terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

O MAGNETISMO E O SONAMBULISMO ENSINADO PELA IGREJA[1]

 


Allan Kardec

 

Acabamos de ver o magnetismo reconhecido pela medicina, mas eis uma outra adesão que, sob outro ponto de vista, é de importância não menos capital, visto ser uma prova do enfraquecimento dos preconceitos que as ideias mais sãs fazem desaparecer cada dia: a adesão da Igreja. Temos à vista um pequeno livro intitulado Abrégé en forme de catéchisme, do Curso Elementar de Instrução Cristã; para uso dos catecismos e das escolas cristãs, pelo abade Marotte, vigário-geral do arcebispado de Verdun; 1853. Esta obra, redigida sob a forma de perguntas e respostas, contém todos os princípios da doutrina cristã sobre o dogma, a História Sagrada, os mandamentos de Deus, os sacramentos etc. Num de seus capítulos sobre o primeiro mandamento, onde são tratados os pecados que se opõem à religião, e após referir-se à superstição, à magia e aos sortilégios, lemos o seguinte:

 

P. Que é o magnetismo?

– É uma influência recíproca que às vezes se opera entre indivíduos, segundo uma harmonia de relações, seja pela vontade ou pela imaginação, seja pela sensibilidade física, e cujos principais fenômenos são a sonolência, o sonambulismo e um estado convulsivo.

P. Quais são os efeitos do magnetismo?

– Diz-se que o magnetismo produz ordinariamente dois efeitos principais: 1º – um estado de sonambulismo no qual o magnetizado, privado inteiramente do uso dos sentidos, vê, ouve, fala e responde a todas as perguntas que lhe são dirigidas; 2º – uma inteligência e um saber que só existem na crise; conhece seu estado, os remédios convenientes às suas doenças, bem assim o que fazem certas pessoas mesmo afastadas.

P. Em consciência, é permitido magnetizar ou se deixar magnetizar?

– 1º – Se, para a operação magnética, empregam-se meios, ou se por ela obtêm-se efeitos que supõem uma intervenção diabólica, trata-se de obra supersticiosa e jamais deve ser permitida; 2º – Dá-se o mesmo quando as comunicações magnéticas ofendem a modéstia; 3º – Supondo que se tenha o cuidado de afastar da prática do magnetismo todo abuso, todo perigo para a fé ou para os costumes, todo pacto com o demônio, é duvidoso que a ele seja permitido recorrer, como o fazemos com um remédio natural e útil.

 

Lamentamos que o autor tenha posto esse corretivo final, em contradição com o que o precede. Realmente, por que não seria permitido o uso de uma coisa reconhecidamente salutar, quando se afastam todos os inconvenientes assinalados em seu ponto de vista? É verdade que ele não exprime uma proibição formal, mas uma simples dúvida sobre a permissão. Seja como for, isto não se encontra num livro erudito, dogmático, somente para uso dos teólogos, mas num livro elementar, para uso dos catecismos; consequentemente, destinado à instrução religiosa das massas; não se trata absolutamente de uma opinião pessoal, mas de uma verdade consagrada e reconhecida que o magnetismo existe, que produz o sonambulismo, que o sonâmbulo goza de faculdades especiais, que no número dessas faculdades está a de ver sem o concurso dos olhos, mesmo a distância, de ouvir sem o auxílio dos ouvidos, de revelar conhecimentos que não possui em estado normal, de indicar remédios salutares. A qualidade do autor é aqui de grande peso.

Não é um homem obscuro que fala, um simples padre a emitir sua opinião: trata-se de um vigário-geral que ensina. Nova derrota e nova advertência para os que julgam com muita precipitação.



[1] Revista Espírita – outubro 1858 – Allan Kardec

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

ZENÓBIO DE MIRANDA PINTO[1]

 

 

Filho de usineiros de açúcar, Zenóbio de Miranda Pinto nasceu em Campos, Estado do Rio de Janeiro, onde viveu até os 12 anos de idade, quando decidiu mudar-se. Passando por Niterói, aportou de barcas ao cais da Cantareira, antes de chegar ao Rio de Janeiro. Sem recursos financeiros, fez pequenos trabalhos em troca de alimento e abrigo. Nessa fase, chegou à Praça XV para, logo depois, ajeitar-se como auxiliar de um português que detinha um comércio varejista abastecido por tropeiros.

Observando no local de descarga, decidiu-se a auxiliar no transbordo da carga. Os tropeiros imaginaram tratar-se
de um auxiliar do comerciante. O português, por sua vez, acreditou que ele era um dos prepostos da tropa. Ao final, foi convidado, pelo espírito de serviço, a integrar o grupo de auxiliares no comércio, o que lhe trouxe momentâneo alívio.

Num dia de descanso decidiu ir à estação da antiga Estrada de Ferro Central do Brasil (EFCB) para ver o movimento do mais usual meio de transporte de passageiros da época. Lá, afeiçoou-se a um dos conferentes da ferrovia, depois de encantar-se com as comunicações em código Morse. Valorizado, o conferente interessou-se pelo jovem e forneceu-lhe informações do uso da telegrafia, passando a Zenóbio uma cópia do alfabeto Morse.

No domingo seguinte, lá estava ele na ferrovia, de novo. Tinha memorizado o alfabeto Morse e, naquele momento, experimentava o manipulador de transmissão de sinais, bem como a leitura da fita que vertia com a comunicação reversa. O conferente tinha o teatro como hobby e convidou o novo amigo para enturmar-se, tendo este entrado como coadjuvante e logo, logo, se transformado em opção como ator. Ali, viria a ter contato com o Grêmio Literário Recreativo Leopoldo Machado e o ideário do Consolador. Conhecera o próprio Leopoldo Machado, a quem coube fazer chegar-lhe às mãos as obras da Codificação, que ele lera como se tudo já conhecesse.

Com apoio do conferente e estímulo do comerciante português que muito o admirava, ingressou na EFCB como extranumerário, trabalhando apenas quando faltava algum dos titulares. Logo se firmaria e, com isso, teria início a tarefa do bandeirante da Doutrina dos Espíritos. Depois de trabalhar em várias estações da ferrovia, acabou vindo para Minas Gerais, onde grandes frentes de trabalho o aguardavam.

Morou em Itabirito, oportunidade em que conheceu Iara, operária de uma fábrica de tecidos, a alma valorosa que haveria de impulsioná-lo de encontro aos tempos novos que estavam por vir. Consorciou-se com ela, surgindo dali filhos que dariam a ele redobradas alegrias e estímulo para a caminhada. Desafiou a crença dominante, declarando-se espírita e recusando-se a adotar as práticas religiosas tradicionais. Naquela cidade, nasceria seu primogênito, de nome Ismael.

