terça-feira, 20 de novembro de 2018

São Paulo, Precursor do Espiritismo[1]




A comunicação seguinte foi obtida em sessão da Sociedade de Paris, ocorrida em 9 de outubro de 1863:
Quantos dias se passaram, meus filhos, desde que tive a felicidade de entreter-me convosco! Assim, é com grata satisfação que me encontro no seio da minha cara Sociedade de Paris.
Com que vos entreterei hoje? A maior parte das questões morais foi tratada por penas hábeis; todavia, elas são de tal modo do meu domínio e o seu campo é tão vasto que ainda encontrarei alguns fragmentos de verdade para respigar. Quanto ao mais, mesmo que eu apenas repetisse o que outros já disseram, talvez apareçam alguns novos ensinamentos, porque as boas palavras, como as boas sementes, produzem sempre bons frutos.
Para nós, os livros santos são celeiros inesgotáveis, e o grande apóstolo Paulo, que por sua prédica poderosa tanto contribuiu para o estabelecimento do Cristianismo no passado, vos deixou monumentos escritos que servirão, não menos energicamente, à expansão do Espiritismo. Não ignoro que os vossos adversários religiosos invocam seu testemunho contra vós; mas, ficai certos, isto não impede que o ilustre iluminado de Damasco seja por vós e convosco. O sopro que corre em suas epístolas, a santa inspiração que anima os seus ensinos, longe de ser hostil à vossa doutrina, está, ao contrário, cheia de singulares previsões em vista do que acontece hoje. É assim que, na sua primeira epístola aos coríntios, ele ensina que, sem a caridade, não existe nenhum homem, ainda que fosse santo, profeta e transportasse montanhas, que se possa gabar de ser um verdadeiro discípulo de Nosso Senhor Jesus-Cristo. Como os espíritas, e antes dos espíritas, foi ele o primeiro a proclamar esta máxima que faz vossa glória: Fora da caridade não há salvação! Mas não é apenas por este único lado que ele se liga à doutrina que nós vos ensinamos e que hoje propagais. Com aquela sublime inteligência que lhe era própria, tinha previsto o que Deus reservava para o futuro e, notadamente, esta transformação, esta regeneração da fé cristã, que sois chamados a assentar profundamente no espírito moderno, já que descreve, na citada epístola, e de maneira indiscutível, as principais faculdades mediúnicas, por ele chamadas de dons abençoados do Espírito Santo.
Ah! Meus filhos, aquele santo doutor contempla, com uma amargura que não pode dissimular, o grau de aviltamento em que caiu a maior parte dos que falam em seu nome, e que proclamam, urbi et orbi, que outrora Deus deu à Terra toda a soma de verdades que esta era capaz de receber. Não obstante, o apóstolo tinha exclamado em seu tempo que só havia uma ciência e profecias imperfeitas. Ora, aquele que se lastimava de tal situação sabia, por isto mesmo, que essa ciência e essas profecias um dia se aperfeiçoariam. Não está aí a condenação absoluta de todos os que incriminam o progresso? O mais rude golpe aos que pretendem que o Cristo e os apóstolos, os Pais da Igreja e, sobretudo, os reverendos casuístas da Companhia de Jesus, deram à Terra toda a ciência religiosa e filosófica à qual ela tinha direito? Felizmente o próprio apóstolo teve o cuidado de os desmentir antecipadamente.
Meus caros filhos, para apreciar, no seu justo valor, os homens que vos combatem, não deveis senão estudar os argumentos de sua polêmica, suas palavras acerbas e os pesares que testemunham, como o reverendo Pailloux; que as fogueiras tenham sido extintas e que a Santa Inquisição não mais funcione ad majorem Dei glorium. Meus irmãos, tendes a caridade; eles, a intolerância, pelo que têm muito a lastimar-se. Eis por que vos convido a orar por esses pobres transviados, a fim de que o Espírito Santo, que eles tanto invocam, se digne, enfim, de lhes iluminar a consciência e o coração.
François-Nicolas Madeleine

A esta notável comunicação juntaremos as seguintes palavras de São Paulo, tiradas da primeira epístola aos Coríntios:
Mas alguém dirá: Como ressuscitarão os mortos? E com que corpo virão? Insensato! O que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer. E, quando semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas o simples grão, como de trigo ou doutra qualquer semente. Mas Deus dá-lhe o corpo como quer e a cada semente, o seu próprio corpo. Nem toda carne é uma mesma carne; mas uma é carne dos homens, e outra, a carne dos animais, e outra, a das aves, e outra, a dos peixes.
 E há corpos celestes e corpos terrestres, mas uma é a glória dos celestes, e outra, a dos terrestres. Uma é a glória do Sol, e outra, a glória da Lua, e outra, a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela.
Assim também a ressurreição dos mortos. Semeia-se o corpo em corrupção, ressuscitará em incorrupção. Semeia-se em ignomínia, ressuscitará em glória. Semeia-se em fraqueza, ressuscitará com vigor. Semeia-se corpo animal, ressuscitará corpo espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual.
E, agora, digo isto, irmãos: que carne e sangue não podem herdar o Reino de Deus, nem a corrupção herda a incorrupção. (São Paulo, 1ª epístola aos Coríntios, capítulo XV, versículos 35 a 44 e 50).

