terça-feira, 8 de agosto de 2023

A MEDIUNIDADE E A INSPIRAÇÃO[1]

 


Allan Kardec

 

(Paris – Grupo Desliens, 16 de fevereiro de 1869)

 

Sob suas formas variadas ao infinito, a mediunidade abarca a Humanidade inteira, como uma rede à qual ninguém pode escapar. Cada um, estando em contato diário, saiba-o ou não, queira-o ou se revolte, com inteligências livres, não há um homem que possa dizer: Não fui, não sou ou não serei médium. Sob a forma intuitiva, modo de comunicação ao qual vulgarmente se deu o nome de voz da consciência, cada um está em relação com várias influências espirituais, que aconselham num ou noutro sentido e, muitas vezes, simultaneamente, o bem puro, absoluto; acomodações com o interesse; o mal em toda a sua nudez.

– O homem evoca essas vozes; elas respondem ao seu apelo, e ele escolhe; mas escolhe entre essas diversas inspirações e o seu próprio sentimento.

– Os inspiradores são amigos invisíveis; como os amigos da Terra, são sérios ou eventuais, interesseiros ou verdadeiramente guiados pela afeição.

São consultados, ou aconselham espontaneamente, mas, como os conselhos dos amigos da Terra, seus conselhos são ouvidos ou rejeitados; por vezes provocam um resultado contrário ao que se espera; muitas vezes não produzem qualquer efeito.

– Que concluir daí? Não que o homem esteja sob a ação de uma mediunidade incessante, mas que obedece livremente à sua própria vontade, modificada por avisos que, no estado normal, jamais podem ser imperativos.

Quando o homem faz mais do que se ocupar dos mínimos detalhes de sua existência, e quando se trata de trabalhos que ele veio realizar mais especialmente, de provas decisivas que deve suportar, ou de obras destinadas à instrução e à elevação gerais, as vozes da consciência não se fazem mais somente e apenas conselheiras, mas atraem o Espírito para certos assuntos, provocam certos estudos e colaboram na obra, fazendo ressoar certos compartimentos cerebrais pela inspiração. Aqui é uma obra a dois, a três, a dez, a cem, se quiserdes; mas, se cem nela tomaram parte, só um pode e deve assiná-la, porque só um a fez e é o seu responsável!

Afinal de contas, o que é uma obra, seja qual for? Jamais é uma criação; é sempre uma descoberta. O homem nada faz, tudo descobre. É preciso não confundir esses dois termos. Inventar, no seu verdadeiro sentido, é tornar evidente uma lei existente, um conhecimento até então desconhecido, mas posto em germe no berço do Universo. Aquele que inventa levanta uma das pontas do véu que oculta a verdade, mas não cria a verdade. Para inventar é preciso procurar e procurar muito; é preciso compulsar os livros, rebuscar no fundo das inteligências, pedir a um a Mecânica, a outro a Geometria, a um terceiro o conhecimento das relações musicais, a um outro, ainda, as leis históricas e, do todo, fazer algo novo, interessante, inimaginável.

Aquele que foi explorar os recantos das bibliotecas, que ouviu falarem os mestres, que perscrutou a Ciência, a Filosofia, a Arte, a Religião, da antiguidade mais remota até os nossos dias, é o médium da Arte, da História, da Filosofia e da Religião? É o médium dos tempos passados, quando por sua vez escreve? Não, porque não conta pelos outros, mas ensinou os outros a contar e enriquece os seus relatos de tudo o que lhe é pessoal.

– Por muito tempo o músico ouviu a toutinegra e o rouxinol, antes de inventar a música; Rossini escutou a Natureza antes de traduzi-la para o mundo civilizado. Ele é o médium do rouxinol e da toutinegra?

Não: compõe e escreve; escutou o Espírito que lhe veio cantar as melodias do céu; ouviu o Espírito que clamou a paixão ao seu ouvido; ouviu gemerem a virgem e a mãe, deixando cair, em pérolas harmoniosas, sua prece sobre a cabeça do filho. O amor e a poesia, a liberdade, o ódio, a vingança e numerosos Espíritos que possuem esses sentimentos diversos, cada um por sua vez cantou a sua partitura ao seu lado. Ele as escutou, as estudou, no mundo e na inspiração, e de um e outro fez as suas obras. Mas não era médium, como não é médium o médico que ouve os doentes contando o que sofrem, e que dá um nome às suas doenças.

– A mediunidade teve suas horas num como no outro; mas fora desses momentos muito curtos para a sua glória, o que fez, o fez apenas à custa dos estudos colhidos dos homens e dos Espíritos.

Sendo assim, é-se médium de todos; é-se médium da Natureza, médium da verdade e médium muito imperfeito, porque muitas vezes a mediunidade aparece de tal modo desfigurada pela tradução, que é irreconhecível e desconhecida.

Halévy

 

Allan Kardec



[1] Revista Espírita – março/1869 – Allan Kardec

segunda-feira, 7 de agosto de 2023

JOSÉ JORGE[1]

 


 

José Jorge, nasceu na cidade do Rio de Janeiro, no dia 11 de agosto de 1931, filho do casal Felipe José e D. Mercedes Roiz. José Jorge realizou seus primeiros estudos em escolas nas imediações de sua residência, ingressando, posteriormente, na Universidade do Rio de Janeiro, onde licenciou-se em Letras Neolatinas.

Foi professor, naquela Universidade, de Português, e Didática de Línguas Neolatinas, lecionando, posteriormente, Português e Francês no Colégio Pedro II. Como professor, poeta, escritor e tradutor de francês, publicou cerca de 20 obras.

