sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

A BÚSSOLA ETERNA: A CARIDADE COMO RESPOSTA AO LABIRINTO DA EXISTÊNCIA[1]

 


André Henrique de Siqueira − dezembro/2025

 

Vivemos tempos de desassossego. A condição humana contemporânea assemelha-se a um viajante perdido em um labirinto sem mapa, sob um céu sem estrelas. As grandes narrativas que outrora serviam de guia — ideologias, religiões institucionais, projetos de nação — esboroaram-se, deixando em seu lugar um vácuo persistente. Este vazio existencial foi preenchido pelo ruído incessante do consumo, pela busca frenética por validação em telas luminosas e por uma angústia difusa diante de um futuro que se afigura mais como ameaça do que como promessa. O eu – antigo refúgio das esperanças, agora fragmentado e performático – isola-se em sua torre digital, paradoxalmente conectado a tudo e a ninguém. A finitude, antes um dilema filosófico individual, tornou-se uma ansiedade coletiva, globalizada, que nos paralisa.

Nesse cenário de desencantamento, a ideia da imortalidade da alma ressurge não como um consolo místico ou uma fuga da realidade, mas como a única bússola capaz de reorientar nossa jornada. Se a vida não é um breve e acidental clarão entre duas escuridões, mas um elo em uma corrente infinita de aprendizado e evolução, então cada passo, cada escolha e cada relação adquirem um peso e um propósito radicalmente novos. É a partir dessa reconfiguração fundamental que a caridade deixa de ser uma virtude opcional, um ato de benevolência esporádico, para se revelar como o imperativo lógico, a prática essencial e o próprio caminho da alma que se sabe eterna.

A primeira dádiva da imortalidade é a restituição do sentido. Onde a modernidade líquida oferece a identidade como um produto a ser montado com marcas e experiências compradas, a perspectiva da eternidade nos ancora sobre um eu essencial e perene. A vida atual converte-se em um degrau na escada da Vida Maior, uma sala de aula transitória na grande escola do Universo. A saudade lancinante por aqueles que partiram se transforma: a separação é temporária, a dor é um processo de aprendizado e o reencontro é uma certeza a ser construída. O sofrimento, antes visto como um absurdo cruel, revela-se como ferramenta de aprimoramento. Esse novo paradigma de sentido preenche o vazio existencial não com distrações efêmeras, mas com um propósito cósmico robusto e profundamente pessoal: progredir para uma felicidade perene.

Se o progresso é o propósito, a caridade é o método. A jornada da alma não se mede pelo conhecimento acumulado ou pelas riquezas amealhadas, mas pela capacidade de coordenar tais recursos no ato de servir.

O progresso espiritual é uma equação simples e sublime: só crescemos quando ajudamos o outro a crescer. A caridade é a força divina que nos arranca do egoísmo, que nos desloca de nossas torres individuais para a sublime reunião com o próximo. Nessa lógica, auxiliar não é um ato de abnegação, mas o mais inteligente ato de autointeresse espiritual. Ao compreendermos para sermos compreendidos, ao auxiliarmos para sermos auxiliados, estamos, na verdade, tecendo os fios do nosso próprio futuro. Cada gesto de paciência, cada palavra de conforto, cada ato de perdão é um investimento em nosso próprio tesouro imperecível. A caridade torna-se, assim, a praxis da alma imortal, a ação que materializa a nossa consciência da eternidade.

Ela é, também, o antídoto mais eficaz para a fragmentação e o isolamento que marcam nossa era digital. A arquitetura das redes sociais nos prometeu conexão, mas nos entregou uma epidemia de solidão. Cultivamos laços fracos com centenas de avatares, enquanto os laços fortes, forjados na empatia e na presença real, se atrofiam. Vivemos o paradoxo de estarmos sozinhos juntos, construindo identidades curadas para uma audiência invisível, gerando uma ansiedade constante de performance. A caridade nos convida a sair desse palco. Ela exige engajamento real. Ela se manifesta no respeito diário, na gentileza diante da agressividade, na paciência com o desequilíbrio alheio. Ela reconstrói o capital social erodido, substituindo a interação superficial pela construção de pontes de afeto e compreensão mútua. É a caridade que transforma um aglomerado de indivíduos isolados em uma verdadeira comunidade.

Diante da avassaladora angústia da finitude, que nos sussurra sobre catástrofes climáticas e colapsos sociais, gerando ecoansiedade e paralisia, a perspectiva da imortalidade oferece uma resposta de ação. Se este planeta é uma escola transitória e a morte do corpo é apenas uma passagem, a crise que enfrentamos não é o fim de tudo, mas um chamado urgente à nossa responsabilidade moral. A caridade torna-se, então, a expressão máxima de nossa agência. Em vez de nos afogarmos no consumo compulsivo de más notícias, somos convocados a ser a boa notícia na vida de alguém. Sustentar os fracos, distribuir esperança aos exaustos, amparar os que vivem em penúria e construir um Mundo Melhor com os recursos que temos, por menores que sejam, são os atos que transformam a ansiedade paralisante em ação construtiva. A mudança do mundo, sob essa ótica, começa na reforma do indivíduo e se realiza em seu serviço ao coletivo.

Fundamentalmente: a caridade é a materialização do amor que transcende a morte. A dor da separação dos entes queridos é, talvez, a mais profunda das aflições humanas. A promessa da imortalidade é a do reencontro final, da união sem adeus. Contudo, essa união não é um destino passivo, mas a colheita de uma semeadura diligente. O caminho para reencontrar quem amamos é o trabalho no bem. A caridade é a ponte de luz que conecta os dois mundos, a linguagem universal que os que ficaram e os que partiram compreendem. Ao praticá-la, mantemos vivos os laços afetivos que nunca se extinguem, transformando a saudade em serviço e a espera em construção. Cada ato de bondade em nome daqueles que nos antecederam é uma mensagem de amor enviada através das fronteiras da matéria, garantindo que nossa jornada rumo à eternidade seja uma de união progressiva, e não de solidão.

Face ao exposto, concluímos: a aceitação da imortalidade da alma não nos convida a uma contemplação passiva da eternidade, mas nos impõe uma responsabilidade ativa no presente.

A consequência inevitável e mais bela de se compreender como um ser imortal é a prática da verdadeira caridade. E essa caridade transcende em muito a simples esmola material. É a caridade que se expressa como entendimento fraternal no relacionamento de cada dia; que se torna paciência para com o desequilíbrio, otimismo diante das provas e fé perante as desilusões. É a caridade dos que sabem, ajudando os que ignoram; dos fortes, sustentando os fracos; dos que têm esperança, socorrendo os que jazem na angústia. É uma atitude constante, uma luz divina que flui de nós em direção aos outros, melhorando quem somos e o mundo que habitamos. Ao abraçar a nossa natureza eterna, descobrimos que o amor ao próximo não é apenas um mandamento moral, mas a própria mecânica do Universo, o caminho único e luminoso para a felicidade e para o reencontro final.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

LEI ETERNA[1]

 


Miramez

 

Caracteres da lei natural

É eterna a lei de Deus?

Eterna e imutável como o próprio Deus.

Questão 615 / O Livro dos Espíritos

 

Eterna e imutável como o próprio Deus.

