quarta-feira, 15 de setembro de 2021

ESPIRITISMO E SOCIEDADE[1]

 

Marco Milani

 

“Se quiserdes que os Homens vivam como irmãos na Terra, não basta dar-lhes lições de moral; é preciso destruir a causa do antagonismo existente e atacar a origem do mal: o orgulho e o egoísmo”.

Allan Kardec – Obras Póstumas.

 

 A construção de uma sociedade melhor, baseada em relações justas, fraternas, em condições de liberdade e pleno desenvolvimento do indivíduo, ainda é um grande desafio para a humanidade. Essa questão não se restringe a um povo, nação ou bloco econômico, mas expande-se à maioria da população mundial, mesmo considerando-se as diversidades culturais existentes.

Obviamente ainda verificamos aqueles que permanecem sob um coercitivo isolamento cultural, refletindo o próprio estágio evolutivo em que se encontram. Desde o primeiro agrupamento familiar, passando pelas mais diferentes formas de relações políticas, sociais e econômicas, desenvolvemos as bases do conhecimento atual, orientados por um impulso evolucionista inerente ao Ser humano.

Motivação esta que não é derivada exclusivamente do processo histórico, como desejam alguns, mas é a manifestação da potencialidade do Espírito buscando a própria realização. Não cabe somente aos filósofos, economistas e sociólogos esta reflexão, visto que todos contribuem ativamente para o equilíbrio (ou desequilíbrio) social. O conhecimento formal do objeto – a sociedade – para uma análise crítica, favorece a identificação de pontos relevantes para a sua harmonia, porém nem todos estes pontos estão significativamente compreendidos.

Os séculos XVIII e XIX foram bastante fecundos em ideias e experiências nesse contexto, destacando-se a forte influência que muitos de seus pensadores legaram aos nossos dias. Naquela época, procuraram planejar e, muitas vezes, estabelecer os rumos da chamada sociedade “civilizada”, considerando principalmente as relações entre o Estado e Governo, justiça e liberdade, propriedade privada e comum, atividade produtiva e consumo. Naquele mesmo período, vozes de um outro movimento revolucionário faziam-se ouvir pelo planeta. Após séculos de dormência preparadora, aguardando a maturidade intelectual da humanidade, vigorosos sinais do mundo invisível atraíam a atenção para a sua realidade. Uma invasão das ideias espiritualistas procurava acordar os seres para este fato “admirável” nos diferentes continentes.

Não que tais fatos fossem novidade, pois a existência e comunicação com entidades espirituais constituem parte da crença de todos os povos da Terra, desde os primórdios da civilização até hoje. Esta comprovação é realizada pela Antropologia, considerando ainda que esta crença é a base de toda a filosofia das religiões. Porém, o entendimento destes fatos é que demandam um despertar intelectual.

Em 1857, vivenciando uma Europa onde fervilhavam projetos de transformações socioeconômicas e discussões de âmbito religioso, que uma das mais poderosas propostas para o desenvolvimento humano já vista surge de maneira clara, objetiva e lógica: a Doutrina dos Espíritos, por Allan Kardec. O advento do Espiritismo permitiu que o Espírito, elemento fundamental não considerado adequadamente nas demais doutrinas espiritualistas e ideologias políticas, sociais e econômicas florescentes, fosse abordado. Os preceitos cristãos revitalizaram-se sob o aspecto racional da doutrina que aproxima a ciência, filosofia e religião, desenvolvendo de forma límpida a essência moral dos ensinamentos de Jesus.

É justamente o conhecimento da realidade espiritual e de todas as suas consequências morais que norteia o comportamento de qualquer componente de uma sociedade para que essa possa apresentar, de fato, as condições propícias para a felicidade individual e coletiva. A Doutrina Espírita causa a verdadeira revolução, pois atinge a base do pensamento humano, a naturalidade do próprio Ser e sua relação com a realidade que o cerca. Modificando essa concepção, os valores morais são revistos e toda noção de sociedade é logicamente alterada (não destruída, mas aprimorada). Trata do aspecto social de maneira profunda, destacando a necessidade de que a real transformação ocorra no coração do Homem, combatendo com a fé raciocinada os maiores inimigos do progresso: o orgulho e o egoísmo. Com muita pertinência, invalida qualquer tentativa de imposição ao comportamento fraterno como aquele pretendido por governos autoritários, considerando que a fraternidade é resultado do aprimoramento moral e não de medidas governamentais. Valoriza a educação do indivíduo como fator transformador, conscientizando sobre o processo evolutivo do Ser. A liberdade e a meritocracia são as características esperadas de uma sociedade formada por cidadãos responsáveis e que se respeitam. Não há progresso sustentável sem a confiança e o investimento no presente para as gerações futuras, marchando com a certeza do bem-estar resultante dos atos equilibrados. Atos estes que são efetuados com coragem, determinação e uma fé inabalável, fundamentada na razão e na moral.

Neste final de século XX, percebemos que o impacto cultural gerado pelas novas formas de integração socioeconômicas (globalização) propicia um momento reflexivo de valores nunca antes alcançado. O acesso à informação e ao conhecimento deixa de ser privilégios de poucos para tornarem-se acessíveis a um número cada vez maior de pessoas em diversas nações. Depois de verificarmos o fracasso de sistemas políticos e econômicos que se escondiam sob a máscara da igualdade e justiça social, mas que procuravam impor seus preceitos pelo autoritarismo brutal, ainda nos deparamos com sérios problemas estruturais em âmbito mundial: desemprego, fome, analfabetismo, desrespeito aos direitos humanos etc. Imperceptível para alguns e muito lenta para outros, a perseverante transformação moral do planeta está em curso, decorrente da própria evolução do Ser. Espalham-se pelo mundo valorosos indivíduos e organizações de diversas crenças visando atenuar ou eliminar os desequilíbrios expostos, incentivando o progresso humano. Organizações de âmbitos religiosos, políticos, econômicos, civis etc. Mesmo que nem todos estejam conscientes do processo evolutivo do Espírito, todas as ações são meritórias se agem com sinceridade para alcançar esse objetivo, sem preconceitos ou violências de qualquer espécie.

Porém, desde a sua codificação, a Doutrina Espírita lança suas luzes de forma cada vez mais intensa, libertando consciências dos grilhões da ignorância que entravam o crescimento da Alma. Enquanto ideias e movimentos fragilizados não resistem ao tempo, a sua força reside na solidez de seus princípios. É a liberdade de consciência, o desenvolvimento pelo mérito e a convivência fraterna e ética pelo esclarecimento sobre a realidade espiritual e leis naturais que o Espiritismo busca promover.

 

Marco Milani

Fonte: Agenda Cristã

 

Notas do editor:

(1) Publicado no Boletim GEAE Número 387 de 21 de março de 2000  (https://www.geae.net.br/Boletins_GEAE/Boletins_html/geae387.html).

(2) Imagem ilustrativa e em destaque disponível em

( https://www.istockphoto.com/br/vetor/boulevard-haussmann-em-paris-fran%C3%A7a-s%C3%A9culo-xix-gm1219225002-356564411).  Acesso em: 16/07/2021.

terça-feira, 14 de setembro de 2021

PUNIÇÃO DO ATEU[1]

 

Allan Kardec

 

“Viagem pitoresca e sentimental ao Campo de Repouso de Montmartre e do Père-Lachaise”; por Ans. Caillot, autor da “Enciclopédia das Jovens”, e das “Novas Lições Elementares da História de França”. Tal é o título de um livro publicado em Paris em 1808, e que hoje deve ser muito raro. O autor, depois de historiar e descrever esses dois cemitérios, cita um grande número de inscrições tumulares, sobre cada uma das quais faz reflexões filosóficas, marcadas por profundo sentimento religioso, provocado pelo pensamento que as ditou. De início observamos a passagem seguinte, na qual se encontra claramente expressa a ideia da reencarnação:

Que sábio e que homem profundamente religioso foi o primeiro a chamar Campo de Repouso o último asilo deste ser cuja existência, até seu último suspiro, é atormentado pelos seres que o cercam e por si mesmo! Aqui todos repousam no seio da mãe comum, num sono que não é senão o precursor do despertar, isto é, de uma nova existência. Esses restos veneráveis a terra os conserva como um depósito sagrado; e se ela se apressa em os dissolver, é para depurar seus elementos e os tornar mais dignos da inteligência que os reanimará um dia para novos destinos.