Pioneiro do Ensino Secundário no bairro Ricardo de Albuquerque, no Rio de Janeiro, onde fundou o Colégio Ricardense, José Jorge foi agraciado, em 1974 com a Medalha Anchieta, pelo Estado da Guanabara. Além de outras publicações, editou, pelo Centro Espírita Léon Denis os seguintes livros: Ilustrações Doutrinárias (volumes I e II); Allan Kardec no Pensamento de Léon Denis; Índice Remissivo de O Livro dos Espíritos (3 volumes); Antologia do Perispírito e Relembrando Deolindo (volumes I e II).

É muito difícil dizer tudo o que José Jorge realizou no Espiritismo. Convivemos com ele desde 1948, por ocasião do Congresso de Mocidades Espíritas do Brasil, criação do Prof. Leopoldo Machado, a maior epopeia Espírita realizada no Brasil e no Mundo, de 18 a 25 de julho de 1948, no Rio de Janeiro.

Participou de inúmeros Congressos, em quase todos os Estados brasileiros, Semanas Espíritas, Encontros, Cursos, Inaugurações, Fundações de Casas Espíritas e, até, de Federações Estaduais, como as de Roraima e Amapá.

Professor e fundador do Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB); fundador da Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas e da Associação dos Divulgadores do Espiritismo, participou do Pacto Áureo, em 1949, pela Federação Espírita Brasileira (FEB), atuando ativamente na constituição do Museu Espírita do Brasil, hoje sediado na FEB, em Brasília.

José Jorge foi um dos expositores espíritas mais solicitados , não só no Rio de Janeiro, como em todos os Estados, o que motivava constantes viagens, por todo o país. Foi amigo incondicional de todos os Presidentes da Federação Espírita Brasileira e filantropo, por excelência, muito especialmente do Dr. Antônio Wantuil de Freitas.

Padecendo do Mal de Parkinson, foi hospitalizado em diversas ocasiões, demonstrando, sempre, paciência e confiança em Jesus. No dia 11 de dezembro de 2006, em sua residência, no aconchego da família, José Jorge entregou sua alma a Deus, ingressando na Espiritualidade. Seu corpo foi enterrado no Cemitério Jardim da Saudade, no bairro de Paciência, no Rio de Janeiro, com grande acompanhamento.

sábado, 5 de agosto de 2023

PROSPERIDADE[1]

 


Emmanuel

 

Prosperidade na Terra quer dizer fortuna, felicidade.

Grande parte das criaturas, almejando-lhe a posse, pleiteia relevo, autoridade, domínio...

Gastam-se largos patrimônios da existência para conquistar-lhe o prestigio e não falta quem surja no prélio estudando as forças ocultas para incorporar-lhe o bafejo.

Milhões dos homens de hoje vivem à cata de ouro e predominância, com o mesmo empenho com que antigamente, em aprendizados mais simples, se entregavam aos misteres primitivos de caça e pesca.

É que, na procura desse ou daquele valor da vida, mobilizamos a energia mental, constituída à base de nossas emoções e desejos.

O espelho do coração, constantemente focado no rumo dos objetos e situações que buscamos, traz-nos à rota os elementos que nos ocupam a alma.

Não esqueçamos, todavia, que, na laboriosa jornada para a Glória Divina, nos confundimos sempre com aquilo que nos possui a atenção, demorando-nos nesse ou naquele setor de luta, conforme a extensão e duração de nossos propósitos.

Como no filme cinematográfico, em que a história narrada é feita pelos quadros que se sucedem, ininterruptos, a experiência que nos é peculiar, nessa ou naquela fase da vida, constitui-se dos reflexos repetidos de nossos sentimentos, gerando ideias contínuas que acabam plasmando os temas de nossa luta, aos quais se nos associa a mente, identificando-se, de modo quase absoluto, com as criações dela mesma, à maneira da tartaruga que na carapaça, formada por ela própria, se isola e refugia.

Em razão disso, o conceito de prosperidade no mundo é sempre discutível, porquanto nem todos sabem possuir, elevar-se ou comandar com proveito para os sagrados objetivos da Criação.

Muita gente, pela reflexão mental incessante em torno dos recursos amoedados, progride em títulos materiais; entretanto, se os não converte em fatores de enriquecimento geral, cava abismos dourados nos quais se submerge, gastando longo tempo para libertar-se do azinhavre da usura.

Legiões de pessoas no século ferem o solo da vida, com anseios repetidos de saliência individual, e adquirem vasto renome na ciência e na religião, nas letras e nas artes; contudo, se não movimentam as suas conquistas no amparo e na educação dos companheiros da senda humana, quase sempre, muito embora fulgurem nas galerias da genialidade, sofrem o retorno das ondas mentais de extravagância que emitem, caindo em perigosos labirintos de purgação.

Há, por isso, muita prosperidade aparente, mais deplorável que a miséria material em si mesma, porque a mesa vazia e o fogão sem lume podem ser caminhos de louvável reparação, enquanto o banquete opíparo e a bolsa farta, em muitas ocasiões, apenas significam avenidas de licença que correm para o despenhadeiro da culpa, de onde só conseguiremos sair ao preço de longos estágios na perturbação e na sombra.

Muitos religiosos perguntam por que motivo protegeria Deus o progresso material dos ímpios. Em verdade, porém, semelhante fortuna não existe, de vez que a prosperidade, ausente da reta conduta, não passa de apropriação indébita e é como roupa brilhante cobrindo chagas ocultas, que exigem a formação de reflexos contrários aos enganos que as originaram, a fim de que a prosperidade legítima, a expressar-se em serviço e cultura, amor e retidão, confira ao espírito o reflexo dominante da luz.



