quarta-feira, 7 de outubro de 2026

PARALISIA DO SONO E EXPERIÊNCIAS ANÔMOLAS[1]



Sheila Pryce Brooks – 09/setembro/2026

 

A paralisia do sono é um estado de imobilidade durante a vigília, relacionado ao sono REM, mas os relatos frequentemente incluem a percepção de presenças, figuras e vozes fantasmagóricas, ambientes alterados e movimentos extracorporais. Relatos históricos e interculturais mostram padrões experienciais recorrentes, enquanto as crenças culturais moldam a forma como esses encontros são compreendidos e explicados.

 

§  A paralisia relacionada ao sono REM pode coincidir com presenças vívidas, encontros multissensoriais, alterações no ambiente e aparente movimento fora do corpo.

§  Experiências centrais semelhantes se repetem em diversas culturas, embora as tradições as interpretem como demônios, espíritos, gênios, bruxas ou outros seres.

§  Alguns episódios incluem características psi aparentes ou efeitos espirituais e existenciais duradouros, incentivando modelos mais amplos que vão além de uma explicação puramente clínica.

 

Introdução

A paralisia do sono é um fenômeno reconhecido relacionado ao sono, caracterizado pela imobilidade corporal temporária durante a transição para o sono ou para a vigília, enquanto a consciência é preservada. Embora classificada na medicina do sono como uma parassonia associada ao sono REM (movimento rápido dos olhos), os relatos vão muito além da paralisia corporal. Os episódios podem envolver presenças, encontros com figuras, entidades ou outras inteligências, fenômenos multissensoriais, alterações no ambiente circundante, movimento além do corpo físico, respostas emocionais intensas e transformação pessoal duradoura.

A paralisia do sono tem sido estudada em diversas áreas, como medicina do sono, psicologia, antropologia, folclore, história, teologia, estudos da consciência e pesquisa psíquica. Essas tradições contribuíram com importantes insights, mas, em grande parte, investigaram diferentes dimensões do fenômeno por meio de conceitos, métodos e estruturas explicativas distintas. A pesquisa clínica enfatizou a fisiologia e os mecanismos associados, a pesquisa cultural examinou os sistemas de crenças e a interpretação, enquanto a pesquisa psíquica explorou as relações com aparições, experiências fora do corpo e outras experiências excepcionais.

O resultado é um corpo de conhecimento fragmentado, no qual diferentes aspectos da paralisia do sono são frequentemente discutidos isoladamente. Consequentemente, as relações entre fenomenologia recorrente, continuidade histórica, variação cultural e experiências anômalas mais amplas muitas vezes permaneceram implícitas, em vez de se tornarem um foco explícito de investigação.

 

A natureza da paralisia do sono

Paralisia do sono como um fenômeno de sono-vigília

Na medicina do sono, os episódios são descritos como hipnagógicos quando ocorrem durante o início do sono e hipnopômpicos quando ocorrem ao despertar[2]. A explicação neurofisiológica predominante atribui a paralisia à persistência da atonia muscular durante o sono REM (movimento rápido dos olhos) na vigília. Durante o sono REM, o corpo fica temporariamente paralisado para nos impedir de representar nossos sonhos. Diz-se que a paralisia do sono ocorre quando a consciência retorna antes do término dessa paralisia. Portanto, a pessoa que a vivencia está consciente enquanto o corpo permanece em estado de sono[3].

Este relato fornece a base para a compreensão clínica contemporânea e explica a imobilidade corporal característica e as dificuldades associadas ao movimento voluntário ou à fala. O reconhecimento da paralisia do sono como uma condição fisiológica relacionada ao sono também ajudou a distingui-la de distúrbios neurológicos e psiquiátricos. No entanto, o relato clínico aborda principalmente a condição fisiológica e não descreve, por si só, a experiência vivida mais ampla associada a ela.

 

Esclarecendo o significado da paralisia do sono

Uma dificuldade conceitual de longa data em relação à paralisia do sono é que o termo passou a se referir a dois aspectos relacionados, mas distintos, do fenômeno: a condição fisiológica caracterizada pela atonia muscular durante o sono REM e a experiência vivida mais ampla associada a ela. Como ambas são chamadas de paralisia do sono, frequentemente são tratadas como sinônimos. Essa confusão influenciou a pesquisa, a compreensão clínica e pública, bem como as maneiras pelas quais as pessoas que vivenciam a paralisia do sono a reconhecem e descrevem.

A distinção torna-se particularmente importante em relação à consciência. Em alguns episódios, a consciência da paralisia corporal domina e se torna a característica definidora da experiência. Em outros, a consciência se organiza principalmente em torno de outras características da experiência, e não da imobilidade corporal. A paralisia corporal pode receber pouca atenção, ser reconhecida retrospectivamente ou não se tornar uma característica saliente da experiência lembrada. Consequentemente, experiências que compartilham a fenomenologia mais ampla associada à paralisia do sono podem não ser reconhecidas ou relatadas como tal quando a paralisia não é central para a consciência.

