sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

A INVEJA NUMA PERSPECTIVA ESPIRITUAL[1]


 
João Senna


O sentimento mais difícil de entender, o que causa maior perplexidade é a inveja.
O ódio, por exemplo, apesar de ser inapropriado, ao menos parece ser uma reação ao que não se gosta. Uma reação imprópria, é verdade, mas uma reação.
Mas e a inveja? Qual a vantagem real ou imaginária que poderia existir?! Em que poderia nos afetar o sucesso ou aparente sucesso de alguém cuja vida não nos diz respeito? É o que tentaremos entender ou pelo menos refletir.
O invejoso não parece ter o desejo de ter o que temos. Se assim fosse, lutaria para ter ou seria algo que fosse do seu interesse diário ou pelo menos algo simpático ao invejoso. Mas, não é isto que ocorre.
Aquele que inveja, inveja qualquer coisa. Mesmo aquelas que não gosta. Ele inveja a amizade que muitos têm, mesmo que não se importe muito com os amigos e mesmo que não conheça os amigos daquele que inveja.
O invejoso inveja que o outro tenha um carro, mesmo que ele nem saiba dirigir. Ele ficaria feliz se você perdesse o carro em um acidente ou roubo e ficará mais satisfeito quando souber que você não tem seguro. O invejoso não admira você, porque admiração é um ato normal de respeito e acolhimento ao que tem valor.
As pessoas invejam o que poderiam ser e não são. Ou invejam o que deveriam se esforçar para ser. O invejoso percebe no sucesso do outro, o fracasso de si mesmo, o que ele poderia ser e por preguiça ou outro motivo qualquer, não é. Muitos não digerem bem quando a própria realidade é exposta. A desculpa todos damos a nós mesmos e que é desfeita diante do que o outro, igual a nós mesmos, conseguiu.
É para o invejoso inadmissível ver que o outro estudou na mesma escola, com os mesmos professores, na mesma classe social e conseguiu o que ele não conseguiu. O outro passa em um concurso e ele nem sequer pensou em fazer um concurso público. Alguém tem o mesmo salário que o dele, mas não tem dívidas e ainda cuida de dois filhos. Alguém acorda sorrindo, de bom humor, e o invejoso acorda aborrecido.
O invejoso não se conforma em invejar apenas coisas específicas, ele tem uma inveja por tudo de bom que ocorre na vida do outro, sobretudo, se o outro é alguém parecido com ele. Assim é que o pobre inveja o pobre, o professor inveja outro professor, o infeliz inveja o menos infeliz.
A inveja é semelhante a um câncer da alma que dissemina metástases em todos os departamentos da vida. Para combater a inveja é preciso primeiro que aprendamos a gostar do bem, onde quer que ele esteja, de qualquer forma que se apresente. Mas, para isto é preciso sair de si mesmo para encontrar a própria vida, e isto é o contrário do egoísmo. E o tratamento para o egoísmo, onde a inveja é uma das manifestações, é o olhar de amor, a atitude fraterna e caridosa para com o outro e para consigo mesmo.




quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

NA VINHA DO SENHOR[1]


 

