segunda-feira, 31 de maio de 2021

CARMELO GRISI[1]

 

Carmelo Grisi com Francisco Cândido Xavier 
 

Carmelo Grisi nasceu na Província de Trecchina na Itália em 23 de novembro de 1893.

Chegou ao Brasil ainda adolescente junto aos seus irmãos, fixando residência em São José do Rio Preto, São Paulo.

Casou-se com Elvira Abrigatto Grisi, médium, que se dedicou ao tratamento de obsessão. Foi ela uma das pioneiras do Espiritismo naquela região.

Do matrimônio nasceram quatro filhos.

Com o desencarne de Elvira em 12 de fevereiro de 1954, companheira de todas as horas, a saudade era imorredoura. Cinco meses depois, foi procurar Francisco Cândido Xavier que, nessa época, residia em Pedro Leopoldo e trabalhava na Fazenda Modelo, onde se encontraram. Logo no início do diálogo Chico disse: "Carmelo, Elvira se encontra presente, em companhia de três entidades amigas" identificando os espíritos.

Na noite de 02 de julho de 1954, Chico recebia consoladora mensagem da querida esposa, cuja veracidade muito o emocionou. A partir dessa data, ele voltou sua atenção para a filantropia.

Seu retorno ao plano espiritual que se deu em 28 de março de 1980, sete meses após escreveu a primeira mensagem, em 18 de outubro de 1980, pelo amigo Chico Xavier.

A partir daí seguiram-se novas mensagens que foram enfeixadas no livro “Carmelo Grisi, Ele mesmo”.

sábado, 29 de maio de 2021

MÃE SOLTEIRA[1]

 

Amélia Rodrigues[2]

 

Quando sentiste a minha presença no útero foste dominada por uma angústia infinita.

Não esperavas a ocorrência natural e não tinhas condição de exercer a maternidade.

Informando a situação aflitiva ao companheiro de afetividade, dominado pela surpresa, ele recusou ajudar-te, unindo-se a ti pelo matrimônio, ou pelo menos, distendendo um braço protetor.

Sugeriu que me abortasses como solução imediata, mas, estarrecida, negaste-lhe anuência ao crime hediondo.

Constataste que ele não te amava e te usava como fizera com outras jovens inadvertidas.

Experimentaste a reação doméstica violenta dos teus pais que também propuseram o abortamento.

Acusavam-te de haveres manchado a honra da família e porque me sentias vibrar junto ao teu coração, aceitaste as humilhações domésticas, a expulsão do lar e as noites estreladas para servirem de cobertor na escuridão dos becos e sob viadutos ao lado de outros infelizes.

Eras jovem e bela!

Mesmo grávida tentaram macular-te na escravidão do sexo.

Recusaste todas as ofertas degradantes e lutaste na miséria até o meu nascimento.

Depois que me embalaste pela primeira vez, prometeste que viveríamos juntas e seríamos felizes, não importava quando.

Não me abandonaste para a adoção por outros corações e, nos serviços humilhantes, encontraste o pão e a roupa para nós duas.

Foram anos difíceis de fome, frio e dor.

Eu era estigmatizada como filha de mãe solteira, mas não me incomodava, antes sentia orgulho.

Será que o amor materno é diferente quando se nasce sob a proteção das leis ou fora delas? Nunca senti diferença. Muito ao contrário.

Demonstraste a grandeza do teu imenso afeto de mãe solteira e me criaste com dignidade e ternura.

Conseguiste, por fim, trabalho de melhor qualidade e me educaste abraçando a fé e o respeito a Jesus Cristo e à Sua Mãe Santíssima.

Voltaste para o Grande Lar e nunca me abandonaste.

Ante as decisões difíceis e nos momentos graves da minha existência eu sentia que estavas comigo e murmuravas à minha mente as melhores decisões a tomar.

Triunfei, mãezinha, sob as tuas bênçãos e agora, também na Imortalidade, exulto de contentamento, porque tive a honra de ser tua filha, e de não ter sido assassinada no teu ventre.

Deus te abençoe, mãe solteira, protegida pela Mãe de Jesus, que também tem sido incompreendida.



[2] Psicografia de Divaldo Pereira Franco, em reunião mediúnica de 12 de fevereiro de 2021, no Centro Espírita Caminho da Redenção, em Salvador, Bahia.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

HOMOSEXUALIDADE[1]

 

O mito da homossexualismo na Grécia Antiga

Emmanuel[2]

 

Quando errante, que prefere o Espírito: encarnar no corpo de um homem, ou no de uma mulher?

‒ Isso pouco lhe importa. O que o guia na escolha são as provas por que haja de passar.

Questão 202 / O Livro dos Espíritos

 

A homossexualidade, também hoje chamada transexualidade, em alguns círculos de ciência, definindo-se, no conjunto de suas características, por tendência da criatura para a comunhão afetiva com uma outra criatura do mesmo sexo, não encontra explicação fundamental nos estudos psicológicos que tratam do assunto em bases materialistas, mas é perfeitamente compreensível, à luz da reencarnação.

Observada a ocorrência, mais com os preconceitos da sociedade, constituída na Terra pela maioria heterossexual, do que com as verdades simples da vida, essa mesma ocorrência vai crescendo de intensidade e de extensão, com o próprio desenvolvimento da Humanidade, e o mundo vê, na atualidade, em todos os países, extensas comunidades de irmãos em experiência dessa espécie, somando milhões de homens e mulheres, solicitando atenção e respeito, em pé de igualdade ao respeito e à atenção devidos às criaturas heterossexuais.

A coletividade humana aprenderá, gradativamente, a compreender que os conceitos de normalidade e de anormalidade deixam a desejar quando se trate simplesmente de sinais morfológicos, para se erguerem como agentes mais elevados de definição da dignidade humana, de vez que a individualidade, em si, exalta a vida comunitária pelo próprio comportamento na sustentação do bem de todos ou a deprime pelo mal que causa com a parte que assume no jogo da delinquência.

A vida espiritual pura e simples se rege por afinidades eletivas essenciais; no entanto, através de milênios e milênios, o Espírito passa por fileira imensa de reencarnações, ora em posição de feminilidade, ora em condições de masculinidade, o que sedimenta o fenômeno da bissexualidade, mais ou menos pronunciado, em quase todas as criaturas.

O homem e a mulher serão, desse modo, de maneira respectiva, acentuadamente masculino ou acentuadamente feminina, sem especificação psicológica absoluta.