Logo depois, foi transferido para Conselheiro Lafaiete, onde surgiu o segundo da prole, Adolpho. Algum tempo após, foi transferido para Mantiqueira − estação próxima a Santos Dumont − surgindo lá mais um dos membros da família: Expedito. Na sequência, iria parar em Sítio (hoje Antônio Carlos ), onde nasceu aquele que teria o seu nome: Zenóbio. Ali, participou dos primórdios das reuniões espíritas da localidade, na residência do também militante espírita, Henrique Zonzin, recebendo a visita periódica de outros confrades de Barbacena, como Zezinho Abrantes, um dos fundadores do Centro Espírita Caminheiros do Além, que funcionou na antiga praça Conde de Prados − popularmente conhecida como Jardim do Globo.

Promovido a agente de estação, foi então transferido para Carandaí, onde viria a completar o grupo familiar com o nascimento de Allan Kardec e Moarê.  Conta-se que, naquela cidade, àquela época, havia poucas autoridades no município: o Prefeito Municipal, o Delegado de Polícia, o Padre e o Chefe da Estação da Estrada de Ferro. Vivia-se o final da segunda metade dos anos 30 e início dos anos 40.

Em Carandaí, Zenóbio de Miranda mostraria todo o seu potencial de realização empreendedora e capacidade pessoal de vencer desafios. Sem receios da hostilidade e da repulsa que se expressavam naquela época pela presença do novo, transformar-se-ia num bandeirante do Consolador. Das reuniões em sua residência e nos lares de confrades que aderiram à sua liderança carismática, agregou pelo exemplo, pela clareza do raciocínio e pela determinação pessoal um contingente grande de adeptos e simpatizantes. Instituiu as reuniões de estudo e aquelas destinadas ao intercâmbio espiritual.

Deu início à evangelização de crianças e adultos, e logo viria a obter um terreno em doação para construir uma Casa Espírita. Era o desafio máximo. Acreditava na proteção dos amigos espirituais e tinha a certeza de que o acaso não existe. Conta-se que, de imediato, agiu na busca do colimado objetivo. Com um grupo de amigos da primeira hora foi feita a primeira prece no local onde se construiria o Centro Espírita Novo Oriente, primeira casa do Espiritismo local.

Cidade de clima frio e de abundante pluviosidade, no horário previsto para aquele momento solene, começa a cair em Carandaí uma chuva fina, semelhante a uma garoa, que provoca nos presentes um momento de desconforto e contrariedade. De bom ânimo imbatível, Zenóbio ergue as mãos e diz, abrindo o encontro público em meio a flores silvestres e arbustos de pequeno porte: “Meus irmãos! É o orvalho Divino que cai sobre as nossas cabeças! Agradeçamos a Deus por esse encontro maravilhoso”.

Dali pra frente ninguém mais se sentiu incomodado e, ao final, não mais se lembrava de quando a garoa cessara, nem por quanto tempo caíra sobre o grupo.  Protagonista de momentos inesquecíveis da Doutrina, sempre foi um homem de jeito sereno, de aspecto esguio e altivo, sério, de princípios ilibados. Sorria sempre, mas de forma discreta. Não contava anedotas nem estimulava conversações menos edificantes.

Mudou-se de Carandaí para Santos Dumont, onde teve militância espírita ostensiva. Ao aposentar-se, foi para o Rio de Janeiro onde já morava a maioria dos seus filhos, permanecendo ali até o seu desencarne.

 

Zenóbio e a presença dos Espíritos

 

O relógio marca 19h30. Dona Iara alerta o marido:

Zenóbio, acabei de fazer a matula para sua viagem desta madrugada. Podemos sair agora mais sossegados para a reunião.

A passos rápidos dirigem-se à residência do confrade Russo, que, à semelhança das vezes anteriores, apresenta grande movimento. Prece inicial. Leitura e comentário de um trecho de O Evangelho segundo o Espiritismo.

Logo após, a segunda parte, o intercâmbio com o Mundo Espiritual através da mediunidade de alguns confrades.

Nesse instante, D. Iara reflete que não havia colocado sobre a mesa dos trabalhos a papeleta com o nome do marido que, dentro de algumas horas, tomaria o Noturno originário de Belo Horizonte, em direção ao Rio de Janeiro.

Não tem importância” − pensou. Esta questão de colocar papéis sobre a mesa é relativa. O que importa é a força do nosso pensamento. Pedirei, mentalmente, com fé, em favor do Zenóbio, a fim de que ele faça boa viagem.

Mal terminara a prece e o espírito Irmão José, através da médium Maria Russo, fala com voz firme e pausada:

Há neste recinto uma senhora que acaba de pedir proteção para o marido. Quero dizer a ela que o aconselhe a não realizar a viagem que pretende. Que retarde sua saída desta cidade.

Dona Iara comenta o fato discretamente com o marido ao lado, mas este não se deixa convencer.

Com certeza − diz ele – a advertência não é para mim. Deve haver outra pessoa que também vai viajar.

Não senhor! – esclarece, novamente, a Entidade espiritual, dirigindo-se a Zenóbio. O recado é para o senhor mesmo.

Depois de palavras tão incisivas, não havia mais o que retrucar. Dona Iara estava satisfeita pela orientação recebida, mas, ao mesmo tempo, um tanto contrafeita.  Porque, afinal − como era hábito na época − tinha passado algum tempo a preparar a bolsa de Zenóbio. O jeito era, então, ir para casa. Tomou, assim, seu café em companhia do esposo e foi repousar, ainda com a mente tumultuada com o acontecimento da noite.

No dia seguinte, ao clarear, o filho do casal, Adolpho, levanta-se, dirigindo-se para a estação ferroviária, onde costumava carregar embrulhos dos passageiros, ganhando, desta forma, alguns trocados.

Todos estão ainda em casa, quando ele chega, sobremodo nervoso, para comunicar:

Papai, o trem que o senhor ia tomar foi vitimado num engarrafamento. Envolveu-se num violento desastre!  Falaram lá na estação que há muita gente morta e ferida.

O pai vai até lá, onde já se acotovelam dezenas de pessoas, a tecerem comentários sobre o triste acontecimento.

O Noturno (N-2), que descia da Capital mineira para o Rio, chocara-se com um cargueiro (C-65), que subia a Mantiqueira. O desastre verificara-se no quilômetro 355, entre as estações de João Aires e Sítio. Os comboios deveriam cruzar-se em João Aires. Consoante notícias espalhadas, o maquinista do cargueiro, que deveria esperar no desvio a passagem do noturno, encontrara no arco de aviso uma papeleta de licença, ali deixada pelo maquinista de outro cargueiro, por esquecimento, e, julgando ser a licença para o comboio que conduzia, retirou-a do arco e, sem ler, porque lia com dificuldade, conforme depois declarou, prosseguiu a marcha. Daí o encontro dos trens.

Naquela data, 19 de dezembro de 1938, o Diário Mercantil estampava em suas páginas uma grande manchete: “O maior desastre ferroviário no Brasil, nos últimos tempos”, noticiando, logo depois, que 53 pessoas haviam morrido, enquanto que 60 estavam gravemente feridas, a maior parte internada em hospitais de Barbacena.  No meio do tumulto que se formara na estação de Carandaí, Zenóbio recorda, angustiado, a figura de um amigo vendedor de bilhetes na cidade.