Instalado na casa modesta que seria, mais tarde, em Jerusalém, o primeiro santuário dos apóstolos, Simão Pedro refletia...
Recordava Jesus, em torno de quem havia sempre abençoado trabalho a fazer.
Queria ação, suspirava por tarefas a realizar e, por isso, orava com fervor.
Quanto mais ardentes se lhe derramavam as lágrimas, com as quais suplicava do céu a graça de servir, eis que o Mestre lhe surge à frente, tão compassivo e sereno como nos dias inolvidáveis em que se banhavam juntos na mesma luz das margens do Tiberíades...
‒ Senhor! – implorou Simão – aspiro a estender-te as bênçãos gloriosas!... Deixei o lago para seguir-te! Disseste que nos farias pescadores de almas!... Quero testemunhar a divina missão do teu Evangelho de amor e luz!...
E porque o celeste visitante estivesse a fitá-lo em silêncio, Pedro acrescentou com a voz encharcada de pranto:
‒ Quando enviarás teu serviço às nossas mãos?
Entreabriram-se de manso os lábios divinos e o apóstolo escutou, enquanto Jesus se fazia novamente invisível:
‒ Amanhã... amanhã...
O antigo pescador, mais encorajado, esperou o dia seguinte.
Aguardando o mandato do Eterno Benfeitor, devotou-se à limpeza doméstica, desde o nascer do sol, enfeitando a sala singela com rosas orvalhadas do amanhecer.
Enlevado em doce expectativa, justamente quando se dispunha à refeição matutina, ensurdecedora algazarra atinge-lhe os ouvidos.
A porta singela, sob murros violentos, deixa passar um homem seminu, de angustiada expressão, enquanto lá fora bramem soldados e populares, sitiando o reduto.
O recém-chegado contempla Simão e roga-lhe socorro.
Tem lágrimas nos olhos e o coração lhe bate descompassado no peito.
O anfitrião reconhece-o.
É Joachaz, o malfeitor.
De longo tempo, vem sendo procurado pelos agentes da ordem.
Exasperado, Pedro responde, firme:
‒ Socorrer-te por quê? Não passas de ladrão contumaz...
E, de ouvidos moucos à rogativa, convoca os varapaus, entregando o infeliz, que, de imediato, foi posto a ferros, a caminho do cárcere.
Satisfeito consigo mesmo, o apóstolo colocava a esperança na obra que seria concedido fazer, quando, logo após, perfumada liteira lhe entregou à presença triste mulher de faces maceradas a contrastarem com a seda custosa em que buscava luzir.
Pedro identificou-a. Era Júlia, linda grego-romana que em Jerusalém se fazia estranha flor de prazer.
Estava doente, cansada. Implorava remédio e roteiro espiritual.
O dono da casa, porém, gritou resoluto:
‒ Aqui, não! O teu lugar é na praça pública, onde todos te possam lançar em rosto o desprezo e a ironia...
A infortunada criatura afastou-se, enxugando os olhos, e Pedro, contente de si próprio, continuou esperando a missão do dia.
Algo aflito, ao entardecer, notou que alguém batia, insistente, à porta.
Abriu, pressuroso, caindo-lhe aos pés o corpo inchado de Jarim, o bêbado sistemático, semiconsciente, pedia refúgio contra a malta de jovens cruéis que o apedrejavam.
Pedro não vacilou.
‒ Borracho! Infame! – vociferou, revoltado – não ofendas o recinto do Mestre com o teu vômito!...
E, quase a pontapés, expulsou-o sem piedade.
Caiu a noite imensa sobre a cidade em extrema secura.
Desapontado, ao repetir as últimas preces, Simão meditava diante de tocha bruxuleante, quando o Mestre querido se destacou da névoa...
‒ Ah! Senhor! – clamou Pedro, chorando – aguardei todo o dia, sem que me enviasses a prometida tarefa!...
‒ Como não? – disse o Mestre, em tom de amargura. – Por três vezes roguei-te hoje cooperação sem que me ouvisses...
E ante a memória do companheiro que recordava e compreendia tardiamente, Jesus continuou:
‒ De manhã, enviei-te Joachaz, desventurado irmão nosso mergulhado no crime, que o ajudasses a renovar a própria existência, mas devolveste-o à prisão... Depois do meio-dia, entreguei-te Júnia, pobre irmã dementada e doente, para que a medicasses e esclarecesses, em meu nome: contudo, condenaste-a ao vilipêndio e ao sarcasmo... À noitinha, mandei-te Jarim, desditoso companheiro que o vício ensandece; no entanto, arremeteste contra ele os próprios pés...
‒ Senhor! – soluçou o apóstolo – grande é a minha ignorância e eu não sabia... Compadece-te de mim e ajuda-me com a tua orientação!...
Jesus afagou-lhe a cabeça trêmula e falou, generoso:
‒ Pedro, quando quiseres ouvir-me, lembra-te de que o Evangelho tem a minha palavra...
Simão estendeu-lhe os braços, desejando retê-lo junto do coração, mas o Cristo Sublime como que se ocultava na sombra, escapando-lhe à afetuosa carícia...
Foi então que o ex-pescador de Cafarnaum, cambaleando, buscou os apontamentos que trazia consigo e, abrindo-os ao acaso, encontrou o Versículo 12, do Capítulo 9 das anotações de Mateus, em que o Mestre da Vida assevera, convincente:
‒ “Os sãos não precisam de médico, mas sim os doentes”.




[1] Contos desta e doutra vida – Irmão X / Francisco C. Xavier

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

REENCARNAÇÃO E CIÊNCIA[1]


 

