terça-feira, 23 de abril de 2024

O ESPÍRITO BATEDOR DE DIBBELSDORF[1] − (Baixa Saxônia)

 


Allan Kardec

 

Do Dr. Kerner. Traduzido do alemão pelo Sr. Alfred Pireaux Pondo-se de lado o seu aspecto cômico, a história do Espírito batedor de Dibbelsdorf também encerra uma parte instrutiva, como ressalta das passagens de velhos documentos, publicados em 1811 pelo pregador Capelle.

No dia 2 de dezembro de 1761, às seis horas da tarde, uma espécie de martelamento que parecia vir do chão fez-se ouvir no quarto habitado por Antoine Kettelhut. Atribuindo o episódio ao seu criado, que queria divertir-se à custa da empregada, então no quarto das fiandeiras, saiu para jogar um balde de água na cabeça do gozador, não encontrando, porém, ninguém do lado de fora. Uma hora depois, o mesmo barulho recomeçou e ele imaginou que fosse causado por um rato. Assim, no dia seguinte examinou as paredes, o teto e o assoalho, não encontrando o mais leve vestígio desse animal.

À noite, o mesmo barulho; considerou-se, então, a casa perigosa para servir de habitação, e as próprias criadas não mais quiseram permanecer no quarto durante o serão. Logo após o ruído cessou, para reproduzir-se cem passos adiante, na casa do Sr. Louis Kettelhut, irmão de Antoine, e com uma força inusitada. Era num canto do quarto que se manifestava a coisa batedora.

Por fim, o fenômeno se tornou suspeito aos camponeses, vindo o burgomestre a dar parte à justiça que, de início, não quis ocupar-se de um caso que considerava ridículo. Contudo, em face das insistentes pressões dos habitantes, alguém da justiça se dirigiu a Dibbelsdorf no dia 6 de janeiro de 1762, para examinar o fato com maior atenção. Demolidos as paredes e os tetos, nenhum resultado se obteve; a família Kettelhut jurou não ter absolutamente nada a ver com aquela coisa estranha.

Até então, não se havia conversado ainda com o batedor.

Armando-se de coragem, um indivíduo de Naggam pergunta:

−Espírito batedor, estás aqui?  

E um golpe se fez ouvir.

– Podes dizer como me chamo?

Entre diversos nomes designados, o Espírito bateu o nome do interlocutor.

– Há quantos botões em minha roupa?

Trinta e seis golpes foram dados. Os botões foram contados, havendo justamente 36.

A partir desse momento, a história do Espírito batedor espalhou-se nas redondezas, fazendo com que centenas de moradores de Brunswick se dirigissem à noite a Dibbelsdorf, assim como ingleses e uma porção de curiosos estrangeiros. A multidão tornou-se tão numerosa que a milícia local não a podia controlar. Os camponeses tiveram que reforçar a guarda da noite, não se permitindo entrar os visitantes senão uns após os outros.

Essa afluência de pessoas pareceu excitar o Espírito a manifestações mais extraordinárias ainda, evoluindo para determinadas formas de comunicação que atestavam a sua inteligência.

Jamais se atrapalhou nas respostas: desejava-se saber o nome e a cor dos cavalos estacionados defronte da casa? Ele o indicava com precisão; abria-se um livro de canto, colocava-se o dedo ao acaso sobre uma página e perguntava-se o número do trecho de música, desconhecido até mesmo do próprio interlocutor: logo, uma série de golpes indicava perfeitamente o número designado. O Espírito não fazia esperar sua resposta, que se seguia imediatamente após a pergunta. Também dizia quantas pessoas havia no quarto, quantas estavam do lado de fora, designando a cor dos cavalos, das roupas, a posição e a profissão das pessoas.

Entre os curiosos encontrava-se um dia um homem de Hettin, completamente desconhecido em Dibbelsdorf e morando há pouco tempo em Brunswick. Pediu ao Espírito o local de seu nascimento e, a fim de o induzir em erro, citou grande número de cidades; quando chegou ao nome de Hettin, um golpe se fez ouvir. Um burguês astuto, imaginando pegar o Espírito em falta, perguntou-lhe quantas moedas possuía em seu bolso, tendo sido respondido 681, seu número exato. A um confeiteiro, disse quantos biscoitos tinha feito pela manhã; a um comerciante, quantas medidas de fita havia vendido na véspera; a um outro, o total de dinheiro recebido na antevéspera pelo Correio. Era de humor bastante alegre, batendo à medida que se desejasse e, algumas vezes, tão forte que o ruído era ensurdecedor. Durante o jantar, à noite, e após as orações, ele bateu Amém. Esse sinal de devoção não impediu que um sacristão, revestido de um grande hábito de exorcista, tentasse desalojar o Espírito de seu canto; a conjuração, porém, fracassou.

O Espírito nada temia, mostrando-se tão sincero nas respostas ao duque reinante Charles e a seu irmão Ferdinand quanto a qualquer outra pessoa de menor condição. A história tomou, então, um rumo mais sério. O duque encarregou um médico e alguns doutores em direito para examinarem o fato. Os sábios explicaram as batidas pela presença de uma fonte subterrânea. Mandaram cavar um poço de oito pés de profundidade e naturalmente encontraram água, considerando-se que Dibbelsdorf está situada em região baixa; a água que jorrou inundou o quarto, mas o Espírito continuou a bater em seu canto habitual. Os homens de ciência imaginaram, então, que estavam sendo vítimas de uma mistificação, concedendo ao doméstico a honra de tomar o lugar daquele Espírito tão bem instruído. Sua intenção era enfeitiçar a criada. Todos os habitantes do vilarejo foram convidados a ficar em casa, num dia determinado; o doméstico foi mantido à vista, porque, segundo a opinião dos sábios, devia ser o culpado; mas o Espírito respondeu novamente a todas as perguntas. Reconhecido inocente, o serviçal foi posto em liberdade. A justiça, porém, queria um autor para o delito, acusando o casal Kettelhut pelo barulho de que se queixavam, embora fossem pessoas benevolentes, honestas e irrepreensíveis em todas as coisas e tivessem procurado as autoridades desde o início das manifestações.

Por meio de promessas e ameaças, uma jovem foi forçada a testemunhar contra seus patrões. Em consequência, foram eles presos, malgrado as retratações posteriores da mocinha e a confissão formal de que suas primeiras declarações eram falsas e lhe foram arrancadas pelos juízes. O Espírito continuou a bater; mesmo assim, o casal Kettelhut foi mantido na prisão durante três meses, sendo libertados sem indenização após o término desse prazo, muito embora os membros da comissão assim tivessem concluído o seu relatório: “Todos os meios possíveis para descobrir a causa do barulho foram infrutíferos; talvez o futuro nos esclareça algo a respeito”. – O futuro ainda nada ensinou.

