Allan Kardec
O jornal Univers, em sua
edição de 13 de abril passado, traz um artigo do abade Chesnel em que a questão
do Espiritismo é longamente discutida. Nós o teríamos deixado de lado, como o
fazemos a tantos outros aos quais não ligamos nenhuma importância, se se
tratasse de uma dessas diatribes grosseiras que revelam, da parte de seus
autores, a mais absoluta ignorância daquilo que atacam. Temos a satisfação de
reconhecer que o artigo do abade Chesnel é redigido num espírito completamente
diferente. Pela moderação e conveniência da linguagem ele merece uma resposta,
tanto mais necessária quanto o artigo contém um erro grave e pode dar uma ideia
muito falsa, quer do Espiritismo em geral, quer em particular do caráter e do
objetivo dos trabalhos da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Eis o
artigo na íntegra:
Todos conhecem o espiritualismo do Sr. Cousin, essa
filosofia destinada a substituir lentamente a religião. Sob o mesmo título,
hoje possuímos um corpo de doutrinas reveladas, que pouco a pouco se vai
completando, e um culto muito simples, é verdade, mas de eficácia maravilhosa,
pois que poria os devotos em comunicação real, sensível e quase permanente com
o mundo sobrenatural.
Esse culto tem reuniões periódicas, iniciadas pela
invocação de um santo canonizado. Depois de constatada, entre os fiéis, a
presença de São Luís, rei da França, pedem-lhe que proíba a entrada dos
Espíritos malignos ao templo e leem a ata da sessão anterior. Em seguida, a
convite do presidente, um médium se aproxima do secretário encarregado
de anotar as perguntas feitas por um dos fiéis e as respostas que serão ditadas
ao médium pelo Espírito invocado. A assembleia assiste gravemente,
piedosamente, a essa cena de necromancia, por vezes bastante longa e, quando a
ordem do dia se esgota, as pessoas se retiram mais convencidas do que nunca da
veracidade do espiritualismo. No intervalo entre duas sessões, cada fiel
aproveita a ocasião para manter um comércio assíduo, mas privado, com os
Espíritos que lhe são mais acessíveis ou mais queridos. Os médiuns se
multiplicam e quase não existem segredos na outra vida que eles não acabem por
penetrar. Uma vez revelados aos fiéis, esses segredos não são ocultados ao
público. A Revue spiritualiste, que é publicada regularmente todos os
meses, não recusa nenhuma assinatura profana e quem quiser poderá comprar os
livros que contêm o texto revelado, com seu autêntico comentário.
Seríamos levados a crer que uma religião que consiste
unicamente na evocação dos mortos fosse muito hostil à Igreja Católica, que
jamais deixou de proibir a prática da necromancia. Mas esses pensamentos
mesquinhos, por mais naturais que pareçam, não são menos estranhos,
assegura-se, ao coração dos espiritualistas. Eles fazem justiça ao Evangelho e
a seu Autor; confessam que Jesus viveu, agiu, falou e sofreu como narram os
nossos quatro evangelistas. A doutrina evangélica é verdadeira, mas essa
revelação, de que Jesus foi o instrumento, longe de excluir o progresso, deve
ser completada. É o espiritualismo que dará ao Evangelho a sã interpretação que
lhe falta e a complementação que ele espera há dezoito séculos.
Entretanto, quem demarcará os limites ao progresso do
Cristianismo ensinado, interpretado e desenvolvido tal qual o é pelas almas
desprendidas da matéria, estranhas às paixões terrenas, aos nossos preconceitos
e aos interesses humanos? O próprio infinito se nos desdobra. Ora, o infinito
não tem limites e tudo nos leva a esperar que a revelação do infinito será
continuada sem interrupção; à medida que se escoarem os séculos ver-se-ão
revelações acrescidas a revelações, sem que jamais se esgotem esses mistérios,
cuja extensão e profundidade parece aumentarem à medida que se liberam da
obscuridade que até agora os envolvia.
Daí a consequência de que o espiritualismo é uma
religião, porque nos põe intimamente em relação com o infinito e absorve,
alargando-o, o Cristianismo que, de todas as formas religiosas, presentes ou
passadas, é, como facilmente se confessa, a mais elevada, a mais pura e a mais
perfeita. Mas engrandecer o Cristianismo é tarefa difícil, que não pode ser
realizada sem derrubar as barreiras por detrás das quais ele se mantém
entrincheirado. Os racionalistas não respeitam nenhuma barreira; menos ardentes
ou melhor avisados, os espiritualistas só encontram duas, cuja redução parece
indispensável, a saber: a autoridade da Igreja Católica e o dogma das penas
eternas.
