terça-feira, 8 de março de 2022

OS ADEUSES[1]

 

Allan Kardec

 

Entre as comunicações obtidas na última sessão da Sociedade, antes das férias, esta apresenta um caráter particular, que foge da forma habitual. Vários Espíritos dos que são assíduos às sessões e aí se manifestam algumas vezes, vieram sucessivamente dirigir algumas palavras aos membros da Sociedade antes de sua separação, por meio do Sr. Morin, em sonambulismo espontâneo.

Era como um grupo de amigos vindo se despedir e dar testemunho de simpatia, no momento da partida. A cada interlocutor que se apresentava, o intérprete mudava de tom, de atitude, de expressão, de fisionomia e, pela linguagem, se reconhecia o Espírito que falava, antes que fosse nomeado. Era bem ele que falava, servindo-se dos órgãos de um encarnado, e não o seu pensamento, traduzido mais ou menos fielmente ao passar por um intermediário; assim, a identidade era patente e, salvo a semelhança física, tinha-se diante de si o Espírito como em sua vida. Depois de cada alocução o médium ficava absorto durante alguns minutos; era o tempo de substituição de um Espírito por outro; depois, voltando a si pouco a pouco, retomava a palavra num outro tom. O primeiro que se apresentou foi o nosso antigo colega Leclerc, falecido em dezembro do ano passado.

 

(Sociedade de Paris, 16 de agosto de 1867 – Médium: Sr. Morin, em sonambulismo espontâneo)

 

Alguns de vossos irmãos que partiram vêm aproveitar a ocasião para vos manifestar a sua simpatia, no momento de vossa separação.

A morte nada é, quando tem como resultado fazer nascer uma vida muito maior, muito mais larga, muito mais útil que a vida humana! Sobrevém um atordoamento, segue-se uma prostração (alusão à maneira por que morreu) e me levanto mais livre e feliz ao entrar neste mundo invisível, que minha alma havia pressentido, que todo o meu ser desejava! Livre! Planar no espaço! Vi, observei, e minha alegria delirante só era temperada pelo exagerado pesar dos meus, pela ausência de minha personalidade material; mas hoje, que lhe pude provar a minha existência, e que demonstrei que se meu corpo não mais estava lá, meu Espírito lá estava mais ainda, sou feliz, muito feliz; porque o que não pôde fazer o encarnado, pôde obter no estado de espiritualidade. Hoje sou útil, muito útil, e graças à simpática afeição dos que me conheceram, minha utilidade é mais eficaz.

Como é bom poder servir aos irmãos e assim ser útil à Humanidade inteira! Como é bom, como é doce à alma poder fazer participar a Humanidade no pouco saber que se adquiriu pelo sofrimento! Eu que, outrora aprisionado neste corpo obtuso, hoje sou grande, e se não fosse o medo do vosso ridículo, eu me admiraria; porque, vede, ser bom é participar de Deus; e esta bondade eu a possuía? Oh! Respondei-me; vosso testemunho será uma felicidade a mais, aliada à felicidade que desfruto; mas, preciso de vossas palavras? Não posso ler em vossos corações e ver os vossos sentimentos mais íntimos? Hoje, graças à minha desmaterialização, não posso ver os vossos mais secretos pensamentos?

Oh! Deus é grande e sua bondade é sublime! Meus amigos, inclinai-vos, como eu, ante a sua majestade; trabalhai para a realização de seus desígnios, fazendo mais e melhor do que eu mesmo pude fazer.

Leclerc

 

Para a alma que aspira à liberdade, como é longo o tempo na Terra, e como se faz esperar o momento tão sonhado! Mas, também, uma vez rompido o laço, com que rapidez o Espírito corre e voa para o reino celeste, que em vida via em sonhos e ao qual aspirava sem cessar! O belo, o infinito, o impalpável, todos os sentimentos mais puros, eis o apanágio dos que desprezam os tesouros humanos, querendo marchar na vida santa do bem, da caridade e do dever. Tenho minha recompensa e sou muito feliz, porque agora não mais espero as visitas dos que me são caros; agora não há mais limites para a minha vista, e esse sofrimento, esse longo emagrecimento do corpo acabou; sou alegre, contente, cheia de vivacidade. Não espero mais os visitantes: vou visitá-los.

Ernestine Dozon

 

São muito felizes os que hoje podem vir sem envergonhar-se ao vosso meio, comunicar-vos a sua alegria, o seu prazer ao entrarem aqui! Mas eu, que tomei o caminho dos covardes para evitar o caminho trilhado; eu, que entrei de surpresa num mundo que não me era desconhecido; eu, que quebrei a porta da prisão, em vez de esperar que ela me fosse largamente aberta, é em razão dessa mesma vergonha que me cobre o rosto, que venho a esta mesa, porque aqui encontro o meio de vos dizer: Obrigado por vosso perdão sincero, obrigado por vossas preces, pelo interesse que me prodigalizastes e que abreviaram os meus sofrimentos! Obrigado, ainda, pelos pensamentos de futuro, que vejo germinar em vossos corações, pela coletividade fraterna de vossas simpatias, das quais me beneficiarei!

Hoje, o clarão apenas entrevisto tornou-se um farol luminoso, de raios largos e brilhantes; doravante vejo o caminho, e se vossas preces me sustentarem, como pressinto, se minha humildade e meu arrependimento não se desmentirem, podeis contar com mais um viajante nesta larga estrada que se chama o bem.

D.

 

Fali... pequei... pequei muito!... E, contudo, se Deus coloca no cérebro de um homem uma inteligência e ao lado põe desejos a saciar, inclinações impossíveis de superar, por que faria o Espírito suportar as consequências desses obstáculos que não pôde vencer? Mas eu me perco, blasfemo! Porque, desde que me tinha dado uma inteligência, era o instrumento com a ajuda do qual eu podia vencer os obstáculos... Quanto maior era essa inteligência, menos escusável sou...

Minha própria inteligência, sobretudo minha presunção, me perderam... Sofri moralmente todas as minhas decepções, muito mais que fisicamente, e não é dizer pouco!

Fazendo-vos estas confissões, sofro o passado e todos os sofrimentos dos meus, que vêm aumentar a bagagem dos males que já me esmagam... Oh! orai por mim! Hoje é um dia de indulgência. Pois bem! Reclamo a vossa. Que me perdoem aqueles a quem ofendi e desprezei!

Espectador invisível, desde algum tempo assisto aos vossos estudos com uma felicidade muito grande! Vossos trabalhos ainda absorvem mais as minhas faculdades intelectuais do que quando eu era vivo. Vejo, observo, estudo, e hoje que as minhas fibras cerebrais não são mais obstruídas pela matéria, abri os olhos espirituais e posso ver os fluidos, que em vão tinha procurado perceber em vida.

