quarta-feira, 6 de abril de 2022

TELEPATIA GÊMEA[1]

 


Guy Lyon Playfair

 

A sugestão de que existe uma "conexão especial" entre gêmeos é antiga, e incidentes sugestivos de telepatia são frequentemente relatados na imprensa popular. No entanto, apenas no presente século a alegação foi sistematicamente investigada.  

 

Relatórios iniciais

John Wesley, o fundador do Metodismo, menciona em seu Diário de 7 de abril de 1781, um par de irmãs gêmeas “entre as quais há uma simpatia tão estranha que, se uma delas estiver doente, ou particularmente afetada a qualquer momento, a outra é assim também'. As mulheres também tiveram sonhos idênticos simultâneos, embora estivessem vivendo distantes, observou Wesley. 

Outra referência inicial é encontrada em The Night-Side of Nature (1848), de Catherine Crowe, onde ela escreve sobre a "admirável simpatia" que "geralmente se manifestava, mais ou menos, entre todas as pessoas nascidas de gêmeos", implicando que isso já era conhecimento comum. Ela menciona uma mulher que apresentou sintomas de afogamento no exato momento em que seu gêmeo estava de fato se afogando.

A simpatia dos gêmeos foi tema de um romance, Os irmãos corsos (1844), de Alexandre Dumas, cujo personagem principal é um de um par de gêmeos siameses separados no nascimento. Isso, explica ele, significa que, por mais distantes que estejamos agora, ainda temos um e o mesmo corpo, de modo que qualquer impressão, física ou mental, que um de nós perceba tem seu efeito posterior no outro. O personagem sente a morte de seu irmão em um duelo em Paris, no momento em que ele próprio está cavalgando na Córsega. Mais tarde, surgiram evidências para sugerir que esse incidente fictício pode ter sido baseado em fatos.                                                            

Em 1863, um médico francês chamado Baume foi capaz de investigar em primeira mão um caso muito incomum e complicado do que chamou de " suicídio folie" entre dois gêmeos que também incluíam sonhos idênticos. Ele achou suficientemente notável publicar um relato detalhado disso em uma importante revista médica[2].

Este e outros casos semelhantes de aparente insanidade sincronizada levaram o cientista Francis Galton a realizar um estudo dos trinta e cinco gêmeos que ele conseguiu contatar. Ele encontrou uma “semelhança extremamente próxima” em onze deles e deu um exemplo do que lhe pareceu mais do que coincidência:

Uma das anedotas mais curiosas que recebi sobre essa semelhança de ideias foi que um gêmeo, A, estava em uma cidade da Escócia, comprou um conjunto de taças de champanhe que chamou sua atenção, como surpresa para seu irmão B; enquanto, ao mesmo tempo, B, estando na Inglaterra, comprou um conjunto similar de exatamente o mesmo padrão como surpresa para A.

Ele acrescentou que 'outras anedotas do mesmo tipo chegaram até mim sobre esses gêmeos', mas não dá detalhes. Esses casos são muitas vezes descartados como exemplos de "concordância" em vez de telepatia, mas embora o primeiro pudesse explicar a preferência dos irmãos por óculos idênticos, dificilmente poderia explicar seus desejos presumivelmente espontâneos de surpreender um ao outro ao mesmo tempo[3].

 

Pesquisa inicial de SPR

Quando a Society for Psychical Research foi fundada em 1882, a palavra 'telepatia' sendo cunhada no mesmo ano por Frederic Myers, três de seus membros - Myers, Edmund Gurney e Frank Podmore - realizaram um grande levantamento de fenômenos espontâneos no mundo geral. público, e recebeu uma série de relatos bem testemunhados de gêmeos que os levaram a comentar que:

Na suposição de que um vínculo natural entre duas pessoas é uma condição favorável para a influência telepática, há um grupo de pessoas entre as quais poderíamos esperar encontrar um número desproporcional de casos, a saber, gêmeos.

Foi o que encontraram e publicaram cinco casos que acompanharam, todos envolvendo a aparente consciência da morte ou quase morte de um gêmeo distante, como no romance de Dumas. Um gêmeo descreveu 'uma espécie de medo de pânico', outro sentiu 'uma estranha tristeza e depressão', enquanto um terceiro teve uma visão de seu irmão distante olhando para ele em um teatro lotado de Toronto 'de uma maneira intensa, estranha e agonizante' em na noite em que morreu – na China[4].

Passaram-se várias décadas antes que os pesquisadores tentassem seguir essas pistas promissoras, ou mesmo relatar novas. Em 1942, o professor de zoologia (e gêmeo) H.H. ​​Newman, da Universidade de Chicago, publicou um livro que incluía um capítulo sobre 'super-gêmeos' no qual citava vários exemplos de aparente telepatia que ouvira de seus alunos. Um particularmente impressionante envolveu dois meninos que escreveram provas idênticas, mesmo cometendo os mesmos erros, embora estivessem em salas separadas. Em outra ocasião, os meninos novamente separados por suspeitas anteriores de conluio, um deles reclamou que não podia começar a escrever porque seu irmão 'não estava pronto'. Descobriu-se que houve um atraso no fornecimento de sua prova para que ele também não estivesse pronto. Pensa-se que um dos rapazes em questão era de fato o próprio autor. No entanto, como Galton, ele não fez mais pesquisas sobre o assunto de 'super-gêmeos', apesar de sua própria experiência[5].

 

Falsas partidas

Meio século depois, ainda era possível para a reconhecida especialista em gêmeos, Dra. Nancy Segal, da Universidade de Minnesota, para declarar em uma entrevista que tais estudos de telepatia gêmea foram "tão mal feitos que você não pode nem mesmo usá-los para fazer um julgamento informal". Isso pode ter sido verdade para um julgamento informal[6]'. Isso pode ter sido verdade para a maioria de um número muito pequeno de estudos, mas houve exceções notáveis:

Em 1961, uma equipe de psicólogos sediados em Toronto começou a projetar um experimento de telepatia sob condições "que dão aos fenômenos que estudamos todas as oportunidades de emergir". Eles escolheram gêmeos, cientes de que um forte vínculo emocional tornava a telepatia mais provável de ocorrer. Eles questionaram um grande grupo deles e descobriram que cerca de um terço acreditava que podiam se comunicar por telepatia, vários deles convencidos de que já o haviam feito, especialmente quando seu co-gêmeo tinha um problema. Como disse um deles: 'Eu frequentemente sei quando há algo errado. Eu me sinto no limite e infeliz sem motivo[7]'.