O Espírito batedor manifestou-se desde o início de dezembro até março, época em que deixou de se fazer ouvir. Voltaram a pensar que o criado já incriminado devia ser o autor de todas essas peças de mau gosto; contudo, como poderia ter-se livrado das armadilhas estendidas pelos duques, juízes e tantas outras pessoas que o interrogaram?

Observação – Se quisermos nos referir à data em que se passaram as coisas que acabamos de narrar, e compará-las às que ocorrem em nossos dias, encontraremos uma identidade perfeita na maneira das comunicações e, até mesmo, na natureza das perguntas e respostas. Nem a América, nem nossa época descobriram os Espíritos batedores, da mesma forma que não descobriram os outros Espíritos, como o demonstraremos por inúmeros fatos autênticos, mais ou menos antigos. Há, todavia, entre os fenômenos atuais e os de outrora uma diferença capital: estes últimos eram quase todos espontâneos, ao passo que os nossos se produzem quase à vontade de certos médiuns especiais. Essa circunstância permitiu melhor estudá-los e aprofundar-lhes a causa. A essa conclusão dos juízes: “Talvez o futuro nos esclareça algo a respeito”, hoje o autor não responderia – O futuro ainda nada ensinou. Vivesse esse autor e saberia que o futuro, ao contrário, ensinou tudo e, mais esclarecida do que há um século, a justiça de nossos dias, a propósito das manifestações espíritas, não cometeria os equívocos que recordam os cometidos na Idade Média. Nossos próprios sábios já penetraram bastante os mistérios da Natureza para não se deixarem levar pelas coisas desconhecidas; têm sagacidade suficiente para não se exporem, como fizeram seus antecessores, aos desmentidos da posteridade, em detrimento de sua reputação. Se algo desponta no horizonte, não se apressam em dizer: “Não é nada”, por temer que esse nada seja um navio. Se não o veem, calam-se e esperam: eis aí a verdadeira sabedoria.



[1] Revista Espírita – agosto/1858 – Allan Kardec

segunda-feira, 22 de abril de 2024

GIOVANNI BATTISTA ERMACORA[1]

 

 

Giovanni Battista Ermacora nasceu em Fagagna (Udine), numa família rica e proprietária de terras, em 15 de maio de 1858. Sua mãe, de quem sempre foi muito próximo, era a Sra. Anna Bortolotti.

Casou-se em outubro de 1897 com Emma Linder.

Ele conduziu estudos brilhantes no ensino médio; com apenas treze anos escreveu um livro de memórias em francês sobre um tema de concurso anunciado por um instituto científico do Harlem relativo à forma de determinar o estado térmico, higrométrico e eléctrico das camadas superiores da atmosfera; estudo não recompensado, conforme consta de carta dessa mesma Academia devido a um erro banal de forma.

Em 1881 formou-se na Universidade de Pádua em ciências físicas e matemáticas com uma importante tese intitulada: “Sobre uma forma de interpretar os fenômenos eletrostáticos”, um ensaio sobre a teoria do potencial, no qual o autor desenvolveu em termos originais − isto é, sem ter conhecimento prévio − uma teoria da eletricidade à qual Faraday deve sua fama. Esta tese foi publicada no ano seguinte graças também à admiração despertada no prof. Rossetti.

Os livretos: “Um ponto fundamental da teoria eletrodinâmica e da indução, e a provável existência de um quarto campo elétrico” (1891) e “Contribuição ao estudo do campo de Faraday”, uma suposta contradição de Maxwel e “Esboço de uma Teoria da Gravitação” (1892). No primeiro destes panfletos ele admitiu, apoiando com experimentos apropriados, a existência de um quarto campo elétrico que chamou de magnetostático e que teria com o campo magnético as mesmas relações que o campo eletrostático tem com a corrente e com o campo de propagação.

Depois de concluir os estudos na Universidade, Ermacora obteve o diploma de capitão de longa duração em Veneza e, para fins educativos, fez uma viagem às Índias e à Indochina, através do Cabo da Boa Esperança, na escuna de tijolos Fratelli Manara, viagem que durou mais de um ano e ao final do qual publicou o estudo sobre um sistema de medição para navios da Rivista Nautica.

Em 1883 foi nomeado membro correspondente da Accademia dei Concordi de Rovigo; no ano seguinte ao de Ciências, Letras e Artes de Udine. Ele também foi membro de outras sociedades de ciências naturais, eletricidade e astronomia.

Espírito eclético, aplicou-se sempre de forma profunda e inventiva aos seus interesses: no campo da fotografia teve oportunidade de aplicar o seu gênio inventivo, do qual fica evidenciado através de alguns escritos que publicou no Progresso Fotográfico, tornando-se rapidamente colaborador das revistas mais importantes do setor na Europa. Um interesse que não o abandonou até à sua morte; poucos meses antes de seu trágico fim, publicou o interessante artigo sobre as alegadas razões científicas para fotografias mal definidas.

No campo musical aprendeu a tocar cítara. Não satisfeito com o desempenho do instrumento, construiu uma cítara de pedal capaz de uma extensão capaz de satisfazer as necessidades de qualquer execução. Esta sua invenção foi coberta por revistas musicais alemãs, que também mencionaram as melhorias feitas por Ermacora para tornar mais eficazes os movimentos mecânicos do piano e do harmônio.

Montou em sua casa uma vasta biblioteca e até um observatório de cúpula giratória equipado com um bom telescópio que lhe permitiu realizar observações com as quais pôde completar e verificar os conhecimentos que havia adquirido teoricamente.

Atraído pelos estudos psíquicos, nos quais conseguiu deixar uma marca significativa de sua genialidade, iniciou com uma monografia publicada em 1892 nos Anais do Espiritismo de Turim, dirigida pelo professor V.G. Scarpa, intitulada: “Notáveis ​​​​fenômenos de mediunidade observados sem médiuns profissionais”, republicado em panfleto em Torino no mesmo ano.

Naqueles anos, numerosos cientistas como Lombroso, Gigli, Limoncelli, Vizioli, também movidos pela sensação de inúmeras sessões experimentais, realizadas principalmente em Nápoles, que tiveram como protagonista a famosa médium Eusápia Palladino, interessaram-se pelos temas da assim- chamados estudos psíquicos. A autenticidade dos fenômenos espíritas passou a ser atestada por homens de ciência como os professores Bianchi, Tamburini, Ascensi e outros. O vereador russo Aksakof, o astrônomo Schiapparelli, o professor Gerosa, o Torelli-Viollier, o deputado Colombo, o prof. Richet, Prof. Brofferio, Dr. Giorgio Finzi e outros. A estes foi voluntariamente adicionado o Dr. G.B. Ermacora, que foi um dos escolhidos para fazer parte da Comissão de Cientistas, que empreendeu novos e rigorosos experimentos, depois de Torelli-Viollier já ter alertado os experimentadores contra as fraudes de Paladino. Esta Comissão publicou o seu relatório em meados de novembro de 1892, que teve grande ressonância no mundo intelectual da época.