Mais adiante diz:

Oh! Quanto o cego e audacioso mortal que ousou te expulsar de seu espírito e de seu coração (o ateu que renega a Deus) ficou admirado quando sua alma compareceu ante a Majestade infinita! Como não se viu seus despojos agitar-se e tremer de surpresa e de terror! Como sua língua gelada não se animou para exprimir o espanto de que estava ferida, quando a carne não mais se achou entre ela e teus divinos olhares! Grande Deus! Causa universal, alma da Natureza! Todos os seres te reconhecem e te celebram como teu único autor: só o homem desviaria de ti o espírito inteligente e racional que lhe dás para te glorificar? Ah! Sem dúvida, e apraz-me crê-lo, não houve um só dos quarenta mil mortais, cujos corpos jazem aqui no pó, que não tivesse a convicção de tua existência e o sentimento de tuas adoráveis perfeições.

Quando eu acabava de pronunciar com emoção estas últimas palavras, um ruído se fez ouvir ao meu lado. Lancei o olhar para esse lado e ‒ coisa admirável e inaudita! – Percebi um espectro que, envolto em sua mortalha, tinha saído de um túmulo e avançava gravemente para mim, para me falar. Esta aparição não seria um jogo de minha imaginação? É o que me é impossível assegurar. Mas o diálogo seguinte, que bem conservei, fez-me crer que eu não era o único interlocutor para dois papéis ao mesmo tempo.

Aqui faremos uma pequena observação crítica, primeiramente sobre a qualificação de espectro, dada pelo autor à aparição, real ou suposta. Esta palavra lembra muito as ideias lúgubres que a superstição liga ao fenômeno das aparições, hoje perfeitamente explicado, conforme o conhecimento que se tem da constituição dos seres espirituais. Em segundo lugar, sobre o fato de ele fazer essa aparição sair do túmulo, como se alma aí tivesse a sua habitação. Mas isto não passa de um detalhe de forma, devido a preconceitos longamente arraigados; o essencial está no quadro que ele apresenta da situação moral dessa alma, situação idêntica à que hoje nos revelam as comunicações com os Espíritos.

O autor relata como segue o diálogo que teve com o ser que lhe apareceu:

Quando o espectro se aproximou de mim, fez-me ouvir estas palavras com uma voz tal que me era impossível especificar o som, pois jamais tinha ouvido um semelhante entre os homens:

“Fazes bem em adorar a Deus. Guarda-te de jamais me imitar, porque fui um ateu”.

Eu – Então não acreditavas que existisse um Deus?

O Espectro – Não. Ou antes, eu fingi que não acreditava.

Eu – Que razões tinhas para não acreditar que o Universo foi criado e é governado por uma inteligência suprema?

O Espectro – Nenhuma. Por mais que procurasse, não encontrava pontos sólidos e estava reduzido a só repetir vãos sofismas, que havia lido nas obras de alguns supostos filósofos.

Eu – Se não tinhas boas razões para ser ateu, então tinhas motivos para o parecer?

O Espectro – Sem dúvida. Vendo todos os meus semelhantes penetrados da ideia de um Deus e do sentimento de sua existência, o orgulho que me cegava levou-me a me distinguir da multidão, sustentando a quem quer que me quisesse ouvir que Deus não existia e que o Universo era obra do acaso, ou mesmo que sempre tinha existido. Considerava como uma glória pensar neste grande assunto de modo diverso de todos os homens, e não achava nada mais lisonjeiro que ser considerado no mundo como um Espírito bastante forte para se levantar contra a crença comum de todos os homens e de todos os séculos.

Eu – Não tinhas outro móvel além do orgulho para abraçar o ateísmo?

O Espectro – Sim.

Eu – Qual? Dize a verdade.

O Espectro – A verdade!!... Sem dúvida eu a direi, pois me é impossível na ordem de coisas em que existo, combatê-la ou dissimulá-la.

Como todos os meus semelhantes, nasci com o sentimento da existência de um Deus, autor e princípio de todos os seres. Esse sentimento, que a princípio não passava de um germe, no qual meu espírito nada descobria, desenvolveu-se pouco a pouco; e quando atingi a idade da razão e adquiri a faculdade de refletir, não tive de fazer nenhum esforço para dele me livrar.

Quantas lições de meus pais e de meus mestres me agradavam, quando Deus e suas perfeições infinitas eram o assunto! Quanto me encantava o espetáculo da Natureza e que doce satisfação experimentava quando me falavam desse grande Deus, que tudo criou por seu poder, sustenta, governa e conserva tudo por sua sabedoria!

Entretanto, cheguei à adolescência e as paixões começaram a me fazer ouvir sua voz sedutora. Estabelecia ligações com jovens da minha idade; segui seus funestos conselhos e me conformei com seus perigosos exemplos. Entrando no mundo com essas disposições condenáveis, não pensei mais senão em lhe fazer o sacrifício de todos os princípios de virtude e de sabedoria que a princípio me havia inspirado. Esses princípios, diariamente atacados por minhas paixões, refugiaram-se no fundo de minha consciência e aí se transformaram em remorsos. Como esses remorsos não me deixassem nenhum repouso, resolvi aniquilar, tanto quanto estava em mim, a causa que os havia gerado. Achei que essa causa não era outra senão a ideia de um Deus remunerador da virtude e vingador do crime; e o ataquei com todos os sofismas que meu Espírito pôde inventar ou descobrir nas obras destinadas a espalhar a doutrina do ateísmo.

Eu – Ficavas mais tranquilo quando amontoavas sofismas sobre sofismas contra a existência de Deus?

O Espectro – Por mais que fizesse, o repouso me fugia incessantemente. Mau grado meu, eu estava convencido e, embora a boca não pronunciasse uma palavra que não fosse uma blasfêmia, não tinha um sentimento que não combatesse contra mim, em favor de Deus.

Eu – Que se passou contigo durante a moléstia de que morreste?

O Espectro – Eu quis sustentar até o fim o caráter de espírito forte, mas o orgulho me impedia de confessar o meu erro, não obstante sentisse interiormente uma premente necessidade. Foi nesta criminosa e falsa disposição que deixei de existir.

Eu – O que te aconteceu quanto teus olhos se fecharam para sempre à luz?

O Espectro – Encontrei-me inteiramente cercado pela majestade de Deus e fui tomado de tão profundo terror que não acho um termo que te possa dar uma ideia justa. Eu esperava muito ser rigorosamente punido, mas o soberano juiz, cuja misericórdia suaviza a justiça, relegou-me a uma tenebrosa região, habitada pelos Espíritos que tiveram mãos inocentes e cérebro doentio.

Eu – Qual a sorte dos ateus que cometeram crimes contra a sociedade de seus semelhantes?

O Espectro – O Ser dos seres os pune por terem sido maus, e não por se terem enganado, pois despreza as opiniões e só recompensa ou pune as ações.

Eu – Então não és castigado na morada tenebrosa onde estás exilado?

O Espectro – Aí sofro uma pena mais cruel do que podes imaginar. Deus, depois de me haver condenado, afastou-se de mim; imediatamente perdi toda ideia de sua existência, e o nada se me apresentou em todo o seu horror.