Embora a equipe de Toronto nunca tenha conseguido realizar seu experimento, seu conselho para futuros pesquisadores continua sendo útil: os gêmeos tinham que ser o mais idênticos possível, mesmo ao ponto de pensarem em si mesmos como uma pessoa, como alguns pensam, e tinham que ser bom em visualizar, já que parecia haver uma ligação entre telepatia e imagens.

Quatro anos depois, dois oftalmologistas da Filadélfia publicaram um breve artigo em uma importante revista científica em que alegavam ter demonstrado que as influências telepáticas poderiam ser registradas instrumentalmente. Ao induzir artificialmente o ritmo alfa em um de um par de gêmeos, eles mostraram que o cérebro do outro entrou em alfa exatamente ao mesmo tempo, através do que eles chamaram controversamente de "indução extra-sensorial[8]".  

Havia fraquezas neste experimento empreendedor, que seus autores descreveram como 'preliminar'. Há boas razões para pensar que as fortes críticas que seu artigo recebeu não foram apenas desproporcionais a seus defeitos, mas serviram para suprimir quaisquer tentativas de buscar essa (então) nova linha de investigação, como os autores esperavam explicitamente.

Uma única exceção foi a afirmação semelhante feita em 1967 por uma equipe do Rockland State Hospital usando um pletismógrafo (um dispositivo agora obsoleto que media o volume de sangue). Eles usaram apenas um par de gêmeos, mas relataram com confiança que "em um indivíduo fisicamente isolado, observamos reações fisiológicas no momento preciso em que outra pessoa foi ativamente estimulada". Eles até imprimiram todo o registro do gráfico 'para mostrar quão óbvias são as reações[9]'.

Podem parecer óbvios, mas os pesquisadores mencionados em ambos os experimentos acima descobriram que tais reações não foram observadas entre todos os gêmeos. Embora cada um deles tivesse mostrado que era possível fazer gravações instrumentadas do que parecia ser a telepatia em ação, levariam cerca de quarenta anos para que houvesse qualquer tentativa sustentada de dar continuidade ao seu trabalho.

No final do século XX, a pesquisa sobre a telepatia gêmea não havia feito muito progresso. Apesar da abundância de evidências anedóticas para isso, os críticos preferiram explicações alternativas. Ainda em 2011, um professor de psicologia ainda podia afirmar com confiança que “a telepatia gêmea se deve às maneiras altamente semelhantes pelas quais eles pensam e se comportam, e não à percepção extra-sensorial[10]”. No entanto, evidências recentes, algumas delas publicadas antes daquele ano, indicam que isso pode ter sido uma simplificação excessiva prematura.

 

Dificuldades na Pesquisa

Grande parte da pesquisa inicial envolveu um número muito pequeno de sujeitos, sem nenhuma tentativa de selecioná-los para a suscetibilidade à telepatia. Também foi assumido que todos os gêmeos idênticos eram iguais e, portanto, deveriam ser capazes de demonstrar telepatia sob demanda, independentemente do tipo de teste e do tipo de gêmeo.

O termo 'idêntico', comumente usado para o que é mais precisamente conhecido como gêmeos monozigóticos (MZ) é enganoso, pois pode haver diferenças consideráveis ​​entre eles, como Galton notou em sua pesquisa mencionada acima. Alguns permanecem intimamente ligados ao longo de suas vidas, enquanto outros afirmam sua independência desde tenra idade, em casos extremos até mesmo cortando relações entre si. Pode-se dizer com justiça que alguns gêmeos idênticos são mais idênticos do que outros, alguns muito mais. Como isso pode ser?

Os gêmeos MZ surgem quando um óvulo fertilizado, ou zigoto, se divide em dois (ou mais) zigotos no útero, cada um dos quais evoluindo como uma entidade geneticamente idêntica, mas individual. Estudos de um grande número de gêmeos MZ na Universidade de Indiana mostraram que o momento da separação tem um efeito marcante na personalidade dos gêmeos, os divisores tardios, que não receberam seus próprios sacos e placentas, mostrando uma ligação muito mais forte um com o outro. Como eles passaram quase doze dias como uma única entidade, seguidos por todo o período de gestação em contato direto com seu gêmeo, mesmo ao ponto de estarem literalmente emaranhados, podemos supor que eles são mais propensos a exibir telepatia do que os primeiros. Há indicações promissoras de que isso é verdade, mas ainda não foi totalmente confirmado experimentalmente[11].

Outro problema que o pesquisador deve enfrentar é que a telepatia vivida por gêmeos é tipicamente um fenômeno espontâneo e, portanto, difícil de reproduzir em um ambiente de laboratório. Isto é especialmente verdade quando, como ocorre com frequência, o estímulo distante é angustiante, como um acidente, dor, doença ou morte. No entanto, houve várias tentativas de fazer isso sem colocar a vida dos sujeitos em risco, com algum sucesso. A primeira foi em 1997, quando um programa de televisão popular incluiu um experimento na frente de uma plateia ao vivo: aqui a gêmea A, sentada em frente a uma grande pirâmide, foi colocada em um estado de transe leve, sua irmã B estava em uma sala distante e à prova de som conectada a um polígrafo que registrava sua respiração, batimentos cardíacos e resposta galvânica da pele.

Após um período de meditação relaxante, a pirâmide foi feita para explodir com um grande estrondo, dando um choque considerável no gêmeo A. Ao mesmo tempo, todos os canais que monitoram B atingiram um pico acentuado. Este foi um projeto piloto útil para experimentos mais controlados a seguir. Mostrou que, quando gêmeos são cuidadosamente selecionados, como foram, e submetidos a um estímulo surpresa, eles são muito mais propensos a reagir do que poderiam ter sucesso no tipo de experimento de telepatia que envolve adivinhar símbolos em cartas[12].

