terça-feira, 25 de julho de 2023

A MÚSICA ESPÍRITA[1]

 

Gioachino Rossini


Allan Kardec

 

(Paris – Grupo Desliens, 9 de dezembro de 1868 – Médium: Sr. Desliens)

 

Recentemente, na sede da Sociedade Espírita de Paris, o presidente deu-me a honra de perguntar minha opinião sobre o estado atual da música e sobre as modificações que a ela poderia trazer a influência das crenças espíritas. Se não atendi imediatamente a esse benévolo e simpático apelo, crede, senhores, que só uma causa maior motivou a minha abstenção.

Os músicos, ai! São homens como os outros, talvez mais homens, isto é, nessa condição, falíveis e pecadores. Não fui isento de fraquezas, e se Deus me deu vida longa, a fim de me dar tempo de me arrepender, a embriaguez do sucesso, a complacência dos amigos, a adulação dos cortesãos muitas vezes me tiraram o meio. Um maestro é uma potência, neste mundo onde o prazer representa tão grande papel. Aquele cuja arte consiste em seduzir o ouvido, enternecer o coração, vê muitas ciladas criadas sob seus passos e nelas cai o infeliz! Inebria-se com a embriaguez dos outros; os aplausos lhe tapam os ouvidos e ele vai direto ao abismo, sem procurar um ponto de apoio para resistir ao arrastamento.

Contudo, a despeito de meus erros, eu tinha fé em Deus; cria na alma que vibrava em mim, a qual, desprendida de seu cárcere sonoro, logo se reconheceu em meio às harmonias da Criação e confundiu sua prece com as que se elevam da Natureza ao infinito, da criatura ao ser incriado!...

Estou feliz pelo sentimento que provocou minha vinda entre os espíritas, porque foi a simpatia que a ditou e, se a princípio a curiosidade me atraiu, é ao meu reconhecimento que deveis a minha apreciação da pergunta que foi feita. Eu lá estava, prestes a falar, crendo tudo saber, quando meu orgulho, caindo, revelou a minha ignorância. Fiquei mudo e escutei. Voltei, instrui-me e, quando às palavras de verdade emitidas por vossos instrutores se juntaram a reflexão e a meditação, disse-me: “O grande maestro Rossini, o criador de tantas obras-primas, segundo os homens, nada fez, infelizmente, senão debulhar algumas das pérolas menos perfeitas do escrínio musical criado pelo mestre dos maestros”.

Rossini juntou notas, compôs melodias, provou a taça que contém todas as harmonias; roubou algumas centelhas ao fogo sagrado; mas esse fogo sagrado, nem ele criou, nem os outros! Nada inventamos: copiamos do grande livro da Natureza e a multidão aplaude quando não deformamos demais a partitura.

Uma dissertação sobre a música celeste!... Quem poderia encarregar-se disto? Que Espírito sobre-humano poderia fazer vibrar a matéria em uníssono com essa arte encantadora? Que cérebro humano, que Espírito encarnado poderia captar-lhe os matizes, variados ao infinito?... Quem possui a esse ponto o sentimento da harmonia?... Não, o homem não foi feito para tais condições!... Mais tarde!... Muito mais tarde!...

Esperando, talvez eu venha satisfazer em breve o vosso desejo e vos dar minha apreciação sobre o estado atual da música e vos dizer das transformações, dos progressos que o Espiritismo poderá aí introduzir. Hoje, ainda, é muito cedo. O assunto é vasto, já o estudei, mas ele ainda se apodera de mim; quando dele for senhor, caso a coisa seja possível, ou melhor, quando o tiver entrevisto tanto quanto me permitir o estado de meu espírito, eu vos satisfarei. Mas, ainda um pouco de tempo. Se só um músico pode falar bem da música do futuro, deve fazê-lo como mestre, e Rossini não quer falar como aprendiz.

Rossini



[1] Revista Espírita – janeiro/1869 – Allan Kardec

segunda-feira, 24 de julho de 2023

JOSÉ DAMASCENO SOBRAL[1]

 

 

Nascido em 25 de setembro de 1924, na cidade de São João Del Rei, Minas Gerais.

Abraçou o Espiritismo com afinco, colaborando na fundação de alguns Centros Espíritas. Participou ativamente na fundação da Fraternidade Espírita Paulo de Tarso, juntamente com outros companheiros valorosos, como João Gil de Lima, José Geraldo de Castro, Vicente de Paula Nóbrega.

Este trabalho foi iniciado na Vila São João Batista, debaixo de uma árvore, onde se reuniam para estudos e para o trabalho de assistência aos necessitados no ano de 1951, mudando em seguida para a sede própria, localizada na rua Jamaica, 30, bairro de Itapoã, sob a coordenação de Euller Moura Soares.

Em junho de 1954, foi um dos fundadores do Centro Espírita Bezerra de Menezes, o Apóstolo do Bem, localizado na rua Nilo Peçanha, 717, no bairro de Boa Vista, juntamente com Betinho, Lafayete P. Veiga, Milton Magalhães e José Maria.

No ano de 1957, ao lado dos casais: Joaquim Honório de Abreu e Anna M. Abreu, Honório Onofre de Abreu e Nilza Ferreira de Abreu, Oswaldo de Abreu e Maria José de Abreu, Leão Zállio e Sebastiana Clemente Zállio, Hely Moreira e Maria Amélia Moreira, Sobral participou da fundação do Grupo Espírita Emmanuel, cuja tradição e comprometimento com os estudos aprofundados de Doutrina e Evangelho de Jesus permanecem até hoje, dando suporte ao Movimento de Unificação em Minas.

Em 1960, ainda com Betinho e outros companheiros, fundou o GEAL - Grupo Espírita André Luiz, no bairro Horto.

Em 1968, Sobral conheceu o Sr. Manoel Alves e o Grupo Espírita Irmão Frederico, com quem e onde passou a atuar ativamente por muitos anos.

No ano de 1987 iniciou-se em sua casa, a tarefa de pintura mediúnica com o médium Hércules Luiz Fernandes, que belos trabalhos produziu sob o comando seguro e disciplinado de seu orientador experiente, até que essa tarefa foi transferida para o Grupo Espírita Amor e Trabalho, do Barreiro de Cima.

Digno de nota sua luta com o Mal de Parkinson por muitos anos, o que não o impediu de prosseguir seus labores pelo Consolador.

Sobral integrou com Honório, Oswaldo, Leão e outros companheiros o trabalho de Unificação do Movimento Espírita na União Espírita Mineira, empenhos pelo fortalecimento dos Órgãos Federativos que vêm batalhando por unir a família espiritista em torno do Evangelho de Jesus e da prática substanciosa da caridade, com espírito de edificação e fraternidade viva.

Chegou a integrar a Diretoria da Aliança Municipal Espírita (AME - BH) e merece destaque sua participação e empenho doutrinário-evangélico na Sala 24 da Casa-Máter do Espiritismo em Minas (UEM), onde, ao lado destes companheiros citados e, mais à frente, com José Mário Sampaio e Manoel Alves, dentre outros denodados servidores da Doutrina e do Evangelho, por muitos anos, estudaram Doutrina Espírita, Mediunidade e Evangelho, sendo que o denominado "miudinho", ou seja, o Estudo Minucioso de “O Novo Testamento” teve ali, como no Grupo Emmanuel, papel de destaque e importância. Foi desse agrupamento, interessado em dinamizar o conhecimento espírita e a integração dos corações com a mensagem redentora de Jesus, que surgiu a planilha dos princípios doutrinários, sintetizando o conteúdo do Espiritismo com Allan Kardec - Deus, Jesus, Espírito, Perispírito, Evolução, Livre-Arbítrio, Causa e Efeito, Reencarnação, Pluralidade dos Mundos Habitados, Imortalidade da Alma, Vida Futura, Plano Espiritual, Mediunidade, Influência dos Espíritos em nossa Vida, Ação dos Espíritos na Natureza - e muitos outros trabalhos que até hoje são utilizados pelo Movimento Espírita das Alterosas e de outras regiões do País.