Eis o que os Espíritos responderam a Allan Kardec: a lei de Deus, além de ser eterna, é imutável. Ela não muda com as mudanças humanas. Somente a lei do Criador não obedece ao progresso, porque é ela que rege a todos e a tudo, inclusive o próprio progresso. A sua configuração espiritual é a mesma em todos os tempos, em todos os mundos.

O que se passa diante delas é o nosso despertamento espiritual. Cada vez que vamos crescendo, a encontramos na feição dos nossos valores. Que coisa linda, fácil de se dizer, mas difícil de se compreender! Deus, sendo a perfeição, nada pode fazer imperfeito; sendo imutável, nada pode fazer mutável. O que ocorre com a criação não é imutabilidade: é despertamento dos valores espirituais.

Deus fez tudo perfeito, desde o princípio das coisas. O que chamamos de evolução ou progresso, é sinônimo de despertamento espiritual. Tudo é perfeito na ordem das coisas. Sendo Deus amor, somente o amor harmoniza todas as coisas. Ele é a fonte de toda a vida universal.

Quanto João Batista disse:

Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus

Mateus, 3:2

demonstrava a maturidade dos homens, onde o reino dos céus iria aparecer, dentro de cada um. Mais tarde, o próprio Mestre disse, com segurança: O reino dos Céus está dentro de vós. É uma lei eterna de Deus, o colocar o reino dos Céus dentro das criaturas, de sorte que esses valores espirituais possam despertar naturalmente, para a nossa felicidade.

Que queres mais, se o Céu se encontra dentro de nós, com todas as glórias, com todas as vidas, em esplendente felicidade? É preciso encontrarmos, não somente o Céu, mas Deus também. As mudanças são processadas em nossos caminhos, até encontrarmos as leis naturais que são eternas e imutáveis, como o próprio Deus. Quando Jesus disse: - Eu sou o caminho, a verdade e a vida, alertava-nos que Ele é o caminho, por ser Ele a vida e a sustentação da nossa paz.

A Doutrina Espírita, sendo a revivescência do cristianismo, chegou a nós como bênção de Deus, para entendermos a mensagem da luz, pelas leis eternas, as leis naturais. Precisamos de livros, por não sabermos ler a natureza, mas o nosso despertamento espiritual vai nos mostrar o caminho onde existe vida que não esqueceu a verdade, de modo a compreendermos a nós mesmos.

A alegria é uma face da lei natural de Deus, e quanto ela nos faz feliz!

A tranquilidade de consciência é lei natural e eterna, por refletir o céu dentro de nós.

O leitor deve analisar a nossa conversa, procurando descobrir outras coisas, que deixamos para o que procura.

As tuas mãos devem trabalhar, porque o trabalhador é digno do seu salário.

Vamos repetir a pergunta e a resposta de O Livro dos Espíritos, por as acharmos de grande valor para todos nós:

É eterna, a lei de Deus?

Eterna e imutável como o próprio Deus.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 13 – João Nunes Maia

quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

RAKESH GAUR - caso de reencarnação[1]

 


K.M. Wehrstein

 

Este caso de reencarnação infantil da Índia foi investigado em conjunto por dois pesquisadores, um dos quais achou que era melhor interpretado como reencarnação, enquanto o segundo o atribuiu aos pais que treinaram o menino para validar seu sistema de crenças reencarnacionistas. O relato do caso tornou-se uma fonte importante em comentários céticos sobre a pesquisa da reencarnação.

 

Pessoa anterior e assunto

Bithal Das

Bithal Das nasceu na pequena cidade de Tonk, no nordeste da Índia, em 1922. Em sua juventude, ele morou com seu irmão mais velho Ram Bilas em Bombaim, trabalhando como carpinteiro e motorista. A partir dos vinte anos, Bithal Das trabalhou como carpinteiro até começar a sofrer de fraqueza e foi ordenado por seu médico a descansar. Quando adolescente, ele se casou com uma garota Tonk chamada Radha e eles tiveram quatro filhos que sobreviveram à infância.

Dizia-se que Bithal Das era muito calmo, muito religioso e habilidoso como carpinteiro e mecânico, mas não estava bem financeiramente. Ele fez trabalhos elétricos paralelamente, mas nunca foi empregado anteriormente como eletricista.

Em 15 de agosto de 1955, durante a estação chuvosa da Índia, Bithal Das estava sozinho em casa e tentou desbloquear um ralo de backup no pátio com uma barra de ferro. Ele tocou um fio elétrico energizado, matando-o instantaneamente. Ele tinha 34 anos.

 

Rakesh Gaur

Rakesh Gaur nasceu em 15 de março de 1969 na cidade de Fateh Nagar, no nordeste da Índia. Ele era o quinto de seis filhos de S.N. Gaur, um gerente intermediário dos Correios Indianos e sua esposa Shanti Devi, que eram da casta brâmane (mais alta). Com pouco mais de cinco anos, Rakesh começou a contar aos pais sobre uma vida passada. Ele disse que era membro da casta carpinteira no bairro de Chhippa, em Tonk, que fica a cerca de 225 quilômetros a noroeste da cidade de Kankroli, onde morava a família Gaur. Ele disse que havia sido casado com uma mulher chamada Keshar e foi eletrocutado. De acordo com alguns dos informantes, ele mencionou o nome Bithal Das. Ele estava interessado em carpintaria e repetidamente pediu para ser levado a Tonk.

No verão de 1976, um motorista de ônibus de Tonk, Chhittarji, parou em Kankroli. Ele disse que Rakesh o reconheceu e lhe deu detalhes suficientes sobre sua vida anterior para que ele a identificasse. Quando Chhittarji voltou para Tonk, ele disse à família de Bithal Das que Bithal havia renascido em Kankroli. Enquanto isso, S.N. Gaur escreveu ao Conselho de Eletricidade de Tonk perguntando se algum funcionário da casta carpinteira havia sido eletrocutado, mas não recebeu resposta.

Em outubro de 1976, S.N. Gaur levou Rakesh para Tonk. Existem versões diferentes de como a visita aconteceu, mas o essencial é o seguinte. Rakesh certa vez apontou para um poste elétrico e disse que havia morrido enquanto o consertava. Pai e filho foram aos correios para pedir a ajuda da equipe para encontrar a antiga família de Rakesh. Um grupo saiu para encontrar sua casa, acompanhado por uma multidão crescente de curiosos, mas Rakesh parecia ter dificuldade. Uma pessoa idosa lembrou que um carpinteiro chamado Bithal Das havia sido eletrocutado em 1955. Ao voltarem para os correios, Rakesh avistou e reconheceu o filho de Bithal Das. Radha, sua viúva, conheceu Rakesh nos correios e ele a identificou. S.N. Gaur finalmente levou o menino para casa por volta da 1h30 sem que eles tivessem visitado sua antiga casa.

Dois dias depois, o filho de Bithal Das, Bhanwar Lal, visitou Rakesh em Kankroli. O irmão, a filha e o genro de Bithal Das visitaram um pouco mais tarde.