Seguindo este programa – junto com um livro popular e um artigo de jornal sobre telepatia gêmea – quatro experimentos semelhantes usando o polígrafo foram exibidos em diferentes canais. Isso deu algum suporte à visão de que a telepatia pode ser mostrada não apenas para causar uma resposta física, mas também para ser registrada instrumentalmente ao fazê-lo. Os estímulos surpresa usados ​​incluíam mergulhar a mão ou o pé em água gelada, dar um leve choque elétrico e fazer barulhos altos repentinos ao estourar balões ou derrubar pilhas de pratos de porcelana[13].   

 

Novas direções

Em 2004, uma pesquisa do Departamento de Pesquisa de Gêmeos e Epidemiologia Genética do King's College, em Londres (DTR), obteve mais de cinco mil respostas. Quase quarenta por cento dos gêmeos em seu registro, questionados se tinham "a capacidade de saber o que estava acontecendo com seu parceiro", responderam que sim, outros quinze por cento estando "convencidos" disso. Mesmo que todos os que não respondessem não estivessem convencidos, isso ainda significava que cerca de um terço dos cerca de nove mil gêmeos estavam pelo menos abertos à possibilidade de comunicação à distância, mais de mil sem dúvidas. Essa é quase a mesma porcentagem que Galton havia encontrado um século antes de "semelhança extremamente próxima".

Um resultado semelhante foi alcançado pela autora Mary Rosambeau após um apelo de jornal ao qual ela recebeu 600 respostas. Seu longo questionário sobre todos os aspectos da atividade de gêmeos incluía estas duas perguntas:     

1.       Você ou seu(s) gêmeo(s) tiveram alguma experiência que possa ser explicada como sendo capaz de ler a mente um do outro? Se sim, o quê?

2.       Você já se surpreendeu por ambos terem a mesma doença ou dor ao mesmo tempo?

Ela recebeu um total de 183 respostas 'sim' e descobriu que elas se enquadravam em seis categorias:

1.       Antecipação de contato iminente, ou 'saber' quando um gêmeo está prestes a telefonar para o outro. Isso é sugestivo de telepatia, mas não prova. Por exemplo, se eles sempre telefonassem um para o outro diariamente, não seria uma forte evidência disso, mas se essas ligações fossem raras, seria consideravelmente mais forte

2.       Discurso ou pensamento idêntico simultâneo – dizer a mesma coisa ao mesmo tempo, cantar uma música que o outro estava pensando, ou como um gêmeo disse: 'Muitas vezes respondemos a uma pergunta que o outro ainda não fez'. Isso é mais sugestivo de telepatia, mas também pode ser apenas um exemplo de concordância de pensamento, como o seguinte.

3.       Escrita idêntica simultânea. Isso é bastante comum, por exemplo, ao responder à mesma pergunta do exame depois de fazer o mesmo dever de casa, mesmo com palavras idênticas. (Mas veja a experiência dos gêmeos de Newman descrita acima).

4.       Expressão simultânea de gosto idêntico, como os compradores de taças de champanhe da Galton.

5.       'Apenas sabendo'. Gêmeos frequentemente relatam que "simplesmente sabiam" que o outro estava com problemas. Eles comentam 'Senti que algo estava errado', 'Senti-me muito desconfortável' ou 'Fui tomado pela miséria'.

6.       Dor simpática. Esta é a mais sugestiva de telepatia, especialmente quando coincide com um acidente distante, que dificilmente pode ser atribuído à genética ou a qualquer outro tipo de concordância[14]. Um exemplo particularmente marcante, filmado na época e depois exibido na televisão, mostrava uma menina de seis anos com um olho roxo bem visível assegurando à mãe que não havia sofrido um acidente e não sentia dor, enquanto sua irmã esteve envolvida em uma queda no parquinho que a deixou com um olho ainda mais roxo (o mesmo) e uma dor considerável. Há vários incidentes semelhantes registrados[15].

Pesquisas subsequentes mais detalhadas com gêmeos do DTR deram suporte claro às descobertas anteriores. Enquanto um número surpreendente de gêmeos fraternos ou dizigóticos (DZ) relataram casos de telepatia e sonhos compartilhados, os gêmeos MZ relataram quase o dobro de cada um[16].

Há agora evidências convincentes de que alguns gêmeos MZ e alguns, embora menos, gêmeos DZ experimentaram alguma forma de comunicação à distância com seus irmãos ou irmãs de uma maneira ainda inexplicável.

 

Pesquisa futura

É claro que a telepatia não se restringe a gêmeos. Os outros dois pares mais propensos a experimentá-lo são mães e bebês recém-nascidos e cães e seus donos. No entanto, o vínculo gêmeo é talvez o mais forte de todos, já que, ao contrário dos outros dois, pode durar uma vida (humana). Também é de especial interesse porque pode produzir evidências fisiológicas visíveis, como mencionado acima. Agora é possível registrar a telepatia instrumentalmente enquanto ela acontece e observar seus efeitos posteriores.

Houve estudos detalhados dos outros pares[17], mas a telepatia gêmea permanece geralmente negligenciada, apesar de mais de dois séculos de evidências bem documentadas. Houve vários começos promissores, mas ainda nenhum programa de pesquisa sustentado em um assunto que pudesse nos forçar a aceitar novos aspectos da psicologia, biologia e física atualmente considerados áreas tabu.

Os críticos costumam apontar que, se dois relógios idênticos forem totalmente enrolados, eles sempre mostrarão a mesma hora e provavelmente 'morrerão' mais ou menos ao mesmo tempo. Essa analogia é usada para explicar todos os casos de coincidências simultâneas de gêmeos[18].

No entanto, se fôssemos separar nossos dois relógios e quebrar um em pedaços apenas para descobrir que o outro havia parado de repente, embora ainda enrolado, o que aconteceria? Isso é o que realmente acontece, e pode ser visto acontecer com os gêmeos MZ. O desafio da pesquisa com gêmeos é descobrir por que isso acontece e o que isso implica. É um desafio que apenas um punhado de pesquisadores até agora está disposto a enfrentar.



[2] Baume, Dr.  ‘Singulier cas de folie suicide chez deux frères jumeaux – Coïncidences bizarres’, Annales Médico-Psychologiques, 4 série vol.1, 1863, 312-3.

[3] Galton, F. Enquiries into Human Faculty, London: Macmillan, 1883, 165.