Eu – O quê! Perdeste inteiramente a ideia da Deus?

O Espectro – Sim. É o maior suplício que um Espírito imortal pode suportar, e nada pode fazer conceber o estado de abandono, de dor e de desordem em que se encontra.

Eu – Qual é, pois, a tua ocupação com os Espíritos submetidos ao mesmo suplício?

O Espectro – Nós nos altercamos incessantemente, sem nos entendermos. O desatino e a loucura presidem a todos os nossos debates e, na profunda escuridão em que se acha sepultada a nossa inteligência, não há nenhuma opinião, nenhum sistema que ela não adote, para logo os rejeitar e conceber novas extravagâncias.

É, pois, a agitação perpétua desse fluxo e refluxo de ideias sem fundamento, sem continuidade, sem ligação, que consiste o castigo dos filósofos que foram ateus.

Eu – A despeito de tudo, raciocinas neste momento.

O Espectro – É porque meu suplício logo vai terminar. Ele foi muito longo, porque, embora na Terra não se contem senão dois anos desde minha morte, sofri de tal modo essas loucuras que disse e ouvi, que me parece já se terem passado milhares de séculos na região dos sistemas e das disputas.

 

Depois de ter assim falado, o Espectro inclinou-se, adorou a Deus e desapareceu.

Quando me refiz da emoção causada pelo que acabara de ver e ouvir, meus pensamentos se reportaram às coisas espantosas que o espectro me havia ensinado. O que me disse do primeiro Ser corresponde à ideia que tão grande número de homens fizeram? Que acabo de ouvir? Quê! O próprio ateu, o horror de seus semelhantes, acabou por encontrar graça aos olhos desta Divindade que me apresentam como uma natureza vingativa e invejosa? Oh! Quem ousará dizer-me agora: Se não adotares tal ou qual opinião, serás condenado a eternos suplícios? Que bárbaro ousará dizer: Fora de minha comunhão não há salvação? Ser incompreensível e todo misericordioso, tu encarregaste alguém do cuidado de te vingar? É a uma vil criatura que compete dizer aos seus semelhantes: pensai como eu, ou sereis infeliz para sempre!

Que limites, grande Deus! Podemos nós, seres limitados que somos, fixar a tua clemência e a tua justiça? E com que direito eu te diria: Aqui tu recompensarás, ali tu punirás? Respondei, ó mortos que jazeis no pó! Foi possível a todos vós que tivésseis a mesma crença na qual eu nasci? Vossas inteligências foram todas igualmente tocadas por provas que estabelecem os mistérios que eu adoro e os dogmas nos quais creio? Oh! Como os degraus de uma crença seriam os mesmos em toda parte, assim como os degraus da convicção? Homem intolerante e cruel, vem, se tens coragem, sentar-te ao meu lado, e ousa dizer às vítimas da morte, cujas lições escutei:

Aqui sois quarenta mil. Pois bem! Não há senão dez, cinquenta, cem entre vós que o Deus vingador não devotou às chamas eternas!

Se esse fosse o discurso de um insensato, para que serviria a religião dos túmulos? Por que deveria eu respeitar as cinzas dos que adoram o grande Ser à minha maneira? É neste recinto, onde os inimigos de minha crença repousam, confundidos com seus sectários, que eu poderia ouvir as lições da verdadeira sabedoria? E de que impiedade eu me tornaria culpado, comunicando com inteligências reprovadas, a cujos despojos venho render uma homenagem inspirada pela religião, como pela Humanidade?



[1] Revista Espírita – Maio/1867 – Allan Kardec

segunda-feira, 13 de setembro de 2021

Nandor Fodor[1]

 


Nandor Fodor nasceu em Berengszasz, Hungria, em 13 de maio de 1895. Ele lembra que, durante o ensino médio, o chefe de sua turma previu: "Fodor, ele chegará a algum lugar”!

Ele estudou direito e fez seu Legum Doctor[2]. na Universidade Húngara Real de Ciências em 1917, atuando como assistente de direito entre 1917 e 21; ele também recebeu um Ph.D. Ele se casou com Amaria Iren em 1922 e eles tiveram uma filha.

De 1921 a 28, o segundo capítulo de sua profissão se tornou jornalismo. Por volta de 1921, ele fez sua primeira visita à América como repórter da equipe no diário em húngaro de Nova York Amerikai Magyar Nepszava (voz do povo húngaro americano). A descoberta casual de um livro pelo brilhante pesquisador e escritor psíquico Hereward Carrington disparou a imaginação de Fodor e deu uma nova direção aos seus interesses. O livro era “Fenômenos Psíquicos Modernos” de Carrington , publicado em 1919, e Fodor lembra que o encontrou em uma livraria na Fourth Avenue, Nova York, em 1921; depois disso, ele também encontrou sua principal vocação ‒ pesquisa psíquica. Em uma homenagem calorosa a Carrington em “Tomorrow” (inverno de 1959), Fodor escreveu:

Este trabalho foi uma revelação para mim. A partir de então, gastei meu dinheiro para almoçar em livros, aproveitando o conhecimento psíquico em vez da comida nutritiva dos restaurantes húngaros próximos ao meu trabalho. 

Ele procurou Carrington para uma entrevista em seu jornal; em vez disso, Carrington o convidou com cortesia a uma recepção para o grande Sir Arthur Conan Doyle, criador de Sherlock Holmes, o trabalhador mais sincero e incansável da causa do espiritismo. Na recepção, Fodor pôde entrevistar Conan Doyle.

Carrington teve uma influência profunda em Fodor. Tornaram-se amigos firmes e, embora não se encontrassem novamente por dez anos, corresponderam e depois colaboraram. É claro que, a partir de então, Fodor tomou Carrington como modelo para suas próprias atividades subsequentes como escritor e investigador de assuntos psíquicos, embora ainda não estivesse livre para concentrar suas energias em tempo integral nesses assuntos.

Em 1926, enquanto ainda era repórter em Nova York, Fodor também entrevistou Sandor Ferenczi, principal psicanalista e associado de Freud. Embora a psicanálise fosse nominalmente antipática ao oculto, Ferenczi e até o próprio Freud eram secretamente simpáticos a certos fenômenos psíquicos. Curiosamente, a psicanálise seria a segunda influência decisiva na vida de Fodor e ele estava destinado a vincular suas descobertas à pesquisa psíquica.

No ano seguinte, Fodor teve o que chama de "primeiro encontro com os mortos" em uma sessão com William Cartheuser, médium de voz, na cidade de Nova York. Fodor recebeu uma comunicação direta por voz muito comovente e evidente de seu pai morto. Muitos anos depois, Fodor ficou desiludido com a mediunidade de Cartheuser, mas nunca esqueceu o impacto emocional avassalador daquela primeira sessão. Ele escreveu um relato detalhado, publicado em seu livro “The Haunted Mind” (Helix Press, 1959).

Em 1929, após uma entrevista com o magnata do jornal Lord Rothermere, Fodor teve a sorte de obter uma posição privilegiada em sua equipe pessoal. Rothermere possuía uma cadeia de jornais nacionais britânicos ‒ Daily Mail , Daily Mirror , Evening News e Sunday Dispatch , e estava profundamente preocupado com a restauração da Hungria. O novo emprego de Fodor o levou para a Grã-Bretanha. Aqui, como secretário de Lord Rothermere, ele se preocupava com os assuntos húngaros, como a revisão do Tratado de Paz húngaro após a Primeira Guerra Mundial, mas se encontrava com bastante tempo livre e um escritório confortável em Fleet Street, Londres.