[1] Pensamento e Vida – Francisco C. Xavier

sexta-feira, 4 de agosto de 2023

DEMÔNIOS SÃO IRMÃOS NOSSOS POUCOS EVOLUÍDOS[1]

 



José Reis Chaves

 

Por que será que a palavra bíblica grega daimon (daimones no plural), alma ou espírito, com o tempo, passou a significar espírito mau?

E era confuso o Espírito Santo Trinitário. Muitos o tinham como uma centelha divina que habita em nosso corpo, mas também, sem negar a presença da alma ou espírito santo que ela é igualmente no seu corpo.

Os trinitaristas usavam, às vezes, contra a Bíblia, o artigo definido ‘o’ diante de Espírito Santo para dizerem que Ele era um só. Já os contrários a isso empregavam antes do Espírito Santo o artigo indefinido ‘um’ (não existente em grego, mas obrigatório para as traduções que o têm), conforme o sentido bíblico, para darem a ideia de que Ele não é um só Espírito, mas o conjunto de todos os espíritos humanos, o que nos leva a crer que esse era também o sentido aceito por Paulo em 1 Coríntios 3: 16; e 6:19, quando afirmou que o Espírito de Deus habita em nós (com o sentido de posse de nosso espírito por Deus e não da sua própria identidade divina). E isso significa mesmo que o Espírito Santo paulino ‘é de Deus’, mas no sentido de posse e não da sua própria identidade divina, mesmo porque Paulo não conheceu o trinitário. (Recomendamos Pastorino em sua monumental obra de 8 volumes “Sabedoria do Evangelho”. E corrobora também essa ideia o fato de Deus estar presente em todo lugar e, de modo especial, em nosso corpo.)

Assim, pois, no pensamento de Paulo, quando ele diz que somos templos do Espírito Santo, ou de Deus, ele queria dizer mesmo é que somos templos de ‘um’ espírito santo e não de o Espírito Santo Trinitário, mesmo porque este só foi criado cerca de 300 anos depois de Paulo. Muitos entendem assim que é o da Terceira Pessoa Trinitária. Mas o significado mais certo é que Ele é uma espécie de substantivo coletivo significando os nossos espíritos, com cada um tendo sua própria identidade. E no princípio da criação da Santíssima Trindade, Ele era entendido por muitos como sendo também Deus, e até hoje há os que assim creem, igualando-o com Cristo (declarado Deus no Concílio Ecumênico de Niceia em 325). O cristianismo tem que ter a coragem de acabar com essa confusão que o faz capengar e estimula o crescimento do materialismo...

E a ideia errada de que os demônios (espíritos humanos) são de outra categoria não humana tem por causa esse confuso e errado significado do Espírito Santo Trinitário de que ele não é o conjunto dos espíritos humanos, como ensina o Espiritismo.

E vêm-nos à mente duas perguntas: se os demônios fossem mesmo de outra categoria de espíritos não humana, consequentemente, Deus os teria criado já maus para eles azucrinarem a nossa vida espiritual sempiterna? E, então, que Deus seria esse?



[1] O CONSOLADOR - Ano 17 - N° 834 - 30 de Julho de 2023 - http://www.oconsolador.com.br/ano17/834/ca5.html

quinta-feira, 3 de agosto de 2023

OBJETIVO DA GUERRA[1]

 



Miramez

 

Que objetivou a Providência, tornando necessária a guerra?

A liberdade e o progresso.

Desde que a guerra deve ter por efeito produzir o advento da liberdade, como pode frequentemente ter por objetivo e resultado a escravização?

Escravização temporária, para esmagar os povos, a fim de fazê-los progredir mais depressa.

Questão 744 / O Livro dos Espíritos

 

Desde quando não pode o homem evitar as guerras, elas são transformadas em instrumentos de liberdade e progresso, porque a lei nos fala muito claramente que nada se perde, tudo se transforma no melhor.

Os homens deixam passar despercebidos os caminhos do amor, de maneira que passam a surgir os roteiros da dor que, pelo sofrimento, os faz entender a mensagem de regeneração espiritual. Como podemos notar, o flagelo da escravidão é um dos movimentos que liberta a alma, fazendo-a esquecer o orgulho e o egoísmo. Rolam existências e mais existências como servidores comuns de senhores perversos, para que nasça no coração a humildade e a obediência.

Quando os seres humanos não obedecem às advertências espirituais para a educação pelo amor, a disciplina vem por processos rudes. As guerras, nesses casos, são instrumentos violentos para acordar as almas endurecidas. O Espírito não deve dormir no que se refere à reforma interna, para não cair nas armadilhas das trevas.

Vamos anotar o que disse Lucas, no capítulo; vinte, versículo quarenta e seis:

E disse-lhes: Por que estais dormindo? Levantai-vos e orai, para que não entrei sem tentação.

 

Devemos orar sempre, e não dormirmos no esquecimento, porque as tentações estão soltas, procurando sintonia espiritual para se apoderarem das almas, mas Jesus veio nos ensinar como nos defendermos de todas as investidas das trevas e nos capacitarmos para os caminhos da luz.

Com determinadas leis, desapareceu a escravidão, no entanto, ela continua a existir pelos pensamentos e provações. Somente a lei do amor é capaz de libertar as criaturas. Continua no mundo a escravidão de todos os povos da Terra. Quando não são escravos dos próprios homens, o são dos bens materiais, do ouro, que os torna dependentes da realidade.