Adenáuer Marcos Ferraz de Novaes
 

Presente nas mais diversas culturas, a reencarnação desafia o tempo, permanecendo viva na mente e nas crenças do ser humano. Desde a mais remota antiguidade até os nossos dias, ela vem sendo a forma mais completa de explicar os diversos e complexos fenômenos da experiência humana. Sua credibilidade vem de evidências experimentais, de provas sob rigoroso controle científico. A reencarnação é hoje um fato cientificamente provado. Com fortes evidências sob o ponto de vista da ciência, já alcançou a atenção dos institutos de pesquisas das universidades. Não é difícil demonstrar, através de provas científicas, que a Reencarnação é uma lei universal e que a evolução humana se processa através dela. Reencarnar é o retorno a um novo corpo, através de um novo nascimento, via fecundação, da personalidade individualizada do ser humano. Retornar significa voltar com a mesma individualidade anterior. Apesar de mudar-se de nome não se passa a ser outra pessoa. A personalidade anterior se modifica a partir do nascimento, com um novo ambiente, porém o espírito é o mesmo. Encontramos como sinônimo de reencarnação o termo palingênese, que significa nascer de novo e o termo metempsicose, de origem grega, cujo significado aproxima-se do de reencarnação, porém, ao contrário do conceito espírita, que só admite o retorno a um corpo humano, aceita também o regredir às formas animais. Os mais antigos livros onde encontramos a doutrina da reencarnação são os Vedas, de cuja matriz surgiram grande parte das religiões e sistemas filosóficos da Índia, e que contêm hinos sagrados cuja origem remonta há muitos anos antes de Cristo. No Egito, as dinastias mais antigas acreditavam na preexistência da alma, antes do seu nascimento, assim como na sua pós-existência depois da morte, e nos muitos nascimentos da alma neste e em outros mundos.
Religiões significativas da Pérsia, principalmente o Zoroastrismo, na sua forma genérica popular e dinâmica, seguiam doutrinas contendo a reencarnação, sendo que no Zoroastrismo (século VII a. C.) há a concepção de uma espécie de justiça cósmica de que as almas recebiam os seus prêmios ou castigos merecidos nas vidas futuras. Há registros de que da Pérsia a crença da reencarnação foi levada à Grécia.
A religião ortodoxa Islâmica não aceita nenhuma doutrina de reencarnação. Apesar disso, algumas escolas esotéricas dentro do Islamismo – tais como os Sufis e os Drusos, defendem fortemente a reencarnação. Alguns místicos islâmicos e poetas sufis como Rumi, Hafiz e outros, defendiam abertamente a reencarnação.
De acordo com Flavius Josephus, o primeiro historiador judeu do século I d. C., as três escolas antigas de pensamento e prática da religião judaica – os Saduceus, os Fariseus e os Essênios – diferenciavam-se acerca do destino da alma após a morte do corpo. Os Saduceus defendiam que a alma morre juntamente com o corpo. Os Fariseus mantiveram a imortalidade da alma, o renascimento das almas das pessoas boas noutros corpos e o castigo eterno das almas dos mais fracos. Os Essênios aceitavam a imortalidade e rejeitavam a reencarnação. O Velho Testamento contém passagens (Provérbios 8:22-31; Jeremias 1:4-5 nos quais o autor professa que teriam existido anteriormente ao nascimento físico, com destaque para Malachias (4:2-6) que previu o retorno de Elias à Terra).
No Alasca, entre os índios da tribo Tlingits, é crença geral que os mesmos sinais e cicatrizes podem reaparecer no corpo do renascido. Entre os Esquimós, há inúmeros casos de pessoas que se recordam de suas vidas pregressas. Diversas tribos americanas, dentre elas os Peles-Vermelhas, aceitam a reencarnação. Os Winnibagos creem na reencarnação. Crença idêntica existe entre os índios Chippeway. Eles estão certos de que, em seus sonhos, podem reviver acontecimentos de encarnações passadas.
A principal corrente do Cristianismo ortodoxo, o Catolicismo, nunca acolheu abertamente a doutrina da reencarnação nas suas crenças, enquanto pensadores importantes e seitas dinâmicas abraçaram uma ou outra versão da doutrina dos renascimentos terrestres. Um conselho Ecumênico importante (o 2º de Constantinopla, em 553 d. C.), de acordo com a crença comum anatematizou todas as concepções da preexistência da alma e do renascimento, que faziam parte das teses de Orígenes (185 – 254 d. C.), excomungado em 232 d. C. por adotar a reencarnação. Um dos expoentes máximos da Igreja, Clemente de Alexandria (preceptor de Orígenes) aceitava a reencarnação e, ainda mais, afirmava que São Paulo também professava tal crença.
Nos Diálogos de Platão - Fédon, Banquete e República a reencarnação é apresentada como um dos ensinos de Sócrates. Em República, livro X, p. 614 à 620, há o episódio de Er, filho de Armênio, originário da Panfília, que, após 12 dias de morte aparente, recupera-se e conta o que viu no mundo dos mortos. Relatou como se dá o retorno das almas para o renascimento. Anteriormente a Sócrates, pelo menos Pitágoras, Heráclito e Empédocles expressaram explicitamente ideias de reencarnação. Em Fedro, Platão atribuiu a Sócrates a doutrina da existência da alma antes de entrar neste mundo, assim como a sua sobrevivência. A despeito da Filosofia e em pleno século XX, as investigações sobre o tema tomaram novo impulso. Na França, com Albert Des Rochas, na Índia com Hamendras Nat Banerjee, nos Estados Unidos, com Ian Stevenson. Cada um à sua época desenvolvendo diferentes métodos de pesquisas, a partir de fatos concretos, trouxeram nova luz a respeito da reencarnação, principalmente introduzindo-a como objeto de investigação científica. As pesquisas em torno da reencarnação verificam-se em vários campos; dentre eles tem-se a Regressão de Memória e as Lembranças Espontâneas na Infância. Entre os estudiosos de regressão de memória destaca-se Albert De Rochas, Edith Fiore, Denis Kelsey, Morris Netherton, Helen Wambach e Hermínio Miranda. Todos eles desenvolveram experiências em torno da regressão de memória com resultados surpreendentes, que extrapolaram os espaços científicos, penetrando nos consultórios de psicólogos como técnica terapêutica.
Nas pesquisas de Lembranças Espontâneas na Infância, destacam-se os trabalhos de Ian Stevenson, H. N. Banerjee e Hernani G. Andrade. São pesquisas de grande credibilidade pelas características da espontaneidade e da insuspeição em se tratando de crianças. Há milhares de casos catalogados com a confirmação das informações sobre vidas passadas que não se resumem a vagas memórias, mas, sim, a dados precisos, com nomes, datas, locais e detalhes importantes. Em tais pesquisas verificou-se que, o intervalo de tempo entre uma e outra encarnação pode variar de dias a séculos.
