sexta-feira, 8 de julho de 2016

A MEDIUNIDADE É UM PRIVILÉGIO?[1]



Luiz Gonzaga Pinheiro
 

Sempre se disse que a mediunidade é um dom de Deus, uma graça, um favor divino. Por que, então, não é um privilégio dos homens de bem? E por que há criaturas indignas que a possuem no mais alto grau e a empregam no mau sentido?
Todas as nossas faculdades são favores que devemos agradecer a Deus, pois há criaturas que não as possuem. Podias perguntar por que Deus concede boa visão a malfeitores, destreza aos larápios, eloquência aos que só a utilizam para o mal. Acontece o mesmo com a mediunidade. Criaturas indignas a possuem porque dela necessitam mais que as outras, para se melhorarem.
Bem tolo é o que assim pensar, ou ousar fazer da mediunidade objeto de suas satisfações pessoais.
A mediunidade indica, quase sempre, pesados títulos a resgatar, através das moedas do esforço e do aprimoramento colocadas a favor do próximo, quando o devedor se exime das angustiantes promissórias que o chumbam à retaguarda.
Admitir a mediunidade por outro prisma é resvalar no orgulho, tropeçar na vaidade e cair no fracasso.
É sabido que Deus fornece aos devedores valorosos empréstimos, que, aceitos e cultivados, representam a chave das algemas com as quais se imantam. A doença representa, não raro, a visita de Deus aos nossos sítios ou a resposta a nossos pedidos de saúde espiritual.
A dor física ou moral, criação nossa, há de sempre retornar aos nossos caminhos, no serviço de terraplenagem para rumos mais altos. A mediunidade representa a oportunidade santa para um acerto de contas com a vida, ocasião em que deve funcionar como um buril nas mãos hábeis do escultor.
Necessário é que se entenda que não há privilégios na lei divina. Recebe-se o que foi doado. A vida traz de volta aquilo que se lhe oferta. Considerar o médium como um predestinado, privilegiado ou santo, é desconsiderar a justiça divina, que pugna pela equidade.
Devemos, antes de tudo, entender o médium como aquele que tenta resgatar uma hipoteca de avultada quantia, razão pela qual necessita de apoio e compreensão. Tecer-lhe elogios, antecipar-lhe os primeiros lugares, buscá-lo em consultas vulgares é colocar-lhe graxa aos pés.
Diante do companheiro que usa a intermediação com o invisível, destacando os interesses mundanos ou pessoais, há de se lamentar o desvio da função, o tempo desperdiçado, o agravamento da dívida. Ninguém que mercadeje os talentos divinos fica sem a resposta da dor.
E a resposta da dor é a que todos conhecemos pelas nossas incoerências e desvios nas propriedades da alma. Bons e maus médiuns existem nas incontáveis atividades humanas. Todavia, resgata-se o mal praticado pelo bem operado, o ódio curtido pelo amor vivido, o trabalho negado pelo esforço dobrado. Mediunidade não é privilégio. Privilégio é trabalhar e sofrer por amor a Jesus Cristo, como afirma o iluminado mentor Emmanuel.




quinta-feira, 7 de julho de 2016

VAMOS TODOS PARA O UMBRAL?[1]