À face disso, a individualidade em trânsito, da experiência feminina para a masculina ou vice-versa, ao envergar o casulo físico, demonstrará fatalmente os traços da feminilidade em que terá estagiado por muitos séculos, em que pese ao corpo de formação masculina que o segregue, verificando-se análogo processo com referência à mulher nas mesmas circunstâncias.

 Obviamente compreensível, em vista do exposto, que o Espírito no renascimento, entre os homens, pode tomar um corpo feminino ou masculino, não apenas atendendo-se ao imperativo de encargos particulares em determinado setor de ação, como também no que concerne a obrigações regenerativas.

O homem que abusou das faculdades genésicas, arruinando a existência de outras pessoas com a destruição de uniões construtivas e lares diversos, em muitos casos é induzido a buscar nova posição, no renascimento físico, em corpo morfologicamente feminino, aprendendo, em regime de prisão, a reajustar os próprios sentimentos, e a mulher que agiu de igual modo é impulsionada à reencarnação em corpo morfologicamente masculino, com idênticos fins. E, ainda, em muitos outros casos, Espíritos cultos e sensíveis, aspirando a realizar tarefas específicas na elevação de agrupamentos humanos e, consequentemente, na elevação de si próprios, rogam dos Instrutores da Vida Maior que os assistem a própria internação no campo físico, em vestimenta carnal oposta à estrutura psicológica pela qual transitoriamente se definem. Escolhem com isso viver temporariamente ocultos na armadura carnal, com o que se garantem contra arrastamentos irreversíveis, no mundo afetivo, de maneira a perseverarem, sem maiores dificuldades, nos objetivos que abraçam.

Observadas as tendências homossexuais dos companheiros reencarnados nessa faixa de prova ou de experiência, é forçoso se lhes dê o amparo educativo adequado, tanto quanto se administra instrução à maioria heterossexual. E para que isso se verifique em linhas de justiça e compreensão, caminha o mundo de hoje para mais alto entendimento dos problemas do amor e do sexo, porquanto, à frente da vida eterna, os erros e acertos dos irmãos de qualquer procedência, nos domínios do sexo e do amor, são analisados pelo mesmo elevado gabarito de Justiça e Misericórdia. Isso porque todos os assuntos nessa área da evolução e da vida se especificam na intimidade da consciência de cada um.



[2] Vida e Sexo - Psicografado por Francisco Cândido Xavier

quinta-feira, 27 de maio de 2021

LIBERDADE DE AGIR[1]

 

Miramez

 

O homem goza do livre arbítrio desde o nascimento?

‒ Ele tem a liberdade de agir, desde que tenha a vontade de o fazer. Nas primeiras fases da vida a liberdade é quase nula; ela se desenvolve e muda de objeto com as faculdades. Estando os pensamentos da criança em relação com as necessidades da sua idade, ela aplica o seu livre arbítrio às coisas que lhe são necessárias.

Questão 844/O Livro dos Espíritos

 

O Espírito, quando volta ao corpo pelo processo da reencarnação, a princípio é tolhido na sua liberdade, por estar inseguro no seu instrumento de carne, mas, o tempo leva-lo-á, pelo crescimento do corpo, a certa liberdade, desde quando não lhe sejam impostas certas provações ou expiação, quando seu carma lhe cobra dos seus atos do passado. É preciso adquirir as condições para que ele possa chegar a uma liberdade mais acentuada, porém, quando a tem, essa liberdade vai chegando com o crescimento e ao se tornar adulto, é livre para pensar e fazer o que achar mais conveniente dentro da vida.

Os atos e pensamentos estão sempre no nível que a idade do Espírito reclama, e quando chega ao máximo, ao estado de adulto, passa a responder diretamente pelos seus atos, de modo a ter liberdade plena de pensar o que por vezes condicionou nesta vida e em outras, em épocas diferentes. Eis a liberdade de agir, onde quer que se deseje, mas com uma condição imposta por Deus: a de responder pelo que se faz da própria vida.

Já falamos, mas tornamos a dizer, que somente não temos livre escolha ante o nosso Pai que está nos céus, porque também mora Ele na nossa consciência. Por exemplo, estamos aqui escrevendo pelos canais mediúnicos; se quisermos, poderemos deixar de escrever, mas outro tomará o nosso lugar. O trabalho não deixará de ser feito, porque Deus o quer, entretanto, podemos escolher outro serviço, na grande vinha de Deus. Não podemos parar, não temos livre vontade se essa é a vontade do Criador. Mudamos de posições, mas nunca da direção que Deus estabeleceu para todas as criaturas.

Todos somos chamados para alguma coisa na vida, entrementes, os escolhidos são poucos, por ser pela maturidade da alma. Essa é a razão por que alguns não compreendem a linguagem de Jesus e são incapazes de ouvir a Sua palavra. Vamos ouvir João, quando ele se refere ao que ouviu do Mestre, conforme anotado no capítulo oito, versículo quarenta e três:

Qual a razão por que não compreendeis a minha linguagem?

‒ É porque sois incapazes de ouvir a minha palavra.

A vontade de agir no bem, compreender a linguagem do Evangelho e ouvir o Cristo é caso de maturidade espiritual. A liberdade é para todos, mas nem todos estão despertados para usá-la nos caminhos do amor. É verdade que todos somos chamados por Deus para o aprendizado, mas nem todos escolhidos para se iniciarem na escola da verdade como deseja a palavra do Mestre. Mas, temos o tempo como força divina, que prepara a todos pelos processos variados, até nos deixar nos braços de Jesus, capacitados para ouvi-Lo e, mais ainda, compreendê-Lo na plenitude do Seu amor.

Há, na verdade, liberdade de agir, porque agir é plantar, mas somos forçados a colher o que lançamos na leira do mundo, e na lavoura da mente humana. Essa é a lei de justiça. Pela vontade, a escolha é nossa, que é obedecida pela nossa maturidade espiritual. Nas primeiras fases da vida certamente que escolhemos mal e mal usamos as nossas possibilidades, na Filosofia Espírita – dizer dos que não compreendem o trabalho de Deus, porque tudo dá certo nas linhas da programação da Luz. O tesouro que Deus colocou na engrenagem da alma vai despertando como que por encanto e transformando-se em faculdades enobrecidas. De posse delas, vamos entender quais os caminhos que deveremos tomar pela força da caridade e do amor que começamos a perceber. Conscientizemo-nos, porém, de que é nosso dever, amar a Deus em todas as direções. Aí estão todas as leis reunidas e as religiões concentradas.