 

A investigação

Visão geral

O caso de Rakesh foi investigado por Satwant Pasricha e David Read Barker por um total de sete dias entre novembro de 1976 e novembro de 1978, depois que souberam disso em um relato de jornal. Eles seguiram a metodologia de Ian Stevenson, pioneiro da pesquisa da reencarnação, realizando entrevistas repetidas e independentes com o maior número possível de informantes em primeira mão e coletando todos os documentos relevantes. A única diferença foi que eles visitaram a família da pessoa anterior antes da do sujeito, e não vice-versa, devido ao seu horário de viagem. Em Tonk, eles entrevistaram e rentrevistaram novamente Bhanwar Lal, Radha e sua irmã mais nova  e Ladha; em Kankroli, eles entrevistaram Rakesh e seus pais. Mais tarde, eles entrevistaram Chhittarji e os funcionários dos correios de Tonk e do Conselho de Eletricidade que estiveram presentes durante a primeira visita de Rakesh a Tonk. Eles também entrevistaram o irmão de Bithal Das em outra cidade. Pasricha continuou investigando durante uma nova visita a Tonk em março de 1979, entrevistando alguns novos informantes.

Os pesquisadores verificaram que, como não havia troca regular de bens ou pessoas entre Tonk e Kankroli e nenhum informante estava ciente de qualquer contato anterior entre as duas famílias, eles não podem ter entrado em contato antes de Rakesh começar a relatar suas memórias.

Pasricha e Barker foram coautores de um artigo em 1981[2] no qual afirmaram que a investigação estava incompleta, pois diferiam em suas interpretações das discrepâncias nos depoimentos e esperavam obter informações adicionais. Pasricha publicou um segundo artigo[3] em 1983, no qual ela apresentou mais argumentos a favor de uma interpretação reencarnacionista do caso.

 

Declarações de Rakesh

Além das declarações mencionadas acima, Rakesh afirmou corretamente que tinha dois filhos (com os quais, seguindo o costume local, ele queria dizer filhos), que sua casa era feita de tijolos crus, que havia um grande poço perto de sua casa do qual a família tirava água e que sua família era muito pobre. Ele disse ao pai que não sabia há quanto tempo havia morrido, mas tinha 35 anos.

De acordo com Chhittarji, Rakesh o apresentou a seu pai, dizendo 'este é Chittar', e também disse que tinha dois filhos chamados Bhanwar e Babu. Outros informantes que relembram esse reconhecimento relataram que Rakesh disse que em sua vida passada ele havia ensinado Chhittarji a dirigir, o que Chhittarji confirmou ser verdade.

O filho de Bithal Das, Bhanwar Lal, contou que quando falou pela primeira vez com Rakesh, o menino erroneamente se chamou de Arun, mas disse corretamente: "quando eu morri não havia ninguém em casa" e "eu mantive 1.500 rúpias em casa". Ele também deu detalhes de forma espontânea e correta sobre a casa de Bithal Das e seus arredores, e disse: 'quando eu morava em Bombaim, costumava comprar saris verdes para sua mãe'. Essa conversa convenceu Bhanwar Lal de que Rakesh era de fato seu pai renascido.

 

Comportamentos de Rakesh

De acordo com S.N. Gaur, Rakesh às vezes acordava à 1 ou 2 da manhã durante a estação chuvosa, preocupado que sua casa desabasse.

Um carpinteiro em Kankroli disse aos investigadores que Rakesh falava sobre sua vida anterior com frequência quando visitava para brincar na carpintaria e instruía os carpinteiros sobre como usar as ferramentas. Ele disse a eles que havia sido morto por eletrocussão trabalhando em um poste elétrico.

Nos dois anos que se seguiram à primeira visita de Rakesh a Tonk, as duas famílias tornaram-se próximas, visitando-se repetidamente, à medida que os parentes de Bithal Das ficavam cada vez mais convencidos de que Rakesh era sua reencarnação. Na primavera de 1977, Rakesh e seu pai compareceram ao casamento da neta de Bithal Das.

 

O Relatório

Interpretação de Barker

Em sua parte da seção de discussão de seu artigo conjunto, Barker opina que o caso não era de reencarnação, mas sim de construção social, de acordo com a crença indiana na reencarnação. Como três informantes disseram que Rakesh havia se identificado como Bithal Das antes de visitar Tonk e três disseram que não, e o grupo não foi à casa de Bithal Das até que um morador idoso disse que um homem com esse nome havia morrido eletrocutado, Barker conclui que Rakesh não falava o nome 'Bithal Das' antes da visita. Barker argumenta que o nome foi mencionado pela primeira vez pelo morador idoso de Tonk e a família, amigos e espectadores aproveitaram a ideia e, sem querer, treinaram Rakesh para jogar junto, o que ele fez para agradá-los. Barker observa que as discrepâncias nos relatos pareciam desaparecer assim que as duas famílias se conheciam. No entanto, ele admite que o reconhecimento de Chhittarji e as declarações feitas a Chhittarji parecem desafiar essa interpretação.

 

Interpretação de Pasricha

Em seu comentário, Pasricha reconhece os erros e discrepâncias nas declarações de Rakesh, incluindo o local da morte, mas observa que eles são apenas "um pouco mais numerosos" do que a média para outros casos que ela estudou, e também que se um informante diz que um sujeito fez uma declaração e outro diz que não, seu testemunho não é discrepante, a menos que eles estejam se referindo a um caso particular em que ambos estavam presentes. Ela observa que os investigadores devem ter o cuidado de distinguir as verdadeiras contradições das variações em detalhes sem importância.

Pasricha então detalha as declarações relatadas como tendo sido ditas por Rakesh antes de visitar Tonk, o que contribuiu para a identificação. Tanto S.N. Gaur quanto Chhittarji disseram que Rakesh havia dito que seu nome era Bithal Das. Embora a carta de Gaur ao Conselho de Eletricidade tenha sido jogada fora, um funcionário do Conselho lembrou que ela mencionou o nome Bithal Das e um segundo funcionário lembrou que incluía um nome, embora ele não conseguisse se lembrar do que era. Várias testemunhas disseram que Rakesh disse que havia sido carpinteiro de Tonk, casado e com dois filhos, morreu eletrocutado aos 35 anos e tinha um "grande poço" perto de sua casa. Chhittarji disse que Rakesh disse a ele que se lembrava de ter ensinado Chhittarji a dirigir, que ele tinha dois filhos chamados Bhanwar Lal e Babu, e que ele havia escondido 1.500 rúpias em sua casa. Todas essas afirmações estavam corretas para Bithal Das. A preocupação aparentemente errônea de Rakesh com as inundações que desmoronaram sua casa de tijolos não cozidos na verdade se aplicava a uma segunda casa na qual Bithal morava e possuía no momento de sua morte.

Pasricha continua mostrando que a família de Bithal Das não poderia estar em posição de fornecer informações a Rakesh durante a primeira visita porque eles não se encontraram adequadamente. Rakesh incluiu detalhes sobre o interior da casa de Bithal Das que ele lembrou a Bhanwar Lal; Pasricha verificou isso ela mesma. Das 27 declarações feitas antes que Rakesh pudesse ter recebido as informações, apenas quatro estavam incorretas. Pasricha atribui o tempo gasto na busca inútil pela casa e família de Bithal Das a uma desorientação inadvertida, incluindo Rakesh nomeando o bairro errado, e aos vinte anos que se passaram desde a morte de Bithal Das. Ela atribui as discrepâncias que desapareceram depois que as famílias se reuniram à suavização mútua dos erros.