Pois bem! Se pudésseis ver essa imensa teia, esse emaranhado fluídico, vossos raios visuais se aniquilariam de tal modo que só perceberíeis as trevas. Eu vejo, sinto, ressinto! E nessas moléculas fluídicas, átomos impalpáveis, distingo as diferentes forças propulsoras; analiso-as, delas formo um todo que emprego ainda em benefício dos pobres corpos sofredores; reúno, aglomero os fluidos simpáticos, e vou simplesmente, gratuitamente, derramá-los sobre os que deles necessitam.

Ah! O estudo dos fluidos é uma bela coisa! E compreenderíeis quanto todos esses mistérios são preciosos para mim, se, como eu, tivésseis consagrado em vão toda a vossa existência em os penetrar. Graças ao Espiritismo, o aparente caos desses conhecimentos foi posto em ordem; o Espiritismo distinguiu o que é do domínio físico daquilo que pertence ao mundo espiritual; reconheceu duas partes bem distintas no magnetismo; tornou seus efeitos fáceis de reconhecer, e Deus sabe o que o futuro lhe reserva!

Mas, percebo que absorvo todo o vosso tempo em meu benefício, quando outros Espíritos ainda vos desejam falar.

Voltarei, pela escrita, para continuar a vos desenvolver minhas ideias sobre esses estudos com que, em vida, tanto gostei de me entreter.

E. Quinemant

 

Meus caros filhos: O ano social espírita foi proveitoso para os vossos estudos, e venho com prazer testemunhar toda a minha satisfação. Muitos fatos foram analisados, muitas coisas incompreendidas foram elucidadas, e tocastes em certas questões que não tardarão a ser admitidas em princípio. Estou, ou antes, estamos satisfeitos.

Não obstante todo o ardor empregado até aqui, no meio de vós e por vossos inimigos, contra as vossas boas intenções, vossa falange foi a mais forte; se o mal fez algumas vítimas, é que nelas a lepra já existia. Mas já a chaga se cicatriza; entram os bons, e os maus se vão. E para os maus, que ficam no meio de vós, mais tarde o remorso será terrível, porque às suas taras juntam a da hipocrisia. Mas os que são sinceros, os que hoje se juntam a vós, os que trazem o seu devotamento à verdade e o desejo de a comunicar a todos, esses, meus filhos, eu vos digo que serão abençoados, porque levarão a felicidade não só para si, mas para todos os que os escutam. Olhai em vossas fileiras e vereis que os vazios criados pelas defecções são bem depressa preenchidos com vantagem por novas individualidades, e estas fruirão os benefícios que serão o apanágio da geração futura.

Ide, meus filhos! Vossos estudos ainda são muito rudimentares; mas cada dia traz os meios de aprofundar mais e, para isto, novos instrumentos virão juntar-se aos que já tendes.

Tereis instruções mais extensas e isto para maior glória de Deus e para maior bem-estar da Humanidade.

Há entre vós vários desses instrumentos, que tomarão lugar à vossa mesa, na reabertura; ainda não ousam declarar-se; mas encorajai-os; trazei ao vosso lado os tímidos e os orgulhosos, que julgam fazer melhor que os outros, e então veremos se os tímidos têm medo e se os orgulhosos não terão que refrear suas pretensões.

São Luís

 

A epidemia que vem dizimar o mundo em certos momentos, e que conviestes chamar cólera, fere de novo e por golpes redobrados a Humanidade; seus efeitos são prontos e sua ação rápida. Sem nenhum aviso, o homem passa da vida à morte, e aqueles, mais privilegiados, poupados por sua mão fulminante, ficam estupefatos, trêmulos, ante as espantosas consequências de um mal desconhecido em suas causas, e cujo remédio se ignora completamente.

Nesses tristes momentos, o medo se apodera dos que apenas encaram a ação da morte, sem pensar no além, e que, só por este fato, com mais facilidade oferecem o flanco ao mal. Mas como a hora de cada um de nós está marcada, há que partir, a despeito de tudo, se ela tiver soado. A hora está marcada para bom número dos habitantes do universo terrestre; partem todos os dias; pouco a pouco o flagelo se espalha e vai estender-se sobre toda a superfície do globo.

Este mal é desconhecido e talvez o seja mais ainda hoje, porque, à sua constituição própria, juntam-se diariamente outros elementos que confundem o saber humano e impedem de achar o remédio necessário para deter a sua marcha. Assim, a despeito de sua ciência, os homens devem sofrer as suas consequências, e esse flagelo destruidor é muito simplesmente um dos meios para ativar a renovação humanitária, que se deve realizar.

Mas não vos inquieteis; para vós espíritas, que sabeis que morrer é renascer, se fordes atingidos e partirdes, não ireis à felicidade? Se, ao contrário, fordes poupados, agradecei-o a Deus, que assim vos permitirá aumentar a soma dos vossos sofrimentos e pagar mais pela prova.

De um lado como de outro, quer a morte vos fira, quer vos poupe, só tendes a ganhar; ou, então, não vos digais espíritas.

Doutor Demeure

 

Isto é para ele (o médium fala de si na terceira pessoa).

 – Vede, foi dito que virá um momento em que ele poderia ver, ouvir e repousar por sua vez. Pois bem! esse momento é chegado, para vós e não para os outros; na reabertura ele não adormecerá mais, salvo alguns casos excepcionais, nos quais a sua utilidade se fizer sentir; neste momento ele o lamenta, mas, daqui a pouco, quando despertar e souber, ficará muito contente... o egoísta!

 Contudo, ele ainda tem muito a fazer; daqui até lá, ele dormirá; raramente felicitará e fustigará muitas vezes: é a sua tarefa. Orai para que ela lhe seja fácil, para que sua palavra leve a paz, a consolação e a conciliação, aonde se fizerem necessárias. Ajudai-o com o vosso pensamento; ao retornar ele porá toda a sua boa vontade em vos secundar, e o fará de todo o coração; mas sustentai-o, pois precisa muito. Aliás, as circunstâncias excepcionais em que irá dormir talvez não sejam, infelizmente, muitas vezes motivadas. Enfim, dizei como ele: Que a vontade de Deus seja feita!

Morin

 

Allan Kardec



[1] Revista Espírita – Outubro/1867 – Allan Kardec

segunda-feira, 7 de março de 2022

FERNANDO ORTIZ FERNÁNDEZ[1], [2]

 


Fernando Ortiz Fernández nasceu em Havana, Cuba, em 16 de julho de 1881.

Antropólogo, etnólogo, sociólogo, jurista e linguista, Ortiz é considerado um dos maiores intelectuais da América Latina.

Desiludido com a política no período inicial da história cubana e tendo sido membro do Partido Liberal do presidente Gerardo Machado , e um membro liberal de sua Câmara dos Deputados de 1917 a 1922, tornou-se ativo no início do movimento de renascimento cívico nacionalista .

