quinta-feira, 30 de junho de 2022

PRIMEIRA MANIFESTAÇÃO[1]

 

Miramez

 

Por que os primeiros gritos da criança são de choro?

− Para excitar o interesse da mãe e provocar os cuidados necessários. Não compreendes que, se ela só tivesse gritos de alegria, quando ainda não sabe falar, pouco se inquietariam com as suas necessidades? Admirai, pois, em tudo, a sabedoria da Providência.

Questão 384/ O Livro dos Espíritos

 

A primeira manifestação da criança no mundo, ao nascer é realmente o choro, para dizer aos pais que está junto deles. Os pais, principalmente a mãe, ao ouvirem o primeiro choro do filho, sentem a alegria assomar em seus corações, que nesta hora se encontram em estado de alta sensibilidade. Os desencarnados que ali se encontram batem palmas energéticas de alegria, igualmente, e a criança renova suas forças com as lágrimas em profusão. Até aqueles que assistem a mãe sentem um estado de bem-estar ao ouvir a música do Espírito que vem à luz da vida.

Muitos pensam que o choro é comportamento negativo, mas nem sempre: as lágrimas são afrouxamento dos nervos, e podem criar ambiente de muita tranquilidade. Dependendo do motivo porque se chora, elas tem muita utilidade. Mesmo com o adulto, o choro é uma terapia.

Quando está enredado em opressões, o choro alivia, bem como atrai para junto de si companheiros em socorro, aliviando mais rapidamente a dor interna o que, por vezes, não é aconselhável.

Na utilidade que impõe o corpo, quando a criança chora pela primeira vez, os órgãos que está recebendo são também testados, como o faz quem no mundo instala uma rede de microfones para uma festa. Tudo tem o teste em primeira mão.

A criança quando chora, chama imediatamente a atenção da mãe ou dos que a cercam, e eles logo avaliam se é fome ou dor, e cuidam dela. Como a sabedoria de Deus é grandiosa! O choro do bebê é o recurso de linguagem da criancinha, e a mãe é hábil na interpretação do que ela deseja.

A linguagem dos homens é que é de difícil entendimento. Quanto mais sábia a criatura, menos ela conversa e quando fala, expõe o certo com suavidade, fazendo com que todos entendam sua fala de luz. Os seus sentimentos criam imagens que aquele que ouve assimila com facilidade.

A criança, desde a tenra idade, já sorri também, mostrando aos presentes que já sabe expressar o ambiente que Deus para a satisfação dos que cuidam dela entendam o que ela deseja. É um absorvente dos pensamentos, bem como dos sentimentos espirituais maternos, no ambiente em que vive. Por isso, é preciso conversar com suavidade com a criancinha. Ela tem necessidade de ouvir a mãe, mais do que o próprio alimento, e se não ouvir as palavras de carinho, pode atrofiar e até morrer de constrangimento.

A criança chora, estimulando a mãe, o pai e os que cercam para ouvi-la. Se pensamos que está ali um ser completamente inconsciente, estamos enganados: nela tudo se registra na mais pura sensibilidade que aflora na consciência, e que o coração expressa nos sentimentos infantis. Não descuidemos da criança em todas as suas necessidades de viver. Ela tem o direito de vida como todas as criaturas. Atrofiar uma criança por negar a ela seu direito é assassinar uma vida em formação, é crime por omissão.

O mundo espiritual se encontra presente junto às crianças para ajudá-las nas suas mais puras necessidades. A mãe, quando conversa com seus filhos, em muitos casos serve de médium, a fim de transmitir a mensagem do plano espiritual à vida em formação.



[1] Filosofia Espírita – Volume 8 – João Nunes Maia

quarta-feira, 29 de junho de 2022

O QUE SERIA EVIDÊNCIA SUFICIENTE PARA A REENCARNAÇÃO?[1]

 


Iddo Landau, Ph.D.[2] – Postado em 23 de junho de 2019 |  Revisado por Ekua Hagan

 

Acreditar na reencarnação é uma maneira razoável de encontrar sentido na vida?

 

Provavelmente existem várias causas para o interesse das pessoas pela reencarnação, mas pelo menos duas estão relacionadas ao significado da vida.

Primeiro, parece haver muita injustiça neste mundo. Muitas pessoas boas sofrem enquanto muitas pessoas más florescem. A existência será melhor, menos absurda e mais significativa, se depois de morrermos as pessoas boas forem recompensadas e as más punidas.

Em segundo lugar, o pensamento de que na morte pereceremos e desapareceremos completamente faz com que muitas pessoas sintam que suas vidas são inconsequentes ou sem sentido. Eles querem persistir.

Relatos de reencarnação, ressurreição e céu e inferno podem responder a essas preocupações. Mas há debates filosóficos interessantes sobre se há motivos racionais para acreditar que esses relatos são verdadeiros.

Neste post do blog, concentro-me apenas na reencarnação. (Espero discutir a ressurreição e o céu e o inferno em alguns posts futuros.) Além disso, ao discutir a reencarnação, limito-me aqui apenas à questão do que poderia ser considerado como evidência empírica suficiente de que a reencarnação realmente ocorre.

 

Exemplo de mulher japonesa de Derek Parfit

Vários filósofos especificaram o que considerariam como evidência suficiente de que a reencarnação realmente ocorre. Entre eles, o filósofo Derek Parfit deu o seguinte exemplo:

Suponha que uma japonesa contemporânea afirme ter lembranças de sua vida como guerreira e caçadora celta na Idade do Bronze. Entre outras alegações, ela diz que, quando era uma guerreira celta, enterrou uma pulseira (cuja forma e decoração precisas ela descreve) em um determinado lugar perto, digamos, de alguma formação rochosa especial. Os arqueólogos identificam essa formação rochosa, escavam o local e, de fato, encontram ali uma pulseira que se encaixa perfeitamente na descrição. Seus instrumentos mostram que o local permaneceu intocado por dois mil anos. Afirmações semelhantes desta senhora japonesa são verificadas da mesma maneira.

 

Observe que Parfit não afirma que tal evento aconteceu ou aconteceria. Ele apenas dá um exemplo do tipo de evidência empírica para a reencarnação que ele está procurando. Esse tipo de evidência é muito mais exigente do que teríamos se, por exemplo, alguém apenas relembrasse como, quando tinha três anos, todos se perguntavam como ele sabia que tipo de tabaco seu avô, que morreu 20 anos antes, gostava fumar. O menino de 3 anos conhecia a marca de tabaco de que seu avô gostava, embora ninguém se lembrasse de ter lhe contado nada sobre isso. Parfit, então, está apenas descrevendo um exemplo do que – se isso acontecesse – lhe pareceria uma evidência séria de que ocorreu um caso de reencarnação. Ele não sugere que já encontramos tal evidência.

 

Mesmo o exemplo da mulher japonesa é insuficiente

Seguindo o trabalho de Steven Hales, gostaria de sugerir que mesmo um caso como o descrito no exemplo da mulher japonesa é insuficiente como evidência de reencarnação. (O que eu digo aqui é muito influenciado por Hales e repete muito do que ele diz, mas eu me afasto dele em algumas pequenas questões).

O que um caso como o da mulher japonesa mostraria é que a ciência como ela é hoje é insuficiente; não podemos explicar tais eventos usando o conhecimento científico contemporâneo. Mas isso não significa, argumenta Hales, que temos que aceitar a explicação da reencarnação para o que aconteceu. Há também outras explicações possíveis para eventos como os descritos no exemplo da mulher japonesa. Por exemplo, sugere Hales, pode ser que todo o evento seja orquestrado por um extraterrestre poderoso e tecnologicamente avançado que gosta de se intrometer nas vidas humanas implantando na mente de algumas pessoas quase memórias.

Hales pensa que a explicação extraterrestre para os eventos descritos no exemplo da mulher japonesa é improvável e implausível. Mas ele não vê por que é mais improvável ou implausível do que a explicação da reencarnação. (Na verdade, Hales pensa que a explicação extraterrestre é melhor do que a explicação da reencarnação, mas não entrarei neste assunto aqui.)