Essa ambiguidade contribuiu para uma compreensão generalizada da paralisia do sono principalmente como imobilidade temporária, obscurecendo a amplitude da experiência. Distinguir a condição fisiológica da experiência vivida mais ampla, portanto, fornece uma base importante para examinar a fenomenologia, as interpretações culturais e as associações anômalas discutidas nas seções seguintes.

 

A fenomenologia da paralisia do sono

Estudos qualitativos, relatos interculturais e relatos em primeira pessoa sobre paralisia do sono descrevem características corporais, perceptivas, ambientais, relacionais e emocionais recorrentes[4]. As experiências corporais incluem paralisia, restrição, pressão, respiração alterada, vibração e contato tátil, enquanto a consciência do ambiente circundante pode permanecer excepcionalmente nítida ou aguçada. Os episódios podem ocorrer em ambientes familiares que parecem excepcionalmente vívidos ou reais, ou em ambientes que se alteram à medida que a experiência se desenvolve.

A presença está entre as características relatadas com maior frequência[5]. Os vivenciadores descrevem a certeza de que alguém ou algo está por perto, às vezes antes mesmo de qualquer figura aparecer. Os encontros podem envolver figuras humanas, formas sombrias, seres luminosos ou outras entidades, acompanhados por vozes, passos, toque ou outros fenômenos multissensoriais. As presenças podem observar, aproximar-se, comunicar-se, ameaçar, tranquilizar ou responder de alguma outra forma ao vivenciador, conferindo a alguns encontros um caráter distintamente relacional e intencional. Os próprios vivenciadores podem resistir, comunicar-se ou interagir. Movimento, sensação de flutuação, deslocamento e separação do corpo físico também são relatados[6].

Essas características frequentemente ocorrem juntas como componentes de uma experiência estruturada e em desenvolvimento, em vez de como fenômenos isolados. Sua organização relacional contribui para a coerência e a sensação incomum de realidade com que muitos episódios são vivenciados e lembrados. As respostas emocionais também variam consideravelmente. Embora o medo e o terror sejam comuns, particularmente durante episódios desconhecidos, muitos indivíduos descrevem, em vez disso, curiosidade, segurança, admiração, profundo significado espiritual ou uma sensação duradoura de que a experiência possuía um significado pessoal.

 

Perspectivas históricas e interculturais

Relatos semelhantes à paralisia do sono contemporânea foram documentados ao longo de períodos históricos e em diversos contextos culturais[7]. Apesar das diferentes interpretações, características recorrentes incluem paralisia, sensação de presença, pressão no peito, medo e experiências multissensoriais. Essas experiências foram incorporadas às tradições explicativas locais. Entre elas, estão as tradições europeias de íncubos e súcubos, a Velha Bruxa de Terra Nova, o kanashibari japonês e interpretações envolvendo gênios (djinn), bruxaria, espíritos ancestrais e visitas demoníacas[8].

O estudo de Hufford sobre a tradição da "Velha Bruxa" de Terra Nova, centrado na experiência, foi particularmente influente ao desafiar explicações que tratavam tais experiências como produtos exclusivos do folclore[9]. Ele argumentou que características experienciais recorrentes poderiam preceder e informar a interpretação cultural, em vez de serem produzidas unicamente por crenças transmitidas culturalmente.

A comparação intercultural revela, portanto, tanto continuidade quanto variação: características experienciais reconhecíveis recorrem em diferentes contextos, enquanto suas imagens, significados e explicações são moldados por meio de estruturas religiosas, espirituais, médicas e culturais[10].

 

Paralisia do Sono e Experiências Anômalas

Considerando relatos de experiências pessoais, a paralisia do sono compartilha características recorrentes com domínios experienciais geralmente investigados separadamente. Essas relações a posicionam dentro de uma constelação mais ampla de experiências humanas anômalas.

 

Estados adjacentes de consciência

A paralisia do sono ocorre frequentemente em conjunto com estados transitórios de consciência adjacentes. Os participantes descrevem transições entre paralisia do sono, experiências hipnagógicas e hipnopômpicas, sonhos, sonhos lúcidos, falsos despertares e experiências fora do corpo, às vezes dentro de uma sequência experiencial contínua[11]. Flutuar, voar, cair, girar e mover-se pelo espaço podem acompanhar experiências de deixar o corpo físico[12].

As fronteiras entre esses estados nem sempre são claramente percebidas, enquanto paralelos fenomenológicos mais limitados com experiências de quase morte incluem alterações na percepção corporal, aumento da consciência e mudanças subsequentes na visão de mundo[13]. Outros paralelos foram relatados em coma, onde os indivíduos podem permanecer aparentemente sem resposta, enquanto descrevem a consciência do ambiente ao seu redor, experiências vívidas e, em alguns casos, "vidas alternativas" prolongadas, vivenciadas como durando muito mais tempo do que o próprio período de coma. Alan e Beverley Pearce chamam a atenção para essas experiências, juntamente com experiências de quase morte e outros estados alterados de consciência[14].

 

Experiências de Presença, Aparições e Contato

Presença, agência e encontro constituem pontos de sobreposição particularmente significativos. As presenças incluem figuras humanas e sombrias, seres luminosos, pessoas falecidas ou ancestrais, figuras espirituais, demônios, entidades malévolas, animais e inteligências desconhecidas. Elas podem tranquilizar, guiar ou proteger, mas também intimidar, restringir, ameaçar ou atacar.