[1] Filosofia Espírita – Volume 17 – João Nunes Maia

quarta-feira, 26 de maio de 2021

“O TEMPO NÃO EXISTE: A VISÃO DE CARLO ROVELLI, CONSIDERADO “NOVO STEPHEN HAWKING” [1]

 


Margarita Rodríguez - BBC News Mundo - 23 maio 2021

 

"O tempo não existe. E eu tenho 15 minutos para convencê-los disso", diz Carlo Rovelli, após olhar seu relógio de pulso.

 

Assim começa uma palestra TEDx[2] feita em 2012 pelo físico italiano, que não costuma aparecer na imprensa internacional.

Uma das vezes em que ele ganhou destaque foi na revista britânica New Statesman, numa reportagem assinada por George Eaton intitulada "O físico rockstar Carlo Rovelli explica porque o tempo é uma ilusão", em tradução livre.

"A determinação de Rovelli em tornar a física quântica acessível e suas prodigiosas vendas de livros o levaram a ser chamado de 'o novo Stephen Hawking'", destaca o artigo.

Em 2020, no evento "The Nature of Time" (A Natureza do Tempo), organizado pela revista New Scientist, o físico teórico pegou uma corda e a esticou de uma ponta a outra do palco. E pendurou uma caneta no meio da corda para marcar o presente.

Rovelli disse: "É aqui que estamos."

Ele então ergueu o braço direito e apontou para a direita: "Esse é o futuro." Na sequência, apontou para a esquerda: "E esse é o passado".

"Esse é o tempo do nosso dia a dia: uma longa fila, uma sequência de momentos que podemos ordenar, que tem uma direção preferida, que podemos medir com relógios", disse. "E todos nós concordamos com os intervalos de tempo entre dois momentos diferentes ao longo do caminho, ao longo desta linha".

Depois acrescentou: "Quase tudo o que eu disse está errado. Em termos factuais, isso está incorreto. É como se eu dissesse que a Terra é plana".

"O tempo não funciona assim, ele o faz de uma maneira diferente", emendou.

E esclareceu: "Essas não são ideias especulativas que aparecem em sonhos estranhos de físicos. São fatos que medimos em laboratório, com instrumentos, e que podem ser verificados".

 

'Pura rebelião'

Nascido em Verona, na Itália, em 1956, Rovelli confessa que sua adolescência foi "pura rebelião". O mundo em que ele vivia era diferente do que considerava "justo e belo" e, em meio a essa decepção, a ciência veio ao seu encontro.

No mundo acadêmico, o jovem pesquisador descobriu "um espaço de liberdade ilimitada", que ele relembra em um de seus livros.

"No momento em que meu sonho de construir um novo mundo colidiu com a realidade, me apaixonei pela ciência, que contém um número infinito de novos mundos", descreve.

"Enquanto eu escrevia um livro com meus amigos sobre a revolução estudantil (um livro que a polícia não gostou e me custou uma surra na delegacia de Verona: 'Diga-nos os nomes de seus amigos comunistas!), mergulhei cada vez mais no estudo do espaço e do tempo, tentando entender os cenários que haviam sido propostos até então".

 

Gravidade quântica

Rovelli decidiu dedicar sua vida ao desafio de conciliar duas teorias: a mecânica quântica (que descreve o mundo microscópico) e a relatividade geral de Albert Einstein.

"Para chegar a uma nova teoria, devemos construir um esquema mental que não tenha a ver com nossa concepção usual de espaço e tempo", diz. "Você tem que pensar em um mundo em que o tempo não é mais uma variável contínua, mas uma outra coisa".

Ao buscar possíveis soluções para o problema da gravidade quântica, Rovelli foi um dos fundadores da teoria da gravidade quântica em loop, também conhecida como teoria do loop, que apresenta uma estrutura fina e granular do espaço.

Essa teoria tem aplicações em diferentes campos ‒ por exemplo, o estudo do Big Bang ou as formas de abordar e entender os buracos negros.

O físico italiano tem uma carreira brilhante, que inclui inúmeros prêmios e livros. Uma dessas publicações, "Sete Breves Lições de Física" (Editora Objetiva), foi traduzida para 41 idiomas e vendeu mais de 1 milhão de cópias.

Ele também foi professor na Itália, nos Estados Unidos, no Reino Unido e atualmente é pesquisador do Centro de Física Teórica de Marselha, na França.

Rovelli respondeu por escrito a algumas perguntas da BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

 

BBC Mundo - O que é o tempo? Ele realmente existe?

Carlo Rovelli - Sim, claro que o tempo existe. Do contrário, o que é que sempre nos falta? Mas a ideia comum que temos sobre o que é o tempo e como ele funciona não serve para entendermos átomos e galáxias. Nossa concepção usual de tempo funciona apenas em nossa escala e quando vamos medir as coisas com muita precisão.

Se quisermos aprender mais sobre o universo, temos que mudar a nossa visão do tempo. Porque o que costumamos chamar de "tempo", sem pensar muito sobre o que isso significa, é realmente um emaranhado de fenômenos diferentes. O tempo pode parecer simples, mas é realmente complexo: ele é feito de muitas camadas, algumas das quais são relevantes apenas para certos fenômenos, e não para outros.

 

BBC Mundo - O que o senhor descobriu quando se perguntou: por que só podemos conhecer o passado e não o futuro?

Rovelli - A razão de termos informações sobre o passado e não sobre o futuro é estatística. Tem a ver com o fato de não vermos os detalhes das coisas. Não vemos, por exemplo, as moléculas individuais que compõem o ar da sala em que estamos. Mas, no mundo microscópico, não há essa distinção entre o passado e o futuro.

 

BBC Mundo - O senhor falou sobre a elasticidade do tempo e sobre um dia em que "vivenciamos coisas diretamente, como encontrar nossos filhos mais velhos que nós mesmos no caminho de volta para casa". Como isso pode acontecer?

Rovelli - A pergunta correta é a oposta: por que quando nos separamos e nos encontramos novamente, o seu e o meu relógio medem o mesmo intervalo de tempo?

Não há razão para que devam medir esse mesmo tempo. A experiência nos diz isso apenas porque nossas medições não são precisas o suficiente. Se fossem, veríamos que o tempo corre em velocidades diferentes para pessoas diferentes, dependendo de onde estão e como se movem. Portanto, eu poderia me separar de meus filhos e reencontrá-los em um tempo que significa apenas um ano para mim, mas 50 anos para eles. Nesse cenário, eu ainda sou jovem e eles envelheceram. Isso certamente é possível. O motivo pelo qual normalmente não vivenciamos esse tipo de experiência é apenas que nossa vida na Terra se move numa velocidade lenta entre nós e, nesse caso, as diferenças de tempo são pequenas.

