segunda-feira, 15 de setembro de 2025

NILSON DE SOUZA PEREIRA[1]

 


 

“De origem humilde, nasceu em 26 de outubro de 1924, no subúrbio ferroviário de Plataforma, em Salvador, sendo seus pais José Leocádio Pereira e Marieta de Souza Pereira. Foi bancário, telegrafista da Marinha e funcionário dos Correios e Telégrafos, onde se aposentou.

“Sempre sereno, seguro, com um sorriso amigo para quem dele se aproximasse, granjeou amigos em todos os lugares. Tratava as pessoas com carinho imenso, deixando um rastro de amizade e tranquilidade por onde passava. Sempre tinha uma palavra amiga, uma observação carinhosa, um olhar terno.

“Nilson e Divaldo, sob inspiração da mentora Joanna de Ângelis, fundaram inicialmente o Centro Espírita Caminho da Redenção, no dia  7 de setembro de 1947 e em 15 de agosto de 1952 a Mansão do Caminho, que teve o seu primeiro endereço na Rua Barão do Cotegipe,  124 no Bairro Calçada - Salvador. E, em 1955, os dois Trabalhadores do Bem, com a ajuda de muitos amigos (encarnados e desencarnados), compraram o terreno de 78.000m², no Bairro Pau da Lima - Salvador, onde está instalada essa grande obra de amor ao próximo, de fraternidade e de caridade aos que passam por situações adversas, e que ali encontram a esperança e a oportunidade de uma existência digna e feliz.

“Tio Nilson, como era carinhosamente chamado, era um administrador nato que ajudou a erguer a Mansão do Caminho. Divaldo Franco na sua tarefa evangelizadora, viajando pelo Brasil e pelo Mundo e Nilson de Souza Pereira, na retaguarda, dando o apoio ao amigo inseparável na obra que os dois criaram.

“Sempre trabalhador, após a sua aposentadoria, dedicou-se exclusivamente à Mansão do Caminho e ao Centro Espírita Caminho da Redenção, onde era encontrado  em atividade constante. Fosse na gráfica ou na coordenação de trabalhos no Centro Espírita, sempre com muita alegria e um sorriso amigo.

“Nas reuniões mediúnicas, no trabalho de diálogo com os Espíritos que se comunicavam,  sua voz terna e cheia de amor os encaminhava para os mentores no trabalho de elucidação e atendimento fraterno.

“Para seus interlocutores sempre tinha uma história para contar, dos tempos do pioneirismo da construção da Mansão do Caminho, naquele local muito afastado da cidade de Salvador. Falava do seu tempo de telegrafista da Marinha, quando, na época da Segunda Guerra Mundial, ficava vigilante, no litoral da Bahia, informando os navios que passavam na Costa. Das dificuldades encontradas e do cansaço que muitas vezes chegava antes do fim do dia, na construção da Mansão do Caminho. Mas, sempre terminava a narrativa com um sorriso maroto. Como quem sabia que nada o demoveria da sua tarefa.

“Em 30 de dezembro de 2005, Nilson recebeu o título de Embaixador da Paz no mundo pela Ambassade Universelle pour la Paix, em Genebra, capital da Organização Mundial da Paz, braço da ONU, Suíça, concedido pelos relevantes serviços prestados à Humanidade, se constituindo no 206º Embaixador da Paz.

“No entanto, seu maior troféu foi, com certeza, o sorriso amigo que recebia das crianças atendidas na Mansão. Esse, seguramente, lhe dava maior  satisfação, pois era o reconhecimento pelo trabalho executado. Mãos que agradeciam a ajuda recebida, personagens da vida que recebiam o fruto do seu esforço, retirando-os da miséria absoluta.

“Quantas crianças foram atendidas e tiveram suas vidas preservadas não só pelo alimento físico, pelas roupas que cobriam seus corpos, mas pelo amor que lhes aquecia os corações e o sorriso que afastava a tristeza dos seus olhinhos infantis. Não há reconhecimento maior do que o sorriso de uma mãe agradecida ao ver seu filho atendido nas suas mais simples necessidades.

“Os milhares de sorrisos de reconhecimento, foram levados pelo Tio Nilson no seu retorno à Pátria Espiritual. Ficamos imaginando a recepção que esse Espírito valoroso recebeu no seu retorno. A satisfação dos Mentores Espirituais, que lhe avalizaram a reencarnação, ao verem seu protegido ter cumprido sua missão neste planeta de provas e expiações, com tanta distinção.

“Foram oitenta e nove anos de uma vida profícua, sobretudo pela exemplificação daquilo que nos mostra a Doutrina Espírita nos seus postulados iluminativos e consoladores. Fica o legado do trabalho desse amigo e companheiro para as futuras gerações que continuarão sendo atendidas pelos trabalhos assistenciais da Mansão do Caminho”. (Marco Antonio Negrão – em 22.04.2014)

 

Nilson de Souza Pereira, por Divaldo Pereira Franco[2]

Divaldo e Nilson se conheceram em agosto de 1945, quando Divaldo lecionava na Escola de Datilografia N. S. do Carmo, no bairro dos Quinze Mistérios, na cidade do Salvador, e Nilson se matriculou. Nascia ali uma amizade, uma fraternidade espiritual que, alicerçada e cultivada pelo Espiritismo, duraria para toda vida. Assim comenta Divaldo sobre o amigo:

Em face de uma enfermidade que martirizava o seu genitor, eu e Nilson fomos visitá-lo e lhe aplicamos passes, auxiliando-o na recuperação da saúde.

Nilson passou a frequentar o estudo do Evangelho, na residência de D. Ana Ribeiro Borges (D. Nanã) - a senhora que me orientou mediunicamente e me encaminhou com segurança ao Espiritismo -, na qual eu residia. Posteriormente, a convite de D. Nanã, ele passou a residir conosco.

Toda a sua família tornou-se espírita militante, com dedicação comovedora, mantendo um intercâmbio fraternal incomum com os meus familiares biológicos, nessa ocasião transferidos de Feira de Santana para residirem em Salvador.

Desde aquele período, Nilson revelou-se como um servidor ideal de Jesus: dedicado, sincero, honesto e trabalhador. Toda a sua existência transformou- se em um evangelho de feitos relevantes.

Graças à sua proteção fraternal e dedicação total, tem-me sido possível, com ele especialmente e com outros amigos, concretizar o projeto originado no mundo espiritual que se denomina comunidade Mansão do Caminho, a que ele entregou sua existência.

Portador de excelentes dotes e habilidade, é o espírito de nossa Casa, laborando em diversos ofícios, com habilidade incomum, sempre pronto a servir, a todos ajudando indiscriminadamente.

Exemplo de perseverança no trabalho, orientou diferentes gerações infantis que passaram pela nossa Casa, preparando esses nossos filhos pelo coração para o exercício das diversas profissões a que hoje se entregam.

Trabalhando com afinco, como bancário num período, e noutro como radiotelegrafista dos Correios, aposentou-se após cumprir os prazos exigidos por Lei e entregou-se em tempo real ao ministério da solidariedade.

O seu caráter hígido, a sua moral sadia, a sua abnegação, feita de bondade e coerência, tornou-o um exemplo de cristão-espírita.

Nunca o vi queixar-se de nada, mesmo quando em visível exaustão de forças pelo excesso de labor, prosseguindo otimista e generoso.

Inevitavelmente, despertou sentimentos de amizade e ternura em muitas pessoas que lhe dedicam respeito e afeição.

Além dos labores materiais em que é exímio, dedicou-se à psicoterapia com os desencarnados em sofrimento, sendo um exemplo de humildade e sabedoria a ser seguido, dialogando com os Espíritos que nos visitam em nossas reuniões de socorro.

Em face da confiança que a todos nos inspira, encarregou-se, com outros confrades, de conduzir nossa Instituição ao seu destino enobrecido, substituindo-me em alguns misteres durante as viagens a que sou convocado, e mesmo quando estou, de forma que eu possa dispor de tempo necessário para as atividades mediúnicas e outras mais específicas, aquelas que me dizem respeito.

