segunda-feira, 9 de outubro de 2017

DR. SILVINO CANUTO ABREU[1]


 

Nascido em Taubaté, Estado de São Paulo, no dia 19 de janeiro de 1892, e desencarnado em São Paulo, no dia 02 de maio de 1980.
Formou-se em Farmácia aos 17 anos de idade, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, na qual também concluiu, em 1923, o curso de Medicina. Bacharelou-se em Direito pela antiga Escola de Ciências Jurídicas e Sociais, depois Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, no ano de 1916.
No campo jurídico, começou a advogar aos 22 anos de idade, no contencioso do Banco Hipotecário do Brasil e da "Caísse Commerciale et Industrielle de Paris". Especializou-se em Direito Comercial, Assuntos Bancários e Econômicos, trabalhando no Banco do Brasil e outros até 1932. Desempenhou vários encargos particulares do Governo Federal. Esteve no Extremo Oriente cerca de um ano, estudando in loco assuntos pertinentes à imigração oriental para o Brasil. Foi autor do projeto do Banco do Brasil "Comissão do Açúcar", mais tarde transformada no "Instituto do Açúcar".
No campo da Medicina, cuja ciência sempre estudou e amou, escreveu inúmeros artigos publicados entre 1925 e 1930, emitindo ideias com referência à Medicina Social. Foi fundador e presidente da Associação Paulista de Homeopatia. Como clínico, jamais aceitou qualquer retribuição direta ou indireta de seus serviços médicos.
Foi membro de várias entidades assistenciais e vicentinas, dedicou-se com afinco ao trabalho em prol da criança abandonada.
Fundou no Rio de Janeiro, com outros beneméritos, alguns orfanatos. Tornou-se colaborador a partir de 1934, quando passou a residir em São Paulo, da Associação Feminina Beneficente e Instrutiva, uma das mais antigas instituições de assistência à infância em nosso Estado (fundada em 1901 por Anália Franco). Juntamente com a Diretora Geral, Cléo Duarte, empreendeu reformas e construções importantes, fazendo dos internatos, Anália Franco para meninos e Eleonora Cintra para meninas, dois estabelecimentos únicos com capacidade para mais de 300 crianças.
Na vida econômica se fez por si. Foi sempre progressista, orientado pelo idealismo de bem servir à coletividade. Em São Paulo, associou-se a José Baptista Duarte, nas Indústrias J.B. Duarte, sendo seu presidente.
Na esfera teológica, empolgado desde os 18 anos pelos estudos bíblicos, empreendeu entre outros trabalhos, a versão direta dos Evangelhos gregos, tomando por base o mais antigo manuscrito do Novo Testamento, até a época. Pesquisou nas Bibliotecas do Museu Britânico, Biblioteca do Vaticano, Biblioteca Nacional de Paris. Profundo conhecedor da História do Espiritismo no Brasil e no mundo, escreveu, em 