 

BBC Mundo - Algum dia poderemos viajar ao passado?

Rovelli - Considero extremamente improvável. Viajar para o futuro, por outro lado, é o que fazemos todos os dias.

 

BBC Mundo - O que o senhor quer dizer com isso?

Rovelli - Viajar ao passado é difícil. Mas viajar para o futuro é muito fácil. Faça o que fizer, você está viajando sempre para o futuro: o amanhã é o futuro do hoje.

 

BBC Mundo - Sabemos que o senhor gosta muito de gatos e prefere não se referir ao gato de Schrödinger e a discussão se ele está vivo ou morto (ou dormindo). O senhor poderia explicar por que, segundo esse famoso experimento, o animal pode estar vivo e morto ao mesmo tempo?

Rovelli - Acho que o gato não está realmente acordado e dormindo ao mesmo tempo. Considero que, com respeito a si mesmo, o gato está definitivamente acordado ou dormindo. Mas quando se trata de mim e de você, pode não haver nem um estado, nem outro. Porque eu acho que as propriedades das coisas (incluindo os átomos e os gatos) são relativas a outras coisas e só se tornam reais nas interações com elas. Se não houver interações, não há propriedades.

 

BBC Mundo - Como o senhor explicou, a discussão entre os físicos da mecânica quântica não é apenas sobre o gato estar vivo e morto ao mesmo tempo, mas também sobre o experimento com dois eventos, A e B, nos quais A vem antes de B, mas também B vem antes de A. Como isso pode ser possível?

Rovelli - Quando dizemos que um evento A é anterior a um evento B, o que queremos dizer é que pode haver um sinal indo de A para B. Por exemplo, sua pergunta é anterior à minha resposta, porque me chega antes que eu possa respondê-la.

No entanto, às vezes pode acontecer que seja realmente impossível enviar um sinal de A para B, mas também impossível enviar um sinal de B para A. Então, nenhum é anterior ao outro.

A razão de não estarmos acostumados com isso é porque a luz viaja muito rápido, então tendemos a pensar que podemos ver tudo "instantaneamente". Mas a verdade é que não podemos. Portanto, sempre existem eventos que não são ordenados de acordo com esse tempo.

 

BBC Mundo - O que o senhor quer dizer quando afirma que existem muitas versões diferentes da realidade, embora todas pareçam iguais em grande escala?

Rovelli - As propriedades de todas as coisas são relativas a outras coisas. As propriedades do mundo em relação a você não são necessariamente as mesmas em relação a mim. Normalmente, não vemos essas diferenças nas propriedades físicas porque os efeitos quânticos são muito pequenos. Mas, em princípio, podemos ver mundos ligeiramente diferentes.

 

BBC Mundo - O senhor disse que temos que reorganizar a forma como pensamos a realidade. Como podemos fazer isso? O que estamos perdendo se não tentarmos seguir por esse caminho?

Rovelli - Podemos continuar vivendo nossas vidas ignorando a física quântica, mas se estamos curiosos sobre como a realidade funciona, temos que encarar que as coisas são realmente estranhas.

 

BBC Mundo - A metáfora que o senhor faz sobre a mecânica quântica e sua interseção com a filosofia, como se essas duas áreas do conhecimento fossem um casal se reunindo, se separando, depois voltando e se separando novamente, é fascinante. A mecânica quântica e a filosofia precisam uma da outra?

Rovelli - Creio que sim. No passado, a física fundamental também avançou graças à inspiração da filosofia.

Todos os grandes cientistas do passado eram leitores ávidos de filosofia. Não há razão para que as coisas sejam diferentes hoje.

Na minha opinião, o inverso também é verdadeiro: os filósofos que ignoram o que aprendemos sobre o mundo com a ciência acabam sendo superficiais.

 

BBC Mundo - Para o senhor, o livro "A Ordem do Tempo" é muito especial porque "finge ser sobre física, mas secretamente é o meu livro sobre o significado e a finitude da vida". Qual é o sentido da vida para Carlo Rovelli?

Rovelli - O sentido da vida para Carlo Rovelli é o que penso ser o sentido da vida para todos nós: a rica combinação de necessidades, desejos, aspirações, ambições, ideais, paixões, amor e entusiasmo, que surgem em várias medidas e em diferentes versões naturalmente de dentro de nós. A vida é uma explosão de significado.

Alguns projetaram o significado da vida fora de si mesmos e ficam desapontados ao perceber que havia algo ilusório em esperar que o significado viesse de fora.

Uma das minhas respostas favoritas a essa pergunta foi atribuída a um antigo sioux [etnia indígena norte-americana]: o propósito da vida é abordar com uma canção qualquer coisa que encontrarmos pela frente.

 

BBC Mundo - O senhor assinalou que na ciência muitos erros são cometidos quando fingimos estarmos certos, quando na verdade muitas vezes não temos essa certeza toda. O novo coronavírus trouxe muitas incertezas para nossas vidas. Como o senhor lidou com isso?

Rovelli - Eu tenho me esforçado não apenas para minimizar o risco para mim e para as pessoas que amo, mas também para minimizar meu próprio papel na disseminação da infecção.

Mas sabendo bem que o risco foi e continua a ser real e que milhões de pessoas morreram e ainda estão morrendo, tenho em mente que isso ainda pode acontecer comigo e meus entes queridos.

Essa constatação não deve ser motivo para pânico, mas também não gosto de esconder a cabeça na areia.

 

BBC Mundo - Que reflexões o senhor fez nestes tempos desafiadores para milhões de pessoas ao redor do mundo?

Rovelli - O que fico pensando é simples: não seria o momento de a humanidade trabalhar em conjunto, em vez de continuarmos a ficar uns contra os outros? O Ocidente está construindo novos inimigos: China, Irã, Rússia...

Não podemos viver de forma respeitosa e colaborativa, sem a necessidade de subjugar uns aos outros, de prevalecer sobre os outros, de vencer, em vez de cooperar para o bem comum?

A humanidade está enfrentando uma pandemia, milhões de mortes, desastres ambientais e ainda não conseguimos aprender a nos vermos como membros de uma única família, que é o que realmente somos.

A mecânica quântica é a descoberta de que a realidade é tecida por relacionamentos, mas permanecemos cegos para o fato de que prosperamos em relação aos outros, não uns contra os outros. Posso ser ingênuo, mas é isso o que penso todos os dias quando vejo o noticiário.