Como o pai de Rakesh creditou a seu filho uma forte percepção extrassensorial, Pasricha não chega a concluir que seu caso é de reencarnação. No entanto, ela afirma que as evidências desafiam qualquer explicação normal.

 

Segundo Relatório de Pasricha

Em 1979 e 1980, Pasricha revisitou muitos dos informantes do caso já entrevistados, bem como alguns novos, na esperança de alcançar maior certeza em relação ao que Rakesh havia dito antes e durante a reunião em Tonk. No entanto, ela teve sucesso limitado.

Pasricha tentou um experimento mental, após um caso em que o sujeito criança não identificou a pessoa anterior, mas Ian Stevenson, no entanto, conseguiu fazê-lo[4]. Ela partiu da afirmação de Barker de que Rakesh nunca havia mencionado o nome 'Bithal Das' antes de visitar Tonk, considerando se a identificação poderia ter sido feita sem que Rakesh tivesse fornecido o nome.

No artigo resultante deste trabalho subsequente[5], Pasricha observa que todos os informantes concordaram que Rakesh fez três declarações corretas sobre a vida de Bithal Das antes de visitar Tonk: (1) ele morou lá; (2) ele tinha sido carpinteiro; e (3) ele havia sido eletrocutado. Ela considerou se todos os três fatos poderiam ter sido verdadeiros para qualquer outra pessoa.

Primeiro, ela se comprometeu a saber como as eletrocussões eram frequentes em Tonk, com a ajuda de Stevenson, que perguntou em uma carta ao Diretor Médico da cidade, e assim soube que 0,88 pessoas morriam em média de eletrocussão por ano. A partir disso, ela estimou que cerca de doze morreram eletrocutados entre 1955 e 1969, embora provavelmente não mais do que três fossem funcionários do Conselho de Eletricidade. Combinando isso com a taxa de mortalidade da cidade (levando em consideração a provável subnotificação), Pasricha calculou que havia menos de 1 em 1.500 chances de Rakesh estar se referindo a uma pessoa falecida que não fosse Bithal Das e, portanto, não fazia muita diferença se ele mencionou o nome antes de visitar Tonk.

Em suas observações finais, Pasricha reconhece que as suposições fundamentam seus cálculos, mas ressalta que, mesmo que evidências mais sólidas fossem fornecidas, como um registro escrito das primeiras declarações de Rakesh, os céticos ainda encontrariam maneiras de negá-las.

 

Críticas

O falecido escritor de parapsicologia D. Scott Rogo afirma em um livro de 1985[6] que a abordagem crítica de Barker foi baseada na de um advogado, Champe Ransom, que Stevenson contratou para ajudar a analisar seus casos de reencarnação, e que se tornou cético em relação a eles. De acordo com Rogo, Ransom escreveu um relatório declarando suas objeções, que Stevenson pediu que ele não publicasse[7]. Rogo não conseguiu obter este relatório, mas afirma que foi informado sobre isso por um colega que ele não nomeia.

Ransom, escreve Rogo, dividiu as declarações da criança em duas categorias: aquelas que ela podia saber por meios normais e aquelas que não podia. Ele notou que os informantes pareciam muito mais certos do que a criança dizia na primeira categoria do que na segunda. A interpretação de Barker do caso como construção social foi, de acordo com Rogo, baseada nisso, e Rogo continua dizendo que o viés do investigador é a razão pela qual Stevenson encontrou e publicou tantos casos aparentemente fortes[8].

Sobre o caso de Rakesh Gaur, Rogo descreve e cita parte da interpretação de Barker, depois faz o mesmo com a de Pasricha. Ele credita Pasricha por fazer um caso "ligeiramente" mais forte, justificando um pouco o trabalho de Stevenson, mas insiste que a interpretação dos casos de reencarnação se baseia nos "preconceitos e predileções do investigador". O fato do desacordo de Pasricha e Barker, escreve ele, dá "uma ideia da confusão que pode ter existido em muitos dos casos de Stevenson" e observa que as variações culturais nas características dos casos de reencarnação apontam para a construção cultural, como argumentado pelo filósofo C.T.K. Chari[9].

O crítico da reencarnação Paul Edwards faz uma avaliação dura do caso, baseando-se na visão de Barker, em um livro de 1996[10]. Semelhante a Rogo, ele acusa Stevenson de suprimir pontos de vista divergentes, usando Rogo como fonte, mas sem citar obras específicas - embora a pessoa que ele afirma que Stevenson estava tentando silenciar fosse Barker, não Ransom. Rogo aparentemente alegou que Stevenson tinha o hábito de ameaçar ações judiciais para silenciar os céticos, algo que Stevenson negou categoricamente e repetidamente. As trocas entre Rogo e Stevenson apareceram nas edições de janeiro e outubro de 1986 do Journal of the Society for Psychical Research[11].

Edwards não oferece evidências para a veracidade das acusações de Rogo, mas observa que, apesar dessa suposta pressão, Barker publicou suas opiniões duas vezes, inclusive no artigo em coautoria com Pasricha. A avaliação de Edwards sobre o caso é curta e desdenhosa, comparando os reconhecimentos de Rakesh a cenas de um filme popular em que um impostor é "reconhecido" por pessoas a quem ele já foi apresentado. Edwards escreve que assume que o leitor achará a conclusão de Barker "muito mais razoável" do que a de Pasricha[12].

O pesquisador de reencarnação James G. Matlock observa que Edwards não faz menção aos contra-argumentos de Pasricha à interpretação de Barker ou suas descobertas posteriores, incluindo a observação de que Bithal Das provavelmente poderia ter sido identificado como a pessoa anterior puramente nas três declarações com as quais todos os informantes concordaram. Matlock também observa que Edwards omite o fato de que, quando Rakesh reconheceu Chhittarji pela primeira vez, ele lhe deu informações de identificação suficientes para que Chhittarji notificasse a família de Bithal Das[13].

 

Literatura

§  Edwards, P. (1996). Reincarnation: A Critical Examination. Amherst, New York, USA: Prometheus Books.

§  Matlock, J.G. (2019). Signs of Reincarnation: Exploring Beliefs, Cases, and Theory. Lanham, Maryland, USA: Rowman & Littlefield.

§  Pasricha, S.K. (1983). New information favoring a paranormal interpretation in the case of Rakesh Gaur. European Journal of Parapsychology 5, 77-85. [Reprinted in Can the Mind Survive Beyond Death? In Pursuit of Scientific Evidence, Volume I: Reincarnation Research (2008), 271-81. New Delhi:  Harman Publishing House.]

§  Pasricha, S.K., & Barker, D.R. (1981). A case of the reincarnation type in India: The case of Rakesh Gaur. European Journal of Parapsychology 3, 381-408. [Reprinted in Can the Mind Survive Beyond Death? In Pursuit of Scientific Evidence, Volume I: Reincarnation Research by S.K. Pasricha (2008), 237-69. New Delhi: Harman Publishing House.]

§  Rogo, D.S. (1985). The Search for Yesterday: A Critical Examination of the Evidence for Reincarnation.  Englewood Cliffs, New Jersey, USA: Prentice-Hall.