Ao longo de sua vida Ortiz esteve envolvido na fundação de instituições e revistas dedicadas ao estudo da cultura cubana. Foi cofundador da Academia Cubana da Língua em 1926. Fundou também o Surco (fundado em 1930) e o Ultra (1936-1947), ambos periódicos que comentavam revistas estrangeiras. Em 1937 fundou a Sociedad de Estudios Afrocubanos (Sociedade de Estudos Afro-cubanos) e a revista Estudios Afro-cubanos ( Estudos Afro-cubanos ).

Ajudou a fundar os periódicos Revista Bimestre Cubana , Archivos del Folklore Cubano e Estudios Afro-cubanos .

Ortiz também desenvolveu uma teoria do ativismo dentro do sistema político de Cuba. Ele disse que os afro-cubanos foram caracterizados negativamente com base em sua ascendência africana e traços considerados "primitivos". Ele queria mostrar a verdadeira natureza de sua cultura: sua linguagem, música e outras artes.

É considerado uma das figuras científicas de maior transcendência na América Latina e um dos maiores etnólogos e antropólogos de Cuba.

Em 1895, começa a estudar Direito, na Universidade de Havana, onde mais tarde seria professor. Termina o curso na Universitat de Barcelona, sendo aluno de César Lombroso. Após aprender a teoria lombrosiana, conhecida como a do “criminoso nato”, segundo a qual o homem traz consigo cargas genéticas propensas à delinquência, realiza uma comparação com a Doutrina Espírita, de Allan Kardec e desenvolve em sua obra “A Filosofia Penal dos Espíritas – Estudo de filosofia jurídica”, a teoria do lombrosianismo espiritual.

Em síntese, conclui que através da concepção espírita o homem traz na verdade uma carga genética espiritual, fruto de milênios de experiências...

Escreveu mais de 100 obras sobre os mais variados assuntos. Dotado de uma prodigiosa cultura geral, foi professor universitário, fundador de várias instituições culturais e uma das maiores autoridades no estudo da cultura africana.

Obras Editadas: Historia de Santiago de Cuba: compuesta y redactada en vista de los manuscritos originales é inéditos, de 1823, y precedida de un prologo; La Africania de la Musica Folklorica de Cuba (1950) e Los Instrumentos de la Musica Afro-cubana (1952 - 1955) ainda são considerados referências fundamentais no estudo da música afro-cubana.

Fernando Ortiz morreu em Havana, Cuba, em 10 de abril de 1969 e foi enterrado lá no Cemitério de Colón .

sábado, 5 de março de 2022

PUTIN, EUA, GUERRAS – ÓPTICA ESPÍRITA[1]

 

José Lucas, Óbidos, Leiria, Portugal

 

O mundo está em suspenso. O ditador  Putin, da Rússia, tem cerca de 100.000 homens na fronteira com a Ucrânia, numa iminência de invasão, procurando assim conquistar mais terreno para a Rússia ou implantar um regime fantoche, que sirva os seus interesses.

Pelo outro lado, os EUA tentam aumentar a sua influência a Leste da Europa, o que naturalmente pode colocar em perigo a estabilidade geopolítica russa.

Uma guerra local, que pode degenerar em mundial, pode ocorrer na Europa.

Voo 545, de Lisboa para Brasil. 280 passageiros a bordo. A meio do voo, uns passageiros começam com escaramuças, porque além do lugar onde estão sentados, que lhes pertence, querem ficar com lugares alheios.

Gera-se a confusão, gritos, murros, pontapés. O motivo é um: alguns querem dois ou mais lugares, para ficarem mais comodamente instalados, enquanto os outros terão de ficar de pé, apesar de terem pago bilhete.

Qualquer pessoa de bom senso dirá que este cenário, acima descrito, é uma loucura, pois coloca em perigo a viagem de todos os 280 passageiros a bordo do avião, sem necessidade nenhuma.

Fazendo um paralelismo com o planeta Terra, uma grande nave com cerca de 7,8 mil milhões de pessoas encarnadas (no corpo de carne) a bordo, a situação é similar: havendo espaço e comida para todos, existem países que, numa perspectiva egoísta, orgulhosa, materialista e completamente falha de bom senso, colocam em perigo a vida alheia, para satisfazerem as suas ambições.

De acordo com a Doutrina dos Espíritos (ou Espiritismo), este tipo de comportamento é típico de Espíritos atrasados espiritualmente, que fazem parte de um planeta de provas e expiações, cuja característica dominante é o Mal prevalecer sobre o Bem.

Em O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, eminente codificador da Doutrina Espírita, em meados do século XIX, encontramos a questão 742:

“Qual a causa que leva o Homem à guerra?” ao que os Espíritos superiores respondem:

Predominância da natureza animal sobre a espiritual e satisfação das paixões. No estado de barbárie os povos só conhecem o direito do mais forte, e é por isso que a guerra, para eles, é um estado normal…

 

“Não somos civilizados, somos apenas esclarecidos”

(in O Livro dos Espíritos, Allan Kardec)

 

Na questão 743, Kardec pergunta:

“A guerra desaparecerá um dia da face da Terra?” aos que os Espíritos respondem:

Sim, quando os homens compreenderem a justiça e praticarem a lei de Deus. Então, todos os povos serão irmãos.

 

No item 793, os Espíritos referem que só existe civilização completa quando há desenvolvimento moral, sendo que actualmente, na Terra, somos apenas povos esclarecidos, só tendo percorrido a primeira fase da civilização.

O Espiritismo (ou Doutrina Espírita) demonstrou experimentalmente a imortalidade do Espírito, a comunicabilidade dos Espíritos, a reencarnação, bem como a pluralidade dos mundos habitados, tudo isto fruto da acção directora de uma inteligência suprema, a que se convencionou chamar Deus.

Nascemos na Terra para evoluir intelectual e moralmente, largando as ervas daninhas do egoísmo, orgulho, de todo o tipo de maus pendores e, alimentar as nossas tendências fraternas, solidárias, humanistas e de justiça.

Todos os artífices da guerra, deparar-se-ão, amanhã, quando largarem o corpo carnal pelo fenómeno natural da morte, com a sua consciência, no mundo espiritual, entrando em processos dolorosos de culpa, arrependimento, expiação e reparação. Esses processos podem durar séculos, sem fim.

O Espiritismo é o maior defensor da paz, da ecologia, da igualdade de oportunidade para todos, contribuindo com a sua ética e moral (a de Jesus de Nazaré), para que um dia a Terra deixe de ser um pântano de dor, para ser um jardim de flores, multicolores, seguindo as orientações morais de Jesus: “amar os inimigos”, “amar o próximo”, “fazer ao próximo o que se deseja para si”.