 
Marcus De Mario é Escritor, Educador e Consultor

 Muitos espíritas acreditam que todos os homens e mulheres, após a desencarnação, deverão passar pelo Umbral, região espiritual caracterizada pelo sofrimento. Será isso verdade? Como nem sempre as afirmações possuem base doutrinária segura, vamos neste estudo tentar melhor compreender o processo da volta ao mundo espiritual. E para isso nada melhor do que iniciar com Allan Kardec, o codificador do Espiritismo, trazendo para nossas reflexões o capítulo 3 da 2ª parte de O Livro dos Espíritos, “Retorno da Vida Corpórea à Vida Espiritual”.
Logo no início, a partir da questão 149, ficamos sabendo que a morte nada mais é do que o retorno da Alma ao mundo espiritual, onde ela mantém a sua individualidade e faz sua identificação através do perispírito, ou corpo espiritual. Na questão 150 b os benfeitores espirituais da humanidade ensinam que levamos de volta o desejo de ir para um mundo melhor, e quanto mais pura for a Alma mais ela estará desligada das coisas materiais. Essa informação já provoca um questionamento: se o indivíduo, homem ou mulher, que é a Alma imortal, teve uma existência dedicada ao bem e vivendo com simplicidade, levando consigo a aspiração de conseguir elevação espiritual por isso, por que haveria de passar, mesmo que por um minuto, nas zonas umbralinas?
Na questão 154 ficamos sabendo que a Alma nada sofre no momento da separação do corpo, pois o processo é gradual.
Comentando esse processo, na questão 155, temos a seguinte explicação de Kardec:
Durante a vida o Espírito está ligado ao corpo pelo seu envoltório material ou perispírito; a morte é apenas a destruição do corpo, e não desse envoltório, que se separa do corpo quando cessa a vida orgânica. A observação prova que no instante da morte o desprendimento do Espírito não se completa subitamente; ele se opera gradualmente, com lentidão variável, segundo os indivíduos.
Para uns é bastante rápido e pode dizer-se que o momento da morte é também o da libertação, que se verifica logo após. Noutros, porém, sobretudo naqueles cuja vida foi toda material e sensual, o desprendimento é muito mais demorado, e dura às vezes alguns dias, semanas e até mesmo meses, o que não implica a existência no corpo de nenhuma vitalidade, nem a possibilidade de retorno à vida, mas a simples persistência de uma afinidade entre o corpo e o Espírito, afinidade que está sempre na razão da preponderância que, durante a vida, o Espírito deu à matéria. É lógico admitir que quanto mais o Espírito estiver identificado com a matéria, mais sofrerá para separar-se dela. Por outro lado, a atividade intelectual e moral e a elevação dos pensamentos operam um começo de desprendimento, mesmo durante a vida corpórea, e quando a morte chega é quase instantânea.
Lembremos que Allan Kardec muito observou e estudou sobre a realidade da vida após a morte, e suas pesquisas sempre tiveram o critério do método científico, nada aceitando que não explicasse os fatos e não estivesse de acordo com a universalidade do ensino dos Espíritos (ou Almas). Com esses critérios ele esclarece que aquele/a que viveu no campo moral, utilizando a inteligência para o bem, mantendo elevação de pensamento, já mesmo no corpo inicia seu desprendimento, lançando-se à dimensão espiritual com naturalidade e rapidez. Então, voltamos a indagar: por que uma pessoa do bem, uma pessoa altruísta, que domina a si mesmo, teria que passar pelo Umbral após a morte do corpo?
Será que Chico Xavier, Irmã Dulce, Madre Tereza de Calcutá, Francisco de Assis, Bezerra de Menezes, Gandhi e tantos outros benfeitores encarnados, homens e mulheres que semearam o bem e o amor, que combateram em si mesmos os vícios e foram campeões de virtudes, ao desencarnarem, tiveram que passar pelo Umbral? Se a resposta for positiva, outra indagação: e a justiça divina, onde fica? Então nossos esforços em sermos melhores, mais moralizados e espiritualizados não nos isenta de sofrer, mesmo que pouco, na volta à condição plena de Espírito? A razão nos diz que não pode ser assim, que a lei é de evolução, e que os atos de caridade nos dão os méritos necessários para sermos recebidos como vencedores de nós mesmos e do mundo. Deus não poderia ser injusto para com seus filhos que, famosos ou não, cumpriram integralmente com suas missões de melhorar a si mesmos e ao mundo.
Reproduzamos agora a questão 160: “O Espírito encontra imediatamente aqueles que conheceu na Terra e que morreram antes dele? – Sim, segundo a afeição que tenham mantido reciprocamente. Quase sempre eles o vêm receber na sua volta ao mundo dos Espíritos, e o ajudam a libertar-se das faixas da matéria. Vê também a muitos que havia perdido de vista durante a passagem pela Terra; vê os que estão na erraticidade, bem como os que se encontram encarnados”.
Tudo está mergulhado no amor, e a misericórdia, bondade e justiça divinas não poderiam funcionar diferente: os que nos amam nos aguardam e recebem do outro lado da vida. Afeições cultivadas ao longo da existência terrena granjeiam para nós sólidas amizades, outras tantas afeições que vão nos amparar, motivo pelo qual podemos perguntar: Se temos tantos que nos amam, que nos querem o bem, que nos são gratos, e eles podendo (e podem) interceder a nosso favor, por que deveríamos primeiro sofrer, para só depois podermos conviver com eles?
 
Perturbação espiritual
O que confunde muitos espíritas de pouco estudo, é o item, no mesmo capítulo de O Livro dos Espíritos, sobre a “Perturbação Espírita”. Entretanto, a leitura atenta das duas primeiras questões já nos esclarece, não deixando margem a qualquer dúvida:
163. Deixando o corpo, a alma tem imediata consciência de si mesma?
– Consciência imediata não é o termo: ela fica perturbada por algum tempo.
164. Todos os Espíritos experimentam, no mesmo grau e pelo mesmo tempo, a perturbação que se segue à separação da alma e do corpo?
– Não, pois isso depende da sua elevação. Aquele que já está depurado se reconhece quase imediatamente, porque se desprendeu da matéria durante a vida corpórea, enquanto o homem carnal, cuja consciência não é pura, conserva por muito mais tempo a impressão da matéria.
Perturbação espiritual no após morte não significa passar pelo Umbral, e sim aquele momento, de maior ou menor tempo, de maior ou menor intensidade, de readquiri a própria consciência, o que vai depender da elevação moral/espiritual da pessoa (Espírito), do seu maior ou menor grau de apego à matéria. Temos, nesse sentido, o testemunho de milhares de depoimentos dos Espíritos através da mediunidade, onde muitos declaram que não se lembram do que lhes aconteceu, mas apenas que caíram em sono mais ou menos profundo, vindo a despertar num posto de socorro ou colônia espiritual, já atendidos e amparados.
Bem, de tudo o que pudemos refletir, podemos concluir que nem todo Espírito, após a desencarnação, tem que passar, necessariamente, pelo Umbral. Todos teremos, de forma mais leve ou não, a perturbação espiritual, mas aquele que pratica o bem e ama o próximo, readquire sua consciência de forma quase imediata, sendo recebido pelos seus amigos e familiares, todos em júbilo, por poderem compartilhar com ele as benesses da lei divina, que reconhece o justo do injusto, o bom do mau, como só poderia acontecer em face da razão e da lógica.
 
 
Fonte: Orientação Espírita




quarta-feira, 6 de julho de 2016

Os Obsessores, gente como a gente[1]