Sem ele, com certeza, não me teria sido possível ampliar o leque de realizações por cidades e países numerosos, como vem ocorrendo.

Havendo criado a nossa Gráfica e Editora, à qual dedica expressivo número de horas diárias, é responsável pela publicação de nossa Revista Presença Espírita e de mais de duzentos livros de psicografia de que sou instrumento, além de milhões de mensagens e outros materiais pertinentes.

A sua fidelidade a Jesus e ao Espiritismo é comovedora, porque renunciou, desde cedo, aos denominados prazeres juvenis, sem tempo de tombar nos desvãos morais desse período, assim como os da idade adulta, alcançando a idade mais avançada, com honradez, sem ter qualquer constrangimento em olhar a retaguarda por onde transitou.

Amigo de todas as horas, muitos lhe devemos valores que nunca lhe poderemos retribuir, senão através das vibrações de ternura e de gratidão, envoltas em amor e gentilezas que ele merece.

Havendo experimentado diversas vicissitudes na saúde e sendo submetido a intervenções cirúrgicas de largo porte, nunca reclamou, mantendo-se sempre sereno e confiante na misericórdia divina.

Considero-o um verdadeiro espírita, pela fé raciocinada e pelos atos de abnegação e caridade.

Nele tenho um exemplo moral e de trabalho, numa sociedade em que escasseiam valores desse porte, que me estimula ao avanço na busca da autoiluminação.

Não tergiversaria, se necessário fosse, doar-lhe a existência física, nesse período de decrepitude orgânica, a fim de que ele pudesse continuar estoico por mais tempo, construindo a humanidade do futuro, que já podemos antever nos seus exemplos silenciosos e honoráveis.

 

 Livros organizados por Nilson de Souza Pereira:

§  ...E o Amor Continua

§  A Serviço do Espiritismo (Divaldo Franco na Europa)

§  Depois da Vida

§  Exaltação à Vida

§  Terapia Espírita para os desencarnados

§  Viagens e Entrevistas

§  Vidas em Triunfo.

 

 Homenagens recebidas:

§  15.08.1977 - Pergaminho homenagem a Divaldo e Nilson, das Tias da Mansão, pelos 25anos da Mansão do Caminho.

§  19.05.1993 - Placa dourada da Associação Cultural Espírita de Viseu, Portugal.

- Placa de bronze Antero de Quental (1891-1991), do Centro Espírita Luz Eterna, Olhão, Portugal.

§  30.04.1994 - Envelope de cobre, da Associação Cultural Espírita de Viseu, Portugal.

§  1994 - Placa dourada Le CESAK, de Centre d´Études Spirites Allan Kardec, de Paris, França (conjuntamente com Divaldo).

§  07.08.1994 - Título de Cidadão Queimadense - Queimadas, Bahia.

§  24.10.1997 - Placa dourada em quadro, do Grande Encontro Fraternal com Divaldo Franco, em Itaparica, Bahia.

§  1999 - Troféu, em acrílico, oferecido pela CONJEAR, Feira de Santana, Bahia.

§  22.05.1999 - Diploma de Sócio Honorário, do Centro de Estudos Espíritas Allan Kardec, Wintherthur, Suíça.

§  01.06.1999 - Placa dourada, da comunidade de Paramirim, Bahia.

§  00.12.06.1999 - Quadro de St. British Spiritist Encounter e British Union of Spiritist Societies, em gratidão.

§  00.11.1999 - Placa dourada sobre quadro, da Asociación Espírita Tercera Revelación, La Rioja, Argentina.

§  16.01.2000 - Placa de Prata dos Amigos da Mansão, de São Paulo, SP.

§  04.08.2000 - 1º Encontro com Nilson Pereira, Psiquiatria, Psicologia e Espiritismo, Cabo de Santo Agostinho, Pernambuco.

§  06.04.2001 - Placa de Prata, da Sociedade Espírita A Caminho da Luz, Santa Cruz do Sul, R.G. do Sul.

§  29.11.2001 - Placa de Prata, do Centro Espírita Seareiros da Liberdade, de Salvador, Bahia.

§  03.2002 - Troféu em acrílico, com base em granito, da Associação Médico-Espírita de Minas Gerais.

§  20.10.2002 - Placa de Prata da Aliança Regional Espírita - ARE - 03 (Feira de Santana, Bahia),pelos 50 anos da Mansão do Caminho e 55 anos do Centro Espírita Caminho da Redenção.

§  26.10.2002 - Placa de Prata da Caravana Auta de Souza, de Salvador, Bahia.

§  04.07.2003 - Diploma de Sócio Honorífico da FIDES (Le Federazione Italiana di Evoluzione Spiritica (Organo Promotore e Coordenatore Dell Unione Espiritista Italiana), Milano, Itália.

§  2003 - Certificado do Congresso Espírita Portorriqueño 2003 (de 27.2 a 2.3.2003), por sua participação.

§  25.02.2004 - Placa Dourada do Centro Espírita Caridade, de Araguari.

§  29.05.2004 - Diploma de Sócio Honorário do Centro de Estudos Espíritas Allan Kardec, de Winterthur, Suisse.

§  25.07.2004- Placa de Prata da Sociedade Espírita Fraternidade, de Paramirim, Bahia.

§  15.08.2004 - Placa de Prata dos Filhos da Mansão do Caminho, em conjunto com Divaldo.

§  26.10.2004 - Placa Dourada da Escola de 1º Grau Jesus Cristo, da Mansão do Caminho, pelos oitenta anos de idade.

§  06.10.2004 - Quadro com moldura dourada, da Família Mansão do Caminho.

§  01.05.2005 - Placa Dourada (réplica da Placa indicativa da rua com o seu nome), oferecida pelo Prefeito de Biritinga, Bahia.

§  12.2005 - Título nº 204 de Embaixador da Paz, oferecido pela Universal Peace Ambassy & Cercle Universel des Ambassadeurs de la Paix, em Genève, Suisse.

§  04.2007 -Placa de metal prateado sobre acrílico preto, oferecido pelas Equipes dos Livros de Divaldo, de São Paulo e Rio Grande do Sul.

§  05.2007 - Quadro dourado, oferecido pela Sociedade de Estudos Espíritas Allan Kardec,  Viena, Áustria.

§  06.2007 - Quadro Coeur de prières, homenagem do Centre d´Études Spirites Allan Kardec, Paris, França.

§  07.2007 - Medalha 2 de Julho, recebida no Palácio Rio Branco, Salvador - BA.

§  09.09.2012 - Distinção Honorífica ao sócio Honorário, pela Associação Espírita de São Brás, Portugal.

§  Medalha Serviços de Guerra Marinha do Brasil.

 

Divaldo Pereira Franco fala a respeito de Nilson de Souza Pereira, em entrevista ao Jornal de Espiritismo, de Portugal, em 2 de dezembro de 2013. Publicada na edição nº 63, de março/abril de 2014.

Quem era Nilson, que tipo de pessoa era?

Nilson foi, na Terra, um homem jovial e encantador, dedicado ao trabalho do bem desde que travou contato com o Espiritismo, no ano de 1945. Na ocasião era marinheiro, posteriormente telegrafista dos Correios e, por fim, bancário, em cujo labor aposentou-se.

Portador de uma dedicação incomum, era considerado o homem dos sete instrumentos, pela sua capacidade de exercer as mais variadas funções em nossa Instituição [Mansão do Caminho], consertando tudo quanto lhe chegava às mãos. Responsável pela edificação de todo o conjunto de casas, departamentos e residências da comunidade Mansão do Caminho, instalações elétricas, água e serviços gerais. Antes de tornar-se espírita, aos vinte e três anos de idade, teve namoradas e quase ficou noivo. Posteriormente entregou-se totalmente à obra de amor e quase não dispôs de tempo para materializar outras aspirações. Era alegre e jovial, mas sério e responsável, sendo muito respeitado e amado.

Como nasceu a vossa amizade, como se conheceram, como nasceu o projeto de, em conjunto, construírem a Mansão do Caminho? E que tipo de cidadão era?