Senhor Zenóbio, − dissera-lhe o cambista no dia anterior ao desastre – estou muito contente. Imagine que não consegui vender ontem todos os pedacinhos e, exatamente um que ficou encalhado, foi sorteado. Já conferi o resultado. Amanhã, segunda-feira, seguirei pelo Noturno a fim de tomar algumas providências em Juiz de Fora.

Essa conversa Zenóbio recorda naquela manhã triste.  À tarde, debaixo ainda de forte emoção, percebe a aproximação do cambista que lhe bate no ombro e, sem que o amigo se refaça da surpresa, conta-lhe o que se passara.

Tomara o trem em Carandaí, de madrugada. Após algum tempo de percurso, resolvera ir ao banheiro. Ao voltar, ainda de longe, com o Noturno lotado, percebera que uma irmã de caridade acomodara-se em sua poltrona.  Acanhado, não tentou reaver o lugar, ficando junto ao banheiro, de pé. Foi quando ocorreu o acidente. O lugar em que estava assentada a religiosa ficara completamente destruído. Se ele estivesse em sua poltrona, não teria escapado.

Zenóbio ouve o amigo, estarrecido, e pergunta:

E a irmã de caridade? Já localizaram o corpo?

O cambista continua a explicar, agora com voz a tremer:

Durante muitas horas, eu e outras pessoas tentamos localizá-la. Não a encontramos. Comentei o fato com os passageiros que estavam no mesmo carro. Todos eles afirmaram com absoluta certeza: ‘Não havia nenhuma irmã de caridade no vagão!’ ...

 

Fontes:

§  HALFELD, Revista “Reformador”, abril/1987, FEB

§  Judith Rubatino (já desencarnada)

§  Zenóbio de Miranda Silva

§  “O Espírita Mineiro”, nº. 281 (setembro/outubro – 2004)

sábado, 24 de fevereiro de 2024

OS CENTROS ESPÍRITAS[1]

 


Miguel Vives y Vives

 

Os Centros Espíritas devem ser a Cátedra do Espírito da Verdade. Porque, se não servirem ao espírito de luz, sofrerão a influência do espírito das trevas. E desgraçados daqueles espíritas que estiverem sob essa influência, pois, pouco, bem pouco, poderão avançar na sua evolução.

Veem-se alguns Centros Espíritas cair na prática de graves aberrações, por falta de bom senso e por não adotarem as medidas adequadas às circunstâncias. São dominados por influências perversas, contraindo tremendas responsabilidades, em vez de progredirem e se aperfeiçoarem.

As igrejas cristãs dizem que o seu púlpito é a Cátedra do Espírito Santo. Sabemos, porém, que não há santos, no verdadeiro sentido da palavra, mas apenas espíritos mais ou menos adiantados, mais ou   menos perfeitos e puros, e que o Espírito da Verdade pode, em dadas circunstâncias, inspirar a um político, a um sacerdote, a um cientista, sejam quais forem as suas crenças, segundo a importância do assunto que estejam tratando, mas isso, não por qualquer espécie de privilégio, senão porque é esse o meio de que a Providência se serve para fazer que a Humanidade progrida, a maneira de que se vale o Altíssimo para produzir as mudanças necessárias à regeneração humana. Nunca, portanto, se poderá atribuir a nenhuma escola, nem religiosa, nem política, nem social, a assistência exclusiva do Espírito da Verdade.

Digo, porém, que os Centros Espíritas devem ser a Cátedra do Espírito da Verdade. E o digo porque, nos Centros Espíritas, realizamos sessões mediúnicas, e nestas, como todos sabemos, recebem-se comunicações que são inspiradas aos médiuns ou a eles transmitidas pelos espíritos. Ora, se estes espíritos não são da verdade, o que será dos que se deixam orientar por espíritos do erro? Não podemos esquecer que as comunicações são ouvidas com a máxima atenção, e que a maioria dos presentes às sessões dão muito mais importância e prestam mais atenção às exortações dos espíritas mais entendidos. Assim, se as comunicações são inspiradas pelo Espírito da Verdade, justifica-se e é de muito proveito a atenção que lhe dispensam; mas, se o comunicante é um espírito leviano ou mistificador, não há dúvida de que a influência exercida sobre os presentes será prejudicial.

Por isso temos de preocupar-nos, com afinco, para que nos Centros Espíritas seja o Espírito da Verdade quem predomine e exorte durante as sessões. E como não há lugar nem fórmula para atrair os espíritos de luz, é necessário observar algumas regras, para atraí-los e fazer-lhes agradável a permanência nas reuniões.

Entendo que, para isso, os Centros Espíritas devem ser casa de amor, de caridade, de indulgência, de perdão, de humildade, de abnegação, de virtude, de bondade e de justiça, a fim de que possam atrair os bons Espíritos.

O presidente ou diretor de um Centro Espírita deve ser, em tudo, um exemplo. Porque, se cabe a todos os que constituem o Centro procurar seguir uma conduta modelar, mais ainda o compete ao que dirige e ensina. Este deve ser paciente ao máximo, nunca deve precipitar-se, não pode deixar-se arrastar por influências tendenciosas, sem levar em conta o interesse de todos. Se possível, deve estudar, observando as regras da prudência, o caráter e as tendências de cada um dos irmãos que se encontram sob a sua direção, para instruir e dirigir a cada um de acordo com as necessidades do seu caráter e da sua maneira de ser.

O dirigente nunca deve olvidar que se encontra revestido de um encargo que, embora nada seja entre os homens, é de grande importância perante Deus. Assim, se por descuido ou falta de previsão, ou por falta de amor e caridade, permitir deficiências ou maneiras que possam prejudicar moralmente os outros, será altamente responsável. Não deve olvidar que a direção dos seus irmãos constitui um depósito sagrado; que um dia lhe renderá grandes benefícios, se bem o tiver cumprido, mas o carregará de grandes responsabilidades, se não proceder como deve. Por isso, todo diretor ou presidente deve viver sempre apercebido dos seus deveres, mantendo o seu pensamento bem elevado, praticando a oração mental, e tendo sempre em mente as leis divinas do Evangelho. Deve recordar a abnegação, o sacrifício e o amor do Senhor e Mestre, para em todas as circunstancias ter presente a maneira espírita de proceder. Assim, os que o seguem terão motivos de admirá-lo, jamais de censurá-lo. Porque, no seu Centro, ele deve ser a luz, o encarregado da Providencia para dirigir os outros. Deve ser o guia espiritual visível de que os irmãos dispõem para a sua direção, instrução e consolo na presente existência. Deve ser, enfim, o que pode livrá-los das quedas, preocupações e trevas da Terra.