Esta vida constitui a única prova que ao homem é dado
atravessar? A árvore ficará eternamente do lado em que caiu? O estado da alma,
após a morte, é definitivo, irrevogável e eterno? Não, responde a necromancia
espiritualista. A morte nada acaba, tudo recomeça. Para cada um de nós a morte
é o ponto de partida de uma encarnação nova, de uma nova vida e de uma nova
experiência.
Segundo o panteísmo alemão, Deus não é o ser, mas o
tornar-se eterno. Seja o que for de Deus, para os espiritualistas parisienses o
homem não tem outro destino senão tornar-se progressivo ou regressivo, conforme
seus méritos e obras. A lei moral ou religiosa tem uma verdadeira sanção nas
outras vidas, onde os bons são recompensados e os maus punidos, mas durante um
período mais ou menos longo, de anos ou de séculos, e não por toda a
eternidade.
Seria o espiritualismo a forma mística de erro de que o
Sr. Jean Reynaud é o mais lídimo representante? Talvez. É permitido ir mais
longe e dizer que entre o Sr. Reynaud e os novos sectários existe um laço mais
estreito que o da comunidade de doutrinas? Talvez ainda. Mas essa questão, por
falta de informações seguras, não será aqui resolvida de maneira decisiva.
Mais que o parentesco ou as alianças heréticas do Sr.
Jean Reynaud, o que importa muito mais é a confusão de ideias, de que é sinal o
progresso do espiritualismo; é a ignorância em matéria de religião que torna
possível tanta extravagância; é a leviandade com que homens, aliás estimáveis,
acolhem essas revelações do outro mundo, que não possuem nenhum mérito, nem mesmo
o da novidade.
Não é necessário remontar a Pitágoras e aos sacerdotes
egípcios para descobrirmos as origens do espiritualismo contemporâneo.
Encontrá-las-emos ao manusear as atas do magnetismo animal.
Desde o século XVIII a necromancia já desempenhava um
grande papel nas práticas do magnetismo e, vários anos antes que se
manifestassem os Espíritos batedores na América, dizia-se que certos
magnetizadores franceses obtinham, da boca dos mortos ou dos demônios, a
confirmação das doutrinas condenadas pela Igreja, notadamente a dos erros de
Orígenes, relativos à conversão futura dos anjos maus e dos réprobos.
Igualmente é preciso dizer que o médium espiritualista,
no exercício de suas funções, pouco difere do sujeito nas mãos do
magnetizador, e que o círculo abraçado pelas revelações do primeiro também não
ultrapassa aquele que é delimitado pela visão do segundo.
Os ensinamentos que a curiosidade pública obtém nos
negócios privados, por meio da necromancia, em geral nada revelam além daquilo
que antes já era sabido. A resposta do médium espiritualista é obscura nos
pontos em que nossas pesquisas pessoais não puderam esclarecer; é clara e
precisa naquilo que bem conhecemos; muda em tudo quanto escapa aos nossos
estudos e esforços. Numa palavra, parece que o médium tem uma visão magnética
de nossa alma, mas nada descobre além do que nela se encontra gravado. Mas essa
explicação, que parece muito simples, está entretanto sujeita a graves
dificuldades. Supõe, com efeito, que uma alma possa ler naturalmente no fundo
de outra alma, sem o concurso de sinais e independentemente da vontade daquele
que, à primeira vista, se tornasse um livro aberto e muito legível. Ora, os
anjos bons ou maus naturalmente não possuem esse privilégio, nem quanto a nós,
nem nas relações diretas que mantêm entre si. Somente Deus penetra
imediatamente os Espíritos e perscruta até o fundo dos corações mais
obstinadamente fechados à sua luz.
Se os mais estranhos fatos espiritualistas que se contam
são autênticos, será preciso, para os explicar, que se recorra a outros
princípios. Esquece-se com frequência que esses fatos geralmente se referem a
um objeto que preocupa fortemente o coração ou a inteligência, que provocou
longas pesquisas e do qual muitas vezes falamos fora da consulta
espiritualista. Nessas condições, que não devem ser perdidas de vista, um certo
conhecimento das coisas que nos interessam não ultrapassa absolutamente os
limites naturais do poder dos Espíritos.