Desencarnou em 26 de setembro de 2004, aos 80 anos de idade.

sábado, 22 de julho de 2023

O DESAPEGO[1]

 



Anne Moon − dezembro de 2019

 

O desapego, o ato de não se prender a coisas ou pessoas ou, para muitos, a liberdade. Vejo que há uma confusão com esse conceito, tão falado hoje em dia, apesar de ser bastante mencionado pelo budismo há milhares e milhares de anos, então vamos falar sobre e desmistificar o desapegar.

No budismo, uma das doutrinas é o desapego, que seria a forma de viver mais leve, de atingir a iluminação e evoluir. Tudo isso porque o apego é a raiz de todo sofrimento.

Quando se fala em apegar, é se apegar ao passado, ao futuro, às pessoas, às coisas, pois existe a impermanência, que não garante que nada disso fique em sua vida, ou que fiquemos nesse plano para usufruir de tudo o que está ao nosso redor.

O apego vem do ego em excesso, pois ele nos prende em um ciclo vicioso.

É nesse ponto em que há uma confusão enorme. Uns pensam que desapegar é não se conectar emocionalmente com ninguém, desconsiderar as coisas e pessoas, viver seguindo apenas os instintos e sempre vivendo no limite, que não devo filtrar as coisas e pessoas que quero em meu círculo social.

Nós desde crianças, somos criados com a crença de permanência, que tudo é fixo, determinado, nada muda, tudo é o que é e ponto final. Sendo assim, quando algo sai de rota em nossas vidas, entramos no sofrimento e nos desequilibramos, não é mesmo?

Por exemplo, você tem algum plano criado, mas no meio do caminho algo acontece que coloca tudo água abaixo, ou que te obriga a remanejar um pouco as coisas e isso nos desestabiliza, ficamos sem saber o que fazer.

Buda diz que o apego é a expressão da nossa mente cheia de desejos vindos do ego. Veja o ego não como um monstro insaciável, mas como uma criança que precisa de limites, de entender como a vida é. Quando o ego fala muito alto, ficamos na ânsia de realizar todos os nossos desejos, focamos apenas no “eu”, no que Eu preciso, Sinto e Quero e não no que o outro precisa, sente e quer, no sentido de se doar pelas pessoas.

Quando você compreende que a vida é muito mais doar do que receber, você despertou e evoluiu. Sim, pois o fluxo do universo funciona assim, doar para receber, simplesmente pelo ato em si e todos agindo assim. Afinal, esse momento de isolamento social, dessa pandemia, essa nova década em si se mostrou um momento para além de darmos atenção ao nosso interior, darmos mais atenção ao nosso próximo, ao universo que é o nosso lar.

O apego é o ego gritando para ser satisfeito. Seja em uma compulsão por comida, bebida ou qualquer coisa lícita e ilícita também ou até mesmo por sexo.

Tem uma palestra na internet do venerável Shifu Zhihan falando que quando estamos no apego, centralizados em nosso ego, ficamos nessa ânsia que muitas vezes nem sabemos o porquê de estarmos nessa vibração.

Nessa palestra ele fala sobre os dez exércitos de Mara e conta aquela história incrível sobre quando Mara tentou Buda, quando queria o impedir de alcançar o nirvana durante a meditação.

O que é mais curioso é que o ataque é justo no ego do iluminado.

Quando Mara manda suas filhas para o seduzirem, quando Buda sente fome, dores no corpo, cansaço, quando se lembra de que deixou seus filhos e sua esposa em seu castelo. Afinal, ele era um príncipe indiano que abdicou de todas as riquezas, regalias e de sua família, por querer buscar a iluminação.

O apego nos traz insatisfação e mais insatisfação, pois somos insaciáveis, sempre estamos querendo algo, desejando algo, não nos contentamos com o que temos. Eu falo de a pessoa nunca ser grata pelo que já tem, para que o universo possa dar cada vez mais. A insatisfação faz com que essa pessoa não consiga se conectar no presente e expressar a gratidão. Pela falta de contentamento, não consegue ser grato e assim não consegue fazer com que sua vida flua, por estar presa a essa ilusão da permanência, de que tudo é eterno, determinado, que tudo já foi roteirizado por algo ou alguém.

Desesperador isso, ao menos para mim. Imagine não poder mudar nada na sua vida? Imagine não poder fazer mudanças na própria vida?

Não teria motivo para a gente se movimentar na vida, apenas ficar sentado e deixar a vida acontecendo, passivos, já que não podemos fazer nada para mudar as coisas, estando tudo já determinado.

É aí que percebemos que a impermanência faz parte do fluxo do universo, o universo é movimento, é livre.

Nada deveria nos pertencer nem controlar, no sentido de posse, aquele pensamento de “tudo é MEU, a MINHA disposição” e não nos deixar ser controlados, possuídos, perder nossa autonomia.

A ideia do desapego não é viver de forma fria e desregrada, descompromissada, não se importar com os outros, com as consequências, viver no automático, mas ter em mente que “nada me pertence e a nada eu pertenço”.

Viver em liberdade, ser um espírito livre, o desapego é deixar de viver no automático e começar a viver em consciência plena, em unidade, se entendendo como parte do universo, nem melhor, nem pior e nem igual.

É que nem o efeito zenão, que seria o ato de cocriar a realidade que você tanto deseja. Você faz a pergunta para o universo: “Universo, de todas as realidades disponíveis para mim, eu escolhi essa determinada realidade. Quanta consciência eu preciso para que isso se atualize mais rápido em minha vida?” E então você solta ao universo falando a seguinte frase “Entrego, confio, aceito e agradeço”, sem ficar na ansiedade para que isso ocorra e nem que ocorra como quer.

Quando eu falo sobre não querer possuir e não deixar pessoas te possuírem é parar de querer impor controle sobre os outros, parar de interferir no processo de evolução de alguém e ter responsabilidade por si mesmo.

Quando eu falo sobre não deixar que coisas te controlem ou que você não tente controlar as coisas, é não se deixar levar por elas e não atrapalhar o fluxo natural das coisas. Sabe a linha tênue entre equilíbrio X vícios, saudável X exagerado?

Jamais interferir no fluxo das coisas ou no processo evolutivo de alguém, por não sabermos se dentre todas as possibilidades disponíveis na vida, a melhor entre elas, seria a que NÓS achamos a melhor, sendo que o universo é abundante, livre, a natureza é livre.

Amar não é ter a sensação de posse, como o apego, que vem do ego, traz.

Amar é querer a liberdade, que se desenvolva mais e melhor a cada dia.

A impermanência, o desapego é uma forma otimista de olhar a realidade, que cada dia pode ser melhor do que o outro, a cada dia posso ser a melhor versão de mim mesma.

sexta-feira, 21 de julho de 2023

COM OS JOELHOS DESCONJUNTADOS[1]

 


Manoel Philomeno de Miranda

 

O serviço do Bem não pode cessar, seja qual for a justificativa.

Comprometidos com a Causa do Cristo, nada nos deve constituir motivo de impedimento para prosseguir atendendo ao programa elaborado.

Os benfeitores espirituais organizadores das atividades imortalistas, que a todos dizem respeito, estabelecem os roteiros de ação com as minudências indispensáveis, incluindo a cooperação da equipe reencarnada.

Certamente surgem imprevistos de vária ordem que têm o objetivo de perturbar ou mesmo impedir a realização dos compromissos firmados. Indispensável que a vigilância do membro do grupo permaneça alerta, a fim de não ser afastado do labor, ou mesmo quando se faça presente, em razão da sua indisciplina, não ser utilizado, em razão de não se encontrar nas condições necessárias ao êxito do cometimento.

As atividades mediúnicas movimentam-se em ambas as faixas da existência, física e espiritual.