Já dissemos, mas tornamos a dizer, que as guerras sagradas são aquelas que travamos no nosso interior; elas são motivo de libertação espiritual das criaturas, porque não dependemos de destruir o nosso próximo para sermos vitoriosos. Somente alcançamos a vitória quando vencemos a nós mesmos.

Quem ainda faz guerras exteriormente, permanece sob o jugo da ignorância. As nações que se encontram esfaceladas em guerras exteriores, não se lembram de Deus, nem reconhecem Jesus como Guia da humanidade. Muitas delas se entregam ao culto exterior das formas ilusórias e, por vezes, são capazes de dar a vida física em troca de simples forma material, como sendo heróis das ilusões passageiras. O que se deve matar é o orgulho e o egoísmo, monstros que dominam os corações dos povos e arruínam os sentimentos de todas as gerações.

Entreguemo-nos um pouco à oração, pedindo a Deus para a nossa transformação espiritual. Os tempos estão chegados; a espiritualidade toca os sinos de alerta para que todos acordem das ilusões. A Doutrina dos Espíritos é um porta-voz da espiritualidade superior, convidando os homens para a salvação, pelos seus próprios recursos.

Que Deus nos abençoe a todos, para conhecermos mais depressa a verdade, porque somente ela tem o poder de libertar as criaturas.



[1] Filosofia Espírita – Volume 15 – João Nunes Maia

quarta-feira, 2 de agosto de 2023

A TRANSIÇÃO[1]

 



Allan Kardec

 

1 — A confiança na existência da vida futura não exclui as apreensões pela transição desta vida para a outra. Muitas pessoas não temem propriamente a morte, o que temem é o momento da transição. Sofremos ou não ao fazer essa passagem? É isso o que as inquieta e com tanto mais razão quanto ninguém pode escapar a esse momento. Podemos deixar de fazer qualquer outra viagem, mas quanto a esta, tanto os ricos como os pobres terão de fazê-la e se ela for dolorosa, nem a posição e nem a fortuna poderiam suavizar a sua amargura.

2 — Ao ver a tranquilidade de algumas mortes e as terríveis convulsões da agonia em outras, já podemos perceber que as sensações não são sempre as mesmas, mas quem pode nos esclarecer a respeito? Quem nos descreverá o fenômeno fisiológico da separação da alma e do corpo? Quem nos relatará as sensações desse instante supremo? Sobre isso, a Ciência e a Religião se calam.

Mas por que se calam? Porque falta a uma e a outra o conhecimento das leis que regem as relações do Espírito com a matéria. Uma para no limiar da vida espiritual, a outra no da vida material. O Espiritismo é o traço de união entre as duas. Somente ele pode revelar como se opera a transição, seja em virtude das noções positivas que oferece sobre a natureza da alma, seja com as informações dadas pelos que deixaram a vida. O conhecimento do elemento fluídico que une a alma ao corpo é a chave desse fenômeno, como de muitos outros.

3 — A matéria inerte é insensível: este é um fato positivo. Só a alma experimenta as sensações de prazer e dor. Durante a vida qualquer desagregação da matéria repercute na alma através de uma impressão mais ou menos dolorosa. É a alma que sofre e não o corpo, pois este é apenas o instrumento da dor e a alma é o paciente. Após a morte, estando o corpo separado da alma, pode ser livremente mutilado que nada sente. A alma, estando isolada do corpo, não é atingida por nenhum efeito da destruição deste. Ela tem as suas próprias sensações, cuja fonte não está na matéria tangível.

O perispírito é o envoltório físico da alma, da qual não se separa nem antes nem depois da morte, e com a qual se pode dizer que forma um todo. Porque não se pode conceber um sem a outra. Durante a vida o fluido perispiritual impregna todo o corpo, servindo de veículo das sensações físicas para a alma. É também por esse intermediário que a alma age sobre o corpo e dirige os seus movimentos[2].

4 — A extinção da vida orgânica produz a separação da alma e do corpo pelo rompimento da ligação fluídica, mas essa separação nunca se verifica de maneira brusca. O fluido perispiritual se desprende pouco a pouco de todos os órgãos, de maneira que a separação só se completa quando não resta mais um único átomo do perispírito unido a uma molécula do corpo.  A sensação dolorosa que a alma experimenta nesse momento está na razão da quantidade de pontos de contato existentes entre o corpo e o perispírito, determinando a maior ou menor dificuldade ou lentidão da separação . Não se deve pois querer dissimular que, segundo as circunstâncias, a morte pode ser mais ou menos penosa. São essas diversas circunstâncias que vamos examinar.

5 — Coloquemos primeiramente, em princípio, os quatro casos seguintes, que podemos encarar como as situações extremas entre as quais existe uma infinidade de variações:

1)       Se no momento de extinção da vida orgânica o desprendimento do perispírito já se tiver completado, a alma não sentirá absolutamente nada;

2)       Se nesse momento a união dos dois elementos ainda estiver em toda a sua força, se verificará uma espécie de ruptura;

3)       Se a união já estiver enfraquecida, a separação será fácil e se dará sem choque;

4)       Se, após a completa extinção da vida orgânica ainda existirem numerosos pontos de contato entre o corpo e o perispírito, a alma poderá sentir os efeitos da decomposição do corpo até que as ligações sejam completamente rompidas.

Disso resulta que o sofrimento que acompanha a morte decorre do estado de aderência do perispírito ao corpo, e que tudo o que possa facilitar a diminuição desse estado e acelerar a separação torna a passagem menos penosa. Enfim, que se o desprendimento se verificar sem nenhuma dificuldade, a alma não experimenta nenhuma sensação desagradável.