Foi nesse período que ele compilou sua famosa “Enciclopédia da Ciência Psíquica”. Foi um empreendimento fenomenal para um homem, e levou vários anos. Quando apareceu, em 1934, o próprio Fodor explicou como ele assumiu essa tarefa. Ele escreveu: 

Fiquei impressionado com o fato de, quando comecei meus estudos em pesquisa psíquica, onze anos atrás, que o pesquisador é confrontado por uma repetição sem fim à medida que prossegue.

Eu queria um guia e comecei a criar um índice próprio. A partir disso, com o passar do tempo, nasceu a ideia de uma enciclopédia alfabética.

Temos poucos livros abrangentes sobre ciência psíquica, e todos são coloridos por muita ou pouca fé. Podmore's modernos Espiritismo[3] * é um trabalho excelente, mas as suas vistas estreitas, à luz de um maior conhecimento atual, são irritantes e, ocasionalmente, irritante. 

A História do Espiritismo de Conan Doyle é muito superficial e inexata. Os Fatos da Ciência Psíquica de Campbell Holm lidam apenas com fenômenos e, para o propósito que tenho em mente, de uma maneira não suficientemente abrangente e discriminatória. A história da ciência psíquica de Carrington é mais um texto do que um livro de referência.

O que precisamos é de um trabalho padrão, que, de maneira imparcial, desapegada e impessoal, apresente todos os fatos da história, da pesquisa, dos fenômenos e da mediunidade, nos quais, a qualquer momento, podemos pôr as mãos em todos os fatos importantes.

Esta é uma boa descrição da Enciclopédia . Não há dúvida de que, após trinta anos, este livro ainda permanece como a principal obra de referência sobre o assunto no período coberto. Quando apareceu, estabeleceu a reputação de Fodor da noite para o dia como uma autoridade em questões psíquicas.

 Ele foi convidado para dar uma palestra sobre Espiritualismo e Pesquisa Psíquica e, em fevereiro de 1934, tornou-se Editor Assistente, sob David Gow, da Light , a mais antiga revista espiritualista britânica. Ainda existe, agora publicado pelo College of Psychic Science, em Londres, e a edição do outono de 1964 prestou uma bela homenagem a Fodor, da Miss Mercy Phillimore, que foi associada a seus primeiros trabalhos na Grã-Bretanha. Naqueles dias, embora Fodor fosse um jornalista brilhante e pudesse ler e escrever inglês com facilidade, ele tinha dificuldade em falar o idioma. Miss Phillimore lembra: 

Ele nunca deixou de falar e foi o primeiro a levantar quando o presidente declarou aberta a discussão. Esta foi a ocasião para um riso amigável da plateia, pois suas palavras jorraram ‒ de fato, espirraram ‒ em torrentes a uma velocidade incrível, e no turbilhão de sons havia muitos erros divertidos. Ele estava bastante disposto a aprender sobre seus erros de expressão e se juntou à diversão. 

Com a ajuda da Aliança Espiritualista de Londres, Fodor pôde participar de pesquisas com médiuns. Seu alegre entusiasmo por poder testemunhar os fenômenos que ele estudara anteriormente apenas em livros é divertido: 

A comoção causada por sua excitação não seria acreditada por ninguém que não estivesse presente; seus pulos e gritos encheram a sala com um barulho ensurdecedor. Obviamente, foi uma grande emoção para ele testemunhar aquilo que ele havia lido tanto, e o primeiro impacto trouxe aceitação de que os fenômenos eram genuinamente supernormais. 

Mais tarde, ele se tornou um pouco mais cauteloso e cético.

 O ano de 1934 foi importante para a pesquisa psíquica na Grã-Bretanha. Em 6 de junho, foi fundado o Conselho de Investigação Psíquica da Universidade de Londres, para assumir o trabalho do Laboratório Nacional de Pesquisa Psíquica, fundado por Harry Price em 1925. Price apresentou ao Conselho sua biblioteca, laboratório e equipamento. Ele havia realizado investigações interessantes, mas, em geral, os espiritualistas se opunham aos testes de laboratório por investigadores e cientistas céticos. Em um vigoroso artigo de jornal, o veterano espírita Hannen Swaffer comentou: 

... graus altos não impressionam ninguém, exceto jornais, e eles usaram tudo isso antes, como seus arquivos mostrarão, sobre outros institutos, todos terminando da mesma maneira que profetizo este - em nada O espiritismo preferiria ter um meio do que as investigações de mil cientistas. 

No início de 1934, outra organização surgiu - o Instituto Internacional de Pesquisa Psíquica, com um conselho de espíritas e não espíritas, dedicado a uma investigação compreensiva e sem preconceitos de fenômenos psíquicos. O Professor D.F. Fraser-Harris foi anunciado como Oficial de Pesquisa, mas renunciou por meio de um mal-entendido com o Conselho. Em seu lugar, o Dr. Nandor Fodor foi nomeado e, assim, iniciou seus anos de investigação prática sobre fenômenos psíquicos. Somente em 1938, Fodor também se envolveu em um infeliz mal-entendido com seu Conselho.

Enquanto isso, ele realizou uma série de investigações cuidadosas sobre transfiguração mediúnica, produção de apports, voz direta, levitação, assombrações, poltergeist e materializações. Ele também editou uma série de boletins valiosos emitidos pelo Instituto. Deve ter sido uma grande satisfação para Fodor que o primeiro deles, lidando com o fenômeno poltergeist, tenha sido uma colaboração com seu amigo Dr. Hereward Carrington, que era diretor de pesquisa do Instituto Psíquico Americano de Nova York. Mais tarde, seu modesto livreto de 44 páginas tornou-se a base de um livro mais substancial, “Haunted People” (Nova York 1951), edição britânica intitulada “A História do Poltergeist”, Down the Centuries (Londres, 1953).

Entre abril e maio de 1934, Fodor também escreveu uma série de artigos populares sobre médiuns, Espiritismo e Pesquisa Psíquica, para o jornal Bristol Evening World; estes foram reimpressos em forma de livro como “These Mysterious People” (Londres, 1934). Este talvez seja o trabalho popular mais claro, confiável e legível do gênero já publicado, cobrindo personalidades e fenômenos importantes e formando uma das melhores introduções gerais ao assunto.

Durante seu tempo na Grã-Bretanha, Fodor conheceu a Dra. Elizabeth Severn, uma conhecida psicanalista praticante que havia sido aluna de Sandor Ferenczi. Esse contato renovou seu interesse pela psicanálise. Naquela época, ainda havia considerável preconceito contra o sujeito na Grã-Bretanha, pois tratava da questão explosiva das motivações sexuais. Fodor, no entanto, acreditava que a psicanálise poderia lançar uma luz importante sobre os fenômenos psíquicos.

Embora ele pareça ter um talento natural para o assunto, suas teorias e investigações psicanalíticas estavam muito adiantadas para serem geralmente aceitáveis, e algumas de suas melhores observações não foram justificadas até muitos anos depois. Na Introdução à “História do Poltergeist” ao longo dos séculos (Londres, 1953), o Dr. Carrington revisou a tendência crescente de investigadores psíquicos de considerar os estados emocionais e os impulsos inconscientes em assuntos mediúnicos, com particular referência aos fenômenos poltergeist. Depois de se referir a um artigo inicial do Dr. James Hyslop, ele comentou:

... Além de algumas observações clínicas de Eusápia Palladino , este permaneceu praticamente o único estudo do gênero até as análises psicanalíticas do Dr. Nandor Fodor de vários casos de poltergeist. 

Em 1944, o Dr. John Layard, em um artigo sobre "Fenômenos Psi e Poltergeists" ( Proceedings SPR, julho de 1934, pp. 237-47) concluiu: 

... todos os verdadeiros fenômenos poltergeist ... são propositais e provavelmente ocasionados por condições de tensão não resolvida na psique daqueles que os produzem involuntariamente. 