Merece acrescentar que entidades perversas, habilitadas nos expedientes do mal, movimentam-se com afinco para interromper ou desestruturar o esforço que tem significado edificante e profundo.

Sempre ativas, provocam situações graves e geram perturbações envolvendo os membros humanos das reuniões mediúnicas, tornando-os indispostos para a sua luminosa execução.

Enfermidades inesperadas, visitas não programadas, confusões domésticas e afetivas entre influências doentias são, invariavelmente, recursos de que se utilizam para indispor aqueles que fazem parte dos magnos trabalhos com os quais estão comprometidos.

Mente clara e sentimentos calmos fazem parte da contribuição indispensável de cada cooperador, assim propiciando campo especial para as comunicações e terapias próprias e socorristas.

Busque-se observar se o fenômeno desafiador se manifesta com frequência nos dias reservados e constatar-se-á como é bem planejada a dificuldade, produzindo indisposição ou insatisfação durante as operações iluminativas.

Sem dúvida, os Espíritos que se comprazem nas lamentáveis obsessões e geram problemas são muito hábeis e agem conscientemente, utilizando-se dos pontos vulneráveis dos servidores, que são atacados e induzidos a pensamentos nefastos.

A reunião mediúnica é a porta de acesso à comunicação com os desencarnados, portanto, de alta importância nas programações do Espiritismo. Ao mesmo tempo é a caridade de iluminação, produzindo terapêuticas preventivas e curadoras naqueles que a constituem.

Admoestamos os voluntários e responsáveis pelos trabalhos mediúnicos para que se não descurem das responsabilidades especiais, respirando o clima psíquico que os precede, de forma que a psicosfera ambiental os facilite.

Em qualquer atividade, sempre se tem a preocupação de a programar, cuidar dos procedimentos que lhe dizem respeito, a fim de que o seu desempenho seja rigorosamente dentro dos parâmetros estabelecidos.

Aos médiuns cabe o dever de cuidar das paisagens mentais, evitando quanto possível intoxicações emocionais com os painéis habituais da insensatez e infantilidade.

O médium não o é apenas durante as reuniões, mas por todo o tempo, pois que é uma faculdade orgânica, funcionando em todos os momentos e sintonizando com as imagens interiores que lhe são habituais.

O resultado que se recolhe, quando há disciplina e harmonia entre os seus membros encarnados, é decorrência dessa perfeita identificação com o esforço dos benfeitores espirituais que elaboram a programação, e dos reencarnados que lhe são coprodutores.

Nas ocasiões em que o companheiro se encontre açodado pela interferência inferior, não deve desanimar nem buscar evitar a sua participação. Se isto acontecer e surgir a tentação para omitir-se, por considerar-se não estar em condições de auxiliar, deve-se ter cuidado porque pode ser o início de perigosa responsabilidade, conduzindo a futuro abandono do compromisso e até mesmo a transtorno obsessivo.

Quando tal ocorrer, e isso se dará diversas vezes, deve-se direcionar o pensamento ao Senhor Jesus e orar com sinceridade, solicitando amparo ao guia espiritual, a fim de ser auxiliado para conseguir a mudança mental, assim como o prazer de servir.

A assiduidade é fundamental ao bom êxito das atividades espirituais e ao exercício correto da mediunidade, mantendo-se a cooperação em favor do próximo, de modo a ser responsável pela sessão mediúnica séria.

Evitem-se a crítica negativa, os comentários desnecessários e desairosos, tendo-se em vista que os mentores lamentam as ocorrências censuráveis, mas compreendem que estão trabalhando com pessoas em diferentes estágios de evolução, portanto, ainda imperfeitas.

Será mediante o auxílio recíproco que haverá o progresso, constituindo-se bênção superior da vida, com que os céus socorrem a Terra aflita e necessitada.

Desse modo, mesmo que se esteja com os joelhos desconjuntados, como afirmava o Apóstolo Paulo, o serviço de amor nas reuniões mediúnicas tem prioridade, invitando o médium a que sirva, insista e invista no dever que lhe diz respeito.

A mediunidade constitui bênção do processo da evolução, facultando a aquisição desse sentido superior, mediante o qual o Mundo Espiritual se comunicará com mais facilidade com a esfera física.                                   



[1] Psicografia de Divaldo Pereira Franco, na sessão mediúnica de 30.12.2019, no Centro Espírita Caminho da Redenção, Salvador, Bahia

quinta-feira, 20 de julho de 2023

O AGENTE VITAL[1]

 

Miramez

 

A vitalidade é um atributo permanente do agente vital, ou somente se desenvolve com o funcionamento dos órgãos?

− Desenvolve-se com o corpo. Não dissemos que esse agente, sem a matéria, não é vida? É necessária a união de ambos para produzir a vida.

Podemos dizer que a vitalidade permanece latente, quando o agente vital ainda não se uniu ao corpo?

− Sim, é isso.

O conjunto dos órgãos constitui uma espécie de mecanismo, impulsionado pela atividade íntima ou princípio vital, que neles existe. O princípio vital é a força motriz dos corpos orgânicos. Ao mesmo tempo que o agente vital impulsiona os órgãos, a ação destes entretém e desenvolve o agente vital, mais ou menos como o atrito produz o calor.(Allan Kardec)

Questão 67/O Livro dos Espíritos

 

A vitalidade desenvolve-Se quando irradia em um corpo, impulsionando-o para o movimento. No encontro do corpo com ela, expressa-Se a vida, por isso é que dizemos sempre que a vida é movimento. O espírito também é vida, não obstante, ele alcança valores maiores que a própria vida, que ainda poucos conhecem; o tempo falará mais adiante sobre alguns tesouros da alma, quando em plena ascensão.

Para melhores deduções sobre a força vital em um corpo, pode-se analisar uma corrente elétrica quando aciona um motor e faz mover um maquinário. Ela, ao chegar, dá vida, porque faz mover os aparelhos antes inertes. Pode-se observar o feto no seu ambiente gerador: com poucas semanas recebe uma corrente vital que o faz mover-se, de sorte que o coração, ainda um rudimento desse órgão sagrado, começa a bater, impulsionando assim o fluxo sanguíneo, permitindo aos órgãos em formação um estado saudável, em diligência ativa na formação do corpo. Sem esse agente vital não pode haver vida, e ele, sem a matéria, não pode encontrar a expressão da própria existência, para a visualização dos homens.

O espírito ainda tem muitos corpos, bem desconhecidos na ciência humana.

Os mais estudiosos já entendem que existem, sem contudo compreender seus objetivos, e mesmo suas organizações e trabalhos junto à alma. Cabe à Doutrina dos Espíritos a revelação dessas verdades, de acordo com a elevação dos homens, sem contudo abalar a estrutura de conhecimentos de cada um. Tudo deve ser gradativo, para que o mal não grasse e a consciência não se altere.

Esperamos que, com o decorrer do tempo, a própria ciência dos homens se interesse pela ciência do espírito e a estude com sinceridade. Aí vamos encontrar muitos instrumentos com capacidade de receber os valores das revelações espirituais. Essa é a nossa alegria: de nos confundirmos com os seres humanos nas suas necessidades e falar-lhes frente a frente com todo o desembaraço. A vida, assim, ficará mais fácil para os que se revestiram de carne.

A força vital pode decrescer em um corpo, e este ficar desprovido do magnetismo animal, falecendo; entretanto, uma alma bem adestrada nessa ciência poderá, com os recursos da mente, atraí-la com a mesma facilidade que respira o ar, pois essa fonte de vida está disseminada por toda a parte. Os espíritos sábios estão dispostos a ensinar-lhes, dependendo de encontrarem os homens preparados para as modificações que correspondem à afinidade com essas bênçãos de Deus.

Na verdade, o amor é a chave de tudo e de toda vida, bem como de um corpo saudável; entretanto, há outros aspectos que devem ser observados, para que se tenha felicidade, e felicidade com abundância.