Hermínio C. Miranda


Qualquer abordagem à complexa problemática da obsessão deve começar, a meu ver, como uma atitude preliminar de humildade e amor fraterno. Ainda que isto possa parecer mera pregação com um toque de falsa modéstia, não é nada disso. A humildade constitui ingrediente indispensável a qualquer tarefa de natureza mediúnica, dado que é ainda bastante limitado o conhecimento dessa preciosa faculdade humana. Temos de nos apresentar diante da tarefa com a honesta intenção de aprender com o seu exercício, ainda que, paradoxalmente, munidos de todo o conhecimento teórico que for possível adquirir previamente. Quando a gente pensa que já sabe tudo sobre a mediunidade, eis que ela se revela sob aspectos que ainda não tínhamos percebido ou apresenta facetas desconhecidas e aparentemente inexplicáveis. É como se cada sessão tivesse uma espécie de individualidade diferente de todas as demais, ainda que semelhante em suas características básicas. Tal como as pessoas, ou seja, tão iguais umas às outras e, ao mesmo tempo, tão diferentes.
E por falar em pessoas, vamos colocar a segunda preliminar, a de que o trato com a obsessão deve ser iluminado pelo amor fraterno. Por uma razão tão simples e óbvia que parece infantil, mas que se põe como de vital importância para o bom êxito do trabalho pretendido, ou seja, a de que os espíritos são gente como a gente. E gente que sofre e que, portanto, precisa de compreensão e paciência. São pessoas em conflito consigo mesmas e, portanto, com os outros, com o mundo, com a vida, com Deus e com o próprio amor. Creio que é em Emmanuel que a gente lê que o ódio é o amor enlouquecido. É verdade e tanto é verdade que mesmo esse amor enlouquecido ainda é amor, como temos tido oportunidade de observar tantas vezes.
Lembro-me de um caso desses em que foi por esse caminho que encontrei o acesso que buscava ao coração do manifestante enfurecido daquela noite. Sua desesperada indignação dirigia-se a uma mulher que, aparentemente, manipulara impiedosamente suas emoções no passado. Chegara para ele a hora da vingança e ele a exercia com toda a força do seu ódio, tentando convencer-se de que o fazia com o maior dos prazeres. Agora, sim, tinha-a em seu poder! Sustentava-se no rancor secular e era isso mesmo que ele dizia. Sem aquele ódio, não seria nada nem ninguém, pois aquilo acabara constituindo a razão de ser da sua existência. Em situações como essa, o ódio e o ilusório prazer da vingança funcionam como biombos atrás dos quais a gente esconde pelo menos por algum tempo, as próprias frustrações e procura abafar a voz incorruptível da consciência. Enquanto procuramos cobrar faltas cometidas contra nós, esquecemos dos nossos crimes e afrontas à lei divina.
Esse era o cenário e esse o drama que tínhamos diante de nós. Que estava ele na posição de um obsessor, estava. Não se importava que assim o considerássemos. A vingança, no seu entender, era direito que ninguém poderia contestar-lhe. ‘Ela’ não errou? A lei não diz que somos todos responsáveis pelos atos praticados? E não diz mais que quem fere com a espada, com a espada será ferido? “Está aí no ‘seu Evangelho!’”, dizem vitoriosos. Ela é uma ‘peste’. Você nem imagina como aquela mulher é ruim! E agora que estou aqui, cobrando a minha parte, vêm vocês com peninha dela! E sabe duma coisa? Não se meta nisso, não. O caso é comigo. Deixa comigo que eu resolvo!
Esse é o tom, Como fazê-lo mudar, não apenas o discurso, mas o procedimento, a maneira de avaliar a situação e de redirecionar suas emoções em tumulto? E perguntam, às vezes: “Você não acha que eu tenho razão?” Até que sim, se examinarmos o problema na estreiteza do seu contexto pessoal. É compreensível o rancor, gerado por uma dolorosa decepção com a pessoa em quem confiou e à qual entregou seu próprio coração e até sua vida. Mas esse espaço mental é exíguo demais para se colocarem todos os dados do problema. A vida não é uma só, a lei não é punitiva, mas educativa e, acima de tudo, não há sofrimento inocente, a não ser nos grandes lances do devotamento ao próximo, nas tarefas missionárias. Por outro lado, se a lei permite ou tolera a vingança, embora não a aprove jamais, é porque aquele que erra se expõe à correção. Os obsessores mais ‘experientes’ – confesso que não gosto do termo obsessor – sabem que somente conseguem ‘cobrar’ aquilo que têm como crédito pessoal, precisamente porque, segundo ensinou o Cristo, o “pecador se torna escravo do pecado” e não sai de lá (das penas da dor) enquanto não pagar até o último centavo, ou seja, enquanto restar um reclamo na sua própria consciência. Não é preciso que ninguém cobre, mesmo porque a dívida é com a lei, representada em cada um de nós no silêncio da intimidade, mas o vingador não quer saber de tais sutilezas.
Todo aquele que se expõe ao duro retorno do reajuste pode estar certo de haver-se atritado com a lei anteriormente. A conclusão lógica e inescapável é a de que, quando o nosso querido passou pelo dissabor de uma traição ou do abandono, estava na fase do retorno, na sofrida simetria de seus equívocos anteriores. Isso, porém, nunca estamos prontos para admitir quando nos encontramos na dolorosa postura do obsessor. Achamos, então, que esta é a nossa vez. “Que perdão, nada! Sempre que perdoei me dei mal”, costuma dizer. “Vence no mundo, aquele que grita, impõe e domina, não o que abaixa a cabeça e marca a si mesmo com o carimbo da covardia”.