Os encontros podem envolver aproximação, observação, toque, comunicação e resposta, enquanto os próprios vivenciadores resistem, questionam, comunicam-se ou interagem deliberadamente com a presença[15].  Características relacionais semelhantes ocorrem em relatos de contato com inteligências não humanas, sejam elas aparições, mediunidades, religiões, espiritualidades ou experiências contemporâneas[16].  O termo inteligência é usado aqui para descrever as características relacionais do encontro, onde a presença é vivenciada como demonstrando intenção, receptividade, comunicação ou outros comportamentos indicativos de agência. A combinação recorrente de presença, comportamento intencional, comunicação, receptividade e interação recíproca confere a alguns encontros com paralisia do sono o caráter fenomenológico de interação com outra inteligência, sem estabelecer a fonte ou o status ontológico dessa inteligência.

 

Fenômenos Ambientais e Espaciais

O ambiente circundante pode constituir parte integrante da experiência, em vez de um pano de fundo passivo[17].  Quartos familiares podem parecer incomumente nítidos ou reais, sofrer alterações ou dar lugar a outros cômodos, paisagens ou espaços desconhecidos. Os relatos incluem mudanças na iluminação, na arquitetura e na organização espacial, atividade além dos limites imediatos do cômodo, movimentação através de portas ou paredes e consciência que se estende para além da posição do corpo. Presenças podem ocupar e se mover por esses espaços, em vez de aparecerem como figuras isoladas.

A atmosfera também pode mudar, com presságios, ameaças, opressões ou maldade preenchendo o ambiente, às vezes antes mesmo de uma presença ser identificada. As experiências podem manter a continuidade do eu enquanto o cenário ou o ponto de vista espacial se alteram. Essa dimensão ambiental recebeu comparativamente pouca atenção sistemática nas descrições convencionais da experiência.

 

Psi e Experiências Excepcionais

As associações relatadas com fenômenos psíquicos incluem impressões telepáticas, conhecimento intuitivo ou anômalo, precognição, sincronicidade e informações consideradas verídicas[18]. Algumas experiências são interpretadas como mediúnicas ou sugestivas de sobrevivência. Sua interpretação paranormal permanece sem solução, mas sua recorrência justifica consideração dentro da fenomenologia mais ampla da paralisia do sono.

 

Espiritualidade, Transformação e Significado

O medo é comum, mas não é universal nem fenomenologicamente uniforme[19]. Suas fontes e contextos relatados variam, e o medo pode preceder qualquer figura ou ameaça identificável. Outras experiências envolvem curiosidade, segurança, admiração, amor, paz, encantamento ou transcendência, por vezes adquirindo profundo significado espiritual ou religioso, e alguns indivíduos descrevem experiências tão positivas ou transcendentais que relutam em deixá-las terminar[20].

A experiência também pode continuar após o retorno dos movimentos corporais e o despertar completo da pessoa, por meio de sensações corporais contínuas, fenômenos ambientais, reorientação, verificação do ambiente, correspondências percebidas entre a experiência e o ambiente desperto, ou uma sensação contínua de conexão com o que foi vivenciado. Consequências a longo prazo incluem questionamentos existenciais, despertar espiritual ou religioso, mudanças na visão de mundo, maior interesse pela consciência, redução do medo da morte e busca por maior significado ou propósito. Experiências recorrentes também podem envolver a transição do medo para a curiosidade, o engajamento e a integração[21].

 

Questões ontológicas e existenciais

Essas experiências levantam questões relativas à consciência, à percepção, à identidade, à capacidade de agir, à relação entre mente e mundo, à sobrevivência e ao estatuto ontológico das presenças ou inteligências encontradas. Relatos de experiências consideradas mais reais do que a consciência desperta comum complicam ainda mais as distinções convencionais entre experiência subjetiva e realidade externa. A paralisia do sono não resolve essas questões, mas sua capacidade de gerá-las ajuda a explicar sua contínua importância para a pesquisa psíquica, a filosofia, a teologia e os estudos da consciência.

 

Interpretação da Paralisia do Sono

Abordagens para a paralisia do sono

As abordagens neurofisiológicas explicam a paralisia do sono principalmente por meio da atonia muscular relacionada ao sono REM, da fragmentação do sono e dos mecanismos de processamento sensorial e de ameaças, enquanto os modelos psicológicos examinam a ansiedade, o pânico, o trauma, a dissociação, a expectativa e as crenças prévias[22]. Essas abordagens contribuem substancialmente para a compreensão dos processos fisiológicos e psicológicos associados aos episódios, mas não abordam necessariamente toda a extensão da experiência relatada.

Abordagens culturais e antropológicas examinam como as experiências são interpretadas por meio de crenças, narrativas e cosmologias religiosas culturalmente disponíveis. Tradições que envolvem demônios, bruxas, espíritos, ancestrais e gênios demonstram o papel da cultura na formação de significado e representação. No entanto, a recorrência de características experienciais reconhecíveis em diferentes culturas desafia as explicações que atribuem a fenomenologia principalmente à expectativa cultural[23].