Seja como for, no espetáculo que hoje nos oferecem nada
mais há que a evolução do magnetismo, que se esforça por tornar-se uma
religião.
Sob a forma dogmática e polêmica que deve a nova religião
ao Sr. Jean Reynaud, ela incorreu na condenação do Concílio de Périgueux, cuja
autoridade, como todos estão lembrados, foi gravemente negada pelo culpado.
Na forma mística que hoje assume em Paris, ela merece ser
estudada, pelo menos como sinal dos tempos em que vivemos. O espiritualismo já
recrutou um certo número de homens, entre os quais diversos são honrosamente
conhecidos no mundo. Esse poder de sedução que ele exerce, o lento, mas
ininterrupto progresso, que lhe é atribuído por testemunhas dignas de fé, as
pretensões que apregoa, os problemas que apresenta, o mal que pode fazer às
almas, eis, sem dúvida, motivos por demais reunidos para atrair a atenção dos
católicos. Guardemo-nos de atribuir à nova seita mais importância do que
realmente merece. Mas, para evitar o exagero, que tudo amplia, não caiamos
também na mania de negar ou de amesquinhar todas as coisas. Nolite omni spiritui credere, sed probate
spiritus si ex Deo sint: Quoniam multi pseudoprophetoe exierunt in mundum[2]. (I Joan. IV. 1).
Abade François
Chesnel
Senhor abade,
O artigo que publicastes no Univers,
relativamente ao Espiritismo, contém vários erros que importa retificar e que procedem,
fora de dúvida, de um incompleto estudo da matéria.
Para os refutar a todos, fora
preciso retomar, desde o princípio, os diversos pontos da teoria, bem como os
fatos que lhe servem de base, o que absolutamente não tenho a intenção de fazer
aqui.
Limito-me, pois, aos pontos
principais.
Fizestes bem em reconhecer que
as ideias espíritas “recrutaram um certo número de homens honrosamente conhecidos
no mundo”. Esse fato, cuja realidade ultrapassa de muito aquilo que acreditais,
incontestavelmente merece a atenção de todo homem sério, pois tantas
personalidades, eminentes pela inteligência, pelo saber e pela posição social
não se apaixonariam por uma ideia despida de algum fundamento. A conclusão
natural é que no fundo de tudo isso deve haver alguma coisa.
Talvez objeteis que certas
doutrinas, meio religiosas, meio sociais, nos últimos anos encontraram
sectários nas próprias fileiras da aristocracia intelectual, o que não as
impediu de cair no ridículo. Assim, pois, os homens de inteligência podem se
deixar seduzir pelas utopias. A isso responderei que as utopias têm o seu tempo:
cedo ou tarde a razão lhes faz justiça. Assim será com o Espiritismo, se ele
não for uma utopia. Mas se for uma verdade, triunfará de todas as oposições, de
todos os sarcasmos; direi mesmo, de todas as perseguições, se estas ainda
pertencessem ao nosso século, e os detratores nada aproveitarão. Custe o que
custar, seus opositores serão obrigados a aceitá-lo, como aceitaram tantas coisas
contra as quais se havia protestado supostamente em nome da razão. O
Espiritismo é uma verdade? O futuro o julgará. Parece, no entanto, que já se
pronuncia, tal a rapidez com que essas ideias se propagam. E, notai bem, não é
na classe ignorante e analfabeta que se encontram aderentes, mas, bem ao contrário,
entre as pessoas esclarecidas.
É de notar-se ainda que todas as
doutrinas filosóficas constituem obra de homens, imbuídos de ideais mais ou
menos grandes, mais ou menos justas; todas têm um chefe, em torno do qual se
agruparam outros homens que partilham do mesmo ponto de vista. Quem é o autor
do Espiritismo? Verdadeira ou falsa, quem imaginou essa teoria? É verdade que
se procurou coordená-la, formulá-la, explicá-la. Mas quem concebeu a ideia
primeira? Ninguém; ou, melhor dizendo, todo mundo, porque todos puderam ver, e
os que não viram foram aqueles que não quiseram ver ou o quiseram à sua
maneira, sem sair do círculo das ideias preconcebidas, o que fez com que
vissem e julgassem mal. O Espiritismo decorre de observações que cada um pode
fazer e que não constituem privilégio de ninguém, o que explica a sua irresistível
propagação. Não é o produto de nenhum sistema individual, e é isso que o
distingue de todas as outras doutrinas filosóficas.