 

BBC Mundo - O senhor disse que gostou de ler "O Amor em Tempos do Cólera", de Gabriel García Márquez, porque "nestes tempos sombrios, é bom ler sobre o amor verdadeiro". Você pode nos contar mais sobre o que gostou no livro?

Rovelli - É um livro cheio de graça e luz. Retrata as muitas formas de amar e partilhar, com um olhar que sorri diante de toda essa complexidade.

Uma forma de amor é a lealdade da personagem Fermina Daza ao marido. Outra é a intimidade e a amizade de Florentino Ariza com dezenas e dezenas de mulheres. Mas esse amor absoluto entre ele [Ariza] e ela [Daza] é uma bela forma de amor, que foi venerado e valorizado por décadas, até que conseguiu florescer de forma maravilhosa quando os dois já estavam mais velhos.

terça-feira, 25 de maio de 2021

COMUNICAÇÃO PROVIDENCIAL DOS ESPÍRITOS[1]

 

Allan Kardec

 

(Grupo Delanne – Paris, 8 de janeiro de 1865 – Médium: Sra. Br...)

 

Os tempos são chegados em que esta palavra do profeta deve ser realizada:

Espalharei, diz o Senhor, do meu Espírito sobre toda a carne; e vossos filhos profetizarão, vossos velhos terão sonhos[2].

O Espiritismo é esta difusão do Espírito divino, vindo instruir e moralizar todos esses pobres deserdados da vida espiritual que, não vendo senão a matéria, esquecem que o homem não vive apenas de pão.

É preciso ao corpo um organismo material a serviço da alma, um alimento apropriado à sua natureza; mas à alma, emanação do Espírito Criador, é preciso um alimento espiritual, que só encontra na contemplação das belezas celestes, resultante da harmonia das faculdades inteligentes em sua inteira manifestação.

Enquanto o homem negligencia cultivar o seu espírito e fica absorvido pela busca ou pela posse dos bens materiais, sua alma está de certo modo estacionária, e lhe é preciso um grande número de encarnações antes que possa, obedecendo insensivelmente e como por força à lei inevitável do progresso, chegar a esse começo de vitalidade intelectual, que a torna a diretora do ser material, ao qual está unida. É por isto que, malgrado os ensinamentos dados pelo Cristo, para fazer a Humanidade avançar, ela está ainda tão atrasada, pois o egoísmo não quis apagar-se diante desta lei de caridade, que deve mudar a face do mundo e dele fazer uma morada de paz e de felicidade.

Mas a bondade de Deus é infinita, ultrapassando a indiferença e a ingratidão de seus filhos. Eis por que lhes envia esses mensageiros divinos, que vêm lembrar-lhes que Deus não os criou para a Terra, onde apenas estão por algum tempo, a fim de que, pelo trabalho, desenvolvam as qualidades postas em germe em sua alma, e que, cidadãos dos céus, não se devam comprazer numa estação inferior à sua ignorância, onde só as suas faltas os retêm.

Agradecei, pois, ao Senhor, e saudai com alegria o advento do Espiritismo, pois que ele é a realização das profecias, o sinal retumbante da bondade do Pai de misericórdia, e para vós um novo apelo a esse desprendimento da matéria, tão desejável, considerando-se que só Ele pode vos proporcionar a verdadeira felicidade.

Luís de França



[1] Revista Espírita – Fevereiro/1867 – Allan Kardec

[2] N. do T.: Atos dos Apóstolos, 2:17. O versículo completo está assim concebido: “E nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei do meu Espírito sobre toda a carne; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizarão, os vossos mancebos terão visões, e os vossos velhos sonharão sonhos”. Referência mais que explícita sobre a explosão da mediunidade no século XIX.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

CARLOS JORDÃO DA SILVA[1]

 

 

Carlos Jordão da Silva nasceu no dia 26 de agosto de 1903.

Filho de José Jordão da Silva e Amália Mendonça da Silva casou-se com Maria Geralda de Macedo Jordão.

Foi figura de grande projeção no movimento espírita de São Paulo. Seu nome era conhecido em todo o Brasil, dado o vulto do trabalho por ele desenvolvido.

No ano de 1946, integrou-se na Liga Espírita do Estado de São Paulo, da qual foi representante junto a USE, União Social Espírita, cujo nome foi posteriormente alterado para União das Sociedades Espíritas. Tomou parte ativa na fundação da Fraternidade Espírita Evangélica, entidade que posteriormente foi dissolvida e incorporada à Federação Espírita do Estado de São Paulo. Foi membro e Diretor-Tesoureiro da Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, fundada por Anália Franco. Foi ainda um dos fundadores do Lar do Amor Cristão e fazia parte do Conselho da Instituição Beneficente Nosso Lar, de São Paulo. Com o advento do Pacto Áureo, consumou-se a unificação do Espiritismo em torno da Federação Espírita Brasileira. Carlos Jordão da Silva tornou-se o Delegado do Estado de São Paulo junto ao Conselho Federativo Nacional, função que exerceu durante quase um quarto de século.

Desde muito jovem, Carlos se interessou pelas coisas do Espiritismo, por meio de várias leituras, assimilou logo a Doutrina. No entanto, somente a partir dos 40 anos de idade, interessado em obter respostas a certos problemas da vida, se integrou resolutamente nas fileiras espíritas. Afirmava sempre que somente o Espiritismo havia equacionado as suas indagações, principalmente pelo fato de encará-lo sempre em seu tríplice aspecto de Ciência, Filosofia e Religião.

Carlos retornou ao plano espiritual em 07 de dezembro de 1985.

sábado, 22 de maio de 2021

FUI AO CÉU E VOLTEI[1]

 

Antônio Carlos Navarro

 

A EQM – “Experiência de Quase Morte” nunca foi tão divulgada como tem sido ultimamente.

Relatos de todos os tipos, nos mais diversos pontos do Globo Terrestre, dão-nos conta das inúmeras situações vividas, seja em ambientes fechados como salas de cirurgia de hospitais ou em ambientes abertos.

A médica ortopedista norte-americana, Dra. Mary C. Neal vivenciou uma EQM e a relatou no livro cujo título[2] é o mesmo deste ensaio.

Treinada em mergulho e canoagem, foi durante um passeio no Chile, onde estava com o marido e um grupo de amigos, para a prática da canoagem, que se deu a experiência.

A descer o Rio Fuy, aproximou-se de uma queda d’água, planejando a melhor forma de transpô-la, mas algo, no entanto, deu errado, e a força da água em movimento intenso e violento arrastou-a para o fundo do rio, mantendo-a submersa, sem chances de se livrar da situação.