As abordagens fenomenológicas e orientadas para a consciência examinam a experiência tal como vivida, sem determinar a sua causa antecipadamente, enquanto as interpretações psíquicas, espirituais e religiosas consideram as suas relações com experiências de aparição, mediunidade, sobrevivência e contato. A experiência relatada de agência ou inteligência não estabelece, por si só, se a sua origem é interna, externa ou constituída de outra forma.

Diferentes abordagens, portanto, esclarecem diferentes dimensões da paralisia do sono. Nenhum modelo único abrange atualmente todas as dimensões da paralisia do sono. O desafio explicativo é estabelecer o que cada abordagem explica, quais pressupostos ela introduz e o que permanece fora de seu escopo.

 

Novos Modelos Integrativos

A amplitude da experiência associada à paralisia do sono levanta questões sobre se a sua classificação atual representa o fenômeno como um todo. Uma abordagem emergente é a Experiência de Contato Limiar (ECL), desenvolvida por meio de pesquisa qualitativa e fenomenológica sobre paralisia do sono e experiências anômalas relacionadas[24]. A ECL fornece uma estrutura classificatória para a configuração experiencial mais ampla associada à paralisia do sono, em vez de definir o fenômeno principalmente por meio da imobilidade corporal.

De forma mais ampla, as abordagens integrativas e centradas na experiência permitem que padrões recorrentes sejam examinados em diversas categorias disciplinares e experienciais, mantendo a distinção entre descrição, classificação e explicação.

 

Conclusão e Perspectivas Futuras

A paralisia do sono abrange muito mais do que a imobilidade corporal temporária. Vista sob as perspectivas clínica, fenomenológica, histórica, intercultural e de pesquisas sobre experiências anômalas, suas características constituintes estendem-se por domínios experienciais tradicionalmente investigados separadamente, incluindo encontros com inteligência cuja origem permanece incerta.

Pesquisas futuras se beneficiariam de abordagens capazes de examinar essas relações diretamente. As prioridades incluem uma descrição fenomenológica mais precisa, investigação sistemática de características ambientais e espaciais, estudo longitudinal da transformação e da construção de significado e pesquisa comparativa entre paralisia do sono, sonhos, experiências fora do corpo e de quase morte, aparições e experiências de contato. Relatos que envolvam elementos compartilhados ou verídicos também justificam investigação utilizando métodos apropriados para alegações de evidência. É necessária uma maior colaboração interdisciplinar, juntamente com abordagens que não patologizem automaticamente os relatos anômalos nem tratem as interpretações dos vivenciadores como explicações estabelecidas.

 

Obras citadas

§  American Academy of Sleep Medicine (2014). International Classification of Sleep Disorders: Diagnostic and Coding Manual (3rd ed.). Darien, Illinois, USA: American Academy of Sleep Medicine.

§  Cheyne, J.A. (2003). Sleep paralysis and the structure of waking-nightmare hallucinations. [Full text.] Dreaming 13/3, 163-79.

§  Cheyne, J.A., & Girard, T.A. (2004). Spatial characteristics of hallucinations associated with sleep paralysis. [Full text.] Cognitive Neuropsychiatry 9/4, 281-300.

§  Cheyne, J.A., & Girard, T.A. (2009). The body unbound: Vestibular-motor hallucinations and out-of-body experiences. [Full text.] Cortex 45/2, 201-15.

§  Cheyne, J.A., Newby-Clark, I.R., & Rueffer, S.D. (1999). Hypnagogic and hypnopompic hallucinations during sleep paralysis: Neurological and cultural construction of the nightmare. [Full text.] Consciousness and Cognition 8/3, 319-37.

§  Hufford, D.J. (1982). The Terror That Comes in the Night: An Experience-Centered Study of Supernatural Assault Traditions. Philadelphia, Pennsylvania, USA: University of Pennsylvania Press.

§  Hufford, D.J. (2000). Awakening paralyzed in the presence of a ‘strange visitor’. In UFOs and Abductions: Challenging the Borders of Knowledge, ed. by D.M. Jacobs. Lawrence, Kansas, USA: University Press of Kansas.

§  Jalal, B., Simons-Rudolph, J., Jalal, B., & Hinton, D.E. (2014). Explanations of sleep paralysis among Egyptian college students and the general population in Egypt and Denmark. Transcultural Psychiatry 51/2, 158-75.

§  McNally, R.J., & Clancy, S.A. (2005). Sleep paralysis, sexual abuse, and space alien abduction. [Full text.] Transcultural Psychiatry 42/1, 113-22.

§  Pearce, A., & Pearce, B. (2024). Coma and Near-Death Experience: The Beautiful, Disturbing, and Dangerous World of the Unconscious. Rochester, Vermont, USA: Inner Traditions.

§  Pryce Brooks, S. (2024). Managing the phenomenology of sleep paralysis: Re-evaluating theories and challenging conventional understanding. [Full text.] PhD thesis, University of York.

§  Pryce Brooks, S. (n.d.). Threshold Contact Experience (TCE): Reclassifying sleep paralysis and seeding a new ontological framework. [Unpublished manuscript.]