Em suma: o nosso querido obsessor não era diferente de nenhum de nós, ainda prisioneiros de paixões milenares que repercutem e ecoam de século em século e vão aos milênios. É um ser humano, uma pessoa, gente como a gente. O que ele deseja, embora nunca o admita espontaneamente, é que tenhamos paciência para ouvi-lo, compreendê-lo, cuidar da sua dor, ainda que, conscientemente, também não a reconheça. Por isso, após todo o seu catártico destampatório, ele se mostrava convicto de estar coberto de razão e, por isso, vitorioso no seu valente debate com o grupo. Só nesse ponto, contudo, tinha alguma condição para nos ouvir. Até então fora dono absoluto da palavra, dos argumentos, da indignação, da situação, enfim. Ele perseguia a moça porque queria e porque podia fazê-lo e estamos conversados.
Estava, portanto, dando a conversa como encerrada e pronto para retomar logo sua tarefa de ficar à espreita da sua vítima, como o “gato que vigia o rato”, no preciso e curioso dizer de Allan Kardec.
É nesses momentos, contudo, que a inspiração parece funcionar melhor e, por isso, nosso doutrinador comentou, como quem apenas dá conta de um fato óbvio por si mesmo: “Isso tudo quer dizer, então, que você ainda a ama, não é?” Recuperado do momentâneo aturdimento, ele teve a honestidade e a bravura de reconhecer que sim, ainda a amava, a despeito de tudo. Tínhamos chegado, afinal, ao seu coração, ao âmago da sua angústia, ao núcleo de suas dores e até de suas esperanças. E mais uma vez tínhamos diante de nós não um implacável obsessor convencido do seu legítimo direito de cobrar uma falta cometida contra si mesmo, mas um ser humano igualzinho a nós, sofrido, solitário, perdido na sua dor, mas, principalmente, no seu ódio que, afinal de contas, não passava de um grande e inesquecível amor enlouquecido. Pois não é isso mesmo que acontece com a gente? Ou, pode acontecer? Ou já aconteceu? Não é um irmão (ou irmã) que ali está ansioso, na secreta esperança de que consigamos, afinal, convencê-lo de que ele ainda ama? Por isso sempre digo a eles, e a mim também, que amar é um estranho verbo, porque não tem passado. Você não diz que amou alguém. Se amou mesmo, de verdade, então continua amando. Mário de Andrade dizia que amar é verbo intransitivo e tinha razão, mas é também defectivo, porque não se conjuga em tempo passado. O amor é para sempre. Por isso, também dizia Edgar Cayce que o amor não é possessivo, ele apenas é. Claro, ele é da essência de Deus e, portando, do ser, isto é, de todos nós. E ser é verbo e é substantivo.
Foi por essas e outras que acabei descobrindo que o amor é também da essência da tarefa dita de desobsessão e que prefiro conceituar como diálogo com atormentados companheiros de jornada evolutiva que, eventualmente, estejam vivendo dolorosos papéis de obsessor. Que não se sentir em condições pessoais de ver no chamado obsessor uma pessoa humana como a gente mesmo, então deve dedicar-se a outra tarefa no grupo. A seara é imensa, não falta trabalho para ninguém. Já alertava o Cristo, ao seu tempo, que era necessário orar para que o Pai mandasse mais obreiros, sempre escassos e insuficientes. Com a sua deslumbrante lucidez, Paulo explicitou para a posteridade as numerosas tarefas à nossa disposição em qualquer grupamento humano que se propõe a servir ao próximo. É só ler, para recordar, os capítulos 12, 13 e 14 da sua Primeira Epístola aos Coríntios, e que constituem o primeiro “Livro dos Médiuns” do Cristianismo. Aqueles que desejarem devotar-se ao trabalho gratificante da desobsessão que leiam de maneira especial, demorada e meditada, o capítulo 13, no qual o tema tratado é o da caridade, ou seja, o amor atuante.
Ao colocar o amor como alicerce de sua doutrina, Jesus tem sido, através do tempo, o grande doutrinador de nossas obsessões. Se conseguirmos passar para alguém um pouco do tanto que nos deu, muitos serão os novos amigos a seguir junto de nós rumo à paz definitiva. Lembro-me da funda emoção de uma noite dramática quando um desses companheiros desarvorados rendeu-se ao apelo do amor fraterno e declarou, em pranto, que, se pudesse, colocaria em cima da mesa a oferenda do seu próprio coração. Sabia, a esta altura, que o nosso ele já o tinha.
Por tudo isso e mais o que não ficou dito, entendo que, na tarefa da chamada desobsessão, o ingrediente básico é o amor, que sempre saberá como encontrar o que dizer ao ser humano que temos diante de nós na mesa mediúnica. Doutrinação é palavra inadequada para caracterizar esse trabalho. Que teria eu a ensinar ao companheiro ou à companheira que comparece ao grupo mediúnico? Não há como ensinar pontos doutrinários teóricos a quem está vivendo a realidade, que conhecemos mais pelo estudo do que pela vivência. Eis porque costumo dizer que muito pouco ou quase nada tenho ensinado às pessoas desencarnadas que comparecem aos nossos trabalhos mediúnicos. Em compensação, devo a todos eles ensinamentos preciosos, recortados diretamente das páginas pulsantes da vida. E por isso, nunca saberia expressar toda a minha gratidão pela oportunidade que me foi concedida de trabalhar junto dos queridos “obsessores”...