Depois de Jesus, encontramos em Mohandas Gandhi, o nobre hindu indiano, que nos deixou esta orientação, tão monumental quanto simples:

Não existe um caminho para a paz. A paz é o caminho.

sexta-feira, 4 de março de 2022

O SIGNIFICADO DA CONEXÃO CORAÇÃO-CÉREBRO[1]


Thomas R. Verny, M.D.[2]

 

§  O coração atua como um sofisticado centro de codificação e processamento de informações.

§  A principal causa de morte entre as pessoas que sofrem de esquizofrenia é a doença arterial coronariana.

§  Parece que algumas das ideias que carregamos em nosso inconsciente coletivo sobre o coração são apoiadas pela ciência moderna.

 

Por que temos tantas expressões relacionadas com o coração? "Para derramar o coração", "Uma mudança de coração", "É com o coração pesado". Você provavelmente pode pensar em muitos mais. Coletivamente, essas expressões assumem que o coração não é apenas uma máquina que bombeia sangue, mas também o assento das emoções (coração doía, coração partido), razão e personalidade (coração sangrando, coração fraco). Ninguém diz: "Siga seu fígado". Só um comediante diria: "O pâncreas tem suas razões pelas quais a razão não sabe nada".

Embora essas expressões e metáforas sobre o coração reflitam séculos de sabedoria popular, parece que as ideias que conhecemos em nosso inconsciente coletivo com o coração como centro de pensamento, sentimento e personalidade estão mais próximas das descobertas recentes na neurocardiologia do que os cientistas já assumiram.

 

Não apenas uma bomba

O coração contém um sistema nervoso intrínseco que exibe funções de memória de curto e longo prazo. O sistema nervoso intrínseco do coração consiste em aproximadamente 40.000 neurônios chamados neurites sensoriais que retransmitem informações para o cérebro. É possível que esses neurônios desempenham um papel fundamental na transferência de memória.

O que é realmente surpreendente é a descoberta de que o coração também funciona como um órgão endócrino. Em outras palavras, como a glândula tireoide ou a glândula suprarrenal, produz vários hormônios, incluindo o peptídeo natriurético cardíaco. Este hormônio exerce seu efeito sobre os vasos sanguíneos, os rins, as glândulas suprarrenais, e em um grande número de regiões regulatórias no cérebro.

Também foi descoberto que o coração contém células conhecidas como células adrenérgicas cardíacas intrínsecas, que liberam noradrenalina e dopamina.

Mais recentemente, foi determinado que o coração também secreta a ocitocina, comumente conhecida como o hormônio do amor ou da ligação. Concentrações de ocitocina no coração foram encontradas tão altas quanto as do cérebro.

 

Os Transtornos Cardíacos e Mentais

Um estudo recente da Dinamarca nos leva em uma direção diferente. O estudo envolveu 10.632 adultos nascidos entre 1890 e 1982. Usando registros médicos e prontuários de todos os hospitais dinamarqueses, os pesquisadores identificaram adultos diagnosticados entre 1963 e 2012 com doença cardíaca congênita. Esses indivíduos apresentaram uma taxa 60% maior de demência em comparação com a população geral. O risco foi 160% maior em pessoas com menos de 65 anos. Por que seria?

Estudos anteriores associaram emoções negativas, incluindo depressão, ansiedade e raiva, a um risco aumentado de doenças cardíacas. Como essas emoções tendem a se sobrepor e coexistir, tem sido difícil atribuir uma importância relativa a qualquer uma delas.

Quando se trata de infarto do miocárdio, o termo médico para um ataque cardíaco, evidências estão acumulando que se uma pessoa desenvolve uma grande depressão após um ataque cardíaco, uma ocorrência bastante comum, ela estará consistentemente em um risco três vezes maior de morte.

De acordo com uma nova pesquisa da Universidade Rice e da Universidade North Western, pessoas que recentemente perderam um cônjuge são mais propensas a ter distúrbios do sono que os tornam mais vulneráveis ao desenvolvimento de inflamação, o que, por sua vez, aumenta o risco de desenvolver doenças cardiovasculares e morte.

Estes são exemplos do ecossistema perfeitamente projetado que nosso corpo representa. No momento em que um de seus elementos muda, todo o resto é afetado, e quase nunca de uma boa maneira.

Passando da depressão para a esquizofrenia, a principal causa de morte entre as pessoas que sofrem de esquizofrenia é a doença arterial coronariana. A expectativa média de vida da população geral nos EUA é de 76 anos (72 anos em homens, 80 anos em mulheres), em comparação com 61 anos (57 anos em homens, 65 anos em mulheres) entre pacientes com esquizofrenia. Assim, indivíduos com esquizofrenia têm aproximadamente 20% de expectativa de vida reduzida em relação à população em geral.

Os cardiologistas acreditam que fatores como medicamentos antipsicóticos, tabagismo, obesidade, diabetes e hipertensão são responsáveis pelo aumento da morbidade e mortalidade em pacientes esquizofrênicos.

Estresse, raiva e ansiedade sustentados podem interromper a função cardíaca alterando o sistema elétrico do coração, acelerando a aterosclerose e aumentando a inflamação sistêmica.

Mas as emoções negativas são apenas metade da equação", diz Laura Kubzansky, da Escola de Saúde Pública de Harvard. "Parece que há um benefício da saúde mental positiva que vai além do fato de que você não está deprimido.

Em um estudo de 2007, Kubzansky acompanhou mais de 6.000 homens e mulheres de 25 a 74 anos por 20 anos. O efeito protetor da vitalidade emocional foi distinto e mensurável, mesmo levando em conta comportamentos saudáveis como o não tabagismo e o exercício regular. Kubzansky descobriu que o otimismo reduz pela metade o risco de doença cardíaca coronariana.

 

Conclusão

Pesquisas na disciplina relativamente nova da neurocardiologia confirmaram que o coração age como um sofisticado centro de codificação e processamento de informações que lhe permite aprender, lembrar e tomar decisões funcionais independentemente do córtex cerebral. Além disso, inúmeros estudos demonstraram que os sinais cardíacos no cérebro afetam centros reguladores autônomos e centros cerebrais mais altos envolvidos na cognição e regulação do humor.

 

Referências

§  Armour, J. A. (2008). Potential clinical relevance of the ‘little brain’ on the mammalian heart. Experimental physiology, 93(2), 165-176

§  W. G., Hock, D., ... & Mutt, V. et al., (1983). The right auricle of the heart is an endocrine organ. Anatomy and embryology, 168(3), 307-313 a

§  Ogawa, T., & de Bold, A. J. (2014). The heart as an endocrine organ. Endocrine connections, 3(2), R31-R44.

§  Cantin M. and Genest J. (1986), The heart as an endocrine gland, Clinical and Investigative Medicine; 9(4): 319-327.