§  Sharpless, B.A., & Doghramji, K. (2015). Sleep Paralysis: Historical, Psychological, and Medical Perspectives. New York: Oxford University Press.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] American Academy of Sleep Medicine (2014).

[3] Sharpless & Doghramji (2015).

[4] Cheyne et al. (1999); Cheyne (2003); Pryce Brooks (2024).

[5] Cheyne et al. (1999); Cheyne (2003).

[6] Cheyne & Girard (2009); Pryce Brooks (2024).

[7] Hufford (1982); Sharpless & Doghramji (2015).

[8] Hufford (1982); Jalal et al. (2014); Sharpless & Doghramji (2015).

[9] Hufford (1982).

[10] Hufford (1982); Jalal et al. (2014).

[11] Cheyne et al. (1999); Pryce Brooks (2024).

[12] Cheyne & Girard (2009).

[13] Pryce Brooks (2024).

[14] Pearce & Pearce (2024).

[15] Pryce Brooks (2024).

[16] Hufford (2000); McNally & Clancy (2005); Pryce Brooks (2024).

[17] Cheyne & Girard (2004); Pryce Brooks (2024).

[18] Pryce Brooks (2024).

[19] Cheyne (2003); Jalal et al. (2014); Pryce Brooks (2024).

[20] Pryce Brooks (2024).

[21] Pryce Brooks (2024).

[22] Cheyne (2003); Sharpless & Doghramji (2015).

[23] Hufford (1982); Jalal et al. (2014).

[24] Pryce Brooks (n.d.).

terça-feira, 6 de outubro de 2026

O ESPÍRITO DE UM LADO, O CORPO DO OUTRO[1]

 


Allan Kardec

 

CONVERSA COM O ESPÍRITO DE UMA PESSOA VIVA

 

Nosso distinto colega, o Sr. conde de R... C..., dirigiu-nos a seguinte carta, datada de 23 de novembro último:

Senhor Presidente,

Ouvi dizer que médicos, entusiastas de sua arte e desejosos de contribuírem para o progresso da Ciência, tornando-se úteis à Humanidade, legaram, por testamento, os seus corpos ao escalpelo das salas anatômicas. A experiência a que assisti, da evocação de uma pessoa viva (Sessão da Sociedade de 14 de outubro de 1859), não me pareceu muito instrutiva, por se tratar de uma coisa muito pessoal: pôr em comunicação um pai vivo com a filha morta. Pensei que aquilo que os médicos fizeram pelo corpo, um membro da Sociedade poderia fazer pela alma, ainda em vida, pondo-se à vossa disposição para um ensaio desse gênero. Talvez pudésseis, preparando as perguntas antecipadamente, que desta vez nada teriam de pessoal, obter novas luzes sobre o fato do isolamento da alma e do corpo. Aproveitando de uma indisposição que me retém em casa, venho oferecer-me como paciente para estudo, se estiverdes de acordo. Portanto, caso não haja contraordem, na próxima sexta-feira deitar-me-ei às nove horas e penso que às nove e meia podereis chamar-me etc.

 

Aproveitamos a oferta do Sr. conde de R... C... com tanto mais interesse quanto, pondo-se à nossa disposição, pensávamos que seu Espírito se prestaria de bom grado às nossas pesquisas. Por outro lado, sua instrução, a superioridade de sua inteligência (o que, abrindo parêntesis, não o impede de ser um excelente espírita) e a experiência que adquiriu em suas viagens em torno do mundo, como capitão da marinha imperial, faziam que esperássemos de sua parte uma apreciação mais justa de seu estado.

De fato não nos enganamos. Em consequência tivemos com ele as duas conversas que se seguem, a primeira a 25 de novembro e a segunda a 2 de dezembro de 1859.

 

(Sociedade, 25 de novembro de 1859)

 

1. Evocação.

 – Estou aqui.

2. Neste momento tendes consciência do desejo que manifestastes, de ser evocado?

– Perfeitamente.

3. Em que lugar vos achais aqui?

– Entre vós e o médium.

4. Vede-nos tão claramente como quando assistis pessoalmente às nossas sessões?

– Mais ou menos, embora um pouco velado. Ainda não durmo bem.

5. Como tendes consciência de vossa individualidade aqui presente, ao passo que vosso corpo está no leito?

– Neste momento meu corpo não me é senão um acessório. Sou EU que estou aqui.

 

Observação – “Sou EU que estou aqui” é uma resposta deveras notável. Para ele, o corpo não é a parte essencial de seu ser: esta parte é o Espírito, que constitui o EU; o seu eu e o seu corpo são duas coisas distintas.

 

6. Podeis transportar-vos instantaneamente, e à vontade, daqui para vossa casa e vice-versa?

– Sim.

7. Indo e vindo daqui para vossa casa, tendes consciência do trajeto que fazeis? Vedes os objetos que estão no caminho?

– Eu o poderia, mas negligencio fazê-lo; não me interessam.

8. O estado em que vos encontrais é semelhante ao de um sonâmbulo?

– Não completamente. Meu corpo dorme, ou seja, está mais ou menos inerte; o sonâmbulo não dorme: suas faculdades estão modificadas, mas não aniquiladas.