Mas esse era um conceito revolucionário na década de 1930, quando Fodor conduziu suas próprias investigações, e precisou de muita coragem para manter tais visões. Ele foi severamente criticado pelos espíritas por introduzir um assunto tabu na pesquisa psíquica.

 Duas das importantes investigações de Fodor deveriam ter resultados de longo alcance. Estes eram o “Ash Manor Ghost” e o “Thornton Heath Poltergeist”, totalmente relatados em “The Haunted Mind de Fodor” (Helix Press, 1959).

Foi em 1936 que ele investigou a estranha história dramática do “Ash Manor Ghost”, na qual parecia que as assombrações ocorreram por causa de relações sexuais anormais na família em questão. As energias sexuais suprimidas pareciam fornecer uma atmosfera na qual um fantasma poderia continuar se manifestando. Surpreendentemente, o diagnóstico básico do caso foi através do guia espiritual de um médium brilhante que Fodor trouxe para o caso. Esse médium foi a senhora Eileen J. Garrett , que mais tarde chefiaria a Parapsychology Foundation na América.

O Thornton Heath Poltergeist, que ele começou a investigar em fevereiro de 1938, foi um caso sensacional de uma mulher que produziu fenômenos poltergeist notáveis ​​e parecia ser vítima de vampirismo. Qualquer que fosse a natureza objetiva dos fenômenos, Fodor logo descobriu que a ocorrência deles estava intimamente relacionada aos problemas pessoais da mulher em questão. Isso apresentou uma dificuldade peculiar. Como Fodor escreveu em “The Haunted Mind” : 

O pesquisador psíquico é forçado a ver seus sujeitos como material para investigação, mas não necessariamente como seres humanos. O psicanalista pode ir além. Seu objetivo é analisar, encontrar a falha e, se possível, curar e promover um novo ajuste à vida. 

Como experimentador e observador, seria antiético mudar para um relacionamento analista-paciente sem total compreensão e concordância.

Antes que Fodor pudesse resolver essa situação delicada, a oposição às suas visões psicanalíticas explodiu em uma crise que afetava sua própria posição como Oficial de Pesquisa do Instituto Internacional de Pesquisa Psíquica. A notícia de suas teorias e descobertas sexuais vazou, e isso, entre parênteses com sua vigorosa exposição a fraudes mediúnicas, despertou intenso antagonismo. Em uma obra obscura, “Consciousness Creative” (Boston, 1937), ele contribuiu com um ensaio que afirmava:

Por razões de propriedade pública, a mediunidade raramente é discutida do seu ângulo mais importante: o do sexo. 

Isso foi violentamente criticado pela imprensa espírita popular na Grã-Bretanha. Horace Leaf, um famoso médium e escritor espírita, veio em defesa de Fodor, afirmando: 

Devido à natureza peculiar do assunto, o Dr. Nandor Fodor restringiu sabiamente sua publicação a trimestres, o que garantiu que ela seria lida apenas pelos interessados ​​nos aspectos mais técnicos e científicos da mediunidade ... 

O artigo do Dr. Fodor é escrito em um estilo adequado ao assunto e cuidadosamente restringido em tom. Um assunto tão delicado e suscetível de mal-entendidos exige linguagem científica, caso contrário, abordaria a vulgaridade. O Dr. Fodor deve ser parabenizado pela excelente maneira com que ele lidou com isso.

Apesar dessa atitude sensata e temperada, um revisor atacou Fodor em termos irrestritos: 

Embora ele nem suspeite, o Dr. Nandor Fodor, oficial de pesquisa do Instituto Internacional de Pesquisa Psíquica, confessou sua incrível ignorância sobre a natureza dos fenômenos psíquicos em um curioso ensaio em um livro muito curioso ... 

O revisor passou a falar de "Este insulto aos grandes guias espirituais ...". Outros artigos foram publicados, censurando Fodor e questionando sua competência, até que um dia, em fevereiro de 1938, ele emitiu um mandado de difamação contra o jornal em questão. Outras repercussões se seguiram. J. Arthur Findlay , uma das figuras mais respeitadas do movimento espírita, era um dos principais acionistas da empresa proprietária do jornal e também presidente do Instituto Internacional, do qual foi fundador. Ele achava que não podia mais ser associado ao Instituto nessas circunstâncias e, portanto, renunciou ao cargo. Enquanto isso, o próprio Instituto encerrou a investigação de Fodor sobre o caso “Thornton Heath” e, em agosto de 1938, o Conselho do Instituto enviou uma carta a seus membros, que foi aberta:

Prezado senhor / senhora,

 Depois de analisar cuidadosamente e considerar a política do Instituto, o Conselho decidiu que o emprego de um diretor de pesquisa em tempo integral não se justifica. Consequentemente, encerraram com lamentação o envolvimento do Dr. Nandor Fodor, que não está mais conectado ao Instituto nessa ou em qualquer outra capacidade. 

Atormentado por essa demissão peremptória, Fodor escreveu uma resposta animada em 2 de setembro, também publicada na revista “The Occult Review” (outubro de 1938): 

Estive de férias na França. No meu retorno, apreendi com surpresa considerável que não era mais diretor de pesquisa do Instituto Internacional de Pesquisa Psíquica. O comunicado que você publicou na semana passada foi enfático ao afirmar que eu não estava mais conectado ao Instituto "nessa ou em qualquer outra capacidade". O aviso público pode fazer as pessoas se perguntarem se eu tenho cometido uma contravenção ou se era esperado cometê-la sob falsos pretextos. Deixe-me esclarecer primeiro que fui um dos fundadores do Instituto Internacional de Pesquisa Psíquica. Dirijo sua pesquisa há quatro anos com considerável sacrifício. Eu construí o Instituto com meu suor e sangue. Pertencia a mim mais do que a qualquer membro do Conselho. No entanto, o atual Conselho do Instituto não se sentiu de modo algum obrigado a me informar que meus serviços não seriam mais desejados e a me dar uma chance justa de demissão ... 

Fodor revelou que o Instituto também apreendera o manuscrito de seu novo livro. Ele desafiou o Conselho a informar os membros de toda a verdade sobre o assunto e concluiu: "Tenho direito à satisfação. Quero obtê-lo". Isso foi conversa de luta!

Durante esse período de uma ruptura aberta com os espiritualistas, ele se sentiu livre para expressar sua opinião sobre alguns dos níveis mais baixos do movimento. Sua própria infelicidade por ser forçada a uma posição desagradável se refletiu em uma nova série de artigos contundentes para “The Leader”, nos quais, com um jornalismo talentoso, ele agora escreveu sobre "impostura vergonhosa".

Eu respeito as profundas convicções religiosas dos espiritualistas sinceros", declarou, "mas não consigo ficar calado sobre alguns de nossos milagres.

A série foi anunciada: "INICIANDO O MAIOR SHOWUP DE ESPIRITOS 'MILAGRES' JÁ IMPRESSOS". "Eu exponho as vergonhas do espiritismo". As manchetes posteriores diziam: "Desmascaro os fantasmas de musselina e de tecido de queijo ..." Eu desrespeito esses 'presentes do céu'. "Os espiritualistas ficaram alarmados com esse rasgar dos véus, e Fodor foi criticado por seus ex-associados. acusado de agora ser um "amigo muito duvidoso", ele respondeu ( Light , 10 de novembro de 1938): 

No Espiritismo, infelizmente, alguém deixa de ser considerado amigo se ele fala a verdade desagradável.

No que deve ter sido o capítulo mais infeliz de sua vida, Fodor repentinamente conseguiu apoio inesperado para sua posição e reconhecimento de sua visão psicanalítica da mais alta autoridade. O próprio professor Freud, então na Grã-Bretanha, concordou graciosamente em ler o manuscrito de Fodor e, no decorrer de uma carta de 22 de novembro de 1938, escreveu com simpatia: 

Seu afastamento do interesse em saber se os fenômenos observados eram genuínos ou fraudulentos, seu direcionamento para o estudo psicológico da médium e a descoberta de sua história anterior, parecem ser os passos importantes que levarão à elucidação dos fenômenos sob investigação.