Eventos como os descritos no exemplo da mulher japonesa são suficientes para mostrar que existem algumas coisas que não podemos explicar pelo conhecimento científico contemporâneo. Talvez nunca consigamos explicá-los cientificamente. Mas tudo isso é insuficiente para provar que a reencarnação (em vez de outra coisa) ocorreu. Assim, a suposição de reencarnação permanece não comprovada.

Devo acrescentar que mesmo que todas as explicações alternativas para casos como o descrito no exemplo da mulher japonesa fossem de alguma forma excluídas, e ficasse por alguma razão claro que a dama japonesa é de fato uma reencarnação do guerreiro celta, isso ainda seria insuficiente para satisfazer as preocupações sobre o sentido da vida mencionadas acima.

O caso da mulher japonesa e casos semelhantes mostrariam apenas que algumas pessoas, como aquela senhora japonesa, estão encarnadas, não que todas as pessoas estão. Tais casos também não mostrarão que as pessoas são recompensadas ou punidas nos próximos ciclos de vida, pois o exemplo não diz nada sobre as boas ou más ações do caçador celta e como elas foram recompensadas ou punidas.

Assim, eu também não acho que casos como o da senhora japonesa sejam úteis para preservar o sentido da vida. Devemos recorrer a outras formas de encontrar e manter o sentido da vida diante da injustiça e da morte.

 

Referências

§  Derek Parfit, Reasons and Persons (Oxford: Oxford University Press, 1984), 227.

§  Steven D. Hales, Evidence and the Afterlife, Philosophia 28 (2001): 335-346.

 

Vide o Canal do You Tube “Afinal, quem somos nós” – no link https://www.youtube.com/watch?v=CFEf9OIEzgA&t=65s

 

 

Traduzido por Google Tradutor



[2] Professor de filosofia na Universidade de Haifa. Ele escreveu extensivamente sobre o sentido da vida e é o autor de  Finding Meaning in an Imperfect World .

terça-feira, 28 de junho de 2022

OS ALUCINADOS[1]

 

Allan Kardec

 

Temos pouco a dizer sobre a alucinação, estado provocado por uma causa moral, que influi sobre o físico e à qual se mostram mais acessíveis as naturezas nervosas, sempre mais prontas a impressionar-se.

Sobretudo as mulheres, por sua organização íntima, são levadas à exaltação, e a febre se apresenta nelas, o mais das vezes, acompanhada de delírio, que toma as aparências da loucura momentânea.

A alucinação, é preciso reconhecer, por um pequeno lado toca a loucura, assim como todas as superexcitações cerebrais; e enquanto o delírio se manifesta sobretudo por palavras incoerentes, a alucinação representa mais particularmente a ação, a encenação. Contudo, é injustamente que por vezes as confundem.

Vítima de uma espécie de febre interior, que não se traduz externamente por nenhuma perturbação aparente dos órgãos, o alucinado vive em meio ao mundo imaginário que cria, por um momento, sua imaginação perturbada; tudo está em desordem, nele como em torno dele; leva tudo ao extremo: por vezes a alegria, a tristeza quase sempre, e as lágrimas rolam nos olhos, enquanto seus lábios fingem um sorriso doentio.

Essas visões fantásticas existem para ele; ele as vê, as toca e se assusta com elas. Não obstante, conserva o exercício da vontade; conversa com os interlocutores e lhes oculta o objeto de seus terrores ou de suas sombrias preocupações.

Conhecemos um que, durante cerca de seis meses, assistia todas as manhãs ao enterro de seu corpo, tendo plena consciência de que sua alma sobrevivia. Nada parecia mudado nos seus hábitos de vida e, contudo, esse pensamento incessante, essa visão mesma por vezes o seguia em todos os lugares. A palavra morte ressoava incessantemente em seu ouvido. Quando o Sol brilhava, dissipava a noite ou atravessava a nuvem, a horrível visão se desvanecia pouco a pouco, acabando por desaparecer. À noite adormecia, triste e desesperado, porque sabia que horrível despertar o aguardava no dia seguinte.

Por vezes, quando o excesso de sofrimento físico impunha silêncio à sua vontade e lhe tirava esse poder de dissimulação, que de ordinário conservava, exclamava de repente: – Ah! ei-los!... eu os vejo!... E então descrevia aos que o cercavam com mais intimidade os detalhes da lúgubre cerimônia, relatava as cenas sinistras que se desdobravam aos seus olhos, ou rondas de personagens fantásticas que desfilavam à sua frente.

O alucinado vos dirá as loucas percepções de seu cérebro doente, mas não tem nada a vos repetir do que outros viessem lhe revelar; porque, para ser inspirado, é preciso que a paz e a harmonia reinem em vossa alma, e que estejais isento de todo pensamento material ou mesquinho; algumas vezes a disposição doentia provoca a inspiração; é, então, como um socorro que os amigos partidos antes vêm vos trazer para vos aliviar.

Esse louco, que ontem gozava da plenitude da razão, não apresenta desordens exteriores perceptíveis ao olho do observador; são, entretanto, numerosas, existem e são reais. Muitas vezes o mal está na alma, lançada fora de si mesma pelo excesso de trabalho, de alegria, de dor; o homem físico não está mais em equilíbrio com o homem moral; o choque moral foi mais violento do que o físico pode suportar: daí o cataclismo.

O alucinado sofre igualmente as consequências de uma perturbação grave em seu organismo nervoso. Mas – o que raramente acontece na loucura – neles essas desordens são intermitentes e tão mais facilmente curáveis quanto sua vida é, de certo modo, dupla, pois pensa com a vida real e sonha com a vida fantástica.

Esta última é, por vezes, o despertar de sua alma doente e, se se o escutar com inteligência, chegar-se-á a descobrir a causa do mal, que muitas vezes ele quer ocultar. Entre o fluxo das palavras incoerentes, que lança fora uma pessoa em delírio, e que parecem em nada se referir às causas prováveis de sua doença, encontrar-se-á uma que voltará sem cessar, que ela queria reter e que, contudo, escapa. Essa é a verdadeira causa e que é preciso combater.

Mas o trabalho é longo e difícil, porque o alucinado é um hábil comediante e, se percebe que o observam, seu espírito se lança em estranhos desvios e toma as aparências da loucura para escapar a essa pressão importante, que pareceis decidido a exercer sobre ele. É, pois, necessário estudá-lo com extremo tato, sem jamais o contradizer ou tentar retificar os erros de seu cérebro em delírio.

São estas as diversas fases de excitações cerebrais, ou antes, de excitações do ser todo inteiro, pois não é preciso localizar a sede da inteligência. A alma humana, que a dá, plana por toda parte; é o sopro do alto, que faz vibrar e agir a máquina toda inteira.

O alucinado pode, de boa-fé, julgar-se inspirado e profetizar, quer tenha consciência do que diz, quer os que o rodeiam possam, só eles e mau grado seu, recolher suas palavras.

Mas dar fé às indicações de um alucinado seria se preparar estranhas decepções, e é assim que muitas vezes têm levado ao passivo da inspiração os erros que não eram senão o fruto da alucinação.

O físico é coisa material, sensível, exposta à luz, que cada um pode ver, admirar, criticar, cuidar ou tentar endireitar. Mas quem pode conhecer o homem moral? Quando nos ignoramos a nós mesmos, como nos julgarão os outros? Se nós lhes entregamos alguns dos nossos pensamentos, são muito mais ainda os que subtraímos aos seus olhares e que gostaríamos de ocultar a nós mesmos.

Essa dissimulação é quase um crime social. Criados para o progresso, nossa alma, nosso coração, nossa inteligência são feitos para se derramarem sobre todos os irmãos da grande família, para lhes prodigalizar tudo quanto está em nós, como para se enriquecer ao mesmo tempo com tudo o que nos podem comunicar.