Estas experiências, ocorridas na casa Finzi, tiveram forte influência na opinião pública. Os resultados destes fenômenos materializaram-se na Itália com o conhecido livro de Brofferio: “Per lo Spiritismo”; depois, com a criação de uma Sociedade de Estudos Psíquicos, nos moldes da de Londres, mas que não teve vida longa; finalmente com a publicação da Rivista di Studi Psichici dirigida por G.B. Ermacora e Giorgio Finzi.

O primeiro número do novo periódico apareceu em janeiro de 1895. Continha um programa modesto, que começava com as seguintes palavras:

O pensamento que nos leva a fundar esta publicação periódica não é uma inclinação temerária para o novo ou o estranho, mas a mais absoluta convicção, baseada na experiência dos homens mais competentes e na nossa, de que os estudos a que se dedicam serão levados, num futuro não muito distante, a resultados de extraordinária importância científica e talvez até social. […]

No entanto, não acreditamos que seja apropriado entrar em competição com aqueles que, como acontece facilmente neste campo, nos combaterão com armas estranhas à ciência, ou com aquelas frases de efeito, das quais se pode dizer, como provérbios, que eles na verdade representam a ciência dos povos, mas que já está chegando ao fim. Quem não sabe que as palavras: o sobrenatural não existe; o pensamento é apenas uma secreção de matéria; ao lado da ciência não há mais espaço para superstições, e será que clichês semelhantes têm um efeito mágico nos ouvintes instruídos comuns? Isto acontece porque poucos percebem que estão reduzidos a proposições com termos mal definidos, a enunciados de leis não comprovadas, ou a petições de princípios; e, portanto, têm sorte como todas as coisas de aparência simples. Mas se permanecemos inertes face aos adversários que fazem uso destas armas, é apenas porque, como dissemos, acreditamos que é mais proveitoso dirigir os nossos esforços para outro lado; mas não pretendemos com isto tratá-los com desprezo, porque sabemos perfeitamente que os nossos estudos não podem deixar de despertar profundo desgosto em mentes já imbuídas de preconceitos incompatíveis com eles, e achamos muito natural que todos reajam contra qualquer impressão repugnante. com os meios que tem à sua disposição.

Talvez tenhamos alguns adversários mesmo entre aqueles que já avançam há algum tempo, não sabemos dizer se com coragem ou temeridade, no caminho em que agora mal ousamos dar os primeiros passos; queremos dizer os espíritas. Porque acontecerá muitas vezes que não possamos aceitar nem os seus métodos de investigação nem as suas conclusões. Mas eles, educados em nobres princípios de tolerância, compreenderão bem que se não podemos segui-los de perto, não é porque nos falte o estímulo dos seus grandes ideais, mas sim porque temos um conceito tão elevado da grandeza destes grandes ideais, que, para evitar a amarga desilusão de vê-los escapar-nos, preferimos aproximar-nos deles gradualmente, estudando o terreno centímetro a centímetro e perscrutando continuamente se são novos horizontes ou simplesmente uma nova espécie de miragem no ar triste que os rodeia.

Se temos adversários entre os espíritas, não podemos deixar de sentir uma simpatia particular por eles, não só porque, se erraram em alguma coisa, foram atraídos para isso pelas aparências mais irresistíveis e pelos sentimentos mais generosos, mas também porque devemos para eles as maiores descobertas, ou melhor, redescobertas modernas no campo dos fenômenos sobrenaturais.

Ermacora dedicou-se à Rivista di Studi Psichici com grande empenho e estudo, e quase todo o seu tempo e consideráveis ​​sacrifícios pecuniários foram absorvidos por esta empresa durante os três anos seguintes. Muitos de seus escritos apareceram na revista, e em particular o longo estudo sobre Telepatia, que foi publicado em volume após a morte do autor e que por muitos anos permaneceu como o estudo mais extenso, agudo e interessante sobre o assunto, tanto que ainda em 1969, Somenzi o incluiu na bibliografia de seu " The Physics of the Mind ".

Embora não fosse membro do partido socialista, abordou ideias revolucionárias nos últimos anos de sua vida e foi apoiador do jornal L'Eco dei Lavoratori .

Em 23 de março de 1898 foi morto em Rovigo, onde vivia há alguns anos, por motivos triviais de interesse de um familiar.

 

Bibliografia

§  Cesare Vesme: G.B. Ermacora – Revista de estudos psíquicos – junho de 1898 – Extrato de Turim, tip. Roux e Frassati – 1898.

§  Qui. Ermacora : [em memória, depois de um ano, 23 de março de 1899] Pádua: Facada. Tipo. L. Crescini e C., 1899.



[1] https://liberliber.it/autori/autori-e/giovanni-battista-ermacora/

sábado, 20 de abril de 2024

CONDIÇÃO RARA FAZ PACIENTES VEREM DEMÔNIOS EM VEZ DE PESSOAS[1]

 


De um dia para o outro, indivíduos passam a ver rostos distorcidos. A prosopometamorfopsia (PMO) ainda é de origem desconhecida, mas, pela primeira vez, cientistas conseguiram recriar o que um paciente com a condição vê.

 

Victor Sharrah acreditava viver um dia normal, até dar bom dia para o amigo com quem divide um apartamento. O que viu não foi o amigo, e sim um demônio, com orelhas pontudas, olhos gigantescos e uma boca larga que se estendia por toda a face.

“Achei que eu havia acordado num filme de terror”, disse Sharrah, que mora em Clarksville, Tennessee (EUA).

Tentando manter a calma, ele levou o cachorro para passear, mas todas as pessoas que via na rua tinham rostos igualmente estranhos e distorcidos.

“Comecei a ficar muito nervoso”, disse o homem de 59 anos. Ele até pensou em se internar “em uma unidade psiquiátrica”. No entanto, Sharrah não havia “enlouquecido”, como acreditava.

Victor Sharrah sofre de uma condição visual extremamente rara, que aparece de um dia para o outro, faz pessoas verem rostos distorcidos por dias e até anos: a prosopometamorfopsia (PMO).

Muitas pessoas têm medo de mencionar seus sintomas, porque “temem que os outros pensem que as distorções são um sinal de transtorno psiquiátrico”, diz Brad Duchaine, professor de psicologia e ciências do cérebro da Universidade de Dartmouth e coautor de um estudo sobre o tema. “É um problema que as pessoas geralmente não entendem”.

Os médicos costumam confundir a PMO com problemas de saúde mental, como esquizofrenia ou psicose. E, embora haja coincidência em alguns sintomas, uma grande diferença é que os pacientes com PMO “não acham que o mundo está distorcido, eles percebem que há algo diferente em sua visão”, diz Antônio Mello, psicólogo cognitivo e neurocientista de Dartmouth e outro coautor do estudo publicado na revista científica The Lancet.

