sexta-feira, 22 de setembro de 2017

'O prazer do desapego': minimalistas defendem que ter menos coisas cria mais liberdade[1]



 
Laís Modelli - De São Paulo para a BBC Brasil - 9 setembro 2017

Quanto menos bens, mais tempo, mais espaço e mais experiências, defendem os minimalistas.

O minimalismo apareceu na vida da comunicadora social Fernanda Marinho, 36 anos, para resolver um problema: em 2012, ela precisou voltar a morar com a mãe e, por questão de espaço, teve de se desfazer de muitas coisas que havia comprado ou ganhado nos dez anos em que morou fora.

"Eu precisava acomodar todos os meus objetos em um quarto bem pequeno", conta.

Com a mudança, a comunicadora percebeu que, mesmo que não fosse uma pessoa de comprar em grande quantidade, guardava muita coisa e por muito tempo.

"Eu não sabia que tinha acumulado tanto porque todas as minhas coisas ficavam espalhadas em um espaço maior, dentro de vários armários e gavetas que eu nunca via".

Foi aí que Fernanda começou a pesquisar sobre o minimalismo como estilo de vida.

"Meu maior choque foi me dar conta que não sabia as coisas que eu tinha exatamente".

Maquiagens vencidas, bijuterias que não usava mais porque tem alergia, jogos de tabuleiro faltando peças, roupas de pelo menos dez anos atrás e que não serviam mais. No "estoque", a moça encontrou coisas até que emprestou de outras pessoas há anos e nunca devolveu.

"Comecei um longo processo de avaliar cada coisa que tinha, doando e jogando fora, aos poucos, as que não tinham mais utilidade para mim. Assim estou até hoje. O minimalismo é um processo que nunca acaba", explica.

Ao perceber que, com menos coisas acumuladas à sua volta, seu dia a dia se tornava mais fácil, Fernanda foi adaptando o minimalismo que aplicava à casa para todas as áreas da vida.

"Fui percebendo que ter a liberdade de sair de um emprego que não me faça bem, por exemplo, é mais importante que ter um salário fixo para gastar com objetos e coisas", conta. "A faxina também se estendeu à minha vida digital: saí de grupos de whatsapp e não fico mais conectada o dia todo".
 

'Pessoas mais importantes que coisas'

De acordo com os escritores Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus, autores do documentário Minimalism: A Documentary About the Important Things ("Minimalismo: um documentário sobre as coisas que importam", em tradução livre), que retrata a vida de pessoas que vivem apenas com o essencial, o minimalismo é um comportamento que torna pessoas mais importantes que as coisas que elas têm.

"Com menos importância para o material, podemos abrir espaço nas nossas vidas para o que realmente importa", comenta Ryan, um ex-publicitário bem-sucedido, mas que chegou ao limite de estresse quando foi escalado para vender celulares para crianças de cinco anos.

O americano então vendeu 80% das coisas que tinha acumulado - carros de luxo, roupas de marca, um apartamento espaçoso -, demitiu-se e criou o blog The Minimalists com o amigo Joshua, ex-empresário que mudou de vida depois da morte da mãe.

Ryan explica que o minimalismo não é uma "competição" sobre quem tem menos coisas. "Ao contrário, queremos mais: mais tempo, mais espaço, mais paixão, mais experiências. Limpamos a bagunça do caminho da vida para sermos mais livres".
 

O mínimo essencial

A palavra "minimalismo" surgiu de movimentos artísticos do século 20 que seguiam como preceito o uso de poucos elementos visuais, e, aos poucos, foi migrando para o campo do social.

"Enquanto expressão comportamental da sociedade, o minimalismo é um reflexo de movimentos contra culturais anteriores, como o punk e o hippie, que questionaram a sociedade de consumo e seus excessos", explica o pesquisador em cultura e comunicação Marcelo Vinagre Mocarzel, professor da Universidade Federal Fluminense.

Diferente dos contra culturais, contudo, os minimalistas não buscam construir uma sociedade alternativa. "Os minimalistas têm buscado combater o consumismo por dentro do sistema. Isso quer dizer que eles trabalham, se vestem normalmente e até consomem".

"Em certa medida, os minimalistas se aproximam mais dos capitalistas clássicos descritos por Max Weber: capitalismo não é o problema para eles, mas sim esse capitalismo selvagem ancorado na ostentação e no desperdício", aponta.

De acordo com a escritora americana Francine Jay, autora de Menos é mais: Um guia minimalista para organizar e simplificar sua vida, livro considerado a "bíblia" do minimalismo atual, o minimalista valoriza as experiências e dá menos importância às posses materiais.

"Quando não somos dependentes das coisas ou não somos mais definidos pelo o que possuímos, nossos potenciais e possibilidades são ilimitados", afirma a escritora.

Como definição, Jay explica que o minimalismo é um estilo de vida em que se vive com menos coisas para se ter mais espaço, mais tempo livre e mais energia vital.

Assim, para os minimalistas, não há como ter estas duas coisas em abundância: "ou se tem tempo livre, ou se tem coisas sobrando", explica a escritora.