Com sua doçura, seu amor e sua palavra persuasiva, sempre mansa e tolerante, deve o dirigente corrigir tudo aquilo que possa ser causa de atração para o espírito das trevas, de maneira que este não encontre meios de interferir nos ensinos e exortações que se recebem no Centro. Deve evitar que se converse no recinto sobre leviandades e muito menos sobre questões que possam redundar em críticas ou murmurações a respeito de pessoas ausentes. Não deve olvidar que a caridade e o amor ao próximo nos obrigam a só tratar de ausentes para bendizê-los, e quando as circunstâncias nos obrigam ao contrário, devemos tratá-los como a pessoas que muito amamos e que se desviaram.

É obrigação do dirigente fazer que os frequentadores da sessão estejam conscientes do ato que vão realizar, a fim de evitar que más influências impeçam a recepção das instruções do Espírito da Verdade.

Por sua vez, os irmãos que frequentam e constituem o Centro devem respeitar e obedecer aquele que Deus lhes deu para guia e consolo, pois é grande coisa encontrar na Terra quem nos encaminhe para o Pai, advertindo-nos dos escolhos da vida e evitando-nos as quedas, que tão caras nos saem no futuro. Essa obediência e esse respeito, entretanto, não devem ser de natureza fanática e cega, mas o resultado natural da conduta e das ações praticadas por aquele que se esforça para servir-lhes de exemplo.

O homem não deve, de maneira alguma, abdicar da razão e do direito de livre exame, mas deve ser respeitoso para com aquele que trabalha em favor do seu aperfeiçoamento, e suficientemente tolerante para compreender que ninguém é infalível. Assim, ao notar deficiências ou descuidos de parte do dirigente, nunca se deve entregar-se à murmuração e à crítica, mas há de recorrer à prudência, para saber o que convém relevar e o que precisa ser corrigido. Se for necessário recorrer à exortação ou à advertência, é melhor, antes de fazê-lo, consultar os irmãos de maior critério, prudência e caridade. Caso a exortação do dirigente a se corrigir seja necessária, convém buscar a ocasião oportuna e a maneira própria de fazê-la, com tato e prudência, não se esquecendo os serviços e esforços realizados pelo dirigente em seus trabalhos.

No Centro em que assim se fizer, estamos seguros de que o Espírito da Verdade se manifestará nas sessões, e os irmãos participantes progredirão, preparando-se para um bom futuro.

Às vezes ouvimos de alguns irmãos: “Que sorte a minha, por ter conhecido o Espiritismo!” Respondemos: É realmente uma grande vantagem, para bem empregarmos o tempo em nossa atual existência, mas esse conhecimento nos traz também grandes deveres a cumprir. Nós, os espíritas, não podemos viver como o comum dos mortais. Temos de combater os nossos defeitos, adquirir virtudes, viver apercebidos. Temos de ser a luz e o exemplo, para que os homens admirem o Pai e se convertam, entrando na via de purificação.

A luz, a paz, o consolo e a confiança no futuro, que o Espiritismo nos dá, são o quinhão agradável e confortável que ele nos proporciona. Mas a correção que temos de fazer em nós mesmos (pois ninguém é perfeito), o combate aos defeitos, o abandono das futilidades e o aperfeiçoamento das virtudes e da humildade, obrigam-nos a uma auto-observação e a um trabalho constante. Porque, se nos extasiarmos com as vantagens que o Espiritismo nos oferece, esquecendo-nos das obrigações que ele nos acarreta, o que será de nós?

Prescrevemos algumas regras e maneiras de proceder, para os presidentes e diretores de Centros Espíritas. Entretanto, perguntamos a nós mesmos: E tu, que durante tantos anos tens exortado e ensinado, cumpriste essas regras? Foste tolerante, amoroso, caridoso e humilde, como devias ser? Foste sempre oportuno, discreto e abnegado, como aconselhas? Duvidamos.

Não obstante, não nos cabe negar nem afirmar, neste caso. Os irmãos, que por tantos anos nos tem observado e seguido, são os que nos podem julgar. De nossa parte, achamos que não nos faltaram deficiências, conhecemos os nossos defeitos. Sabemos que quase nunca estivemos à altura do encargo. Mas pedimos perdão aos irmãos, pedimos que não nos sigam em nossos erros, e, mais ainda, que continuem a observar-nos, e naquilo em que nos vejam falho, sem caridade e incorreto, sem o necessário senso de humildade e de justiça, que nos exortem à correção, que nos avisem. Mas que o façam também com caridade, não esquecendo que os amamos e desejamos ser amados por eles.

Que nos falem como a mãe sabe falar ao filho, que de nossa parte faremos o mesmo. E se acaso não atendermos de pronto às suas advertências, o que pode suceder, em razão das nossas imperfeições, que não se cansem por isso. Farão, assim, uma verdadeira obra de caridade. Podemos, acaso, julgar-nos a nós mesmos? Podemos crer que tudo o que fazemos é bom? Pois para convencer-nos disso precisamos do vosso julgamento, da vossa opinião. Mas suplicamos, irmãos: sede amáveis e benévolos conosco, como temos sido convosco, que essa é a verdadeira caridade.

Deus meu! Deus meu! Terei cumprido fielmente a minha missão? Terei sido para os meus irmãos aquilo que devia ser? Terei sido suficientemente grato aos benefícios que Vós, meu Pai, me tendes concedido? Quando lembro os dias da minha incredulidade, quando recordo aquelas noites passadas entre o sofrimento e a solidão, perdida toda a esperança, perdidos todos os seres queridos, e comparo os dias esperançosos, rodeado de verdades e consolações, que hoje me dão aqueles mesmos que eu considerava perdidos; quando comparo os bens imensos e consoladores que encontrei através do Espiritismo, meu amor se eleva até Vós, meu pai, e compreendo que todos os sacrifícios e trabalhos por mim realizados, em favor de meus irmãos, são bem pouca coisa, comparados aos bens que de Vós recebi.

Por isso, com toda a minha alma vos peço o perdão das minhas deficiências, das faltas que, sem dúvida, terei cometido, da falta de abnegação que certamente tive, da minha pouca humildade e da falta de caridade para com os meus irmãos. E Vos peço luz, muita luz, para que, no pouco tempo que ainda me resta na Terra, possa reparar as minhas falhas e corrigir-me das minhas deficiências, das minhas imperfeições, a fim de que, no cumprimento da minha insignificante missão, possa ainda demonstrar-Vos o meu agradecimento, o meu amor. E nos dias maus que tiverem de vir, fazei, meu Pai, meu Bem Supremo, Grandeza Infinita, que eu possa recordar o grande exemplo do Mestre Divino, do Senhor dos Senhores, do puro e imaculado Jesus!

Ah, que ditoso serei, se nos dias de prova souber recordá-lo e amá-lo! Que feliz hei de ser, se nos dias de angústia puder evocá-lo, coroado de espinhos, subindo a encosta do Calvário ao peso da cruz. Que ventura terei, Senhor meu, se nos momentos de dor souber fazer como Ele, sofrendo sem acusar ninguém, com serenidade e calma, segundo o exemplo da crucificação!