No estudo, pela primeira vez, com ajuda de Sharrah, os cientistas conseguiram recriar em imagens 2D o que o paciente vê quando olha para rostos.

 

O que é a Prosopometamorfopsia (PMO)?

A prosopometamorfopsia, ou PMO, é uma condição visual extremamente rara, com menos de 100 casos citados desde 1904. Os pacientes relatam uma enorme variedade de distorções faciais. Enquanto Sharrah, paciente deste estudo, vê características extremamente esticadas com sulcos profundos no rosto, outros podem ver mudanças que fazem com que as características mudem de posição ou de tamanho.

Portanto, para as pessoas com essa condição, os rostos aparecem distorcidos de várias maneiras. Enquanto Sharrah vê demônios, alguns veem elfos, explica Mello.

Para alguns pacientes, metade do rosto desaparece. Para outros, as faces ficam roxas ou verdes, ou em constante movimento. Às vezes, a condição dura apenas alguns dias. Mas mais de três anos depois daquela manhã aterrorizante de novembro de 2020, Sharrah ainda vê “demônios”.

 

Caso de Sharrah é raríssimo

Ao contrário de outras pessoas com PMO, quando Sharrah vê rostos em telas planas, eles parecem normais. Isso permitiu que Mello e os outros pesquisadores criassem as primeiras imagens em 2D que dão uma ideia de como as pessoas com PMO veem os rostos.

Para criar as imagens, os pesquisadores pediram a Sharrah que comparasse como via rostos com as fotos dessas mesmas pessoas que apareciam em uma tela de computador. Assim, foi possível detalhar e descrever as distorções.

Para outros pacientes que sofrem de PMO, os rostos nas fotos também aparecem distorcidos. Sharrah disse que a vida com PMO é “muito mais traumática do que as imagens criadas podem transmitir”.

“O que as pessoas não entendem quando veem essas imagens é que, na vida real, aquele rosto está se movendo, gesticulando e falando”, acrescenta.

As imagens são “úteis para que as pessoas entendam os tipos de distorções que as pessoas podem ver”, diz Jason Barton, neurologista da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, que não participou do estudo.

A causa exata da prosopometamorfopsia permanece desconhecida. O neurologista Jason Barton considera a PMO um “sintoma, não um distúrbio”, portanto, poderia ter várias causas, segundo artigo publicado na Science News.

Na maioria dos casos que Barton estudou, “algo acontece no cérebro que se correlaciona com o início dessa experiência anormal”.

Sharrah tem uma lesão cerebral decorrente de um acidente que sofreu quando trabalhava como motorista de caminhão em 2007.

Mas, na opinião de Mello, porém, isso não está relacionado à PMO, porque os exames de ressonância magnética mostraram que a lesão está no hipocampo de Sharrah, uma parte do cérebro “não associada à rede de processamento facial”.

Apenas 81 casos de PMO foram relatados até o momento na literatura científica. Mas Mello disse que mais de 70 pacientes entraram em contato com seu laboratório nos últimos três anos.

 

Vida após o diagnóstico

A natureza assustadora da doença faz com que muitas vezes ela seja diagnosticada erroneamente como esquizofrenia ou psicose.

Sharrah só descobriu sobre a PMO depois de postar sua experiência em um grupo de apoio online para pessoas com transtorno bipolar. Para ele, foi um grande alívio. “Significava que eu não era psicótico”, conta.

O homem, que tem uma visão perfeita, mandou fazer óculos com uma tonalidade verde que diminui a gravidade das distorções. O vermelho as torna “mais intensas”, explica. Além da cor, a percepção de profundidade parece desempenhar um papel importante. Embora Sharrah não veja distorções faciais em telas planas, elas começaram a aparecer quando os pesquisadores o fizeram usar um óculos de realidade virtual.

Sharrah disse que se adaptou bem ao seu estranho mundo novo. Mais de três anos depois do diagnóstico, ele não usa mais os óculos com tonalidade verde. “Me acostumei um pouco”, diz, acrescentando que em lugares lotados, como supermercados, a multidão de demônios ao seu redor ainda pode ser bastante “assustadora”.

Como os pacientes que sofrem de PMO sabem que o que estão vendo não é real, muitos enfrentam uma decisão difícil: vale a pena dizer às pessoas o quão grotesco elas se parecem, correndo o risco de parecerem loucos?

Alguns optam pelo silêncio. Mello contou o caso de um homem que nunca disse à mulher que o rosto dela, há muitos anos, parece distorcido para ele.

Sharrah diz que compartilha sua experiência para que outras pessoas com PMO possam evitar um falso diagnóstico e serem “hospitalizadas por psicose”.

“Assim, elas sabem o que está acontecendo e não passam pelo trauma que eu passei”.

 

 

lr/le (AFP, Dartmouth, The Lancet, Science News)



[1] Revista Planeta – edição 26/03/2024

sexta-feira, 19 de abril de 2024

PERSONALISMO[1]

 


Martha Triandafelides Capelotto

 

Há um tempo, já alguns anos, foi solicitado aos trabalhadores da casa que eu frequentava que desenvolvêssemos o tema Personalismo, em forma de apostila, e a trabalhássemos em grupo, já que, quando se pretende a renovação espiritual, necessário se faz a análise das mazelas de tudo o que ainda carregamos em nossas almas.

Sabemos, infelizmente, que os relacionamentos não são fáceis, em todas as esferas do nosso viver. Os atritos, as contendas, a cizânia nos grupos espiritistas, nos quais não poderiam ocorrer, são mais comuns do que podemos imaginar.

Fazendo uma análise e buscando fontes seguras veremos quanto precisamos conhecer os “inimigos” que precisamos combater e que estão dentro de nós mesmos.

Assim, ocorreu-me trazer o tema para que outros possam refletir e fazer o bom combate.

Iniciaria com a definição do dicionário “Houaiss” da Língua Portuguesa que assim diz:

 Personalismo é qualidade daquilo que é subjetivo: conduta; procedimento do indivíduo que refere todas as coisas a si mesmo, que tem a si próprio como ponto de referência de tudo o que ocorre à sua volta; egocentrismo.

Personalismo é a excessiva valorização de si mesmo, podendo tomar as mais variadas máscaras, quais sejam, a vaidade, a tirania, a leviandade, a tristeza.

Em O Livro dos Espíritos, no capítulo XII, Livro III, que trata da perfeição moral, aprendemos que o egoísmo se associa à personalidade. Para melhor compreensão, transcrevemos o ensinamento:

O egoísmo se funda sobre a importância da personalidade.

Assim, se o egoísmo decorre do personalismo, primeiro precisamos analisar o que seja o egoísmo e suas causas, para depois entendermos o personalismo.