A necessidade de se estabelecer um princípio diretor, justo e equânime para justificar a sociedade e suas complexas relações, coloca a reencarnação como o mecanismo capaz de exercer a justiça divina e de possibilitar o crescimento da sociedade. Nada poderia justificar as contingências do existir com a precisão com que a reencarnação o faz. As dificuldades e conflitos humanos passam pela necessidade de uma justificativa filosófica e até mesmo do ponto de vista do equilíbrio energético. A reencarnação é a chave para desvendar os mistérios provocados pelo vazio do conhecimento parcial que o homem tem sobre si mesmo.
Nem sempre a justiça que se processa pela via da reencarnação, dá-se imediatamente na encarnação seguinte do espírito. Os mecanismos educativos podem ocorrer na mesma existência, sem a necessidade da reencarnação, como também podem se dar após várias encarnações. O tempo que leva para que o processo educativo se instale, dependerá da ocorrência de fatores que propiciem o aprendizado do espírito. Às vezes, há a necessidade de se reunir pessoas várias num processo único, o que poderá levar séculos ou milênios. Deve-se salientar que ninguém, nenhum ser humano, estará isento do processo de educação. A reencarnação é mecanismo obrigatório no nível de evolução em que se encontra a humanidade terrestre. Ninguém está isento dela. Não há privilégios nem privilegiados.
Reencarnar sem a lembrança do passado é o mecanismo que possibilita a convivência de contrários e daqueles que elevaram a paixão ao seu grau máximo. Sem o esquecimento das experiências anteriores não é profícua a reencarnação. Reencarna-se para aprender, para educar-se.
Para crescer a partir de novos elementos, de uma nova oportunidade, num novo ambiente, onde se possa construir ou reconstruir seu próprio crescimento. Tal esquecimento não significa a perda do conhecimento adquirido nas existências anteriores. O espírito não involui. Não se perde o que já se sabe. Esquece-se temporariamente o que não é relevante para o crescimento do espírito. As qualidades, os defeitos, as emoções, os amores, os ódios, ficam latentes e participam, de forma subjacente nas relações do reencarnado, atuando de forma inconsciente.
Muitos espíritos que estiveram juntos em encarnações anteriores se separam para se reencontrarem mais adiante.
Alguns desafetos quando se veem se “lembram” do passado. Pode ocorrer que a inimizade retorne. Como também os afetos quando se reencontram refazem a mesma ligação que tiveram no passado. O espírito “enxerga” o outro espírito, independente do corpo que tem e do grau de parentesco que possuem. Alguns espíritos não reencarnam na mesma época que seus afetos e ficam a velar por eles para que obtenham sucesso naquela encarnação. Ao libertar-se do corpo, seja durante o sono ou com a morte, o espírito vai aos poucos retomando sua memória integral.
O retorno através da reencarnação se dá para o crescimento do espírito. É um processo educativo, e não punitivo. Encarado dessa forma, não há um número definido de encarnações para um espírito. Os processos não se dão de forma linear, isto é, não se passa pelo que se causou a outrem na mesma proporção. As circunstâncias a que um espírito está sujeito numa encarnação expiatória são sempre atenuadas pela Misericórdia Divina. A Lei de Causa e Efeito não é “olho por olho dente por dente”. Não se deve interpretar as doenças e outros sofrimentos senão como processos educativos. Errou-se no passado porque não se sabia como agir corretamente. Retorna-se para aprender até não mais se precisar reencarnar.
As ideias inatas, as simpatias e antipatias gratuitas, os gênios, de alguma forma parecem denunciar uma experiência anterior. O conhecimento não se produz de forma mágica. A reencarnação explica tais conhecimentos “inatos”, como oriundos de existências anteriores. Tudo então é aprendido pelo espírito. Nada lhe é “dado” de graça. Se no passado alguém adquiriu uma aptidão qualquer, ela hoje se manifestaria de alguma maneira.
Em muitos casos os reencarnantes retornam com marcas de nascença. Trazem cicatrizes denunciadoras de experiências pregressas. Marcas que, quando não são creditadas a fatores genéticos, reproduzem-se de uma a outra existência por mecanismos psíquicos. As experiências que produziram as marcas foram de tal forma intensas que gravaram o corpo físico, denunciando a existência de uma matriz comum onde ficam “guardadas” as impressões do espírito. Essa matriz é o perispírito. Da mesma forma que essas marcas, surgem fobias, traumas, que se revelam logo na primeira infância.
O conceito de reencarnação transcende ao aspecto da mera crença que está presente nas mais antigas culturas, tornando-se a base para a compreensão da razão de viver do homem. A reencarnação não foi concebida como uma teoria para explicar a realidade, mas é uma realidade que explica e suscita muitas teorias. As relações humanas estão carregadas das emoções do passado. Impulsos, estímulos, reações emotivas, atitudes diversas, não são apenas fruto da vontade e do meio ambiente, mas principalmente das experiências pregressas gravadas no psiquismo.
A personalidade integral, que sobrevive à morte, já possui experiências diversas em matéria de profissões, de línguas aprendidas, de tipos de sexo, de classe social, de condição econômica. O fato, por exemplo, de já ter experienciado viver nos dois tipos de sexo, concede ao ser humano habilidades para habitar nesse ou naquele corpo, sem que isso lhe cause qualquer problema quanto à sua relação com o sexo do corpo escolhido. Uma nova encarnação representa a construção de uma nova personalidade no novo meio em que se vai renascer. Os traumas e conflitos, dessa forma, aparecem tendo como uma das causas, talvez a principal, essa realidade interna, anterior, que contracena com a realidade externa. A solidão e as repetidas e constantes desilusões afetivas podem ser encaradas como resultantes de processos educativos, oriundos de experiências mal sucedidas no passado. O Espiritismo, com Allan Kardec, trouxe de volta a reencarnação como conhecimento fundamental de sua doutrina. Através do Espiritismo a reencarnação é analisada sob o ponto de vista sociológico e moral. A doutrina das vidas sucessivas é o alicerce da evolução. A frase “Nascer, morrer, renascer ainda, progredir sempre, tal é a lei” resume o significado da reencarnação para o Espiritismo.
 