Em 1945, eu ensinava português em uma Escola de datilografia, auxiliando os alunos que tinham dificuldade com o idioma. Eu estava com dezoito anos. Nilson e amigos matricularam-se na Escola, no mês de fevereiro, e passei a ministrar-lhe e aos companheiros noções do idioma pátrio. Nesse ínterim, seu genitor enfermou gravemente e, sabendo-o, prontifiquei-me a visitá-lo, constatando que se tratava de um transtorno obsessivo de consequências orgânicas. Apliquei-lhe a terapia dos passes, da água fluidificada, os Benfeitores orientaram-no no tratamento homeopático e, ao recuperar-se, toda a família tornou-se espírita.

O projeto da Mansão do Caminho é resultado de uma visão psíquica de que fui objeto, quando ambos retornávamos de uma visita a uma jovem obsidiada e nos encontrávamos num comboio ferroviário. Ao descrever-lhe o que vi, ele desenhou e guardou os detalhes apresentados, vindo a materializar-se, por volta de 1955. Ao adquirirmos uma área de oitenta e seis mil metros quadrados, ele começou a construir a comunidade, conforme o desenho que fizera, resultando no que hoje existe. Antes as crianças viviam em um edifício de 3 andares,  então denominado Orfanato, que recebeu o nome de Mansão do Caminho. Era um cidadão eminentemente pacífico e trabalhador.

É verdade que ele mandava o Divaldo deitar-se no banco de trás do carro, para não o incomodar, pois o Divaldo confundia os vivos com os mortos? (risos...) Que outras histórias pitorescas que ache oportuno partilhar?

Realmente, no período de educação da mediunidade, o fenômeno era tão pulsante que me levava à dificuldade de distinguir aquilo que era objetivo do que se passava no campo da paranormalidade. Eu via acidentes e assustava-me, obrigando Nilson a mandar-me para a parte de trás do carro, a fim de não o atrapalhar. Dessa forma, não aprendi a conduzir veículos até hoje. Muitas vezes, eu era apresentado a uma pessoa e via-lhe o semblante. Ao reencontrá-la, apresentava outra face, o que muito me confundia, porque dependia do acompanhamento espiritual daquele momento.

Qual o papel dele na Mansão do Caminho, que tipo de trabalhos era da sua responsabilidade?

O papel de Nilson na Mansão do Caminho era de fundamental importância. Além de ser o grande trabalhador, também era o presidente do Centro Espírita Caminho da Redenção e de todos os seus departamentos, incluindo a Mansão. Não se detinha, porém, no que lhe era dever realizar, mas estava sempre disposto aos labores que se apresentavam, que não eram poucos.

Dormia pouco, a fim de atender a todos os compromissos, nunca ultrapassando quatro horas e meia, em média, diariamente.

Nilson sempre viveu na sua retaguarda, apesar de caminharem lado a lado. Deu-lhe muito apoio nas suas viagens de divulgação espírita pelo mundo afora. Que tipo de espírita era, que tarefas espíritas tinha, como o classificaria como espírita?

Em razão do seu caráter de homem de bem, jamais se apresentava, mantendo-se sempre discreto em todas as situações, em Salvador ou viajando pelo mundo. Era-me, no entanto, o grande apoio, a solidariedade, o concurso amigo para quaisquer situações. Embora de formação cultural primária, escrevia muito bem e falava com correção de linguagem. Era um verdadeiro espírita, conforme o conceito apresentado por Allan Kardec.

Ele recebeu um alto galardão como cidadão mundial defensor da paz. Como foi isso, quer explicar-nos?

Para nossa surpresa, no mês de dezembro de 2005, nós dois fomos indicados como Embaixadores da Paz no mundo, sem jamais sabermos como isso aconteceu, em Genève, através do Instituto para a Paz no Mundo.

De acordo com um livro publicado, Nilson teria sido seu irmão, ambos filhos de Joana de Cusa, e Nilson foi sacrificado, juntamente com sua mãe Joana de Cusa, atualmente seu guia espiritual, Joanna de Ângelis. Que outras ligações teve com Nilson que se recorde?

Em realidade, conforme as informações espirituais, ele teria sido queimado vivo com sua mãe, Joana de Cusa que, mais tarde, se identificaria como Joanna de Ângelis. Ainda, segundo as mesmas fontes, teríamos ambos retornado ao conhecimento e convivência da doutrina cristã ao tempo de Francisco de Assis, na Úmbria e, posteriormente, na Escócia.

Nilson teve vários problemas de saúde graves e desencarnou de cancro. Todas essas dores foram expiação ou contingências de um ser terreno, em provas escolhidas?

As problemáticas na área da saúde foram decorrência de comportamentos infelizes em existências passadas, que ele soube administrar muito bem, sem jamais haver-se queixado ou reclamado. Sempre paciente, foi um exemplo de resignação.

Quarenta dias depois da sua desencarnação, ele comunicou-se por intermédio de sua fala (psicofonia). Como foi esse momento? Divaldo assistiu ou participou na desencarnação do Nilson?

Havíamos combinado que, ao ocorrer qualquer problema com um de nós, o outro continuaria no trabalho. Desse modo, durante toda a sua enfermidade final, eu mantive a programação de viagens e os compromissos firmados, indo ao Hospital para o acompanhar nas demais horas. Quando ele desencarnou, eu me encontrava em viagem e prossegui, não havendo participado do seu sepultamento. Ao concluir o labor e retornar, fui diretamente ao cemitério orar junto à sua tumba, sem extravasar a imensa dor que me dominava e ainda permanece mais suavizada. Nesse ínterim, após a desencarnação, tive uma visão dele, quando do nosso Movimento Você e a Paz: ele apareceu-me amparado pela Benfeitora Joanna de Ângelis e acenou-me sorrindo. Posteriormente, num momento de profunda reflexão e dor, ouvi-lhe a voz, que me disse: Di, não quero você triste nem deprimido. A sua alegria é importante para auxiliar outras pessoas...

No dia da mensagem psicofônica, vivenciei sentimentos de interiorização até o momento, na reunião, quando ele ofereceu-nos a página consoladora, durante um transe inconsciente de minha parte, que muito me refrigerou o coração e a mente.

 

No dia 21 de novembro de 2013, às 4h40min, na cidade de Salvador, Bahia, retornou a pátria espiritual NILSON DE SOUZA PEREIRA, incansável trabalhador da seara espírita, com inúmeras tarefas no bem. Sempre pensou no bem-estar das suas crianças, milhares que passaram pela Mansão do Caminho, obra assistencial fundada por ele e por Divaldo Pereira Franco.



[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=749

[2] A jornada numinosa de Divaldo Franco, Sérgio Sinotti, ed. LEAL, 2009.

terça-feira, 9 de setembro de 2025

TESTANDO O CONHECIMENTO DE VIDAS PASSADAS DAS CRIANÇAS[1]

 


Osel, de quatorze meses, seleciona corretamente o sino que pertencia a um monge recentemente falecido, Lama Yeshe, ajudando a confirmar sua reencarnação

 


K.M. Wehrstein

 

Em culturas reencarnacionistas, onde as crianças às vezes falam de uma vida passada, os pais de ambas as famílias (a criança e a pessoa cuja vida a criança se lembra) podem aplicar testes à criança para tentar estabelecer a verdade, por meio do reconhecimento de pessoas, lugares ou objetos. Este artigo examina os tipos de testes que foram realizados, referindo-se a casos específicos.

 

Razões para testar

Ian Stevenson, o fundador da pesquisa científica sobre reencarnação, destacou que a possibilidade de crianças terem adquirido o conhecimento de vidas passadas de maneira comum deve ser descartada antes que um pesquisador possa ter certeza de que um caso é genuíno. É por essa razão, por exemplo, que Stevenson geralmente ignorava casos de famílias, nos quais o conhecimento de ancestrais poderia ser relatado como história familiar. Ele preferia publicar casos em que as famílias atual e anterior claramente não tinham contato antes de a criança relatar memórias de vidas passadas[2].