6 — Na passagem da vida corpórea para a vida espiritual ocorre ainda outro fenômeno de capital importância: o da perturbação. Nesse momento a alma experimenta um entorpecimento que paralisa momentaneamente as suas faculdades e neutraliza, pelo menos em parte, as suas sensações. Ela fica, por assim dizer, em estado cataléptico, de maneira que quase nunca tem consciência do seu derradeiro suspiro. Dizemos quase nunca porque há um caso em que ela pode ter consciência desse último instante, como logo veremos.

A perturbação pode, pois, ser considerada como um fato normal no momento da morte. Sua duração é indeterminada, pois ela varia de algumas horas para alguns anos. A medida que ela se dissipa a alma se sente na situação de um homem que acorda de um sono profundo. Suas ideias são confusas, vagas e incertas, a sua visão é como se ela estivesse num nevoeiro; pouco a pouco a visão vai-se esclarecendo, a memória se reaviva, mas isso de acordo com as situações individuais. Para uns, esse despertar é calmo e proporciona uma sensação deliciosa, mas para outros é bem diferente, cheio de terror e angústia, semelhante a horrível pesadelo.

7 — O momento do derradeiro suspiro não é, pois, o mais penoso, porque em geral a alma não chega a percebê-lo. Mas antes ela sofre os efeitos da desagregação da matéria durante as convulsões da agonia, e depois as angústias da perturbação. Apressemo-nos a esclarecer que essa situação não é generalizada. A intensidade e a duração de sofrimento, como dissemos, estão na razão da afinidade existente entre o corpo e o perispírito. Quanto maior for essa afinidade, mais demorados e penosos serão os esforços do Espírito para se libertar. Mas há casos em que a união é tão fraca que a libertação se realiza naturalmente, sem dificuldades. O Espírito se separa do corpo como um fruto maduro que cai do ramo. É o caso das mortes tranquilas que levam a um despertar pacífico.

8 — O estado moral da alma é a causa principal que determina a maior ou menor facilidade de desprendimento. A afinidade entre o corpo e o perispírito decorre do apego do Espírito à matéria. Chega ao máximo no homem que concentra todas as suas preocupações na vida e nos prazeres materiais que ela oferece. É quase nula naquele cuja alma purificada se identifica por antecipação com a vida espiritual. Como a lentidão e a dificuldade da separação resultam do grau de depuração e desmaterialização da alma, depende de cada um tornar mais fácil ou mais penoso, agradável ou doloroso o momento de sua passagem.

Assim posta a questão, ao mesmo tempo no plano teórico e como resultado da observação, resta-nos examinar a influência do gênero de morte sobre as sensações da alma no derradeiro momento.

9 — Na morte natural, a que resulta da extinção das forças vitais pela idade ou pela doença, o desprendimento se opera gradualmente. No homem cuja alma se desmaterializou e cujos pensamentos se desprenderam da atração das coisas terrenas, o desprendimento quase que se completa antes da morte real. O corpo vive ainda a vida orgânica, mas a alma já penetrou na vida espiritual e somente a ligam ao corpo liames tão frágeis que se rompem sem dificuldade com a última pancada do coração. Nessa situação o Espírito já pode haver recobrado a lucidez e testemunhar conscientemente a extinção da vida no seu próprio corpo, do qual se sente feliz por se livrar. Para ele quase não existe perturbação. Este não é mais do que um momento de sono tranquilo do qual ele acorda com uma indizível sensação de felicidade e de esperança.

No homem material e sensual, que viveu mais para o corpo do que para as coisas espirituais, para quem a vida espiritual nada era, que nem mesmo a admitia em pensamento, tudo contribui para estreitar os laços que ligam a alma à matéria, pois nada contribuiu para os relaxar durante a vida. À aproximação da morte, o desprendimento se opera também de maneira gradual, mas através de contínuos esforços. As convulsões da agonia revelam a luta que o Espírito sustenta, tentando às vezes romper os laços que o seguram e de outras vezes apegando-se ao corpo do qual uma força irresistível o vai arrancando com violência, mas parte a parte.

10 — O Espírito se apega tanto mais à vida material quando nada vê além dela. Sente que ela lhe escapa e quer retê-la. Ao invés de se entregar às forças que o arrastam, resiste com todas as suas energias. Essa luta pode se prolongar por dias, semanas e meses. Não há dúvida, nesse momento o Espírito não goza de toda a sua lucidez. A perturbação já terá começado bem antes da morte, mas nem por isso é menor o seu sofrimento, e o estado de vacuidade mental em que se encontra, a incerteza quanto ao que lhe acontecerá depois aumentam as suas angústias. A morte chega e nada se acabou, pois a perturbação continua. Ele sente que está vivo, mas não sabe se essa vida é a material ou a espiritual. Luta ainda até que as últimas ligações do perispírito com o corpo sejam rompidas. A morte pôs termo à moléstia que ele sofria, mas não sustou as suas consequências, de maneira que enquanto existirem pontos de contato entre o corpo e o perispírito, o Espírito é atingido por essas consequências e sofre com elas.

Bem diferente a situação do Espírito que já se desmaterializou, mesmo no caso das doenças mais cruéis. As ligações fluídicas com o corpo tendo se enfraquecido, rompem-se sem nenhuma dificuldade, e além disso a sua confiança no futuro, que ele já entrevê mentalmente e às vezes mesmo de maneira real, o leva a encarar a morte como uma libertação e os seus males como uma prova. Daí a tranquilidade moral e a resignação que suavizam os seus sofrimentos. Após a morte, tendo as ligações sido rompidas de maneira instantânea, ele não sente nenhuma reação dolorosa. Pelo contrário, ao despertar sente-se livre, disposto, aliviado de um grande peso e muito feliz por não estar mais sofrendo.