1936, quando ainda circulava a revista "Metapsíquica", órgão da Sociedade Metapsíquica de São Paulo, vários artigos abordando fatos ocorridos no Brasil até o ano de 1895, detendo-se com profundeza de detalhes na atuação do Dr. Adolfo Bezerra de Menezes à frente do movimento espírita em nosso país. Estes artigos foram publicados, em 1950, em forma de opúsculo, por ocasião da realização do 2° Congresso Espírita do Estado de São Paulo.
As "Edições FEESP" lançaram estes escritos em forma de livro, em agosto de 1981, quando se comemorou o sesquicentenário de nascimento do Dr. Bezerra de Menezes.
No ano de 1953, deu início, pelas colunas do jornal "Unificação", órgão da União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo, à publicação de uma série de artigos sob o título "O Livro dos Espíritos e sua Tradição Histórica e Lendária", o que fez até junho de 1954. Estes artigos, de suma importância, deveriam ser publicados em livro, o qual não chegou a sair a lume. Em abril de 1957, no evento das comemorações do I Centenário de lançamento de O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec, o Dr. Canuto Abreu, que fazia parte da comissão organizadora das festividades do centenário, fez publicar, em edição bilíngue, nos idiomas francês e português, o "Primeiro Livro dos Espíritos de Allan Kardec", reproduzindo o famoso livro na forma em que foi lançado pelo Codificador, no dia 18 de abril de 1857, traduzindo-o também para o vernáculo.
Como se sabe, aquela obra básica do Espiritismo foi sensivelmente refundida pelo próprio autor, quando da publicação da sua segunda edição, em 18 de março de 1860, a qual se tornou definitiva.
O Dr. Canuto foi Diretor Geral da Sociedade Metapsíquica de São Paulo, entidade que posteriormente se fundiu na Federação Espírita do Estado de São Paulo. Foi expositor da Primeira Turma da Escola de Aprendizes do Evangelho, da mesma Federação, tendo tomado parte na elaboração de alguns dos livros usados naqueles cursos.
Ao longo de sua vida laboriosa e de suas numerosas viagens ao Exterior conseguiu amealhar livros e documentos raros, formando imensa biblioteca. Durante a II Grande Guerra Mundial, quando os exércitos alemães invadiram a França, tornou-se depositário de alguns documentos históricos que estavam em poder da sociedade que dirigia os destinos do Espiritismo naquela importante nação europeia.
O Dr. Canuto passou seus últimos anos de vida entre seus livros e documentos, sempre ativo e interessado em tudo. O Espiritismo muito lhe deve, pelo muito que fez em favor da divulgação dos seus postulados e pelo incomparável esforço em favor das pesquisas que formam parte da história da doutrina, no Brasil e no mundo.