A expansão recíproca é, pois, a grande lei humanitária, e a concentração, isto é, a dissimulação de nossas ações, de nossos pensamentos, de nossas aspirações é uma espécie de roubo que cometemos em prejuízo de todo o mundo. Que progresso se fará, se guardarmos em nós tudo o que a Natureza e a educação aí puseram, e se cada um agir do mesmo modo a nosso respeito?

Exilados voluntários e nos mantendo fora do comércio de nossos irmãos, nós nos concentramos numa ideia fixa; a imaginação obsedada procura a isto subtrair-se, perseguindo toda sorte de pensamentos inconsequentes, e assim se pode chegar até a loucura, justo castigo que nos é infligido por não termos querido marchar em nossas vias naturais.

Vivamos, pois, nos outros e eles em nós, a fim de que todos não sejamos senão um. As grandes alegrias, como as grandes dores, nos partem quando não são confiadas a um amigo. Toda solidão é má e condenada, e toda coisa contrária ao voto da Natureza traz como consequências inevitáveis imensas desordens interiores.



[1] Revista Espírita – Fevereiro/1868 – Allan Kardec

segunda-feira, 27 de junho de 2022

FRANCISCO SPINELLI[1]

 


Chegado ao Brasil em 1911, vindo da Itália, natural de Nápoles onde nasceu em 31 de dezembro 1893, fixou residência, inicialmente em Vacaria – RS, fixando-se posteriormente em Bom Jesus – RS.

Como funcionário do Banco do Estado do Rio Grande do Sul e Prefeitura da cidade, ingressou no Espiritismo. Foi presidente do Centro Espírita Amor de Jesus e Colaborador de Marcírio Cardoso de Oliveira na implantação e divulgação da Doutrina de Kardec, na região serrana.

Grande orador e dotado de dinamismo invulgar, formou a Caravana de Divulgação que, em companhia de seu amigo Marcírio e do médium Jure Varella e outros companheiros de Doutrina, percorriam nos fins de semana os povoados dos campos de “Cima da Serra”, fundando núcleos familiares e disseminando a leitura das obras espíritas que conduziam em cargueiros sob o lombo de mulas. Foi numa dessas incursões que na localidade de Princesa do Campo – RS, na residência do agrimensor Vicente Acylino de Oliveira, fundou o Centro Espírita Alunos do Bem, denominação que o irmão Vicente, ao mudar residência para Caxias do Sul, com outros conterrâneos que também vieram, fundaram obra espírita com a mesma denominação e que hoje edita o “Boletim Harmonia”.

Spinelli, por exigência profissional transferiu-se para a Capital em junho de 1946, passando desde então a integrar-se através de colaboração a várias sociedades espíritas de Porto Alegre, não tardando a ser eleito Presidente da Federação Espírita do Rio Grande do Sul e no movimento nacional.

E já de início, criou a Caravana da Fraternidade, percorrendo vários estados do país na propaganda da unificação da prática espírita, que culminou com a assinatura do Pacto Áureo, onde na qualidade de relator das conclusões do Congresso, desempenhou a incumbência com brilhantismo e competência, possibilitando a finalização do ato, em 05 de outubro de 1949, na Casa de Ismael, no Rio de Janeiro.

Na presidência da FERGS, incentivou as comemorações do centenário dos fenômenos de Hydesville, confirmação da realidade medianímica que deu início a Codificação.

Criou a comissão para disseminar os Departamentos de Evangelização da Infância e da Juventude. Instituiu na FERGS o programa: “Em cada Centro espírita uma livraria”, hoje vitoriosa ideia semeadora de luzes e conhecimento doutrinário.

Desencarnou em Porto Alegre em 07 de agosto de 1955.

sábado, 25 de junho de 2022

FIM DAS ADULTERAÇÕES – FEB anuncia que restituirá texto original de 112 obras de Francisco Cândido Xavier[1]

 

Jornal Espaço Espírita - 03/04/2022

 

 

Um momento histórico e importante para os rumos da doutrina Espírita no Brasil: as 112 obras de Francisco Cândido Xavier adulteradas a partir de 2012 – e que geraram inclusive a série “Evangelho Por Emmanuel”, também editada pela FEB, serão descartadas com a retomada da publicação das obras no texto original da psicografia de Chico, mantendo a redação original do orientador Espiritual Emmanuel e dos diversos outros Autores Espirituais que se notabilizaram pelas mãos do médium mineiro.

Reunião promovida no dia 31 de março, na sede da Federação Espírita Brasileira em Brasília, segundo informe da própria FEB, com a presença de dirigentes da União Espírita Mineira (UEM) firmou o que a FEB chamou de “parceria para cotejamento” das obras psicografadas por Francisco Cândido Xavier, o que possibilitará uma “leitura comparada” destes livros.

A FEB, no texto, anuncia que o trabalho conjunto entre as duas instituições tem como objetivo identificar “diferenças editoriais” – no caso, as adulterações – entre os livros lançados pela FEB Editora, as primeiras edições e as obras consideradas definitivas. O intuito é aproximar as edições atuais com a redação apresentada desde as primeiras obras publicadas, trazendo ao público o zelo e o cuidado editorial.

Como consequência dessa parceria, foi redigida Nota Técnica cuja diretriz geral é “manter a forma original escolhida pelo autor espiritual, registrada na primeira edição da obra em cotejamento, modificando qualquer aspecto textual apenas quando houver inadequação/incorreção patente da norma culta vigente, comprovada/referendada por mais de um autor específico da área linguística (gramática, léxico, estilística)”.

O trabalho buscará também “atender à padronização do Manual de Editoração da FEB, sem prejuízo para o conteúdo da obra, bem como para o estilo do autor espiritual”, completa a nota.

Estiveram presentes nessa histórica reunião Jorge Godinho, presidente da FEB, Geraldo Campetti, vice-presidente da FEB e Alisson Pontes, presidente da UEM. Alisson destacou a importância da obra de Chico Xavier ao dizer que “o livro espírita psicografado por Francisco Cândido Xavier é valioso instrumento de consolo e esclarecimento, oferecendo paz e luz a milhares de pessoas no mundo inteiro”.

Por sua vez, Jorge Godinho falou sobre o trabalho de unificação ao esclarecer que “unidos somos mais fortes”. Esta ação, segundo a FEB, integra comemorações do Ano de Chico Xavier, em celebração aos 20 anos de sua desencarnação, assim como destaca as diversas obras literárias vindas pelas suas mãos como um grande contributo para a reflexão da Humanidade.

 

Visão da Rede Espaço Espírita

Na visão da Rede Espaço Espírita de Divulgação Doutrinária, apesar das palavras cuidadosas da Federativa Nacional, visando evitar a palavra “adulteração”, o que restou efetuado realmente foi a alteração das 112 obras – algumas com a adoção inclusive de palavras totalmente estranhas a eventuais sinônimos do que os Autores Espirituais repassaram a Chico.

Essas alterações de texto, a partir de 2012, resultaram numa coletânea de textos adulterados, reunidos principalmente na série “Evangelho por Emmanuel”, e inclusive, com enxertos de textos de outro médium e outro espírito, além de uma tradução bíblica recente, que nada tem a ver com o trabalho idealizador originalmente por Emmanuel. A série, se continuar, deve ser também totalmente revista, descartando-se elementos estranhos ao corpo textual recebido por Chico.

À decisão da FEB, sobressaíram pressões por biógrafos de Chico, amigos pessoais do médium, estudiosos da doutrina e pela própria UEM, pedindo o restabelecimento da originalidade dos textos.

O episódio fica registrado, negativamente, como mais uma tentativa de deturpações de textos na história do Espiritismo, ou livros estranhos à Doutrina, como é o caso de “Os Quatro Evangelhos”, de Jean Batiste Roustaing.

Nos anos 70, obras de Kardec vinham sendo modificadas em novas traduções dos seus livros. O caso “Paulo Alves Godoy”, com sua tradução adulterada de “O Evangelho Segundo o Espiritismo”, combatido pelo próprio Chico Xavier e pelo insigne professor José Herculano Pires, foi finalmente retirada do catálogo da Federação Espírita de São Paulo (FEESP), que a editava na época. Ou seja, a influência da espiritualidade visando a derrocada da mensagem do Cristo, através da perspectiva espírita, parece ser permanente.