Dai-me, Senhor, a plena consciência da importância que tem para o meu progresso o saber sofrer bem! Dai-me, Senhor meu, Amor Supremo de minha alma, a verdadeira consciência, o verdadeiro conhecimento do que significa o exemplo que nos enviaste, para o nosso bem, para o alívio das nossas aflições! Dai-me a verdadeira compreensão daquilo que posso alcançar se for paciente, submisso, abnegado, caridoso. Não para conquistar méritos, mas para atingir a tranquilidade do meu espírito, que anseia pelo que não encontra na Terra, aspira ao que aqui não existe. Meu espírito deseja o amor-verdade, a fraternidade-verdade, a indulgência-verdade, e compreendo que, para encontrar tudo isso, não posso procurar na Terra, mas em outras moradas.

É por tudo isso, Senhor de minha alma, que Vos peço luz, amor, paciência, virtudes, para que, chegando a minha hora de partir, eu possa ir morar entre os que sabem amar e tolerar, perdoando-se e seguindo o caminho que nos haveis traçado, caminho que nos leva às Moradas da Felicidade!

Irmãos: todos vós que dirigis e que escutais e aprendeis, os que tendes a missão de exortar e os que seguis as instruções do Espaço e da Terra, amai-vos muito, tolerai-vos reciprocamente, corrigi-vos com indulgência. Firmai as vossas esperanças na vida futura. Sede abnegados e caridosos, moral e materialmente, até onde o permitam as vossas forças. E não duvideis que juntando a tudo isso um grande respeito e admiração pelo Pai, até onde possa chegar a vossa admiração, o Espírito da Verdade terá a sua cátedra em vossos Centros e vos ensinará a seguir, praticamente, Aquele que Deus nos deu por modelo.

Sabeis, irmãos, segundo as suas próprias palavras, que Ele é o caminho, a verdade e a vida, e vos ensinará a fazer dos Centros Espíritas um éden de felicidade. Reinará entre vós a paz dos justos, pois sentiremos já entre nós o prelúdio da paz que há de vir. Nossa missão se cumprirá tranquila na Terra, e comunicaremos a nossa paz e a nossa esperança a muitos.

Seremos a luz do mundo, inspirados e educados pelo Espírito da Verdade[2].



[1] O Tesouro dos Espíritas – Miguel Vives y Vives

[2] Miguel Vives refere-se ao Espírito da Verdade genericamente, considerando todos os bons Espíritos como pertencentes a essa Falange de entidades que lutam pela regeneração da Terra. Sabemos que o guia de Kardec lhe deu o nome de Espírito da Verdade e que mais tarde, segundo podemos ver em Obras Póstumas, os Espíritos que auxiliavam o Codificador revelaram estar sob a direção daquele Espírito. A posição de Vives é tipicamente espírita: todas as boas aspirações e comunicações nos chegam através do Espírito da Verdade, que preside ao movimento espírita na Terra e que não é apenas o Espírito diretor da Falange, mas a própria Falange. Cada Espírito verdadeiro, e portanto elevado, é portador de uma mensagem do Espírito da Verdade. (N.T.)

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

AINDA CAMINHAMOS SEM BÚSSOLA MORAL[1]

 

B

Bússola Ética e Moral


Anselmo Ferreira Vasconcelos

 

Por motivos muito justos nos queixamos com frequência do baixo padrão moral dos nossos políticos, assim como da maioria dos nossos governantes. Com efeito, os exemplos que vêm de cima não são nada edificantes, revelando, quase sempre, uma conduta eticamente condenável. Quase diariamente somos informados de privilégios absurdos desfrutados ou engendrados pelas nossas eminências, executivos de estatais, funcionários públicos (inclusive de membros de várias instâncias da justiça) e assim por diante.

O corporativismo no Brasil não mede esforços para se dar bem e continuar gozando de prerrogativas imagináveis para o cidadão comum. O teor criativo empregado para burlar as diretrizes da Constituição do país – que claramente estabelece que o máximo a ser recebido por membros do funcionalismo não deve ultrapassar o salário do Presidente da República – e acrescentar penduricalhos e outra benesses ao próprio bolso é de causar espanto. 

Uma importante rádio do meu estado (São Paulo) recentemente noticiou que o sindicato dos desembargadores estava elaborando ações com vistas a elevar significativamente os proventos da categoria, bem como aumentar as férias obrigatória para três meses por ano (estou aqui reproduzindo apenas o que eu ouvi). Ou seja, benefícios que o cidadão mediano nem sonha em obter. Não é por acaso que muitos analistas, aliás, advogam a tese de que mais importante do que realizar uma reforma tributária, seria realizar a reforma do Estado, enxugando o gasto público (fortemente comprometido com o pagamento de salários e benefícios). Seja como for, não se pode afirmar que há absoluta lisura ou ética no trato de tais questões. Na verdade, nossa sociedade padece da virtude do desprendimento. Desse modo, prevalece o dito popular: “Quem pode mais chora menos”. Obviamente justiça, comedimento e bom senso são coisas que menos importam nesse contexto.

Retomo esse assunto para destacar que, se nos altos escalões da República o fator ético é menosprezado, é porque na base ele também continua não funcionando a contento. Darei dois exemplos para ilustrar o meu raciocínio. Há poucos dias levei um tênis para ser consertado. Basicamente o serviço constituía em troca de sola e algum retoque no coro do bico (tintura). Quando solicitei o orçamento, o atendente me deu um preço exagerado.

Obviamente protestei com veemência. Disse-lhe que naquele valor, melhor seria comprar um novo. O rapaz usou todo o seu repertório de supostos argumentos para justificar o preço do serviço: valor da cola, custo da lavagem do tênis, preço da mão de obra etc. Mas, de minha parte, fiquei irredutível e lhe disse que não me convencia. A partir daí ficamos negociando – blefei várias vezes, devo admitir - até que cheguei ao valor que me parecia razoável diante das circunstâncias (cerca de 32% de desconto). O fato é que se eu não tivesse “chorado”, eu pagaria um preço muito acima do aceitável. Em termos mais precisos: teria sido vergonhosamente roubado. A questão a ser respondida é: quantas pessoas não são nesses tempos de extrema avareza e má-fé que regem as coisas em nossa sociedade moralmente doente?

O outro caso foi retratado através de uma pesquisa (enquete) realizada por uma emissora de TV de importante cidade turística também do meu estado. A questão levantada pelo repórter foi a seguinte: se você constatasse um depósito (indevido) de valor elevado em sua conta bancária, o que faria? Perguntado a pessoas de vários extratos sociais e gêneros, apenas uma declarou que iria ao banco regularizar o assunto − conforme os cânones da ética – para que a importância retornasse ao seu dono. A maioria declarou que utilizaria o dinheiro ilícito de várias formas, sem qualquer preocupação com o infeliz depositário. Ou seja, reclamamos das escorregadas das nossas elites, mas, na prática, não nos sentimos impelidos a fazer o oposto quando a oportunidade surge. Em outras palavras, erramos tanto quanto os que criticamos. Desse modo, o país continua demonstrando enormes contradições no plano ético-moral, que, infelizmente, mostram abarcar toda a sociedade.