[1] Personagens do Espiritismo - Antônio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy

sábado, 7 de outubro de 2017

A Crise da Morte – Sensações relatadas no processo de Desencarne[1]

 

Tomo-o à revista Light (1927, pág. 230). O diretor dessa revista, Sr. David Gow, precedeu a narrativa deste caso de uma breve nota, donde extraio os períodos seguintes:
Os trechos, que se vão ler, de mensagens mediúnicas, foram tirados de um longo relatório que nos enviou um ministro anglicano da Nova Escócia. O Espírito comunicante foi, ao que parece, conhecida personagem americana, que ocupou, quando na Terra, alto cargo municipal. O médium, de cujo nome se nos deu conhecimento, é uma senhora distinta, muito conhecida, igualmente, pela elevação de seu caráter e pela excelência de suas faculdades mediúnicas.
O Espírito começou assim:
Desejo principiar a minha narrativa, do dia em que deixei o corpo material no meu quarto de Blankville. Via quão grande era a dor que despedaçava a alma de meus filhos e muito me afligia o achar-me impossibilitado de lhes dirigir a palavra.
De súbito, verifiquei que em mim uma mudança se operava, que eu não compreendia bem. Fui presa de estranha sensação que, conquanto inteiramente nova para mim, era um tanto análogo à que uma pessoa experimenta quando desperta repentinamente de profundo sono. No primeiro momento, nada compreendi, dada a situação em que me encontrava. Pouco a pouco, porém, fui percebendo o meio que me cercava, como sucede ai quando a gente desperta do sono. Vi-me estendido, calmo e imóvel, no meu leito, circunstância que me encheu de espanto, longe que estava de supor que morrera. Após algum tempo, cada vez mais desperto, percebi que minha defunta mulher se achava ao meu lado, a me sorrir, com uma expressão radiante de ventura. Esse nosso encontro se dava depois de longa separação.
Foi ela quem me comunicou a terrificante noticia de que eu estava morto e me encontrava também no meio espiritual. Disse-me que, desde muitos dias, velava à cabeceira do meu leito, aguardando o momento de acolher o meu Espírito e de o conduzir à morada celeste.
Sentia-me de mais em mais revigorado por uma vitalidade nova, como se todas as minhas faculdades entrassem num período de atividade grande, após o prolongado torpor em que me achara... Era a sensação de uma beatitude difícil de descrever-se. . . Afigurava-se-me que me tornara parte integrante do meio que me rodeava. Minha mulher me tomou então pelas mãos e, assim unidos, nos elevamos através do teto do quarto, subindo para o alto, sempre mais alto, pelo espaço a fora. Entretanto, se bem que me houvesse afastado muito do meio terrestre, continuava a ter conhecimento do que ocorria em minha casa. Via minha filha acabrunhada de dor. Esse estado da alma parecia deslizar como uma nuvem escura, entre ela e mim; insinuava-se no meu ser, produzindo nele um sentimento penoso de torpor. Desejo saiba as crises excessivas de dor, junto dos leitos mortuários, constituem imensa barreira interposta entre os vivos, que delas se deixam tomar, e o Espírito do defunto por quem eles choram. Trata-se de uma barreira real e intransponível, que não nos permite entrar em comunicação com os que se desesperam pela nossa morte. Mais ainda: as exageradas crises de dor retêm presos ao meio terrestre os Espíritos desencarnados, retardando-lhes a entrada no mundo espiritual.[2]
De fato, se é certo que, com a morte, cessam necessariamente todas as relações entre os Espíritos desencarnados e o organismo físico dos vivos, em compensação os Espíritos dos defuntos se tornam extremamente sensíveis às vibrações dos pensamentos das pessoas que lhes são caras. Concito, pois, os vivos que percam alguns de seus parentes - qualquer que possa ser a importância da perda e da dor correspondente - a que, a todo custo, se mostrem fortes, abafando toda manifestação de mágoa e apresentando-se de aspecto calmo nos funerais. Comportando-se assim, determinarão considerável melhoria na atmosfera que os cerca, porquanto a aparência de serenidade nos corações e nos semblantes das pessoas que nos são caras emite vibrações luminosas que nos atraem, como, à noite, a luz atrai a borboleta. Por outro lado, a mágoa dá lugar a vibrações sombrias e prejudiciais a nós outros, vibrações que tomam o aspecto de tenebrosa nuvem a envolver aqueles a quem amamos. Não duvideis de que somos muito sensíveis às impressões vibratórias que nos chegam, por efeito da dor dos que nos são caros. Nossos corpos etéreos estão, efetivamente, sintonizados por uma escala vibratória muito alta, que nada tem de comum com a escala vibratória dos corpos carnais...