"Quase tudo o que trazemos em nossas vidas - bens materiais, ideias, hábitos - devemos estar preparados a nos afastar a qualquer momento", propõe Joshua. "Muitos podem discordar por parecer insensível, mas é exatamente o contrário: nossa preparação para se afastar é a forma mais avançada de cuidar".
 

Ter coisas versus ter tempo

Coisas sobrando - e transbordando - era como a modista Isabel Alves, 23 anos, definia sua vida até dois anos atrás.

"Eu gastava muito, principalmente com roupas e maquiagens", conta. "Nunca cheguei a formar dívidas, mas todo o dinheiro que tinha ia direto para meu consumismo".

Quando Isabel percebeu que nunca tinha dinheiro para fazer com mais frequência o que realmente gosta - viajar -, começou a repensar sua vida. A faculdade de moda também ajudou a moça a refletir sobre a maneira como gastava o seu dinheiro.

O apartamento minimalista de Isabel: 'Quando fui vendo o espaço mais limpo e fácil de cuidar, a facilidade para se vestir, o dinheiro que deixava de gastar, criei prazer no desapego'.

"Antes de entrar na faculdade, admirava esse mundo da moda, até descobrir que não só o meio ambiente, mas várias pessoas pagavam (um alto preço) por esse tipo de consumo", lembra. "Mas durante uma aula, fiquei chocada com a indústria têxtil e percebi o quanto consumia uma moda de roupas baratas, porém descartáveis".

Pesquisando maneiras de consumir de forma consciente, a modista conheceu o conceito de vida minimalista e fez uma espécie de inventário de tudo o que possuía.

Com as coisas que não queria ou que não servia mais - de livros, a roupas e até móveis - Isabel criou um brechó online em 2016. Desde então, a moça já faturou cerca de R$ 5 mil vendendo suas coisas e percebeu que poderia, e gostaria de, trabalhar com garimpo de roupas usadas.

"No começo deste ano, saí da empresa em que trabalhava por não aceitar mais o pensamento comum na indústria da moda: 'vamos incentivar as pessoas a comprar o máximo'".

Outra mudança que o minimalismo trouxe para a vida de Isabel foi uma mudança na percepção de espaço: a modista, que morava com o marido em um apartamento de 68 metros quadrados, percebeu que imóvel tinha se tornado grande demais para os dois.

"Desapegar de várias coisas não foi fácil no começo", lembra. "Mas quando fui vendo o espaço mais limpo e fácil de cuidar, a facilidade para se vestir, o dinheiro que deixava de gastar, criei prazer no desapego".

Com espaço sobrando, o casal decidiu dar mais um passo rumo ao minimalismo: se mudaram para um apartamento de 42 metros quadrados. O guarda-roupa de Isabel hoje se resume a 30 peças de roupa e cinco pares de sapatos.

"Temos uma vida bem simples, mas isto nos permite trabalhar com o que gostamos e de casa e gastar dinheiro com o que nos faz feliz".

Assim como Isabel, Fernanda também avalia que o maior aprendizado que o minimalismo trouxe para sua vida foi perceber que mais importante que ganhar muito, é aprender a viver com pouco.

"Com gastos baixos, consigo guardar dinheiro e não fico escrava de um salário", explica. "Ter tempo livre para praticar meus hobbies, encontrar meus amigos e família e até descansar é fundamental para mim dede então", comenta Fernanda.
 

Mais antigo que Cristo

Joshua explica que as atuais ideias que guiam comportamentos minimalistas são, na realidade, muito antigas.

"Se considerarmos a Revolução Industrial e a sociedade de consumo formada por ela, o minimalismo pode parecer novo. Mas conceito de reduzir acessos, em si, remonta aos estoicos e ao princípio das religiões", explica Joshua.

O Estoicismo foi uma escola filosófica da Grécia Antiga, surgida no século 4º a.C., que definia a felicidade como objetivo central da vida, sendo a felicidade um conceito relacionado a uma vida simples e em harmonia com a natureza.

De acordo com os estoicos, o sábio é, por definição, feliz. Por isso, segundo Joshua, a felicidade na vida é algo tão importante para os minimalistas.

Mas desde a sua concepção - o minimalismo seria mais antigo que a ideia de Jesus Cristo, portanto - o conceito de uma vida minimalista tem sido adaptado para a realidade social e econômica de cada época.

"Acumulamos tantas coisas em imóveis cada vez mais caros e menores; temos tantas roupas e só usamos as mesmas; armazenamos tanta comida, e grande parte vai para o lixo. Isso mostra como a sociedade de consumo criou gargalos que precisam ser resolvidos".

Os minimalistas estão preocupados com esses gargalos, mas dizem que o minimalismo não se resume apenas a redução de consumo.

"Há diversos motivos que levam a reduzir o consumo. Um deles é a falta de dinheiro, tão comum em tempos de crise", aponta Mocarzel, explicando que, nesses casos, o consumo pode voltar a subir quando os tempos de crise melhoram, pois não há um motivador social por trás da mudança de comportamento, somente um motivador econômico.