9. O Espírito evocado de uma pessoa viva poderia indicar remédios, como um sonâmbulo?

 – Se os conhecer, ou caso se ache em contato com um Espírito que os conheça, sim; do contrário, não.

10. A lembrança de vossa existência corporal está claramente presente em vossa memória?

– Muito clara.

11. Poderíeis citar algumas de vossas ocupações mais destacadas do dia?

– Poderia, mas não o farei e lamento ter proposto esta pergunta (Ele havia pedido que lhe dirigissem uma pergunta desse gênero como prova).

12. É como Espírito que lamentais ter proposto esta questão?

– Como Espírito.

13. Por que o lamentais?

– Porque melhor compreendo quanto é justo que, na maior parte dos casos, seja proibido fazê-lo.

14. Poderíeis descrever o vosso quarto de dormir?

– Certamente; e o do porteiro também.

15. Pois bem! Descrevei, então, um deles.

– Eu disse que poderia, mas poder não é querer.

16. Qual a doença que vos retém em casa?

– A gota.

17. Há um remédio para a gota? Se o conheceis, poderíeis indicá-lo, pois prestaríeis um grande serviço?

– Poderia, mas me guardarei de o fazer: o remédio seria pior que o mal.

18. Pior ou não, quereis indicá-lo, mesmo que não venhais a vos servir dele?

– Há vários, entre os quais o lírio verde.

 

Observação – Ao despertar, o Sr. de R... reconheceu jamais ter ouvido falar do emprego desta planta como específico antigotoso.

 

19. Em vosso estado atual, veríeis um perigo que poderia correr um amigo e poderíeis vir em seu auxílio?

 – Poderia. Inspirá-lo-ia; se ouvisse a minha inspiração e, ainda com mais proveito, se fosse médium.

20. Desde que o evocamos por vossa vontade, e que vos pondes à nossa disposição para estudos, tende a bondade de descrever, o melhor possível, o estado em que vos encontrais agora.

– Estou no estado mais feliz e mais satisfatório que se possa experimentar. Jamais tivestes um sonho em que o calor do leito vos faz crer que sois levemente embalados no ar, ou na crista de ondas tépidas, sem nenhuma preocupação com os movimentos, sem a menor consciência dos membros pesados e incômodos, a se moverem ou a se arrastarem, numa palavra, sem necessidades a satisfazer? Não sentindo o aguilhão da fome nem o da sede? Encontro-me neste estado junto a vós. E ainda não vos dei senão uma pequena ideia do que experimento.

21. O estado atual de vosso corpo sofre alguma modificação fisiológica, em razão da ausência do Espírito?

– De modo algum. Estou no estado a que chamais primeiro sono; sono pesado e profundo que todos experimentamos e durante o qual nos afastamos do corpo.

 

Observação – O sono, que não era completo no começo da evocação, estabeleceu-se pouco a pouco, em consequência do próprio desprendimento do Espírito, que deixa o corpo no maior repouso.

 

22. Se, em razão de um movimento brusco, vosso corpo é instantaneamente despertado enquanto vosso Espírito aqui está, o que aconteceria?

– O que é brusco para o homem é muito lento para o Espírito, que sempre tem tempo de ser avisado.

23. A felicidade que acabais de descrever e que desfrutais em vosso estado de liberdade tem alguma relação com as sensações agradáveis que por vezes se experimenta nos primeiros momentos da asfixia? O Sr. S..., que involuntariamente teve a satisfação de as experimentar, vos dirige esta pergunta.

– Ele não está de todo errado. Na morte por asfixia há um instante análogo àquele de que fala, mas somente o Espírito perde a lucidez, enquanto aqui ela é consideravelmente aumentada.

24. Vosso Espírito prende-se ainda por um laço qualquer ao vosso corpo?

– Sim, e disso guardo perfeita consciência.

25. A que podeis comparar este laço?

– A nada que conheçais, senão a uma luz fosforescente, para vos dar uma ideia, se o pudésseis ver, mas que em mim não produz nenhuma sensação.

26. A luz vos afeta da mesma maneira? Tem a mesma tonalidade que vedes pelos olhos?

– Absolutamente, porque os olhos me servem, de alguma sorte, como janelas de meu cérebro.

27. Percebeis os sons tão distintamente?

– Mais ainda, já que percebo muitos outros que vos escapam.

28. Como transmitis o pensamento ao médium?

– Atuo sobre sua mão para lhe dar uma direção, que facilito por uma ação sobre o cérebro.

29. Utilizai-vos das palavras do vocabulário que ele tem na cabeça, ou indicais as palavras que deve escrever?

– Uma coisa e outra, conforme a conveniência.

29[2]. Se tivésseis por médium alguém que desconhecesse a vossa língua e a dele vos fosse desconhecida, um chinês, por exemplo, como faríeis para ditar-lhe?

– Isso seria mais difícil; talvez impossível. Em todo caso, só seria possível com uma flexibilidade e uma docilidade muito rara de encontrar.

30. Um Espírito, cujo corpo estivesse morto, experimentaria a mesma dificuldade para se comunicar por um médium completamente estranho à língua que falava em vida?

– Talvez menor, mas ela existiria sempre. Acabo de dizer que, conforme o caso, o Espírito dá ao médium as suas expressões, ou toma as dele.