Que pode ser este corpo espiritual, que não é o corpo animal, senão o corpo fluídico, cuja existência é demonstrada pelo Espiritismo – o perispírito – de que a alma é revestida após a morte? Com a morte do corpo o Espírito entra em perturbação; por um instante perde a consciência de si mesmo; depois recupera o uso de suas faculdades e renasce para a vida inteligente; numa palavra, ressuscitará com o seu corpo espiritual.
O último parágrafo, relativo ao juízo final, contradiz positivamente a doutrina da ressurreição da carne, pois diz: “A carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus”. Assim, os mortos não ressuscitarão com sua carne e seu sangue, nem terão necessidade de reunir seus ossos dispersos, mas terão seu corpo celeste, que não é o corpo animal. Se o autor do Catecismo filosófico tivesse meditado bem o sentido destas palavras, teria evitado fazer o intrincado cálculo matemático a que se entregou, para provar que todos os homens mortos desde Adão, ressuscitando em carne e osso, com seus próprios corpos, poderiam caber perfeitamente no vale de Josafá, sem muito incômodo[2].
Assim, São Paulo estabeleceu em princípio e em teoria o que hoje ensina o Espiritismo sobre o estado do homem após a morte.
Mas São Paulo não foi o único a pressentir as verdades ensinadas pelo Espiritismo. A Bíblia, os Evangelhos, os apóstolos e os Pais da Igreja dele estão cheios, de sorte que condenar o Espiritismo é negar as próprias autoridades sobre as quais se apoia a religião. Atribuir todos os seus ensinamentos ao demônio é lançar o mesmo anátema sobre a maioria dos autores sacros. O Espiritismo, pois, não vem destruir, mas, ao contrário, restabelecer todas as coisas, isto é, restituir a cada coisa o seu verdadeiro sentido.




[1] Revista Espírita – Dezembro/1863 – Allan Kardec
[2] Catéchisme philosophique, pelo abade Feller, tomo III, página 83.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Claude Bernard



Claude Bernard foi médico e fisiologista. O historiador da ciência I. Bernard Cohen da Universidade de Harvard denominou-o "um dos maiores homens de ciência de todos os tempos". É considerado o “pai” da moderna fisiologia experimental.
Ele nasceu em 12 de julho de 1813, em uma fazenda em Saint-Julien, no departamento de Rhône (França) e que hoje abriga o Musée Claude Bernard, estabelecido pela Mérieux Foudation. Faleceu em 10 de fevereiro de 1878, Paris, França. Filho de Jean-François Bernard, modesto vinicultor, em terras de Beaujolais, e Jeanne Saunier. Foi casado com Marie Françoise Bernard (de 1845 a 1870) com quem teve duas filhas Marie-Claude Bernard e Jeanne-Henriette Bernard.
Em 1830 ele mudou-se para Paris para continuar seus estudos, obtendo seu diploma de bacharelado (correspondente ao colegial), e em seguida iniciando o estudo de Medicina em 1835. Ele graduou-se em 1843, aos trinta anos de idade, tendo trabalhado com o famoso fisiologista François Magendie, catedrático do Collège de France.
Os primeiros trabalhos mais importantes de Claude Bernard foram em fisiologia da digestão, particularmente sobre o papel do pâncreas exócrino, do suco gástrico e dos intestinos. O estudo do metabolismo também foi um dos seus principais campos de pesquisa, tendo Bernard contribuído poderosamente para a compreensão do mecanismo da glicogênese no fígado. Bernard também recebeu crédito por mais duas importantes realizações científicas: a descoberta do fenômeno de vasodilatação e vasoconstrição e seu controle pelos nervos vasomotores, e o estudo do efeito do curare no sistema neuromuscular. Além dessas, Bernard também fez outras contribuições importantes para as neurociências, tais como o estudo de nervos sensoriais, da corda timpânica e do líquido cefalorraquidiano. Dez anos após graduar-se em medicina, ele obteve de forma brilhante o título de doutor em ciências, com seus estudos sobre a fisiologia do fígado.
Este importante nome da medicina moderna defendia que a matéria tinha que ser estudada cientificamente. Avanços na ciência ocorreram nesta época, mas o método científico surgiu apenas no século XIX com Bernard, o qual juntamente com o seu mentor François Megandie aprendeu a fazer vivissecção[1]·. Alguns anos depois, em 1876, houve um movimento na Inglaterra contra a vivissecção, levando à primeira lei a colocar limites à prática.
Claude Bernard foi o responsável por uma descoberta revolucionária quanto ao entendimento dos princípios fundamentais da vida orgânica, o qual continua válido até hoje. É o conceito de homeostase, ou da estabilidade controlada do ambiente interno, composto pelas células e tecidos. Ele propôs que a "fixidez do ambiente interno é a condição para a vida livre", e explicou que:
O corpo vivo, embora necessite do ambiente que o circunda, é, apesar disso, relativamente independente do mesmo. Esta independência do organismo com relação ao seu ambiente externo deriva do fato de que, nos seres vivos, os tecidos são, de fato, removidos das influências externas diretas, e são protegidos por um verdadeiro ambiente interno, que é constituído, particularmente, pelos fluidos que circulam no corpo.
Na segunda metade do século, a visão que as células eram os blocos de construção fundamentais da estrutura e função do organismo era relativamente nova, e era proposta por cientistas como o patologista Rudolf Virchow, e os neuroanatomistas Camilo Golgi e Ramon y Cajal. Claude Bernard adicionou a isso o componente do pensamento fisiológico, completando a doutrina celular. As prolificas investigações experimentais de Claude Bernard também foram responsáveis pela descoberta da correlação entre a atividade nervosa e o controle do meio interno através do metabolismo, da circulação e da respiração, introduzindo, desta forma, o conceito revolucionário (para a época) das alças de controle por retroalimentação, ou de como certos sistemas fisiológicos funcionam como dispositivos homeostáticos. Esse conceito deu origem, cem anos depois à cibernética, ou à ciência dos sistemas de controle.
Bernard foi um vigoroso paladino na necessidade da abordagem experimental rigorosa baseada em um estrito casamento entre a fisiologia e as leis subjacentes da física e da química que estavam sendo descobertas em uma velocidade prodigiosa na época. Ele também era considerado excelente com relação ao método, e foi um grande inventor de técnicas e aparelhos novos em fisiologia. Seu mais importante livro, "Introdução ao Estudo da Medicina Experimental", publicado em 1865, foi enormemente influente por muitas e muitas décadas a seguir.
Em virtude de suas descobertas e de sua influência na ciência e na medicina francesas, Claude Bernard tornou-se, ainda em vida, um dos mais premiados cientistas de seu país, lado a lado com gigantes como o seu amigo e contemporâneo Louis Pasteur. Em 1854 ele foi eleito membro da Academia Francesa de Ciências e catedrático de Fisiologia Geral da Faculdade de Ciências da Sorbonne. No ano seguinte, ele foi indicado para o cargo de professor titular de medicina no famoso Collège de France. Entre 1861 e 1865, ele foi sucessivamente nomeado para a Academia Francesa de Medicina, para a Academia Francesa, para a Legião de Honra (primeiro como cavaleiro, depois como comandante), e finalmente, foi eleito senador vitalício do império, em 1869. A Academia de Ciências deu a Claude Bernard o Grand Prix de Physiologie nos anos de 1849, 1851 e 1853, em honra às suas três maiores descobertas.
Em 1864, o imperador Napoleão III mandou construir um laboratório para Bernard no museu de História Natural, na França. Após o seu falecimento, devido a sua grande importância, foi homenageado com uma estátua na sua cidade natal, Saint Julien, construída por Reymond Couvègnes, em 1893, e uma universidade recebeu seu nome: Université Claude Bernard.
O destaque de Claude Bernard, portanto, deve-se à sua forma de pensar que não basta observar um fato, é preciso estudá-lo sob as condições controladas de um laboratório. Segundo suas palavras “... o laboratório é o templo da ciência da medicina”.
Claude Bernard foi, por diversas vezes, mencionado nos trabalhos dos grandes cientistas e pesquisadores, do século XIX, que se dedicaram a fenomenologia espírita.
Para melhor terminar o presente artigo, cito as seguintes palavras do ilustre fisiologista citado por Gabriel Delanne em seu livro o “Espiritismo perante a Ciência”, 1ª. parte, II capítulo, O Materialismo Positivista:
A matéria, qualquer que seja, é sempre destituída de espontaneidade e nada provoca; só faz exprimir por suas propriedades a ideia de quem criou a máquina que funciona. De sorte que a matéria organizada do cérebro, que manifesta fenômenos de sensibilidade e de inteligência próprios ao ser vivo, não tem, do pensamento e dos fenômenos que ela manifesta, mais consciência do que a matéria bruta teria de uma máquina inerte, de um relógio, por exemplo, que não possui consciência dos movimentos que manifesta ou da hora que indica; assim, também, os caracteres de impressão e o papel não têm consciência das ideias que reproduzem. Assegurar que o cérebro segrega o pensamento, será o mesmo dizer que o relógio segrega a hora ou a ideia do tempo.
É preciso não supor que foi a matéria quem criou a lei de ordem e de sucessão; seria isso cair no erro grosseiro dos materialistas.