§  Rogo, D.S. (1986). Letter to the Editor. Journal of the Society for Psychical Research 53, 468-71.

§  Stevenson, I. (1977). Cases of the Reincarnation Type. Volume II: Ten Cases in Sri Lanka. Charlottesville, Virginia, USA: University Press of Virginia.

§  Stevenson, I. (1986a). Comments by Ian Stevenson. Journal of the Society for Psychical Research 53, 232-39.

§  Stevenson, I. (1986b). Rejoinder by Ian Stevenson. Journal of the Society for Psychical Research 53, 471-73.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Pasricha & Barker (1981). Todas as informações nas duas seções anteriores e seguintes deste artigo são extraídas deste trabalho.

[3] Pasricha (1983).

[4] Stevenson (1977), 203.

[5] Pasricha (1983).

[6] Rogo (1985).

[7] Stevenson (1986a, 237) discordou da ideia de que ele havia tentado suprimir o relatório de Ransom, que ele havia encomendado. Na verdade, disse Stevenson, ele encorajou Ransom a compartilhar seus comentários, pedindo apenas que ele incluísse a resposta de Stevenson quando o fizesse.

[8] Rogo (1985), 79.

[9] Rogo (1985), 83.

[10] Edwards (1996).

[11] Rogo (1986) respondeu aos comentários de Stevenson (1986a) sobre o livro de Rogo, seguido por uma réplica final de Stevenson (1986b).

[12] Edwards (1996), 264.

[13] Matlock (2019), 115.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

REFUTAÇÃO DE UM ARTIGO DO “UNIVERS”[1]

 


Allan Kardec

 

O jornal Univers, em sua edição de 13 de abril passado, traz um artigo do abade Chesnel em que a questão do Espiritismo é longamente discutida. Nós o teríamos deixado de lado, como o fazemos a tantos outros aos quais não ligamos nenhuma importância, se se tratasse de uma dessas diatribes grosseiras que revelam, da parte de seus autores, a mais absoluta ignorância daquilo que atacam. Temos a satisfação de reconhecer que o artigo do abade Chesnel é redigido num espírito completamente diferente. Pela moderação e conveniência da linguagem ele merece uma resposta, tanto mais necessária quanto o artigo contém um erro grave e pode dar uma ideia muito falsa, quer do Espiritismo em geral, quer em particular do caráter e do objetivo dos trabalhos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Eis o artigo na íntegra:

 

Todos conhecem o espiritualismo do Sr. Cousin, essa filosofia destinada a substituir lentamente a religião. Sob o mesmo título, hoje possuímos um corpo de doutrinas reveladas, que pouco a pouco se vai completando, e um culto muito simples, é verdade, mas de eficácia maravilhosa, pois que poria os devotos em comunicação real, sensível e quase permanente com o mundo sobrenatural.

Esse culto tem reuniões periódicas, iniciadas pela invocação de um santo canonizado. Depois de constatada, entre os fiéis, a presença de São Luís, rei da França, pedem-lhe que proíba a entrada dos Espíritos malignos ao templo e leem a ata da sessão anterior. Em seguida, a convite do presidente, um médium se aproxima do secretário encarregado de anotar as perguntas feitas por um dos fiéis e as respostas que serão ditadas ao médium pelo Espírito invocado. A assembleia assiste gravemente, piedosamente, a essa cena de necromancia, por vezes bastante longa e, quando a ordem do dia se esgota, as pessoas se retiram mais convencidas do que nunca da veracidade do espiritualismo. No intervalo entre duas sessões, cada fiel aproveita a ocasião para manter um comércio assíduo, mas privado, com os Espíritos que lhe são mais acessíveis ou mais queridos. Os médiuns se multiplicam e quase não existem segredos na outra vida que eles não acabem por penetrar. Uma vez revelados aos fiéis, esses segredos não são ocultados ao público. A Revue spiritualiste, que é publicada regularmente todos os meses, não recusa nenhuma assinatura profana e quem quiser poderá comprar os livros que contêm o texto revelado, com seu autêntico comentário.

Seríamos levados a crer que uma religião que consiste unicamente na evocação dos mortos fosse muito hostil à Igreja Católica, que jamais deixou de proibir a prática da necromancia. Mas esses pensamentos mesquinhos, por mais naturais que pareçam, não são menos estranhos, assegura-se, ao coração dos espiritualistas. Eles fazem justiça ao Evangelho e a seu Autor; confessam que Jesus viveu, agiu, falou e sofreu como narram os nossos quatro evangelistas. A doutrina evangélica é verdadeira, mas essa revelação, de que Jesus foi o instrumento, longe de excluir o progresso, deve ser completada. É o espiritualismo que dará ao Evangelho a sã interpretação que lhe falta e a complementação que ele espera há dezoito séculos.

Entretanto, quem demarcará os limites ao progresso do Cristianismo ensinado, interpretado e desenvolvido tal qual o é pelas almas desprendidas da matéria, estranhas às paixões terrenas, aos nossos preconceitos e aos interesses humanos? O próprio infinito se nos desdobra. Ora, o infinito não tem limites e tudo nos leva a esperar que a revelação do infinito será continuada sem interrupção; à medida que se escoarem os séculos ver-se-ão revelações acrescidas a revelações, sem que jamais se esgotem esses mistérios, cuja extensão e profundidade parece aumentarem à medida que se liberam da obscuridade que até agora os envolvia.

Daí a consequência de que o espiritualismo é uma religião, porque nos põe intimamente em relação com o infinito e absorve, alargando-o, o Cristianismo que, de todas as formas religiosas, presentes ou passadas, é, como facilmente se confessa, a mais elevada, a mais pura e a mais perfeita. Mas engrandecer o Cristianismo é tarefa difícil, que não pode ser realizada sem derrubar as barreiras por detrás das quais ele se mantém entrincheirado. Os racionalistas não respeitam nenhuma barreira; menos ardentes ou melhor avisados, os espiritualistas só encontram duas, cuja redução parece indispensável, a saber: a autoridade da Igreja Católica e o dogma das penas eternas.

Esta vida constitui a única prova que ao homem é dado atravessar? A árvore ficará eternamente do lado em que caiu? O estado da alma, após a morte, é definitivo, irrevogável e eterno? Não, responde a necromancia espiritualista. A morte nada acaba, tudo recomeça. Para cada um de nós a morte é o ponto de partida de uma encarnação nova, de uma nova vida e de uma nova experiência.

Segundo o panteísmo alemão, Deus não é o ser, mas o tornar-se eterno. Seja o que for de Deus, para os espiritualistas parisienses o homem não tem outro destino senão tornar-se progressivo ou regressivo, conforme seus méritos e obras. A lei moral ou religiosa tem uma verdadeira sanção nas outras vidas, onde os bons são recompensados e os maus punidos, mas durante um período mais ou menos longo, de anos ou de séculos, e não por toda a eternidade.

Seria o espiritualismo a forma mística de erro de que o Sr. Jean Reynaud é o mais lídimo representante? Talvez. É permitido ir mais longe e dizer que entre o Sr. Reynaud e os novos sectários existe um laço mais estreito que o da comunidade de doutrinas? Talvez ainda. Mas essa questão, por falta de informações seguras, não será aqui resolvida de maneira decisiva.