31. Vossa presença aqui fatiga o corpo?

– Absolutamente.

32. Vosso corpo sonha?

– Não; é justamente por isso que não se cansa. A pessoa da qual falais experimentaria por seus órgãos impressões que se transmitiam ao Espírito; era isto que a fatigava. Nada experimento de semelhante.

 

Observação – Ele faz alusão a uma pessoa de que se falava no momento e que, em semelhante situação, tinha dito que seu corpo se fatigava, e havia comparado seu Espírito a um balão cativo, cujas sacudidelas abalam o poste que o retém. No dia seguinte o Sr. R... de C... contou-nos haver sonhado que se achava na Sociedade, entre nós e o médium.

Evidentemente é uma lembrança da evocação. É provável que no momento da pergunta não sonhasse, pois respondeu negativamente. Também é possível, e mais provável, que não sendo o sonho senão uma lembrança da atividade do Espírito, na verdade não é o corpo que sonha, desde que não pensa. Ele, pois, respondeu negativamente, sem saber se, uma vez desperto, seu Espírito se recordaria. Se o corpo tivesse sonhado enquanto seu Espírito estava ausente, é que o Espírito teria tido uma dupla ação.

Ora, ele não poderia estar ao mesmo tempo na Sociedade e em sua casa.

 

33. Vosso Espírito se acha no estado em que se encontrará quando estiverdes morto?

– Mais ou menos a mesma coisa, por causa do laço que o prende ao corpo.

34. Tendes consciência das existências anteriores?

– Muito confusamente. Eis aí uma diferença de que me esquecia. Após o desprendimento completo que se segue à morte, as lembranças são muito mais precisas. Atualmente são mais completas do que durante a vigília, mas não suficientes para poder especificá-las de modo mais inteligível.

35. Se, ao despertar, vos mostrassem vossos escritos, teríeis consciência das respostas que acabais de dar?

– Poderia identificar alguns de meus pensamentos; mas muitos outros não encontrariam nenhum eco em meu pensamento quando acordado.

36. Poderíeis exercer sobre o corpo uma influência de tal forma intensa que fosse capaz de o despertar?

– Não.

37. Poderíeis responder a uma pergunta mental?

– Sim.

38. Vede-nos espiritualmente ou fisicamente?

– De ambos os modos.

39. Poderíeis ir visitar o irmão de vosso pai, que dizem estar numa ilha da Oceania e, como marinheiro, poderíeis precisar a posição dessa ilha?

– Não posso nada disso.

40. Que pensais agora de vossa interminável obra e seu objetivo?

– Penso que devo prossegui-la, com o mesmo objetivo. É tudo quanto posso dizer.

 

Observação – Ele havia desejado que lhe fizessem essa pergunta, relativa a importante trabalho que empreendia sobre a marinha.

 

41. Ficaríamos muito contentes se dirigísseis algumas palavras aos vossos colegas, uma espécie de pequeno discurso.

– Já que tenho oportunidade, aproveito-a para vos afirmar a minha fé no futuro da alma; que a maior falta que os homens podem cometer é procurar provas e provas. Isto quando muito é perdoável nos homens que se iniciam no conhecimento do Espiritismo. Já não vos repetiram milhares de vezes que é preciso crer, porque se compreende e se ama a justiça e a verdade, e que se déssemos satisfação a uma dessas perguntas pueris, os que pretendessem fazê-la para se convencerem não deixariam de fazer outras no dia seguinte e perderíeis, infalivelmente, um tempo precioso, fazendo os Espíritos lerem a sorte? Eu o compreendo agora muito melhor do que quando desperto e vos posso dar um sábio conselho: quando quiserdes obter tais resultados, dirigi-vos aos Espíritos batedores e às mesas falantes que, nada tendo de melhor a dizer, podem ocupar-se de tais manifestações. Perdoai-me a lição, mas tenho necessidade dela e não me aborreço de a dar a mim mesmo.

 

(Segunda conversa – 2 de dezembro de 1859)

 

42. Evocação.

– Eis-me aqui.

43. Dormis bem?

– Não muito; mas irei.

44. No caso particular em que vos encontrais, julgais útil fazer a evocação em nome de Deus, como se fosse o Espírito de um morto?

– Por que não? Por não estar morto, credes que Deus me seja indiferente?

45. Considerando-se que vos achais aqui, se vosso corpo recebesse uma picada, não bastante forte para vos despertar, mas suficiente para vos fazer estremecer, vosso Espírito a sentiria?

– Meu corpo não a sentiria.

46. Vosso Espírito teria consciência do fato?

– Nenhuma; mas notai que me falais de uma sensação leve e sem nenhum alcance, em termos de importância, seja para o corpo, seja para o Espírito.

47. A propósito da luz, dissestes que ela vos parece como se estivésseis em vigília, considerando-se que vossos olhos são como janelas por onde ela chega ao cérebro. Compreendemo-lo em relação à luz percebida pelo corpo; mas neste momento não é o vosso corpo que vê. Vedes ainda por um ponto circunscrito ou por todo o ser?

– É muito difícil vos fazer compreender. O Espírito percebe as sensações sem intermédio dos órgãos e não tem ponto circunscrito para as perceber.