"O minimalismo alia alguns preceitos na redução, como a sustentabilidade, a questão da saúde (viver com o mínimo para fugir das doenças alimentadas pelo excesso - ansiedade, pânico, distúrbios alimentares etc.) e até um certo aspecto espiritual".

Para o pesquisador, independente da motivação, "a ideia do menos é mais nunca foi tão necessária", defende.

Joshua e Ryan citam o filme O Clube da Luta como um exemplo de onde encontrar uma boa referência minimalista. "Não é um filme sobre luta, é uma narrativa sobre vida, sobre como livrar-se das influências corporativas e culturais que controlam nossas vidas", argumenta Ryan.

Ele lembra as falas do personagem Tyler Durden (interpretado por Brad Pitt) como as ideias minimalistas centrais da sociedade do século 21: "Somente quando perdemos tudo é que estamos livres para fazermos qualquer coisa" e "as coisas que você possui acabam por possuí-lo".




quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Amor e espiritualidade[1]


Madre Teresa de Calcutá (à esquerda), ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 1979, visita
Salvador e se encontra com Irmã Dulce — 15/07/1979

Joanna de Ângelis

 
Amor e espiritualidade são termos da mesma equação da vida, convidando a criatura à busca de Deus.
Pode-se medir o grau de espiritualidade de um indivíduo pela sua capacidade de amar.
Quando o seu é um desprendimento que o leva a pensar antes no seu próximo do que em si mesmo, estabelecendo diretrizes de felicidade que cumpre com devotamento, distante dos tormentos do egoísmo e das paixões dissolventes, já é capaz de amar em plenitude. Isso não o impede de agir com prudência, mantendo-se em equilíbrio diante das circunstâncias e dos acontecimentos que envolvem o seu sentimento de doação.
Ao mesmo tempo, proporciona-lhe uma visão realista em torno dos seus deveres de cidadania e de autoburilamento, por entender que a proposta de ascensão espiritual é destituída de qualquer limite.
Igualmente descobre as imperfeições morais que ainda lhe tisnam o caráter, gerando-lhe embaraços que lhe dificultam mais rápida vitória sobre os empeços da marcha.
Não luta, porém, contra esses fatores de perturbação, assumindo antes uma postura de compreensão dos limites que lhe assinalam o ser, buscando amar também a esses atavismos que procedem das experiências pretéritas e que não foram ainda eliminados.
Sempre que acossado por desejos inquietadores, não se rebela, devendo procurar substituí-los por sentimentos opostos, aqueles que edificam e asserenam.
Cônscio do que pode realizar em benefício próprio, sem qualquer prejuízo para as demais pessoas, investe na luta de renovação constante, sem traumas nem ansiedades, insistindo sempre na conquista de mais amplos horizontes emocionais que o afastem das províncias de sombra e de dor por onde deambulou.
Esse esforço pessoal auxilia-o a entender os limites em que as pessoas se debatem, sem possibilidades de autossuperar-se de um para outro momento. A paciência, diante das imperfeições alheias, dá-lhe resistência para suportá-las quando se lhe apresentam em forma de hostilidade, de perseguição, de inveja, de competitividade malsã.
O amor instala-se no sentimento humano, quando se lhe abrem as portas para a entrada, evitando-se os obstáculos torpes dos interesses pessoais e das lutas de dominação, que tipificam a agressividade latente e o egoísmo doentio.
Não tendo fronteiras que o limitem ou o impeçam de avançar sempre, é atuante e compassivo, sempre disposto a servir e a enriquecer as vidas que se lhe acercam e passam a necessitar do seu hálito vital.
Em consequência, o amor não tem passado, reservando-se um intérmino presente, que se manifesta em tempo que já passou e em oportunidade que virá.
Nunca se permite ser discutido, pois que o excesso de palavras entorpece-o, enquanto que a ausência total delas, desvitaliza-o.
Não se assoberba, porque conhece o campo em que moureja, lúcido e jovial, abrindo os braços à solidariedade, passo inicial para alcançar a culminância na caridade e no perdão total.
A vigência do amor no mundo independe de ideologias de natureza política, religiosa, cultural, social. Medra em todos os segmentos em que se movimentam as criaturas humanas, sendo, naturalmente, mais emulado quando um ideal arrebatador domina a mente e o coração do indivíduo. Não obstante, independe de grupo ou de clã, porquanto, se assim não o fora, expressar-se-ia com o sentido de retribuição na facção de qualquer natureza onde se instala.
Por isso mesmo, não dissente em relação àqueles que lhe não compartem o pensamento nem o comportamento, estando atento a essa sutileza, a fim de poder ser totalmente livre, ganhando espaço e intemporal idade, com que avança no rumo da imortalidade, que é sua meta esplendorosa.
O amor é o instrumento para que a sociedade se encontre em patamar avançado de natureza moral, especialmente quando ultrapassa os níveis primários onde tem início o seu processo de fixação.
Sem dúvida, portanto, cada um expressa o amor de conformidade com o estágio de desenvolvimento espiritual em que se encontra.
Eis por que, variante e complexo, encontra-se em toda parte no Universo, particularmente na vida terrena, enlaçando todos os indivíduos no mesmo elã de alegria de viver e de cooperar em benefício geral.
A conquista da espiritualidade é assinalada pelos inúmeros passos do amor.
No primitivismo, em que a defesa do grupo é essencial para a sobrevivência, passando pelos graves combates de destruição, surgem os passos em favor do intercâmbio social, econômico, moral, desenvolvendo-se como método de crescimento tribal para tornar-se uma sociedade mais conforme a fraternidade, na qual o direito substitui a força, superando os impulsos asselvajados para transformar-se em emoções compensadoras.
Dessa forma, à medida que vão ficando na retaguarda do processo de desdobramento ético, mais aprimoradas fazem-se as formas de expressar-se, aproximando o Espírito sedento de plenitude da Fonte Inexaurível de onde procede.
Quando ainda atado ao primarismo, apresenta-se como dedicação e posse, carinho e dominação, bondade e jogo de interesses, devotamento e retribuição, entrega e zelo excessivo.
Possuidor de mil faces, apresenta-se conforme o período moral que tipifica a criatura, que se sente invadida pela sua força, e nem sempre sabe decodificar-lhe a excelência, obrigando-a a submeter-se-lhe quando assume a postura exigente, muitas vezes perversa, em que se compraz.
Inegavelmente estrutura-se nos próprios enganos e caprichos, aprendendo a libertar-se de qualquer constrição, para então espraiar-se sobranceiro e gentil, nada solicitando, nada aguardando, nada impondo.
O amor é humilde, porque reconhece a energia de que se constitui, no entanto, não se permite vangloriar pelo poder de que dispõe, preferindo vencer as resistências suavemente e fixar-se imperceptivelmente, terminando por dominar o ser.
Amor, portanto, e espiritualidade, são termos da mesma equação da vida, convidando a criatura à busca de Deus.
Não deve, porém, o amor ser buscado com aflição, embora a espiritualidade seja desafiadora e necessite ser trabalhada com intensidade.
Quando se corre atrás do amor com ansiedade e sofreguidão, ele provavelmente não será encontrado, porque sempre será encontrado pacientemente aguardando...
Cada passo que dês em direção à autoespiritualização, mais próximo sentirás o amor, que te impulsionará a conquistá-la, não te permitindo deter no que já conseguiste, antes acenando-te com novos desafios evolutivos.
Renunciarás então aos dispositivos egoísticos para cresceres com o grupo social no qual te encontras, enquanto irradiarás as energias da vida em todas as direções, consciente de que a tua será a decorrência da felicidade daqueles que seguem contigo pelo mesmo caminho, e que aguardam a tua cooperação, a fim de superarem os impedimentos que os aturdem.
Na raiz da espiritualidade do ser encontra-se o amor, e no sublime oceano do amor desenvolvem-se os compreensíveis impositivos da espiritualização que liberta e sublima.