Dissestes que essas revelações
do outro mundo nem mesmo têm o mérito da novidade. Seria, pois, um mérito a novidade?
Quem alguma vez pretendeu que fosse uma invenção moderna? Sendo uma consequência
da natureza humana, e ocorrendo pela vontade de Deus, essas comunicações fazem
parte das leis imutáveis pelas quais Ele rege o mundo; devem ter existido, pois,
desde que o homem existe na Terra. Eis por que as encontramos na mais remota Antiguidade,
entre todos os povos, tanto na história profana quanto na história sagrada. A
ancianidade e a universalidade dessa crença são argumentos em seu favor. Daí a tirar
conclusões desfavoráveis seria, acima de tudo, faltar de todo com a lógica.
Em seguida dissestes que a
faculdade dos médiuns pouco difere da dos sujeitos na mão do
magnetizador, de outra maneira dito sonâmbulo; mas admitamos até que haja
perfeita identidade. Qual poderia ser a causa dessa admirável clarividência sonambúlica
que não encontra obstáculo nem na matéria nem na distância, e que se exerce sem
o concurso dos órgãos da visão? Não seria a mais patente demonstração da
existência e da individualidade da alma, pivô da religião? Se eu fosse
sacerdote, e se durante o sermão quisesse provar que há em nós algo mais que o
corpo, demonstrá-lo-ia de maneira irrecusável pelos fenômenos do sonambulismo,
natural ou artificial. Se a mediunidade nada mais é que uma variedade do
sonambulismo, nem por isso seus efeitos são menos dignos de observação. Neles
eu encontraria uma prova a mais em favor de minha tese e dela faria uma nova
arma contra o ateísmo e o materialismo. Todas as nossas faculdades são obra de Deus.
Quanto maiores e mais maravilhosas, mais elas atestam o seu poder e a sua bondade.
Para mim, que durante trinta e
cinco anos fiz um estudo especial do sonambulismo; que nele vi uma variedade
não menos profunda de quantas modalidades existem de médiuns, asseguro, como
todos aqueles que não julgam à vista de uma só face do problema, que o médium é
dotado de uma faculdade particular, que não se pode confundir com o sonâmbulo,
e que a perfeita independência de seu pensamento é provada por fatos da maior evidência,
por todos aqueles que se colocam nas condições requeridas para observar sem parcialidade.
Abstração feita das comunicações escritas, qual o sonâmbulo que jamais fez
brotar um pensamento de um corpo inerte? Que produziu aparições visíveis e até
mesmo tangíveis? Que pôde manter um corpo pesado no espaço sem ponto de apoio?
Terá sido por efeito sonambúlico que um médium desenhou, há quinze dias, em
minha casa, na presença de vinte testemunhas, o retrato de uma pessoa jovem,
falecida há dezoito meses, que ele não havia jamais conhecido, retrato reconhecido
pelo pai, que se achava presente na sessão? Será por efeito sonambúlico que uma
mesa responde com precisão às perguntas propostas, inclusive a perguntas
mentais? Certamente, se admitirmos que o médium esteja num estado magnético,
parece difícil acreditar que a mesa seja sonâmbula.
Dizeis que o médium não fala com
clareza senão das coisas que conhece. Como explicar o seguinte fato, e centenas
de outros do mesmo gênero, que se reproduziram inúmeras vezes e que são do meu
conhecimento pessoal? Um de meus amigos, excelente médium psicógrafo, pergunta
a um Espírito se uma pessoa que ele não via há quinze anos ainda pertencia a
este mundo.
“Sim, ela ainda vive; mora em
Paris, à rua tal, número tanto.” Ele vai e encontra a pessoa no endereço
indicado. Foi uma ilusão? Seu pensamento poderia sugerir-lhe essa resposta? Se,
em certos casos, as respostas podem coincidir com o pensamento, é racional concluir
que se trata de uma lei geral? Nisso, como em todas as coisas, os julgamentos
precipitados são sempre perigosos, porque podem ser desmentidos pelos fatos que
não foram observados.