Mas mesmo quando havia pouco ou nenhum contato, observou ele, o pesquisador deve descartar outras possibilidades de transmissão de informações por meios normais. Stevenson sempre foi cauteloso com fraudes e, em seus casos, cauteloso ao ponderar possíveis motivações, como atenção pública e ganho financeiro. De fato, ele desenterrou alguns casos em que pais fizeram alegações falsas sobre quem seus filhos haviam sido em vidas passadas, incluindo Mahatma Gandhi em um caso indiano[3].

Stevenson também teve o cuidado de descartar a hipótese de autoengano, o que pode ser exemplificado pelo caso turco de Kenedi Alkan, cujo pai estava tão convencido de que seu filho era o presidente americano assassinado John F. Kennedy reencarnado que o batizou com base nessa afirmação[4]. O infeliz menino manteve essa crença até a idade adulta[5].

Duas outras armadilhas para pesquisadores que tentam determinar a genuinidade dos casos de reencarnação são a criptomnésia, também conhecida como amnésia de fonte — conhecimento adquirido normalmente cuja aquisição é esquecida, fazendo a pessoa pensar que ele derivou de uma vida passada — e a paramnésia, ou simples distorção natural ou imprecisão da memória.

A confabulação também pode ser um perigo: Stevenson descreveu como os pais podem ouvir uma criança fazer algumas declarações, "começar a dar-lhes uma coerência que talvez não tivessem", conceber que tipo de pessoa a criança poderia ter sido, encontrar uma família com um membro falecido cuja vida corresponda e convencê-los, elaborando a história em colaboração. "Dessa forma, um mito sobre o que a criança disse pode se desenvolver e ser aceito por ambas as famílias[6]. A motivação para isso, observou Stevenson, pode ser os dois desejos correspondentes de saber em quem um ente querido falecido se tornou e de saber quem uma criança viva foi anteriormente. Ele observou que os membros da seita drusa do islamismo xiita, que acreditam na reencarnação, gostam particularmente de rastrear reencarnações[7].

Stevenson teve o cuidado de apontar, no entanto, que muitas famílias, mesmo em culturas de reencarnação, são hostis à lembrança de vidas passadas por seus filhos, ou a outras famílias que afirmam que seu filho é um parente falecido, e que a maioria dos casos, incluindo os drusos, apresenta características que desafiam essa explicação. Três estudos sobre precisão e consistência da memória, de autoria ou coautoria de Stevenson, apresentaram bons resultados[8].

Stevenson observou que, em testes de reconhecimento, as famílias frequentemente contaminam o processo. "Elas frequentemente fazem perguntas sugestivas à criança, como 'Você vê sua esposa aqui?', e os olhares expectantes das pessoas ao redor em direção à esposa da personalidade anterior podem impossibilitar que a criança responda incorretamente", escreveu Stevenson[9]. De fato, em um caso ( Ramoo e Rajoo Sharma ), Stevenson teve que sinalizar uma série de afirmações como provisórias devido ao pai dos participantes relatar que perguntas sugestivas haviam sido feitas[10].

Por outro lado, ele creditou 'adultos responsáveis' por controlar as condições de reconhecimento 'de modo que as pessoas que a criança pudesse reconhecer fossem apresentadas a ela em um ambiente isolado e tranquilo, e a única pergunta feita fosse: "Você reconhece esta pessoa[11]?" ' Como exemplo, ele dá Gnanatilleka Baddewithana (veja o resumo abaixo).

Há muitos outros exemplos de adultos testando o conhecimento das crianças, com ou sem a ajuda de investigadores. Tendo vários motivos para querer ter certeza de que a reencarnação é genuína, eles podem ser bastante habilidosos em desafiar o conhecimento da criança. Segue um exemplo representativo, mas de forma alguma completo.

 

Gnanatilleka Baddewithana

Neste caso do Sri Lanka, os reconhecimentos foram realizados sob a orientação de investigadores cuidadosos, primeiro o acadêmico e jornalista cingalês H.S.S. Nissanka, e depois Stevenson. Nissanka registrou as declarações de Gnanatilleka por escrito antes de começar a verificá-las. Ele levou três professores à casa de Gnanatilleka, dos quais apenas um havia sido seu professor em sua vida anterior. Corretamente, ela reconheceu apenas um, que lhe fora muito querido, então subiu em seu colo e reencenou parte de uma história que ele havia ensinado à sua encarnação anterior, Tillekeratne, pouco antes de sua morte. O professor ficou comovido até as lágrimas.

O encontro de Gnanatilleka com sua família anterior ocorreu em uma pousada, e os familiares de Tillekeratne e outros associados, juntamente com outras pessoas que ele não conhecia, entraram no quarto onde a moça estava, um por um, exceto por dois grupos de três, silenciosamente. Ela identificou cada pessoa corretamente, apontando os estranhos como estranhos. Mais tarde, Stevenson trouxe um amigo de Tillekeratne e outro estranho à presença de Gnanatilleka, e ela novamente nomeou o amigo (com um pequeno erro) e não conseguiu identificar o estranho[12].

 

Swarnlata Mishra

Este caso indiano é mais um em que foram feitos registros escritos das memórias da criança antes do contato com a antiga família. É extraordinário que a pequena Swarnlata tenha conseguido executar danças acompanhadas de canções em uma língua que não havia aprendido em sua vida atual. O caso foi investigado pelo estudioso de parapsicologia indiana H. N. Banerjee e Stevenson.

Após sua encarnação anterior ter sido identificada, a antiga família de Swarnlata a visitou, com a intenção de enganá-la para descobrir a verdade de suas alegações. Seu antigo irmão mais novo chegou primeiro, sem avisar e escondendo sua identidade, e embora ela tenha errado o nome dele na primeira tentativa, lembrou-se corretamente do apelido que sua encarnação anterior havia usado para ele.

Em seguida, chegou o viúvo e filho adulto de sua encarnação anterior, acompanhado de outros nove homens, alguns dos quais ela conhecia e outros não. Ao encontrar o ex-marido, ela assumiu o comportamento tímido das esposas hindus na presença de seus maridos. Ela também o identificou em uma fotografia de quarenta anos atrás. Seu ex-filho insistiu por 24 horas inteiras que não era seu filho, mas outra pessoa, e também tentou se passar por um cúmplice como seu outro ex-filho. Swarnlata manteve-se firme em sua posição de que estava certa sobre ambos. Ela também conseguiu identificar a prima de seu ex-pai, a esposa do cunhado e uma parteira que seu eu anterior conhecera em meio a uma multidão de quarenta pessoas.

Por fim, um de seus antigos irmãos confessou que ela havia perdido os dentes, ao que ela respondeu que havia colocado obturações de ouro. Sem saber disso, os irmãos consultaram suas esposas, que confirmaram a alegação[13].

 

Toran (Titu) Singh

Este caso indiano de um menino que trabalhou como vendedor de rádio e contrabandista até seu assassinato brutal foi investigado pela pesquisadora de reencarnação Antonia Mills , como parte de uma replicação da metodologia investigativa de Stevenson. Mills o publicou como um dos três casos apresentados em detalhes em um artigo científico publicado em 1989[14].

Titu (como todos o conheciam) começou a falar aos dezoito meses e logo começou a falar sobre uma vida passada na qual se chamava Suresh e possuía uma loja de rádios chamada Suresh Radio em Sadar Bazaar, na cidade de Agra, a cerca de 13 quilômetros de sua casa atual. Seu irmão viajou até a cidade para verificar se tal loja existia, descobriu que sim e iniciou o contato entre as famílias. No entanto, a família de Suresh suspeitou que o caso tivesse sido inventado.

Na tentativa de enganar Titu em sua primeira visita a Agra, sua antiga família tentou uma pegadinha, perguntando qual das duas ex-irmãs que ele acabara de conhecer era sua irmã mais velha. De fato, como ele respondeu corretamente, nenhuma delas era; sua irmã mais velha não estava presente. Em seguida, eles o levaram à loja de seu irmão em vez da Rádio Suresh, alegando que era a dele. Ele não se deixou enganar. Eles então o levaram à casa de seu antigo pai, que ele corretamente disse que não era sua. Quando os filhos de Suresh voltaram da escola, eles se encontraram com Titu entre um grupo de outras crianças, mas Titu, mesmo assim, reconheceu seu antigo filho mais velho e perguntou por que ele não o havia cumprimentado adequadamente dizendo "Namastê".