[1] Garimpo de Amor - Joanna de Angelis Divaldo Franco

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Pesquisa científica avalia veracidade das cartas de Chico Xavier[1]


 
Élcio Braga


RIO — O domingo de 3 de fevereiro de 1974 prometia muitas alegrias para o estudante de Engenharia Jair Presente. Ele havia saído de casa, onde morava com os pais e a irmã, para um animado fim de semana com os amigos. Mas, o passeio terminaria em tragédia: Jair morreria afogado na Praia Azul, em Americana, a 37 quilômetros de Campinas. A história do rapaz, porém, não acabaria ali. Ele teria escrito 13 cartas após a morte, reproduzidas em psicografias do médium Chico Xavier. Quarenta anos depois, uma pesquisa científica[2] investigou o conteúdo das mensagens e comprovou a autenticidade das informações. [assista o vídeo em:  https://www.youtube.com/watch?v=UQgEn9Asa8Q ]
O resultado do trabalho foi publicado pela revista científica “Explore”, da Editora Elservier, sediada em Amsterdã, na Holanda.
– Estas cartas produzem informações verificáveis. Não são informações genéricas. Trazem nomes de pessoas, situações que aconteceram, e estas informações eram, de modo geral, verídicas – observa o psiquiatra Alexander Moreira-Almeida, o diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde (Nupes), da Universidade Federal de Juiz de Fora, o orientador da pesquisa.
O estudo das cartas atribuídas a Jair Presente é o primeiro de uma série realizada pelos pesquisadores Alexandre Caroli Rocha e Denise Paraná, resultado do trabalho de pós-doutorado, parceria entre a Universidade Federal de São Paulo (USP) e a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
– A grande discussão que existe no meio acadêmico é se estas cartas, efetivamente, proporcionam evidências, informações verídicas, sobre a pessoa falecida, e se o médium não teria tido acesso por meios normais. Esta é a grande pergunta – atesta Almeida, também coordenador das seções de Espiritualidade e Psiquiatria da Associação Mundial de Psiquiatria.
O médium Chico Xavier, que morreu em 2002, chegou a ser acusado de infiltrar seguidores entre o público durante as seções espíritas, justamente para conseguir informações essenciais e inseri-las nas cartas. A acusação sempre foi refutada por admiradores do médium.
– A grande limitação do estudo – reconhece Almeida – é que estamos analisando fatos que aconteceram 20, 30 anos atrás. É difícil ter certeza do grau de informações passadas para Chico Xavier.
A metodologia da pesquisa incluiu entrevistas em profundidade com familiares e pessoas que tiveram acesso aos fatos, além da checagem de recortes de jornal e de outros documentos.
– Houve casos, por exemplo, nos quais nem as pessoas que foram obter a carta com Chico Xavier tinham aquela informação que estava na mensagem, observa Almeida. Apenas posteriormente foi feita uma investigação pelos próprios familiares para descobrir que aquelas informações eram também verídicas.
A pesquisa, porém, não é a comprovação de que as cartas foram mesmo escritas por alguém já morto, mas que as informações ali contidas são verdadeiras. Os pesquisadores se preparam para concluir as avaliações de conjuntos de mensagens de mais três casos psicografados por Chico Xavier. O médium passou pelo primeiro teste.




