Miramez
Influência do organismo
Da influência dos órgãos se pode inferir a existência de
uma relação entre o desenvolvimento dos do cérebro e o das faculdades morais e
intelectuais?
Não confundais o efeito com a causa. O Espírito dispõe
sempre das faculdades que lhe são próprias. Ora, não são os órgãos que dão as
faculdades, e sim estas que impulsionam o desenvolvimento dos órgãos.
a) - Dever-se-á deduzir daí que a diversidade das aptidões
entre os homens deriva unicamente do estado do Espírito?
O termo - unicamente - não exprime com toda a exatidão
o que ocorre. O princípio dessa diversidade reside nas qualidades do Espírito,
que pode ser mais ou menos adiantado. Cumpre, porém, se leve em conta a
influência da matéria, que mais ou menos lhe cerceia o exercício de suas
faculdades.
Encarnado, traz o Espírito
certas predisposições e, se se admitir que a cada uma corresponda no cérebro um
órgão, o desenvolvimento desses órgãos será efeito e não causa. Se nos órgãos
estivesse o princípio das faculdades, o homem seria máquina sem livre-arbítrio
e sem a responsabilidade de seus atos. Forçoso então fora admitir-se que os
maiores gênios, os sábios, os poetas, os artistas, só o são porque o acaso lhes
deu órgãos especiais, donde se seguiria que, sem esses órgãos, não teriam sido
gênios e que, assim, o maior dos imbecis houvera podido ser um Newton, um
Vergílio, ou um Rafael, desde que de certos órgãos se achassem providos. Ainda
mais absurda se mostra semelhante hipótese, se a aplicarmos às qualidades
morais. Efetivamente, segundo esse sistema, um Vicente de Paulo, se a Natureza
o dotara de tal ou tal órgão, teria podido ser um celerado e o maior dos
celerados não precisaria senão de um certo órgão para ser um Vicente de Paulo.
Admita-se, ao contrário, que os órgãos especiais, dado existam são consequentes,
que se desenvolvem por efeito do exercício da faculdade, como os músculos por
efeito do movimento, e a nenhuma conclusão irracional se chegará. Sirvamo-nos
de uma comparação trivial à força de ser verdadeira. Por alguns sinais
fisionômicos se reconhece que um homem tem o vício da embriaguez. Serão esses
sinais que fazem dele um ébrio, ou será a ebriedade que nele imprime aqueles
sinais? Pode dizer-se que os órgãos recebem o cunho das faculdades. (Allan
Kardec)
Questão 370 / O Livro dos Espíritos
É importante que não se confunda
efeito com causa. Os efeitos nos mostram que existe uma fonte de todas essas
consequências. Todas as faculdades da alma dimanam dela mesmo e, quando
encarnada, ela se serve dos órgãos para se mostrar ao mundo tal qual ela é, na
soma de suas qualidades espirituais.
Os efeitos são anúncio de que
existe uma causa. Certamente que os órgãos materiais, como instrumentos do
Espírito, estando danificados, esse encontra dificuldades para expressar seus
sentimentos, e dar sua mensagem falada e por vezes escrita aos seus irmãos em
caminho.
E ainda mais, existe a
comunicação entre os dois mundos, desde quando o homem é homem; e a matéria
fica no meio das duas inteligências, em se servindo na ampliadora, e às vezes
condensadora, um reduz e outro amplia suas vibrações, para que exista a sintonia
de entendimentos; eis aí a mediunidade.
Se podemos dizer, a matéria é
oprimida, para que aconteça sua purificação. O Espírito “intelectualiza a
matéria”, e ela avança com o progresso, para fins que os próprios homens
desconhecem, embora alguns já tenham uma ideia do que poderá ser a matéria viajando
nos milênios incontáveis; pelo que sabemos, o princípio de todas as
diversidades dos dons reside no amor, amor esse ainda desconhecido nos liames
da carne.
Um exemplo dessa fonte pura se
encontra em Jesus Cristo, onde o amor era um celeiro de luz, de modo a tudo
fazer com uma simples vontade sua. Paulo, o apóstolo, chegou a compreender esse
amor de Jesus, e escreveu alguma coisa sobre ele nos seus sagrados pergaminhos.
Os cristãos da atualidade conhecem um pouco desse amor, mas, na feição da
teoria. Esse estado d’alma somente é conquistado ou despertado no correr de
bilhões de anos, no exercício do bem sem interrupção. A alma somente cresce no
Amor. Ele, por enquanto, se encontra dividido no mundo, para que os homens
possam suportar essa verdade mais profunda.
As faculdades do Espírito
independem dos órgãos; a alma precisa deles para realizar as comunicações na
faixa material, e essa comunicação pode ser cerceada pelas decadências dos
órgãos em questão. O Espírito encarnado, quando em duras provas, tem os seus
órgãos dificultando que ele expresse suas faculdades, que são interrompidas, no
sentido de que os sentimentos se eduquem para novas tarefas no porvir. Nunca,
porém, da matéria nasceram as faculdades inteligentes; a causa de todas elas se
encontra na alma, semente divina de Deus, que se reveste de variados corpos,
como se dá na própria natureza.
Pode-se dizer que o universo é o
corpo de Deus, tornando-se visível para os habitantes dos vários mundos. Esses
mundos, como os Espíritos, são instrumentos da vontade de Deus em todas as
direções da vida. Para confirmar a existência desse Pai de amor, basta
verificarmos entre as coisas com que lidamos, o que não foi criado pelos
homens. Quem as criou? A mecânica do universo e a harmonia da criação parte de
uma causa divina, na sublime expressão do amor... E lembremo-nos da palavra de
João, o Evangelista:
Deus é Amor!
Nenhum comentário:
Postar um comentário