No capítulo de O Livro dos Espíritos acima citado, lemos a seguinte explicação dos Espíritos Superiores:

O egoísmo, dentre todos os vícios, é o mais radical, pois dele deriva todo o mal. Se estudarmos todos os vícios, veremos que no fundo de todos está o egoísmo. Será inútil combatê-los (os vícios), se não atacar o mal pela raiz, sem a destruição da causa. Todos os nossos esforços devem tender para esse objetivo, porque aí está a verdadeira chaga da sociedade. Todo aquele que quer se aproximar, desde esta vida, da perfeição moral, deve extirpar do seu coração todo sentimento de egoísmo, porque o egoísmo é incompatível com a justiça, o amor e a caridade. Ele neutraliza todas as outras qualidades.

Na pergunta 914 de O Livro dos Espíritos, indaga-se se será possível um dia extirpar o egoísmo do coração dos homens, e a resposta dada foi:

À medida que os homens se esclarecem sobre as coisas espirituais, ligam menos valor às coisas materiais. É preciso reformar as instituições humanas que o entretêm e o excitam. Tudo depende da educação.

Eles nos dizem também, na resposta à pergunta 915, que:

O egoísmo é o nosso pior mal, mas ele se prende à inferioridade dos Espíritos encarnados sobre a Terra, e não à humanidade em si mesma. Os espíritos, à medida que vão se depurando pelas encarnações sucessivas, perdem o egoísmo, como perdem suas imperfeições.

Dessarte, compreendendo um pouco do que vem a ser o egoísmo, também encontramos no mesmo livro, na questão 917, orientação sobre como podemos combater esse mal, tão arraigado em nós, pela influência da matéria, da qual o homem, ainda muito próximo da sua origem, não pode se libertar, e essa influência concorre para o sustentar em nossas leis, na organização social, na educação:

O egoísmo se enfraquecerá com a predominância da vida moral sobre a vida material e, sobretudo, com a inteligência que o Espiritismo nos dá de nosso estado futuro real e não desnaturado pelas ficções alegóricas. O Espiritismo bem compreendido, quando estiver identificado com os costumes e as crenças, transformará os hábitos, os usos e as relações sociais.

Assim, se é no personalismo que encontramos as raízes do egoísmo, não é demais fazermos algumas considerações sobre o orgulho, pois também o personalismo é a sua expressão mais perceptível e concreta.

E é no capítulo X, item 10, do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo  que encontramos a seguinte lição:

(..) porque é o pai de muitos vícios, o orgulho é também a negação de muitas virtudes. Ele se encontra como móvel de quase todas as ações humanas. Essa a razão por que Jesus se empenhou tanto em combatê-lo, como principal obstáculo ao progresso.

É importante ressaltar que o orgulho, sendo um sentimento de superioridade pessoal resultante do processo natural de crescimento do espírito, poderíamos dizer, um subproduto do instinto de conservação, um princípio que foi colocado no homem para o bem, porque sem o “sentimento de valor pessoal” e a “necessidade de estima”, não encontraríamos motivação para existir e não formaríamos um autoconceito de dignidade pessoal. O problema não é o sentimento de orgulho, mas o descontrole de seus efeitos. No atual estágio de aprendizado, ainda não temos plena capacidade de controlá-lo. Ele está presente em quase tudo o que fazemos. Isso o torna uma paixão ou, como dizem os bondosos Guias da Verdade, “o excesso de que se acresceu a vontade”.

Portanto, o personalismo é o orgulho centrado no eu. Enquanto o orgulho incapacita-nos para verificar as próprias imperfeições, o personalismo tem como efeito gerar ideias de tudo aquilo que parta de nós é o melhor e mais correto. Em outras palavras, a superioridade pessoal provocada pelo sentimento de orgulho interfere na formulação de juízos.

Diante de todo o escrito, podemos afirmar que todos nós somos personalistas, em graus mais ou menos elevados. Nos labores doutrinários ele se apresenta nas seguintes situações, sem esgotar o rol, quando: externamos uma aversão à crítica; apresentamos gosto pela pompa; tentamos impor nossos pontos de vista; sentimo-nos melindrados quando as discrepâncias ocorrem; nutrimos a mágoa alimentada; damos importância conferida ao nosso nome, entre outras coisas.

Como transformá-lo?

Lembremo-nos do ensinamento do Codificador: “Ora, o Espiritismo bem compreendido, repito, mostra as coisas de tão alto que o sentimento da personalidade desaparece, de certo modo, diante da intensidade”. Desse modo, se ainda nos aferramos com tanta desídia ao personalismo é porque ainda não compreendemos bem a doutrina que professamos.

No capítulo III, item 28, de O Livro dos Médiuns, importante ensinamento leva-nos a refletir na importância de buscarmos o autoconhecimento e, consequentemente, a renovação interior, como sendo a maneira com que nos libertaremos de todas as nossas imperfeições morais, pois nada vale admirar a moral contida nos preceitos da Doutrina Espírita e em nada alterar nossos hábitos.

Assim, à medida que se impõe é que invistamos em nós, em nosso processo de transformação moral e espiritual, buscando os recursos que temos disponíveis em toda a bibliografia espírita, que esmiúça as questões do nosso psiquismo, como, por exemplo, as obras ditadas pelo espírito de Joanna de Ângelis, psicografadas por Divaldo Pereira Franco, e muitas outras que nos apresentam os caminhos que devemos percorrer para o encontro com nossas sombras. Nelas encontraremos orientações seguras para aportarmos num campo fértil, quando então, ao conquistá-lo, alegrias invadirão o âmago de nosso ser.

A sinceridade nos campos dos sentimentos será um antídoto eficaz contra o egoísmo, devassando sem medo e admitindo sem inibição, para nós mesmos, as mais secretas emoções da vaidade e do amor-próprio que se movimentam na intimidade, fazendo um autoencontro com as facetas sombrias da personalidade.

E não poderíamos, com tanto a escrever, é que, após esse mergulho interior, regressemos ao mundo das sensações, ao invés de buscarmos a oração a Deus, integrando-nos, humildes e abnegadamente, no seu Suprimento Universal, revigorando-nos as forças para dominarmos as tendências ora reveladas. E assim perceberemos a pouco e pouco o ruir das falsas e atordoantes miragens que a imaginação emitia para os departamentos da decisão e da ação, em prejuízo do nosso melhor ajustamento nas experiências da reencarnação.

Tomados por tais ilusões, atiçamos o autoritarismo, a indiferença e mesmo o descaso com respeito a muitos viajantes que nos compartilham os caminhos doutrinários. Nesse clima, os “espinhos” do outro são como sinônimo de incômodo e repulsa, levando muitos companheiros, premidos pela presunção, a permitirem um psiquismo inamistoso, tombando por fim nas malhas da maledicência, nas tormentas do isolacionismo, do centralismo e da insensatez doutrinária.