Fontes:

DELANNE, Gabriel, O Espiritismo perante a Ciência, 1ª. parte, II capítulo.





[1] Dissecação anatômica ou qualquer operação congênere feita em pessoa ou animal vivo para estudo de algum fenômeno fisiológico.

sábado, 17 de novembro de 2018

PARTIDAS E CHEGADAS[1]




Richard Simonetti


Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara.
O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor.
 Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram.
Quem observa o veleiro sumir na linha do horizonte, certamente exclamará: “já se foi”.
Terá sumido? Evaporado?
Não, certamente. Apenas o perdemos de vista.
O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha quando estava próximo de nós. Continua tão capaz quanto antes de levar ao porto de destino as cargas recebidas.
O veleiro não evaporou, apenas não o podemos mais ver. Mas ele continua o mesmo. E talvez, no exato instante em que alguém diz: já se foi, haverá outras vozes, mais além, a afirmar: “lá vem o veleiro”.
Assim é a morte.
Quando o veleiro parte, levando a preciosa carga de um amor que nos foi caro, e o vemos sumir na linha que separa o visível do invisível dizemos: “já se foi”.
Terá sumido? Evaporado? Não, certamente. Apenas o perdemos de vista. O ser que amamos continua o mesmo. Sua capacidade mental não se perdeu. Suas conquistas seguem intactas, da mesma forma que quando estava ao nosso lado.
Conserva o mesmo afeto que nutria por nós. Nada se perde, a não ser o corpo físico de que não mais necessita no outro lado.
E é assim que, no mesmo instante em que dizemos: já se foi, no mais além, outro alguém dirá feliz: “já está chegando”.
Chegou ao destino levando consigo as aquisições feitas durante a viagem terrena.
A vida jamais se interrompe nem oferece mudanças espetaculares, pois a natureza não dá saltos.
Cada um leva sua carga de vícios e virtudes, de afetos e desafetos, até que se resolva por desfazer-se do que julgar desnecessário. A vida é feita de partidas e chegadas. De idas e vindas.
Assim, o que para uns parece ser a partida, para outros é a chegada.
Um dia partimos do mundo espiritual na direção do mundo físico; noutro partimos daqui para o espiritual, num constante ir e vir, como viajantes da imortalidade que somos todos nós.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

OS TEMPOS SÃO OUTROS[1]



Adriana Machado

Estamos em um momento de transição.
Não estou me referindo ao momento eleitoral, apesar de ser real no nosso país, mas sim da transição planetária.
Estamos em um momento em que todas as nossas mazelas estão emergindo com as experiências que estamos vivenciando.
A espiritualidade fala abertamente que as nossas máscaras estão caindo. Elas já não se sustentam mais, elas não devem ser mais utilizadas para nos iludir porque os tempos são outros.