[2] Pesquisa realizada pelo NUPES (Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde da Universidade Federal de Juíz de Fora –MG.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Doutrina da Reencarnação Entre os Hindus[1]

(Nota comunicada à Sociedade pelo Sr. Tug...)


Geralmente se pensa que os hindus só admitem a reencarnação como expiação. Segundo eles, a reencarnação só se daria em corpos animais. No entanto, as linhas que se seguem, extraídas da viagem da Sra. Ida Pfeiffer, parecem provar que a tal respeito os indianos têm ideias mais sadias.
Diz a Sra. Pfeiffer: Em geral as meninas ficam noivas com um ano de idade. Se o noivo vem a morrer, ela é considerada viúva, ficando impedida de casar-se. A viuvez é reputada como uma grande infelicidade. Pensam eles que isso se deve à posição das mulheres cuja conduta não foi irrepreensível numa vida anterior.
Malgrado a importância que não se pode recusar a estas últimas palavras, forçoso é reconhecer que entre a metempsicose dos hindus e a doutrina admitida pela Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas há uma diferença capital. Citemos aqui o que diz Zimmermann sobre a religião hindu, no “Diário de viagem”. (Taschenbuch der Reisen)
O fundo dessa religião é a crença num ser primeiro e supremo, na imortalidade da alma e na recompensa à virtude. O verdadeiro e único Deus se chama Brahm, o qual não deve ser confundido com Brahma, criado por ele. É a verdadeira luz, que é a mesma, eterna, bem-aventurada em todos os tempos e lugares.
Da essência imortal de Brahm emanou a deusa Bhavani, isto é, a Natureza, e uma legião de 1.180 milhões de Espíritos. Entre esses Espíritos há três semideuses ou gênios superiores: Brahma, Vishnu e Shiva, a trindade dos hindus. Durante muito tempo a concórdia e a felicidade reinaram entre os Espíritos. Mais tarde, porém, eclodiu uma revolta entre eles e vários se recusaram a obedecer. Os rebeldes foram precipitados do alto dos céus no abismo das trevas.
Deu-se, então, a metempsicose: cada planta, cada ser foi animado por um anjo decaído. Esta crença explica a bondade dos hindus para com os animais: consideram-nos como seus semelhantes e não querem matar nenhum.
Somos induzidos a crer que não foi senão a ação do tempo que levou tudo quanto existe de bizarro nessa religião, mal compreendida e falseada na boca do povo, a descer à posição de insana charlatanice. Basta indicar os atributos de algumas de suas principais divindades para explicar o estado atual de sua religião.
Eles admitem 333 milhões de divindades inferiores: são as deusas dos elementos, dos fenômenos da Natureza, das artes, das doenças etc.. Além disso, há os bons e os maus gênios: o número dos bons ultrapassa o dos maus em três milhões.
O que é extremamente notável – acrescenta Zimmermann – é que não se encontra, entre os hindus, uma única imagem do Ser Supremo: parece-lhes demasiado grande. Dizem que toda a Terra é o seu templo e o adoram sob todas as formas.
Assim, conforme os hindus, as almas tinham sido criadas felizes e perfeitas e sua decadência resultou de uma rebelião; sua encarnação no corpo de animais é uma punição. Conforme a Doutrina Espírita, as almas foram e ainda são criadas simples e ignorantes; é pelas encarnações sucessivas que chegam, graças a seus esforços e à misericórdia divina, à perfeição que lhes proporcionará a felicidade eterna. Devendo progredir, a alma pode permanecer estacionária durante um período mais ou menos longo, mas não retrograda. O que adquiriu em conhecimento e em moralidade não se perde. Se não avança, também não recua: eis por que não pode voltar a animar os seres inferiores à Humanidade.
Desse modo, a metempsicose dos hindus está fundada sobre o princípio da degradação das almas. A reencarnação, segundo os Espíritos, está fundada no princípio da progressão contínua.
Segundo os hindus, a alma começou pela perfeição para chegar à abjeção; a perfeição é o começo e a abjeção, o resultado. Conforme os Espíritos, a ignorância é o começo; a perfeição, o objetivo e o resultado. Seria supérfluo procurar demonstrar qual dessas duas doutrinas é mais racional e dá uma ideia mais elevada da justiça e da bondade de Deus. É, pois, por completa ignorância de seus princípios que algumas pessoas as confundem.
Tug...