É lamentável que o Instituto de Pesquisa Psíquica não o siga. Eu também considero muito provável que suas conclusões sobre este caso em particular estejam corretas ... (texto em alemão e tradução completos no artigo: por Fodor: "Freud e o Poltergeist", " Psicanálise, Journal of Psychoanalytic, Psychology , vol. 4, n. 2, inverno de 1955-56). 

Fodor escreveu uma carta feliz e generosa ao editor da “The Occult Review” , publicada em janeiro de 1939: 

Senhor,

Eu ficaria feliz se você me permitisse afirmar que minhas diferenças com o Conselho do Instituto Internacional de Pesquisa Psíquica foram novas e amigáveis.

O manuscrito mencionado em minha carta de 8 de setembro agora me foi devolvido e estou tomando providências para sua publicação antecipada. Representará meus pontos de vista pessoais e de forma alguma vinculará o Conselho do Instituto Internacional.

Entendo que me seja prestado reconhecimento pelos meus serviços passados ​​em uma declaração que os membros receberão em breve. De minha parte, desejo boa sorte ao Conselho por seus futuros trabalhos e espero sinceramente que sua nova política receba o mesmo apoio caloroso de que desfrutei nos últimos quatro anos. 

O caso de difamação não terminou tão feliz. Fodor reclamou de quatro artigos que, segundo ele, o haviam difamado. O julgamento foi proferido em março de 1939. Como um advogado Fodor conduziu parcialmente seu próprio caso, e recebeu uma indenização de 50 guinéus cada, em relação a dois dos artigos, segundo o júri do jornal em relação aos outros dois. Pode parecer que o resultado foi dividido igualmente, mas, para o jornal, foi um golpe forte que drenou fundos vitais e fez má publicidade ao espiritismo. Fodor reivindicou sua reputação, mas a diferença entre pesquisadores psíquicos e espíritas havia aumentado.

A essa distância, tudo isso pode parecer uma série de questões domésticas triviais, mas no pequeno mundo do Espiritismo Britânico e da Pesquisa Psíquica da época, essas questões eram críticas. Eu acho que é uma pena que o assunto tenha chegado ao Tribunal. Talvez alguns dos ataques a Fodor tenham sido extremos e sua formação jurídica sugerisse um remédio óbvio. Mas, naqueles dias, o espiritismo tinha que estar muito na defensiva e só podia manter sua posição com jornalismo vigoroso ‒ "desafios", "linguagem clara, sem medo ou favor" etc. ‒ para fortalecer a solidariedade emocional dos postos espíritas. Por trás de toda essa indignação espreitava a posição precária dos espíritas, a perseguição aos médiuns e a arrogância de muitos investigadores científicos cultos.

Do ponto de vista de Fodor, ele sentiu sua honra ser impugnada e seu status de pesquisador competente prejudicado. Como ele não era médico ou psicanalista credenciado, suas ideias únicas sobre as relações entre médiuns e motivações psicanalíticas foram injustamente desacreditadas. Ele também teve que defender sua posição. A falha real estava na perspectiva estreita dos tempos.

Logo após o caso, Fodor voltou para a América. Aqui ele praticou com sucesso como psicanalista em Nova York e retomou a cidadania americana. Aqui também ele renovou o contato com seu velho amigo Dr. Hereward Carrington, com quem ele tinha muito em comum.

Em 1934, Carrington havia escrito para reconhecer uma cópia da Encyclopaedia de Fodor e parabenizá-lo pela "tremenda quantidade de trabalho" que havia nela. Não foi até dois anos depois que Fodor descobriu que o próprio Carrington estava trabalhando em um projeto semelhante que ele generosamente entregou.

Para o Dr. Fodor, psicanalista, a atmosfera na América era mais favorável a novas ideias, e a própria psicanálise firmemente estabelecida. Nesta última fase de sua vida, ele também conseguiu combinar seus antigos interesses de jornalismo e pesquisa psíquica, mas agora os dias de campanha haviam terminado e suas contribuições eram aceitáveis ​​em revistas especializadas. Ele elaborou suas ideias estimulantes sobre conexões entre fenômenos psíquicos e psicanálise. Seus estudos no campo da análise significativa dos sonhos haviam aumentado o interesse por se basearem em suas próprias experiências pessoais. Ele também escreveu muitos artigos para o bom jornal “Tomorrow” , editado pela Sra. Eileen J. Garrett, a quem ele conhecia como um médium talentoso na Grã-Bretanha. Como mencionado anteriormente, quando o Dr. Carrington morreu, em 26 de dezembro de 1959, Fodor escreveu uma homenagem profundamente sentida na edição de inverno de 1959 de Amanhã.

Durante o último período de sua vida, Fodor modificou consideravelmente algumas de suas atitudes anteriores, e talvez os espiritualistas britânicos tenham ficado satisfeitos ao ler sua declaração notavelmente franca em um artigo do “Psychic Observer” em 1943:

Minha atitude em relação aos fenômenos psíquicos sofreu uma tremenda mudança desde que deixei a Inglaterra. Então eu era um investigador psíquico, seguindo as técnicas de rotina. Uma mão livre para o pesquisador não é nenhuma para o meio. Agora sou psicólogo e minha atitude é exatamente o oposto: uma mão livre para o médium, nenhuma para o pesquisador. 

Ele confessou que "não tinha mais alegria em amarrar médiuns e exaltar descobertas instrumentais" e comentou:

Vejo agora que pesquisas psíquicas tentam ser muito científicas há anos e acabam falindo como resultado. Os médiuns não funcionam bem se são usados ​​como cobaias. São seres humanos com as mesmas virtudes e vícios que os próprios pesquisadores.

É essa imparcialidade essencial, a capacidade de avaliar cuidadosamente seus julgamentos e até revisar seus pontos de vista, que confere ao trabalho do Dr. Nandor Fodor um valor tão duradouro. Em 1956, ele escreveu um ensaio inflamado defendendo o falecido Harry Price de ataques contra ele em um novo livro, enquanto em 1963 ele estava igualmente indignado com a publicação do controverso livro de Trevor Hall, “The Spiritualists”, que tentou desacreditar Sir William Crookes e a famosa médium Florence Cook.

 Em uma carta publicada no Journal of the Society for Psychical Research (dezembro de 1964), o Sr. David Cohen, autor de um livro sobre Harry Price, escreveu: 

Antes de sua morte, o Dr. Nandor Fodor me expressou em uma carta seu medo de que novas denigrações de pesquisadores mortos se seguissem às de Price e Crookes, e agora a FWH Myers foi incluída ... Quem será o próximo na lista ? As palavras finais do Sr. RS Lambert em seu prefácio devem ser atendidas por todos os pesquisadores: 'Precisamos de mais tolerância, menos cinismo e maior respeito pela natureza humana'. 

O próprio Dr. Fodor foi responsável por nove livros importantes e muitos artigos valiosos. Em 1962, seu livro “Mind Over Space” (Nova York) revisou o estranho fenômeno do teletransporte. No momento de sua morte, seu trabalho final, “The Voice Within”, um estudo dos primeiros anos de Freud, não era publicado. Em 17 de maio de 1964, o próprio Dr. Fodor atravessou a fronteira daquele grande desconhecido que estudara e investigara durante tantos anos de sua vida.