O próprio Emmanuel, no livro “Na Hora do Testemunho”, de 1978, classificou quem mexeu na obra de Kardec, na ocasião, como “adulteradores” integrantes de parte de um extenso “programa demolidor que atingiria toda a obra de Allan Kardec, do Espírito da Verdade e do próprio Cristo”.

A Rede Espaço Espírita entende e concorda com o conteúdo apresentado no programa de rádio e internet Vivência Espírita, transmitido neste domingo, 3 de abril, pelas rádios Vivência Espírita e Espaço Espírita, através dos apresentadores Jorge Reis, Rodrigo da Costa, Rui Barbosa e do convidado Cesar Carneiro de Souza – que talvez o objetivo, na adulteração, não tenha sido intencional ou pensado em causar dolo para a Doutrina.

Cezar Carneiro de Souza, de Uberaba, MG, amigo de Chico, afirmou no programa que valeu a pressão e mobilização dos espíritas. “Boa Nova”, o livro de Humberto de Campos, tem quase 40 palavras trocadas. Aquela edição que a editora modificou passa a ser da editora. Troca o sentido. Até pode ser boa a tradução, mas não é correto”, disse Cezar, no programa.

sexta-feira, 24 de junho de 2022

PODEMOS SER MELHORES...[1]

 

José Lucas – Óbidos, Leiria, Portugal

 

A vida na Terra é recente, tendo em conta os milhões de anos da sua formação. Após reencarnações sucessivas, saímos dos mundos primitivos e atingimos o estado actual de desenvolvimento intelectual e moral. Apesar de tudo de bom que já conquistámos, a vida pode ser melhor…

2022 anos depois de termos conhecido o grande psicoterapeuta da Humanidade, Jesus de Nazaré, continuamos sem fazer o “trabalho de casa”:

o   Podemos ser felizes e não somos.

o   Podemos viver onde quisermos, em paz e, matamo-nos por um bocado de terreno, numa herança, ou entre países.

o   Podemos ser educados no trânsito e criamos conflitos que, por vezes, levam à morte.

o   Podemos ser pacientes e somos explosivos, se alguém nos contraria.

o   Podemos ter famílias pacificadas e os divórcios aumentam, bem como a violência doméstica.

o   Podemos ser fraternos, solidários e escravizamos o próximo, a nosso belo prazer.

o   Podemos ser honestos e roubamos.

o   Podemos ser coerentes, transparentes e, mentimos.

o   Podemos fazer ao próximo o que desejamos para nós e exploramos os trabalhadores.

o   Podemos ser cidadãos correctos e ainda precisamos de polícia, tribunais, cadeias, Forças Armadas, advogados…

o   Podemos servir com prazer e brio o povo, na condição de governantes e, servimo-nos do povo.

o   Podemos ter casa, saúde, pão, educação para todos e, ignoramos os pobres.

o   Podemos ter igualdade de oportunidades, mas estimulamos as competições obsoletas.

o   Podemos todos viver melhor, mas existem os loucamente ricos no planeta.

o   Podemos ser pessoas e escolhemos “ter” coisas.

o   Podemos ter uma perspectiva de vida da imortalidade, mas, preferimos ignorar.

o   Podemos conhecer a reencarnação, a imortalidade, a comunicabilidade espiritual (comprovadas cientificamente) mas, atafulhamo-nos no materialismo selvagem e ultrapassado, ignorando Leis da Natureza que funcionam, quer acreditemos ou não.

o   Podemos ser melhores a todos os níveis, mas ainda não o somos, porque não queremos abdicar do egoísmo, a mãe de todos os defeitos humanos, no dizer dos Espíritos superiores (O Livro dos Espíritos, Allan Kardec).

Dizem os bons Espíritos, nesse mesmo livro, que a nossa Humanidade não é civilizada, apenas esclarecida. Somente seremos considerados civilizados, quando erradicarmos a guerra, a fome da face da Terra e, formos solidários.

Se seguirmos os ensinamentos e exemplos de Jesus de Nazaré – “amar o próximo como a nós mesmos, fazer o bem sem olhar a quem” – estaremos no encalço do que tanto desejamos e, não temos colocado em prática.

Relembrando Mohandas Gandhi, o cantor da não violência, “não existe um caminho para a paz, a paz é o caminho.”

Podemos ser melhores, mas, é preciso desejar, sentir, querer, fazer e abolir o egoísmo.

quinta-feira, 23 de junho de 2022

VIDAS SUCESSIVAS NA TERRA[1]

 

Miramez

 

Nossas diferentes existências corpóreas se passam todas na Terra?

− Não, mas nos diferentes mundos. As deste globo não são as primeiras nem as últimas, porém as mais materiais e distantes da perfeição.

Questão 172/O Livro dos Espíritos

 

Nem todos os Espíritos que ora estagiam na Terra, tiveram nela as primeiras reencarnações. Muitos já viveram em outros mundos, dos quais guardaram muitas experiências, que lhes servem de amparo contra muitos males.

A Terra, pelo que sabemos, é um dos mundos atrasados, não dos mais atrasados, no entanto. Ela está na situação dos globos que logo passarão de mundos de expiação para mundos de regeneração, onde o amor começa a despontar nos corações das almas, e Jesus será entendido pelos processos da dor, de sorte que as lições do Mestre serão vividas na sua feição mais pura. Há, porém, ainda, uma distância da teoria dos conceitos evangélicos à verdade prática.

Cabe à Doutrina dos Espíritos fazer reviver na Terra os ensinamentos do Divino Mestre na sua pureza, para que as almas descubram pelos próprios esforços, a luz do entendimento, dando início à caminhada de libertação espiritual. A humanidade em geral se encontra muito distante da perfeição, contudo, está a caminho, e isso para nós outros que convivemos com os homens, é motivo de grande alegria ao vê-los trabalhando, dia a dia, em busca da melhoria espiritual.

O Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo pode ser entendido em várias dimensões, de acordo com a elevação do Espírito. Estamos empenhados, Espíritos e espíritas, em buscar, na profundidade do tempo, o verdadeiro Evangelho, do modo que foi vivenciado pelo Guia Espiritual da humanidade. Para tanto, devemos nos esforçar no cumprimento desse dever que, para nós outros, é uma glória, de recordar o que foi dito para nós há quase dois mil anos. Compete a cada criatura esforçar-se em todas as direções do saber, para que o amor, aquele ensinado por Jesus, venha à tona da consciência, no sentido de libertar todas as criaturas da ignorância, fazendo lembrar a profecia de Moisés, da descoberta do “Paraíso Perdido” onde poderemos encontrar o leite da vida e o mel da perfeição espiritual.

Se a lei da reencarnação nos fala que já passamos em muitos mundos, recolhendo experiências, devemos a esses mundos o que aprendemos; portanto, a mesma lei do amor pede que devolvamos o que recebemos em forma de fraternidade universal, enriquecendo a vida e despertando em nós os valores que nos foram legados. Não é somente a Terra que tem as possibilidades de receber rebanho de almas e educá-las. Deus não iria criar somente um mundo em condições de ser habitado; eles são incontáveis, bailando no cosmo à espera da sequência da vida, adicionando sempre os valores do saber e do amor.

As vidas que na Terra são vividas não são as primeiras nem as últimas, mas são valiosas, porque nelas o Espírito poderá aprender o valor das reencarnações, como escolas de luz dentro da luz de Deus. Ao meditarmos na reencarnação, uma luz de maior entendimento desabrocha em nossos corações, levando-nos a compreender que as vidas na Terra podem se multiplicar, quantas vezes forem necessárias, para a nossa libertação espiritual.



[1] Filosofia Espírita – Volume 4 - João Nunes Maia

quarta-feira, 22 de junho de 2022

IRMÃS FOX - A FAMÍLIA FOX[1]

 

 

Em 11 de dezembro de 1847, a família Fox instalou-se em modesta casa no vilarejo de Hydesville, Estado de New York, distante cerca de 30 km da cidade de Rochester.