Tudo que existe se integra em uma corrente de vida universal, em busca do despertamento de todas as suas qualidades, e esse intercâmbio, essa união de todas as coisas, é força do amor de Deus para a paz e a luz de todas as criaturas.

Homens! Uni-vos no bem e vos sentireis melhor! Todas as portas se abrirão como que por encanto! Eis aí Deus e Cristo a vos ofertarem os caminhos para que possais compreender as leis que governam e assistem a todos. E quando todos passardes a amar, a força vital que vos estimula a vida será mais ativa e vos mostrará ângulos mais convenientes para seguirdes em direção a Deus.



[1] Filosofia Espírita – Volume 2 – João Nunes Maia

quarta-feira, 19 de julho de 2023

LUCID DREAMING – SONHO LÚCIDO[1]

 



Annekatrin Puhle

 

Sonhar e acordar são normalmente estados de consciência mutuamente exclusivos, mas nos sonhos lúcidos eles se sobrepõem, o sonhador tornando-se consciente de estar em um sonho. Na maioria das vezes, isso ocorre no meio de um sonho, mas algumas pessoas permanecem conscientes enquanto caem no sono, enquanto outras ficam alertas depois de acordar enquanto voltam a sonhar. A duração dos sonhos lúcidos depende dos níveis de habilidade e experiência do sonhador.

O sonho lúcido tem sido descrito desde a antiguidade, mas só recentemente foi objeto de pesquisas. Pode ser adquirido como uma habilidade com treinamento e oferece um potencial extraordinário para o bem-estar físico, emocional, mental e espiritual, com uma relevância amplamente inexplorada para o domínio da realidade cotidiana.

Muitas pessoas se lembram de ter tido pelo menos um sonho lúcido. Em uma pesquisa com setenta estudantes suecos de psicologia, 80% relataram um[2]. Foi demonstrada uma relação pequena, mas significativa, entre a frequência dos sonhos lúcidos e fatores de personalidade, como limites estreitos, absorção, imaginação e fantasia[3].

 

Breve Visão Geral Histórica

Os sonhos lúcidos (LDs) foram registrados durante séculos por figuras religiosas, poetas e filósofos. Na antiga tradição do Budismo Bön tibetano, os LDs são reconhecidos no contexto da ioga dos sonhos. Aristóteles observou que era comum tornar-se consciente em um sonho. No século XII, o místico sufi Ibn El-Arabi enfatizou a importância de controlar os pensamentos nos sonhos. Entre os cristãos, um primeiro relato de LDs foi dado por Santo Agostinho, e mais tarde, no século XIII, Tomás de Aquino comentou corretamente que tais sonhos eram tipicamente experimentados no final do sono por pessoas especialmente imaginativas.

O sinologista e pesquisador do sono do século XIX, Léon d'Hervey Saint Denys, um sonhador lúcido desde tenra idade, documentou seus sonhos ao longo de duas décadas e demonstrou que se pode aprender como 'guiar' os sonhos[4]. Em 1913, o psiquiatra holandês e pesquisador pioneiro Frederick van Eeden foi o primeiro a usar o termo 'lúcido' - do latim  lux , luz e  lucere, para brilhar, irradiar, ser claro, brilhante - para sonhos nos quais a mente está clara, desperta e consciente de estar sonhando; ele registrou 352 de seus próprios sonhos lúcidos entre 1898 e 1912[5]. Mais recentemente, os pesquisadores americanos Stephen LaBerge e Robert Wagoner referem-se a vários milhares de seus LDs pessoais, enquanto outros relatórios podem ser encontrados em fóruns da Internet.

 

Consciência e estados de sonho

Em 2013, um estudo interdisciplinar comparou os fatores de insight, controle, pensamento, realismo, memória, dissociação e emoção negativa e positiva em LDs e não LDs. O estudo mostrou que realismo e emoção negativa não diferenciam entre sonhos lúcidos e não lúcidos, concluindo que 'o insight lúcido é separável tanto da bizarrice nos sonhos quanto de uma mudança no realismo experimentado subjetivamente no sonho'[6].

 

Fisiologia e estados mentais

Os períodos de sonho mais vívidos ocorrem durante os períodos de sono do movimento rápido dos olhos (REM). Os LDs geralmente ocorrem durante o sono REM, particularmente próximo ao final das fases REM pela manhã. Um estudo da Universidade de Frankfurt encontrou algumas evidências de que os LDs compartilham aspectos fisiológicos de vigília e sonho ao mesmo tempo[7].

As fases REM são caracterizadas principalmente pela maior frequência das ondas alfa e beta, indicativas da excitação mental que o sonho implica. LDs mostram também as ondas de frequência mais alta, ondas gama, que são típicas para meditação. O lobo frontal durante essas fases REM é ainda mais ativo do que durante o estado de vigília. Tudo isso sugere uma atividade intelectualmente exigente que envolve intensa concentração[8].

Em experimentos com um sonhador lúcido dedicado, o psicólogo britânico Keith Hearne recebeu o crédito pela descoberta de que é possível sinalizar pelo uso de movimentos oculares durante o estado de sonho lúcido. Hearne escreveu esses resultados inovadores em sua tese de doutorado de 1978, que, entretanto, não foi publicada[9]. O estudante pesquisador americano Stephen LaBerge fez as mesmas descobertas, que escreveu em uma tese de doutorado concluída dois anos após a de Hearne e publicada em seu agora clássico livro Lucid Dreaming (1985).

O trabalho de Hearne e LaBerge levou ao desenvolvimento comercial de uma máscara para dormir com sensores REM embutidos que reagem aos movimentos dos olhos, estimulando o sonhador como uma dica para se tornar lúcido, geralmente com luz.

 

Graus de lucidez em sonhos

A compreensão de que se está sonhando costuma surpreender tanto os sonhadores que os desperta. Requer algum treinamento para permanecer lúcido e ficar totalmente ciente das oportunidades. Em termos de duração, um LD de meia hora é excepcional, mas períodos mais longos de lucidez do sonho também foram relatados. O psicólogo gestalt alemão Paul Tholey relatou ter experimentado duas vezes 24 horas de lucidez com um período de aproximadamente cinco horas passado em um estado de sono total[10], embora essa duração pareça ser o limite, pelo menos entre os sonhadores ocidentais. À medida que os sonhadores continuam a ter sonhos lúcidos, alguns desenvolvem grande habilidade em dirigir a experiência. Obter o controle total do LD pode, entretanto, ser tão difícil quanto obter o controle total de nossos pensamentos durante a vigília.

Despertar nos LDs envolve três etapas básicas:

1.       Pré-lúcido - ver algo irreal no sonho e perceber que é irreal.

2.       Lúcido - ver algo irreal no sonho e perceber que, portanto, deve ser um sonho.

3.       Superlúcido - tomar consciência de que está sonhando e perceber a oportunidade de conduzir o sonho em qualquer direção.

Deirdre Barrett em seu estudo 'Quão lúcidos são os sonhos lúcidos?' conclui que não é a capacidade de controlar o sonho que constitui o significado ou 'lucidez' do sonho lúcido, mas sim a 'coexistência e interação dos dois modos', vigília - incluindo habilidades cognitivas mais completas - e sonho[11].

 

Sonhos lúcidos e experiências fora do corpo

Os LDs e as experiências fora do corpo (OBEs) têm aspectos em comum, por exemplo, independência do corpo físico e mobilidade semelhante à de um pássaro. Certos recursos parecem ser diferentes, embora a linha entre eles esteja borrada. Típico em LDs é a criação de novos ambientes e até mesmo novos mundos, enquanto em OBEs a consciência permanece próxima à realidade física, incluindo a percepção do corpo do indivíduo na sala[12]. A tabela abaixo oferece uma comparação de características típicas de LDs e OBEs.

 

Sonhos Lúcidos

Experiência fora do corpo

Um achado típico da pesquisa é que cerca de oitenta por cento dos entrevistados tiveram um LD na vida.

OBEs são menos comuns do que LDs. Dez a quinze por cento dos entrevistados relatam ter uma.