NÃO ENTENDERAM, EU EXPLICO.

Para aqueles que não sabem do que eu estou falando, vai aqui um pequeno resumo: nosso planeta é habitado por espíritos imperfeitos, de terceira ordem[2], espíritos que podem ser descritos como propensos ao mal, ignorantes, orgulhosos, egoístas etc.
Nossos conhecimentos sobre “as coisas do espírito” são limitados e o pouco que sabemos fazemos comparações que, por vezes, nos levam ao equívoco por não termos qualquer noção do que está além de nós, só do que vemos na matéria. Vivemos em um mundo interior de tormentos, porque, pela nossa ausência de entendimento da divina sabedoria, sentimos intensamente e nos revoltamos a cada circunstância que não nos agrada, a cada “injustiça” que pensamos ser alvo.
Em razão desse nosso grau evolutivo, vivemos em um mundo material que nos recepciona e que é descrito, na escala planetária, como de provas e expiações e que, abaixo de nós, somente os planetas primitivos, aqueles que recepcionam as almas humanas que acabaram de nascer. Então, podemos concluir que ainda muito precisaremos caminhar para atingirmos mundos mais evoluídos.
A boa notícia, no entanto, é que estamos saindo desse patamar planetário e estamos entrando em um novo nível, na regeneração. Nosso mundo está evoluindo e precisa que aqueles que nele habitam também cresçam. Não sairemos da escala de espíritos imperfeitos, mas diante do que já aprendemos (o que não é muito) teremos condições de buscar novas forças, repousando das lutas empreendidas, para enfrentarmos nossas novas expiações.
Para tanto, não conseguiríamos permanecer aqui, num planeta que está buscando novas energias, sem desabarem as máscaras que vestimos todos os dias, com as quais buscávamos iludir a quem conosco convive, com as quais buscávamos nos iludir para continuarmos vítimas (e sem responsabilidade) da Soberana Justiça.

O QUE FAZEMOS, ENTÃO?

TEMPO DE ILUDIR X TEMPO DE AGIR
Necessitamos saber quem somos. Necessitamos nos enxergar, doa a quem doer. Foi por isso que viemos nesta fase de transição e é por isso que tudo o que vemos está acontecendo agora. Todas as experiências que vivemos, da mais simplória circunstância à mais complexa, nos levam a enxergar quem somos. E sabendo quem somos, podemos fazer nossa escolha futura.
Pensem comigo: se temos segurança financeira, social e ideológica, nada nos levará a agir ou reagir com o que há de primitivo em nós. Nada nos incitará a trazermos à tona nossos instintos de sobrevivência, nossas reações egoístas e violentas. Mostrar-nos-emos sempre civilizados.
Para que fique palpável o que afirmo, pensemos no caso global dos refugiados (da Síria, Afeganistão, Somália, Venezuela...). São milhões de refugiados que fogem de seus países de origem em razão de perseguições políticas, de raça, de religião, necessitando do abrigo dos países que estão mais próximos e, principalmente, necessitando que os que os abrigarem os vejam como seres humanos.
Não afirmo ser errado um país temer receber um contingente enorme de pessoas que, por vezes, é até maior que o seu próprio número de cidadãos, mas, isso só acontece porque o mundo se faz cego diante da necessidade dos que sofrem. Afirma-se que não é problema nosso uma guerra, uma chacina no país vizinho e, quando somos pegos de surpresa com a imigração dos que fogem, não temos (como mundo) um planejamento de contingência para colocarmos em prática.
Mas, verdadeiramente, o que quero chamar a atenção de vocês nessa questão é (não passem adiante sem responder as perguntas):
O que pensamos e como agimos quando o problema é do outro (de outro país, por exemplo)? Julgamo-lo por fechar suas fronteiras?
O que pensamos e como agimos quando o problema chega em nossas mãos? Queremos abrir as nossas fronteiras para eles?
Conseguiram responder?
Quais foram os sentimentos que brotaram em seus corações?
Medo, temor deste acolhimento trazer prejuízos ao conforto que todos usufruem?
Medo, temor deles preencherem os empregos que já são tão poucos?
Medo, temor do aumento da violência e pobreza que vem com a falta de infraestrutura para toda essa gente?
Medo, temor de suas crenças tão diferentes das que possuem?
Mas, será que somos somente “trevas”?

Será que também não sentimos piedade, amor, necessidade de acolher aqueles que precisam mesmo que se lhes impunha algumas condições?
Será que também não sentimos piedade, amor, necessidade de acolher aqueles que precisam seja qual for o resultado que isso acarrete na nossa vida, na de nossos amores, ou em nosso país?
Qualquer que seja aquele(s) com o qual(is) nos identificamos somos nós! Esse ser que emergiu dos recôncavos de nosso mundo interior é quem estamos e que, sem um impulsionamento externo, não o flagraríamos. Esse ser que precisa ser elogiado ou lapidado com carinho e dedicação.
Não se iludam achando que, neste período, precisamos descobrir somente as nossas mazelas internas. Muitas vezes, precisamos enxergar o quanto crescemos, o quanto estamos melhores para nos sentirmos merecedores de permanecer neste planeta de regeneração.
Abramos os nossos olhos. Não queiramos esconder de nós mesmos quem ainda somos, porque não conseguiremos enganar a Supremacia Divina que sabe o que é melhor para nós.
Acreditem que estarmos em um mundo onde não nos enquadramos seria ruim. O ambiente nos incomodaria, as pessoas nos incomodariam, as nossas imperfeições nos dilacerariam interiormente, nos trazendo muito sofrimento. A boa notícia é que, se estamos aqui, ainda muito poderemos fazer para nos melhorar. Se estamos aqui é porque a Suprema Providência entende que temos os instrumentos para darmos a volta por cima porque, como foi dito acima, quem permanecerá aqui ainda é um espírito imperfeito, mas esse desejará mudança, esse terá em seu ser a vontade de valorizar suas vitórias, superar suas “chagas interiores” e seguir em frente, junto com toda a humanidade.
Os tempos são outros, mas nós estamos aqui. Façamos parte "destes tempos" com consciência.