[4] Gurney, E., F.W.H.Myers and F. Podmore. Phantasms of the Living. London, Trübner, 1886, ch.7, §3.

[5] Newman. H.H. Twins and Super-Twins, London: Hutchinson, 1942.

[6] Segal, N. The myth of twins. Separating the fact from the fiction. (Videotape), Altadena, The Skeptics’ Society (n.d.).

[7] Sommer, R., H.Osmond and L.Pancyr. ‘Selection of twins for ESP experimentation’. International Journal of Parapsychology 3 (4) 1961, 55-73.

[8] Duane, T.D. and T. Behrendt, ‘Extrasensory electroencephalographic induction between identical twins’, Science,  15 October 1965, 367.

[9] Esser, A., T.L.Etter and W.B.Chamberlain, ‘Preliminary report: Physiological concomitants of “communication” between isolated subjects’, International Journal of Parapsychology 9(1)1967, 53-6.

[10] Wiseman, R., Paranormality: Why We See What Isn’t There. London: Macmillan, 2011, 84-5.

[11] Sokol, D.K. et al., ‘Differences in personality and cognitive intrapair ability among young monozygotic twins distinguished by chorion type’. Behavior Genetics 25(5), 1995, 457-66.

[12] The Paranormal World of Paul McKenna. Carlton TV, 24 June 1997.

[13] Playfair, G.L., ‘Telepathy and identical twins’. Journal of the Society for Psychical Research 63, 1999, 86-98; Playfair, G.L., Twin Telepathy. 3rd. ed. Guildford: White Crow Books, 2012, (1st ed., 2002); Richard and Judy, Channel 4, 19 January 2003; Miracle Hunters, Discovery, 28 April 2004; Naked Science, National Geographic, 2005; Twintuition, ABC Primetime. 28 June 2011.

[14] Rosambeau.M., How Twins Grow Up. London: The Bodley Head, 1987.

[15] ABC Primetime, op.cit.

[16] C.G.Jensen and A.Parker, ‘Entangled in the womb: A pilot study on the possible physiological connectedness between identical twins with different embryonic backgrounds’. Explore 8, 2012, 339-47; A.Parker and C.G.Jensen, ‘Further possible connectedness between identical twins: The London study’. Explore 9, 2013, 26-31; G.Brusewitz et al. ‘Exceptional experiences amongst twins’. Journal of the Society for Psychical Research 77.4, 2013, 221-35.

[17] Sheldrake, R. Dogs That Know When Their Owners Are Coming Home. London: Hutchinson, 1999; Schwarz, B.E., Parent-Child Telepathy. New York: Garrett Publications, 1971.

[18] Wiseman, R., Paranormality: Why We See What Isn’t There,  84-5.




Traduzido Google Tradutor

terça-feira, 5 de abril de 2022

O ZUAVO JACOB[1] - (Segundo artigo)

 

Allan Kardec

 

O Sr. Jacob é um charlatão? Seu desinteresse material é um fato constante e, talvez, um dos que mais têm desorientado a crítica. Como acusar de charlatanismo um homem que nada pede e nada quer, nem mesmo agradecimentos?

Qual seria, pois, o seu móvel? O amor-próprio, dizem. Sendo o desinteresse moral absoluto o sublime da abnegação, seria preciso ter a virtude dos anjos para não experimentar certa satisfação quando se vê a multidão se comprimir em torno de si, enquanto na véspera se era desconhecido. Ora, como o Sr. Jacob não tem a pretensão de ser anjo, supondo, o que ignoramos, que tenha exaltado um pouco a sua importância aos seus próprios olhos, disso não se lhe poderia fazer um grande crime, nem isto destruiria os fatos, se os há. Preferimos crer que os que lhe imputam essa imperfeição estão muito acima das coisas terrenas, para se fazerem, a esse respeito, a mais leve censura.

Mas, em todo o caso, esse pensamento não podia ser senão consecutivo e não preconcebido. Se o Sr. Jacob tivesse premeditado o desígnio de se popularizar fazendo-se passar por curador emérito, sem poder provar algo mais que a sua incapacidade, em vez de aplausos só teria recolhido apupos desde o primeiro dia, o que não lhe teria sido muito lisonjeiro. Para se orgulhar de alguma coisa é preciso uma causa preexistente; fazia-se necessário, pois, que ele curasse, antes de se envaidecer.

Acrescentam que ele queria que falassem dele; seja. Se tal fosse o seu objetivo, deve-se convir que, graças à imprensa, ele foi servido na medida do possível. Mas, qual o jornal que poderá dizer que o Sr. Jacob tenha ido mendigar a menor propaganda, o menor artigo, que tenha pago uma única linha? Foi procurar algum jornalista? Não; os jornalistas é que foram a ele e nem sempre puderam vê-lo facilmente. A imprensa falou dele espontaneamente quando viu a multidão, e a multidão só veio quando houve fatos. Foi fazer a corte a grandes personagens? A estes se mostrou mais acessível, mais solícito, mais previdente? Todos sabem que, a esse respeito, ele levou o rigorismo ao excesso. Todavia, seu amor próprio teria encontrado mais elementos de satisfação na alta sociedade do que entre obscuros indigentes.

Naturalmente deve-se afastar toda imputação de intriga e de charlatanismo.

Ele cura todas as doenças? Não só não as curas todas, mas, de dois indivíduos, atingidos pelo mesmo mal, muitas vezes cura um e nada faz pelo outro. Nunca sabe de antemão se curará um doente, por isso nunca promete nada. Ora, sabe-se que os charlatães não são avarentos em promessas. A cura se deve a afinidades fluídicas, que se manifestam instantaneamente, como um choque elétrico, e que não podem ser prejulgadas.

É dotado de um poder sobrenatural? Voltamos ao tempo dos milagres? Perguntai a ele mesmo e ele vos responderá que em suas curas nada há de sobrenatural, nem de miraculoso; que é dotado de um poder fluídico independente de sua vontade, que se manifesta com maior ou menor energia, conforme as circunstâncias e o meio onde se encontra; que o fluido que emite cura certas doenças em certas pessoas, sem que ele saiba por que, nem como.