Os LDs não partem da posição corporal atual.

As OBEs começam a partir da posição atual do corpo.

Os LDs não incluem a experiência de deixar o corpo físico.

As OBEs incluem a experiência de deixar o corpo físico.

Os sonhadores lúcidos desconhecem seus corpos físicos.

Os experimentadores fora do corpo estão cientes de seus corpos físicos no início da OBE.

Sonhadores lúcidos às vezes se tornam conscientes de seus corpos de sonho, que podem parecer sólidos.

Os experimentadores fora do corpo podem estar cientes de seus novos corpos não físicos, que parecem sutis.

O sonho lúcido inclui (potencialmente, mas não necessariamente) a experiência de voar.

OBEs são sempre experiências voadoras, no sentido de que os experimentadores percebem o mundo físico de fora de seus corpos físicos, a partir de uma perspectiva de olho de pássaro.

Os LDs não estão tipicamente relacionados à paralisia do sono, embora ocorram mais em pesadelos e terrores noturnos.

A paralisia do sono pode preceder a sensação de sair do corpo.

Os sonhadores lúcidos sabem que estão em um sonho e, ao mesmo tempo, sentem que ele é real.

Os experimentadores fora do corpo têm certeza de que a OBE é um evento real, mais real do que um sonho.

Os LDs não são assustadores.

As OBEs podem ser assustadoras ou edificantes.

 

Levitan e LaBerge comentam que “todos os sonhos poderiam ser chamados de EFCs, pois neles experimentamos eventos e lugares bem distantes da localização e atividade reais de nossos corpos”[13].

 

Praticando Sonhos Lúcidos

Relembrando os sonhos lúcidos

Em uma importante investigação sobre a frequência de LD, conduzida por Adrian Parker na Universidade de Gotemburgo, Suécia, cerca de 80% dos alunos relataram ter experimentado pelo menos um LD; 24% relataram um ou mais por mês[14].

A lucidez nos sonhos geralmente ocorre no final do sono e pode ser mantida até o despertar completo, facilitando a lembrança fácil dos sonhos. Os sonhadores lúcidos inexperientes muitas vezes acordam abruptamente quando percebem que estão sonhando, e isso também fornece uma memória vívida do sonho. Os LDs de um grau mais baixo de lucidez são naturalmente mais difíceis de lembrar do que os sonhos altamente lúcidos.

Os conselhos para relembrar os LDs são iguais aos dos sonhos comuns, incluindo o uso de um diário. A recordação também é apoiada por fazer anotações de condições especiais relacionadas aos sonhos, como técnicas de indução de LD, pensamentos, desejos, intenções, sucesso, eventos não controlados e assim por diante[15].

 

Induzindo o sonho lúcido

A forma mais natural e direta de desencadear LDs é uma atitude séria e uma forte motivação para vivenciá-los, a fim de "colocar em foco sua vida adormecida e sonhadora"[16]. Na tradição folclórica, estímulos naturais têm sido usados, por exemplo, a fito-coneirogenica (plantas e especiarias nutritivas como noz-moscada, alimentos ricos em vitamina B6 - grãos inteiros, abacate, fermento), ervas para chás (erva-cidreira, capim-limão, yarrow, etc.), plantas aromáticas (lavanda, helichrysum italicum, sálvia), e ervas para perfumar travesseiros (lavanda, artemísia, camomila)[17].

Mais de 80% dos LDs começam no meio de um sonho comum. denominado 'LDs iniciados por sonho' por LaBerge[18]. O nível de deslocamento do sonho comum para o sonho lúcido depende da habilidade do sonhador.

Um método relativamente fácil, denominado 'teste de estado crítico', desenvolvido pela Tholey em 1959[19], envolve perguntar-se várias vezes ao longo do dia: 'Estou sonhando?' Esse hábito de testar a realidade continua durante o sonho pode desencadear a lucidez.

Uma maneira auto-sugestiva de se tornar lúcido é encontrar suas mãos. Sentado relaxado na cama, olhe para as palmas das mãos e pense cinco minutos antes de adormecer: 'Esta noite, enquanto estou sonhando, verei minhas mãos e perceberei que estou sonhando'[20].

Outro método fácil, CRAM (método de repetição e afirmação constantes), foi inventado por Waggoner. Ele observou que "cair no sono enquanto afirma constantemente a intenção de se tornar lucidamente consciente pode colocar essa intenção em sua memória de curto prazo"[21].

Uma variedade de técnicas cognitivas e métodos de estimulação externa para induzir LDs foram avaliados[22]. As quatro mais bem-sucedidas[23] demonstradas em estudos empíricos são MILD (indução mnemônica de LDs); teste de reflexão / realidade; intenção; e a técnica combinada de Tholey.

A conhecida técnica MILD[24] de LaBerge envolve 'formar uma conexão mental entre o que queremos fazer e as circunstâncias futuras em que pretendemos fazê-lo. A melhor hora para aplicar a MILD é de manhã cedo, após acordar de um sonho[25].

As técnicas de intenção reflexiva envolvem refletir sobre os principais sinais do sonho à medida que eles invadem a consciência (se estiver lendo um livro, pode ser um texto instável, se relaxante, uma imagem fantástica) no ponto de adormecer junto com a intenção de reconhecê-los na próxima vez no sonho e se tornar lúcido (memória prospectiva).[26]

Essa abordagem requer um uso ativo da imaginação antes de dormir, ou seja, imaginar que está sonhando e então reconhecer que isso deve ser um sonho[27].

A técnica de indução de Tholey envolve aspectos de reflexão, intenção e autossugestão: desenvolver um estado de espírito reflexivo, imaginar estar em um sonho, reconhecer isso e incorporar a própria sugestão de ficar lúcido enquanto cai no sono. Dois estudos de campo demonstraram que esse método aumenta a frequência de LDs, especialmente para sonhadores que já tiveram LDs[28].

Experimentos mostraram que dos vários métodos de estimulação externa (estimulação de luz, estimulação acústica, estimulação vibro-tátil, estimulação eletrotátil, estimulação vestibular e estímulo de água) o estímulo de luz é bem-sucedido. É necessário algum cuidado com o uso de dispositivos de estimulação externa onde motivos comerciais estão envolvidos (por exemplo, DreamLight, DreamLink, dispositivos de sinalização de luz Novadreamer ou a 'máquina dos sonhos' elétrica)[29].

O sucesso foi relatado com uma variedade de abordagens alternativas. Uma é a técnica WBTB (acordar de volta para a cama), também chamada de Técnica do Nap para a Lucidez, que exige que o indivíduo se levante duas horas antes do horário normal de acordar, passe de quinze a quarenta e cinco minutos lendo, pensando em sonhos lúcidos ou meditando, e depois voltar para a cama com a intenção de atingir um LD.

Outro método indutor de LD que recebeu críticas positivas é a reentrada nos sonhos[30]. Ao acordar de um sonho, o sonhador permanece quieto de olhos fechados e retorna mentalmente ao final do sonho, como se estivesse assistindo a um filme, deixando a imagem se tornar real[31].

Uma alternativa à técnica MILD desenvolvida por LaBerge é denominada WILD (LDs iniciados por despertar), onde o indivíduo, tendo acordado de um sonho, volta direto para ele com consciência contínua[32]. No entanto, isso não provou ser tão bem-sucedido quanto o MILD.

O uso de 'sinais de sonho' oferece uma maneira muito individual de aprender os sonhos lúcidos. Essas são as "peculiaridades" dos sonhos que aparecem com frequência suficiente para ser uma indicação confiável do estado de sonho[33]. Quando um é reconhecido, pode ajudar a induzir a lucidez. Waggoner favorece o uso de seu CRAM (método de repetição e afirmação constantes) como meio de se tornar lúcido, observando que, 'cair no sono enquanto afirma constantemente a intenção de se tornar lúcido consciente pode colocar essa intenção em sua memória de curto prazo'[34].