O Espiritismo nos ensina que agir com ética é, antes de mais nada, uma autêntica obrigação que nos compete adotar em todas as circunstâncias e ocasiões. Não é possível, portanto, um alinhamento com algo superior, quando o nosso arcabouço moral não é sólido. E muitos dos problemas que ora nos afligem como nação decorrem dessa elasticidade interpretativa e permissiva na qual a autodesculpa tem papel preponderante. Como acertadamente pondera o Espírito Emmanuel,

O problema do cristão, todavia, não é apenas suspirar pelo Senhor. É permanecer com Ele, assimilando-lhe a palavra e seguindo-lhe o exemplo. Ou seja, Não apenas crença, mas comunhão.



[1] O Consolador - Ano 17 - N° 862 - 18 de Fevereiro de 2024 - https://www.oconsolador.com.br/ano17/862/ca1.html

 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

PARA AGRADAR A DEUS[1]

 


Miramez

 

Será suficiente não se fazer o mal, para ser agradável a Deus e assegurar uma situação futura?

− Não: é preciso fazer o bem, no limite das próprias forças, pois cada um responderá por todo o mal que tiver ocorrido por causa do bem que deixou de fazer.

Questão 642 / O Livro dos Espíritos

 

Deus é um Pai amoroso e santo, e o proceder dos homens para com Ele deve ser em espírito e verdade. Há muitas criaturas dentre as quais muitos intelectuais, que acham que Deus é uma matéria fluídico dissolvida em toda a criação. E nós dizemos que Deus é uma individualidade.

No entanto, os Seus atributos têm a capacidade de estender Seus sentidos por toda parte, de fazer da criação o Seu próprio corpo, de estar presente nas consciências humanas.

Deus é isso e muito mais, de modo que a nossa capacidade, mesmo sendo imagem e semelhança d'Ele, não O pode compreender da maneira que Ele é. As nossas mentes, mesmo as dos Espíritos mais evoluídos, são finitas, e não podem conceber o que é infinito.

Deus tem todos os poderes perfeitos, Deus é perfeito em tudo o que faz. Para que nós possamos agradar a Ele, não basta que esqueçamos o mal; é necessário que façamos o bem, para o qual fomos criados. Quem não faz o bem, já abre caminhos para que os impulsos do mal apareçam em suas intenções.

Convém que todas as criaturas, principalmente os espíritas, para quem estamos especialmente falando, procurem fazer o bem de todas as formas possíveis, porque somente ele desvia as pessoas do mal. O Espírito deve estar sempre ocupado com coisas nobres, pois que se mostrará como nobre também.

Se Deus é harmonia, o que chamamos de mal é desarmonia. Não podemos agradar a dois senhores; assim, procura harmonizar a tua vida, desde o abrir dos olhos, ao levantar, até a hora de descansar das lides diárias. As grandes coisas começarão pelas pequenas.

Um grande feito por vezes nasce de simples pensamentos, bem como uma grande calamidade social foi primeiramente pensada e criada a partir de ideias sobre tal evento. É neste sentido que alertamos sempre os homens para educarem seus pensamentos em tudo que fazem, desde o mínimo gesto de beber um copo de água, até assinar um decreto que envolve uma nação. Deves pensar, meditar no que fazer e, quando o fizeres, procurar, em todos os seus contornos, fazer com perfeição.

Na Doutrina Espírita já há muitas obras sobre a educação da mente, sobre as coisas certas, sobre a harmonia divina e humana. Por que não começar a entender a sensibilidade do Criador, a ordem do universo? Se quem busca acha, deves buscar, mas com sinceridade.

Deus é o Doador Supremo, que não se esquece de Seus filhos de boa vontade. Agrada a Deus amando, servindo sem exigências e trabalhando sempre na cocriação de oportunidades que elevam e que mostram a paz, insuflando o amor em todas as criaturas.

Não desprezes a ordem, pois ela gera o progresso, e quando fizeres alguma coisa, não podes esquecer Jesus, força divina que mostra a Sua divina presença em toda a Terra, manifestando-se em todos os homens, educando-os e instruindo-os, na mais alta função de amar.

Aos afoitos no trabalho, que parecem querer recuperar o tempo perdido, em apenas alguns anos, nós lhes dizemos que façam o bem, nos limites das suas forças, para que não venham a se cansar antes de atingir a meta de servir, e os compromissos firmados com o senhor da vinha. O equilíbrio, na altura em que se encontra a humanidade, é o caminho do meio, como nos fala um provérbio chinês.

Vamos agradar a Deus com bons pensamentos, boas palavras e boas ações. Mesmo que a tua vida esteja tomada pelas trevas, não esmoreças nas reformas; luta e crê, que Deus te abençoará, para que venças a ti mesmo.

Ao que lhe respondeu Jesus: Se podes crer, tudo é possível ao que crê.

Marcos, 9:23

E para crer, necessário se faz que trabalhes na aquisição dos valores da alma, de amor e bondade, de fé e entendimento, que somando surgirá a pérola divina em teus passos que se chama, e está escrito no dicionário do céu: Amor.

 

 

“Faça o bem agora”.



[1] Filosofia Espírita – Volume 13 – João Nunes Maia

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

DUMINDA RATNAYAKE (caso de reencarnação)[1]

 


Erlendur Haraldsson

 

Características comportamentais proeminentes aparecem fortemente em alguns casos de memória de vidas passadas, como no caso de Duminda Ratnayake, no Sri Lanka. Duminda lembrou-se de ter sido monge chefe num templo famoso e exibiu preocupações e comportamentos apropriados, por exemplo no que diz respeito ao vestuário e às atividades religiosas. Ele recitou estrofes em Pali, a antiga língua do Budismo que geralmente só é conhecida pelos monges.

 

Visão geral

Na primeira infância, Duminda fez declarações sobre uma vida anterior como monge-chefe no famoso templo Asgiriya em Kandy, a cerca de dezesseis milhas de distância de sua cidade natal. Ele também exibia comportamentos de monge, desejando carregar suas roupas como fazem os monges, vestir-se com roupas de monge e ser chamado de 'pequeno monge'. Ele gostava de recitar estrofes em Pali, a extinta língua ritual budista, e frequentemente expressava o desejo de visitar templos e se tornar monge.

Este caso foi investigado por Erlendur Haraldsson e seu colega do Sri Lanka Godwin Samararatne. Haraldsson relatou isso primeiro em um jornal e mais tarde em um livro,  I Saw a Light and Came Here, do qual ele foi coautor com  James Matlock[2]. No início da década de 1990, a BBC Wales fez um documentário sobre casos de renascimento,  In Search of the Dead, no qual foi incluído o caso de Duminda[3]. 

 

Declarações de Duminda

Duminda afirmou que ele havia sido um monge sênior (nayake-hamduruvo) ou monge chefe (loku-hamduruvo) no Templo de Asgiriya. Quanto à sua morte, disse que sentiu dores no peito e caiu, sendo posteriormente levado ao hospital, onde faleceu. Ao descrever isso, ele usou a palavra apawathwuna, termo usado apenas para a morte de monges. Ele também disse que:

§  Ele tinha um carro vermelho.