Quanto aos que pretendem que essa faculdade é um presente do diabo, pode-se responder que, uma vez que só se exerce para o bem, o diabo tem bons momentos, dos quais é bom aproveitar. Também se lhes pode perguntar que diferença existe entre as curas do príncipe de Hohenlohe e as do Zuavo Jacob, para que umas sejam reputadas santas e miraculosas e as outras diabólicas? Passemos sobre esta questão, que em nossa época não pode ser levada a sério.

A questão do charlatanismo prejulgava todas as outras, razão por que nela insistimos. Uma vez afastada, vejamos que conclusões podem ser tiradas da observação.

O Sr. Jacob cura instantaneamente doenças consideradas incuráveis: eis um fato positivo. A questão do número de doentes curados aqui é secundária; houvesse apenas um caso em cem e o fato não subsistiria menos. Ora, esse fato tem uma causa.

A faculdade curadora levada a esse grau de força, achando-se num soldado que, por mais honesto que seja, não tem o caráter, nem os hábitos, nem a linguagem, nem a atitude dos santos; exercida fora de toda forma ou aparato místico, nas mais vulgares e nas mais prosaicas condições; aliás, achando-se em diferentes graus numa porção de outras pessoas, em heréticos como os muçulmanos, os hindus, os budistas etc., exclui a ideia de milagres no sentido litúrgico da palavra. É, pois, uma faculdade inerente ao indivíduo; e, desde que não é um fato isolado, é que depende de uma lei, como todo efeito natural.

A cura é obtida sem o emprego de nenhum medicamento; portanto é devida a uma influência oculta. E desde que se trata de um resultado efetivo, material e que o nada não pode produzir coisa alguma, é preciso que essa influência seja algo de material. Então só pode ser um fluido material, conquanto impalpável e invisível. Como o Sr. Jacob nem toca no doente, nem lhe aplica nenhum passe magnético, o fluido não pode ter por motor e propulsor senão a vontade. Ora, não sendo a vontade um atributo da matéria, só pode emanar do Espírito; é, pois, o fluido que age sob o impulso do Espírito. Sendo a maioria das doenças curadas por esse meio aquelas contra as quais a Ciência é impotente, há, então, agentes curativos mais poderosos que os da medicina ordinária. Esses fenômenos são, por conseguinte, a revelação de leis desconhecidas pela Ciência. Em presença de fatos patentes, é mais prudente duvidar do que negar. Tais são as conclusões a que forçosamente chegará todo observador imparcial.

Qual a natureza desse fluido? É eletricidade ou magnetismo? Provavelmente tem um e outro e talvez algo mais; em todo o caso, é uma modificação deles, já que seus efeitos são diferentes. A ação magnética é evidente, embora mais poderosa que a do magnetismo ordinário, de que esses fatos são a confirmação e, ao mesmo tempo, a prova de que não disse a última palavra.

Não entra nos propósitos deste artigo explicar o modo de ação desse agente curativo, já descrito na teoria da mediunidade curadora. Basta ter demonstrado que o exame dos fatos leva a reconhecer a existência de um princípio novo, e que esse princípio, por mais estranho que sejam os seus efeitos, não sai do domínio das leis naturais.

Nos fatos concernentes ao Sr. Jacob, a bem dizer o Espiritismo não foi mencionado, ao passo que toda a atenção se concentrou no magnetismo. Isto tinha sua razão de ser e sua utilidade. Embora o concurso dos Espíritos desencarnados seja um fato constatado nesses tipos de fenômenos, aqui a sua ação não é evidente, razão por que dela fazemos abstração. Pouco importa que os fatos sejam explicados com ou sem a intervenção de Espíritos estranhos; o magnetismo e o Espiritismo se dão as mãos; são duas partes de um mesmo todo, dois ramos de uma mesma ciência, que se completam e se explicam um pelo outro. Dar crédito ao magnetismo é abrir caminho ao Espiritismo, e reciprocamente.

A crítica não poupou o Sr. Jacob. Como de hábito, e em falta de boas razões, ela lhe prodigalizou chacotas e injúrias grosseiras, com o que ele não se inquietou absolutamente. Desprezou umas e outras, e as pessoas sensatas ficaram gratas por sua moderação.

Alguns chegaram a solicitar o seu encarceramento como impostor abusando da credulidade pública; mas um impostor é quem promete e não cumpre. Ora, como o Sr. Jacob nunca prometeu coisa alguma, ninguém pode queixar-se de ter sido enganado. Que lhe podiam censurar? Onde a contravenção legal? Não exercia a Medicina, nem mesmo ostensivamente o magnetismo. Qual a lei que proíbe curar as pessoas olhando-as?

Denunciaram-no, porque a multidão de doentes que a ele acorria perturbava a circulação. Mas foi ele quem chamou a multidão? Convocou-a por anúncios? Qual o médico que protestaria se tivesse uma semelhante à sua porta? E se um deles tivesse essa boa sorte, mesmo à custa de anúncios caros, que diria se quisessem inquietá-lo pelo fato? Disseram que se mil e quinhentas pessoas por dia, durante um mês, totalizando quarenta e cinco mil doentes, tivessem sido curadas, não deveria mais haver coxos nem estropiados nas ruas de Paris. Seria supérfluo refutar esta singela objeção; apenas diremos que quanto mais cresce o número de doentes, curados ou não, que se acotovelam na Rua de la Roquette, mais se prova quão grande é o número daqueles que a Medicina não pode curar, pois é evidente que se esses doentes tivessem sido curados pelos médicos, não teriam vindo ao Sr. Jacob.

Como, a despeito das denegações, havia fatos patentes de curas extraordinárias, quiseram explicá-las dizendo que o Sr. Jacob agia, pela própria aspereza de suas palavras, sobre a imaginação dos doentes. Seja. Mas, então, se reconheceis à influência da imaginação um tal poder sobre as paralisias, as epilepsias, os membros anquilosados, por que não empregais esse meio, em vez de deixar que os inditosos enfermos sofram tanto, ou lhes dar drogas que sabeis inúteis?

Disseram que o Sr. Jacob não tinha o poder que se atribuía, e a prova é que se recusou a ir curar num hospital, sob as vistas de pessoas competentes para apreciar a realidade das curas.