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

A CAUSA DA MORTE[1]



Miramez

Qual a causa da morte entre os seres Orgânicos?
‒ O esgotamento dos órgãos.
Poder-se-ia comparar a morte à cessação do movimento de determinada máquina desorganizada?
‒ Sim; se a máquina está mal montada, a atividade cessa; se o corpo adoece, a vida se extingue.
Questão 68 – O Livro dos Espíritos

A causa da morte de um corpo é o esgotamento orgânico. Quando se processa a velhice, os órgãos enfraquecem e a vitalidade diminui. No entanto, a morte por desastre interrompe por vezes o movimento orgânico e a interligação de uns órgãos com os outros. A força vital desapropria-se da área que comandava e tudo entra no caos, por faltar harmonia no conjunto.
A verdadeira causa da morte é de difícil comprovação, dado o engenhoso esquema espiritual, traçado à luz do resgate de cada Espírito, bem como, e certamente, do seu livre arbítrio. O poder da vontade soma como bênção de Deus e pode modificar o cronograma, assim como os homens podem e mudam de vez em quando as suas próprias leis.
A morte de cada corpo humano não é um determinismo. A vida pode se estender o quanto for necessário, desde que os agentes da espiritualidade maior acharem conveniente tal decisão. Assim, as provas, infortúnios e sofrimentos tanto podem aumentar como diminuir. O mundo espiritual, que comanda a existência dos homens na Terra, escolhe o melhor para cada um. Surgem questionamentos quanto ao fato de um homem de bem morrer jovem, sendo que o inconveniente à sociedade permanece até a velhice. Isto porque os espíritos que dirigem a humanidade têm olhos para ver as necessidades mais profundas de cada um.
Não há injustiça em campo algum de vida, cada qual recebe somente o que merece nas linhas que percorre. Devemos procurar estudar mais as leis de Deus, que encontraremos a Verdade, como se respira o ar e se sentem os raios do sol.
A morte é sinônimo de desagregação da forma física, sem que desapareça a vida do corpo, e muito menos a do espírito. Tudo criado por Deus tem vida imortal.
O que ocorre são infinitas transformações, que se processam no seio daquilo que existe. E quando nos é facultada a oportunidade de falar sobre o Espírito, geralmente usamos termos conhecidos pela humanidade, porém, todos eles são pobres para explicar o valor da alma. Alhures dizemos que o espírito é vida, no entanto, a vida é atributo do espírito, como o amor, a caridade etc... Todos os valores que conhecemos são atributos dessa chama divina, que acordam em si e com a sua presença.
Qual a definição que poderemos dar para Espírito? Onde encontraremos termos adequados? A pobreza da linguagem nos enfraquece a razão; sentimos o que é o espírito sem ter condições de descrever o que realmente ele é. Por aí, pode-se deduzir o que Deus representa para nós, e as dificuldades que temos para falar sobre o Soberano Senhor. Pouco passamos do entendimento do índio e, se quisermos avançar, diremos, repetindo João Evangelista: Deus é amor. E com mais propriedade repetiremos Jesus, quando nos ensina: Pai nosso que estás nos Céus...
A morte que muitos temem na Terra é uma renovação, é uma mudança de dimensão da alma, para que esta compreenda melhor as leis da vida. Muitos perguntam se a inteligência é o espírito, e nós repetiremos que ela é um atributo, um dom que acordou, como muitos outros, na forja divina da consciência. E é nessa linha de entendimento que notamos que nada morre; tudo vive na vida de Deus. E quando começamos a despertar para Cristo, os caminhos que se abrem são infinitos, rumo à felicidade imortal, nos ensejando alegria duradoura e a paz imperturbável do coração. É, pois, o conhecimento da verdade que nos liberta das trevas para a luz, de sorte a somente conhecermos a vida e tirarmos da mente a preocupação com a morte.




[1] Filosofia Espírita – Volume 2 – João Nunes Maia

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Educação dos Espíritos[1]