§  Ele estava ensinando os monges aprendizes.

§  Ele tinha um elefante.

§  Ele tinha amigos no mosteiro de Malvatta e costumava visitá-los.

Ele expressou saudade da bolsa de dinheiro e do rádio que possuía em Asgiriya. Ele disse que depois de morrer e antes de nascer de novo ele viveu entre os devas (seres angélicos).

 

Comportamentos de Duminda

Duminda comportou-se de muitas maneiras consistentes com o monge que ele acreditava ter sido. Ele:

§  usava e tratava suas roupas como um monge;

§  solicitou um manto e leque de monge;

§  queria usar uma túnica de monge (raramente permitido);

§  não gostou que sua mãe o chamasse de 'filho' e pediu para ser chamado de podi sadhu (pequeno monge);

§  expressou o desejo de se tornar um monge;

§  expressou o desejo de visitar o vihara local (local de culto);

§  levava flores silvestres para o vihara duas ou três vezes por dia no dia Poya (feriado mensal budista), como fazem os monges;

§  tentou construir um vihara em casa, como crianças construindo estruturas de brinquedo;

§  não gostava de matar insetos ou de cometer erros cometidos por alguém;

§  muitas vezes expressou o desejo de ir ao templo Asgiriya e ao templo vizinho de Malvatta;

§  demonstrou conhecimento de Pali (a antiga língua do Budismo) recitando algumas estrofes religiosas enquanto segurava o leque na frente do rosto, à maneira monástica;

§  demonstrou calma, serenidade e distanciamento raramente encontrados em crianças de sua idade;

§  não gostava de brincar com outras crianças.

Certos incidentes reforçaram a percepção de que Duminda se lembrava de ter sido monge. Por exemplo, uma vez ele repreendeu a mãe quando ela quis ajudá-lo a lavar as mãos (as mulheres não devem tocar nas mãos dos monges). Em uma visita ao templo de Asgiriya, ele não quis se sentar até trazer um pano branco para sentar, como é costume dos monges.

 

Xenoglossia de Duminda

O caso Duminda exibe a rara característica da xenoglossia, enunciados em uma língua que o falante nunca aprendeu. Ele gostava de recitar estrofes (breves declarações religiosas) em Pali, a antiga língua do Budismo que só é aprendida pelos monges. Duminda nunca aprendeu Pali.

No documentário da BBC  In Search of the Dead, Duminda foi levado a um templo e solicitado a recitar algumas estrofes, o que ele fez na presença de muitos monges. Todas as estrofes, exceto uma, foram reconhecidas pelos monges, e a exceção foi descoberta após uma longa busca, inscrita em um local obscuro do templo Asgiriya.

Uma possível explicação para o conhecimento da estrofe por Duminda era que sua avó a havia ensinado, mas ela negou que o tivesse feito. Além disso, estrofes religiosas eram recitadas na rádio nacional às 5 da manhã, embora não se saiba de nenhuma criança que tenha aprendido tais versos desta forma.

É importante notar que quando Duminda recitou as estrofes ele segurou um leque na frente do rosto, como costumam fazer os monges. Porém, não se sabe se Duminda entendeu o significado dos versos que recitou.

 

Investigação de Caso

Entrevistas com a Família

Erlendur Haraldsson soube deste caso em 1988. Com Godwin Samararatne viajou até à casa da família, a cerca de 25 quilômetros de Kandy, e entrevistou Duminda e familiares. Duminda, então com apenas quatro anos, era tímido e não falava muito. Sua mãe, avó e avô disseram que, desde os três anos de idade, testemunharam seu comportamento extraordinário de monge e o ouviram falar sobre suas memórias. 

Haraldsson e Samararatne entrevistaram-no novamente um ano depois, altura em que ele repetiu as mesmas declarações. A sua mãe também disse que quando a morte do monge chefe do templo de Malvatta foi anunciada pela rádio, ele disse à sua família que o conhecia. Quando a mãe saiu brevemente da sala, o avô acrescentou que ela não tinha mencionado mais duas declarações: que Duminda tinha sentido falta do seu rádio e da sua bolsa de dinheiro, itens que normalmente os monges não são autorizados a possuir.

O distanciamento calmo e a dignidade de Duminda eram evidentes para os investigadores em comparação com os seus dois irmãos, que, tal como os rapazes normais e saudáveis, nunca ficavam quietos ou quietos por muito tempo.

A família não tinha nenhum parente ou vizinho que fosse monge. Não existia nenhum tipo de vínculo entre qualquer membro da família de Duminda e o mosteiro Asgiriya. Eles não haviam visitado o mosteiro até que finalmente levaram o menino para lá em 1987, atendendo a seus repetidos pedidos. A mãe do menino relutou em ir para lá, temendo que o menino pudesse mais tarde deixá-la para se tornar monge, como de fato fez mais tarde.

 

Busca pela personalidade anterior

Um jornalista do jornal  do Sri Lanka Island tomou conhecimento do caso e esteve presente durante a visita de Duminda a Asgiriya. Ele rapidamente concluiu que o menino se referia ao Venerável Ratanapala, um monge sênior que morrera de ataque cardíaco em 1975.

No entanto, Haraldsson soube por três monges que Ratanapala não possuía carro nem elefante; ele não tinha renda pessoal e, portanto, não tinha bolsa de dinheiro; ele não pregou, portanto não usou o leque; e ele não tinha ligação com o mosteiro de Malvatta. Além disso, Ratanapala era conhecido por seu interesse pela política. Isto não se enquadrava nas declarações de Duminda e excluía Ratanpala como candidato para a vida de que Duminda falava.

Haraldsson precisava determinar quais monges:

§  tinha renda do templo (bolsa de dinheiro);

§  tinha ligações com o templo/mosteiro de Malvatta e o Templo de Tooth (servido pelo mosteiro Asgiriya);

§  teve ocasiões frequentes para visitar esses lugares;

§  tinha amigos lá;

§  havia pregado sermões e exortado leigos a recitar os preceitos budistas, usando assim um leque de monge;

§  costumava usar um carro vermelho;

§  teve um problema cardíaco, caiu e morreu no hospital;

§  possuía um rádio e um elefante.

Ele obteve os nomes de todos os cinco abades que dirigiram o mosteiro em Asgiriya desde o início da década de 1920 até 1975, ano em que o abade tomou posse no momento em que investigava o caso.

A vida do abade Gunnepana Saranankara, que foi abade de 1921 a 1929, enquadra-se em cada uma das oito declarações específicas listadas acima. O monge chefe (mahanayaka) de Asgiriya possuía um carro e uma bolsa de dinheiro. Gunnepana ensinou outros monges, sentiu uma dor súbita no peito, caiu no chão e foi levado ao hospital, onde morreu. Ele pregou, o que não acontece com todos os monges.