De formação presbiteriana e católica, lembrou-se de rezar, fervorosamente, colocando-se nas mãos de Deus e aceitando, resignadamente, ou “Seja feita a Sua vontade”, e então uma sensação de calma e paz invadiu-a e percebeu-se abraçada por alguém, que pensava ser Deus, sentindo-se afagada e confortada.

Múltiplos pensamentos vieram a sua consciência: a situação em que se encontrava, a vida que tivera até então, a família, os fatos e valores que desenvolvera e muito mais.

Acostumada a situações críticas, pressentiu a morte e revisou toda a sua vida.

Os esforços de resgate eram infrutíferos e o tempo passava rapidamente. Foram mais de catorze minutos submersa.

Foi então que se sentiu saindo do corpo e do fundo do rio, e ao emergir levitando sobre a água encontrou cerca de quinze a vinte espíritos – palavras dela – que entendia terem sido enviados por Deus para acompanhá-la naquela viagem rumo ao Céu. Esses espíritos a cumprimentaram com alegria e ela reconheceu alguns como sendo pessoas com as quais tinha convivido nesta sua vida e que tinham deixado o mundo físico pela porta da morte do corpo. Os corpos desses espíritos não tinham, nos seus limites, a nitidez que os corpos materiais possuem, apresentando certo embaçamento.

Desdobrou-se o fenômeno através da comunicação exclusivamente mental, do sentimento de amor absoluto, da percepção de um colorido intenso, e um grande corredor brilhante e belíssimo, sem comparação com algo na Terra. Nesse momento reviu o corpo na beira do rio, já resgatado, mas não houve nenhum interesse em voltar para ele, e sentiu o esforço que os envolvidos no resgate faziam para ressuscitá-la, e isso a enervava porque não queria mais voltar à condição de encarnada.

Ao se aproximar do fim do túnel, os espíritos que a acompanhavam disseram a ela que era preciso voltar. Aconselharam-na a voltar, porque ainda havia muito o quê fazer na Terra, seu programa de vida continuaria por muito tempo ainda. Protestou e protestou, mas teve que voltar para o corpo e assumi-lo novamente, acordando sob os cuidados dos socorristas que não haviam desanimado, embora tivesse passado tanto tempo.

Desde então aprofundou sua vivência nos valores espirituais, ajudando o próximo também a conseguir o mesmo, dando um novo sentido a sua vida.

Há muito mais para se ler em seu interessantíssimo livro que aqui não é possível registrarmos, mas cabe-nos ainda uma última observação: durante o período de recuperação dos traumas físicos causados pelo acidente a Dra. Mary começou a ter desdobramentos espirituais, e se via conversando com um mensageiro de Deus que a orientava sobre os aspetos transcendentes da vida, mas principalmente sobre o planejamento espiritual que traçamos para a vida física.

Tudo o que a Dra. Mary experimentou ajudou- lhe a solidificar a sua fé, e a certeza de uma vida melhor além da vida física. E, para nós, ao lermos seu relato, embora este não seja novidade, o que ela nos conta serve para verificarmos, na prática, o que temos aprendido através da Revelação Espírita que nos permite desenvolver a fé de forma racional e produtiva, para nós e para aqueles que nos circundam durante a vida física.

Pensemos nisso.

 

Fonte: Doutrina Espírita

 

Nota: Os interessados no tema Experiências de Quase Morte (EQM) poderão encontrar vários artigos a respeito já publicados neste blog.



[2] Fui ao Céu e voltei, Mary C. Neal, Textos Editores Ltda.

sexta-feira, 21 de maio de 2021

QUEM É O CHEFE DO ESPIRITISMO[1]

 

Donizete Pinheiro

 

O Espiritismo não tem chefe e nem representante legal. Por isso, no seu aspecto institucional, diferencia-se essencialmente de todas as outras religiões. É que, na essência, a religião é uma consequência moral das conclusões cientificas e filosóficas da Doutrina Espírita, cujo objeto é o estudo dos espíritos, sua vida e suas manifestações entre nós.

Como fatos naturais que são, os fenômenos espirituais podem ser pesquisados por qualquer pessoa, que tirará por si as suas conclusões. Existe, por ventura, o chefe da química, da física, da astronomia ou da biologia? É claro que não! Existem cientistas, pesquisadores que apresentam à humanidade o resultado de seus trabalhos, os quais podem ser acolhidos ou não. Uma teoria cientifica é aceita como verdade quando outros cientistas conseguem confirmá-la por suas próprias experiências, havendo então uma unanimidade quanto aos seus princípios e resultados.

É o que ocorreu com a Doutrina Espírita. Partindo dos fenômenos das mesas girantes, que tomaram conta da América do Norte e da Europa em meados do século dezenove, Allan Kardec estabeleceu as bases do Espiritismo, que foram confirmadas por cientistas e filósofos dele contemporâneos, como Lombroso, Gabriel Delanne, Alexandre Aksakof, Gustavo Geley, Ernesto Bozzano e Leon Denis, e que atualmente foram reforçadas por médicos, psicólogos e estudiosos, como Welen Wambarch, Roger J. Woolger, Hermani Guimarães Andrade e Hermínio Miranda.

O avanço de ciência, com a invenção de aparelhos mais sensíveis, certamente fornecerá as provas cabais de realidade espiritual, pondo por terra as críticas dos incrédulos obstinados e negativistas por sistema. Como se costuma dizer: contra fatos não há argumento. É só questão de tempo. De resto, o que não for verdadeiro cairá por si mesmo.

Assim, cada centro espírita é uma célula independente. Seus participantes estudam e praticam a Doutrina Espírita conforme a compreendem. Em sua maioria, os centros espíritas oferecem ensinamentos de acordo com a base kardequiana. Alguns, porém, a deturpam; outros dão prioridade à mediunidade e suas reuniões têm por fim unicamente as manifestações dos espíritos; e outros, ainda, desprezam o fenômeno mediúnico e dedicam-se somente ao estudo da filosofia. Não raro, encontramos centros denominados espíritas, mas que misturam a prática espírita com rituais religiosos, como, por exemplo, os da Umbanda. Cabe ao povo escolher o que mais lhe convém.

No movimento espírita existem órgãos de unificação, como a Federação Espírita Brasileira, a USE-União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo e as Federações de outros Estados, mas todas essas instituições têm por objetivo apenas a orientação e a colaboração aos centros espíritas, sem qualquer tipo de ingerência ou imposição.