Aqui não se usa da palavra para conversar. Percebemos os pensamentos nos olhos daquele que conversa conosco. O nosso interlocutor, a seu turno, percebe em nossos olhos os pensamentos que nos acodem. Deste modo, percebemos integral e perfeitamente a significação dos discursos dos outros, o que se não pode realizar na Terra...
Logo que cheguei ao meio espiritual, tive a sensação de estar em minha casa. Parentes, amigos, conhecidos vieram todos me receber; todos se congratulavam comigo, por haver, afinal, chegado ao porto. Era, pois, natural que fizessem nascer em mim à impressão de estar em minha casa. Para me adaptar ao novo meio, menos tempo me foi preciso, do que me seria na Terra, para me adaptar a uma mudança de residência...
Aqui, todos podem obter facilmente os objetos que desejamos: não temos mais do que pensar neles, para que os criemos. Nessas condições, compreende-se que ninguém pode desobedecer ao mandamento de Deus: Não desejareis o que pertença ao vosso próximo. Nada aqui se compra com dinheiro; coisa alguma pode haver que tenha valor, senão para aquele que a criou, destinada a seu uso pessoal, por necessitar dela. Cada um se acha em condições de conseguir para si, se o quiser, tudo o que seu vizinho possua.
Bem entendido, talo apenas de objetos materiais de toda espécie. Digo materiais, para me fazer compreendido, pois que semelhante qualificativo não se adapta às criações etéreas...
Como se vê, nestas passagens da narrativa que a Light publicou, encontram-se as habituais concordâncias, a propósito de o defunto perceber o seu próprio cadáver no leito de morte; de não saber que morrera; de ver-se com a forma humana; de ser acolhido por sua mulher defunta e por grande número de outros Espíritos, que ele conhecera e estimara quando vivo.
Acrescenta que, no mundo espiritual, os Espíritos conversam por meio da transmissão do pensamento e que este é uma força criadora, a cujo favor cada um pode conseguir o de que precise.
Falta, no entanto, qualquer alusão à frase do sono reparador, por que passa os Espíritos, pouco tempo depois da morte.
Tampouco se alude alia outro fato, tão frequente nas mensagens com que aqui nos ocupamos, o da visão panorâmica, que tem o morto, de todos os acontecimentos de sua vida. Noto-o apenas incidentemente, porquanto, do ponto de vista teórico, a omissão nenhuma importância apresenta.
Primeiramente, os defuntos que se manifestam não estão forçosamente obrigados a dar uma descrição completa das circunstâncias em que se encontram no momento da morte. Depois, ninguém afirma que os Espíritos devam todos passar pelas mesmas experiências. Finalmente, a publicação da Light não é mais do que uma reprodução fragmentária das mensagens do Espírito que se comunicou; a diretor da revista em questão fez mesmo saber a seus leitores que, por motivo de carência de espaço, suprimira a maior parte das informações, já muito conhecidas dos espíritas. E, portanto, provável que entre as informações suprimidas se achem as de que acabamos de falar.
Outro ponto interessante da mensagem que se vem de ler é o em que o Espírito diz que a dor exagerada dos vivos, junto dos feitos mortuários de Pessoas que lhes eram caras, constitui obstáculo intransponível, que impede o morto de entrar em relações psíquicas com os seus, acrescentando que, por outro lado, o estado da alma dos vivos exerce influência deplorável sobre as condições espirituais em que se encontra o Espírito recém-desencarnado. Estas afirmações adquirem importância pelo fato de que muitos outros Espíritos têm afirmado exatamente a mesma coisa. Somos deste modo levados a refletir seriamente sobre a advertência que nos chega de além-túmulo, sobretudo se considerarmos que as afirmações desses Espíritos são perfeitamente acordes com as conclusões dos sábios, segundo as quais tudo o que existe e se manifesta no universo físico e psíquico pode reduzir-se, em última análise, a um fenômeno de vibrações. Sendo assim, ter-se-á que convir em que é muito verossímil, inevitável mesmo, que as vibrações inerentes a um estado da alma de grande dor sejam penosas para um Espírito que há pouco se libertou do corpo carnal e o impeçam de entrar em relação psíquica com os seus, retendo-o no meio terrestre, enquanto essas vibrações persistirem.