Não se pensava que Gunnepana tivesse realmente possuído um elefante ou um rádio. No entanto, Gunnepana mostrou um interesse particular num elefante que um discípulo seu trouxe para a vizinhança. Ele possuía um gramofone, e é possível que Duminda se lembrasse disso quando se referiu a um rádio.

Cada uma das declarações de Duminda se ajusta à vida do monge chefe Gunnepanna, enquanto apenas algumas se ajustam à vida de alguns dos outros monges chefes. A conclusão parecia clara: Duminda estava a recordar a vida do abade Gunnepana.

 

A vida posterior de Duminda

No final da sua infância, os pais de Duminda cederam ao seu desejo persistente de se tornar monge. Ele entrou em um mosteiro intimamente associado a Asgiriya e lá permaneceu por muitos anos, mas tornou-se muito interessado em computadores e tornou-se proficiente em usá-los. Quando tinha cerca de vinte anos deixou o mosteiro – mantendo boas relações com os monges residentes – e começou a trabalhar para uma empresa que montava câmeras de segurança. Mais tarde, ele entrou na universidade e se formou em ciência da computação. Ele trabalha agora para uma importante instituição estatal. Ele é casado, tem família e é um ativista ativo contra o alcoolismo entre os jovens no Sri Lanka.

 

Literatura

§  Haraldsson, E., & Samararatne. G. (1999). Children who speak of memories of a previous life as a Buddhist monk: Three new cases. Journal of the Society for Psychical Research 63, 268-91.

§  Haraldsson, E., & Matlock, J.G. (2016). I Saw a Light and Came Here: Children´s Experiences of Reincarnation. Hove, UK: White Crow Books.

 

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Haraldsson e Samaratne (1999); Haraldsson e Matlock (2016).

[3] O documentário foi produzido por Jeffrey Iverson, em colaboração com a rede de televisão americana CBS.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

EMPREGO OFICIAL DO MAGNETISMO ANIMAL[1]

 


Allan Kardec

 

De Estocolmo escrevem ao Journal des Débats, a 10 de setembro de 1858:

“Infelizmente, não tenho nada de consolador a vos comunicar, relativamente à enfermidade da qual padece o nosso soberano, há cerca de dois anos. Todos os tratamentos e remédios que os profissionais da área têm prescrito durante esse tempo não trouxeram nenhum alívio aos sofrimentos que arruínam a saúde do rei Oscar. Segundo o conselho de seus médicos, o Sr. Klugenstiern, que desfruta de alguma reputação como magnetizador, foi chamado recentemente ao castelo de Drottningholm, onde continua a residir a família real, a fim de submeter o augusto doente a um tratamento regular de magnetismo. Aqui se acredita que, por uma coincidência bastante singular, a sede da doença do rei Oscar se acha estabelecida precisamente no mesmo local da cabeça em que se situa o cerebelo, como, infelizmente, parece também ser o caso do Rei Frederico Guilherme IV, da Prússia”.

Perguntamos se há vinte e cinco anos teriam os médicos ousado prescrever publicamente semelhante recurso, mesmo a um simples particular, quanto mais, e com mais forte razão, a uma cabeça coroada. Nessa época, todas as faculdades científicas e todos os jornais não dispunham de sarcasmos suficientes para denegrir o magnetismo e seus partidários. As coisas mudaram bastante neste curto espaço de tempo! Não somente já não se ri do magnetismo, mas ei-lo oficialmente reconhecido como agente terapêutico. Que lição para os que sorriem das ideias novas! Ela os fará compreender, finalmente, quão imprudente é se inscreverem em falso contra as coisas que não compreendem. Temos uma porção de livros escritos contra o magnetismo por homens em evidência. Não teriam feito melhor em calar-se e esperar? Então, como hoje para o Espiritismo, lhe opunham a opinião dos homens mais eminentes, mais esclarecidos e mais conscienciosos: nada lhes abalava o cepticismo.

A seus olhos o magnetismo era apenas charlatanismo, indigno das pessoas sérias. Que ação poderia ter um agente oculto, movido pelo pensamento e pela vontade, cuja análise química não pode ser feita?

Apressamo-nos a dizer que os médicos suecos não são os únicos a reconsiderar essa ideia estreita e, por toda parte, na França como no estrangeiro, a opinião mudou completamente a esse respeito; e isso é tão verdadeiro que, quando se passa um fenômeno inexplicado, diz-se: é um efeito magnético. Encontra-se, pois, no magnetismo a razão de ser de uma porção de coisas antes atribuídas à imaginação, bastante cômoda para os que não sabem o que dizer.

O magnetismo haverá de curar o rei Oscar? Esta é uma outra questão. Sem dúvida já operou curas prodigiosas e inesperadas, mas tem seus limites, como tudo que existe na Natureza. Aliás, é preciso levar em consideração o fato de que em geral não se recorre ao magnetismo senão in extremis e em desespero de causa, quando muitas vezes o mal já fez progressos irremediáveis ou foi agravado por uma medicação contraindicada. Quando triunfa de tais obstáculos é necessário que seja muito poderoso!

Se a ação do fluido magnético é hoje um ponto geralmente admitido, o mesmo não se dá em relação às faculdades sonambúlicas, que ainda encontram muitos incrédulos no mundo oficial, sobretudo no que concerne às questões médicas. Todavia, deve-se convir que, sobre esse ponto, os preconceitos se enfraqueceram singularmente, mesmo entre os homens de ciência: temos a prova disso no grande número de médicos que fazem parte  de todas as sociedades magnéticas, quer na França, quer no estrangeiro. De tal modo os fatos se vulgarizaram que foi preciso ceder à evidência e seguir a corrente, querendo ou não. Em breve acontecerá a mesma coisa com a lucidez intuitiva.

O Espiritismo liga-se ao magnetismo por laços íntimos, considerando-se que essas duas ciências são solidárias entre si.

Quem, entretanto, acreditaria que fosse encontrar os seus mais obstinados inimigos entre certos magnetizadores, embora não contem esses com a oposição dos espíritas? Os Espíritos sempre preconizaram o magnetismo, seja como meio curativo, seja como causa primeira de uma porção de coisas; defendem sua causa e vêm prestar-lhe apoio contra os seus inimigos. Os fenômenos espíritas têm aberto os olhos de muitas pessoas que, ao mesmo tempo, aderem ao magnetismo. Não é bizarro constatar que os magnetizadores esquecem tão depressa o que sofreram dos preconceitos, negando a existência de seus defensores e contra eles atirando as mesmas flechas que outrora eram lançadas sobre si próprios? Isto não é nobre nem digno de homens para quem a Natureza retira, mais que os outros, o direito de pronunciar o famoso nec plus ultra[2], ao desvendar um de seus mais sublimes mistérios. Tudo prova, no rápido desenvolvimento do Espiritismo, que logo ele terá direito de cidadania. Enquanto espera, aplaude com todas as suas forças a posição que acaba de conquistar o magnetismo, como um sinal incontestável do progresso das ideias.



[1] Revista Espírita – outubro/1858 – Allan Kardec

[2] Origem etimológica: locução latina que significa "não mais além".