O nome da família Fox origina-se do sobrenome Voss, depois Foss e finalmente Fox.

Eram de origem alemã, da parte paterna; e francesa, holandesa e inglesa, da parte materna. Seus antecessores foram notoriamente dotados de faculdades paranormais.

O grupo compunha-se do chefe da família, Sr. John D. Fox, da esposa D. Margareth Fox e mais duas filhas; Kate, com 7 anos e Margareth, com 10 anos. O casal possuía mais filhos e filhas. Entre estas, convém destacar Leah, que morava em Rochester, onde lecionava música. Devido aos seus casamentos, foi sucessivamente conhecida como Mrs. Fisch, Mrs. Brown e Mrs. Underhill.

Leah escreveu um livro, "The Missing Link", New York, 1885, no qual ela faz referência as faculdades paranormais de seus parentes anteriores.

Inicialmente, tomaram parte nos acontecimentos somente Kate e Margareth, mas posteriormente Leah juntou-se a elas e teve participação ativa nos episódios subsequentes ao de Hydesville.

 

A CASA DE HYDESVILLE JÁ ERA ASSOMBRADA

Lucretia Pulver era jovem que servira como dama de companhia do casal Bell, quando elas habitavam a referida casa até 1846. Ela contou uma curiosa história de um mascate que se hospedara com os Bells. Na noite em que o vendedor passou com aquele casal, Lucretia foi mandada a dormir na casa dos pais. Três dias depois tornaram a procurá-la.

Então disseram-lhe que o mascate fora embora. Ela nunca mais viu esse homem.

Depois disso, passado algum tempo, aproximadamente em 1844, começaram a dar-se fenômenos estranhos naquela casa. A mãe de Lucretia, Sra. Ann Pulver, que mantinha relações com a família Bell, relata que, em 1844, quando visitara a Sra. Bell, indo fazer tricô em sua companhia, ouvira desta uma queixa, disse-lhe que se sentia muito mal e quase não dormia à noite. Quando lhe perguntou qual a causa, a Sra. Bell declarou que se tratava de rumores inexplicáveis; parecera-lhe ter ouvido alguém a andar de um quarto para outro; acordou o marido e fê-lo levantar-se e trancar as janelas. A princípio, tentou afirmar à Sra. Pulver que possivelmente se tratasse de ratos. Posteriormente, confessou não saber qual a razão de tais rumores, para ela inexplicáveis.

A jovem Lucretia Pulver também testemunhou os fenômenos insólitos observados naquela casa. Os Bells terminaram por mudar-se.

Em 1846, instalou-se ali a família Weekman: Sr. Michael Weekman, Sra. Hannah Weekman e suas filhas. Alguns dias após terem-se alojado na referida casa, passaram a ser perturbados por ruídos insólitos: batidas na porta da entrada, sem que ninguém visível o estivesse fazendo; passos de alguém andando na adega ou dentro de casa.

A família Weekman, como era de esperar-se, não permaneceu muito tempo naquela casa sinistra. Em fins de 1847 deixou-a vaga, saindo de lá definitivamente.

Desse modo, atingimos a data de 11 de dezembro de 1847, quando a referida casa passou a ser ocupada pela família Fox, conforme já mencionamos no início deste artigo.

 

A NOITE DAS PRIMEIRAS TRANSCOMUNICAÇÕES

Inicialmente os Fox não sofreram nenhum incômodo em sua nova residência.

Entretanto, algum tempo depois, mais precisamente nos dois primeiros meses de 1848, os mesmos ruídos insólitos que perturbaram os antigos inquilinos voltaram a manifestar-se outra vez. Eram batidas leves, sons semelhantes aos arranhões nas paredes, assoalhos e móveis, os quais poderiam perfeitamente ser confundido com rumores naturais produzidos por vento, estalos do madeiramento, ratos etc. Por isso a família Fox não deveria ter-se sentido molestada ou alarmada. Entretanto, tais ruídos cresceram de intensidade, a partir de meados de março de 1848. Batidas mais nítidas e sons de arrastar de móveis começaram a fazer-se ouvir, pondo as meninas em sobressalto, ao ponto de negarem-se a dormir sozinhas no seu quarto, e passarem a querer dormir no quarto dos pais. A princípio os habitantes da casa, ainda incrédulos quanto à possível origem sobrenatural dos ruídos, levantavam-se e procuravam localizar a causas natural dos mesmos.

Na noite de 31 de março de 1848, desencadeou-se uma série de sons muito forte e continuados. Aí, então, deu-se o primeiro lance do fantástico episódio, que ficou como um marco inamovível na história da fenomenologia paranormal. A garota de sete anos de idade − a Kate Fox − em sua espontaneidade de criança teve a audácia de desafiar a "força invisível" a repetir, com os golpes, as palmas que ela batia com as mãos! A resposta foi imediata, a cada estalo um golpe era ouvido logo a seguir! Ali estava a prova de que a causa dos sons seria uma inteligência incorpórea. Para apreciar-se bem o sabor desta incrível aventura, vamos transcrever alguns trechos do depoimento da Sra. Margareth Fox.

Na noite de sexta-feira, 31 de março de 1848, resolvemos ir para a cama um pouco mais cedo e não nos deixamos perturbar pelos barulhos; íamos ter uma noite de repouso. Meu marido que aqui estava em todas as ocasiões, ouviu os ruídos e ajudou a pesquisar. Naquela noite fomos cedo para a cama − apenas escurecera. Achava-me tal alquebrada e com falta de repouso que quase me sentia doente. Meu marido não tinha ido para a cama quando ouvimos o primeiro ruído naquela noite. Eu apenas me havia deitado. A coisa começou como de costume. Eu distinguia de qualquer outro ruído jamais ouvido. As meninas, que dormiam em outra cama no quarto, ouviram as batidas e procuraram fazer ruídos semelhantes, estalando os dedos. Minha filha menor, Kate, disse, batendo palmas: "Senhor Pé Rachado, Faça o que eu faço." Imediatamente seguiu-se o som, com o mesmo número de palmadas. Quando ela parou, o som logo parou. Então Margareth disse brincando: “Agora faça exatamente como eu. Conte um, dois, três, quatro" e bateu palmas. Então os ruídos se produziram como antes. Ela teve medo de repetir o ensaio. Então Kate disse, na simplicidade infantil: "Oh! Mamãe! Eu já sei o que é. Amanhã é primeiro de abril e alguém quer nos pregar uma mentira". Então pensei em fazer um teste que ninguém seria capaz de responder. Pedi que fossem indicadas as idades de meus filhos, sucessivamente. Instantaneamente foi dada a exata idade de cada um, fazendo pausa de um para outro, a fim de separar, até o sétimo, depois do que se fez uma pausa maior e três batidas mais fortes foram dadas, correspondendo a idade do menor, que havia morrido.

Então perguntei: É um ser humano que me responde tão corretamente? Não houve resposta. Perguntei: É um espírito? Se for, de duas batidas. Duas batidas foram ouvidas assim que fiz o pedido. Então eu disse: Se for um espírito assassinado dê duas batidas. Essas foram dadas instantaneamente, produzindo um tremor na casa. Perguntei: Foi assassinado nesta casa? A resposta foi como a precedente. A pessoa que o assassinou ainda vive? Resposta idêntica, por duas batidas. Pelo mesmo processo verifiquei que fora um homem que o assassinaram nesta casa e os seus despojos enterrados na adega; que a família era constituída de esposa e cinco filhos, dois rapazes e três meninas, todos vivos ao tempo de sua morte, mas que depois a esposa morrera. Então perguntei: Continuará a bater se chamarmos os vizinhos para que também escutem? A resposta afirmativa foi alta.

Desse modo foram chamados vários vizinhos, os quais por sua vez convocaram outros, de maneira que, mais tarde e nos dias subsequentes, o número de curiosos era enorme.

Naquela noite compareceram o Sr. Redfield, o Sr. e Sra. Duesler e os casais Hyde e Jewell.