§  Kubzansky, L. D., & Thurston, R. C. (2007). Emotional vitality and incident coronary heart disease: benefits of healthy psychological functioning. Archives of general psychiatry, 64(12), 1393-1401



[2] Autor de oito livros, incluindo The Encarnad Mind, lecionou na Universidade de Harvard, Universidade de Toronto, Universidade de York e Universidade de St. Mary de Minnesota.

quinta-feira, 3 de março de 2022

DÚVIDAS[1]

 

Miramez

 

Os pressentimentos e a voz do instinto têm sempre qualquer coisa de vago; na incerteza, o que devemos fazer?

− Quando estás em dúvida, invoca o teu bom Espírito, ou ora a Deus, nosso soberano Senhor, para que te envie um de seus mensageiros, um de nós.

Questão 523/O Livro dos Espíritos

 

Na sequência dos teus pensamentos, por vezes duvidas de alguma ideia; na leitura de muitos livros que tens hábito de ler, certamente que de vez em quando assome à tua mente a dúvida; no teu relacionamento, em muitos casos, a incerteza começa a nascer em teu coração. Não deves viver com dúvidas, porque poderá surgir a desconfiança que não ajuda a ninguém. Em caso de dúvida, entretanto, procura o socorro da oração e liga os teus pensamentos aos pensamentos dos teus guias espirituais, que eles te atenderão com presteza.

Jesus não é pobre de valores no mundo dos Espíritos; existe abundância de conhecimentos espirituais, de modo a favorecer-te dos tesouros da vida eterna. Não te esqueças: quando te achares em dúvida, invoca o teu anjo de guarda, que ele receberá teu pedido com amor, e esse mesmo amor te socorrerá. Esse é um exercício que podes fazer sempre. A própria mediunidade cresce com o labor. O dom é de Deus, mas seu crescimento pertence à nossa boa vontade. Em torno de ti existem muitos Espíritos, e eles poderão te atender na medida das tuas necessidades. O "buscai e achareis" é a resposta às nossas aflições. Quem não busca, como pode achar?

Procura limpar do coração a dúvida da existência de Deus, de Jesus, da comunicação dos Espíritos com os homens, da reencarnação, da existência dos ambientes espirituais que se parecem com a Terra e que são mais perfeitos, para a felicidade das criaturas. Se alimentas a fé, assegura-te a tranquilidade da vida e aumentas o amor em tudo que podes fazer. Todos os pressentimentos são a voz aperfeiçoada do instinto, que não é mais do que a voz da consciência, onde os Espíritos superiores depositaram as nossas diretrizes e nos falam quando necessário, nos guiando para a vida melhor.

Deus não esquece as Suas criaturas, estejam onde estiverem. Jesus veio desagregar todos os tipos de dúvidas da mente humana, porque com Ele, o Divino Mestre, a fé cresce de modo a dar mais a quem tem, trazendo benefícios inenarráveis a quem possui esse dom da intuição.

Para que dúvidas, se o Senhor criou a verdade que pertence a todos? A dúvida é criação humana e ignorância das leis espirituais. Não existe incerteza na Mente Divina; as Suas leis são puras e verdadeiras, se somos Seus filhos, nada mais justo que procurarmos Seus caminhos. Convém meditar na verdade, buscá-la pelos meios conhecidos, que o resto virá por acréscimo de misericórdia. Se os agentes da luz são em número incontável, por que duvidar da bondade dos Céus? Quando buscamos o entendimento com honestidade, ele já se encontra em caminho. As coisas divinas são fartas. Os Espíritos superiores são livres e sabem orientar as criaturas, senão curá-las, quando isso é possível. Eles investem nos seus irmãos na carne, quando esses merecem confiança, quando se esforçam para melhorar.

Cultiva a moralidade, que muitas mãos passarão a te ajudar no silêncio, de sorte que os teus problemas desaparecerão como por encanto, mas, desde que o teu esforço não deixe de aparecer nos teus caminhos.

Eles investem e tu deves te esforçar para melhorar; eles investem e tu deves entender e ajudar a ti mesmo; eles investem e tu deves amar, servindo de instrumento de caridade por onde andares.

Deus é bondade, e tu deves aproveitar essa bondade do Senhor e trabalhar na tua melhoria interna. O aprimoramento depende das tuas mãos no labor de cada dia. Os olhos espirituais que te acompanham estão atentos e se alegram com a tua melhoria. Caminha, que alguém segue à tua frente, guiando-te.

 



[1] Filosofia Espírita – Volume 11 – João Nunes Maia

quarta-feira, 2 de março de 2022

LUCIDEZ TERMINAL[1]

 

Michael Nahm

 

Casos raros de pacientes com demência de longo prazo e outros distúrbios neurológicos graves que apresentam um breve retorno à clareza mental e à memória completa pouco antes da morte têm um significado particular tanto para a compreensão da natureza da mente quanto para o cuidado terminal do paciente. Negligenciado até recentemente, o fenômeno da "lucidez terminal" está atraindo interesse renovado por parte de pesquisadores científicos, particularmente no contexto de fenômenos psíquicos de "quase-morte".

 

História

Médicos primitivos como Hipócrates, Plutarco, Cícero, Galen, Avicenna e outros estudiosos dos tempos clássicos observam que os sintomas de transtornos mentais às vezes diminuem à medida que a morte se aproxima[2]. Isso também foi observado no século XIX: vários casos de etiologia diferente foram publicados na literatura médica primitiva, também em tratados escritos por autores que proclamaram uma compreensão romântica e pós-romântica da natureza, abraçando a noção de que a alma humana é separada do cérebro e pode sobreviver à morte corporal.

No século XX, discussões e relatos de casos de lucidez terminal diminuíram e estão quase ausentes na literatura médica do período. No entanto, alguns relatórios continuaram a ser publicados fora do ambiente médico. Desde a virada do milênio, eles voltaram a se tornar mais frequentes na literatura médica, como mostrou um levantamento dos últimos 250 anos. Os resumos dos casos desta pesquisa foram publicados predominantemente pelo biólogo Michael Nahm e colegas[3]. Em suma, parece que incidentes de lucidez terminal ocorreram ao longo da história da humanidade, em todos os continentes.

 

Variedades de Lucidez Terminal

Já em 1826, Burdach descreveu duas maneiras distintas em que a lucidez terminal pode se manifestar[4].

Primeiro, o grau de desordem mental pode diminuir lentamente em conjunto com o declínio da vitalidade corporal. Casos de esquizofrenia e de transtornos afetivos normalmente pertencem a essa categoria, e o processo de ficar lúcido pode levar vários dias ou semanas após longos anos de distúrbio mental grave e ininterrupto.