Quando a família de Suresh questionou Titu sobre fatos como onde seu casamento havia sido realizado e como ele havia viajado para lá, ele passou facilmente (embora Mills observe que, a essa altura, ele poderia ter recebido essa informação por meios normais). No final das contas, a maioria dos membros da família aceitou Titu como a reencarnação de Suresh.

 

Imad Elawar

A investigação do caso druso de Imad Elawar, de Kornayel, Líbano, tornou-se mais interessante e desafiadora devido aos erros iniciais cometidos pelos pais[15].  Ainda criança, Imad mencionou os nomes "Mahmoud" e "Jamileh", disse ter sido membro da família Bouhamzy na aldeia vizinha de Khriby, descreveu um acidente em que um homem foi atropelado por um caminhão que lhe quebrou as duas pernas e o matou, e ficou visivelmente feliz por ter conseguido andar novamente. Os pais inferiram que se tratava de um homem chamado Mahmoud Bouhamzy, de Khriby, que tivera uma esposa chamada Jamileh e morrera em tal acidente.

No entanto, muitas dessas inferências (listadas na tabulação de declarações de Stevenson) revelaram-se equivocadas[16].  Além disso, reexaminando suas anotações, Stevenson percebeu que Imad nunca havia realmente dito que o acidente de caminhão havia acontecido com ele. Ao entrevistar membros da família Bouhamzy, Stevenson descobriu que a pessoa que havia sido atropelada da maneira descrita por Imad não era Mahmoud Bouhamzy, mas sim seu parente Said Bouhamzy. A família de Said estava há muito convencida de que outro jovem, Sleimann Bouhamzy, era Said renascido, tendo demonstrado, durante sua infância, conhecimento da vida de Said.

Stevenson considerou que as declarações de Imad se encaixavam melhor com as de Ibrahim Bouhamzy, primo e bom amigo de Said. Ibrahim Bouhamzy teve uma amante chamada Jamileh, foi fortemente afetado pelo acidente de Said e ficou impossibilitado de andar nos últimos dois meses de vida devido à tuberculose espinhal, que acabou por matá-lo.

Imad foi testado ao ser levado às antigas casas de Said e Ibrahim; ele não reconheceu nada na casa de Said, mas reconheceu muitos aspectos do interior da de Ibrahim. Ao serem feitas perguntas não direcionadas, como "Se você tivesse um cachorro aqui, onde o guardava?", "Como o cachorro era carregado?", "Qual era a sua cama?", "Quando você estava doente, como conversava com seus amigos?" e "Você disse algo pouco antes de morrer; o que foi?", ele respondeu a cada uma delas corretamente. Suas respostas incluíam algumas informações fortemente distintivas, por exemplo, uma repetição precisa da última declaração de Said[17].

 

Nazih Al-Danaf

O caso druso de Nazih Al-Danaf foi investigado pelo pesquisador de reencarnação e paranormalidade Erlendur Haraldsson , que o chamou de "um caso verdadeiramente notável", dizendo "nenhum caso que eu investiguei se iguala a ele em quão perfeitamente as declarações lembradas se encaixam nos fatos da vida da personalidade anterior[18]".

Segundo sua mãe e outros familiares, Nazih começou a dizer coisas incomuns aos dezoito meses, como: "Não sou pequeno, sou grande. Carrego duas pistolas. Carrego quatro granadas de mão. Sou qabadai (uma pessoa destemida e forte). Meus filhos são pequenos e quero ir vê-los". Ele se lembrou de ter sido morto a tiros em um ataque a um prédio que guardava, disse que seu nome era Fuad e exigiu ser levado para Qaberchamoun, uma pequena cidade acerca de dezoito quilômetros de sua casa, alegando que sua casa ficava lá.

Em uma visita a Qaberchamoun, as instruções de Nazih permitiram que os familiares encontrassem parentes de Fuad Khaddage, um homem cuja vida e morte coincidiam com as declarações de Nazih. A viúva de Fuad, em busca de evidências, testou seus conhecimentos perguntando-lhe quem havia construído a fundação do portão da casa; ele respondeu: "um homem da família Faraj", o que estava correto. Questionado se ela havia sofrido um acidente quando moravam em outra aldeia, ele o descreveu com precisão: ela havia escorregado e caído enquanto colhia pinhas para seus filhos brincarem, deslocando o ombro, e Fuad a levou ao médico que o engessou. Ela também perguntou a Nazih se ele se lembrava de como sua filha havia adoecido gravemente, e ele respondeu corretamente: "Ela foi envenenada pela minha medicação e eu a levei ao hospital".

Nazih parecia igualmente determinado a testar sua ex-esposa, perguntando-lhe se ela se lembrava de ter sido ajudada a caminho de Beirute por soldados israelenses que carregaram a bateria do carro deles, ou da noite em que ela o trancou para fora de casa porque ele havia voltado bêbado. Essas lembranças fortaleceram ainda mais o caso.

Quando Nazih visitou seu irmão Adeeb, Adeeb pediu uma prova, e Nazih disse que se lembrava de ter dado a Adeeb uma arma de fogo como presente, identificando corretamente a marca: Checki 16, uma arma considerada preciosa no Líbano.

Todos os antigos familiares de Nazih estavam convencidos pelo seu conhecimento de que ele era a reencarnação de Fuad.

 

Tradições de Teste Tibetanas

Parte da tradição budista tibetana é a metodologia sistemática para encontrar e identificar as reencarnações de lamas (monges) proeminentes. Único no mundo como método de seleção de uma elite política, o processo é crucial para a manutenção da estrutura política do Tibete e continua apesar da ocupação do país pela China. A descoberta do atual Dalai Lama, Tenzin Gyatso, que se acredita estar em sua décima quarta encarnação no cargo, foi resumida pela autora britânica Vicki Mackenzie em seu livro de 1988, The Boy Lama.

Primeiro, logo após a morte de seu antecessor, seus subordinados procuraram sinais e viram que a cabeça do cadáver se moveu certa noite em direção ao nordeste, e duas plantas cresceram nos cantos nordeste do Potala, ou palácio real, logo depois. Em seguida, o regente nomeado para governar até que o novo Dalai Lama fosse encontrado foi a um lago sagrado, onde teve visões de um mosteiro com telhado dourado, uma pequena casa com azulejos turquesa característicos e uma mãe com um bebê perto de um pessegueiro. Três grupos de busca foram enviados, e o que viajou para o nordeste chegou ao mosteiro de Kumbum, com telhado dourado, e depois à vila de Takster, onde encontraram a casa com os azulejos turquesa e o pessegueiro.

Trocando de roupa pelas de um oficial inferior, o monge que chefiava o grupo de busca foi até a casa, onde foi conduzido à cozinha. O menino correu até ele, encantado, e subiu em seu colo. Agarrou o rosário que o monge usava no pescoço, que pertencera ao Dalai Lama anterior, e disse: "Este é meu[19]".

Nesse ponto, os aspectos mais esotéricos da busca foram abandonados em favor de testar o reconhecimento de pertences pela criança. Isso já havia sido feito em outros casos: no segundo volume de sua série de dois livros, Reincarnation and Biology, Stevenson registra dois casos em que pertences da pessoa anterior, misturados a outros objetos semelhantes, foram mostrados a uma criança para que ela pudesse identificar os corretos: o caso de Thiang San Kla (vários artigos)[20]  e o caso de Maung Soe Myint (roupas)[21]. 

Um rosário, um tambor e uma bengala que pertenceram ao décimo terceiro Dalai Lama, misturados a objetos semelhantes que não pertenceram, alguns de aparência semelhante e outros mais atraentes para crianças, foram presenteados ao menino de quatro anos que o grupo de busca encontrou. Ele escolheu corretamente e foi entronizado como Dalai Lama[22].