Maria Ribeiro


Na escala espírita descrita por Kardec, embora nada tendo de absoluta, é possível compreender a heterogeneidade na qual vivemos, tanto moral quanto intelectual.
Entretanto, a escala abrange categorias de Espíritos que já alcançaram um grau intelectivo sobre o bem e o mal, visto que, na última classe, a dos Espíritos impuros, suas características apontam que têm propensão ao mal e possuem todas as más paixões. Ora, de acordo com a questão 191, os Espíritos que possuem paixões é que fizeram algum progresso; logo, os impuros fazem uso do seu livre arbítrio optando sempre por fazer o mal. Estes os Espíritos vinculados à Humanidade terrestre.
A escala não abrange os Espíritos primitivos, visto que, a priori, a Terra não lhes corresponde e, na Revista Espírita de março de 1858, Kardec faz descrição onde isola a nona classe, a dos impuros, para caracterizar o que seria um mundo habitado "quase" que exclusivamente por eles.
Porém, em outubro de 1860, há uma outra descrição psicografada de Marte, tomado como um planeta inferior à Terra, onde afirma-se que seria a primeira habitação dos Espíritos, seres rudimentares, desprovidos de beleza e inteligência. Por primeira habitação dos Espíritos pode-se entender que o Espírito acaba de sair dos liames da animalidade, onde adquire o raciocínio contínuo e passa a habitar um corpo mais próximo do humanoide; portanto, Espíritos primitivos.
 A Terra é habitação de todos os Espíritos da terceira ordem e, de acordo com a questão 176 de O Livro dos Espíritos, aqui os há nos mais variados graus de moralidade e inteligência. Cabe tentar uma análise onde se possa separar quem são os Espíritos impuros e os primitivos. E assim, pode-se pensar que todo Espírito primitivo seja impuro, mas os impuros não são necessariamente primitivos. Isto porque os Espíritos impuros sejam já experimentados em várias encarnações, nas quais não demonstram a boa vontade para aprenderem a domar as más tendências, se apaixonando pelos vícios e relutando contra as leis naturais. Daí o serem encaminhados para os mundos primitivos, mais adequados aos seus comportamentos. A Terra, segundo as Letras Espíritas, planeta de provas e expiações, guarda relações com seres impuros, já que admite esta classe entre seus habitantes. Ora, então seria necessário que estes viessem ao planeta para que se cumprissem algumas das circunstâncias que põem as provas e as expiações nos caminhos dos indivíduos?
 Embora os Espíritos assegurem que a humanidade tem progredido e a própria realidade aponte para avanços no comportamento humano, há os que defendem, levianamente, que "de uns tempos para cá, a coisa está pior", esquecidos das barbáries narradas desde os tempos bíblicos.
 Há algumas atitudes humanas que levam muitos a questionarem se realmente partem de um ser humano. Dentre estas, muitas podem partir de Espíritos impuros ou primitivos, que não desenvolveram sentimentos mais nobres, embora os segundos estejam em suas primeiras experiências.
 Vale lembrar a passagem intitulada Assassinato de cinco crianças por outra de doze anos ‒Problema moral, anotada no mês de outubro da Revista Espírita de 1858.
 É preciso também saber discernir o grau de proximidade entre tais estados evolutivos e as supostas patologias mentais, que podem levar a desequilíbrios que causem danos sociais. Sabe-se que o córtex cerebral é o mais recente tecido que agregou-se ao encéfalo. Está dividido em lobos: frontal, um par parietal, um par temporal e lobo occipital, além do lobo límbico. Está conectado às áreas sensoriais e motoras. O lobo frontal é o responsável, por exemplo, pelo julgamento, pelo autocontrole e pelas emoções. Este lobo se desenvolveu muito em todos os primatas sociáveis.  Lesões no lobo frontal podem tornar o indivíduo apático, antissocial, indiferente. Segundo as teorias sobre o desenvolvimento humano, as mudanças corporais incluem o aumento significativo da área cerebral, e evidentemente, as funções se ampliaram. E este desenvolvimento material é que proporciona ensejo de o Espírito por em prática suas potencialidades.
 Estando um Espírito primitivo, por exemplo, encarnado sobre a Terra, por causa da lei de hereditariedade, também possuirá a mesma estrutura encefálica organizada dos nativos, embora nestes ela esteja em condições de uso segundo suas conquistas intelecto-morais. Em contrapartida, as aquisições intelecto-morais requerem instrumento capaz de exprimi-las, o que faz concluir que o desenvolvimento físico seja uma exigência natural daquele. Portanto, ainda considerando um Espírito primitivo encarnado num mundo mais adiantado, apesar de possuir uma estrutura física cerebral idêntica aos demais, existem áreas inativas, ou morfologicamente diferentes, o que poderá comprometer sua fisiologia. Semelhantemente ao que ocorre quando uma lesão patológica, como os tumores, se instala no cérebro.
 O caso ilustrado não se refere, entretanto, a uma lesão física e patológica, mas a uma condição evolutiva de um ser desprovido de elementos mentais que preencham sua morfologia atual, pois que suas potencialidades se encontram latentes.
 O mesmo já não se aplicaria a um Espírito impuro que, a despeito das várias experiências, é refratário ao bom aprendizado e às inspirações dos bons Espíritos, perseverando no caminho da deliberada maldade, demonstrando-se um ser verdadeiramente rebelde. Mas nem por isso sua funcionalidade cerebral seja menos comprometida, com a diferença de que, tendo elementos mentais (distinguem o bem do mal), não desenvolveram moralidade que pudesse se adaptar às estruturas físicas que possuem, então são como que atrofiadas. Ou seja, a Mente não está bem representada pelo cérebro.
 Estudos realizados[2] comprovam que as lesões no córtex frontal produzem diversos transtornos de comportamento. O que pode se potencializar se também estiver associado a traumas psicológicos.
 Em várias ocasiões o nobre codificador se referiu à educação como único meio eficaz de transformar o homem. Porém nossas instituições ainda não logram vantagem efetiva pela falta do conhecimento do Espírito e suas exigências, já que elas mesmas são constituídas de homens limitados. Kardec fala de uma educação moral, e não necessariamente da instrução tão somente, visto que esta sozinha se mostra incapaz de tornar um homem mau em bom. Isto porque o maior mal do homem não é a ignorância das ciências que dominam o mundo físico, mas das que prevalecem no mundo moral.
 O fato de o planeta estar povoado de várias categorias de Espíritos faz que se reflita sobre as legislações vigentes, que, em suas deficiências, ainda contam com a desvantagem de não agirem individualmente. Pois as várias nuances da Mente humana traz implicações em todos os setores sociais, mas predominantemente nos trâmites criminais e as aplicabilidades das leis que possam interferir no caráter dos indivíduos.
 Até hoje as leis são punitivas, sem o compromisso de atribuir ao réu o dever e também o direito da correção. Punições podem intimidar, mas não aniquilam os maus hábitos, que podem ser corrigidos através da educação moral de que noticia Kardec.
 Diante disso, parece que também nesta há uma hierarquia, indo desde a educação básica até o momento em que o Espírito seja capaz de se conduzir sozinho[3] e, segundo as Letras Espíritas, isto não se dá sobre a Terra. Portanto, todos os habitantes terrenos se encontram em fase educacional, nas mais diversas fases. Mas cabe a cada um reconhecer a sua e aproveitar o quanto possível as oportunidades do próprio crescimento.