Da obra: Conhecendo o Espiritismo - L. Neilmoris - Capítulo 6
 


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

O Passe não modifica as coisas para nós, mas pode modificar-nos a nós em relação às coisas[1]


 
Jorge Hessen


Todo o encanto dos ensinos espíritas, oriundo da fé racional considerando o potencial do magnetismo pelo passe, desaparece ante as ginásticas pedantes e caricatas de tratamentos “espirituais” ultimamente praticados em algumas instituições espíritas mal administradas.
Dos muitos disparates que já ouvi nas hostes espíritas de Brasília, um deles é que a aplicação do passe quando “concentrado” (concentrado???….!!!) e muito demorado pode causar “congestionamento fluídico” (congestionamento fluídico???…!!!) e com isso o assistido pode se sentir mal (sentir mal???…!!!). Acredite se puder!
Ora, na aplicação do passe oferecido numa casa espírita bem dirigida, os Benfeitores manipulam e espargem os fluidos exatamente na quantidade necessária para cada assistido, nem mais, nem menos. Nunca em excesso.
O passe não poderá, em tempo algum, ser aplicado com movimentos bruscos, com malabarismos manuais, estalos de dedos, cânticos estranhos e, muito menos ainda, com passistas incorporados com “aconselhamentos” para o assistido.
Por conseguinte, na aplicação do passe não se fazem necessários a gesticulação violenta, a respiração ofegante ou o bocejo contínuo, e que também não há necessidade de tocar o assistido. A transmissão do passe dispensa qualquer recurso espetacular. São ridículas as encenações preparatórias com as mãos erguidas ao alto e abertas, para suposta captação de fluidos pelo passista, mãos abertas sobre os joelhos, pelo paciente, para “melhor assimilação” fluídica, braços e pernas descruzados para não impedir a livre passagem dos fluidos, e assim por diante – só servem para achincalhar o passe, o passista e o paciente.
A transfusão sanguínea promove a renovação das forças biológicas. O passe é transfusão de energia psíquica e magnética. A diferença é que os recursos sanguíneos são extraídos de um reservatório limitado, mas os elementos psíquicos são retirados do reservatório interminável das forças espirituais.
A transfusão ocorre através do períspirito, órgão sensitivo do Espírito, que interage de forma profunda com o corpo biológico, razão pela qual as energias psíquicas, transmitidas pelo passe e recebidas inicialmente pelos “centros de força”, alcançam o corpo físico através dos “plexos”, proporcionando a renovação das células enfermiças. As energias psíquicas poderão ser espirituais, considerando o magnetismo advindo dos desencarnados que participam dos processos, e fluidos humanos, através do magnetismo animal pertencente aos passistas encarnados.
O passe é prece, concentração e doação. A oração é prodigioso banho de forças, tal a vigorosa corrente mental que atrai. Por ela, consegue o passista duas coisas importantes: primeiro, expulsar da mente os sombrios pensamentos remanescentes da atividade comum das lutas materiais diárias; segundo, sorver do plano espiritual as substâncias renovadoras a fim de conseguir operar com eficiência em favor do próximo.
Por questão de bom senso, o passe deverá sempre ser ministrado de modo silencioso, com simplicidade e naturalidade. Todo o potencial e toda a eficácia do passe genuinamente espírita dependem do espírito e da assistência espiritual do passista e não apenas do passista. Jesus utilizou o passe “impondo as mãos” sobre os enfermos, a fim de beneficiá-los. E ensinou essa prática aos seus discípulos e apóstolos, que também a empregaram largamente nos tempos apostólicos.
Vale relembrar aqui que apesar dos estranhos passistas que criam confusões ao aplicarem o passe, reconhecemos que muitos encarnados e desencarnados são beneficiados pela transfusão dos fluidos psíquicos, pois sabemos que é manifestação do amor de Deus, esse sentimento sublime que abarca a todos e os alivia.
Importa-nos lembrar, porém, um pensamento de Chico Xavier: o passe, tal como terapia, não modifica necessariamente as coisas para nós, mas pode modificar-nos a nós em relação às coisas.