 

Dirigindo o sonho lúcido

O principal desafio para os adeptos é estabilizar o sonho[35]. O grau máximo de sonhos lúcidos é alcançado quando o sonhador aprendeu a controlar o sonho e a direcioná-lo na direção pretendida, a moldar o cenário do sonho livremente e a agir conscientemente. Os indivíduos que dominam essa experiência alcançam uma forma de liberdade definitiva e são denominados por LaBerge oneironauts - uma palavra com raízes gregas que significa "exploradores do mundo interior dos sonhos"[36]. Um único LD curto pode deixar uma impressão para toda a vida, mas a experiência repetida e avançada de LDs direcionados inspira e desafia ainda mais o sonhador. O potencial para conduzir a aventura do sonho parece virtualmente ilimitado, na ausência de tempo e limites espaciais e de matéria física, incluindo o corpo físico. O sonhador lúcido pode explorar uma nova existência em um mundo mágico. Mesmo sem controle absoluto sobre o curso do sonho, os sonhadores lúcidos ainda podem influenciar o ambiente do sonho com seus pensamentos e desejos de acordo com seu grau de alerta, concentração e intenções.

Experiências LD típicas:

§  movendo-se livremente com controle sobre a velocidade e voando, pelo qual o corpo do sonho é transportado em um flash para qualquer outro lugar;

§  matéria penetrante (portas e janelas fechadas, paredes, outras figuras oníricas);

§  conhecer pessoas que são totalmente estranhas, ou que são conhecidas, mas vivem longe, ou que já faleceram, também pessoas que são totalmente estranhas;

§  entrando em contato com a natureza;

§  obter percepções filosóficas e espirituais por meio de novas experiências; e

§  revisando as ideias de alguém sobre a vida material e a chamada realidade.

 

Dez pontos caracterizam o potencial dos sonhos lúcidos:

§  Experiência direta de outros mundos que parecem mais reais do que a realidade;

§  Experiência de um novo corpo e de um mundo sem limites físicos;

§  Penetrando além do tempo e do espaço;

§  Desenvolver a personalidade pela superação do medo; resolução de problemas; tomada de decisões; redução do estresse;

§  Treinamento de novas habilidades para uso na vida em vigília;

§  Aprendizagem;

§  Desenvolvendo a criatividade;

§  Obtendo insights filosóficos sobre a vida e experimentando a espiritualidade;

§  Criando harmonia física, emocional e mental: cura; e

§  Treinando a consciência para a transição além da morte.

 

O potencial: aplicando o sonho lúcido

Superando o Medo

Vários estudos confirmaram que os LDs são uma técnica eficaz para superar pesadelos[37]. A realização de um sonho permite ao sonhador lidar com medos e enfrentar sua própria sombra − para usar o termo de Carl Gustav Jung para características de personalidade rejeitadas. A garantia de que não há nada a temer permite ao sonhador lúcido reconhecer a situação amedrontadora, monstro, fera, aranha negra gigantesca ou assassino. Ao olhar, questionar, abraçar, aceitar e compreender, o medo diminui. No entanto, às vezes, vários LDs são necessários, especialmente quando se trata de pesadelos recorrentes.

Identificar, aceitar e então integrar simbolicamente elementos de si mesmo que são separados e rejeitados tem um efeito fortemente positivo no crescimento pessoal. Nas palavras de LaBerge e Rheingold, 'As pedras uma vez rejeitadas pelo construtor do ego podem então formar o novo fundamento da totalidade'[38]. O poeta Rainer Maria Rilke recorda antigos mitos que falam de dragões que se transformam em princesas: 'Talvez tudo o que é terrível seja no fundo o desamparo que quer nossa ajuda'[39]. Em resumo, o conselho: não fuja no sonho lúcido − o que quer que esteja no seu caminho, enfrente-o!

 

Resolvendo problemas

Um problema ou decisão difícil que perturba a mente durante o dia pode ser tratado em um LD como um meio de obter feedback e conselho. Pode ser falado em voz alta no ambiente do sonho ou dirigido a uma figura onírica específica. A resposta nem sempre será direta e pode ser entregue da forma usada pelo oráculo nos tempos antigos, criptografada ou com duplo sentido.

Uma maneira de quatro etapas para resolver problemas em LDs:

§  Escreva seu problema.

§  Incube um sonho sobre o seu problema (formule sua intenção e concentre-se nela quando for para a cama).

§  Use seu LD para gerar soluções.

§  Lembre-se de acordar e relembrar o sonho assim que tiver uma resposta[40].

 

Melhorando as habilidades

A pesquisa demonstrou que é possível melhorar as habilidades em LDs. Tholey publicou exemplos singulares de como os movimentos de treinamento em LDs podem melhorar o desempenho na vida desperta[41], e recentemente Michael Schredl e Daniel Erlacher mostraram mais sistematicamente como o treinamento noturno de habilidades motoras durante os períodos REM pode influenciar positivamente o desempenho em esportes[42], como esqui, atletismo, ginástica, mergulho em altura, windsurf e ioga[43].

 

Criatividade

Agora está firmemente estabelecido que os sonhos comuns podem desencadear ideias criativas e fornecer insights excepcionais para cientistas e artistas de todos os tipos. Descobriu-se que LDs também abrem a porta para o criador interno[44].

LaBerge e Rheingold definem a criatividade não como um talento raro, mas sim como “o uso da imaginação para produzir algo novo” e acrescentam que “não podemos deixar de ser criativos”[45].  LDs oferecem a oportunidade para qualquer pessoa entrar na área de escolha na qual deseja ser criativo e inventivo.

 

Cura

Oneironautas experientes dizem que a capacidade de influenciar um sonho é empolgante e edificante. Este sentimento poderoso é uma base excelente para aumentar a energia vital e o bem-estar, e apoiar os processos de saúde e cura em todos os níveis. Notavelmente, agora está estabelecido que pessoas paraplégicas congênitas ou surdas-mudas são libertadas de sua deficiência enquanto sonham lucidamente, descobrindo-se capazes de se mover, correr, nadar, ouvir ou falar[46].

Wagoner descreve doze exemplos de LDs em cura[47], entre eles uma fratura de tornozelo, sangramento menstrual descontrolado e verrugas plantares dolorosas. Uma descoberta recente mostra que a depressão está positivamente correlacionada com a frequência de LDs, ou seja, pessoas deprimidas alcançam a lucidez em seus sonhos com mais frequência do que a média[48]. Isso pode parecer conflitante com achados positivos, mas possivelmente é um efeito da relação entre depressão e distúrbios do sono, em que pensamentos preocupantes à noite promovem sonhos lúcidos. O estresse também é um fator importante nos transtornos causados ​​por um desequilíbrio dos processos mentais, emocionais e físicos da vida: a redução do estresse é uma função importante da lucidez dos sonhos, que oferece a oportunidade de superar problemas pessoais apelando para ajuda para a imagem ou forma de um pessoa sábia ou curandeira.

 

Percepção extra-sensorial em sonhos lúcidos

A pesquisa pioneira sobre PES (percepção extra-sensorial, um termo global para telepatia, clarividência e precognição) em sonhos comuns foi publicada na forma do livro “Phantasms of the Living”, por Gurney, Myers & Podmore em 1886. Outras investigações foram realizadas por Eleanor Sidgwick, J.W. Dunne e Louisa Rhine[49], culminando com os estudos de grande sucesso no Maimonides Medical Center, em Brooklyn, Nova York, realizados por Ullmann, Krippner e Vaughan durante o final dos anos 1960 e início dos anos 1970[50]. Os estudos do Maimonides abriram novos caminhos ao demonstrar evidências de PES em sonhos, especificamente a telepatia e a precognição dos sonhos, e as descobertas permanecem robustas, apesar de décadas de escrutínio[51].

Nenhuma pesquisa experimental até o momento foi relatada sobre PES ocorrendo durante LDs, mas relatos de casos de sonho único podem ser encontrados na literatura, como o livro instrutivo Lucid Dreaming de Waggoner[52] .