Segundo, a clareza mental completa pode emergir de repente pouco antes de morrer. Entre os casos modernos, aqueles que envolvem a doença de Alzheimer e tumores cerebrais geralmente pertencem a esta segunda categoria. Aqui, esse retorno da clareza mental ocorre muitas vezes nos últimos segundos, minutos ou horas antes da morte do paciente. Os casos mais surpreendentes de lucidez terminal dizem respeito a pacientes que sofriam de doenças neurológicas graves, como meningite, tumores, doença de Alzheimer ou derrames – em suma, casos em que há razões para pensar que os circuitos neuronais do cérebro foram severamente prejudicados ou destruídos.

 

Exemplos em Transtornos Psiquiátricos

Possível transtorno afetivo

Uma mulher diagnosticada com "melancolia errabunda” foi internada em um asilo e tornou-se maníaca. Durante quatro anos, ela viveu em um estado mental continuamente confuso e incoerente, sem descanso. Quando ela ficou doente com febre, ela se recusou a tomar qualquer remédio. Como consequência, sua saúde se deteriorou. No entanto, quanto mais fraco seu corpo se tornava, mais sua condição mental melhorava. Dois dias antes de sua morte, ela ficou totalmente lúcida. Ela conversou com um intelecto e clareza que parecia superar sua antiga educação. Ela perguntou sobre a vida de seus parentes, e se arrependeu em lágrimas de sua relutância anterior em tomar remédios. Ela morreu logo depois[5].

 

Esquizofrenia

Um paciente com esquizofrenia crônica sem intervalos lúcidos anteriores viveu por 27 anos em um estado esquizofrênico incessante, dos quais os últimos 17 anos foram passados em um estado catatônico profundamente regredido. No entanto, depois que ele foi atingido por uma grave doença orgânica sua condição mental começou a melhorar. Embora ele tenha mostrado algumas idiossincrasias mentais residuais, seu comportamento geral tornou-se quase normal pouco antes de morrer[6].

 

Exemplos em Distúrbios Neurológicos

Doença de Alzheimer

Uma mulher de 91 anos sofria de Alzheimer há 15 anos e era cuidada pela filha. A mulher há muito não respondia e não mostrava sinais de reconhecer sua filha ou qualquer outra pessoa por cinco anos. Uma noite, no entanto, ela começou uma conversa normal com sua filha. Ela falou sobre seu medo da morte, dificuldades que teve com a igreja, e seus familiares. Ela morreu algumas horas depois[7].

 

Exemplo envolvendo derrames

Uma mulher de 91 anos sofreu dois derrames. A primeira paralisou seu lado esquerdo e a privou de um discurso claro. Depois de alguns meses, o segundo golpe a deixou totalmente paralisada e sem palavras. A filha que cuidou dela um dia se assustou ao ouvir uma exclamação de sua mãe. A velha estava sorrindo brilhantemente, embora sua expressão facial tinha sido congelada desde seu segundo derrame. Ela virou a cabeça e sentou-se na cama sem nenhum esforço aparente. Então ela levantou os braços e exclamou em um tom claro e alegre o nome de seu marido. Seus braços caíram novamente, ela afundou para trás e morreu[8].

 

Relevância para a Pesquisa Psi

A relevância da lucidez terminal para a pesquisa psi é dupla. Primeiro, casos envolvendo pacientes com cérebros severamente destruídos (como em estágios terminais da doença de Alzheimer, tumores ou derrames) que se tornam totalmente lúcidos pouco antes da morte podem fornecer um caminho para avaliar ainda mais a possibilidade de que a mente humana, incluindo a memória, não seja inteiramente gerada pelo cérebro, mas que o cérebro funcione como uma espécie de filtro ou órgão transmissor[9].

Em segundo lugar, não é incomum que a lucidez terminal seja acompanhada de experiências espirituais profundas ou as chamadas "visões do leito de morte", como exemplificado pelo caso do paciente com AVC acima. Tais características ligam a lucidez terminal a uma série de outras experiências de fim de vida e também experiências de quase morte[10]. Dado que esses tipos de experiências em estados de quase-morte contêm regularmente aspectos psíquicos, eles há muito têm desempenhado um papel importante na pesquisa psíquica, com o potencial de facilitar um estudo mais aprofundado em camadas subliminares da psique humana e fornecer evidências para a sobrevivência pós-morte[11].

 

Oportunidades e obstáculos para estudar

O potencial de lucidez terminal como via de pesquisa é, infelizmente, impedido por sua própria natureza: ocorre em grande parte inesperado em pacientes em estado terminal que, além disso, muitas vezes eram confusos ou não responsivos antes. Esses pacientes não podem ser facilmente sujeitos de estudos científicos ou autópsias por razões éticas e práticas. Assim, é provável que muitos relatos de lucidez terminal permaneçam no nível anedótico[12]. No entanto, como acontece com experiências de quase-morte (EQM) e outras experiências de fim de vida, é viável avaliar a incidência e variedades de lucidez terminal em estudos prospectivos e retrospectivos (por exemplo, uma abordagem escolhida por Fenwick, Lovelace e Brayne, 2010)[13]. Casos particularmente notáveis poderiam ser documentados da forma mais completa possível do ponto de vista médico; uma escala específica para estimar a inusitada e o grau da lucidez observada poderia ser desenvolvida[14], com base nas escalas existentes, como forma de julgar as flutuações da coerência mental e da memória. Pode até ser viável avançar novas formas de terapias para melhorar o acesso a memórias autobiográficas em pacientes com demência.

 

Perspectiva futura

Embora a lucidez terminal provavelmente permaneça desafiadora para estudar, ela oferece o potencial de contribuir para uma compreensão aprimorada da cognição, do processamento da memória e da natureza da mente humana.

Além disso, um conhecimento mais amplo sobre o fenômeno, e uma consciência de sua possível ocorrência, daria àqueles que atendem pacientes a oportunidade de se relacionarem de forma ideal com uma pessoa moribunda que está em uma condição não responsiva por um longo período, às vezes anos. Como é, esse retorno inesperado de clareza mental e memória muitas vezes vem como uma completa surpresa, e como dura apenas um curto período de tempo, parentes e enfermeiros podem perder a última chance de se comunicar com os moribundos de forma significativa, a menos que estejam devidamente preparados.

 

Literatura

§  Burdach, K. F. (1826). Vom Baue und Leben des Gehirns (Vol. 3). Leipzig: Dyk’sche Buchhandlung.

§  Butzke, F. (1840). Rückblicke auf das klinische Jahr 1838 im Provinzial-Landkrankenhause der Provinz Westpreussen bei Schwetz. Magazin für die gesammte Heilkunde, 14,140-171.

§  Crooks, V., Waller, S., Smith, T., and Hahn, T. J. (1991). The use of the Karnofsky Performance Scale in determining outcomes and risk in geriatric outpatients. Journal of Gerontology, 46, 139-144.