Mais que o parentesco ou as alianças heréticas do Sr. Jean Reynaud, o que importa muito mais é a confusão de ideias, de que é sinal o progresso do espiritualismo; é a ignorância em matéria de religião que torna possível tanta extravagância; é a leviandade com que homens, aliás estimáveis, acolhem essas revelações do outro mundo, que não possuem nenhum mérito, nem mesmo o da novidade.

Não é necessário remontar a Pitágoras e aos sacerdotes egípcios para descobrirmos as origens do espiritualismo contemporâneo. Encontrá-las-emos ao manusear as atas do magnetismo animal.

Desde o século XVIII a necromancia já desempenhava um grande papel nas práticas do magnetismo e, vários anos antes que se manifestassem os Espíritos batedores na América, dizia-se que certos magnetizadores franceses obtinham, da boca dos mortos ou dos demônios, a confirmação das doutrinas condenadas pela Igreja, notadamente a dos erros de Orígenes, relativos à conversão futura dos anjos maus e dos réprobos.

Igualmente é preciso dizer que o médium espiritualista, no exercício de suas funções, pouco difere do sujeito nas mãos do magnetizador, e que o círculo abraçado pelas revelações do primeiro também não ultrapassa aquele que é delimitado pela visão do segundo.

Os ensinamentos que a curiosidade pública obtém nos negócios privados, por meio da necromancia, em geral nada revelam além daquilo que antes já era sabido. A resposta do médium espiritualista é obscura nos pontos em que nossas pesquisas pessoais não puderam esclarecer; é clara e precisa naquilo que bem conhecemos; muda em tudo quanto escapa aos nossos estudos e esforços. Numa palavra, parece que o médium tem uma visão magnética de nossa alma, mas nada descobre além do que nela se encontra gravado. Mas essa explicação, que parece muito simples, está entretanto sujeita a graves dificuldades. Supõe, com efeito, que uma alma possa ler naturalmente no fundo de outra alma, sem o concurso de sinais e independentemente da vontade daquele que, à primeira vista, se tornasse um livro aberto e muito legível. Ora, os anjos bons ou maus naturalmente não possuem esse privilégio, nem quanto a nós, nem nas relações diretas que mantêm entre si. Somente Deus penetra imediatamente os Espíritos e perscruta até o fundo dos corações mais obstinadamente fechados à sua luz.

Se os mais estranhos fatos espiritualistas que se contam são autênticos, será preciso, para os explicar, que se recorra a outros princípios. Esquece-se com frequência que esses fatos geralmente se referem a um objeto que preocupa fortemente o coração ou a inteligência, que provocou longas pesquisas e do qual muitas vezes falamos fora da consulta espiritualista. Nessas condições, que não devem ser perdidas de vista, um certo conhecimento das coisas que nos interessam não ultrapassa absolutamente os limites naturais do poder dos Espíritos.

Seja como for, no espetáculo que hoje nos oferecem nada mais há que a evolução do magnetismo, que se esforça por tornar-se uma religião.

Sob a forma dogmática e polêmica que deve a nova religião ao Sr. Jean Reynaud, ela incorreu na condenação do Concílio de Périgueux, cuja autoridade, como todos estão lembrados, foi gravemente negada pelo culpado.

Na forma mística que hoje assume em Paris, ela merece ser estudada, pelo menos como sinal dos tempos em que vivemos. O espiritualismo já recrutou um certo número de homens, entre os quais diversos são honrosamente conhecidos no mundo. Esse poder de sedução que ele exerce, o lento, mas ininterrupto progresso, que lhe é atribuído por testemunhas dignas de fé, as pretensões que apregoa, os problemas que apresenta, o mal que pode fazer às almas, eis, sem dúvida, motivos por demais reunidos para atrair a atenção dos católicos. Guardemo-nos de atribuir à nova seita mais importância do que realmente merece. Mas, para evitar o exagero, que tudo amplia, não caiamos também na mania de negar ou de amesquinhar todas as coisas. Nolite omni spiritui credere, sed probate spiritus si ex Deo sint: Quoniam multi pseudoprophetoe exierunt in mundum[2]. (I Joan. IV. 1).

 

Abade François Chesnel

 

Senhor abade,

O artigo que publicastes no Univers, relativamente ao Espiritismo, contém vários erros que importa retificar e que procedem, fora de dúvida, de um incompleto estudo da matéria.

Para os refutar a todos, fora preciso retomar, desde o princípio, os diversos pontos da teoria, bem como os fatos que lhe servem de base, o que absolutamente não tenho a intenção de fazer aqui.

Limito-me, pois, aos pontos principais.

Fizestes bem em reconhecer que as ideias espíritas “recrutaram um certo número de homens honrosamente conhecidos no mundo”. Esse fato, cuja realidade ultrapassa de muito aquilo que acreditais, incontestavelmente merece a atenção de todo homem sério, pois tantas personalidades, eminentes pela inteligência, pelo saber e pela posição social não se apaixonariam por uma ideia despida de algum fundamento. A conclusão natural é que no fundo de tudo isso deve haver alguma coisa.

Talvez objeteis que certas doutrinas, meio religiosas, meio sociais, nos últimos anos encontraram sectários nas próprias fileiras da aristocracia intelectual, o que não as impediu de cair no ridículo. Assim, pois, os homens de inteligência podem se deixar seduzir pelas utopias. A isso responderei que as utopias têm o seu tempo: cedo ou tarde a razão lhes faz justiça. Assim será com o Espiritismo, se ele não for uma utopia. Mas se for uma verdade, triunfará de todas as oposições, de todos os sarcasmos; direi mesmo, de todas as perseguições, se estas ainda pertencessem ao nosso século, e os detratores nada aproveitarão. Custe o que custar, seus opositores serão obrigados a aceitá-lo, como aceitaram tantas coisas contra as quais se havia protestado supostamente em nome da razão. O Espiritismo é uma verdade? O futuro o julgará. Parece, no entanto, que já se pronuncia, tal a rapidez com que essas ideias se propagam. E, notai bem, não é na classe ignorante e analfabeta que se encontram aderentes, mas, bem ao contrário, entre as pessoas esclarecidas.

É de notar-se ainda que todas as doutrinas filosóficas constituem obra de homens, imbuídos de ideais mais ou menos grandes, mais ou menos justas; todas têm um chefe, em torno do qual se agruparam outros homens que partilham do mesmo ponto de vista. Quem é o autor do Espiritismo? Verdadeira ou falsa, quem imaginou essa teoria? É verdade que se procurou coordená-la, formulá-la, explicá-la. Mas quem concebeu a ideia primeira? Ninguém; ou, melhor dizendo, todo mundo, porque todos puderam ver, e os que não viram foram aqueles que não quiseram ver ou o quiseram à sua maneira, sem sair do círculo das ideias preconcebidas, o que fez com que vissem e julgassem mal. O Espiritismo decorre de observações que cada um pode fazer e que não constituem privilégio de ninguém, o que explica a sua irresistível propagação. Não é o produto de nenhum sistema individual, e é isso que o distingue de todas as outras doutrinas filosóficas.