Esse quadro rememora a fábula dos porcos-espinhos, levando-nos aos rumos da frieza de afeto por desistirmos de abraçar os diferentes, os supostos oponentes, os menos simpáticos que surgem, até mesmo, em nossas leiras de amor.

O amor, o afeto, eis o antídoto eficaz para interromper o fluxo rotineiro da “imaginação enfermiça”, que opera a manutenção de uma autoimagem centrada na supremacia das qualidades pessoais, que, muitas vezes, nem sempre possuímos.

Sejamos nós mesmos e aprendamos a nos prezar e valorizar.

 

Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.

Carl Gustav Jung



[1] O Consolador - Ano 17 - N° 867 - 14 de abril de 2024 - https://www.oconsolador.com.br/ano17/867/especial.html

quinta-feira, 18 de abril de 2024

VIDA INTRAUTERINA[1]

 


Miramez

 

Como se explica a vida intrauterina?

É a da planta que vegeta. A criança vive vida animal. O homem tem a vida vegetal e a vida animal que, pelo seu nascimento, se completam com a vida espiritual.

 

Questão 354/O Livro dos Espíritos

 

O útero da mulher é uma câmara sensível, na qualidade de ninho, onde tem todas as qualidades necessárias para a geração da criança, fenômeno humano, mas que tem feição divina. No encontro do óvulo com o espermatozoide, se dá o casamento interno de duas forças, que são envolvidas por energias imponderáveis, na formação de uma consciência instintiva, que passa a comandar como se fosse um computador altamente condicionado, porém, no qual brilha, nas suas irradiações de luz, a presença de Deus.

O feto cresce pele comando das forças internas, como sendo uma árvore, mas que com o passar dos tempos ele alcança variadas feições, como estágios nas lembranças dos seus ancestrais, por onde o Espírito percorreu na sua marcha evolutiva, até sentir a razão nos esplendores da raça humana.

O seio uterino é um mundo onde se pode notar em ação as leis que regulam o próprio universo. São ondas, raios e impulsos se intercruzando para garantir uma vida. O .corpo humano, não cansamos de dizer, é uma cópia do universo, estudado há milênios sem conta e experimentado por milhões de vezes na sua jornada, para que pudesse obedecer ao progresso. Ele, cada vez mais, vai oferecendo ao Espírito os meios, dentro de suas possibilidades, de cumprir sua missão cada vez mais elevada na face da Terra.

Esse corpo biológico foi planejado e executado pelas mãos do Cristo. A Sua presença nunca faltou, para que esse corpo se expressasse como tal. Certamente que em seu derredor muitos engenheiros siderais estavam a postos para as Suas ordens, em experimentações variadas. Em futuro próximo, o corpo físico tomara outra expressão que seja mais para o lado da fluidez, oferecendo assim a alma que o vai comandar meios mais sutis para altos cargos de experimentação.

No campo da vivência dos conceitos evangélicos, sem as prováveis reações que se dão no corpo de hoje.

É nesse sentido que se deve começar a ajudar os engenheiros do mundo espiritual nas lutas para descondicionar as vibrações negativas no perispírito, porque o seu campo de hoje é sofrido pelos pensamentos imantados no ódio, na inveja, no orgulho, no egoísmo e em tantos outros departamentos das trevas, que o Espírito, na sua ignorância, alimenta.

O Espírito passa por diversas fases na formação do seu corpo, lembrando, mesmo na inconsciência, o que tem de fazer para o seu crescimento, atingindo, assim, a vida espiritual onde ele deve aprumar, procurando, por lei, a plenitude da vida em libertação com o Cristo. A ciência humana deve estudar a vida animal em formação na intimidade das nossas irmãs, para que a humanidade tenha mais respeito pelas crianças, senão pelos fetos. Disse o Cristo, de certa feita: “Vós sois o sal da terra.” Os Espíritos, movendo um corpo no mundo, são realmente o sal da terra, porque a alma vem temperar toda a expressão do entendimento, vem dar a compostura sagrada a própria natureza e essa, devolvendo ao mesmo homem as leis mais visíveis, para que ele se liberte dos laços inferiores que o prendem às paixões.

A vida intrauterina é como que a vida em uma das maiores capitais do mundo, sendo que ela é mais perfeita por não desrespeitar as leis que sustentam a sua própria harmonia. Falando aos homens, pedimos que respeitem a formação da vida física e, em seguida, respeitem a criança. Ela é o homem de amanhã e pede hoje que amemos a Deus sobre todas as coisas. Eduquemo-las, não somente com palavras, mas através do exemplo.



[1] Filosofia Espírita – Volume 7 – João Nunes Maia

quarta-feira, 17 de abril de 2024

L’EXTÉRIORISATION DE LA MOTRICITÉ DE ALBERT DE ROCHAS[1]

 


Carlos S. Alvarado

 

Este artigo descreve o livro de 1896 do pesquisador francês Albert de Rochas, L'Extériorisation de la Motricité,  que fornece uma descrição detalhada dos fenômenos das sessões físicas produzidas por Eusápia Palladino e outros.

 

Introdução

O pesquisador psíquico francês Albert de Rochas foi um representante tardio do mesmerismo francês, um movimento que evoluiu do “magnetismo animal” de Anton Mesmer. De Rochas era conhecido por acreditar que o sistema nervoso pode projetar uma força além do corpo[2]. Em seu livro L'Extériorisation de la Sensibilité, de 1895[3] , ele defendeu a exteriorização da sensibilidade, alegando que poderia projetar as sensações táteis de indivíduos que haviam sido magnetizados para fora de seus corpos.

No ano seguinte publicou L'Extériorisation de la Motricité: Recueil d'Expériences et d'Observations  [A Exteriorização da Motricidade: Coleção de Experimentos e Observações], principalmente sobre os fenômenos da mediunidade física. Aqui ele foi além, afirmando que uma força emanada de certas pessoas poderia mover objetos inertes[4]. Ele chamou isso de exteriorização da motricidade, ou função motora.

De Rochas estava plenamente consciente das suspeitas levantadas pelas alegações de que os médiuns poderiam levitar mesas e outros objetos, e que a fraude no campo era galopante. No entanto, ele acreditava que as evidências do fenômeno apresentavam “o mesmo grau de certeza que qualquer uma daquelas em que se baseiam as nossas ciências físicas[5]”. Na verdade, ele criticou como “desprezíveis” as pessoas que estavam igualmente convencidas pelos fenômenos, mas que as rejeitaram publicamente por medo do ridículo, considerando-o uma traição aos melhores interesses da humanidade.