12 — Na morte violenta as condições não são sempre as mesmas. Nenhuma desagregação parcial tendo podido levar a uma separação antecipada entre o corpo e o perispírito, a vida orgânica é subitamente sustada, ainda na plenitude da sua força. O desprendimento do perispírito só começa depois da morte. Nesse caso como nos outros não pode realizar-se instantaneamente. O Espírito, colhido de surpresa, sente-se como aturdido, mas ao perceber que pensa ainda, acredita-se vivo. Essa ilusão dura até que ele possa tomar conhecimento de sua nova situação.

Esse estado intermediário entre a vida corpórea e a vida espiritual é um dos mais interessantes como objeto de estudo, pois apresenta a singular situação de um Espírito que toma o seu corpo fluídico pelo seu corpo material, experimentando todas as sensações da vida orgânica.

Apresenta-se uma variedade de nuanças que dependem do caráter, dos conhecimentos e do grau do desenvolvimento moral do Espírito. É de curta duração para aqueles de alma mais pura, porque nestes sempre há um desprendimento antecipado que a morte, mesmo a mais inesperada, vem apenas completar. Para outros pode prolongar-se durante anos. Esse estado é também muito frequente nos casos de morte ordinária, mas para alguns nada tem de penoso, dependendo das qualidades do Espírito, enquanto para outros representa uma situação terrível.

É sobretudo nos casos de suicídios que essa situação se faz penosa. O corpo continuando ligado ao perispírito por todas as suas fibras, faz que repercutam na alma todas as suas convulsões, produzindo-lhes sofrimentos atrozes.

13 — A situação do Espírito no momento da morte pode se resumir assim:

O Espírito sofre tanto mais, quanto mais lento for o desprendimento do perispírito. A presteza do desprendimento depende do grau de desenvolvimento moral do Espírito. Para o Espírito desmaterializado, cuja consciência é pura, a morte é apenas um sono passageiro, sem nenhum sofrimento, e o seu despertar é cheio de suavidade.

14 — Para que a gente se esforce pela própria purificação, reprimindo as más tendências e vencendo as paixões, é necessário conheceras vantagens do futuro . Para se identificar com a vida futura, desejando-a e preferindo-a à vida terrena, não basta acreditar que ela existe, mas é preciso compreendê-la. E para tudo isso é necessário apresentá-la sob um aspecto satisfatório para a razão, de pleno acordo com a lógica, o bom senso e a ideia que se faz da grandeza, da bondade e da justiça de Deus. De todas as doutrinas filosóficas, o Espiritismo é a que exerce, a respeito, a mais poderosa influência, graças à fé inabalável que proporciona.

O espírita sério não se contenta em crer: ele crê porque compreende, e só pode compreender recorrendo ao raciocínio. A vida futura é então uma realidade que se desenrola incessantemente aos seus olhos. Ele a vê e a toca, por assim dizer, a todos os instantes. A dúvida não pode penetrar na sua mente. A vida corpórea, demasiado limitada, se apaga para ele ante a vida espiritual que se apresenta como a verdadeira vida. Essa a razão da pouca importância que dá aos incidentes do caminho, e de enfrentar com resignação todas as vicissitudes, compreendendo as suas causas e a sua utilidade. As relações diretas que mantém com o mundo invisível elevam-lhe a alma. As ligações fluídicas que o ligam à matéria se enfraquecem. E é assim que vai se operando o desligamento parcial que facilita a sua passagem desta vida para a outra. A perturbação que é inseparável da transição torna-se de curta duração porque, tão pronto atravessou a fronteira logo se reconhece: nada lhe é estranho e ele compreende a sua nova situação.

15 — O Espiritismo não é certamente indispensável para se chegar a esse resultado. Nem tem a pretensão de ser o único a assegurar a salvação da alma. Mas a facilita, pelos conhecimentos que proporciona, pelos sentimentos que inspira e pelas disposições que dá ao espírito, fazendo-o compreender a necessidade de melhorar-se. Além disso, dá a cada um os meios de facilitar o desprendimento alheio na hora da partida e os meios de abreviar o tempo de perturbação através da prece e da evocação.

Por meio da prece sincera, que é uma forma de magnetização espiritual, provoca-se uma desagregação, mais rápida do fluido perispiritual. Por uma evocação dirigida com conhecimento e prudência, através de palavras de benevolência e encorajamento, tira-se o Espírito do entorpecimento em que se encontra e consegue-se ajudá-lo a compreender mais rapidamente o que se passa. Se for um Espírito sofredor, provoca-se o arrependimento que é o único meio de abreviar os seus sofrimentos[3].