Duas razões devem ter motivado a recusa. Primeiro, não se podia ocultar que a oferta que lhe faziam não era ditada pela simpatia, mas um desafio que lhe propunham. Se, numa sala de trinta doentes, ele só tivesse levantado ou aliviado três ou quatro, não teriam deixado de dizer que isto nada provava e que havia fracassado.

Em segundo lugar, é preciso levar em conta circunstâncias que podem favorecer ou paralisar sua ação fluídica. Quando está rodeado de doentes que lhe vêm voluntariamente, a confiança que trazem os predispõe. Não admitindo nenhum estranho atraído pela curiosidade, ele se acha num meio simpático, que também o predispõe; é dono de si; seu espírito se concentra livremente e sua ação tem toda a sua força. Numa sala de hospital, desconhecido dos doentes habituados aos cuidados de seus médicos, cuja fé em outra coisa que não fosse a sua medicação seria suspeita, sob os olhos inquisidores e zombeteiros de criaturas prevenidas, interessadas em o denegrir; que, em vez de o secundar pelo concurso de injeções benfazejas, temessem mais do que desejariam vê-lo triunfar – o sucesso de um zuavo ignorante seria um desmentido dado ao seu saber – é evidente que, sob o império dessas impressões e desses eflúvios antipáticos, sua faculdade se acharia neutralizada. O erro desses senhores, nisto como quando se tratou do sonambulismo, sempre foi acreditar que esses tipos de fenômenos seriam manobrados à vontade, como uma pilha elétrica.

As curas desse gênero são espontâneas, imprevistas e não podem ser premeditadas nem constituírem objeto de concurso. Acrescentemos a isto que o poder curador não é permanente; aquele que hoje o possui, pode vê-lo cessar no momento em que menos espera. Essas intermitências provam que depende de uma causa independente da vontade do curador e frustram os cálculos do charlatanismo.

 

Nota – O Sr. Jacob ainda não retomou o curso de suas curas. Ignoramos o motivo e parece que não há nada fixado quanto à época em que recomeçará, se é que isto vai acontecer. Esperando, informam-nos que a mediunidade curadora se propaga em diferentes localidades, com aptidões diversas.



[1] Revista Espírita – Novembro/1867 – Allan Kardec

segunda-feira, 4 de abril de 2022

EDMUND GURNEY[1]

 


Edmund Gurney foi um psicólogo e parapsicólogo inglês . Na época, o termo para pesquisa de atividades paranormais era "pesquisa psíquica".

Gurney nasceu em 23 de março de 1847, em Hersham , perto de Walton-on-Thames, Reino Unido. Em 1877, Gurney casou-se com Kate Sara Sibley. Eles tiveram uma filha, Helen, nascida em 1881. 

Gurney foi educado em Blackheath e no Trinity College, em Cambridge , a partir de 1866, onde ficou em quarto lugar nos tripos clássicos e obteve uma bolsa em 1872.  Seu trabalho para os tripos foi concluído, disse seu amigo F.W.H. Myers , nos intervalos de sua prática no piano. Insatisfeito com sua própria habilidade executiva como músico, ele escreveu “The Power of Sound” (1880), um ensaio sobre a filosofia da música.

Ele então estudou medicina sem intenção de praticar, dedicando-se à física, química e fisiologia. Em 1880 ele passou no segundo MB Cambridge (Bacharel em Medicina).  Em 1881 ele começou o estudo de direito no Lincoln's Inn .

Em relação à pesquisa psíquica , ele perguntou se existe uma região inexplorada da faculdade humana que transcende as limitações normais do conhecimento sensível. O objetivo de Gurney era abordar o assunto pela observação e experimentação, especialmente no campo do hipnotismo . Ele queria investigar a persistência da personalidade humana consciente após a morte do corpo. Três de suas irmãs morreram quando sua barca virou no rio Nilo durante uma viagem ao Egito em 1875. Sua morte o afetou profundamente e sua pesquisa foi parcialmente alimentada pelo desejo de encontrar algum significado para suas mortes.

Gurney começou no que mais tarde viu ser o lado errado, estudando, com Myers, as sessões de médiuns espíritas professos (1874-1878). Pouco, mas a detecção de impostura veio disso. Em 1882 foi fundada a Sociedade de Pesquisas Psíquicas . Médiuns pagos foram descartados, pelo menos na época, e experimentos foram feitos em transferência de pensamento e hipnotismo. Evidências pessoais quanto a alucinações não induzidas também foram coletadas.

Os primeiros resultados estão incorporados nos volumes de Phantasms of the Living , uma vasta coleção (Frank Podmore , Myers e Gurney), e no ensaio de Gurney, Hallucinations . A evidência para o processo chamado telepatia deveria ser estabelecida pelos experimentos narrados nos Proceedings of the Society for Psychical Research , e argumentava-se que experiências semelhantes ocorreram espontaneamente, como, por exemplo, nos muitos casos registrados de espectros no leito de morte .  O moribundo deveria transmitir a alucinação de sua presença como uma pessoa viva experimentalmente transmite seu pensamento a outra, por transferência de pensamento.

Os experimentos hipnóticos de Gurney foram realizados nos anos de 1885 a 1888. Sua tendência era, na visão de Myers, provar que às vezes há, na indução de fenômenos hipnóticos, algum agente em ação que não é estimulação nervosa comum nem sugestão transmitida por qualquer canal para a mente do sujeito. Esses resultados, se aceitos, corroborariam a ideia de telepatia. Experimentos de Joseph Gibert, Paul Janet , Charles Richet , Méricourt e outros foram citados como tendendo na mesma direção.

Outros experimentos tratavam da relação da memória em estado hipnótico com a memória em outro estado hipnótico, e de ambas com a memória normal. A pesquisa de Gurney sobre questões psíquicas foi respeitada pelos contemporâneos. No entanto, desde então, argumenta-se que é profundamente falho: Gurney confiou na assistência de George Albert Smith , um ator e produtor teatral. Smith era quem lidava com os experimentos reais de telepatia, hipnotismo e o resto, e Gurney aceitou totalmente seus resultados. De acordo com Trevor Hall em seu estudo The Strange Case of Edmund Gurney, na primavera de 1888, Gurney descobriu que Smith havia usado seu conhecimento de truques teatrais e ilusão de palco para falsificar testes e resultados; de modo que o valor dos testes (com os quais Gurney estava construindo sua reputação) não tinha valor. Douglas Blackburn , o principal parceiro de Smith nas performances mentalistas e experimentos, admitiu publicamente a fraude em 1908 e novamente em 1911, embora Smith tenha negado.