[1] As duas faces da vida – textos reunidos / Hermínio C. Miranda – Bragança Paulista, SP: Instituto Lachâtre, 2013.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Quem é o Espírito de Verdade?[1]



Alessandro Viana Vieira de Paula


Consta do Evangelho de João, capítulo 16, versículos 12 e 13, a seguinte promessa de Jesus: Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não podeis suportar agora. Mas, quando vier aquele Espírito de Verdade, ele vos guiará em toda a verdade, porque não falará de si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará o que há de vir.
Sabemos que Jesus, por conta da limitação intelectual e moral da criatura humana, não pôde dizer tudo à Sua época. Por isso, muitas vezes, utilizou de alegorias e ensinou através das parábolas, mas, na Santa Ceia, no trecho citado do Evangelho de João, afirmou que viria o Espírito de Verdade para nos guiar através da verdade.
Encontramos na Codificação Espírita diversas mensagens atribuídas ao Espírito de Verdade, e sabemos que Ele é o responsável pela vinda da veneranda Doutrina Espírita e atuou diretamente no período da Codificação, inspirando Allan Kardec e dirigindo espiritualmente sua tarefa.
Há, no meio espírita, basicamente, três posicionamentos sobre quem seria o Espírito de Verdade: 1. seria o próprio Cristo; 2. seria João Batista; 3. seria um grupo de Espíritos elevados atuando sob a direção do Cristo.
Na Revista Espírita, de março e junho de 1862, há a evocação de dois membros da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas que regressaram à Espiritualidade: Sr. Jobard e Sr. Sanson.
O Sr. Jobard, ao ser questionado por Allan Kardec sobre os Espíritos que estava vendo, diz: Vejo, principalmente, Lázaro e Erasto; depois, mais afastado, o Espírito de Verdade, planando no espaço; depois uma multidão de Espíritos amigos que vos cercam, agradecidos e benevolentes. Sede felizes, amigos, porque boas influências vos disputam às calamidades do erro (março de 1862).
O Sr. Sanson, por sua vez, diz que estava vendo o Espírito de Verdade, Santo Agostinho, Lamennais, Sonnet, São Paulo, Luís e outros amigos, conforme consta da Revista Espírita de junho de 1862.
Diante dessas valorosas informações, podemos excluir a ideia de que o Espírito de Verdade seria um grupo de Espíritos, pois, na verdade, trata-se de um Espírito.
Na obra O Evangelho segundo o Espiritismo, no capítulo VI, encontramos uma das mais belas mensagens do Espírito de Verdade: Venho, como outrora, entre os filhos desgarrados de Israel, trazer a verdade e dissipar as trevas. Escutai-me. O Espiritismo, como outrora a minha palavra, deve lembrar aos incrédulos que acima deles reina a verdade imutável: o Deus bom, o Deus grande, que faz germinar as plantas e que levanta as ondas. Eu revelei a doutrina divina; e, como um segador, liguei em feixes o bem esparso pela humanidade, e disse: “Vinde a mim, todos vós que sofreis!”
(…) Todas as verdades se encontram no Cristianismo; os erros que nele se enraizaram são de origem humana. (…) Espíritas: amai-vos, eis o primeiro ensinamento; instruí-vos, eis o segundo.
Esta mensagem também se encontra em O livro dos Médiuns, no capítulo XXXI, item IX, e no final, numa nota, Allan Kardec diz que ela foi recebida por um dos melhores médiuns da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas e foi assinada pelo Espírito Jesus de Nazaré.
O Codificador fala da elevação e das ideias constantes da mensagem, deixando a cada um a avaliação da autenticidade da autoria.
O conteúdo da mensagem realmente é elevado e também se percebe pelas palavras utilizadas, como, por exemplo... e disse: “Vinde a mim, todos vós que sofreis!”  que somente poderia ter sido ditada pelo Espírito que a assina.
Dada a seriedade do assunto ora tratado, buscamos outras mensagens de autoria do Espírito de Verdade, com o escopo de analisarmos o conteúdo e as palavras usadas, a fim de esclarecermos Sua identidade.
Na Revista Espírita, de dezembro de 1864, há uma mensagem do Espírito de Verdade, onde Ele faz referências à obra O Evangelho segundo o Espiritismo, lançado naquele ano:
Um novo livro acaba de aparecer; é uma luz mais brilhante que vem clarear a vossa marcha. Há dezoito séculos vim, por ordem do meu Pai, trazer a palavra de Deus aos homens de vontade. Esta palavra foi esquecida pelo maior número, e a incredulidade, o materialismo vieram abafar o bom grão que eu tinha depositado em vossa terra.
Há várias moradas na casa do Pai, disse-lhes eu há dezoito séculos. Estas palavras o Espiritismo veio fazê-las compreendidas.
Encontramos, ainda, em O Evangelho segundo o Espiritismo, no capítulo VI, outra magnífica lição do Espírito de Verdade: Eu sou o grande médico das almas, e venho trazer-vos o remédio que vos deve curar. Os débeis, os sofredores e os enfermos são os meus filhos prediletos, e venho salvá-los. Vinde, pois, a mim, todos vós que sofreis e que estais sobrecarregados, e sereis aliviados e consolados.
Dessa forma, perguntamos:
Quem é o grande médico das almas?
Quem trouxe a palavra de Deus aos homens de vontade?
Quem disse: Há muitas moradas na Casa do Pai?
Quem afirmou: Vinde a mim, todos vós que sofreis…?
 
Não há dúvidas.
O Espírito de Verdade é Jesus, que voltou para cumprir a promessa de enviar o Consolador Prometido, de forma que Ele cuidou diretamente da vinda do Espiritismo à Terra, sendo que os demais Espíritos que colaboraram na Codificação, tais como, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, Sócrates, Platão, Paulo, São João Evangelista, Erasto, agiram sob a Sua inspiração direta.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Médiuns ciumentos[1]