 

Parte 1: Eusápia Palladino

O livro está dividido em duas seções. A primeira descreve a médium italiana Eusápia Palladino, provavelmente a mais longa visão geral publicada no século XIX, cobrindo mais de 300 páginas[6].  Começa por descrever as primeiras sessões públicas – incluindo aquelas em que estiveram envolvidos homens como Ercole Chiaia, Cesare Lombroso e Manuel Otero Acevedo – e depois discute aspectos biográficos e médicos. De Rochas resume a visão predominante de que Palladino apresentava sintomas histéricos e temperamento irritável. 'Desde os oito anos ela foi submetida a uma alucinação obsessiva no estado de vigília: olhos expressivos olhando para ela por trás de uma pilha de pedras ou de uma árvore, sempre do lado direito. Ela não se lembra de nenhuma outra anomalia nervosa, mas tem sonhos frequentes e muito claros[7]”. No que diz respeito à organização das sessões, ele prossegue sublinhando a importância de nutrir as características com maior probabilidade de levar a um resultado produtivo. Ele escreve:

No presente caso, a médium é uma mulher, de educação simples, mas de grande orgulho e suscetibilidade feroz, que se ofende gravemente ao menor sinal de desconfiança...

Eusápia é... eminentemente sugestionável. Esta sugestionabilidade, que pode ser aumentada no estado de transe, pode ter consequências psicológicas tais que a vontade do médium é largamente influenciada pela dos experimentadores, pelos seus desejos, pelas suas suspeitas, pelos seus preconceitos. Não pode um círculo de experimentadores mudar a vontade e o poder de um médium muito impressionante e certamente impressionado[8]?

De Rochas resume as principais sessões espíritas com Palladino, em Agnélas, Cambridge, Carqueraine, Milão, Nápoles, Roma e Varsóvia, fornecendo reimpressões dos relatórios originais das sessões. Eles incluem as famosas sessões de Milão de 1892 que envolveram cientistas e estudiosos notáveis ​​da época: Alexander Aksakof, Angelo Brofferio, Carl du Prel, Giovanni Battista Ermacora, Giorgio Finzi, Giuseppe Gerosa, Giovanni Schiaparelli e, em alguns casos, Ercole Chiaia, Cesare Lombroso e Charles Richet .

As sessões espíritas em Agnélas, França, foram organizadas por de Rochas em sua villa em 1895, juntamente com Xavier Dariex, Arnaud de Gramont, Joseph Maxwell, A. Sabatier e C. de Watteville, e membros de sua própria família. Em um caso ele descreve como Maxwell convidado por Palladino para observar de perto

viu à sua frente, na faixa da parede iluminada pela fresta da porta, a silhueta de uma mão e de um braço que estavam acima da cabeça do Sr. Sabatier. Várias vezes lhe pareceram descer e subir, como que para tocar a cabeça do Sr. Sabatier que disse que naquele momento sentiu vários toques. O feltro do antebraço era longo e fino. Ele não viu a continuidade com o braço porque estava perdido nas sombras…[9]

Nessas sessões, ele escreve ainda:

A médium entrou em ‘transe’, gemeu, contorceu-se, pareceu sofrer dores semelhantes às do parto. A luz vai enfraquecendo gradativamente... até que o olho consiga distinguir apenas a silhueta dos objetos. Neste momento a mesa, depois de ter sido inclinada levantando os dois pés do lado esquerdo do médium, levantou-se rapidamente… do chão, estando os quatro pés simultaneamente destacados do chão. Esta posição foi mantida por pelo menos três segundos; então a mesa caiu abruptamente. Enquanto estava no ar, M.M. Maxwell e Sabatier, cada um de um lado do médium, e cada um segurando uma mão claramente visível, viram que as mãos, colocadas logo acima da mesa, não seguravam suas bordas, e às vezes até se destacavam da superfície da mesa elevada. mesa; observaram também que, ao abaixar-se, os pés da mesa, próximos ao médium, estavam totalmente livres de qualquer contato com este. M. Dariex, colocado embaixo da mesa abaixo... afirmou que os joelhos do médium permaneceram imóveis, e que nenhuma perna foi avançada para levantar a mesa por baixo...[10]

De Rochas observou a médium fazendo movimentos suspeitos, mas insistiu que nunca a detectou em atividades fraudulentas. Ele também notou que as observações dele e de seus colaboradores em Agnélas eram semelhantes às observadas em relatórios anteriores.

 

Parte 2: Outros Fenômenos

Na Parte 2, De Rochas resume outras investigações e tópicos, começando com o trabalho de Agénor de Gasparin com o giro de mesas , e referindo-se também a Marc Thury. Ele descreve trabalhos realizados com o médium Henry Slade e estudos da London Dialectical Society, William Crookes e Paul Joire. Outros capítulos discutem o trabalho menos conhecido de Donald MacNab e Horace Pelletier. Os últimos três capítulos consistem em reimpressões de artigos, incluindo uma sobre estados de transe.

Aqui, De Rochas descreve o trabalho de Crookes com o médium D.D. Home, incluindo experimentos com medidores de mola e outros instrumentos. Uma seção adicional lista citações de Crookes sobre movimentos de objetos, levitações corporais e materializações que ele testemunhou com Home e outros médiuns. Ele também cita a discussão de Crookes sobre a força psíquica[11] (aqui dada a partir do original em inglês)

 

A força em si é provavelmente possuída por todos os seres humanos, embora os indivíduos dotados de uma quantidade extraordinária dela sejam, sem dúvida, poucos. Nos últimos doze meses, encontrei em famílias privadas cinco ou seis pessoas que possuíam um desenvolvimento suficientemente vigoroso para me fazer sentir confiante de que, através dos seus meios, poderiam ser produzidos resultados semelhantes aos aqui registados, desde que o experimentalista trabalhasse com um aparelho mais delicado, capaz de indicando uma fração de grão em vez de registrar apenas libras e onças[12].

Um capítulo descreve “mulheres elétricas”, como Angelique Cottin, em cuja proximidade às vezes se observava o movimento anômalo de objetos, aparentemente quando estavam prestes a menstruar[13].

Um capítulo sobre “casas mal-assombradas” relata vários fenômenos físicos. Por exemplo, num caso estudado por Aleksandr Butlerov em 1880, testemunhas relataram batidas, movimento de móveis, quebra de móveis, movimento de outros objetos, manchas de sangue e incêndios. Em outro caso notável envolvendo uma jovem, os objetos eram frequentemente vistos movendo-se em sua direção a um ritmo extremamente rápido[14].