[2] Adrian Raine e outros.
[3] Questão 500 de O Livro dos Espíritos.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Um Caso de Possessão[1]




Dissemos que não havia possessos no sentido vulgar do termo, mas subjugados. Queremos reconsiderar esta asserção, posta de maneira um tanto absoluta, já que agora nos é demonstrado que pode haver verdadeira possessão, isto é, substituição, embora parcial, de um Espírito encarnado por um Espírito errante. Eis um primeiro fato que o prova, apresentando o fenômeno em toda a sua simplicidade.
Várias pessoas se achavam um dia na casa de uma senhora, médium sonâmbula. De repente esta assumiu atitudes francamente masculinas, mudou a voz e, dirigindo-se a um dos assistentes, exclamou: Ah! meu caro amigo, como estou contente por te ver! Surpresos, perguntam o que isto significa. A senhora continua: Como! Meu caro, não me reconheces? Ah! É verdade; estou coberto de lama! Sou Carlos Z... A este nome os assistentes se lembraram de um senhor, morto alguns meses antes, vitimado por um ataque de apoplexia, à beira de uma estrada; tinha caído num fosso, de onde lhe retiraram o corpo coberto de lama.
Declarou que, querendo conversar com seu velho amigo, aproveitou o momento em que o Espírito da senhora A..., a sonâmbula, estava afastada de seu corpo, para tomar-lhe o lugar.
Com efeito, tendo-se repetido a cena vários dias seguidos, a Sra. A... de cada vez tomava as poses e maneiras habituais do Sr. Charles, apoiando-se no encosto da poltrona, cruzando as pernas, torcendo o bigode, passando os dedos pelos cabelos, de sorte que, salvo as roupas femininas, poder-se-ia crer estar diante do Sr. Charles.
Contudo, não havia transfiguração, como vimos em outras circunstâncias. Eis algumas de suas respostas:
Já que tomastes posse do corpo da Sra. A..., poderíeis nele permanecer?
– Não, mas vontade não me falta.
Por que não o podeis?
– Porque seu Espírito está sempre ligado ao seu corpo. Ah! se eu pudesse romper esse laço, eu lhe pregaria uma peça.
Que faz durante este tempo o Espírito da Sra. A...?
– Está aqui ao lado, olhando para mim e rindo por me ver em suas vestes.