[2] Legum Doctor (Latim) - Doutor

[3] Este trabalho clássico foi reeditado pela University Books Inc. sob o novo título Médias do século XIX em 1963, com uma importante introdução do Dr. EJ Dingwall. As opiniões de Podmore certamente são injustamente céticas, mas o livro é valioso para sua pesquisa histórica e não para suas opiniões dogmáticas. 

quinta-feira, 2 de setembro de 2021

A MATÉRIA É EFEITO[1]

 

Miramez

 

Poderíamos encontrar a causa primária da formação das coisas nas propriedades íntimas da matéria?

‒ Mas, então, qual seria a causa dessas propriedades? É sempre necessária uma causa primária.

Atribuir a formação primária das coisas às propriedades íntimas da matéria seria tomar o efeito pela causa, pois essas propriedades são em si mesmas um efeito, que deve ter uma causa.

Questão 7 – O Livro dos Espíritos

 

Indubitavelmente que a matéria tem vida. No seu seio mais íntimo notar-se-ão fenômenos que por vezes escapam à inteligência humana. Há, pois, obediência às leis sutis que governam e sustentam toda a Criação. Tudo isso que notamos na matéria e que a observação científica comprova são efeitos da Grande Inteligência, que denominamos, com toda satisfação, Deus.

Nós, no mundo espiritual, e na ação que nos cabe pesquisar, continuamos em estudos profundos sobre o Criador. Assistimos, em lugares apropriados, a luminares da eternidade expondo conceitos que já puderam comprovar sobre o Grande Foco, sua vida e sua interferência em todas as direções da sua casa universal.

E eis que, para passar aos encarnados o que ouvimos é necessário que obedeçamos a certas regras da comunicação com os seres, ainda envolvidos nos fluídos da carne.

Deus é realidade absoluta; o que podemos dizer é que Ele vibra em tudo que existe.

Falando na mesma frequência dos homens, Ele é personalidade distinta no centro das suas criatividades. Repitamos novamente: Ele é Espírito. Se assim podemos dizer, o Criador é único, porém, no seu gesto de trabalho se faz binário. O que podemos observar na extensão infinita é que Ele aparece e desaparece entre duas respirações do seu dinâmico poder de viver, e seu hálito divino interpenetra todas as coisas, marcando a sua presença, semeando vida e dinamizando forças.

Somente poderemos conhecer um pouco do Grande Espírito pelos seus atributos. Avançar mais, onde os nossos sentidos não alcançam, é perda de tempo e falta de compreensão e obediência a determinadas leis, que marcam os limites do nosso saber. Se queres entender mais, a meditação, depois do trabalho honesto, é um caminho excelente para o conhecimento mais acentuado do Criador. Nós O conhecemos mais, não pelos números, nem por ouvir falar; sentimos sua presença quando a consciência se apoia no dever cumprido. Os Espíritos puros sentem Deus na profunda sensibilidade e expressam uma tranquilidade imperturbável no coração.

A matéria é a mais baixa vibração da Divindade, é caminho criado por Ele para o despertar dos seus filhos, que saem das suas mãos luminosas e voltam para o ser íntimo de vida. Essa viagem é um tanto ou quanto extensa, competindo a cada criatura fazer a sua parte, na aquisição da sua própria paz espiritual. Os sentidos dos homens, mesmo dos mais elevados, em comparação com a pureza espiritual dos benfeitores da humanidade, são apagados, pois se distanciam milhões de anos entre uns e outros na escala evolutiva, mas, alegramo-nos em dizer que eles também passaram por onde estamos, como estamos avançando para o reino onde eles permanecem trabalhando.

Voltando ao assunto inicial, dignamo-nos a responder que, no íntimo da matéria poderás encontrar Deus, porque as propriedades da matéria falam d'Ele, da sua grandeza espiritual, desde que tenhamos sentido para tal pesquisa. Porém, esses fenômenos não são o Criador; são efeitos da Causa Primária, manifestando-se nas formas transitórias. Pulsa na matéria a vida universal, o fluído cósmico vibrante, dirigido pela mente do Criador e obediente aos seus sentimentos. Ele sabe de tudo e está em tudo, através dos seus atributos espirituais.

A matéria, por mais evoluída que seja, não demonstra inteligência. Ela é movida pela Inteligência Suprema. Em se falando da Terra, somente no homem começa a despertar a razão, que é consequência do princípio inteligente, mesmo assim, sob o comando da Inteligência Maior, Deus.



[1] Filosofia Espírita – Volume 1 – João Nunes Maia

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

ESPÍRITOS E MÉDIUNS[1]

 

Espírito William Thomas Stead

 

É tão difícil para os espíritos voltarem para a Terra como é para vocês penetrarem nos reinos dos espíritos. Não temos mais a faculdade dos viventes na substância física. Isso nos foge, assim como as substâncias dos planos superiores fogem de vocês.

Temos impressões e sensações análogas as de vocês, mas tão diferentes. Temos luzes, cores e sons, mas eles apenas distantemente se assemelham àqueles que conhecem como tais. Temos necessidades que nos lembram de sede, fome e sono, mas que são mais necessidades da inteligência do que do corpo.

A despeito de todos nossos desejos de responder aos seus apelos, somos muitas vezes impedidos de fazer como esperamos, pelas diferenças dos planos.

Sempre direi que é mais fácil para você ir aos EUA do que nós irmos até você. O sono permite-lhe a entrar em contato conosco mil vezes melhor do que pode todos os médiuns no mundo, e a ajuda que somos capazes de dar-lhe deste modo é de longe mais preciso e eficaz.

 

Faculdades espirituais do homem

Médiuns são realmente apenas intérpretes medíocres dos espíritos, um meio casual pelo qual são obrigados a ajudar a si mesmos enquanto esperam por algo melhor ‒ quero dizer, até os sentidos espirituais que devam completar os sentidos físicos terem se desenvolvido nos seres humanos. É anormal que os mortos tenham de voltar ao físico, como são obrigados quando se manifestam. As almas dos mortos, excetuando o primeiro período após a morte, nada têm a fazer com a Terra diretamente, pois sua evolução espiritual os leva para bem longe daquela baixa esfera onde a humanidade luta.

É o homem quem deve ir aos espíritos ao desenvolver em si mesmo suas faculdades espirituais. E tal capacidade a todos é dada. Possuem os embriões das faculdades espirituais cujas ações resultam em intuição, inspiração e impulsos, as origens dos quais não sabem como traçar, pois estão emersos no próprio corpo físico, vivendo apenas para ele e não tomando conhecimento de sua alma.

Agem e pensam como se fossem homens físicos para sempre e, muito raramente, como se fossem e continuassem a ser espíritos, contudo, são sempre espíritos, mesmo quando estão em corpos físicos. A alma seria mais sensível se se ocupassem mais com isso e os mortos manifestar-se-iam melhor.

 

Como as mensagens são afetadas

Voltando aos médiuns. Eles são, no máximo, um meio medíocre de correspondência. Os pensamentos transmitidos por eles são embaralhadas pelo peso de seus corpos físicos e deformados pela resistência de seus cérebros. Estão em perigo de espíritos maliciosos e quanto mais inteligente e malévolo o espírito é, maior é o perigo.

Tirando inteiramente os perigos e considerando apenas as mensagens, descobrirá que são muitas vezes distorcidas quando são dadas pelo intermédio de um médium.

Se o espírito manifestante quer ele mesmo explicar certos fatos de uma natureza complicada ‒ como, por exemplo, a constituição espiritual do homem ‒ e se ele quer desenvolver noções que não são ainda genericamente aceitas pelas pessoas, ele encontrará intransponíveis obstáculos, e a mensagem sairá insuficiente e mutilada. Como estilo da relação, o maior escritor apenas obterá escritos banais de um médium sem cultura.

Há terríveis obstáculos para transpor quando devemos usar um corpo estranho como intermediário (como quando um médium está em transe).