A princípio perde-se em uniformidade, mas ganha-se em liberdade de consciência, em respeito à compreensão de cada um, pensamento compatível com o espírito democrático da Doutrina Espírita; e evita-se a opressão religiosa e dogmática, situação em que alguns impõem a muitos o que pensam, sem admitir discussão.

A Doutrina Espírita caminha lentamente e com dificuldades, mas cresce fincada na ação de pessoas que a escolheram livremente, que têm sua fé robustecida pelos fatos e pela razão, e que respeitam a crença do próximo, sabendo que a verdadeira religião é a do coração comungado com o Criador.

 

Fonte: Espiritismo na Rede

quinta-feira, 20 de maio de 2021

UNINDO-SE AO CORPO[1]

 

Miramez

 

O Espírito, ao unir-se ao corpo, identifica-se com a matéria?

‒ A matéria não é mais que o envoltório do Espírito, como a roupa é o envoltório do corpo. O Espírito, ao unir-se ao corpo, conserva os atributos da natureza espiritual.

Questão 367 / O Livro dos Espíritos

 

A matéria é apenas um vestuário da alma, certamente mais requintada que qualquer espécie de roupa física para o corpo. A matéria em conjunto, formando um corpo, é dotada de vida, pela força divina que transita na intimidade, como elo em perfeita sintonia com os variados corpos que o Espírito usa, de acordo com sua evolução espiritual.

Observando uma fruta, notaremos que os corpos que guardam a sua essência se sucedem, desde a película que envolve a semente, à casca mais grosseira que a protege efetivamente.

Assim é o Espírito; ele se reveste de variados corpos para cumprir sua missão no mundo.

Mesmo onde trabalhamos, no mundo espiritual, necessitamos de muitos corpos para a estabilidade dos nossos dons espirituais. Um outro exemplo bem simples: a água que corre para as casas, não pode chegar lá para seu consumo, sem os canos que as conduzem, as caixas d’água, as torneiras e os filtros.

Isso tudo é Deus operado em toda a parte, mas, como um só Espírito, na diversidade de todos os Seus filhos do coração. O Espírito não herda da matéria; ele se aconchega a ela para manifestar seus atributos de Espírito. Mesmo que encontre barreiras enormes, ele consegue mostrar o que é pelos canais dos seus poderes espirituais.

Convém ao homem estudar a si mesmo, nunca começar onde terminam as faculdades.

Principalmente o espírita, esse deve conhecer primeiramente sua veste de carne, para que possa com facilidade adentrar aos outros corpos. É nesse avanço que poderá sentir a verdade e dizer: estou conhecendo a mim mesmo, estou adentrando na verdade, em busca da libertação. O Espírito, quando se une ao corpo, por vezes apaga suas aptidões, em estado de prova, mas elas não morrem; podem atrofiar-se para que, no porvir, cresçam mais. As provas são para despertar a alma para uma ventura maior.

Mesmo com a Doutrina dos Espíritos se fazendo presente no mundo, com toda sua riquíssima literatura mediúnica, ainda existe muito a aprender, porque a revelação tem que ser gradativa.

Isso é lei espiritual. Grandes instrutores do mundo maior estão filtrando essas revelações, porque a verdade, onde não pode ser dita, pode causar desarmonia, tanto quanto o amor, onde a compreensão não se encontrar elevada na pureza dos sentimentos.

O que somos não podemos esconder, mesmo revestidos por um corpo de carne. Os talentos espirituais se afloram, dando a conhecer quem ali se encontra. Certamente que, tendo um corpo de instrumento, esse, defeituoso, impede a alma de certas atividades, mas, logo se nota que dentro dele se aloja uma alma, do porte que ela conquistou na escala da vida. O organismo, em certas circunstâncias, impede o Espírito de se mostrar, mas esse, com o tempo, vai dominando todos os departamentos energéticos do próprio corpo, e se mostra na plenitude que conquistou.

Que Jesus nos abençoe a todos nas nossas pesquisas espirituais.



[1] Filosofia Espírita – Volume 8 – João Nunes Maia

quarta-feira, 19 de maio de 2021

A INTERFACE CÉREBRO-COMPUTADOR PERMITE A DIGITAÇÃO MAIS RÁPIDA ATÉ O MOMENTO[1]

 

Simon Makin[2] - 21 de fevereiro de 2017

 

Um novo sistema de interface permitiu que três indivíduos paralisados ​​digitassem palavras até quatro vezes mais rápido do que a velocidade demonstrada em estudos anteriores

 

Dez anos atrás, a vida de Dennis Degray mudou para sempre quando ele escorregou e caiu enquanto jogava o lixo na chuva. Ele pousou no queixo, causando uma grave lesão na medula espinhal que o deixou paralisado abaixo do pescoço. Agora ele é o principal participante de um teste investigativo de um sistema que visa ajudar pessoas com paralisia a digitar palavras usando apenas seus pensamentos.

A promessa de interfaces cérebro-computador (BCIs) para restaurar a função para pessoas com deficiência tem motivado pesquisadores por décadas, mas poucos dispositivos estão prontos para uso prático generalizado. Existem vários obstáculos, dependendo da aplicação. Para a digitação, no entanto, uma barreira importante tem sido atingir velocidades suficientes para justificar a adoção da tecnologia, que geralmente envolve cirurgia. Um estudo publicado terça-feira na eLife relata os resultados de um sistema que permitiu que três participantes ‒ Degray e duas pessoas com Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA, ou doença de Lou Gehrig, uma doença neurodegenerativa que causa paralisia progressiva) ‒ digitassem nas velocidades mais rápidas já alcançadas usando um BCI ‒ velocidades que trazem a tecnologia ao alcance de ser útil na prática. “Estamos nos aproximando da metade do que, por exemplo, eu provavelmente poderia digitar em um telefone celular”, diz o neurocirurgião e coautor Jaimie Henderson, da Universidade de Stanford.

Os pesquisadores mediram o desempenho usando três tarefas. Para demonstrar o desempenho no cenário mais natural possível, uma participante foi avaliada em uma tarefa de “digitação livre”, onde apenas respondia às perguntas por meio do aparelho. Mas as velocidades de digitação são medidas convencionalmente usando a digitação de cópia, que envolve digitar frases definidas, portanto, todos os três participantes também foram avaliados dessa forma. A mulher que executou a tarefa de digitação livre alcançou mais do que seis palavras por minuto, a outra paciente com ELA conseguiu quase três e Degray atingiu quase oito. O grupo relatou resultados comparáveis ​​em um estudo da Nature Medicine em 2015, mas esses resultados foram obtidos usando um software que explorou as estatísticas do inglês para prever as letras subsequentes. Nenhum software foi empregado neste estudo.