[1] Revista Espírita – Dezembro/1859 – Allan Kardec

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

PROF. ROMEU DE CAMPOS VERGAL[1]


 

 
Nascido em Serra Negra, Estado de São Paulo, no dia 2 de maio de 1903 e desencarnado na mesma cidade, no dia 23 de julho de 1980.
Era filho do Coronel Constantino Vergai e de D. Amélia Ferraz de Campos Vergal. Fez o seu curso primário na cidade onde nasceu e, em seguida, transferiu-se para São Paulo, onde completou o seu aprimoramento, fazendo os cursos secundário, de admissão ao magistério e de jornalismo, tornando-se lídimo profissional dessas duas últimas categorias. Tornou-se ainda Escrevente juramentado de Cartório, tendo exercido essa atividade até a data da sua aposentadoria.
Firmou-se como figura respeitável e bastante acatada nos círculos políticos e nas altas rodas sociais. Soube contribuir com a sua inteligência e seu esforço em favor das causas populares.
Homem de elevado aculturamento e dotado de apreciável grau de humildade, jamais deixou que as glórias do mundo ofuscassem o seu desvelado amor pelos pequeninos e desajustados da Terra.
Foi Deputado Estadual, de 1935 a 1937, na Assembleia Legislativa do Estado de S. Paulo. Deputado Federal em várias legislaturas, no período de 1946 a 1970, tendo iniciado persistente trabalho com vistas às reformas sociais que se tornavam imprescindíveis na época. Pertenceu inicialmente ao quadro do extinto Partido Socialista, porém, posteriormente ingressou no Partido Social Progressista. Como representante desse Partido, exerceu a liderança na Câmara dos Deputados, no período de 1946 a 1950.
Foi o autor do conhecido Projeto Campos Vergai, que preconizava a instituição da Cadeira de Parapsicologia nas Universidades, com o objetivo de propiciar o estudo dos fenômenos extra-sensoriais. Campos Vergai era portador de elevado número de títulos honoríficos e comendas. Foi membro honorário e era portador de diploma de mérito da Academia de Letras do Distrito Federal (Rio de Janeiro), Presidente do Banco Agroindustrial de São Paulo, Patrono dos Tesoureiros e Auxiliares de Tesoureiros da Delegacia Fiscal do Tesouro Nacional, de S. Paulo. Foi um político na verdadeira acepção da palavra, mantendo-se sempre dentro da mais estrita linha de honestidade e de probidade.
Ainda bastante jovem ingressou no Espiritismo, tomando parte saliente, no ano de 1936, na fundação da União da Mocidade Espírita de S. Paulo. No campo da imprensa espírita fez a sua estreia, no ano de 1937, no tradicional órgão "A Aliança", de S. Paulo, dirigido pelo Prof. Sebastião Maggi da Fonseca.
Militou nos quadros diretivos da União Federativa Espírita Paulista, tornando-se, em 1941, o Diretor-Presidente da Sociedade Rádio Piratininga, PRH-3, a qual lançava ao ar diariamente o "Programa Radiofônico Espírita Evangélico do Brasil".
Tanto na União Federativa como na extinta Rádio Piratininga, desenvolveu incessante campanha em prol da divulgação da Doutrina dos Espíritos, atuando ao lado de grandes vultos espíritas do passado, dentre eles Pedro de Camargo (Vinícius), Benedito Godoy Paiva, Antenor Ramos, Caetano Mero e outros.
De sua bibliografia destacamos: "Reencarnação ou Pluralidade das Existências", "Levanta-te e Caminha" e "Bandeirantes da Imortalidade", obras essas de cunho espírita, entretanto, foi também autor dos livros "Ubururetama" e "O Conde de La Rose", ambos coletâneas de contos, o primeiro de fundo indianista e o segundo de caráter histórico.
Nas décadas de 1930 a 1950, tornou-se um dos mais destacados e requisitados oradores espíritas, tendo a oportunidade de ocupar a tribuna de centenas e centenas de instituições espíritas, nos Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e São Paulo, tendo mesmo participado da fundação de muitas dessas entidades. A sua palavra era muito acatada e o seu nome foi dado a algumas Casas assistenciais, em Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
No ano de 1977, já bastante enfermo e quase sem poder locomover-se, tomou parte na solenidade comemorativa do 40º aniversário de fundação do "Centro Espírita Deus e Caridade", de São Paulo, dando uma inequívoca demonstração do seu acendrado amor à Doutrina. O seu gesto teve elevada repercussão e todos os participantes da reunião tiveram a oportunidade de estreitá-lo ao coração.
De todos os numerosos títulos que havia recebido, o que mais prezava era o de espírita-cristão, pois ele considerava o Espiritismo como autêntica mensagem do Céu à Terra, como uma doutrina dinâmica, suscetível de equacionar os milenares e angustiantes problemas que assolam a Humanidade, por isso, Vergai muito fez para que os homens se reencontrassem e vivessem em perene estado de fraternidade e de amor.