Dissestes que essas revelações do outro mundo nem mesmo têm o mérito da novidade. Seria, pois, um mérito a novidade? Quem alguma vez pretendeu que fosse uma invenção moderna? Sendo uma consequência da natureza humana, e ocorrendo pela vontade de Deus, essas comunicações fazem parte das leis imutáveis pelas quais Ele rege o mundo; devem ter existido, pois, desde que o homem existe na Terra. Eis por que as encontramos na mais remota Antiguidade, entre todos os povos, tanto na história profana quanto na história sagrada. A ancianidade e a universalidade dessa crença são argumentos em seu favor. Daí a tirar conclusões desfavoráveis seria, acima de tudo, faltar de todo com a lógica.

Em seguida dissestes que a faculdade dos médiuns pouco difere da dos sujeitos na mão do magnetizador, de outra maneira dito sonâmbulo; mas admitamos até que haja perfeita identidade. Qual poderia ser a causa dessa admirável clarividência sonambúlica que não encontra obstáculo nem na matéria nem na distância, e que se exerce sem o concurso dos órgãos da visão? Não seria a mais patente demonstração da existência e da individualidade da alma, pivô da religião? Se eu fosse sacerdote, e se durante o sermão quisesse provar que há em nós algo mais que o corpo, demonstrá-lo-ia de maneira irrecusável pelos fenômenos do sonambulismo, natural ou artificial. Se a mediunidade nada mais é que uma variedade do sonambulismo, nem por isso seus efeitos são menos dignos de observação. Neles eu encontraria uma prova a mais em favor de minha tese e dela faria uma nova arma contra o ateísmo e o materialismo. Todas as nossas faculdades são obra de Deus. Quanto maiores e mais maravilhosas, mais elas atestam o seu poder e a sua bondade.

Para mim, que durante trinta e cinco anos fiz um estudo especial do sonambulismo; que nele vi uma variedade não menos profunda de quantas modalidades existem de médiuns, asseguro, como todos aqueles que não julgam à vista de uma só face do problema, que o médium é dotado de uma faculdade particular, que não se pode confundir com o sonâmbulo, e que a perfeita independência de seu pensamento é provada por fatos da maior evidência, por todos aqueles que se colocam nas condições requeridas para observar sem parcialidade. Abstração feita das comunicações escritas, qual o sonâmbulo que jamais fez brotar um pensamento de um corpo inerte? Que produziu aparições visíveis e até mesmo tangíveis? Que pôde manter um corpo pesado no espaço sem ponto de apoio? Terá sido por efeito sonambúlico que um médium desenhou, há quinze dias, em minha casa, na presença de vinte testemunhas, o retrato de uma pessoa jovem, falecida há dezoito meses, que ele não havia jamais conhecido, retrato reconhecido pelo pai, que se achava presente na sessão? Será por efeito sonambúlico que uma mesa responde com precisão às perguntas propostas, inclusive a perguntas mentais? Certamente, se admitirmos que o médium esteja num estado magnético, parece difícil acreditar que a mesa seja sonâmbula.

Dizeis que o médium não fala com clareza senão das coisas que conhece. Como explicar o seguinte fato, e centenas de outros do mesmo gênero, que se reproduziram inúmeras vezes e que são do meu conhecimento pessoal? Um de meus amigos, excelente médium psicógrafo, pergunta a um Espírito se uma pessoa que ele não via há quinze anos ainda pertencia a este mundo.

“Sim, ela ainda vive; mora em Paris, à rua tal, número tanto.” Ele vai e encontra a pessoa no endereço indicado. Foi uma ilusão? Seu pensamento poderia sugerir-lhe essa resposta? Se, em certos casos, as respostas podem coincidir com o pensamento, é racional concluir que se trata de uma lei geral? Nisso, como em todas as coisas, os julgamentos precipitados são sempre perigosos, porque podem ser desmentidos pelos fatos que não foram observados.

Apesar disso, sr. abade, minha intenção não é dar aqui um curso de Espiritismo, nem discutir se ele é certo ou errado. Seria preciso, como o disse há pouco, relembrar os numerosos fatos que citei na Revista Espírita, bem como as explicações dadas em meus diversos escritos. Chego, enfim, à parte de vosso artigo que me parece mais importante. Intitulais vosso artigo: “Uma nova religião em Paris”.

Admitindo que tal fosse, com efeito, o caráter do Espiritismo, aí haveria um primeiro erro, considerando-se que ele está longe de circunscrever-se a Paris. Conta milhões de aderentes espalhados nas cinco partes do mundo e Paris não foi o foco primitivo. Em segundo lugar, o Espiritismo é uma religião? Fácil é demonstrar o contrário[3].

O Espiritismo está baseado na existência de um mundo invisível, formado de seres incorpóreos que povoam o espaço e que nada mais são do que as almas dos que viveram na Terra ou em outros globos, onde deixaram os seus invólucros materiais. São esses seres que havíamos dado, ou melhor, que se deram o nome de Espíritos. Esses seres, que nos rodeiam incessantemente, exercem sobre os homens, mau grado seu, uma grande influência; desempenham um papel muito ativo no mundo moral e, até certo ponto, no mundo físico. O Espiritismo, pois, está em a Natureza e pode-se dizer que, numa certa ordem de ideias, é uma força, como a eletricidade também o é sob diferente ponto de vista, assim como a gravitação universal, igualmente.

Ele nos desvenda o mundo dos invisíveis, como o microscópio nos desvendou o mundo dos infinitamente pequenos, cuja existência nem suspeitávamos. Os fenômenos cuja fonte é esse mundo invisível devem ter-se produzido e se produziram em todos os tempos, razão por que a história de todos os povos lhes faz menção. Apenas os homens, em sua ignorância, os atribuíram a causas mais ou menos hipotéticas e, a propósito, deram livre curso à imaginação, como o fizeram com todos os fenômenos cuja natureza só imperfeitamente conheciam. O Espiritismo, melhor observado desde que se vulgarizou, vem lançar luz sobre uma multidão de problemas até aqui insolúveis ou mal resolvidos. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não o de uma religião, e a prova disso é que conta, entre seus aderentes, homens de todas as crenças, e que nem por isso renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos, que praticam todos os deveres de seu culto, protestantes de todas as seitas, israelitas, muçulmanos e até budistas e bramanistas. Há de tudo, exceto materialistas e ateus, porque essas ideias são incompatíveis com as observações espíritas. O Espiritismo, pois, repousa sobre princípios gerais, independentes de toda questão dogmática. É verdade que tem consequências morais, como todas as ciências filosóficas. Essas consequências são no sentido do Cristianismo, porque, de todas as doutrinas, o Cristianismo é a mais esclarecida, a mais pura, razão por que, de todas as seitas religiosas do mundo, são as cristãs as mais aptas a compreendê-lo em sua verdadeira essência.

O Espiritismo não é, pois, uma religião. Se o fosse teria seu culto, seus templos, seus ministros. Sem dúvida cada um pode fazer uma religião de suas opiniões e interpretar à vontade as religiões conhecidas, mas daí à constituição de uma nova Igreja há uma grande distância e creio que seria imprudência seguir tal ideia.