Estas conversas eram muito divertidas. O Sr. Charles tinha sido um bon vivant e não desmentia seu caráter. Entregue à vida material, era pouco adiantado como Espírito, mas bom por natureza e benevolente. Apoderando-se do corpo da Sra. A..., não tinha qualquer intenção má, de sorte que aquela senhora nada sofria com a situação, a que se prestava de bom grado. É bom que se diga que ela não conhecera o Sr. Charles e não podia estar a par de suas maneiras. É ainda de notar que os assistentes não pensavam nele, a cena não foi provocada e ele veio espontaneamente.
Aqui a possessão é evidente e ressalta ainda melhor dos detalhes, cuja enumeração seria demasiado longa; mas é uma possessão inocente e sem inconvenientes. Já o mesmo não ocorre quando se trata de um Espírito maléfico e mal-intencionado. Pode ter consequências tanto mais graves quanto mais tenazes; são esses Espíritos, o que muitas vezes se torna difícil livrar o paciente, do qual fazem sua vítima. Eis um exemplo recente, que nós mesmos tivemos oportunidade de observar e que se constituiu em sério objeto de estudo para a Sociedade de Paris:
A senhorita Júlia, doméstica, nascida na Sabóia, com vinte e três anos, caráter muito afável, sem qualquer instrução, desde algum tempo era susceptível a acessos de sonambulismo natural, que duravam semanas inteiras. Nesse estado consagrava-se a seu trabalho habitual, sem que as pessoas estranhas desconfiassem de sua situação; seu trabalho era até mais cuidadoso; sua lucidez, notável; descrevia lugares e acontecimentos à distância com perfeita exatidão.
Há cerca de seis meses foi acometida de crises de caráter muito estranho, que sempre ocorriam no estado sonambúlico, o qual se tornara, de certo modo, seu estado normal.
Contorcia-se e rolava pelo chão, como a se debater sob a opressão de alguém que a quisesse estrangular e, de fato, apresentava todos os sintomas do estrangulamento. Acabava vencendo esse ser fantástico, agarrava-o pelos cabelos, acabrunhava-o com golpes, injúrias e imprecações, apostrofando-o incessantemente com o nome de Fredegunda, infame regente, rainha impudica, criatura vil e manchada por todos os crimes etc. Tripudiava como se a pisoteasse com raiva, arrancando-lhe as roupas e os adereços. Coisa bizarra, tomando-se ela própria por Fredegunda, golpeava-se repetidamente nos braços, no peito e no rosto, dizendo:
Toma! toma! é bastante infame Fredegunda? Queres sufocar-me, mas não o conseguirás; queres meter-te em minha caixa, mas eu te expulsarei dela.
Minha caixa era o termo de que se servia para designar o seu corpo. Nada poderia pintar melhor o acento frenético com o qual, rangendo os dentes, ela pronunciava o nome de Fredegunda, nem as torturas que sofria nesses momentos.
Um dia, para ver-se livre de sua adversária, tomou de uma faca e tentou ferir-se; foi detida a tempo, evitando-se um acidente. Coisa não menos notável é que jamais tomou qualquer dos presentes por Fredegunda; a dualidade era sempre nela mesma e era contra si mesma que dirigia o seu furor quando o Espírito estava nela, e contra um ser invisível quando dele ela se havia desembaraçado. Para os outros era meiga e benevolente, mesmo nos momentos de maior exasperação.
Essas crises, verdadeiramente aterradoras, muitas vezes duravam horas e se repetiam várias vezes por dia. Quando acabavam por vencer Fredegunda, esta caía num estado de prostração e de acabrunhamento de que só saía pouco a pouco, mas que lhe deixava uma grande fraqueza e dificuldade de falar. Sua saúde estava profundamente alterada; nada podia comer e por vezes ficava oito dias sem alimentar-se. Para ela as melhores iguarias tinham gosto horrível, levando-a a rejeitá-las. Dizia que era obra de Fredegunda, que a queria impedir de comer.
Dissemos acima que a moça não recebeu qualquer instrução. Em vigília jamais ouvira falar de Fredegunda, nem de seu caráter, nem do papel que representou. Ao contrário, em estado sonambúlico, sabe-o perfeitamente e diz ter vivido em seu tempo.
Não era Brunehaut, como a princípio se supôs, mas outra pessoa, ligada à sua corte.
Outra observação, não menos importante, é que, quando começaram as crises, a senhorita Júlia jamais se havia ocupado de Espiritismo, cujo nome lhe era desconhecido. Ainda hoje, em vigília, ela lhe é estranha e nele não crê. Só o conhece no estado sonambúlico, e somente depois que começou a ser cuidada.
Assim, tudo quanto disse foi espontâneo.
Diante de uma situação tão estranha, uns atribuem o estado dessa moça a uma afecção nervosa; outros a uma loucura de caráter especial, opinião que, à primeira vista, tinha uma aparência de realidade. Declarou um médico que, no estado atual da Ciência, nada podia explicar semelhantes fenômenos, e que não via nenhum remédio. Todavia, pessoas experimentadas no Espiritismo reconhecem sem dificuldade que ela estava sob o império de uma subjugação das mais graves, e que lhe poderia ser fatal. Sem dúvida, quem não a tivesse visto senão nos momentos de crise e só tivesse considerado a estranheza de seus atos e palavras, teria dito que era louca e lhe haveria infligido o tratamento dos alienados que, sem sombra de dúvida, teria provocado uma loucura verdadeira; mas esta opinião deveria ceder diante dos fatos.
No estado de vigília sua conversa é a de uma pessoa de sua condição e em conformidade com a sua falta de instrução; sua inteligência chega a ser vulgar. Já no estado de sonambulismo o quadro se modifica completamente: nos momentos de calma ela raciocina com muito senso, justeza e verdadeira profundidade. Ora, seria loucura singular esta que aumentasse a dose de inteligência e de julgamento. Só o Espiritismo pode explicar essa aparente anomalia. No estado de vigília, sua alma ou Espírito está comprimido por órgãos que lhe não permitem senão um desenvolvimento incompleto; no estado de sonambulismo, a alma, emancipada, está em parte liberta de seus laços e goza da plenitude de suas faculdades. Nos momentos de crise, suas palavras e atos são excêntricos somente para os que não creem na ação dos seres do mundo invisível. Vendo apenas o efeito, e não remontando à causa, eis por que todos os obsidiados, subjugados e possessos passam por loucos. Nos manicômios sempre houve, em todos os tempos, pretensos loucos dessa natureza e que seriam facilmente curados se não nos obstinássemos a neles ver apenas uma doença orgânica.
Como, porém, a senhorita Júlia não tivesse recursos, uma família de verdadeiros e sinceros espíritas concordou em tomá-la a seu serviço, mas, na sua situação, ela deveria ser muito mais um estorvo do que uma utilidade, e era preciso um verdadeiro devotamento para cuidar dela. Mas essas pessoas foram bem recompensadas, primeiro pelo prazer de praticar uma boa ação, depois pela satisfação de haver contribuído poderosamente para a sua cura, hoje completa. Dupla cura, porque não só a senhorita Júlia se libertou, mas sua inimiga converteu-se a melhores sentimentos.
Eis o que testemunhamos numa dessas lutas terríveis, que não durou menos de duas horas, quando pudemos observar o fenômeno nos mínimos detalhes e no qual reconhecemos de imediato uma completa analogia com os dos possessos de Morzine[2].
A única diferença é que em Morzine os possessos se entregavam a atos contra os indivíduos que os contrariavam, e falavam do diabo que tinham em si, pois os haviam convencido de que era o diabo. Em Morzine a senhorita Júlia teria chamado Fredegunda de Diabo.
Num próximo artigo exporemos com detalhes as diversas fases desta cura e os meios empregados para tal fim; além disso, relataremos as notáveis instruções que os Espíritos deram a respeito, assim como as importantes observações que ensejaram, concernentes ao magnetismo.




[1] Revista Espírita – Dezembro/1863 – Allan Kardec
[2] Ver Instrução sobre os Possessos de Morzine, Revista Espírita de dezembro de 1862, janeiro, fevereiro, abril e maio de 1863.