 

Fonte: A Luz na Mente



segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

AMÁLIA DOMINGO SOLER[1]


 
 
Nascida a 10 de novembro de 1835, na cidade de Sevilha, Espanha, e desencarnada a 29 de abril de 1909, na cidade de Barcelona, Espanha.
Foi figura de grande destaque no seio do Espiritismo espanhol, tendo a sua fama ultrapassado mesmo as fronteiras da península ibérica, para atingir os países americanos de fala castelhana.
No Brasil ela tornou-se muito conhecida pela sua obra "As Memórias do Padre Germano", verdadeiro repositório de ensinamentos dos mais vivificantes.
Amália não nasceu num lar risonho e sua vida foi entrecortada de dores físicas e morais, entretanto, ela tudo suportou com estoicismo, pois somente os Espíritos fortes sabem vencer os obstáculos, compreendendo que as tribulações da vida terrena são imperativos da lei divina, impostos aos homens pelas suas transgressões cometidas em vidas pretéritas. As adversidades que ela deparou pelo caminho nunca constituíram entraves à sua persistente luta, no sentido de projetar os ensinamentos da Doutrina Espírita na Espanha do século passado. Através de sua luta conseguiu também elevar bem alto o conceito da mulher no campo da divulgação.
Com a idade de dez anos, começou a escrever; aos dezoito já dava à publicidade as suas poesias. No propósito de melhor poder difundir os seus escritos, transferiu-se para Madri. Na Capital espanhola trabalhou de forma tão intensa que ficou completamente cega.
Debalde procurou consolo no seio das religiões tradicionais.
Os dogmas não a satisfaziam. Os conceitos da vida no além-túmulo, apregoados por essas religiões, não preenchiam o imenso vácuo que existia em sua alma.
Um dia, porém, através do periódico "El Critério", editado pela Federação Espírita Espanhola, tomou conhecimento do Espiritismo. Dali por diante os seus escritos, que apenas expressavam amargura, passaram a constituir uma fonte de consolação.
Havia compreendido, afinal, que os sofrimentos experimentados nesta vida, são heranças de faltas cometidas em vidas pretéritas, e que, embora muitas pessoas tenham diante de si horizontes sombrios, devem-se compenetrar que Deus é pai de misericórdia e de amor, sempre pronto a conceder benesses de luz e dar sustentação às almas alquebrantadas. Passou, Amália, a compreender que o Evangelho de Jesus é, na realidade, uma fonte de água-viva que jorra para a vida eterna.
Os cognomes de "Poetisa das Violetas" e "Cantora do Espiritismo" lhe foram outorgados, pois o seu nome projetou-se de tal forma que ela se tornou, de direito e de fato, uma das mais apreciadas poetisas de seu tempo.
Animada de profunda fé em Jesus Cristo e nos benfeitores espirituais, conseguiu um dia recobrar a visão. Eis como ela relata esse importante acontecimento de sua vida. Bela manhã, estando em sua casa sentiu repentinamente doloroso e estranho fenômeno:
Pareceu-me, disse ela, que toda minha cabeça se tinha enchido de neve, tal o frio intenso que senti na mesma. Prestei atenção e acreditei ouvir esta breve palavra: LUZ... LUZ... LUZ... para a minha alma e para os meus olhos; gritei movida por inexplicável impressão LUZ necessito, meu Deus. E sem saber por que, chorei, não com amargura desconsolada, pelo contrário, aquelas lágrimas pareciam que davam vida. Sem dar conta do que fazia, encaminhei-me para um espelho, numa exclamação de júbilo e de assombro indescritível ao ver meus olhos perfeitamente abertos como há muito não os podia ver, pois que sempre os tinham com os párpados caídos, o que me impossibilitava de ver. Haveria chegado a hora da minha liberdade? Perguntei em alta voz; julgando que alguém pudesse me responder. Sim, murmurou uma voz longínqua. Louca de contentamento corri para o médico que me disse: Amália, graças a Deus, a partir de amanhã poderás trabalhar, porém, sem excessos.
Podemos afiançar que o trabalho de Amália Domingo Soler no campo da divulgação do Espiritismo, foi de relevante importância, tendo contribuído decididamente para que a Doutrina dos Espíritos passasse a desfrutar de enorme prestígio naquela nação.
Amália foi uma mulher singular. Era um exemplo vivo de firmeza, de fé e de amor, na defesa dos ideais que esposava.
Em novembro de 1878, desenvolveu ingente trabalho no sentido de rebater acusações que eram lançadas contra o Espiritismo pelo cura Manterola, na "A Gazeta de Catalunha". Nesse propósito ela escreveu uma série de cinquenta e dois artigos.
Luiz Llach, seu protetor e amigo, propôs-lhe editar uma revista que permitisse o desenvolvimento de um trabalho jornalístico.
Nessa época ela enviava colaborações para as publicações "El Critério", de Madri, e "El Buen Sentido", de Lérida.
Llach, no entanto, reclamou a sua colaboração em Barcelona, para onde ela se dirigiu carente de recursos e com a vista bastante fraca. Ali ela foi apresentada ao editor Torrents, que se prontificou a financiar uma revista dedicada à mulher espírita, sendo ela convidada a dirigi-la. Surgiu então o periódico "La Luz dei Porvenir", no dia 22 de maio de 1879, o qual teve a sua publicação suspensa após a publicação do terceiro número, por ordem das autoridades eclesiásticas, que nesse tempo exerciam o papel de policiamento das publicações religiosas. Estava-se a 5 de junho de 1879.
Essa atitude do clero católico não a intimidou e, no dia 22 de junho do mesmo ano, quando deveria aparecer o 4º número de "La Luz dei Porvenir", ela fez aparecer "O Eco da Verdade", no mesmo formato. Dessa nova publicação saíram quinzenalmente 26 números, até o dia 4 de dezembro, quando foi levantada a punição ao primeiro órgão, o qual voltou então a circular.
Em novembro de 1899 "La Luz dei Porvenir" começou a sofrer intermitencias em sua publicação, devido à grande crise que assolou a vida desse famoso periódico. Nem por isso ela esmoreceu e seus escritos eram enviados para o México, Cuba, Itália, Venezuela e Argentina, servindo de material para muitas e importantes publicações editadas naqueles países.
Até o instante de sua desencarnação, sua vida foi assolada por grandes dissabores. O decesso de Luiz Llach fez com que a responsabilidade pelo funcionamento da Sociedade “A Boa Nova”, pesasse sobre seus frágeis ombros, as convulsões políticas e sociais, que avassalavam sua pátria, incidiam sobre a débil economia com que sustentava sua querida revista. Logo em seguida desencarnou o seu grande colaborador Eudaldo Pagés y Comas — o médium das comunicações das "Memórias do Padre Germano" e do "Perdôo-te". Sentiu-se então desamparada, embora seu Espírito vibrante e amante do trabalho continuasse a manter acesa a chama do seu ideal, fazendo-o até que suas energias se esgotaram por completo, dificultando a manifestação externa de sua grande alma.
Suas produções ultrapassaram a casa de um milheiro e nisso reside a fama inigualável que ela conseguiu amealhar nos seus 73 anos de vida terrena.