Além de seu trabalho sobre música e seus escritos psicológicos, ele foi o autor de “Tertium Quid” (1887), uma coleção de ensaios, o título um protesto contra ideias unilaterais e métodos de discussão.

Gurney morreu em 23 de junho de 1888, em Brighton, dos efeitos de uma overdose de clorofórmio . No inquérito , Arthur Thomas Myers , irmão de F.W.H. Myers, testemunhou ter prescrito clorofórmio para neuralgia , e um veredicto de morte acidental foi registrado. Foi amplamente pensado na época que Gurney poderia ter cometido suicídio, e Alice James registrou isso em seu diário. Trevor Hall argumentou que a morte de Gurney foi suicídio, resultante da desilusão após descobrir as fraudes de Blackburn e Smith. Gordon Epperson argumenta contra esta hipótese e Janet Oppenheim conclui que "o mistério provavelmente não será resolvido".

sábado, 2 de abril de 2022

O CRISTÃO E O MUNDO[1]



Martins Peralva

 

Não peço que os tires do mundo

 

Não se pode conceber, ante as palavras do Senhor na oração pelos discípulos”, tenham os homens de isolar-se a pretexto de melhor servirem a Deus.

É de supor-se, todavia, que aos cenobitas[2] modernos não tivesse ocorrido, ainda, a ideia de examinarem a referência acima, que o evangelista anotou.

Se na atualidade tal conduta surpreende, encontramos uma certa justificativa na conduta dos eremitas do passado, veneráveis e santas figuras que buscavam o insulamento em grutas desertas.

Os anacoretas, cujos nomes são ainda hoje reverenciados, fugiam do mundo, adotavam vida de inteira renúncia com o propósito de despertarem o homem para os problemas da alma, cuja excelsitude, cuja valia já podiam sentir.

Tudo, no entanto, tem o seu tempo, a sua época.

Na atualidade, o isolamento em mosteiros ou cavernas, sem finalidade prática, sem proveito para os semelhantes, expressaria egoísmo, acomodação à boa-vida.

Significaria fuga ao trabalho.

Quando alguém foge, hoje, do turbilhão das metrópoles, via de regra é para exercitar a confraternização, para edificar escolas que instruam e eduquem a infância e a juventude, para construir hospitais que acolham enfermos pobres, ou para erguer abrigos que assegurem aos velhos uma existência mais tranquila, no pôr de sol de suas experiências terrenas.

As palavras do Mestre, na chamada “oração sacerdotal”, exprimem cautela, revelam prudência.

O pensamento de Jesus — Não peço que os tires do mundo, e, sim, que os guardes do mal — era o de impedir que os discípulos viessem a empanar o fulgor da Boa Nova, o universalismo da Doutrina Cristã, com um possível retraimento das lutas mundanas.

A fuga ao trabalho, aos deveres imediatos, poderia criar um precedente perigoso para as futuras realizações do Evangelho.

Os discípulos, àquela época, tanto quanto nós outros na atualidade, não prescindiam do clima ardoroso das lutas terrestres — porque as lutas corrigem, aperfeiçoam, iluminam.

A oração do Senhor, proferida em voz alta, haveria de causar-lhes duradoura impressão.

Repercutiria, profundamente, nos séculos que se avizinhavam.

Assim é que, na hora da partida, quando se preparava para o retorno às Esferas de Luz de Ignotas Regiões, fixou-lhes, em definitivo, o procedimento no mundo, de maneira que, permanecendo eles no mundo, dessem ao mundo testemunhos de luta e trabalho, compreensão e amor.

É por isso que os companheiros do Mestre fundaram a “Casa do Caminho”, onde o faminto recebia alimento, onde o esfarrapado encontrava vestuário, onde o doente alcançava amparo.

Ninguém pode dar testemunho de valor espiritual, se não viveu provas difíceis, dramas intensos, complicados problemas, se não viajou em águas procelosas.

Ninguém pode dar testemunho de resistência moral, se não sentiu o impacto de fortes tentações, sobrepondo-se, no entanto, a todas elas, pela inabalável determinação de vencer, pelo desejo de realizar-se.

Num convento, numa caverna, na solidão, tais oportunidades dificilmente se verificarão.

Viver no mundo — sem aderir ao mundo.

Viver no mundo — sem partilhar-lhe as paixões.

Viver no mundo — sem entregar-se ao mundo.

Viver no mundo — mas livrar-se do mal.

Transitar pela Terra — sem chafurdar-se na lama dos vícios, é prova difícil, porém não impossível.

Pede decisão, esforço, persistência.

Conhecendo o anseio de crescimento espiritual, que era uma constante na vida dos discípulos, porém, identificando-lhes igualmente a fragilidade humana, rogava Jesus ao Pai:

Não peço que os tires do mundo, e, sim, que os guardes do mal

No pedido do Mestre nota-se, amorosa, uma exortação à vigilância, para que não viessem eles a sucumbir ante o mal, nas suas diversas manifestações.

O mundo, com seus conflitos e suas tentações, era-lhes, sem dúvida, clima propício às experiências renovadoras.

Fortalecidos, contudo, pelas imortais lições de Jesus, haveriam de se converter, como de fato se converteram, em exemplos vivos e atuantes de amor e trabalho.

O heroísmo dos primeiros cristãos regou a árvore do Cristianismo.

A abnegação e o sacrifício dos homens da “Casa do Caminho”, nas adjacências de Jerusalém, adubaram, para todos os séculos e milênios, a sementeira do Evangelho.



[1] Estudando o Evangelho – Martins Peralva

[2] Monge ou monja que vive em comunidades. Pessoa que leva muito austera e muito retirada.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

A FELICIDADE SEGUNDO SANSON[1]

 

Rogério Miguez

 

Allan Kardec fundou em 1 de abril de 1858 o primeiro centro espírita da Terra, a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (SPEE).