Apesar disso, sr. abade, minha
intenção não é dar aqui um curso de Espiritismo, nem discutir se ele é certo ou
errado. Seria preciso, como o disse há pouco, relembrar os numerosos fatos que
citei na Revista Espírita, bem como as explicações dadas em meus
diversos escritos. Chego, enfim, à parte de vosso artigo que me parece mais
importante. Intitulais vosso artigo: “Uma nova religião em Paris”.
Admitindo que tal fosse, com
efeito, o caráter do Espiritismo, aí haveria um primeiro erro, considerando-se
que ele está longe de circunscrever-se a Paris. Conta milhões de aderentes
espalhados nas cinco partes do mundo e Paris não foi o foco primitivo. Em segundo
lugar, o Espiritismo é uma religião? Fácil
é demonstrar o contrário[3].
O Espiritismo está baseado na
existência de um mundo invisível, formado de seres incorpóreos que povoam o
espaço e que nada mais são do que as almas dos que viveram na Terra ou em outros
globos, onde deixaram os seus invólucros materiais. São esses seres que
havíamos dado, ou melhor, que se deram o nome de Espíritos. Esses seres,
que nos rodeiam incessantemente, exercem sobre os homens, mau grado seu, uma
grande influência; desempenham um papel muito ativo no mundo moral e, até certo
ponto, no mundo físico. O Espiritismo, pois, está em a Natureza e pode-se dizer
que, numa certa ordem de ideias, é uma força, como a eletricidade também o é
sob diferente ponto de vista, assim como a gravitação universal, igualmente.
Ele nos desvenda o mundo dos
invisíveis, como o microscópio nos desvendou o mundo dos infinitamente
pequenos, cuja existência nem suspeitávamos. Os fenômenos cuja fonte é esse mundo
invisível devem ter-se produzido e se produziram em todos os tempos, razão por
que a história de todos os povos lhes faz menção. Apenas os homens, em sua
ignorância, os atribuíram a causas mais ou menos hipotéticas e, a propósito,
deram livre curso à imaginação, como o fizeram com todos os fenômenos cuja natureza
só imperfeitamente conheciam. O Espiritismo, melhor observado desde que se
vulgarizou, vem lançar luz sobre uma multidão de problemas até aqui insolúveis
ou mal resolvidos. Seu verdadeiro caráter é, pois, o de uma ciência e não o de
uma religião, e a prova disso é que conta, entre seus aderentes, homens de
todas as crenças, e que nem por isso renunciaram às suas convicções: católicos
fervorosos, que praticam todos os deveres de seu culto, protestantes de todas
as seitas, israelitas, muçulmanos e até budistas e bramanistas. Há de tudo,
exceto materialistas e ateus, porque essas ideias são incompatíveis com as observações
espíritas. O Espiritismo, pois, repousa sobre princípios gerais,
independentes de toda questão dogmática. É verdade que tem consequências
morais, como todas as ciências filosóficas. Essas consequências são no sentido
do Cristianismo, porque, de todas as doutrinas, o Cristianismo é a mais
esclarecida, a mais pura, razão por que, de todas as seitas religiosas do
mundo, são as cristãs as mais aptas a compreendê-lo em sua verdadeira essência.
O Espiritismo não é, pois, uma
religião. Se o fosse teria seu culto, seus templos, seus ministros. Sem dúvida
cada um pode fazer uma religião de suas opiniões e interpretar à vontade as religiões
conhecidas, mas daí à constituição de uma nova Igreja há uma grande distância e
creio que seria imprudência seguir tal ideia.
Em resumo, o Espiritismo se
ocupa da observação dos fatos e não das particularidades de tal ou qual crença,
da pesquisa das causas, da explicação que esses fatos podem dar de fenômenos
conhecidos, assim na ordem moral como na ordem física, e não impõe nenhum culto
aos seus partidários, como a astronomia não impõe o culto dos astros, nem a
pirotecnia o culto do fogo. Ainda mais: do mesmo modo que o sabeísmo nasceu da
astronomia mal compreendida, o Espiritismo, mal compreendido na Antiguidade, foi
a fonte do politeísmo. Hoje, graças às luzes do Cristianismo, podemos julgá-lo
com mais critério. Ele nos põe em guarda contra os sistemas errôneos, frutos da
ignorância, e a própria religião nele pode haurir a prova palpável de muitas
verdades contestadas por certas opiniões. Eis por que, contrariando a maior
parte das ciências filosóficas, um dos seus efeitos é reconduzir às ideias religiosas
aqueles que se extraviaram num cepticismo exagerado.