Muitas vezes acontece de parcialmente perdermos algumas de nossas faculdades e estarmos em tortura quando expressamos uma ideia que, sob a forma que é dada mais tarde pelo médium, falhamos em nos fazer reconhecer ou o reconhecimento é apenas sutil.

Não é nossa falta, ou do médium, se as personalidades terrícolas sufocam e constrangem-nos.

 

Auras dos Médiuns

Vou tentar dizer algo sobre as auras dos médiuns. Sabem que é a radiação de seus fluidos que se dá o nome de "aura” [2]. A qualidade da aura difere grandemente em diferentes pessoas. Algumas têm uma irradiação que é muito poderosa, elevam-se bastante e protegem o médium, como se ele estivesse dentro de uma concha. Em tais casos, é difícil para os espíritos o alcançarem. Quando se aproximam, são repelidos como se por uma corrente elétrica. Não podem tomar posse do médium e são forçados a trabalhar de outra maneira.

É sabido que se há dois pianos na mesma sala afinados iguais e se tocar uma tecla em um, a mesma tecla no segundo vibra em harmonia com a primeira. Então, no caso de uma aura de longo alcance, os fluidos espirituais devem se postos de acordo com os do médium, a fim de fazer com que os fluidos do médium vibrem em concordância com o do espírito.

Se o médium é muito sensível e o espírito é capaz, resultados bons e, às vezes, excelentes serão obtidos. Este é o caso com a mediunidade indireta ou "intuitiva". Chamo de "indireta" por que o espírito não pode tomar posse do médium, pois só pode trabalhar de certa distância dele. Devido a isso que as comunicações recebidas "intuitivamente", embora maiores, mais desenvolvidas e muitas vezes mais elevadas comunicações são menos precisas do que aquelas através de um médium "direto".

Poucos fatos, distintos das noções, são enviados através de médiuns deste tipo. Vibrações de fatos, tais como nomes e datas, não são da mesma natureza das vibrações que transmitem pensamentos morais ou metafísicos. Elas são de um plano mais material e são de uma onda muito curta para alcançar o centro sensível de um médium que tem uma aura poderosa. Em comunicações "intuitivas", o espírito permanece longe do médium, no outro fim de sua irradiação, de onde apenas as vibrações que são suficientemente longas podem alcançar a mente do médium.

Médiuns "intuitivos" não estão em contato com espíritos inferiores. Eles podem apenas se comunicar com espíritos suficientemente avançados.

Suas auras, ou conchas protetoras, não são facilmente penetradas.

 

Penetrando a concha

Médiuns cujas auras são facilmente penetráveis atraem mais espíritos, e quanto mais permeável é a aura, mais precisas serão as manifestações. Se um espírito é capaz de entrar inteiramente dentro da aura de um médium, ele pode lembrar aos seus ouvintes os mais exatos fatos sobre sua existência terrícola, pois ele é o mestre incontestável dos órgãos do médium. Ele pode tomar controle total do corpo durante um transe completo e parcial em um semi-transe, quando o médium permanece consciente.

Geralmente, a aura pode apenas ser penetrada em um ponto. Por exemplo, o psicógrafo que pode ser feito a dar mensagens em uma língua ignorada por ele, não pode ver as visões dadas ao clarividente ou escutar as palavras ditas ao clariaudiente.

Uma certa quantidade de fluido etérico [3] é tomado do corpo físico para movimentar objetos, para girar as mesas etc. Se a aura do médium é facilmente penetrável, o fenômeno será de um tipo inteligente; se a aura for difícil de influenciar, os movimentos efetuados serão de pouca inteligência.

No momento, o médium cuja aura pode ser penetrada por espíritos está exposto a muitos perigos, pois a porta está aberta a todos os tipos de influência, e se sua vontade for débil ou sua moralidade dúbia, ele se tornará vítima de espíritos errantes maliciosos. Para isso, pode ser vítima sem ir a sessões. Muitas pessoas possuem auras facilmente penetráveis e são influenciadas por entidades que são atraídas a elas por suas vontades instáveis e seus maus pensamentos.

 

Padrão moral elevado é a melhor proteção

As duas grandes classes de médiuns ‒ a indireta ("intuitiva") e a direta (aqueles através dos quais efeitos físicos são produzidos) ‒ são divididas e subdivididas, de acordo com a natureza de seus fluidos e da qualidade de suas mentes.

Sra. Piper[4], por exemplo, uma médium cuja aura era admiravelmente permeável, tinha ao mesmo tempo um padrão moral elevado e uma inteligência bem desenvolvida; ela era praticamente inalcançável aos espíritos malévolos. Outros, cujas auras são menos permeáveis que a dela, são vítimas para as terríveis influências devido suas débeis vontades e más morais.

Quando um médium tem uma aura que pode ser penetrada, espíritos são capazes de entrar em seu ser psíquico com grau de facilidade de acordo com a afinidade entre o espírito e o médium.

Um espírito de elevado caráter não pode se aproximar de um médium muito material sem sofrer como se asfixiado, por vezes perto de se tornar inconsciente; mas, com o mesmo médium, um espírito grosseiro poderia se sentir bem à vontade. Por outro lado, com um médium de um tipo mais refinado, o espírito grosseiro se sentiria como um camponês em uma sala de desenho, ele não saberia como agir.

Alguns médiuns têm fluidos que estão em harmonia com apenas uma categoria de espíritos e só podem produzir fenômenos quando trabalham com tal categoria. Outros possuem fluidos adaptáveis e podem entrar em comunhão com muitos tipos de entidades espirituais.



[1] COMUNICAÇÕES COM O OUTRO MUNDO – Os métodos certos e errados – WILLIAM T. STEAD - Psicografado por MADAME HYVER - Editado por ESTELLE W. STEAD – Londres 1921 - www.autoresespiritasclassicos.com - Tradução Wellington Alves – Novembro/2011

[2] Precisamente o que é a aura ainda está além do poder da ciência dizer, embora investigações agora em progresso prometam consideravelmente estender o conhecimento. Na pesquisa psíquica, a aura é dita como uma influência ou irradiação da alma, ou corpo psíquico. O Century Dictionary assim a define: "uma substância imponderável supostamente emanada por todos os seres vivos, constituída de uma essência sutil do indivíduo, como meio de manifestação do que é chamado magnetismo animal, e também um meio da operação do hipnotismo, clarividência e poderes sonambúlicos".

[3] Fluido etérico significa o "plasma", ou forma psíquica da matéria, descrita pelo Dr. Crawford, de Belfast, em seu livro “The Psychic Structures at the Goligher Circle” (As Estruturas Psíquicas na Corrente Goligher, sem tradução em português), e por Dr. Gustave Geley, cientista francês, em From the Unconscious to the Conscious (Do Inconsciente ao Consciente, igualmente sem tradução em português). Esta substância, afirmam, enquanto permanecendo invisível à vista normal, pode, às vezes, ser tocada e já foi fotografada (há reproduções no livro do Dr. Crawford) e também pesada. É com ela que, de acordo com Dr. Crawford, sob certas condições, objetos podem ser movidos sem a causa ser visível pelos observadores.

[4] A Sra. Piper era a médium em um grande número de sessões realizadas entre 1887 e 1911 por membros das Sociedades Britânicas e Americanas de Pesquisas Psíquicas, estando entre os investigadores Sir Oliver Lodge, Professor William James e Professor Romaine Newbold. Registros dessas sessões ocupam todo o volume 28 e parte dos volumes 6, 7, 13, 14, 15, 16, 22, 23 e 24 dos Anais da Sociedade Britânica de Pesquisas Psíquicas. Foi acordado, depois de exaustivos testes feitos, que a perda de sua consciência em transe era completa, e que quando acordava ela de nada se lembrava do que havia ocorrido no estado de transe. Ela ainda está viva, (faleceu em 1950) mas sua mediunidade de transe chegou ao fim em 1911.