Mr. Duesler fez muitas perguntas e obteve as respostas. Em seguida indiquei vários vizinhos nos quais pude pensar, e perguntei se havia sido morto por algum deles, mas não obtive resposta. Após isso, Mr. Duesler fez perguntas e obteve as respostas. Perguntou: Foi assassinado? Resposta afirmativa. Seu assassino pode ser levado ao tribunal? Nenhuma resposta. Pode ser punido pela lei? Nenhuma resposta. A seguir disse: Se seu assassino não pode ser punido pela lei de sinais. As batidas foram ouvidas claramente. Pelo mesmo processo Mr. Duesler verificou que ele tinha sido assassinado no quarto do leste, a cinco anos passado, e que o assassínio fora cometido à meia noite de uma terça-feira, por Mr......; que fora morto com um golpe de faca de açougueiro na garganta; que o corpo havia sido enterrado; tinha passado pela dispensa, descido a escada e enterrado a dez pés abaixo do solo. Também foi constatado que o móvel fora dinheiro.

Quanto a quantia: cem dólares? Nenhuma resposta. Duzentos? Trezentos? Etc. Quando mencionou quinhentos dólares as batidas confirmaram.

Foram chamados muitos dos vizinhos que estavam pescando no ribeirão. Estes ouviram as mesma perguntas e respostas. Alguns permaneceram em casa naquela noite. Eu e as meninas saímos. Meu marido ficou toda a noite com Mr. Redfield. No sábado seguinte a casa ficou superlotada. Durante o dia não se ouviram os sons, mas ao anoitecer recomeçaram. Diziam que mais de trezentas pessoas se achavam presentes. No domingo os ruídos foram ouvidos o dia inteiro por todos quantos se achavam em casa.

Estes são os principais trechos do depoimento da Sra. Margareth Fox, que mais nos interessam para dar uma descrição viva dos acontecimentos de Hydesville, na sinistra noite de 31 de março de 1848.

 

AS ESCAVAÇÕES NA ADEGA

Os mais interessados em esclarecer o caso resolveram escavar a adega, visando encontrar os despojos do suposto assassinado. Eis que, através de combinação alfabética com as pancadas produzidas, chegaram à identidade da vítima. Tratava-se de um mascate de nome Charles B. Rosma, o qual tinha trinta e um anos quando, há quatro anos passado, fora assassinado naquela casa e enterrado na adega. O assassino fora um antigo inquilino. Só poderia ter sido o Sr. Bell... Mas onde a prova do fato, o cadáver da vítima? A solução seria procurá-lo na adega, onde estaria enterrado.

As escavações, porém, não levaram a resultados definitivos, pois deram n'água, sem que se tivessem encontrado quaisquer indício. Por essa razão foram suspensas.

No verão de 1848, o próprio Sr. David Fox auxiliado por alguns interessados retomou o empreendimento. A uma profundidade de um metro e meio, encontraram uma tábua. Aprofundada a cova, encontraram o carvão, cal, cabelos e alguns fragmentos de ossos que foram reconhecidos por um médico como pertencentes a esqueleto humano; mais nada.

As provas do crime eram precárias e insuficientes, razão talvez pela qual o Sr. Bell não foi denunciado.

 

A DESCOBERTA DO ESQUELETO

Em o número de 23 de novembro de 1904, do “Boston Journal”, foi notificada a descoberta do esqueleto de um homem cujo Espírito se supunha ter ocasionado os fenômenos na casa da família Fox em 1848. Meninos de uma escola achavam-se brincado na adega da casa onde moravam os Fox. A casa tinha fama de ser mal assombrada. Em meio aos escombros de uma parede − talvez falsa − que existira na adega, os garotos encontraram as peças de um esqueleto humano.

Junto ao esqueleto foi achada uma lata de uma espécie costumeira usada por mascates. Esta lata encontra-se agora em Lilydale, a sede central regional dos Espiritualistas Americanos, para onde foi transportada a velha casa de Hydesville.

Como pode ver-se, cinquenta e seis anos depois, em 22 de novembro de 1904 (data do encontro do esqueleto do mascate), parece não haver dúvida de que foram confirmadas as informações obtidas em 1848 a respeito do crime ocorrido naquela casa. Este episódio constitui-se em um notável caso de TCD (transcomunicação direta). As evidências são muito fortes.

 

O MOVIMENTO ESPALHA-SE

As duas garotas, Margareth e Kate, foram afastadas de sua casa, pois suspeitava-se que os fenômenos eram ligados sobretudo à sua presença. Margareth passou a morar com seu irmão David Fox. A Kate mudou-se para Rochester, onde ficou em casa de sua irmã Leah, então casada e agora Sra. Fish. Entretanto, os ruídos insistiam em acompanhar as irmãs Fox; onde elas se achavam, ocorriam os fenômenos. Parece que agora se observava uma espécie de contágio, pois, Leah Fish, a irmã mais velha, passou a apresentar também os mesmos fenômenos. Logo mais, começaram a surgir em outras famílias:

Era como uma nuvem psíquica, descendo do alto e se mostrando nas pessoas suscetíveis. Sons idênticos foram ouvidos em casa do Rev. A.H.Jervis, ministro metodista residente em Rochester. Poderosos fenômenos físicos irromperam na família do Diácono Hale, de Greece, cidade vizinha de Rochester. Pouco depois Mrs. Sarah A. Tamlin e Mrs. Benedict de Auburn, desenvolveram notável mediunidade (...).

O movimento espalhar-se-ia, mais tarde, pelo mundo, conforme fora afirmado em uma das primeiras comunicações através das irmãs Fox. As próprias forças invisíveis insistiram para que se fizessem reuniões públicas onde elas pudessem manifestar-se ostensivamente. Era uma nova mensagem que vinha do mundo dos Espíritos, conclamando os homens para uma outra posição filosófico-religiosa.

 

"SPIRITUALISM" E ESPIRITISMO

A "Onda Espiritualista" passou da América para a Europa, cujo terreno já se encontrava preparado pelo desenvolvimento científico, e onde os fenômenos de TC (transcomunicação) iriam ser estudados mais tarde, com rigor e profundidade pelos fundadores da "Psychical Research" e da Metapsíquica.

A forma bastante comum sob a qual a manifestações de TC (transcomunicação) se apresentaram na Europa, foi a das "mesas girantes". Vamos focalizar mais adiante e resumidamente esse período, do qual também se originou o Espiritismo na França, graças às investigações científicas e ao método didático do ilustre intelectual lionês, Hyppolyte Léon Denizard  Rivail (Allan Kardec).

Nunca é supérfluo enfatizar que não se deve confundir o "Spiritualism" com o Espiritismo. O primeiro nasceu como um movimento popular, provocado por evidências a favor da crença na existência, sobrevivência e comunicabilidade do Espírito.

Posteriormente o "Spiritualism" adquiriu a forma de um religião organizada que aspira, também, ser uma Ciência e uma Filosofia. Agora, um ponto importante: o "Spiritualism" não incorporou a ideia da reencarnação.

Ele admite apenas a continuidade da vida após a morte, sem inferno ou céu, porém em contínuo aprendizado e evolução no "Mundo Espiritual".

Há algumas diferenças entre os princípios básicos do "Spiritualism" e do Espiritismo.

A mais profunda é a questão da "reencarnação". O Espiritismo não só aceita o renascimento, como admite a Lei do Carma, considerando serem estes os fatores naturais da evolução do Espírito. Embora Allan Kardec, o codificador da Doutrina Espírita, considere Sócrates e Platão como os precursores da ideia cristã e do Espiritismo, a sua atenção para a realidade da comunicação dos Espíritos foi despertada pelo fenômeno das "mesas girantes".

 

REPERCUSSÃO ENTRE INTELECTUAIS

A partir do episódio das irmãs Fox, a transcomunicação, aqui no ocidente, passou atrair a atenção de um pequeno grupo de cientistas. Inicialmente, tais investigadores achavam-se, em sua maioria, imbuídos de forte cepticismo acerca do fenômenos paranormais que passaram a ganhar popularidade inusitada na Europa. Somente a curiosidade diante da estranheza de tais ocorrências conseguiu levar esses poucos cientistas a observá-las.