[1] Personagens do Espiritismo - Antônio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy

sábado, 16 de setembro de 2017

Eu não sou mais espírita! – “Ex-espírita” será imaginável?[1]


A FÉ RACIOCINADA - Por Alex Bonafini
 
 Jorge Hessen - jorgehessen@gmail.com

Há poucos dias, um reconhecido divulgador do Espiritismo, utilizou-se das redes sociais para confessar que “não era mais espírita”. Ouvimos suas razões pelo “youtube” e percebemos a sua ingenuidade, motivo pelo qual deliberamos comentar seu ato. Todavia, antes de explanar sobre a deserção do propagandista insurgente e “ex-espírita”, asseguramos que não existe no dicionário kardequiano o termo “ex-espírita”. Até porque, uma vez ESPÍRITA, jamais serão desintegrados os ensinos revelados pelos Espíritos aos que foram racionalmente abrangidos. Portanto, os que se assumem “ex-espíritas” jamais foram ESPÍRITAS.
Em Obras Póstumas encontramos o artigo “Desertores”, nele aprendemos que “entre os ESPÍRITAS convictos, não há deserções, na lídima acepção do termo, visto como aquele que desertasse por motivo de interesse ou qualquer outro, nunca teria sido sinceramente ESPÍRITA; pode, entretanto, haver desânimos. Pode dar-se que a coragem e a perseverança fraqueiem diante de uma decepção, de uma ambição frustrada, de uma preeminência não alcançada, de uma ferida no amor-próprio, de uma prova difícil[2].”
Se alguns “ex-espíritas” desertaram, aniquilando o ideal, admitindo extinguir a chama da Doutrina dos Espíritos sob qualquer pretexto, segundo as contingências históricas, podemos afiançar-lhes que o Espiritismo permanecerá despontando sucessivamente por meio de diversos instrumentos de desenvolvimento e expansão. Isto quer dizer que o Espiritismo prosseguirá sempre, conquanto alguns, às vezes, abandonem a luta ou retrocedam, devido às conveniências particularíssimas.
Digam o que disserem, ou façam o que fizerem ninguém será capaz de privar o Espiritismo do seu caráter revelador, da sua filosofia racional e lógica, da sua moral consoladora e regeneradora. Qualquer oposição é impotente contra a evidência, que inevitavelmente triunfa pela força mesma das coisas.
Muitos antagonistas de Kardec acreditavam que o Espiritismo se extinguiria por causa dos “espíritas” que se envolviam em desordem, arrogância ou deserção, onde centros espíritas se esvaziavam ou até fechavam as suas portas, entretanto os Espíritos não ficaram imóveis ou ociosos, ao contrário, solucionaram de maneira objetiva, provocando novos fenômenos e fatos transcendentes, a fim de manterem desperta as mentes humanas sob a pujante luz do Consolador Prometido.
É óbvio que alguém que verdadeiramente estuda e busca o aperfeiçoamento moral dentro dos ensinamentos do Espiritismo jamais (nunca mesmo!) será mental , intelectual e sentimentalmente a mesma pessoa. O Espiritismo não impõe nada, pelo contrário, expõe! Se é certo que todas as grandes ideias contam apóstolos fervorosos e dedicados, não menos certo é que mesmo as melhores dentre as ideias têm seus desertores. O Espiritismo não podia escapar aos efeitos da fraqueza humana.
Alguns “ex-espíritas” por algum tempo pregaram a união, semeando a separação; habilmente levantaram questões importunas e ferinas; despertaram o despeito da preponderância entre os diferentes grupos. Em verdade, todas as doutrinas têm tido seu Judas; o Espiritismo não poderia deixar de ter os seus e eles ainda não lhe faltaram. Kardec chamava-os de “espíritas de contrabando”, mas que também foram de alguma utilidade: ensinaram ao verdadeiro ESPÍRITA a ser prudente, circunspeto e a não se fiar nas aparências. Sem dúvida, podem os tais “ex-espíritas” terem sido crentes, mas, sem contestação, foram crentes egoístas, nos quais a fé racional não ateou o fogo sagrado do devotamento e da abnegação.
Aos que lutam com coragem e perseverança, cujo devotamento é sincero e sem ideias preconcebidas, os Bons Espíritos protegem manifestamente. É verdade! Os Bons Espíritos ajudam-nos a vencer os obstáculos e suavizam as provas que não possamos evitar-lhes, ao passo que, não menos manifestamente, abandonam os que desertam e sacrificam a causa da verdade às suas ambições pessoais e mesquinhas.
Quem sabe possamos também chamar de desertores os que pregam virtudes religiosas e sociais, acolhendo-se em trincheiras de usura, os que levantam casas de socorro, desviando recursos que deveriam ser aplicados para sanar as dores do próximo, as mães que, sem motivo, emudecem as trompas da vida no santuário do próprio corpo, embriagando-se de prazeres que vão estuar na loucura, os que passam as horas censurando atitudes de outrem, olvidando os deveres que lhes competem os que condenam e amaldiçoam, ao invés de compreender e abençoar, os que perderam a simplicidade e precisam de uma torre de marfim para viver.
Quando perpetramos a deserção voluntária dos nossos deveres, diante das leis que nos governam, decerto que imprimimos determinadas deformidades no corpo espiritual. Benfeitores da Vida Maior são unânimes em declarar que, em todas as ocasiões nas quais sejamos impulsionados a desertar das experiências a que Deus nos destinou na vida terrestre, devemos recorrer à oração, ao trabalho, aos métodos de autodefesa e a todos os meios possíveis da reta consciência, em auxílio de nossa fortaleza e tranquilidade, de modo a fugirmos do profundo poço da irrealização pessoal.