[1] PERSONAGENS DO ESPIRITISMO - Antônio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy

sábado, 16 de dezembro de 2017

“Mediúnica” aberta ou fechada?[1]


 
Jorge Hessen - jorgehessen@gmail.com


Um leitor levanta um tema conveniente para elucidarmos. Descreve que frequenta várias casas com reuniões mediúnicas “abertas” (públicas). Acredita ser o modo correto. Embora com o passar dos anos tenha conhecido outras casas com as reuniões mediúnicas “fechadas” (privativas).
Em face dele ler muito e observar, analisar, colher opiniões, sobretudo, as que escrevemos para o Movimento Espírita Brasileiro, resolveu fazer a seguinte afirmativa: a quantidade de pessoas que passam a frequentar as casas espíritas após assistirem a comunicações do além “abertas” ao público é mais expressiva.
Obviamente, sob o imperium da racionalidade espírita, não podemos concordar com a afirmativa desse leitor. Embora reconhecemos que ocorrem montões de convites às pessoas recém-chegadas ao centro para assistirem e/ou frequentarem as reuniões mediúnicas, o que representa uma extraordinária leviandade. Aliás, é transformar o grupo mediúnico numa estranha sala de espetáculos de picadeiro espiritual.
As sessões mediúnicas devem merecer dos dirigentes espíritas uma maior atenção. Não se compreende, pois, que uma sessão mediúnica seja ela aberta a pessoas com pouca formação teórica do Espiritismo, ou a curiosos e ou a neófitos, contrariando as orientações dos Benfeitores. Allan Kardec abordou o tema quando respondeu aos leitores que lhe propunham abrisse ao público as sessões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, medida com a qual não concordava em absoluto[2].
Kardec sugere, além disso, grupos pequenos, em face das potências mentais heterogêneas que há nos “grupões”. Uma reunião mediúnica “aberta ao público” é uma imponderação dispensável, porque tem acesso pessoas carregadas de anseios diversificados, que irão embaraçar, invariavelmente, o exercício espontâneo da mediunidade.
Os Instrutores do além afiançam que uma reunião mediúnica é um grave trabalho, que se desenvolve na estrutura perispirítica, e se a equipe é inábil, é compreensível que muitos embaraços psíquicos sucedam por negligência da mesma. Em face disso o intercâmbio com o além não deve ser aberto ao público, porque, conforme proferimos acima, transformaria numa arena circense com feição especulativa, exibicionista, destituída de intuito elevado, costumes tais que ferem mortalmente os postulados reveladores da Doutrina Espírita.
Mesmo nas reuniões mediúnicas privativas deve-se manter um número ideal de membros, não excedente a 20 pessoas, para que se evitem essas perturbações naturais nos grupamentos massivos. É óbvio que quaisquer argumentos utilizados para defender as reuniões mediúnicas "fechadas ao público", não isentam os grupos "fechados" das influências, pensamentos, desequilíbrios e desarmonias. Contudo isso é dificuldade moral do grupo e não da especificidade privativa da mesma. 
Não podemos e nem devemos esquecer que o Espírito de Verdade nos recomenda; "Espiritas, amai-vos uns aos outros, eis o primeiro ensinamento, instrui-vos eis o segundo” [3]. Este alerta nos conscientiza do tamanho da responsabilidade que nos pesa sobre os ombros. Grupos mediúnicos sérios fazem reuniões periódicas de avaliação das atividades e assim todos os integrantes da equipe possam se afinizar e conversarem, eliminando algum conflito doutrinários que possa haver entre si.
Ademais, para que não se abra espaço para a teatralização de “psicofonias” (quase sempre anímicas – “tipo Bezerra/Divaldo”) e “psicografias” em público, lembremos que não há médiuns especiais e ninguém é melhor que ninguém, devendo todos estarem abertos ao aprendizado permanente e seu devido aperfeiçoamento. Dizem que Divaldo recebe Bezerra em público e Chico psicografava em público. Sim, é verdade, mas será que temos novos Chico’s e Divaldo’s? Excetos os imitadores!
Ah! Para concluir nossos esclarecimentos recomendamos que se algum confrade quiser frequentar uma reunião mediúnica para ouvir e instruir-se (ao vivo) as supostas “mensagens do além”, trate de estudar as Obras codificada por Allan Kardec.