48. Insisto novamente em saber se os objetos, o espaço que vos cerca têm para vós a mesma cor de quando estais desperto.

– Para mim, sim, porque meus órgãos não me enganam. Mas certos Espíritos encontrariam nisso grandes diferenças. Vós, por exemplo, percebeis os sons e as cores de modo muito diverso.

49. Percebeis os odores?

– Também melhor que vós.

50. Fazeis diferença entre a luz e a obscuridade?

– Diferença, sim. Mas para mim a obscuridade não é como para vós: vejo perfeitamente no escuro.

51. Vossa vista penetra os corpos opacos?

– Sim.

52. Poderíeis ir a um outro planeta?

– Isto depende.

53. De que depende?

– Do planeta.

54. A que planeta poderíeis ir?

– Aos que estão aproximadamente no mesmo grau da Terra.

55. Vede os outros Espíritos?

– Muitos e ainda.

 

Observação – Uma pessoa que o conhece intimamente, presente à sessão, disse que essa expressão lhe é muito familiar, vendo nisso, assim como em toda a forma da linguagem, uma prova de identidade.

 

56. Vede-os aqui?

– Sim.

57. Como constatais sua presença? Por uma forma qualquer?

– Por sua forma própria, isto é, por seu perispírito.

58. Vedes algumas vezes os vossos filhos e podeis falar-lhes?

– Vejo-os e lhes falo frequentemente.

59. Dissestes: Meu corpo é um acessório; sou EU que estou aqui. Esse eu é circunscrito, limitado, tem uma forma qualquer? Em suma, como vos vedes?

– É sempre o perispírito.

60. Então, para vós, o perispírito é um corpo?

– Mas, evidentemente.

61. Vosso perispírito imita a forma de vosso corpo material e vos parece que aqui estais com o vosso corpo?

– Sim, quanto à primeira pergunta, e não, quanto à segunda. Tenho perfeita consciência de estar aqui somente com o meu corpo fluídico luminoso.

62. Poderíeis dar-me um soco?

– Sim, mas não o sentiríeis.

63. Poderíeis fazê-lo de maneira sensível?

– Isto é possível; mas não o posso aqui.

64. Se, no momento em que estais aqui, vosso corpo morresse subitamente, que experimentaríeis?

– Eu lá estaria antes.

65. Ficaríeis desembaraçado mais prontamente do que se morrêsseis em circunstâncias ordinárias?

– Muito. Não tornaria a entrar senão para fechar a porta, depois de haver saído.

66. Dissestes que sofreis de gota. Não concordais com vosso médico, aqui presente, que pretende seja um reumatismo nevrálgico? Que pensais?

– Já que estais tão bem informado, penso que isto deve bastar.

67. [O médico] Em que vos baseais para supor que seja gota?

– É a minha opinião. Talvez me engane, sobretudo se estais tão certo de não vos enganar.

68. [O médico] Seria possível uma complicação de gota e reumatismo.

– Então ambos teríamos razão; não nos restaria senão nos abraçar. (Esta resposta provocou risos na assembleia)

69. Isto vos faz rir de nos ver rindo?

– Mas às gargalhadas. Então não me entendeis?

70. Disseste que o lírio verde é um remédio eficaz contra a gota. De onde vos veio essa ideia, tendo em vista que, desperto, não a sabíeis?

– Servi-me dele outrora.

71. Foi, portanto, numa outra existência?

– Sim, e fez-me mal.

72. Se vos fizessem uma pergunta indiscreta, ver-vos-íeis constrangido a respondê-la?

– Oh! É muito forte; tentai.

73. Assim, tendes perfeito livre-arbítrio?

– Mais que vós.

 

Observação – Em muitas ocasiões a experiência tem provado que o Espírito, isolado do corpo, conserva sempre a sua vontade e não diz senão o que quer. Compreendendo melhor o alcance das coisas, é mesmo mais prudente e discreto do que quando se acha desperto. Quando diz uma coisa, é que julga útil dizê-lo.

 

74. Teríeis tido a liberdade de não vir quando vos chamamos?

– Sim; livre de sofrer as consequências.

75. Quais seriam essas consequências?

– Se me recusar a ser útil aos meus semelhantes, principalmente quando tenho perfeita consciência de meus atos, sou livre, mas sou punido.

76. Que gênero de punição sofreríeis?

– Seria necessário vos desvelar o código de Deus, e isso seria muito longo.

77. Se neste momento alguém vos insultasse, dizendo coisas que, desperto, não suportaríeis, qual o sentimento que experimentaríeis?

– O desprezo.

78. Então não procuraríeis vingar-vos?

– Não.

79. Fazeis uma ideia da posição que ireis ocupar entre os Espíritos, quando lá estiverdes completamente?

– Não; isto não é permitido.

80. No estado atual em que vos achais, credes que o Espírito possa prever a morte do corpo?

– Algumas vezes. Contudo, se tivesse que morrer de repente, sempre teria tempo de a ele voltar.



[1] REVISTA ESPÍRITA – janeiro/1860 – Allan Kardec

[2] N. do T.: O número 29 foi repetido no original.