[1] O CÉU E O INFERNO – 2ª Parte – Capítulo 1 – Allan Kardec

[2] Somente agora, mais de um século após a explicação cientifica do Espiritismo a esse respeito, as Ciências materiais conseguiram confirmá-la através de suas pesquisas. Apesar das provas obtidas, entretanto, a cegueira materialista levantou celeumas a propósito e os religiosos anti-espíritas, por mero sectarismo, fazem coro com os negativistas. A escola parapsicológica liderada pelo prof. Joseph Banks Rhine, da Duke University, Estados Unidos, sustenta a existência no homem de um elemento extra-físico e defende a tese de que: a mente, que não é física, age sobre a matéria por vias não físicas . Esta é uma das asserções mais graves de Rhine e que maiores controvérsias provocou no meio científico de todo o mundo. Whately Carington, na Universidade de Cambridge, Inglaterra, formulou uma teoria da sobrevivência da mente após a morte e da sua possibilidade de agir sobre a matéria produzindo os fenômenos físicos paranormais. O prof. S. G. Soai, da Universidade de Londres, formulou também uma hipótese da sobrevivência da alma. Em pesquisas realizadas a partir de 1965 os físicos e biólogos soviéticos conseguiram obter provas concretas (fotografias e visão através de aparelhos éticos especiais) da existência do perispírito, a que deram o nome de corpo bioplástico. (N. do T.)

[3] Os exemplos que vamos citar apresentam os Espíritos nas diferentes fases de felicidade e de infelicidade da vida espiritual. Não os procuramos entre os personagens mais ou menos ilustres da Antiguidade, cuja situação se poderia considerar modificada após a existência em que foram conhecidos, não oferecendo, por isso mesmo, provas suficientes de autenticidade. Tomamo-los das circunstâncias mais comuns da vida contemporânea, por serem aquelas em que podemos encontrar maiores possibilidades de comparações e das quais se podem tirar as mais aproveitáveis instruções.

Quanto mais a existência terrena dos Espíritos se aproxima da nossa, seja pela posição social ou pelas relações ou laços de parentescos, mais nos interessam e mais fácil se torna controlar a identidade dos comunicantes. As situações vulgares são naturalmente em maior número e é por isso que delas todos podem tirar mais facilmente as aplicações necessárias. As situações excepcionais nos tocam menos, por escaparem à esfera dos nossos hábitos. Não são essas, portanto, as ilustrações que procuramos. Se nesses exemplos se encontram algumas individualidades conhecidas, a maioria é de criaturas inteiramente obscuras. Os nomes retumbantes nada acrescentariam no tocante à instrução e poderiam ferir suscetibilidades. Não nos dirigimos aos curiosos nem aos amantes de escândalos, mas aos que desejam seriamente instruir-se. Esses exemplos poderiam ser multiplicados ao infinito, mas, forçados a limitar o seu número, escolhemos os que pudessem lançar mais luz sobre o estado do mundo espiritual, seja em virtude da situação do Espírito, seja pelas explicações que ele estava em condições de dar. Na maioria essas comunicações são inéditas. Apenas algumas foram publicadas na Revista Espírita. Dessas, suprimimos os detalhes supérfluos, conservando apenas os pontos essenciais ao objetivo que nos propusemos aqui. Acrescentamos a elas as instruções complementares que provocaram posteriormente. (N. de Kardec)

terça-feira, 1 de agosto de 2023

JOSÉ GONÇALVES PEREIRA[1]

 


 

José Gonçalves Pereira nasceu em São José do Barreiro, Vale do Paraíba (São Paulo - Brasil), em 14 de junho de 1906, filho de Horácio Gonçalves Pereira e Alvina Rodrigues Gonçalves Pereira.

Em 1927, já na cidade de São Paulo, capital do Estado de São Paulo (Brasil), casa-se com Luíza Miranda (nascida em 18 de maio de 1911, no bairro do Cambuci) e começa a trabalhar como vendedor na empresa multinacional de origem inglesa "Gessy Lever".

A empresa nesta época tentava introduzir um novo produto no mercado, sem muito sucesso − era um novo sabão em barras − e o Sr. Gonçalves teve a ideia de fazer uma campanha mostrando a lavagem de roupa em público, onde se demonstrava a superioridade do produto sobre os concorrentes.

O sucesso da campanha, inédita na época, levou rapidamente o Sr. Gonçalves a posição de Diretor Comercial, na qual permaneceu até sua aposentadoria em 1964. A aposentaria foi solicitada para que pudesse dedicar-se a Casa Transitória Fabiano de Cristo, da qual falaremos adiante.

Foi levado a Federação Espírita do Estado de São Paulo por um amigo. O objetivo era conversar com o Comandante Edgard Ormond, autor do livro "Mediunidade", que o interessará bastante. Por convite de Edgard Ormond, passou a participar das reuniões e a integrar-se nas tarefas do grupo.

As atividades de Assistência Social, o auxílio aos mais necessitados, sempre tiveram grande importância no movimento espírita paulista, desde os tempos de Batuíra, e naturalmente constituíam um das áreas de atuação da FEESP.

Em 1937 surgiu o "Departamento Damas da Caridade" para prestar assistência à infância desvalidas, as gestantes carentes e socorrer os pobres em suas penúrias. Em 1938 surge o "Setor de Assistência Social" ligado ao "Departamento das Damas de Caridade", com o auxílio de médicos voluntários prestando assistência médica, odontológica e farmácia. Em 1940 o "Setor de Assistência Social" ganhou autonomia e seu primeiro diretor foi o médico paulista Dr. Militão Pacheco.

Participando ativamente da FEESP, o Sr. Gonçalves foi nomeado em 1949 − pelo Secretário Geral, Edgard Ormond − Diretor do Departamento de Assistência Social.

Durante os anos em que dirigiu este departamento, desenvolveu diversas atividades novas e estendeu grandemente o número de benefícios prestados à sociedade. O trabalho iniciou-se em um terreno atrás da sede da Federação (Rua Maria Paula), onde havia um galinheiro desativado, estendeu-se no casarão posteriormente adquirido na rua Santo Amaro e em 1960 culminou com a inauguração da "Casa Transitória Fabiano de Cristo" na Marginal do Tiête.