"O menino lama" mencionado no título do livro de Mackenzie, Lama Osel Hita, também foi testado dessa forma para confirmar sua identidade como a reencarnação de Lama Yeshe Thubten, como Mackenzie descreveu, embora fosse pouco mais que um bebê, com apenas quatorze meses de idade. Um rosário de Yeshe e quatro outros, incluindo um de cor chamativa, foram colocados diante de Osel primeiro, e ele escolheu corretamente. Em seguida, oito sinos, incluindo apenas um que pertencera a Yeshe, foram-lhe mostrados e – depois de tocá-los alegremente por um tempo – ele novamente escolheu corretamente. Logo depois, foi devidamente entronizado como a encarnação de Lama Yeshe[23].

 

Literatura

§  Angel, L. (1994). Empirical evidence of reincarnation? Examining Stevenson’s ‘most impressive’ case. Skeptical Inquirer 18 (Sept.-Oct.), 481-87.

§  Barros, J.C.S. (2004). Another look at the Imad Elawar case: A review of Leonard Angel’s critique of this “past life memory case study.” [Web post, last modified 5 September 2012.]

§  Haraldsson, E., & Abu-Izzeddin, M. (2002). Development of certainty about the correct deceased person in a case of the reincarnation type in Lebanon: The case of Nazih Al-Danaf. Journal of Scientific Exploration 16/3, 363-80.

§  Haraldsson, E., & Matlock, J.G. (2016). I Saw A Light And Came Here: Children’s Experiences of Reincarnation. Hove, UK: White Crow Books.

§  Mackenzie, V. (1988). The Boy Lama. San Francisco: Harper & Row. [Originally published as Reincarnation: The Boy Lama, London 1988: Bloomsbury.

§  Mills, A. (1989). A replication study: Three cases of children in northern India who are said to remember a previous life. Journal of Scientific Exploration 3/2, 133-84.

§  Mills, A. (2003). Are children with imaginary playmates and children said to remember previous lives cross-culturally comparable categories? Transcultural Psychiatry 40, 63-91.

§  Stevenson, I. (1974). Twenty Cases Suggestive of Reincarnation (2nd ed., rev.). Charlottesville, Virginia, USA: University Press of Virginia.

§  Stevenson, I. (1975). Cases of the Reincarnation Type. Volume I: Ten Cases in India. Charlottesville, Virginia, USA: University Press of Virginia.

§  Stevenson, I. (1997). Reincarnation and Biology: A Contribution to the Etiology of Birthmarks and Birth Defects. Volume 2: Birth Defects and Other Anomalies. Westport, Connecticut, USA: Praeger.

§  Stevenson, I. (2001). Children Who Remember Previous Lives: A Question of Reincarnation (rev. ed.). Jefferson, North Carolina, USA: McFarland.

§  Stevenson, I., Pasricha, S., & Samararatne, G. (1988). Deception and self-deception in cases of the reincarnation type: Seven illustrative cases in Asia. Journal of the American Society for Psychical Research 82, 1-31.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Stevenson (2001), 151.

[3] Stevenson, Pasricha e Samararatne (1988), 10-15.

[4] Stevenson, Pasricha e Samararatne (1988), 22-26.

[5] Stevenson (2001), 152.

[6] Stevenson (2001), 154.

[7] Stevenson (2001), 155.

[8] Stevenson (2001), 157.

[9] Stevenson (2001), 113.

[10] Stevenson (1975), 346. Mills (2003, 76-77) mostra como isso pode funcionar, em referência a uma reunião gravada em vídeo de uma criança com a suposta família anterior.

[11] Stevenson (2001), 113.

[12] Para o relato completo do caso, veja Stevenson (1974), 131-49.

[13] Para o relato completo do caso, veja Stevenson (1974), 67-91.

[14] Para o relatório completo do caso, veja Mills (1989), 156-71.

[15] Para o relatório completo do caso, veja Stevenson (1974), 274-320.

[16] Identificação de Ibrahim Bouhamzy não se baseou nas inferências equivocadas dos pais de Imad (Matlock, 2019, 105-6).

[17] Para o relatório completo do caso, veja Stevenson (1974), 274-320.

[18] Haraldsson. & Matlock (2016), 26. Para o relatório de caso completo, veja Haraldsson & Abu-Izzeddin (2002) e Haraldsson & Matlock (2016), 13-26.

[19] Mackenzie (1988), 150-51.

[20] Stevenson (1997), 1584.

[21] Stevenson (1997), 1266-67.

[22] Mazkenzie (1988), 151.

[23] Mazkenzie (1988), 100-101.

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

NEWTON LEMGRUBER BOECHAT[1]

 


 

Newton Lemgruber Boechat nasceu em Apiacá, cidade do Interior do Estado do Espírito Santo, bem próxima à divisa com o Estado do Rio de Janeiro, em 25 de julho de 1928. Foram seus pais Clodomiro Lemgruber Boechat e Himbelsa Boechat.  Recebeu as primeira letras em sua terra natal, passando a estudar, a partir dos 10 anos de idade, em Santo Antônio de Pádua, no Estado do Rio, onde concluiu o curso secundário.

O Espiritismo, a essa altura, já fazia parte de sua existência, pois seu avô, Júlio Boechat, tinha fama na região pelas curas que efetuava, sendo notáveis as reuniões mediúnicas que dirigia, com comunicações psicofônicas e doutrinação de Espíritos.

Por volta dos 17 anos mudou-se para Belo Horizonte, quando iniciou estudos na área das línguas neolatinas, em nível superior, graduando-se quatro anos após. Foram anos árduos e de grandes dificuldades econômicas, chegando a trabalhar em humilde emprego e a estudar ao mesmo tempo. Nessa época, fez amizade, em Belo Horizonte, com vários membros atuantes do Movimento Espírita, tais como César Burnier, de quem se tornou grande amigo, Rubens Romanelli, Henrique Rodrigues, Camillo Chaves, iniciando visitas que se tornaram posteriormente constantes a Pedro Leopoldo, quando conheceu Chico Xavier e Dr. Rômulo Joviano.

Nessa época, também, passou a falar constantemente nas reuniões públicas do Centro Espírita Luiz Gonzaga, enquanto o famoso médium mineiro recebia, por psicografia, inúmeras mensagens.

Revezava-se, nesse mister, com Henrique Rodrigues, ficando a dupla de oradores e grandes amigos conhecida como "Cosme e Damião do Espiritismo". Teve vaticinada, nessa ocasião, a missão de que se investiria, através do médium César Burnier, segundo o próprio nos narrou, pessoalmente, afiançando que o jovem orador de então seria conhecido em todo o Brasil e falaria na América do Sul e Europa.

Durante o período de estudos, em Belo Horizonte, fundou, com grande dificuldade financeira, um jornal, em parceria com Gustavo Pancrácio, intitulado “A Luz do Mundo". Esse jornal chegou a ter 7 números. Nele ficou registrada uma entrevista feita pelo Boechat com o Professor Pietro Ubaldi, por ocasião de sua visita a Belo Horizonte e Pedro Leopoldo, quando teve um famoso encontro com Chico Xavier, presentes Newton Boechat, Rubens Romanelli, Clóvis Tavares e César Burnier, além de outros.

Burnier registrou o encontro em fita cinematográfica, doada posteriormente ao Instituto de Pesquisas Psicobiofísicas, dirigido por Hernani Guimarães Andrade, por sinal, grande amigo de Boechat.

Após se formar, passou em concurso público promovido pelo DASP para o IAPETEC (hoje incorporado ao INPS), trabalhando em Belo Horizonte, fazendo palestras nas horas disponíveis e participando ativamente das reuniões com o Chico Xavier em Pedro Leopoldo. Deste se tornou grande amigo e sempre demonstrou dele ter recebido muitos ensinamentos notáveis e revelações preciosas, muitas delas nunca divulgadas até hoje.

Por volta de 1956 pediu e obteve transferência para o Rio de Janeiro, passando a trabalhar no prédio do INPS na Avenida Graça Aranha, onde ficou até aposentar-se. Trabalhava também como tradutor juramentado, traduzindo textos em Francês, que conhecia como poucos.