[2] KARDEC. Allan. Revista Espírita, maio 1861, pág. 140, Brasília: Ed Edicel, 2002.
[3] KARDEC. Allan O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. VI, item 5, RJ: Ed. FEB, 2002.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O QUE A RAIVA FAZ CONOSCO?[1]


 

Adriana Machado
 

Pensando de cabeça fria, respondo a essa pergunta sobre a raiva com uma resposta muito simples: ela nos incomoda!
Mas, saindo de um momento de turbulência, eu descreveria que a raiva faz muito mais do que isso: ela nos devasta! Ela acaba com a nossa paz, com a nossa alegria, ela nos adoece e... Como é difícil voltar à serenidade anterior!
A raiva não é sentida à toa. Ela só aparece porque algo acontece. E esse algo, vindo de fora ou de dentro, atinge alguma coisa, no nosso mundo interior, que é muito importante para nós, mesmo que não saibamos o que tenha sido. Na maioria das vezes, ficamos com raiva sem conseguirmos identificar o que foi mexido em nós.
Mas, a raiva não é um sentimento natural nosso! Se alguém vive com raiva o tempo todo, algo está mais do que “errado”. Talvez, essa pessoa não esteja percebendo as suas emoções e age assim por acreditar que é um proceder que o ajudará a alcançar o seu objetivo (seja ele qual for). Exemplifico melhor: uma pessoa muito quieta sofre muito com as ações alheias. Então, em um determinado momento, ela reage com raiva e violentamente contra alguém e descobre nele a reação de respeito ou medo. Como ela somente conseguiu agir assim porque estava com raiva, em seu inconsciente, sempre buscará tal emoção para alcançar o seu intento. Então, por várias outras vezes, ela reagirá da mesma forma e gostando do que vê, não parará. Por um tempo, isso dará certo, mas, quando alguém começa a exagerar na raiva ou na violência, a reação natural daqueles que não se sintonizam com essas energias é se afastar. Enquanto, ela não perceber que as pessoas que valem a pena (para ela) estão se afastando, ela, possivelmente, continuará a agir no equívoco, porque foi a forma que percebeu dar certo.
A raiva se impregna em suas ações como uma doença altamente arrebatadora, ficando ali, manifestando os seus sintomas para quem quiser ver, inclusive o próprio raivoso que, no início, está cego para ela. Se ele a percebe, pode querer limitá-la ou extirpá-la, mas levará um tempo razoável para se descontaminar, porque ela fica encubada produzindo o efeito da insatisfação e da tristeza, da indignação e da impaciência. Tudo isso é devastador e viciante em nosso campo interno. Para nos descontaminarmos, para não cairmos realmente doentes em razão de a cultivarmos em nós, precisaremos da compreensão do que é viver com ela e as suas consequências.
Ainda assim, somos seres que desejamos a paz, porque a paz faz parte de nosso ser divino, mas em razão de nossa ignorância, ainda não compreendemos isso. Ainda, nos iludimos acreditando que o nosso orgulho é sábio e o usamos como conselheiro para as nossas próximas ações (pós-raiva) e aí fica tudo pior... Melhor responder a célebre frase do poeta maranhense, Ferreira Gullar: “Você quer ter razão ou ser feliz?”?  No momento do seu distúrbio, se você fizer essa pergunta para si, possivelmente, não agirá tão impulsivamente e se dará uma chance de evitar sofrimentos desnecessários. Quando entramos nestes embates, na maioria das vezes, o objeto da discussão não é tão relevante e sair vencedor não lhe trará nenhuma vantagem. Ou seja, é nada prático.
A raiva é uma consequência, uma reação, e o autor dela seremos somente nós mesmos. Sendo assim, a boa notícia é que podemos amenizá-la, podemos transmutá-la porque se fomos nós que a produzimos no nosso templo interior, somente nós, e tão somente nós, poderemos desconstrui-la. Essa é uma outra benesse da sabedoria divina atuando em nossa vida... Somos os únicos responsáveis pelo nosso bem-estar!
Raiva... Se ainda a temos, que a sintamos mais e mais levemente, abdicando do nosso orgulho e colocando como meta um resultado prático para as nossas ações: sermos felizes!