Logo no começo da fase, as pesquisas conduziram à formação de três categorias de pessoas, conforme suas opiniões acerca da natureza dos referidos fenômenos.

O primeiro grupo consistiu nos que viram nesses fatos uma confirmação de suas crenças na sobrevivência, na comunicabilidade e progresso dos Espíritos. A natureza do homem, para eles, era dual, e continha um componente espiritual além do material.

Desta interpretação, surgiu um aspecto religioso como decorrência imediata do reconhecimento da natureza espiritual da criatura humana. O "Spiritualism", na Inglaterra, e o Espiritismo, na França, são exemplos dessa interpretação, embora ambos reivindiquem, também, para suas doutrinas, os aspectos filosóficos e científicos.

Um segundo grupo constituiu-se, em sua maioria, por cidadãos de acentuado interesse científico. Alguns já eram cientistas profissionais, professores e investigadores em diversas áreas de conhecimento teórico e prático. Outros, com títulos e formação superior, embora não especialistas em disciplinas científicas, sentiram-se também interessados em investigar de maneira racional os referidos fatos, denominados, na época, "fenômenos psíquicos". Daí a designação usual desta atividade: "Psychical Research" (Pesquisa Psíquica). Na França, Charles Richet deu-lhe outro nome: "Metapsíquica".

No segundo grupo, figuravam, indistintamente, os espiritualistas, os indiferentes e os materialistas. Apenas os seguintes objetivos pareciam movê-los: confirmar ou negar os propalados fenômenos e, no caso afirmativo, descobrir a sua real causa eficiente.

Finalmente, um terceiro grupo, compreendendo a maioria dos interessados, colocou-se em franco antagonismo relativamente aos dois primeiros. Compunha-se de cientistas, intelectuais em geral, jornalistas e pessoas comuns. Alguns eram fieis ou chefes de religiões instituídas. Grande número desses cidadãos, especialmente os intelectuais, achava-se impregnado de filosofias materialistas e havia absorvido as ideias positivistas.

Revelaram-se profundamente céticos e procuraram liquidar com a crença nos aludidos fenômenos. Para eles, os fenômenos paranormais eram manifestações de superstição, ilusões e fraudes, ou alienação mental. Para alguns religiosos, poderiam ser armadilhas do "demônio", ou tentativas de indivíduos mal intencionados que visavam abalar as bases das religiões tradicionais. Outros chegavam a acreditar que se tratava da revivescência da Magia e do Ocultismo, numa tentativa de domínio de opinião pública.

 

CONCLUSÃO

Foi neste clima que se desenrolaram as dramáticas transcomunicações, cuja iniciativa, ao que parece, partiu do Plano Espiritual. As manifestações mais em evidência foram as chamadas "Mesas Girantes". Este episódio inaugurou o Período Espíritico, conforme a classificação de Charles Richet. Segundo este sábio, tal período vai das irmãs Fox até as pesquisas de Sir Willian Crookes, em 1872.

 

 

Fonte: Jornal Folha Espírita (10/1995)

terça-feira, 21 de junho de 2022

ESCALA ESPÍRITA[1]

 

Allan Kardec

 

Terceira Ordem – Espíritos Imperfeitos

Características gerais – Predominância da matéria sobre o espírito. Propensão para o mal. Ignorância, orgulho, egoísmo e todas as paixões que lhes são consequentes.

Têm a intuição de Deus, mas não o compreendem.

Nem todos são essencialmente maus. Em alguns há mais leviandade, irreflexão e malícia do que verdadeira maldade. Uns não fazem o bem nem o mal; mas, pelo simples fato de não fazerem o bem, já denotam a sua inferioridade. Outros, ao contrário, se comprazem no mal e se rejubilam quando uma ocasião se lhes depara de praticá-lo.

Neles a inteligência pode achar-se aliada à maldade ou à malícia; seja, porém, qual for o grau que tenham alcançado de desenvolvimento intelectual, suas ideias são pouco elevadas e mais ou menos abjetos seus sentimentos.

Restritos conhecimentos têm das coisas do mundo espírita e o pouco que sabem se confunde com as ideias e preconceitos da vida corporal. Acerca dessas coisas, não nos podem dar senão noções falsas e incompletas; entretanto, nas suas comunicações, mesmo imperfeitas, o observador atento encontra a confirmação das grandes verdades ensinadas pelos Espíritos superiores.

Na linguagem de que usam se lhes revela o caráter. Todo Espírito que, em suas comunicações, traz um mau pensamento, pode ser classificado na terceira ordem. Conseguintemente, todo mau pensamento que nos é sugerido vem de um Espírito dessa ordem.

Eles veem a felicidade dos bons e esse espetáculo lhes constitui incessante tormento, porque os faz experimentar todas as angústias que a inveja e o ciúme podem causar.

Conservam a lembrança e a percepção dos sofrimentos da vida corpórea e essa impressão é muitas vezes mais penosa do que a realidade. Sofrem, pois, verdadeiramente, pelos males de que padeceram em vida e pelos que ocasionaram aos outros. E, como sofrem por longo tempo, julgam que sofrerão para sempre. Deus, para puni-los, quer que assim julguem.

 

Podem ser divididos em quatro grupos principais:

 

Nona classe ESPÍRITOS IMPUROS

– São inclinados ao mal, de que fazem o objeto de suas preocupações. Como Espíritos, dão conselhos pérfidos, sopram a discórdia e a desconfiança e se mascaram de todas as maneiras para melhor enganar. Ligam-se aos homens de caráter bastante fraco para cederem às suas sugestões, a fim de induzi-los à perdição, satisfeitos com o conseguirem retardar-lhes o adiantamento, fazendo-os sucumbir nas provas por que passam.

Nas manifestações, dão-se a conhecer pela linguagem. A trivialidade e a grosseria das expressões, nos Espíritos, como nos homens, é sempre indício de inferioridade moral, se não também intelectual. Suas comunicações exprimem a baixeza de seus pendores e, se tentam iludir, falando com sensatez, não conseguem sustentar por muito tempo o papel e acabam sempre por se traírem.

Alguns povos os arvoraram em divindades maléficas; outros os designam pelos nomes de demônios, maus gênios, Espíritos do mal.

Quando encarnados, os seres vivos que eles constituem se mostram propensos a todos os vícios geradores das paixões vis e degradantes: a sensualidade, a crueldade, a felonia, a hipocrisia, a cupidez, a avareza sórdida. Fazem o mal por prazer, as mais das vezes sem motivo, e por ódio ao bem, quase sempre escolhendo suas vítimas entre as pessoas honestas. São flagelos para a Humanidade, pouco importando a categoria social a que pertençam, e o verniz da civilização não os forra ao opróbrio e à ignomínia.

 

Oitava classe − ESPÍRITOS LEVIANOS

– São ignorantes, travessos, irrefletidos e zombeteiros. Metem-se em tudo, a tudo respondem, sem se incomodarem com a verdade. Gostam de causar pequenos desgostos e ligeiras alegrias, de aborrecer, de induzir maliciosamente em erro, por meio de mistificações e de espertezas. A esta classe pertencem os Espíritos vulgarmente tratados de duendes, trasgos, gnomos, diabretes. Acham-se sob a dependência dos Espíritos superiores, que muitas vezes os empregam, como fazemos com os nossos servidores.

Mais que outros, parecem ligados à matéria e ser os principais agentes das vicissitudes dos elementos do globo, quer vivam no ar, na água, no fogo, nos corpos sólidos ou nas entranhas da Terra. Muitas vezes manifestam sua presença por efeitos sensíveis, tais como pancadas, movimento e deslocamento anormal de corpos sólidos, agitação do ar etc., o que lhes valeu o nome de Espíritos batedores ou perturbadores. Reconhece-se que tais fenômenos não se devem a uma causa fortuita e natural quando têm um caráter intencional e inteligente. Todos os Espíritos podem produzir esses fenômenos, porém os Espíritos elevados em geral deixam essas atribuições aos inferiores, mais aptos às coisas materiais que às inteligentes.