§  du Prel, C. (1888) Die monistische Seelenlehre. Reproduced in C. du Prel (1971), Die Psyche und das Ewige. Pforzheim: Rudolf Fischer.

§  Fenwick, P., Lovelace, H., and Brayne, S. (2010). Comfort for the dying: Five year retrospective and one year prospective studies of end of life experiences. Archives of Gerontology and Geriatrics, 51, 173-179.

§  Kelly, E. F., Crabtree, A., and Marshall, P. (eds.) (2015). Beyond Physicalism. Toward reconciliation of science and spirituality. Lanham, MD: Rowman & Littlefield.

§  Kelly, E. F., Kelly, E.W., Crabtree, A., Gauld, A., Grosso, M., and Greyson, B. (2007). Irreducible Mind: Toward a Psychology for the 21st Century. Lanham, MD: Rowman & Littlefield.

§  Lee, D. R., McKeith, I., Mosimann, U., Gosh-Nodial, A., Grayson, L., Wilson, B. and Thomas, A. J. (2014). The dementia cognitive fluctuation scale, a new psychometric test for clinicians to identify cognitive fluctuations in people with dementia. American Journal of Geriatric Psychiatry, 22, 926-935.

§  Nahm, M. (2009). Terminal lucidity in people with mental illness and other mental disability: An overview and implications for possible explanatory models. Journal of Near-Death Studies, 28, 87-106.

§  Nahm, M. (2011). Reflections on the context of near-death experiences. Journal of Scientific Exploration, 25, 453-478.

§  Nahm, M. (2012). Wenn die Dunkelheit ein Ende findet. Terminale Geistesklarheit und andere Phänomene in Todesnähe. Amerang: Crotona.

§  Nahm, M. (2013). Terminale Geistesklarheit und andere Rätsel des menschlichen Bewusstseins. In: Serwaty A, Nicolay J (eds). Nahtoderfahrung und Bewusstseinsforschung. Goch: Santiago; pp. 78-134.

§  Nahm, M., and Greyson, B. (2009). Terminal lucidity in patients with chronic schizophrenia and dementia: A Survey of the Literature. Journal of Nervous and Mental Disease, 197, 942-944.

§  Nahm, M., and Greyson, B. (2013-2014). The death of Anna Katharina Ehmer. A case study in terminal lucidity. Omega, 68, 77-87.

§  Nahm, M., Greyson, B., Kelly, E. W., and Haraldsson, E. (2012). Terminal lucidity: A review and a case collection. Archives of Gerontology and Geriatrics, 55, 138-142.

§  Noyes, M. (1952). A true account of a beautiful passing. Light, 72, 65.

§  Rivas, T., Dirven, A., and Smit, R. H. The Self Does Not Die. Durham, NC: IANDS Publications.

§  Schag, C. C., Heinrich, R. L. and Ganz, P. A. (1984). Karnofsky performance status revisited: Reliability, validity, and guidelines. Journal of Clinical Oncology, 2, 187-193.

§  Turetskaia, B. E. and Romanenko, A. A. (1975). Agonal remission in the terminal stages of schizophrenia (in Russian, transl. M.H. Pertzoff). Korsakov’s Journal of Neuropathology and Psychiatry, 75, 559-562.

§  Walker, M. P., Ballard, C. G., Ayre, G. A., Wesnes, K., Cummings, J. L., McKeith, I. G. and O’Brien, J. T. (2000). The clinician assessment of fluctuation and the one day fluctuation assessment scale. Two methods to assess fluctuating confusion in dementia. British Journal of Psychiatry, 177, 252-256.



[2] du Prel, 1888/1971.

[3] Nahm, 2009, 2011, 2012, 2013; Nahm e Greyson, 2009, 2013-2014; Nahm, Kelly, Haraldsson e Greyson, 2012.

[4] Burdach, 1826.

[5] Butzke, 1840.

[6] Turetskaia e Romanenko, 1975.

[7] Nahm, 2012; Nahm, Kelly, Haraldsson e Greyson, 2012.

[8] Noyes, 1952.

[9] Por exemplo, Kelly et al., 2007; Kelly, Crabtree e Marshall, 2015.

[10] Nahm, 2011, 2012.

[11] Por exemplo, Kelly, Crabtree e Marshall, 2015; Rivas, Dirven e Smit, 2016.

[12] Sem comprovação científica.

[13] Fenwick, Lovelace e Brayne, 2010.

[14] Por exemplo, Schag et al., 1984; Crooks et al., 1991; Walker et al., 2000; Lee et al., 2014.

terça-feira, 1 de março de 2022

CONSELHOS SOBRE A MEDIUNIDADE CURADORA[1]

 

Allan Kardec

 

I

(Paris, 12 de março de 1867 – Grupo Desliens – Médium: Sr. Desliens)

 

Como já vos foi dito muitas vezes nas diferentes instruções, a mediunidade curadora, juntamente com a faculdade de vidência, é chamada a desempenhar um grande papel no período atual da revelação. São os dois agentes que cooperam com a maior força na regeneração da Humanidade e na fusão de todas as crenças numa crença única, tolerante, progressiva, universal.

Recentemente, quando me comuniquei numa reunião da Sociedade, onde me haviam evocado, disse e o repito: todo o mundo possui mais ou menos a faculdade curadora, e se cada um quisesse consagrar-se seriamente ao estudo dessa faculdade, muitos médiuns que se ignoram poderiam prestar úteis serviços aos seus irmãos em humanidade. Então o tempo não me permitiu desenvolver todo o meu pensamento a esse respeito; aproveitarei o vosso apelo para fazê-lo hoje.

Em geral os que buscam a faculdade curadora têm como único desejo obter o restabelecimento da saúde material, restituir a liberdade de ação a tal órgão, impedido nas suas funções por uma causa material qualquer. Mas, sabei-o bem, é o menor dos serviços que esta faculdade é chamada a prestar, e só a conheceis em suas primícias e de maneira completamente rudimentar, se lhe conferis este único papel... Não, a faculdade curadora tem uma missão mais nobre e mais extensa! Se pode restituir aos corpos o vigor da saúde, também deve dar às almas toda a pureza de que são susceptíveis, e é somente neste caso que poderá ser chamada curativa, no sentido absoluto da palavra.

Muitas vezes vos disseram, e vossos instrutores nunca vo-lo repetiriam em demasia, que o aparente efeito material, o sofrimento, quase sempre tem uma causa mórbida imaterial, residindo no estado moral do Espírito. Se, pois, o médium curador ataca o corpo, não ataca senão o efeito; permanecendo a causa primeira do mal, o efeito pode reproduzir-se, quer sob a forma primordial, quer sob outra aparência qualquer. Muitas vezes aí está uma das razões pelas quais tal doença, subitamente curada pela influência de um médium, reaparece com todos os seus acidentes, desde que a influência benfazeja se afaste, porque não resta nada, absolutamente nada para combater a causa mórbida.