A SPEE contou com a colaboração de vários membros filiados, dentre os quais destacamos o Sr. Sanson, desencarnado em 21 de abril de 1862. Para se ter uma ideia do modo como se portou o Sr. Sanson durante sua última existência terrena, logo após a sua desencarnação, um Espírito de nome Georges transmitiu uma comunicação espontânea intitulada “A morte do justo”.

O Sr. Sanson tinha plena convicção sobre a continuidade da vida após o fenômeno da desencarnação. Para ele a morte não passava de uma transformação, e tamanha era sua certeza, que endereçou, ainda em vida, uma carta ao presidente da Sociedade instruindo-o para que, tão logo desencarnasse, fosse evocado, a fim de fornecer informações, fase por fase, sobre as circunstâncias decorrentes da morte.

E assim se fez. Allan Kardec, para satisfazê-lo, evoca-o o mais breve possível, em 23 de abril de 1862, na câmara mortuária em que ainda se achava o corpo, estabelecendo com o Espírito Sanson diálogos memoráveis de vivo interesse a todos, incluindo um conjunto de perguntas e respostas que deu origem, mais tarde, a um capítulo específico de O céu e o inferno[2], sob o título “Espíritos felizes”.

Mas, por qual razão o mestre de Lyon, teria inserido esses diálogos sob o título de Espíritos felizes? A resposta é simples: porque o Sr. Sanson estava lúcido, mesmo após a sua recém-desencarnação, fato incomum, e mostrava-se muito feliz, justificando plenamente a escolha por Allan Kardec do título do capítulo citado.

Vejamos, agora, por que razões o Sr. Sanson se encontrava tão feliz quando foi evocado. O que teria feito em vida para provocar tal estado de espírito?

O Sr. Sanson teve por guias durante a sua existência a caridade e a abnegação. Construiu paulatinamente a tranquilidade de consciência, preparando-se para este momento grave, que todos atravessamos, característica daqueles que sabem se pautar regularmente, ainda em vida, por tão nobres virtudes. Sim, os atos caridosos e as atitudes abnegadas edificam no Espírito condições ímpares de evolução, ajudando-o na passagem para o outro lado da vida e garantindo uma boa recepção por parte dos Espíritos agradecidos, alcançados pelas condutas generosas e caritativas. Certamente estas duas virtudes podem proporcionar uma desencarnação feliz, permitindo inclusive que o Espírito se veja morrendo e renascendo, participando lúcido do próprio desencarne, fato raro entre tantos outros processos de desencarnação. A felicidade do guia espiritual ao nos rever, certamente será motivo de imenso júbilo de nossa parte, quando mais uma vez nos veremos face a face com aquele Espírito encarregado de nos guiar pelos caminhos da recém-finda existência terrena. Reencontrá-lo, convictos de que tivemos uma vida profícua, será garantia plena de sentimentos de pura felicidade, pouco experimentados pela grande maioria das criaturas.

O Sr. Sanson cultivou a fé verdadeira, inabalável, a que pode encarar a razão face a face, em todos as épocas da Humanidade, fé que pode ser construída pelos ensinamentos e vivência dos postulados espíritas. Quando cuidadosamente plantada em nosso íntimo, na correção dos nossos atos, pensamentos e palavras, a fé dá ao Espírito a necessária fortaleza, sobretudo quando ele percebe ser iminente o seu retorno à Vida Maior. Esta fé também possui a capacidade de trazer tranquilidade mesmo nos momentos mais difíceis, tais os que ora atravessa a Humanidade, de tantas incertezas e inquietações, provocadas por uma estrutura ínfima, submicroscópica, mas de elevado poder devastador: o novo coronavírus. O Sr. Sanson, entre outros ao longo de nossa História, já naquela época detinha esta fé, a certeza na continuidade da vida; portanto, nada temia, nada o abalava, estava convicto de que poderia olhar serenamente todos os que o acompanharam durante o seu anterior regresso à Terra, não havendo razão alguma para se envergonhar da sua conduta.

O Sr. Sanson, em função do que foi dito nos itens anteriores, não temia a morte, vendo-a apenas como uma etapa da vida. Considerava uma felicidade morrer, desde que tivesse bem cumprido as provações naturais da existência. Esta forma de entender o processo da vida: nascer, morrer, renascer, está ausente em grande parte da Humanidade, mesmo para aquelas pessoas que se dizem deístas, de todas as religiões, uma vez que, embora creiam em Deus e na imortalidade, surpreendentemente temem a morte. Talvez porque tragam as consciências culpadas por delitos cometidos durante a atual existência e ainda não resgatados, seja pela justiça humana, seja pela Justiça Divina. O temor adviria do fato de não se sentirem ajustadas com as Leis de Deus e de que, ao morrerem, nada mais poderão esconder. Seja como for, o medo da morte é um dos fatores infelicitadores da Humanidade. Para os temerosos, disse Sanson: “[…] coragem e boa vontade! […]”.

Finalmente, o Sr. Sanson emprestou aos bens materiais a atenção merecida, nem mais, nem menos. Não se apegou a eles e ainda asseverou: “[…] Não se pode gozar muito, sem tirar o bem-estar dos outros e sem fazer moralmente um grande, um imenso mal […]”. Tudo indica ser esta última conduta exatamente a que falta àqueles que desfrutam em demasia das benesses materiais que a Terra oferece, sem se preocuparem com os deserdados, que nada possuem, marginalizados pela sociedade.

Estas sugestões do Sr. Sanson para uma vida feliz servem, igualmente, para uma passagem tranquila rumo ao “reino dos mortos”. Se pudermos aproveitar a experiência desse ilustre homem de bem; se as suas lições de vida puderem nos sensibilizar de modo a seguirmos, ao menos em parte, o que ele viveu, é possível, quando soar a nossa hora e o barqueiro nos assinalar que chegou o momento de atravessarmos o simbólico rio que separa os dois planos da Vida, que possamos escutar, do mais Além, a nosso propósito, alguém que também diga: “Um justo morreu”.



[2] N.A.: Todas as citações e informes sobre o Sr. Sanson foram retiradas da obra O céu e o inferno de Allan Kardec, trad. Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1. imp. Brasília: FEB, 2016, contidas na 2ª pt., cap. 2 – Espíritos felizes.