 
Cezar Braga Said – Junho/2016
 
O ciúme só traduz mesquinha rivalidade de amor-próprio[2].
Allan Kardec
 
 Não se trata de uma modalidade mediúnica não catalogada por Allan Kardec, em O livro dos Médiuns, mas de uma característica humana que pode atrapalhar, não apenas os labores mediúnicos da pessoa, mas a sua própria vida como um todo.
Sendo assim com filhos, esposa, amigos, companheiros do espaço profissional e com seus pertences pessoais, a criatura acaba criando dificuldades em suas múltiplas relações.
O ciúme e tudo o que o constitui: insegurança, possessividade, receio de perder, medo irracional, suspeição exagerada, denota um comportamento infantil, evidenciando aspectos da personalidade que ainda não amadureceram.
Tal imaturidade pode resultar das experiências vividas pelo Espírito, ao longo da evolução, da criação recebida e, também, de possíveis traumas emocionais experimentados nesta existência. Pode ainda se acentuar quando a pessoa se deixa influenciar por outras igualmente imaturas ou quando submetida a um processo de natureza obsessiva.
Falta ao ciumento uma autoimagem melhor trabalhada. Normalmente, é alguém com baixa autoestima, carecendo sempre de confirmações, elogios e reasseguramentos, de modo a ter a certeza de que aquilo que faz é bom, útil e edificante.
Sobre esse comportamento desajustado que, em muitos casos, raia para a patologia, o Espírito Joanna de Ângelis afirma: “Não bastassem os prejuízos que provocam onde se encontram, esses indivíduos são infelizes em si mesmos, merecedores de tratamento especializado, de ajuda fraternal, de consideração espiritual, porquanto avançam, cada vez mais, para situações penosas e aflitivas [3]”.  
Em se tratando do intercâmbio mediúnico, o médium ciumento é alguém que não suporta comparações do seu com o trabalho de alguém, mesmo que essas sejam bem intencionadas e edificantes.
Sente-se ofuscado com a produção quantitativa e qualitativa de outros medianeiros.
Sofre quando seu nome não está em evidência, nos últimos lançamentos literários ou nos principais congressos e encontros espíritas que ocorrem no Brasil e no mundo. Além disso, pode ainda se sentir afetado quando não é procurado para consultas e orientações ou nem mesmo citado pelos mais próximos, como uma referência na condução da faculdade que possua.
Esquece ou nunca parou para pensar que se alguém se apresenta mais aquinhoado para o serviço mediúnico, mais endividado certamente o será, porquanto a mediunidade a serviço do bem é via de acesso e de redenção para o espírito, e não moldura brilhante para as fulgurações terrestres[4].
Não quer se apagar para que o trabalho se sobressaia.
Incomoda-lhe o anonimato.
Age, portanto, como uma criança mimada que não quer crescer, acreditando, muitas vezes, que é um médium perfeito, alguém que renasceu para deixar seu nome como marco no movimento espírita.
É também muito comum se vitimar, achando-se perseguido e incompreendido por seus contemporâneos.
Falta-lhe equilíbrio no discernimento.
O Codificador, ao tratar da influência moral do médium nas comunicações, também nos alerta, em O livro dos Médiuns, para o fato de que certas qualidades de caráter atraem os bons Espíritos e alguns defeitos os afastam, destacando-se entre eles, o ciúme.
Cabe, portanto, a cada um dos que nos reconhecemos portadores de alguma faculdade mediúnica, iniciar ou prosseguir em nosso trabalho de autoconhecimento, extraindo de nossos erros toda experiência que concorra para nos aperfeiçoar.
Corrigindo este ciúme, evitaremos embaraços, não apenas ao trabalho mediúnico, mas à nossa vida, considerando todo o prejuízo que ele pode causar em nossa existência terrena e àquela que nos aguarda mais tarde, quando retornarmos ao mundo espiritual.



[2] KARDEC, Allan. O livro dos Médiuns. Rio de Janeiro: FEB, 1996. pt. 2, cap. XXIX, item 349. p. 441.
[3] FRANCO, Divaldo Pereira. Conflitos existenciais. Pelo Espírito Joanna de Ângelis. Salvador: LEAL, 2006. cap. 7. p. 91.
[4] __________. Médiuns e mediunidades. Pelo Espírito Vianna de Carvalho. Niterói: Arte & Cultura, 1990. cap. 15.  p. 71.

sábado, 2 de julho de 2016

DESAFIOS DA MULHER MODERNA: Atividades do Cotidiano x Autocuidado[1]


 

 Ana Francisca Garcia Zani
  

O 8 de março de 1917 foi marcado com a manifestação de 90 mil operárias contra o Czar Nicolau II elas protestaram contra, as más condições de trabalho, a fome e a participação russa na Guerra, no protesto que ficou conhecido como "Pão e Paz". 

O 8 de março foi instituído Dia Internacional da Mulher em 1910, na Dinamarca, em meio à II Conferência Internacional de Mulheres Socialistas, embora só tenha sido oficializado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1975.

Essa data deve ser momento para reflexão sobre a condição feminina no planeta... Gosto de pensar nessa data como momento para refletir!

Não concordo com homenagens vazias à mulher, principalmente essas melífluas que enaltecem a mulher como ser superior somente pelo fato de ser mulher! Mulher é um ser humano: Com virtudes e com enganos, no processo de evolução. 

Não gosto de ganhar flores no dia internacional da mulher. A meu ver esses mimos podem tirar o foco do real significado da data. O mais importante é não perder de vista o caráter sociopolítico do dia, evitando que esse tributo à mulher se transforme em momento de mero afago dos afetos domésticos. O dia, afinal, simboliza lutas por pertencimento social e político. Então, a oferta de uma flor, a gentil entrega de um presente ou qualquer manifestação carinhosa, para mães, amigas, namoradas, companheiras, esposas; não pode desvirtuar o foco da comemoração. O real sentido do Dia Internacional da Mulher deve permanecer vivo na memória de todos e ser cumprido, mesmo porque, não estão encerradas as lutas de afirmação das mulheres nos lugares de poder do mundo. Deve se comemorar o respeito à dignidade da mulher já conquistado com luta.

É, um dia de festa, mas antes de ser momento de homenagens pessoais, é a evocação cívica da memória das batalhas de mulheres e de homens igualitaristas que foram capazes de realizar por si mesmos as mudanças necessárias para evoluir e se fortalecer nos espaços do mundo social, econômico, político e, por incrível que possa parecer no doméstico. As pesquisas apontam uma quantidade assustadora de violência contra a mulher!

É momento de lembrar que ainda há muito por fazer!

Flores? Recebo-as com gosto no meu aniversário! Não quero flores quero respeito! Não quero flores apenas pelo fato de ser mulher. Homenagear a mulher por quê? Para que? Homenagem, sim! Quando fizer algo que mereça.