 

Personagens de Sonho

As figuras que aparecem nos LDs podem ser tão complexas quanto as encontradas nos sonhos comuns. Eles podem ou não ser conhecidos pessoalmente pelo sonhador, ou podem ser pessoas falecidas, ou podem parecer humanóides, mas diferentes dos humanos. Eles podem mudar a aparência e a personalidade ou dar a impressão de serem compostos por vários personagens. Além disso, figuras LD tendem a se comportar de forma realista, além de voar e atravessar paredes!

Muito debate ocorre entre os sonhadores lúcidos a respeito do grau de "realidade" dessas imagens. Dois tipos de LDs fornecem evidências de que são reais: aqueles em que fornecem informações que o sonhador não conhece, mas que mais tarde foram consideradas verdadeiras, e os sonhos compartilhados (ver abaixo).

 

Pessoas falecidas

A percepção durante o sonho de que uma pessoa no sonho é uma falecida pode levar à lucidez, da mesma forma que qualquer estranheza que ocorre nos sonhos pode fazer em princípio. Às vezes, a pessoa com quem está sonhando informa ao sonhador sobre si mesma, como neste exemplo em um estudo da pesquisadora americana Deirdre Barrett:

Então eu vi meu irmão sentado - o mesmo que faleceu em 1906 - e me aproximei dele dizendo: “Agora estamos sonhando, nós dois”. Ele respondeu: “Não, não sou!” E então me lembrei que ele estava morto. … Havia uma grande estátua de pedra de uma cabeça… ela se virou ligeiramente e piscou para mim. … Eu olhei para a cabeça e disse “Isto não é um sonho!” Ele piscou novamente e disse "Oh sim, é!"[53]

A ocorrência de imagens de pessoas falecidas em sonhos lúcidos foi investigada pela pesquisadora psíquica alemã Annekatrin Puhle. Seu estudo de dezoito meses, realizado em 2014-15, buscou informações dessas figuras, idealmente que os sonhadores não pudessem se conhecer. Noventa sonhadores lúcidos inicialmente participaram; com uma exceção, todos tinham experiência anterior com os três níveis de LD descritos anteriormente, e todos receberam as diretrizes de Robert Waggoner para interagir com figuras oníricas[54]. Oitenta LDs foram relatados e analisados ​​em torno de dez aspectos temáticos da comunicação[55].

 

Criando Amigos       

O uso do sonho lúcido para criar um amigo ou guia espiritual protetor remonta a milhares de anos, desde a ioga dos sonhos da tradição budista Bön. Muitas crianças de até seis anos criam amigos fantasiosos em sua imaginação. Os sonhadores lúcidos parecem concordar que podem criar uma variedade de seres − de amigos a figuras divinas − e experimentá-los como reais ou mais do que reais, equipados com as qualidades atribuídas a eles pelo sonhador. As figuras LD parecem tão reais quanto o próprio corpo do sonhador, mas permanece incerto se elas realmente representam pessoas reais ou são meras formas-pensamento criadas pela mente sonhadora. Algumas figuras oníricas realmente parecem ser formas-pensamento, enquanto outras, de acordo com Waggoner[56]. Os psicólogos transpessoais David Fontana e Charles Tart revisitaram independentemente uma velha ideia de que é possível, e às vezes benéfico, criar uma figura onírica sábia que pode fornecer ajuda quando necessário, responder a perguntas e promover o crescimento pessoal[57].

 

Sonhos lúcidos compartilhados

Um fragmento encontrado na obra do filósofo grego Heráclito afirma que o sonhador entra em seu próprio cosmos, idios kosmos. O termo se relaciona com a palavra moderna 'idiota', o indivíduo que está trancado em seu próprio reino. Mas muitos sonhos se estendem além dos limites de um 'cosmos' pessoal e transcendem até mesmo os sentidos humanos por meio de PES. Outra área complexa, que mostra a interconexão do sonhador com um cosmos além das condições físicas, é a dos sonhos compartilhados ou mútuos. Este termo pode significar coisas diferentes:

§  dois sonhadores sonham espontaneamente com o mesmo conteúdo ou semelhante, sem se encontrarem em seus sonhos;

§  o sonhador encontra outra pessoa em um sonho enquanto essa outra pessoa está sonhando com um conteúdo semelhante, mas não consegue se lembrar de ter encontrado o primeiro sonhador no sonho;

§  dois sonhadores se encontram em um sonho com conteúdo semelhante e ambos se lembram disso depois;

§  um sonhador encontra outra pessoa no sonho e depois descobre que essa pessoa não sonhou a mesma coisa ou algo semelhante, mas, em vez disso, realizou em estado de vigília o que a primeira pessoa havia sonhado;

§  os sonhos de um ou ambos os sonhadores coincidem com sua intenção.

Em uma pesquisa com setenta estudantes suecos realizada por Adrian Parker, 13% dos entrevistados relataram ter LDs mútuos ou compartilhados na proporção de um ou mais por mês[58].

Todos os três tipos de experiência de PES parecem ser uma parte natural dos LDs compartilhados. Wagoner publicou alguns desses raros relatórios de LDs[59] compartilhados, comentando que 'sonho mútuo ... serve para fornecer evidências de que o espaço, como o tempo, não é fundamentalmente como o percebemos'. Referindo-se à palavra sânscrita maya, ele vê o sonhador lúcido como cocriador − junto com o Eu maior − do mundo dos sonhos que ele / ela então experimenta. A separação dos eus pode ser devida "à crença em nós mesmos como sendo separados e separados, em vez de parte de um todo maior"[60].

Sonhos compartilhados e lucidez não ocorrem necessariamente em combinação, mas a lucidez torna um sonho mais provável de ser compartilhado. A lucidez pode funcionar como uma 'ferramenta para desenvolver a consciência' e apoiar o sonho mútuo, da mesma forma que a incubação do sonho ou a concentração na intenção de um sonho enquanto está acordado[61].

 

Aspectos filosóficos e espirituais

O corpo de sonho lúcido

A noção de um corpo de sonho pode ter se originado no conceito de Platão de um "veículo da alma"[62], adotado por Porfírio e Jâmblico e descrito pelo neoplatônico Proclo como "semelhante a uma estrela" (asteroides). A ideia ganhou ainda mais popularidade com o uso de Paracelso do termo "corpo sideral" (Sternenleib) e deu origem ao termo posterior "corpo astral". Paracelso atribuiu a esse corpo estelar a habilidade de atravessar paredes, uma experiência que emociona os sonhadores lúcidos. As atitudes dos sonhadores lúcidos em relação ao corpo variam desde não prestar atenção a ele até sentir a sensação de estar em um corpo sólido e real. Isso contrasta com o experimentador de OBE, que às vezes percebe seu corpo como um corpo sutil transparente.

O corpo LD raramente muda de forma durante o sonho[63]. Onde quer que o corpo − como a casca da experiência do eu − possa estar durante LDs, OBEs e o estado de vigília, a "experiência dentro do corpo" usual levanta uma questão filosófica chave: Onde está esse "eu", o localizado, se for para ser localizado? Não há evidências de que o self é definido ou limitado por limites físicos. Em vez disso, parece que 'o eu está onde sente que está. Parece que sua localização é puramente subjetiva e derivada de informações dos órgãos sensoriais[64].

 

Explorando o Espaço Interior

Ao afirmar que o sonhador ganha acesso ao seu mundo privado, Heráclito deu importância à exploração do reino interior do sonhador. No entanto, como todos os sonhos, os LDs não estão desconectados de uma realidade comum. Por exemplo, os símbolos nos sonhos podem ser carregados de significado individual, mas mais tipicamente eles expressam um significado geral conhecido na cultura do sonhador ou além dela em um sentido universal e arcaico.