[1] https://gecasadocaminhosv.blogspot.com.br/2017/09/eu-nao-sou-mais-espirita-ex-espirita.html
[2] KARDEC, Allan. Obras Póstumas, Os desertores, RJ: Ed FEB, 2001

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

PROVAÇÕES[1]



Irmão X


Indaga você das razões que induzem o Divino Poder a conservar uma pobre jovem, vestida de chagas, num catre humilde, relegada à assistência pública. E acrescenta: "Por que motivo expor uma infeliz menina a semelhante flagelação? Não haverá misericórdia para os seres que se arrastam na pobreza, quando há tantos sinais de socorro celeste, na casa dos felizes, aquinhoados pelo conhecimento superior e pela mesa farta"?
Não fora a reencarnação, chave do crescimento espiritual e do soerguimento redentor para todas as esferas da vida terrestre, e as suas perguntas seriam realmente irrespondíveis.
Entretanto, meu amigo, a existência humana, em seus fundamentos, obedece aos comezinhos princípios de lógica e harmonia que prevalecem na sementeira vulgar. Enquanto não cultivarmos a gleba planetária, em toda a sua extensão, seremos defrontados pela terra desventurada, aqui ou ali, povoada de serpentes traiçoeiras ou vitimada por imensas feridas de erosão. Se não plantamos com acerto, não colheremos irrepreensivelmente, e, se nos despreocupamos da vegetação daninha ou inútil, viveremos incomodados pelos cipoais e pelos espinheiros de toda sorte.
Espanta-se você, ante a dor, mas não se reporta aos débitos contraídos. Vê a cinza e não recorda o incêndio que a produziu.
Em matéria de compromissos não resgatados e de sofrimentos que os seguem, somos surpreendidos pelos remanescentes de nossos velhos delitos, à maneira do crente em desespero, constrangido a recolher os pedaços dos próprios ídolos, que o tempo esfacelou em sua marcha invariável.
É a Lei que se cumpre, harmoniosa e calma. E não me diga que há desequilíbrios nos processos em que funciona, porque, na atualidade do mundo, temos a considerar a questão da "massa" e o problema do "resíduo".
A evolução garante novos panoramas ao direito, mas ainda explodem guerras pela hegemonia da força; a ciência resolveu os enigmas da alimentação, entretanto, ainda há quem morre de fome pelas úlceras do duodeno; a liberdade triunfou sobre a escravidão, contudo, ainda existem milhões de encarcerados na superfície da Terra, e, se é indubitável que o duelo e o envenenamento fugiram dos costumes tribais nos povos mais cultos, as mortes violentas e deploráveis continuam, aos milhares por ano, na própria engrenagem da maquinaria do progresso.
Tenho reencontrado amigos de outras eras que, endividados perante os tribunais da justiça Divina pelas fogueiras que atearam no passado às vítimas do seu desafeto, padecem hoje o "fogo selvagem" na intimidade da organização fisiológica, em que retornaram à experiência física, porque a vanguarda moral do mundo não mais tolera a perseguição religiosa ou a desvairada tirania política, e tenho desfrutado a reaproximação com inolvidáveis companheiros do pretérito que, habituados a dilacerar a carne dos adversários, pelo simples prazer de ferir, contemplam, agora, a ruína do próprio corpo, nas aflitivas amarguras de leprosários e sanatórios.
A fogueira que extingue a dívida chama-se hoje "pênfigo foliáceo", e o golpe de ontem, sangrando os que sangraram, é conhecido por "bacilo de Hansen".
No fundo, porém, meu amigo, tudo é reajuste benéfico.
Imagine a vida na Terra como sendo um manancial imenso, de cujos bordos se derramam correntes cristalinas em todas as direções: é a "massa" progredindo, valorosa, na direção de sublimes horizontes.
E pensemos em nós, indivíduos arraigados ainda ao mal, como sendo o lodo das margens ou a lama do fundo: é o "resíduo" estacionário, sofrendo a necessidade de grandes transformações.
Semelhante quadro fornece pálida notícia da verdade.
Assim sendo, que Deus nos fortaleça e abençoe no caminho da purificação.




[1] Cartas e Crônicas – Francisco C. Xavier