No processo de evolução o papel da mulher se ampliou, mas de algum modo não se modificou: As mulheres continuam com tarefas similares às do século passado e ainda inseriram em suas vidas outras responsabilidades.

Um dos desafios femininos é discutir amorosamente, se possível, com os homens para que eles passem mais horas realizando trabalhos domésticos porque no geral homens apenas ajudam.  

 A divisão das tarefas do lar entre homens e mulheres é ainda um sonho (o pensamento típico dos brasileiros designa essa responsabilidade às mulheres!). O novo padrão pede que o homem seja inserido nestes deveres. Onde há um folgado sempre tem alguém sobrecarregado! Como a mulher tem uma capacidade imensa de acumular funções, é fundamental que entenda que precisa aprender a delegar ao companheiro, aos filhos. Senão corre o risco de deixar brechas, seja no lado profissional, seja no pessoal. 

Um dos vilões da mulher moderna é o vício de fazer mil coisas ao mesmo tempo. Estamos sempre lidando com o desafio de cuidar do outro, manter tudo em ordem, ser o máximo para todos, e muitas vezes não paramos para refletir sobre nossas prioridades e sobre o sentido de toda essa correria. "Quando Jesus visitou a casa de Lazaro chamou a atenção de Marta que não parava porque queria tudo arrumado e impecável e se sentia prejudicada, pois Maria sua irmã, estava bela e formosa ouvindo a preleção do mestre, ela disse: Mestre, você acha justo que eu faça tudo sozinha? Ele responde: Marta, Marta você se afoba com tantas coisas. Maria escolheu a melhor parte e isso não lhe será tirado!" 

 Afinal, apenas em equilíbrio com os afazeres é que a mulher conseguirá ser plena em todos os aspectos da vida. A mulher viveu séculos em função do outro, (sendo Marta), portanto hoje o grande dilema feminino é a busca pela individualização. A Doutrina dos Espíritos nos ensina que somos individualidades e que os seres humanos tem o dever de trabalhar pela própria independência! Nesse sentido o momento atual com esse processo de emancipação feminina faz parte do processo evolutivo e necessita de ajustes para chegar ao equilíbrio. Esse é um trabalho de homens e mulheres. Daí contar com a colaboração do companheiro para dividir as tarefas no lar. Não adianta reclamar (suspirar pelos tempos em que cada qual tinha a função especifica). Essa nova modalidade de vida faz parte das conquistas da Nova Era como está anunciado no ESE: "O Cristo foi o iniciador da mais pura moral, a mais sublime: a moral evangélica, cristã, que deve renovar o mundo, aproximar os homens e torná-los fraternos; que deve fazer jorrar de todos os corações humanos a caridade e o amor do próximo, e criar entre todos os seres humanos uma solidariedade comum. Uma moral, enfim, que deve transformar a Terra, fazê-la morada de Espíritos superiores aos que hoje a habitam. É a lei do progresso, a que a natureza está sujeita que se cumpre. São chegados os tempos em que suas ideias morais devem desenvolver-se, para que se realizem os progressos que estão nos desígnios de Deus. Elas devem seguir o mesmo roteiro que as ideias de liberdade seguiram, como suas precursoras. Mas não se pense que esse desenvolvimento se fará sem lutas. Não, porque elas necessitam, para chegar ao amadurecimento, de agitações e discussões, a fim de atraírem a atenção das massas".

A dupla jornada de trabalho é imoral, cruel e preocupante: como é que a mulher que precisa cuidar da casa e dos filhos sozinha vai dar atenção ao marido, administrar a carreira e ter tempo para si? É fundamental um espaço pessoal! Porém, muitas vezes, a mulher tem dificuldade de arrumar esse tempo. A dupla jornada que assume a consome! O que é pior: muitas ainda acham que é obrigação. É urgente que exista mais conscientização para que se estabeleça equilíbrio entre as responsabilidades de homens e mulheres. 

A profissionalização exige e é justo que a mulher atual queira ser reconhecida como competente e inteligente. Mas deve também cuidar da própria feminilidade, pois ser feminina é da sua natureza! Se cuidar, frequentar o salão de beleza. Não é futilidade!

Por mais atribulada que seja a rotina, podemos brecar a correria diária, delegando e reservando um espaço na agenda para fazer coisas prazerosas. Ler um livro, ver um filme, praticar um esporte.

 Devemos nos conscientizar de que não somos super-heroínas. Na opinião de psicólogos e psiquiatras que atendem as estressadas muitas vezes isso se deve ao acúmulo de funções. Pode-se aderir ao lema:  "Uma coisa de cada vez!" E procurar ter foco para não dispersar energia com tudo que acontece ao nosso redor, priorizar tarefas e estabelecer uma organização saudável.

 Precisamos ampliar nossa visão de futuro e estabelecer nossa direção, nosso caminho; tendo um propósito nós começamos a traçar o nosso projeto de vida de forma saudável!

Nesse sentido a Doutrina Espírita é maravilhosa, pois nos situa: Somos caminheiros da evolução! Homens e mulheres de mãos dadas rumo ao progresso! Dessa forma, nosso dia a dia fica repleto de sentido, pois cada um deles é mais um passo para nossa realização enquanto espíritos eternos! 

É necessário considerar que é no cotidiano que construímos nossas vidas. De que vale ter lindos propósitos se eles não se expressam nas ações de cada dia. É preciso equilibrar as ações entre cuidar de si: atendendo a solicitação do Mestre Jesus: "Ame o seu próximo como a si mesmo!"

E dessa forma, inteiras, poderemos atender aos familiares, aos amigos, cumprindo os compromissos que são importantes, usufruindo dos prazeres, capacitando-nos para sermos produtivas nos projetos em que realmente acreditamos!

