima, que lhes da a vida: nascem, crescem, reproduzem-se e morrem. Compreendem os animais e as plantas. Os seres inorgânicos são os que não possuem vitalidade nem movimentos próprios, sendo formados apenas pela agregação da matéria: os minerais, a água, o ar etc.…”
Apesar de Kardec e Delanne ensinarem, de maneira tão peremptória, que o principio espiritual não habita o mineral, por este não lhe oferecer as condições de utilização ou de agitabilidade… ideias orientais, infiltradas no movimento espírita, vêm lançando a confusão neste terreno.
Dizem, por exemplo, que tudo no Universo tem vida, desde o átomo até as estrelas; que em tudo há a manifestação divina, através de um princípio espiritual, que impregna toda a matéria. Não, não e não. O átomo, a molécula, os minerais, a água, o ar, estão simplesmente sujeitos à leis físicas, não às leis do Espírito. Não queiramos ver nas leis de tração, que regem o Universo do átomo às estrelas, qualquer coisa de espiritual.
Também nas afinidades químicas, como a que faz os átomos de cloro buscarem uma combinação com os de sódio, formando o cloreto de sódio, ou sal de cozinha. Nessa combinação não há amor ou afinidade psíquica, como dizem os sonhadores, mas simplesmente afinidade química.
Mas não são só os orientais, nas suas meditações nos píncaros do Himalaia, que dizem isto. Infelizmente, pensadores do mais alto gabarito estão querendo fazer uma simbiose entre ideias desses religiosos místicos em êxtase com a física quântica. Tais pensadores lembra a atuação de um “agente estruturador externo ao Universo material, para que se forme a mais elementar das subpartículas atômicas”, dando origem ao átomo. Por exemplo, diz Carlos de Brito Imbassahy, em “A Bioenergia no Campo do Espírito”, item 2.1, que experiências no acelerador do LEP mostravam “que algo comandava as ações dessas partículas, como se tivessem uma alma ou espírito próprio, evidentemente distinto do que se considera alma animal”.
Haverá, então, dois dirigentes da estruturação material, um que agiria nos átomos e outro nos seres vivos? Não, o assunto já é complexo demais; não vamos complicar mais ainda. Essas são elucubrações teóricas de mentes cultas e avançadas, mas inteiramente destoantes dos ensinos da Codificação. Mineral não tem vida, não abriga nenhum princípio espiritual.
A matéria, como ensina Kardec, é apenas substância usada pelos Espíritos para sua trajetória no mundo terreno. Não evolui, não tem individualidade ou personalidade. Não queiramos inovar, em terreno tão escorregadio. ”




terça-feira, 26 de julho de 2016

ABORTAMENTO ESPONTÂNEO[1]


 

Por que, para certas mulheres que desejam muito ser mães, ocorrem abortamentos espontâneos?
O que acontece, nesses casos, ao Espírito que se preparava para reencarnar naquele corpo que estava em formação?
Uma senhora narrou, ao jornal italiano L´aurora uma experiência muito interessante.
Ela estava grávida e feliz. Estava no quarto mês de gestação. Os exames preliminares lhe haviam anunciado o sexo da criança: seria um menino, e ela se apressara a começar chamá-lo de André.
Então, uma noite, ela sonhou que estava deitada em um leito de hospital, sem apresentar o ventre desenvolvido, próprio da gravidez.
Estranhou, pois não conseguia entender o que acontecera. Levantou-se e foi até a janela do quarto. Um jardim se descortinava abaixo e nele um garotinho lhe sorria e a saudava com sua mãozinha.
Ela o olhou e lhe disse:
Até breve, meu tesouro. O nosso é somente um até breve, não um adeus.
Despertando, poucas horas depois, Giovanna precisou ser encaminhada ao Hospital da localidade, sob ameaça de um abortamento.
A médica, auxiliada por sua equipe, se esforçou ao máximo, sem conseguir evitar o abortamento espontâneo.
Uma grande tristeza invadiu aquele coração materno, ansioso pelo nascimento de mais um filho.
Desalentada e triste, chorou até se esgotarem as lágrimas. E o sonho da noite anterior então teve sentido para si: seu filhinho viera se despedir. E ela se despedira dele.
Fora o anúncio da tristeza que estava a caminho e que invadiria aquele coração feminino.
Talvez, mais tarde, em um outro momento, ele pudesse retornar, em nova tentativa gestacional. Mesmo porque, conforme o sonho, fora uma despedida temporária.
* * *
Por que ocorrem abortos espontâneos? O Codificador da Doutrina Espírita, Allan Kardec, interessou-se pela delicada questão.
As respostas lúcidas dos Espíritos de luz se encontram em O livro dos Espíritos.
Em síntese, esclarecem os mensageiros celestes que, as mais das vezes, esses eventos espontâneos têm por causa as imperfeições da matéria.
Ou seja, as condições inadequadas do feto ou da gestante. De outras, o Espírito reencarnante, temeroso das lutas que terá que enfrentar na vida de logo mais, desiste da reencarnação, volta atrás em sua decisão.
Retirando-se o Espírito que presidia ao fenômeno reencarnatório, a criança não vinga, a gestação não chega a termo.
A gestação frustrada é dolorosa experiência para os pais e para o Espírito em processo reencarnatório.
Como não existe sofrimento sem causa anterior, chega a esses corações, como medida salutar para ajuste de débitos anteriores.
Para o Espírito que realizava a tentativa, sempre preciosa lição.
Retornará ao palco da vida terrena, após algum tempo, em novas circunstâncias.
* * *
Para quem aguarda o nascimento de um filho, se constitui em doloroso transe a frustração do processo da gestação.
De um modo geral, volta o mesmo Espírito, superadas as dificuldades, para a reencarnação.
Se forem inviáveis as condições para ser agasalhado no ventre que elege para sua mãe, engendra outras formas de chegar ao lar paterno.
É nessas circunstâncias que a adoção faz chegar a pais não biológicos o filho inestimável do coração.
 

Fonte: Redação Momento Espírita