Para evitar essas recidivas, é preciso que o remédio espiritual ataque o mal em sua base, como o fluido material o destrói em seus efeitos; numa palavra, é preciso tratar, ao mesmo tempo, o corpo e a alma.

Para ser bom médium curador, não só é preciso que o corpo esteja apto a servir de canal aos fluidos materiais reparadores, mas, ainda, que o Espírito possua uma força moral, que só pode adquirir por seu próprio melhoramento. Para ser médium curador é preciso, pois, preparar-se não só pela prece, mas pela depuração de sua alma, a fim de tratar fisicamente o corpo pelos meios físicos, e de influenciar a alma pela força moral.

Uma última reflexão. Aconselham-vos que busqueis de preferência os pobres, que não têm outros recursos além da caridade do hospital. Não é esta, absolutamente, a minha opinião.

Jesus dizia que o médico tem por missão cuidar dos doentes e não dos que gozam de boa saúde. Lembrai-vos de que na questão de saúde moral, há doentes por toda parte, e que o dever do médico é ir a toda parte onde o seu socorro é necessário.

Abade príncipe de Hohenlohe

 

II

(Sociedade de Paris, 15 de março de 1867 – Médium: Sr. Desliens)

 

Numa comunicação recente, eu falava da mediunidade curadora, de um ponto de vista mais largo do que o que foi considerado até agora, e a fazia consistir antes no tratamento moral que no tratamento físico dos doentes, ou, pelo menos, reunia esses dois tratamentos num só. Pedirei me permitais dizer algumas palavras a esse respeito.

O sofrimento, a doença, a própria morte, nas condições sob as quais as conheceis, não são mais especialmente a partilha dos mundos habitados pelos Espíritos inferiores, ou pouco adiantados?

O desenvolvimento moral não tem por objetivo principal conduzir a Humanidade à felicidade, fazendo-a adquirir conhecimentos mais completos, desembaraçando-a das imperfeições de toda natureza, que retardam sua marcha ascensional para o infinito? Ora, melhorando o Espírito dos doentes, não se os põe em melhores condições para suportarem seus sofrimentos físicos? Atacando os vícios, as más inclinações, que são a fonte de quase todas as desorganizações físicas, não se põem essas desorganizações na impossibilidade de se reproduzirem? Destruindo a causa, necessariamente se impede o efeito de se manifestar novamente.

A mediunidade curadora pode, pois, comportar duas formas; e essa faculdade não estará em seu apogeu, nos que a possuem, senão quando reunirem em si essas duas maneiras de ser.

Ela pode compreender unicamente o alívio material dos doentes e, então, se dirige aos encarnados; pode compreender a melhora moral dos indivíduos e, neste caso, se dirige tanto aos Espíritos quanto aos homens; enfim, ela pode compreender o melhoramento moral e o alívio material: neste caso, tanto a causa quanto o efeito poderão ser combatidos vitoriosamente. Efetivamente, em que consiste o tratamento dos Espíritos obsessores, senão numa espécie de influência semelhante à mediunidade curadora, exercida conjuntamente por médiuns e Espíritos sobre uma personalidade desencarnada?

Assim, a mediunidade curadora abrange ao mesmo tempo a saúde moral e a saúde física, o mundo dos encarnados e o dos Espíritos.

Abade príncipe de Hohenlohe

 

III

(Paris, 24 de março de 1867 – Médium: Sr. Rul)

 

Venho continuar a instrução que dei a um médium da Sociedade. Por que duvidáveis que eu tivesse vindo ao vosso apelo?

Não sabeis que um Espírito bom se sente sempre feliz por ajudar os seus irmãos da Terra na via do melhoramento e do progresso?

Hoje conheceis o que eu disse do considerável papel reservado à mediunidade curadora; sabeis que, conforme o estado de vossa alma e as aptidões do vosso organismo, podeis, se Deus vo-lo permitir, tanto curar as dores físicas quanto os sofrimentos morais, ou ambos. Duvidais se sois capaz de fazer uma ou outra, porque conheceis as vossas imperfeições; mas Deus não exige a perfeição, a pureza absoluta aos homens da Terra. A esse título, ninguém entre vós seria digno de ser médium curador. Deus pede que vos melhoreis, que façais esforços constantes para vos purificardes, e vos leva em conta a vossa boa vontade.

Já que desejais seriamente aliviar os vossos irmãos que sofrem física e moralmente, tende confiança, esperai que o Senhor vos conceda esse favor. Mas, repito-o, não sejais exclusivos na escolha dos vossos doentes; todos, quaisquer que sejam, ricos ou pobres, crentes ou incrédulos, bons ou maus, todos têm direito ao vosso socorro. Será que o Senhor priva os maus do calor benfazejo do Sol, que aquece, reanima e vivifica? Será que a luz é recusada a quem quer que não se prosterne diante da bondade do Todo-Poderoso? Curai, pois, quem quer que sofra e aproveitai o bem que trouxestes ao corpo para purificar a alma ainda mais sofredora e ensinai-lhe a orar. Não vos aborreçais pelas recusas que encontrardes; fazei sempre vossa obra de caridade e de amor e não duvideis que o bem, embora retardado por uns, jamais ficará perdido. Melhorai-vos pela prece, pelo amor do Senhor, de vossos irmãos, e não duvideis que o Onipotente não vos dê as ocasiões frequentes de exercer vossa faculdade mediúnica. Sede felizes quando, após a cura, vossa mão apertar a do vosso irmão reconhecido; e que ambos, prosternados aos pés de vosso Pai celestial, possais orar juntos para o agradecer e o adorar. Mais feliz ainda quando, acolhido pela ingratidão, depois de ter curado o corpo, mas impotente para curar a alma endurecida, elevardes o vosso pensamento para o Criador, pois vossa prece será a primeira centelha destinada a acender mais tarde o facho que brilhará aos olhos do vosso irmão curado de sua cegueira, e direis a vós mesmos que quanto mais um doente sofre, tanto mais atenção lhe deve dar o médico.

Coragem, irmão; esperai e aguardai que os Espíritos bons, que vos dirigem, vos inspirem quando começardes a aplicação de vossa nova faculdade mediúnica, junto aos vossos irmãos que sofrem. Até lá orai, progredi pela caridade moral, pela influência do exemplo, e jamais deixeis fugir a menor ocasião de esclarecer os vossos irmãos. Deus vela sobre cada um de vós, e aquele que hoje é o mais incrédulo, amanhã poderá ser o mais fervoroso e o mais crente.

Abade príncipe de Hohenlohe



[1] Revista Espírita – Outubro/1867 – Allan Kardec