Só assim poderemos viver uma vida repleta de sentido, todos os dias da nossa existência!

sexta-feira, 1 de julho de 2016

OS PLANOS DO MUNDO ESPIRITUAL



Cairbar Schutel [1]

No Outro Mundo, como neste, existem planos de existência, mundos superpostos, uns acima dos outros, constituindo uma espécie de escada de perfeição.
Na Terra, é, também, assim: existe o lugar para o camponês iletrado e para o homem de Ciência. Os índios e selvícolas não poderiam viver em São Paulo ou no Rio de Janeiro. Tudo no Outro Mundo obedece a uma ordem espiritual bem determinada, sem privilégios, nem exclusões.
Desde o primeiro passo, logo a começar da superfície da Terra, até o último, conta-se grande variedade de planos de Vida, ou seja, Mundos Espirituais, para usar de uma linguagem mais aproximada à compreensão, porque não existe expressão nos vocabulários comuns para caracterizar a natureza desses mundos, que chamaremos semi-materiais ou fluídicos. Provavelmente, esses planos é que foram simbolizados, na visão de Jacó, por uma escada com inumeráveis degraus que, apoiados na Terra, chegavam ao Céu.
Não pode ser de outro modo. A lei do progresso rege de modo perfeito a evolução anímica.
Os Espíritos, revestidos de seu corpo perispiritual, não podem viver num meio que não esteja de acordo com sua vestimenta espiritual, e esta vibra sempre ao ritmo da elevação de cada um, em sabedoria e moralidade.
Uma região isenta, por exemplo, de oxigênio, seria hostil a Espíritos que ainda precisam de oxigênio para viver. Uma região em que não predomina o carbono não poderia ser habitada por Espíritos que necessitam, pela sua condição ainda de inferioridade, de carbono para a manutenção do seu corpo perispiritual.
O indivíduo sentir-se-ia desequilibrado, e a sua condição média tornar-se-ia infeliz, sofredora, insuportável se assim não fosse. Tudo obedece a uma ordem e harmonia admiráveis na criação. Daí a necessidade desses diversos planos, como garantia de vida aos que fazem a sua evolução para um estado melhor.
Os antigos tinham noções destes princípios e acreditavam na existência de muitos céus superpostos, que se compunham de matéria sólida e transparente, formando esferas concêntricas e tendo a Terra por centro.
Esta teogonia fez, dessa escala de céus, diversos graus de bem-aventurança: o último deles era o abrigo da suprema felicidade.
A opinião comum era a de que havia sete céus; em cada um deles, em sentido ascendente; aumentava a felicidade dos crentes. Os muçulmanos admitem nove céus. O astrônomo Ptolomeu contava onze, e denominava o último Empíreo, por causa da luz brilhante que ali reinava. A teologia católica admite três céus: o primeiro da região do ar e das nuvens; o segundo, o espaço em que giram os astros; e o terceiro, para além deste, é a morada do Altíssimo, a habitação dos que O contemplam face a face. É conforme esta crença que o Apóstolo Paulo diz que foi arrebatado até o "terceiro céu".
Enfim, é crença unânime que, sob uma ou outra denominação, essas esferas superpostas constituem a habitação das almas, o Mundo Espiritual.
Na verdade, seria ilógico e verdadeiro contrassenso julgarmos um vácuo a atmosfera que nos rodeia, o nada dos ignorantes de então. A constituição física e química da atmosfera era ignorada dos povos passados. Ainda na Idade Média não se tinha do estado gasoso da matéria senão noções rudimentares. Sobre a vida, mesmo, só se sabia que ela se extinguia por falta de ar; mas não se conhecia o mecanismo da combustão e da respiração.
Foi o gênio ilustre de Lavoisier que deu os primeiros passos para a descoberta dos elementos contidos no ar que respiramos. Foi tão grande a descoberta desse insigne francês, e tão iluminado era o famoso químico, que, em 8 de março de 1794, quando sua cabeça rolou sobre o patíbulo, o ilustre matemático Lagrange, disse: "Cem anos não serão bastante para produzir outra cabeça semelhante".
Hoje podemos afirmar muito mais que Lavoisier; sabemos que tudo o que existe no nosso corpo, existe na atmosfera, no ar que respiramos: azoto, oxigênio, hidrogênio, carbono, cujas combinações formam a cal, a soda, o fósforo, os ácidos, o enxofre, o flúor, o silício, o magnésio, o lítio, o ferro, o manganês, o cobre, o chumbo etc..
Sabemos mais que em nossa atmosfera vivem inúmeros micróbios, flutuam ovos de infusórios, partículas de algodão, de farinha, de penas, matérias que se evolam das fábricas, que saem da combustão, do enxofre e outros sais etc. Só nas costas da Bretanha e da Normandia calcula-se que um hectare de terreno não recebe menos, anualmente, de 147 quilogramas de matérias sólidas; das quais 37 quilogramas são de sal marinho.
Não é preciso estendermo-nos em considerações para provar que o ar é alguma coisa, contém muita coisa; não é o vazio que se apresenta aos nossos olhares acanhados.
O Espiritismo, penetrando fundamenta na Ciência, abre brechas ao pensamento, e dá, ao mesmo tempo, razão à crença cega dos povos antigos, que, em sua concepção infantil, proclamavam os céus sobrepostos, cada qual mais adiantado, crença essa que se confirma agora com dados científicos e as revelações de caráter coletivo que estão sendo feitos e verificados em todos os pontos do globo.
Não há dúvida; existem planos de existência, de vida em mundos superpostos, uns acima doutros, constituindo, no seu conjunto, uma espécie de escada de perfeição.




[1] A Vida no outro Mundo, de Cairbar Schutel