Em resumo, o Espiritismo se ocupa da observação dos fatos e não das particularidades de tal ou qual crença, da pesquisa das causas, da explicação que esses fatos podem dar de fenômenos conhecidos, assim na ordem moral como na ordem física, e não impõe nenhum culto aos seus partidários, como a astronomia não impõe o culto dos astros, nem a pirotecnia o culto do fogo. Ainda mais: do mesmo modo que o sabeísmo nasceu da astronomia mal compreendida, o Espiritismo, mal compreendido na Antiguidade, foi a fonte do politeísmo. Hoje, graças às luzes do Cristianismo, podemos julgá-lo com mais critério. Ele nos põe em guarda contra os sistemas errôneos, frutos da ignorância, e a própria religião nele pode haurir a prova palpável de muitas verdades contestadas por certas opiniões. Eis por que, contrariando a maior parte das ciências filosóficas, um dos seus efeitos é reconduzir às ideias religiosas aqueles que se extraviaram num cepticismo exagerado.

A Sociedade a que vos referis define seu objetivo no próprio título; a denominação Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas não se assemelha ao de nenhuma seita; tão diferente é o seu caráter que seu estatuto proíbe tratar de questões religiosas; está classificada na categoria das sociedades científicas, porque, com efeito, seu objetivo é estudar e aprofundar todos os fenômenos que resultam das relações entre os mundos visível e invisível; tem seu presidente, seu secretário e seu tesoureiro, como todas as sociedades; não convida o público às suas sessões; ali não se faz nenhum discurso, nem coisa alguma que tenha o caráter de um culto qualquer. Conduz os seus trabalhos com calma e recolhimento, primeiro porque é uma condição necessária para as observações e, segundo, porque sabe que devem ser respeitados aqueles que não vivem mais na Terra. Ela os chama em nome de Deus porque crê em Deus, em sua Onipotência e sabe que nada se faz neste mundo sem a sua permissão. Abre as sessões com um apelo geral aos Espíritos bons, uma vez que, sabendo que os há bons e maus, cuida para que estes últimos não venham se misturar fraudulentamente nas comunicações que recebe e induzi-la em erro. O que prova isso? Que não somos ateus; mas de modo algum implica que sejamos partidários de uma religião. Disso deveria ter ficado convencida a pessoa que vos descreveu o que se passa entre nós, se tivesse acompanhado os nossos trabalhos e, sobretudo, se os tivesse julgado com menos leviandade e talvez com espírito menos prevenido e menos apaixonado. Assim, os próprios fatos protestam contra a qualificação de nova seita que destes à Sociedade, certamente por não a conhecerdes melhor.

Terminais vosso artigo chamando a atenção dos católicos para o mal que o Espiritismo pode fazer às almas. Se as consequências do Espiritismo fossem a negação de Deus, da alma, de sua individualidade após a morte, do livre-arbítrio do homem, das penas e recompensas futuras, seria uma doutrina profundamente imoral. Longe disso, ele prova, não pelo raciocínio, mas pelos fatos, essas bases fundamentais da religião, cujo inimigo mais poderoso é o materialismo. Mais ainda: por suas consequências ensina a suportar com resignação as misérias desta vida; acalma o desespero; ensina os homens a se amarem como irmãos, conforme os divinos preceitos de Jesus. Se soubésseis, como eu, quantos incrédulos endurecidos ele fez renascer; quantas vítimas arrancou ao suicídio pela perspectiva da sorte reservada aos que abreviam a vida, contrariando a vontade de Deus; quantos ódios acalmou, quantos inimigos aproximou! É a isso que chamais fazer mal às almas? Não; não podeis pensar assim. Prefiro supor que, se o conhecêsseis melhor, o julgaríeis de outra maneira. Direis que a religião pode fazer tudo isso. Longe de mim contestá-lo. Mas acreditais que teria sido melhor, para aqueles que ela encontrou rebeldes, permanecerem numa incredulidade absoluta? Se o Espiritismo triunfou sobre eles, se lhes tornou claro o que antes era obscuro, evidente o que lhes parecia duvidoso, onde o mal? Para mim, em lugar de perder almas, ele as salvou.

Aceitai etc.

Allan Kardec



[1] REVISTA ESPÍRITA – maio/1859 – Allan Kardec

[2] Não deis crédito a todos os espíritos, mas examinai se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se espalharam pelo mundo. (João 4:1)

[3] N. do T.: Em vão se tentará negar o aspecto religioso do Espiritismo, tomando por base, de forma isolada, o presente raciocínio de Allan Kardec. Há que se examinar o conjunto de sua obra, a fim de não se chegar a conclusões precipitadas. Na Revista Espírita de dezembro de 1868 o Codificador defende de maneira peremptória o caráter religioso da Doutrina Espírita.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

RUFINA NOEGGERATH (“Bonne Maman”)[1]

 


 

Rufine Hilarie Temmerman nasceu em 10 de outubro de 1821, em Bruxelas, Bélgica. Cresceu em família relativamente abastada. Estudou em Bonn (Alemanha) quando jovem. Escritora, filósofa espírita, médium e pintora. Demonstrava talento artístico, especialmente em pintura — realizava retratos ao pastel. Casou-se com Charles Noeggerath, médico e “magnético” (hipnotizador / magnetizador).  Tiveram uma filha chamada Rolanda. Charles morreu em 1852, quando Rufina tinha cerca de 30 anos.

Depois da morte do marido, Rufina passou por dificuldades financeiras. Volta à arte e grandes dificuldades. Exerceu como pintora em Paris, especialmente retratos a pastel. Também tentou inovar, propondo um processo químico para “metalizar” tecidos para dar-lhes maior resistência, mas perdeu parte dos documentos de seu pedido de patente durante o Cerco de Paris (1870).

Após a morte do marido, interessou-se pelo espiritismo — especialmente para tentar se comunicar com ele. Fundou seu próprio círculo espírita, onde recebia sessões mediúnicas e encontros filosóficos. Era conhecida por sua bondade, moral elevada e caridade, ganhando o apelido carinhoso de “Bonne Maman” (“Boa Mãe”). Em 1897, ela publicou sua principal obra espírita: La Survie, sa Réalité, sa Manifestation, sa Philosophie, com prefácio de Camille Flammarion. Seu salão (na rua Milton, em Paris) era frequentado por vários intelectuais, escritores, pensadores e filósofos interessados nas ciências psicográficas / espíritas. Em 1905, mesmo já bem idosa, era vista como uma figura essencial no movimento espírita de Paris.

Era considerada uma espécie de “apóstola do espiritismo e da paz universal” — título que aparece em seu túmulo. Diz-se que sua sepultura no Père-Lachaise é muito visitada por espíritas, sendo associada a milagres, especialmente “troubles de la vue” (problemas de visão), segundo fontes espíritas. Sua filosofia espiritista enfatizava o amor, a caridade e a ideia da sobrevivência da alma após a morte. Após sua morte, há relatos espiritistas que afirmam que ela se “materializou” em sessões mediúnicas, para mostrar a continuidade da vida após a morte.

Faleceu em 15 de abril de 1908, em Paris, França. Está sepultada no Cemitério do Père-Lachaise (Divisão 94), em Paris.



[1] Biografia obtida através do Chat GPT