A Sociedade a que vos referis
define seu objetivo no próprio título; a denominação Sociedade Parisiense de
Estudos Espíritas não se assemelha ao de nenhuma seita; tão diferente é o seu
caráter que seu estatuto proíbe tratar de questões religiosas; está classificada
na categoria das sociedades científicas, porque, com efeito, seu objetivo é
estudar e aprofundar todos os fenômenos que resultam das relações entre os
mundos visível e invisível; tem seu presidente, seu secretário e seu
tesoureiro, como todas as sociedades; não convida o público às suas sessões;
ali não se faz nenhum discurso, nem coisa alguma que tenha o caráter de um culto
qualquer. Conduz os seus trabalhos com calma e recolhimento, primeiro porque é
uma condição necessária para as observações e, segundo, porque sabe que devem
ser respeitados aqueles que não vivem mais na Terra. Ela os chama em nome de Deus
porque crê em Deus, em sua Onipotência e sabe que nada se faz neste mundo sem a
sua permissão. Abre as sessões com um apelo geral aos Espíritos bons, uma vez
que, sabendo que os há bons e maus, cuida para que estes últimos não venham se
misturar fraudulentamente nas comunicações que recebe e induzi-la em erro. O
que prova isso? Que não somos ateus; mas de modo algum implica que sejamos
partidários de uma religião. Disso deveria ter ficado convencida a pessoa que
vos descreveu o que se passa entre nós, se tivesse acompanhado os nossos
trabalhos e, sobretudo, se os tivesse julgado com menos leviandade e talvez com
espírito menos prevenido e menos apaixonado. Assim, os próprios fatos protestam
contra a qualificação de nova seita que destes à Sociedade, certamente
por não a conhecerdes melhor.
Terminais vosso artigo chamando
a atenção dos católicos para o mal que o Espiritismo pode fazer às almas. Se as
consequências do Espiritismo fossem a negação de Deus, da alma, de sua
individualidade após a morte, do livre-arbítrio do homem, das penas e
recompensas futuras, seria uma doutrina profundamente imoral. Longe disso, ele
prova, não pelo raciocínio, mas pelos fatos, essas bases fundamentais da
religião, cujo inimigo mais poderoso é o materialismo. Mais ainda: por suas consequências
ensina a suportar com resignação as misérias desta vida; acalma o desespero;
ensina os homens a se amarem como irmãos, conforme os divinos preceitos de
Jesus. Se soubésseis, como eu, quantos incrédulos endurecidos ele fez renascer;
quantas vítimas arrancou ao suicídio pela perspectiva da sorte reservada aos
que abreviam a vida, contrariando a vontade de Deus; quantos ódios acalmou,
quantos inimigos aproximou! É a isso que chamais fazer mal às almas? Não; não
podeis pensar assim. Prefiro supor que, se o conhecêsseis melhor, o julgaríeis
de outra maneira. Direis que a religião pode fazer tudo isso. Longe de mim
contestá-lo. Mas acreditais que teria sido melhor, para aqueles que ela
encontrou rebeldes, permanecerem numa incredulidade absoluta? Se o Espiritismo triunfou
sobre eles, se lhes tornou claro o que antes era obscuro, evidente o que lhes
parecia duvidoso, onde o mal? Para mim, em lugar de perder almas, ele as
salvou.
Aceitai etc.
Allan Kardec
[1] REVISTA ESPÍRITA – maio/1859 – Allan Kardec
[2] Não deis crédito a todos os espíritos, mas examinai
se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se espalharam pelo
mundo. (João 4:1)
[3] N. do T.: Em vão se tentará negar o aspecto religioso
do Espiritismo, tomando por base, de forma isolada, o presente raciocínio de
Allan Kardec. Há que se examinar o conjunto de sua obra, a fim de não se chegar
a conclusões precipitadas. Na Revista Espírita de dezembro de 1868 o
Codificador defende de maneira peremptória o caráter religioso da Doutrina
Espírita.

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