A desvantagem da digitação de cópia é que o desempenho pode variar com as frases específicas e os layouts de teclado usados. Para obter uma medida independente de qualquer um desses fatores, a terceira tarefa envolveu a seleção de quadrados em uma grade de seis por seis à medida que iluminavam aleatoriamente. Isso chega mais perto de quantificar a velocidade máxima com que o sistema pode produzir informações e é facilmente convertido em uma medida digital de “bits por segundo”. A equipe utilizou essa gama de tarefas, sem software preditivo, pois um dos objetivos centrais do estudo era desenvolver medidas padronizadas. “Precisamos estabelecer medidas para que ‒ apesar da potencial variabilidade entre pessoas, métodos e pesquisadores ‒ possamos realmente dizer, 'claramente este novo avanço levou a um desempenho superior', porque temos formas sistemáticas de comparar isso”, diz o coautor principal Chethan Pandarinath, então com um pós-doutorado em Stanford.

Os dois pacientes com ELA alcançaram 2,2 e 1,4 bits por segundo, respectivamente, mais do que o dobro dos registros anteriores (mantidos por esses mesmos participantes em um estudo anterior deste grupo). O Degray atingiu 3,7 bits por segundo, o que é quatro vezes mais rápido do que a melhor velocidade anterior. “Este é um salto muito grande no desempenho em comparação aos estudos clínicos anteriores de BCIs”, diz Pandarinath.

Outros pesquisadores concordam que esses resultados são de última geração. “Esta é a digitação mais rápida que alguém mostrou com um BCI”, diz a engenheira biomédica Jennifer Collinger, da Universidade de Pittsburgh, que não esteve envolvida no estudo. “Está no mesmo nível de tecnologias como rastreadores oculares, mas existem grupos para os quais essas tecnologias não funcionam, como pessoas que estão presas”. Essas velocidades também se aproximam do que os pacientes com ELA questionados em uma pesquisa disseram que gostariam de um dispositivo BCI. “Você está chegando ao ponto em que o desempenho é bom o suficiente para que os usuários realmente desejem”, diz Collinger.

Os participantes tiveram uma ou duas matrizes de eletrodos minúsculos (um sexto de polegada) implantados nas superfícies de seus cérebros. Esses implantes “intracorticais” contêm 96 microeletrodos que penetram de um a 1,5 milímetros nas partes do córtex motor que controlam os movimentos do braço. Duas das cirurgias foram realizadas por Henderson, que codirige o Laboratório de Próteses Neurais de Stanford com o coautor sênior do estudo, o bioengenheiro Krishna Shenoy. Os sinais neurais gravados pelos eletrodos são transmitidos por meio de um cabo para um computador onde algoritmos desenvolvidos no laboratório de Shenoy decodificam as intenções do participante e traduzem os sinais em movimentos de um cursor de computador. A equipe de Stanford faz parte de um consórcio de vários institutos chamado BrainGate, que inclui o Massachusetts General Hospital e a Brown University, entre outros.

Outros métodos de interface com o cérebro por meio de eletrodos incluem aqueles colocados no couro cabeludo para eletroencefalografia (EEG) e aqueles colocados sob o crânio na superfície do cérebro, conhecidos como eletrocorticografia (ECoG). A vantagem dos implantes intracorticais é que eles podem detectar a atividade de células individuais, enquanto os outros métodos capturam a atividade média de milhares de neurônios. “Este desempenho é 10 vezes melhor do que qualquer coisa que você obteria de EEG ou ECoG, [que não] contêm informações suficientes para fazer esse tipo de tarefa neste nível”, diz o neurobiologista Andrew Schwartz, da Pitt, que não esteve envolvido em o estudo. O movimento e a cicatriz reduzem a qualidade do sinal ao longo dos primeiros dois anos após a implantação, mas o que resta ainda é útil ‒ “muito melhor do que você consegue com qualquer outra técnica”, diz ele.

A maior desvantagem, atualmente, é ter fios saindo da cabeça das pessoas e presos a cabos, o que é complicado e apresenta riscos. “O futuro é tornar esses dispositivos sem fio”, diz Pandarinath. “Ainda não chegamos lá com as pessoas, mas provavelmente estamos a cinco ou dez anos de distância, e esse é um passo crítico [em direção a] um dispositivo com o qual você poderia mandar alguém para casa e ficar menos preocupado com riscos potenciais como infecção”. Os dispositivos precisariam de energia sem fio, mas vários grupos já estão trabalhando nisso. “A maior parte da tecnologia está basicamente lá”, diz Schwartz. “Você pode fazer isso indutivamente usando bobinas ‒ como carregar seu telefone celular sem fio em uma base com bobinas de cada lado”.

A equipe atribui as melhorias a melhores algoritmos de decodificação e engenharia de sistemas. “Executar cálculos repetidos rapidamente é crítico em um sistema de controle em tempo real”, diz Pandarinath. Os pesquisadores publicaram um estudo no ano passado, liderado pelo bioengenheiro de Stanford, Paul Nuyujukian. Nele, eles treinaram dois macacos para realizar uma tarefa semelhante ao exercício de grade usado neste estudo. Os animais digitavam frases selecionando caracteres em uma tela à medida que mudavam de cor (embora eles não entendessem o que as palavras significavam). Quando a equipe adicionou um algoritmo separado para detectar a intenção dos macacos de parar, sua melhor velocidade aumentou em duas palavras por minuto.

Este “decodificador de clique discreto” também foi usado no estudo atual. “Basicamente, criamos uma interface de 'apontar e clicar' aqui, como um mouse. Essa é uma boa interface para coisas como smartphones ou tablets modernos”, diz Pandarinath, que abriria um novo domínio de funções além da comunicação: navegar na web, tocar música, todos os tipos de coisas que as pessoas saudáveis ​​consideram garantidas”.

A equipe de Stanford já está investigando a tecnologia sem fio e tem metas ambiciosas de longo prazo para o projeto. “A visão que esperamos alcançar algum dia seria ser capaz de conectar um receptor sem fio a qualquer computador e usá-lo usando seu cérebro”, diz Henderson. “Um dos nossos principais objetivos é permitir o controle 24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano de uma interface de computador padrão usando apenas sinais cerebrais”.

 



[2] Simon Makin é um escritor freelance de ciências que mora em Londres.