Muitos destes fenômenos aparentemente diversos partilhavam características subjacentes, sustentou de Rochas, parecendo ser impulsionados por um “desenvolvimento anormal da eletricidade no organismo”, que era frequentemente produzido espontânea e inconscientemente por jovens raparigas que atingiam a puberdade[15]. Sendo um seguidor tardio de Mesmer, De Rochas presumiu a existência de emanações físicas geradas pelo corpo humano, que ele comparou ao “vento eléctrico[16]”.  Ele acreditava ainda que uma pessoa pode direcionar esses 'eflúvios' para um determinado objeto, com uma intensidade que corresponde ao esforço envolvido em criá-los[17].' Ideias semelhantes são encontradas na literatura sobre fenômenos psíquicos antes e depois. De Rochas planejou ampliar seus estudos em um livro sobre fenômenos psíquicos espontâneos, concentrando-se em uma "teoria do corpo fluídico", que ele argumentou ter sido endossada tanto pela filosofia oriental quanto pela teologia cristã, e que ele considerava agora confirmada por evidência de  dados objetivos.[18] Mas esse livro nunca foi publicado: em vez disso, ele desenvolveu as ideias de outras publicações sobre forças e duplos[19].  Neste livro, De Rochas evita discutir a questão da sobrevivência à morte. No entanto, conclui admitindo que está a começar a ultrapassar a abordagem puramente empírica daqueles “que pretendem limitar a ciência aos fatos que estudam e aos métodos que empregam[20]”. Ele sente que a ciência contemporânea das forças sutis sugere “através de provas experimentais que algo que pensa e sente pode separar-se do seu corpo durante a vida”, possivelmente levando à conclusão de que pode sobreviver à destruição do corpo[21]”. Isto, por sua vez, pensou ele, talvez pudesse substituir a fé incerta das religiões por uma convicção inabalável de uma vida futura.

 

Recepção

Poucas revistas dedicadas aos fenômenos psíquicos publicaram resenhas do livro[22]. Pequenos avisos foram publicados na revista ocultista L'Initiation  e em algumas outras[23]. A Revue Scientifique et Morale du Spiritisme, reconheceu a importância de os cientistas estudarem os fenômenos físicos, ao mesmo tempo em que insistia que estes eram há muito conhecidos pelos espíritas e que eram causados ​​pelos espíritos dos falecidos[24]. A Revue Spirite e o jornal Le XIX Siècle foram elogiosos, acreditando que o livro ajudaria a convencer os cientistas da realidade dos fenômenos[25]. Uma resenha mais detalhada e geralmente positiva de Émile Boirac[26] apareceu na Revue Philosophique de la France et de l'Étranger, observando as dificuldades envolvidas no estudo de tais fenômenos físicos. Algumas revistas espíritas reimprimiram parte da obra de Albert de Rochas em suas publicações[27]. Um jornalista também apresentou excertos, insistindo que de Rochas não era um “feiticeiro”, como muitos acreditavam, mas um cientista que procurava compreender estes fenómenos físicos[28]. Hoje, L'Extériorisation de la Motricité é citado principalmente por escritores e estudiosos com interesse histórico[29].

 

Reconhecimentos

Sou grato a Nancy L. Zingrone pelas úteis sugestões editoriais.

                                            Carlos S. Alvarado

 

Literatura

§  Alvarado, C.S. (2011). Historical notes on doubles and travelling spirits: X. Albert de Rochas. Paranormal Review 60, 3-6.

§  Alvarado, C.S. (2016). On psychic forces and doubles: The case of Albert de Rochas. Journal of Scientific Exploration 30, 63-84.

§  Anonymous. (1896a). Bibliographie. Annales des Sciences Psychiques 6, 128.

§  Anonymous. (1896b). Review of L'Extériorisation de la Motricité. L’Initiation 30, 281-82.

§  Anonymous. (1896c). L'Extériorisation de la Motricité. Revue Spirite: Journal d’Études Psychologiques 39, 506-8.

§  Anonymous. (1904). Review of L'Extériorisation de la Motricité (4th edition). Bulletin du Centre d’Études Psychiques de Marseille 4, 90.

§  Boirac, E. (1897). Review of L'Extériorisation de la Motricité. Revue Philosophique de la France et de l’Étranger 43, 321-26.

§  Crookes, W. (1874). Researches in the Phenomena of Spiritualism. London: J. Burns.

§  De Rochas, A. (1895). L’Extériorisation de la Sensibilité: Étude Expérimentale et Historique (2nd ed.) Paris: Chamuel.

§  De Rochas, A. (1896a). L'Extériorisation de la Motricité: Recueil d’Expériences et d’Observations. Paris: Chamuel.

§  De Rochas, A. (1896b). Préface de ‘L’Extériorisation de la Motricité.’ L’Humanité Intégrale 5, 65-68.

§  De Rochas, A. (1896c). Conclusions de ‘L’Extériorisation de la Motricité.’ L’Humanité Intégrale 6, 81-83.

§  De Rochas, A. (1896d). L’extériorisation de la motricité. Revue Spirite: Journal d’Études Psychologiques 39, 456-63.

§  De Rochas, A. (1897). Les expériences de Choisy-Yvrec (près Bordeaux) du 2 au 14 octobre 1896. Annales des Sciences Psychiques 7, 6-28.

§  De Rochas, A. (1906a). New experiments relative to the astral body and the magnetic ‘rapport.’ Annals of Psychical Science 4, 120-25.

§  Desormeaux, H. (1896). A la découverte du mystére: Les forces inconnus de l’homme. Le Gaulois, June 6, 1-2.

§  D’Oyrières, F. (1896). Étude sur le livre L’Extériorisation de la Motricité par M. de Rochas. Revue Scientifique et Morale du Spiritisme 1, 95-114.

§  Quaestor Vitae. (1896). ‘The exteriorisation of motive energy.’ Light 16, 389.

§  Vitoux, G. (1896). Tablettes du progrès: La realité des mouvements sans contact. Le XIXe Siècle, June 12, 1-2.

§  Albert de Rochas

§  Eusapia Palladino

§  Angelique Cottin

 

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Alvarado (2016).

[3] De Rochas (1895).

[4] De Rochas (1896a), ii.

[5] De Rochas (1896a), iii.

[6] De Rochas (1896a), 1-315.

[7] De Rochas (1896a), 15.

[8] De Rochas (1896a), 259.

[9] De Rochas (1896a), 292.

[10] De Rochas (1896a), 269-270.

[11] De Rochas (1896a), 362.

[12] Crookes (1874), 41-42.

[13] De Rochas (1896a), 448.

[14] De Rochas (1896a), 473.

[15] De Rochas (1896a), 475-76.

[16] Alvarado (2016).

[17] De Rochas (1896a), 476.

[18] De Rochas (1896a), 477.

[19] Por exemplo, de Rochas (1897, 1906); ver também Alvarado (2011, 2016).

[20] De Rochas (1896a), 478.

[21] De Rochas (1896a), 478.

[22] Anônimo (1896a).

[23] Anônimo (1896b, 1904).

[24] D'Oyrières (1896).

[25] Vitoux (1896).

[26] Boirac (1897).

[27] De Rochas (1896b, 1896c, 1896d).

[28] Desormeaux, 1896.

[29] Por exemplo, Alvarado (2016).