A partir daí intensificou conferências por todo o Brasil, fora as inúmeras participações em reuniões mais íntimas e informais, as chamadas "reuniões do lar", às quais comparecia, em casa de numerosos amigos, sempre expondo seus pensamentos com palavra clara e didática impecável, maravilhando os que o ouviam.

Obviamente, destacava-se-lhe a memória prodigiosa, citando com exatidão, qual computador de última geração, o versículo, o capítulo, a página, o livro... Conhecia tudo de memória.

Após a desencarnação, nenhum livro foi encontrado em sua residência. Ele os dava aos amigos, após lê-los. O de que precisava, gravava no cérebro privilegiado. Mais do que simplesmente a beleza das imagens expressas, qual verdadeiro "pintor' de palavras, seu discurso saía impregnado do magnetismo daquele que fala o que realmente vive, fato que constatamos pessoalmente nos incontáveis atos de caridade praticados, seja no conselho oportuno, na ajuda econômica discreta e anônima ou na presença assídua junto a doentes, na aplicação diária de passes.

Jamais ouvimos de sua boca palavras de crítica a quem quer que fosse, embora constatássemos, por testemunha, que em inúmeras vezes até que teria motivos fortes para emiti-la. Possuía o hábito de, ao se deitar e também ao despertar, orar longamente por amigos e necessitados, especialmente por aqueles que não o compreendiam, e o fazia religiosamente.

A mediunidade mais ostensiva começou a se lhe manifestar no início da década de 70, com o surgimento de vidência e audição espirituais. A partir daí, assistimos, por seu intermédio, e damos tal testemunho, a inúmeras e precisas identificações de Espíritos, muitas delas narradas em nossos livros em parceria. Por sua mediunidade vieram diversos poetas, como Azevedo Cruz, Auta de Souza, Lobo da Costa, Augusto do Anjos etc.

Viajou por diversos países da América do Sul, tendo feito palestras no Paraguai, Uruguai, Argentina e também na Europa, em fins da década de 70, quando falou em Portugal, Espanha, Itália e França. Na Europa, visitou o túmulo de Kardec, em Paris, e o de Bozzano, na Itália, fazendo pesquisas. Na Espanha falou em Barcelona, no interior de uma igreja católica, próxima ao local onde, cento e poucos anos antes, se dera a queima dos livros de Kardec no episódio que ficou conhecido como o "Auto-de-fé em Barcelona".

Realizou cerca de 7.000 palestras em todo o Brasil, conhecendo e se tornando amigo de espíritas em diversos municípios brasileiros.

Nada o detinha nessa missão.

Entre suas palestras mais famosas podemos relacionar: "Prisões sem Grades" (a mais solicitada), "A Manifestação do Ser na Arte, na Dor e no Amor", " Aspectos da Crucificação de Jesus", "Além da Fronteira de Cinzas", "O Apóstolo Paulo Perante Festo e Agripa"; "Rumo à Unidade do Espírito" , "4 Faixas de Consciência", "Chico Xavier, 50 Anos-Luz de Mediunidade...", "O Auto-de-fé em Barcelona".

Em 1970, foi orador oficial, junto com Divaldo Pereira Franco, da inauguração da Seção Brasília da Federação Espírita Brasileira, quando proferiu magnífica palestra, inspirada por Bittencourt Sampaio, segundo lhe revelou Divaldo Franco, e acha-se registrado no livro "Ide e Pregai..."  Incentivou, orientou e desenvolveu diversos jovens talentos da oratória no campo espírita.

Sempre nos incentivou, pessoalmente, a falar, embora nossas enormes limitações pessoais.

Era sócio da Federação Espírita Brasileira, adotando integralmente a linha doutrinária da Casa, baseada no estudo do binômio Kardec-Roustaing. Conhecia profundamente a obra de Kardec e também ade Roustaing, possuindo estudos e pesquisas aprofundadas sobre a concordância de concepções envolvendo as duas obras. Admirava profundamente o Professor Pietro Ubaldi, que conhecera pessoalmente, e fazia diversas conferências baseadas em conceitos expostos pelo grande médium italiano, colocando-se entre os estudiosos e conhecedores da obra de Ubaldi no Brasil. Apoiou com entusiasmo a Fundação Pietro Ubaldi quando do lançamento das obras do Professor no início da década de 80.

Foi um dos idealizadores do Grupo dos Oito, juntamente com Abelardo Magalhães e Luciano dos Anjos, dois dos seus maiores e mais caros amigos, como sempre nos confidenciava. Participava semanalmente das reuniões do Grupo na residência da Professora e Advogada Leda Rocha, às quintas-feiras, desde 1976, ano de sua formação.

Suas visitas a amigos, como o Burnier, César Soares, Pepita, Dr. Roberto Silveira, Sra. Ninita Araújo, Sra. Cinira Novaes, Sra. Teófila Leimig, Sra. Zilah Chaves, Sra. Cídia Paranhos, Coronel Davi Coutinho e muitos outros acabavam-se transformando em verdadeiras aulas de alegria, fraternidade e conhecimento doutrinário, tomando-se famosas.

Organizou também, a partir de 1987, um ciclo de palestras quinzenais, intituladas "Visão Esférica de ..., realizadas na residência da Sra. Cinira Novaes, em Copacabana, Rio de Janeiro, contando com a colaboração de inúmeros confrades ilustres, seus amigos pessoais e que lá compareciam a seu convite (Prof. Newton de Barros, Hermínio Miranda, César Burnier, Américo Borges, Luciano dos Anjos, Abelardo Magalhães).

Publicou diversos artigos na imprensa espírita (incluindo "Reformador") e 5 livros. Os dois primeiros, sozinho, pela Federação Espírita Brasileira, intitulados "Ide e Pregai" e "O Espinho da Insatisfação"; a seguir, em parceria conosco, publicou "Do Átomo ao Arcanjo", "Na Madureza dos Tempos" e "Aquém e Além da Fronteira de Cinzas" , obra recém-lançada. Cedeu os direitos autorais às respectivas editoras, à FEB no caso dos dois primeiros livros, e ao Grupo Espírita Aureliano, situado na Rua Indígena nº 155, Niterói, no caso dos 3 últimos. Costumava lançar os livros em palestras, autografando-os, atendendo a pedidos de vários Centros Espíritas em todo o Brasil.

Partiu, subitamente, em 22 de agosto de 1990, com muitos planos em mente, livros para escrevermos em parceria já delineados, no auge do entusiasmo.

Deixou extensa sementeira luminosa de realizações e amizades e a promessa, manifestada após a desencarnação, de continuar as tarefas e voltar para cultivar, em espírito, as sementes que tão bem soube plantar. O corpo foi sepultado no dia 23 de agosto, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, tendo comparecido ao local diversos familiares.

Falaram na despedida ao amigo os companheiros Luciano dos Anjos, Abelardo Magalhães, José Salomão Mizrahy, Juvanir Borges de Souza (Presidente da FEB, em nome da entidade), Américo Borges (em nome do Instituto de Cultura Espírita), Elmo Queiroz (em nome da Rádio Rio de Janeiro), Luciano dos Anjos Filho (em nome do Grupo dos Oito), Sra. Cláudia Bonmartin (representando a União Espírita Francesa e Francófona), Sra. Josefa D’Arriba (Pepita), Dr. Rinaro Paranhos, Sr. Orlando Sobreira, Jorge Damas Martins, Sra. Ana Guimarães, Eduardo Guimarães e outros.

Não poderíamos deixar de registrar as melodias apresentadas pelo Norberto Boechat ao violão, que eram de tanto agrado do nosso companheiro.

Por ocasião do enterro do corpo deu-se extraordinário fenômeno mediúnico que tivemos oportunidade de presenciar, ao lado do Eduardo Guimarães, através da médium Esmeralda, de Niterói, com comunicação do Newton Boechat a nós dois dirigida, através de processo psicofônico, deixando sinais característicos de identificação. O relato completo implica um artigo, que já estamos escrevendo e será publicado em jornais e no próximo livro que estamos preparando.