Em suas comunicações com os homens, a linguagem de que se servem é, por vezes, espirituosa e faceta, mas quase sempre sem profundidade. Exploram as falhas e o lado ridículo dos homens e das coisas, comentando-os em traços mordazes e satíricos. Se tomam nomes supostos, é mais por malícia que por maldade.

 

Sétima ClasseESPÍRITOS PSEUDO-SÁBIOS

– Dispõem de conhecimentos bastante amplos, porém creem saber mais do que realmente sabem. Tendo realizado alguns progressos sob diversos pontos de vista, a linguagem deles aparenta um cunho de seriedade, susceptível de iludir com respeito às suas capacidades e luzes. Mas, em geral, isso não passa de reflexo dos preconceitos e ideias sistemáticas que nutriam na vida terrena. É uma mistura de algumas verdades com os erros mais absurdos, através dos quais penetram a presunção, o orgulho, o ciúme e a obstinação, de que ainda não puderam despir-se.

 

Sexta Classe − ESPÍRITOS NEUTROS

– Nem bastante bons para fazerem o bem, nem bastante maus para fazerem o mal. Pendem tanto para um como para o outro e não ultrapassam a condição comum da Humanidade, quer no que concerne ao moral, quer no que toca à inteligência. Apegam-se às coisas deste mundo, de cujas grosseiras alegrias sentem saudades.

 

Segunda Ordem – ESPÍRITOS BONS

Características gerais – Predominância do espírito sobre a matéria; desejo do bem. Suas qualidades e poderes para o bem estão em relação com o grau de adiantamento que haja alcançado; uns têm ciência, outros a sabedoria e a bondade. Os mais adiantados aliam o saber às qualidades morais. Não estando ainda completamente desmaterializados, conservam mais ou menos, conforme a categoria que ocupem, os traços da existência corporal, assim na forma da linguagem, como nos hábitos, entre os quais se descobrem mesmo algumas de suas manias. De outro modo, seriam Espíritos perfeitos.

Compreendem Deus e o infinito e já gozam da felicidade dos bons. São felizes pelo bem que fazem e pelo mal que impedem. O amor que os une lhes é fonte de inefável ventura, que não tem a perturbá-la nem a inveja, nem os remorsos, nem nenhuma das paixões más que constituem o tormento dos Espíritos imperfeitos. Todos, entretanto, ainda têm de passar por provas, até que atinjam a perfeição absoluta.

Como Espíritos, suscitam bons pensamentos, desviam os homens da senda do mal, protegem na vida os que se lhes mostram dignos de proteção e neutralizam a influência dos Espíritos imperfeitos sobre aqueles a quem não é grato sofrê-la.

Quando encarnados, são bondosos e benevolentes com os semelhantes. Não os movem o orgulho, nem o egoísmo, ou a ambição.

Não experimentam ódio, rancor, inveja ou ciúme e fazem o bem pelo bem.

A esta ordem pertencem os Espíritos designados, nas crenças vulgares, pelos nomes de bons gênios, gênios protetores, Espíritos do bem. Em épocas de superstições e de ignorância, eles hão sido elevados à categoria de divindades benfazejas.

 

Podem, igualmente, ser divididos em quatro grupos principais:

 

Quinta classeESPÍRITOS BENÉVOLOS

– A bondade é neles a qualidade dominante. Apraz-lhes prestar serviço aos homens e protegê-los. Limitados, porém, são os seus conhecimentos. Hão progredido mais no sentido moral do que no sentido intelectual.

 

Quarta classe − ESPÍRITOS DE CIÊNCIA

– Distinguem-se especialmente pela amplitude de seus conhecimentos. Preocupam-se menos com as questões morais, do que com as de natureza científica, para as quais têm maior aptidão. Entretanto, só encaram a Ciência do ponto de vista da sua utilidade e jamais dominados por quaisquer paixões próprias dos Espíritos imperfeitos.

 

Terceira classeESPÍRITOS DE SABEDORIA

– As qualidade morais da ordem mais elevada são o que os caracteriza. Sem possuírem ilimitados conhecimentos, são dotados de uma capacidade intelectual que lhes faculta juízo reto sobre os homens e as coisas.

 

Segunda classe − ESPÍRITOS SUPERIORES

– Esses em si reúnem a ciência, a sabedoria e a bondade. Da linguagem que empregam se exala sempre a benevolência; é uma linguagem invariavelmente digna, elevada e, muitas vezes, sublime. Sua superioridade os torna mais aptos do que os outros a nos darem as mais justas noções sobre as coisas do mundo incorpóreo, dentro dos limites do que é permitido ao homem saber. Comunicam-se de bom grado com os que procuram de boa-fé a verdade e cuja alma já está bastante desprendida das ligações terrenas para compreendê-la. Afastam-se, porém, daqueles a quem só a curiosidade impele, ou que, pela influência da matéria, são desviados da prática do bem.

Quando, por exceção, encarnam na Terra, é para cumprir missão de progresso e, então, nos oferecem o tipo da perfeição a que a Humanidade pode aspirar neste mundo.

 

Primeira Ordem – ESPÍRITOS PUROS

Características gerais – Nenhuma influência da matéria. Superioridade intelectual e moral absoluta, com relação aos Espíritos das outras ordens.

 

Primeira casse − CLASSE ÚNICA

– Os Espíritos que a compõem percorreram todos os graus da escala e se despojaram de todas as impurezas da matéria. Tendo alcançado a soma de perfeição de que é susceptível a criatura, não têm mais que sofrer provas, nem expiações. Não estando mais sujeitos à reencarnação em corpos perecíveis, realizam a vida eterna no seio de Deus.

Gozam de inalterável felicidade, porque não se acham submetidos às necessidades, nem às vicissitudes da vida material. Essa felicidade, porém, não é a de ociosidade monótona, a transcorrer em perpétua contemplação. Eles são os mensageiros e os ministros de Deus, cujas ordens executam para manutenção da harmonia universal. Comandam a todos os Espíritos que lhes são inferiores, auxiliam-nos na obra de seu aperfeiçoamento e lhes designam as suas missões. Assistir os homens nas suas aflições, concitá-los ao bem ou à expiação das faltas que os conservam distanciados da suprema felicidade, constitui para eles ocupação gratíssima. São designados às vezes pelos nomes de anjos, arcanjos ou serafins.

Podem os homens pôr-se em comunicação com eles, mas extremamente presunçoso seria aquele que pretendesse tê-los constantemente às suas ordens[2].

 

ESPÍRITOS ERRANTES OU ENCARNADOS

Quanto às suas qualidades íntimas, os Espíritos pertencem a diferentes ordens, que percorrem sucessivamente à medida que se depuram. Como estado, podem estar encarnados, isto é, unidos a um corpo num mundo qualquer; ou errantes, ou seja, despojados do corpo material e aguardando nova encarnação para se melhorarem.

Os Espíritos errantes não formam uma categoria especial; é um dos estados em que podem encontrar-se.

O estado errante ou de erraticidade não constitui inferioridade para os Espíritos, pois que nele os podemos encontrar de todos os graus. Todo Espírito que não está encarnado é, por isso mesmo, errante, à exceção dos Espíritos puros que, não tendo mais encarnação a sofrer, estão no seu estado definitivo.

Não sendo a encarnação senão um estado transitório, a erraticidade é, em verdade, o estado normal dos Espíritos e esse estado não lhes é, forçosamente, uma expiação. São felizes ou desventurados conforme seu grau de elevação e segundo o bem ou mal que hajam praticado.



[1] Revista Espírita – Fevereiro/1858 – Allan Kardec

[2] N. do T.: Classificação modificada mais tarde por Allan Kardec, quando do aparecimento da 2ª edição francesa (definitiva) de O Livro dos Espíritos, em 1860 – Vide Livro II, Cap. II, itens 101 a 113.