O LD oferece a oportunidade de encontrar respostas para perguntas pessoais e soluções para problemas de acordo com a situação atual e as necessidades agudas do sonhador. Pode facilitar uma jornada pelos tópicos favoritos da vida da pessoa, revelar o potencial das qualidades pessoais e descobrir lados novos e não desenvolvidos e dizer ao sonhador como trazê-los à vida. A mensagem é que há espaço em realidade para as coisas com as quais o sonhador sonha.

 

Meditação e Yoga

Existem paralelos entre a lucidez do sonho e a meditação. Harry T. Hunt apoia a ideia de que o sonho lúcido é 'uma forma de meditação emergente espontaneamente' com base nas semelhanças entre as duas experiências. Jayne Gackenbach considera que a lucidez é a expressão natural de nossos lados femininos, referindo-se a estudos que revelam 'paralelos psicológicos e fisiológicos importantes entre lucidez e meditação'[65]. Os meditadores não apenas se lembram melhor de seus sonhos, mas também têm sonhos lúcidos com mais frequência do que os não meditadores, enquanto o conteúdo tem maior probabilidade de ser transpessoal. Relatos de suspensão da respiração e fortes experiências de clareza durante a meditação estão relacionados a alegações de estar hiperconsciente durante períodos de sono não REM[66].

Meditar em um LD como uma combinação de duas atividades poderosas ajuda o praticante a viver em um nível mental altamente lúcido, consciente ou "superconsciente"[67]. Este exercício combinado requer ainda mais autodisciplina, mas pode recompensar o praticante − independentemente do método ou caminho na vida − com experiências intensas que incluem[68]:

§  um estado de êxtase ou êxtase;

§  um sentimento de transcendência;

§  aumento de energia;

§  percepção aumentada;

§  percepções sobre conceitos ou problemas;

§  percepção alterada de tempo ou espaço;

§  um profundo senso de unidade universal.

 

Aspectos Filosóficos

Uma questão filosófica importante surge com as experiências intensas nos sonhos, e que se aplica especialmente aos sonhos lúcidos: o que é real?

Nas sociedades modernas, as experiências dos sonhos são consideradas irreais, em oposição às experiências da vida desperta. Mas, em algumas tradições, os sonhos são entendidos como uma parte igualmente real da vida. Nas tradições budistas do iogue tibetano Bön, as habilidades dos sonhos lúcidos têm sido usadas para o crescimento pessoal, a iluminação espiritual e, especialmente, para preparar a transição por meio da morte para outra realidade de vida[69]. Essas tradições "usam os sonhos para alcançar a libertação dos devaneios da vida cotidiana e usam o sono para despertar da ignorância"[70]. Ressalta-se que 'os ensinamentos não são ideias a serem coletadas, mas um caminho a ser percorrido'[71].

Na filosofia europeia, Platão relativizou a realidade com sua alegoria da caverna, na qual percebemos apenas as sombras do mundo real acima e atrás de nós, fora da entrada[72]. Platão deu nova vida à ideia mais antiga expressa por Heráclito por volta de 500 a.C., de que tudo na vida se move em um fluxo contínuo. Cada momento da vida acordado passa tão rápido quanto nos sonhos, demonstrando que a vida cotidiana é tão irreal quanto os sonhos − ou tão real, dependendo do ponto de vista de cada um. Os LDs transmitem um forte senso de realidade de que, para alguns sonhadores, é tão real quanto a realidade cotidiana normal e, para outros, ainda mais real. A última experiência pode ter um impacto especialmente forte, alterando a visão de mundo do sonhador e desencadeando um processo de transformação de vida.

Tudo isso mostra que a sensação de que um evento é real não significa que esteja acontecendo no mundo físico que todos compartilhamos quando estamos acordados. Isso não significa negar que as experiências interiores são reais, pois têm efeitos profundamente profundos em nossas vidas[73].

Se 'a vida é um sonho', como LaBerge e Rheingold intitulam o último capítulo de seu livro Exploring the World of Lucid Dreaming, os insights da ioga dos sonhos vão um passo além e revelam que os sonhos também são sonhos, em outras palavras, ilusões[74].

As percepções filosóficas e espirituais oferecidas pelos sonhos lúcidos podem ser de grande benefício, intensificando e enriquecendo a vida de uma pessoa, ajudando a superar o medo da morte e apoiando o processo de transição na morte.

 

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Traduzido com Google Tradutor



[2] Parker (2012).

[3] Schredl & Erlacher (2004), 1469.

[4] Saint-Denys, 1 st  edição 1867, Inglês 1982; LaBerge (1980).

[5] Eeden (1913).

[6] Voss et al. (2013), 19.

[7] Voss et al. (2009), 1196-97.

[8] Veja Puhle (no prelo).

[9] Hearne (1978).

[10] Tholey (1989), Parte 2.

[11] Barrett (1992), 221.

[12] Fontana (1997), 65.

[13] Levitan e LaBerge (1991).

[14] Parker (2012).

[15] Veja Puhle (no prelo).

[16] Devereux & Devereux (2011), 95.

[17] Devereux e Devereux (2011), 97-98; Puhle (2016).

[18] LaBerge, Nagel, Taylor, Dement & Zarcone (1981).

[19] Tholey (1983); também Zarda et al. (1992).

[20] cf. Versão modificada de Waggoner de Castaneda, em Wagoner & Macready (2015), 34-35.

[21] Wagoner e McCready (2015).

[22] Strumbys et al. (2012).

[23] Strumbys et al. (2012), 1471.

[24] LaBerge (1985), 155-58.

[25] LaBerge (1985), 156.

[26] LaBerge e Rheingold (1991).

[27] Tholey (1983).

[28] Paulsson e Parker (2006); Zadra et al. (1992).

[29] Strumbys et al. (2012), 1470.

[30] Strumbys et al. (2012), 1468.

[31] Wagoner & McCready (2015), 51.

[32] Levitan e LaBerge (1991).

[33] LaBerge & Rheingold (1991), 17.

[34] Wagoner e McCready (2015).

[35] Wagoner & McCready (2015), 53-63.

[36] LaBerge (1985), 71.

[37] Uma visão geral de cinco estudos relevantes é fornecida por Schädlich & Erlacher (2012, 134).

[38] LaBerge & Rheingold (1991), 255.

[39] Rilke (1984). 91-92, citado por LaBerge & Rheingold (1991, 255), inspirado por Gayle Delaney.

[40] LaBerge & Rheingold (1991), 215-16.

[41] Tholey (1981).

[42] Erlacher (2005), 7.

[43] Erlacher (2005).

[44] Barrett (2001).

[45] LaBerge & Rheingold (1991), 205.

[46] Voss et al. (2011), 677, 682.

[47] Wagoner (2009), 157-72.

[48] Taitz (2011), 122.

[49] Veja Saunders (2015).

[50] Ullmann & Krippner, com Vaughan (1973/2003).

[51] Sjödén (2003), 100.

[52] Wagoner (2009), 139-154, 173-205.

[53] Barrett (1992), 227.

[54] O conselho seguiu as orientações de Robert Waggoner, enviado pessoalmente a Annekatrin Puhle.

[55] Puhle & Parker, enviado em 2016.

[56] Wagoner (2009), 125.

[57] Fontana (1997), 64-65.

[58] Parker (2012).

[59] Veja o capítulo 'Sonhos lúcidos mútuos' em Waggoner (2009), 207-26.

[60] Waggoner (2009), 226.

[61] Campbell (2006), 207.

[62] Platão, Fedro.

[63] Garfield (1974), 128.

[64] Levitan e LaBerge (1991).

[65] Gackenbach (1990), 244.

[66] Gackenbach (1990), 245.

[67] Yogananda (1946).

[68] Wagoner & McCready (2015), 172.

[69] Wangyal (1998).

[70] Wangyal (1998), 17.

[71] Wangyal (1998), 19.

[72] Platão, República , Livro X, 514a-520a.

[73] Levitan e LaBerge (1991).

[74] LaBerge e Rheingold (1991).