Queremos registrar nossos agradecimentos aos companheiros que gentilmente colaboraram na elaboração destes singelos dados biográficos (Sra. Vírgula Boechat, Sra. Suely Boechat Alves, Sra. Sueli Boechat, Sra. Josefa D’Arriba, Sr. Luciano dos Anjos, Sr. Abelardo Magalhães, Dra. Leda Rocha) e à Diretoria da Federação Espírita Brasileira, pela oportunidade do convite a homenagear o querido amigo nas páginas luminosas de "Reformador".

Gilberto Perez Cardoso

terça-feira, 2 de setembro de 2025

FRAUDES ESPÍRITAS[1], [2]

 


Allan Kardec

 

Os que não admitem a realidade das manifestações físicas geralmente atribuem à fraude os efeitos produzidos.

Fundam-se em que os prestidigitadores hábeis fazem coisas que parecem prodígios, para quem não lhes conhece os segredos, donde concluem que os médiuns não passam de escamoteadores.

Já refutamos este argumento, ou, antes, esta opinião, notadamente nos nossos artigos sobre o Sr. Home e nos números da Revista de janeiro e fevereiro de 1858. Aqui, pois, não diremos mais que algumas palavras, antes de falarmos de coisa mais séria.

Do fato de haver charlatães que preconizam drogas nas praças públicas, mesmo de haver médicos que, sem irem à praça pública, iludem a confiança de seus clientes, seguir-se-á que todos os médicos são charlatães e que a classe médica haja perdido a consideração que merece? De haver indivíduos que vendem tintura por vinho, segue-se que todos os negociantes de vinho são falsificadores e que não há vinho puro? De tudo se abusa, mesmo das coisas mais respeitáveis e bem se pode dizer que também a fraude tem o seu gênio. Mas, a fraude sempre visa a um fim, a um interesse material qualquer; onde nada há a ganhar, nenhum interesse há em enganar. Por isso foi que dissemos, em nosso número anterior, a propósito dos médiuns mercenários, que a melhor de todas as garantias é o desinteresse absoluto.

Dir-se-á que essa garantia não é única, porque em matéria de prestidigitação há amadores muito hábeis, que visam apenas a distrair a sociedade e disso não fazem uma profissão. Não poderia dar-se o mesmo com os médiuns? Sem dúvida que por alguns momentos podemos nos divertir, divertindo os outros; porém, para nisso passar horas inteiras, durante semanas, meses e anos, fora necessário que se estivesse verdadeiramente possuído do demônio da mistificação, e o primeiro mistificado seria o mistificador. Não repetiremos aqui tudo que já foi dito sobre a boa-fé dos médiuns e dos assistentes, quanto a serem joguetes de uma ilusão ou de uma fascinação. A isso já respondemos inúmeras vezes, bem como a todas as outras objeções, pelo que remetemos o leitor à nossa “Instrução Prática sobre as Manifestações”, e aos nossos artigos anteriores da Revista. Nosso objetivo aqui não é convencer os incrédulos. Se não se convencem pelos fatos, não se deixarão convencer pelo raciocínio; seria, pois, perder nosso tempo. Ao contrário, dirigimo-nos aos adeptos, a fim de preveni-los contra os subterfúgios de que poderiam ser vítimas da parte de pessoas interessadas, por um motivo qualquer, em simular certos fenômenos; dizemos certos fenômenos porque alguns há que evidentemente desafiam toda habilidade de prestidigitação, tais como o movimento de objetos sem contato, a suspensão de corpos pesados no espaço, os golpes desferidos em diferentes posições, as aparições etc. E, ainda, para alguns desses fenômenos, até certo ponto seria possível a simulação, tal o progresso realizado pela arte da imitação.

O que é necessário fazer em semelhantes casos é observar atentamente as circunstâncias e, sobretudo, levar em conta o caráter e a posição das pessoas, a finalidade e o interesse que poderiam ter em enganar: eis aí o melhor de todos os controles, pois há circunstâncias que afastam todo motivo de suspeita. Desse modo, estabelecemos como princípio que é preciso desconfiar de todos quantos fizessem desses fenômenos um espetáculo ou um objeto de curiosidade e de divertimento, ou que deles tirassem qualquer proveito, por menor que fosse, vangloriando-se de os produzir à vontade e a qualquer momento. Nunca seria demasiado repetir que as inteligências ocultas que se manifestam têm suas susceptibilidades e querem provar-nos que também possuem livre arbítrio e não se submetem aos nossos caprichos.

De todos os fenômenos físicos, um dos mais comuns é o dos golpes internos, vibrados na própria substância da madeira, com ou sem movimento da mesa ou de qualquer objeto que possa ser utilizado. Ora, sendo esse efeito um dos mais fáceis de imitar e também um dos mais frequentemente produzidos, julgamos de utilidade revelar uma pequena astúcia com a qual podemos ser enganados: basta colocar as mãos abertas sobre a mesa, suficientemente próximas para que as unhas dos polegares se apoiem fortemente uma na outra; então, por um movimento muscular absolutamente imperceptível, produz-se um atrito semelhante a um ruído seco, muito parecido com o da tiptologia interna. Esse ruído repercute na madeira e produz uma ilusão completa. Nada mais fácil do que fazer ouvir tantos golpes quanto se queira, uma batida de tambor etc., responder a certas perguntas pelo sim e pelo não, pelos números e até mesmo pela indicação das letras do alfabeto.

Uma vez prevenidos, o meio de reconhecer a fraude é bem simples. Não será mais possível se as mãos ficarem afastadas uma da outra e se estivermos seguros de que nenhum outro contato possa produzir o ruído. Aliás, os golpes autênticos oferecem essa característica: mudam de lugar e de timbre à vontade, o que não ocorre quando se devem à causa que assinalamos ou a outra análoga qualquer; que eles deixam a mesa para se fazerem ouvir em outra peça de mobiliário que ninguém toca; que, enfim, respondem a perguntas não previstas pelos assistentes.

Chamamos, pois, a atenção das pessoas de boa-fé para esse pequeno estratagema, bem como para outros que possam reconhecer, a fim de os denunciar sem cerimônia. A possibilidade de fraude e de imitação não impede a realidade dos fatos, não podendo o Espiritismo senão ganhar em desmascarar os impostores. Se alguém nos disser: Vi tal fenômeno, mas havia fraude, responderemos que é possível; nós mesmos vimos pretensos sonâmbulos simularem o sonambulismo com muita habilidade, o que não impede que o sonambulismo deixe de ser um fato. Todo mundo já viu negociantes venderem algodão por seda, o que também não impede que haja verdadeiros tecidos de seda. É preciso examinar todas as circunstâncias e verificar se a dúvida tem fundamento. Nisso, porém, como em todas as coisas, é preciso ser perito. Ora, nós não poderíamos reconhecer como juiz de uma questão alguém que dela nada conhecesse.

Dizemos outro tanto dos médiuns escreventes. Pensa-se comumente que aqueles que são mecânicos oferecem mais garantias, não apenas pela independência das ideias, mas, também, contra o embuste. Pois bem! Isto é um erro! A fraude insinua-se por toda parte e sabemos com que habilidade é possível dirigir à vontade uma cesta ou uma prancheta que escreve, dando-lhes toda a aparência de movimentos espontâneos. O que levanta todas as dúvidas são os pensamentos expressos, venham de um médium mecânico, intuitivo, audiente, falante ou vidente. Há comunicações que escapam de tal forma das ideias, conhecimentos e, até mesmo, do alcance intelectual do médium, que seria necessário que nos enganássemos excessivamente para lhes dar crédito. Reconhecemos no charlatanismo uma grande habilidade e fecundos recursos, conquanto ainda não lhe reconheçamos o dom de dar saber a um ignorante, ou talento a quem não o tenha.



[1] REVISTA ESPÍRITA – abril/1859 – Allan Kardec

[2] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns, Segunda parte, capítulo XXVIII, itens 314 a 316.