Outra das iniciativas do Sr. Gonçalves na FEESP foi a "Campanha da Fraternidade Auta de Souza" (03/02/1953). Esta campanha surgiu da necessidade de arrecadar-se mantimentos para as famílias assistidas pelo Departamento de Assistência Social e inicialmente se chamaria "Campanha do Quilo" (ideia apresentada por Ninpho Correa).

O nome e a forma definitiva surgiram após visita a Chico Xavier, em Pedro Leopoldo. No encontro com Chico Xavier este lhe informou que "está aqui presente uma jovem desencarnada, irradiando intensa luminosidade, dizendo-nos ser participante das tarefas do atendimento aos necessitados do Departamento de Assistência Social, junto aos seus voluntários". Esta jovem era Auta de Souza.

Em uma da visitas que fez a Francisco Cândido Xavier, o Sr. Gonçalves notou que um grupo de jovens copiava, em cadernos escolares, as mensagens psicografadas e trechos dos livros de Allan Kardec. O motivo era a dificuldade de terem acesso aos livros impressos, então caros e raros.

Para amenizar esta situação o Sr. Gonçalves criou, em 18 de abril de 1953, o grupo "Os Mensageiros" com a finalidade de distribuir mensagens espíritas impressas. A impressão e distribuição foi inicialmente custeada pelo próprio Sr. Gonçalves, mas aos poucos se juntaram outros colaboradores e o grupo existe até hoje (sua página na internet é http://www.mensageiros.org.br), tendo já atingido a marca de 1 bilhão de mensagens distribuídas para o mundo todo.

Já a Casa Transitória surgiu da necessidade de um espaço mais adequado para as atividades assistenciais da FEESP e foi construída em terreno cedido pelo governador Jânio Quadros as margens do rio Tiête. O terreno era um verdadeiro charco e foi um trabalho imenso transforma-lo nos pavilhões rodeados de jardins que lá se encontram agora.

A participação do plano espiritual na sua criação foi grande, inclusive durante grave enfermidade enfrentada pelo Sr. Gonçalves ele foi levado espiritualmente a visitar a instituição do plano espiritual da qual a Casa emprestou o nome, e dali trouxe também a inspiração para sua arquitetura.

A Casa foi fundada em 25 de janeiro de 1960, com duas linhas principais de trabalho:

§  O objetivo de "amparar a criança reajustando-lhe a família", e

§  O trabalho voluntário em todos os setores possíveis (uma das poucas exceções foi o abrigo de idosas, que necessita de presença permanente de enfermeiros e médicos).

Assim o socorro às gestantes carentes é apenas a linha de frente de um grande trabalho de reajuste, complementado por cursos de higiene e cuidados básicos com os nenês, assistência médica e cursos profissionalizantes.

Colaboradores diversos ao longo dos anos, entre eles esportistas famosos como o lutador Éder Jofre, criaram cursos de futebol (para manter afastadas as crianças da rua), horta (para suprir o refeitório), atividades diversas para as crianças e adultos no intuito de renovar-lhes os valores e esperanças.

Na direção da Casa, a qual dedicou-se integralmente após aposentar-se, o Sr. Gonçalves contou com o apoio de sua esposa. A presença e atividade de ambos orientou o trabalho dos voluntários e serviu de inspiração e de ponto de agregação durante os anos de consolidação da instituição. Pelo testemunho dos voluntários que o conheceram, sua personalidade marcou a vida de todos que com ele tiveram contato. Outras instituições, como a Casa Transitória Fabiano de Cristo foram ao longo dos anos, criadas e se pautaram pelos ideias do Sr. Gonçalves.

Em 25 de agosto de 1989, após uma vida repleta de ações em prol do próximo, desencarna José Gonçalves Pereira. Seu corpo foi velado em um dos pavilhões da Casa Transitória, enquanto que seu espírito certamente despertava para a vida verdadeira. No dia seguinte ao de sua desencarnação, em reunião pública no "Grupo Espírita da Prece" de Uberaba, o espírito Maria Dolores envia através da mediunidade de Chico Xavier uma mensagem em que o denomina "Apóstolo do Bem e Herói da Caridade":

 

DÁDIVAS DE AMOR[2]

Uma carta... um olhar, uma palavra boa;

Uma frase de paz que asserena e abençoa;

Leve prato de sopa ou um simples pão

Podem livrar alguém de cair na exaustão;

Antigo cobertor, atirado ao vazio,

Aquece o enfermo pobre esquecido ao frio;

Uma peça de roupa remendada,

Talvez seja o agasalho ao viajor da estrada;

Meio litro de leite à viúva sem nome,

Ampara-lhe o filhinho, a esmorecer de fome;

Todas essas doações supostas pequeninas

São serviços do Bem, nas paragens divinas;

São flores da fé viva, a derramarem luz,

Revelando o fulgor do Reino de Jesus;

Aqui, saudamos nós, Gonçalves, nosso irmão,

Que ontem foi conduzido à Celeste Mansão;

Que o Céu do Amor o guarde, ante a nossa saudade,

Do Apóstolo do Bem e Herói da Caridade;

 

Maria Dolores

 

 

Só como observação final, "Os Mensageiros" é o título de um dos livros de André Luiz, psicografados por Francisco Cândido Xavier, e a "Casa Transitória Fabiano de Cristo" é uma instituição no plano espiritual dedicada ao atendimento aos espíritos sofredores, descrita no livro "Obreiros da Vida Eterna", também de André Luiz.