[1] A Crise da Morte – Ernesto Bozzano
 

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Sexualidade[1]


Cairbar Schutel
 

Por que unir sexo, amor e reforma íntima? Porque o relacionamento sexual deve ser conhecido e vivenciado no contexto do amor e, portanto, da reforma íntima.
Sexualidade serve de prova para o encarnado. Pode conter alguns fatores que levam a períodos de expiação, mas não deve navegar pelo sofrimento. Se, por conta do sexo, o ser humano sofrer, é porque ainda não aprendeu a amar.
Controlar a sexualidade, assim como manter o domínio sobre os demais desvios de conduta, é um dever do encarnado.
Do mesmo modo que relacionamento sexual traz alegria e prazer ao espírito e ao corpo, pode conduzir à tristeza e à angústia. Sexo não deve ser o centro das atenções do ser, nem tampouco o ponto de convergência dos interesses. É parte do amor, verdadeira meta a ser alcançada na sua plenitude.
Pratica-se, idealmente, entre homem e mulher. Tem um sentido de troca positiva de sensações e vibrações carnais e fluídicas. Está no contexto da relação conjugal permanente e fiel. Ao largo dessa premissa, torna-se um desvio de comportamento.
Não é preciso ser utilizado somente para procriar, ainda que seja instrumento ideal para tanto. Sexo, havendo amor, pode e deve ser desfrutado quando possível e desejável.
Por que não no cenário das relações instáveis e como mero prazer carnal? Porque, nesse prisma, não difere dos demais desvios que o encarnado adota para a satisfação artificial, portanto material, de suas necessidades. Porque pode estar — o que ocorre na maioria dos casos — no contexto do materialismo puro.
A falta de preparo e evolução para a compreensão do verdadeiro significado do amor, como sentimento maior, induz o encarnado a tratar o sexo como um instrumento ilusório — porque não tocante ao imo da alma — de prazer.
Praticar o ato sexual fora do contexto ideal é o mesmo que cultivar um desvio, que pode tornar-se um vício.
É certo que, como prova, o sexo trará a muitos as mesmas agruras dos demais desvios de conduta. Como expiação pode também transformar-se em linha de negativismo, caso não saiba o encarnado lidar, resignado, com tal obstáculo.
O indicado é captar sua real dimensão, não permitindo que seja um instrumento de desatino espiritual, trazendo, assim, mais dívidas a quitar no futuro.
As pessoas na crosta terrestre relacionam-se positivamente através do amor material — entendido como atração física que causa prazer à carne — e do amor espiritual — relação superior, que preenche a alma e regozija o ser, pois completa-lhe a essência. O sexo lida com as duas formas.
Há amor material por excelência, pelo contato físico que proporciona. Há também amor espiritual porque contenta o íntimo do ser, neste caso quando exercido a nível ideal e cristão.
Pode não ser obrigatório no casamento? Desde que o casal assim acorde, mútua e espontaneamente, por conveniências íntimas e pessoais, prevalecendo na relação o amor espiritual.
Exercitá-lo ou não implica sempre numa decisão responsável.
O amor espiritual envolve o material que envolve o sexo. Portanto, sexo sem amor espiritual é corpo sem cabeça.
Confunde o encarnado sentimento com instinto ou sensação, manifestações mais rudes do espírito. Animais têm instintos, assim como o homem os tem. Mas animais não têm sentimentos desenvolvidos, o que o homem possui. Tratar o relacionamento sexual meramente no campo instintivo — ou mesmo no da sensação, algo intermediário entre instinto e sentimento, mas ainda rudimentar — é empobrecê-lo.
Praticar o ato sexual por instinto ou por sensação de prazer, sem sentimento, é animalizá-lo. Compreensível que muitos, ainda por parca evolução espiritual, o façam. Desejável, entretanto, não é.
Afagar a mente, através da leitura de um livro com belas mensagens, pode dar maior prazer ao espírito mais evoluído do que uma noite de sensações libidinosas representa a outro, menos desenvolvido.
Soluções existem. Passam pela reforma íntima. Não prescindem da reformulação interior do ser.
Há uma falsa ideia que torna bestial o resultado adotado pela humanidade, conforme a época e o lugar do Globo, que é considerar o desvio sexual de qualquer ordem pior, ou melhor, que outros desvios de conduta.
Assim, desmandos e atrocidades são cometidos contra o encarnado que, desviando-se no contexto do instinto sexual, comete algum ato não ideal ou menos cristão. São períodos negros da história do ser humano. Sexo e sentimento devem ter noções inseparáveis. Ainda que leve algum tempo para que a humanidade disso se aperceba, é esse o ideal cristão a ser perseguido.
Eis por que o melhor contexto para o desempenho dos atos consentâneos é na união familiar entre o homem e a mulher.
Existem uniões passageiras entre encarnados que levam ao seu exercício pela mera sensação de prazer. É fato e contra fatos não há negativas. Com o passar do tempo, no entanto, haverá um aprimoramento espiritual suficiente que conduzirá os seres à percepção da razão verdadeira do amor e, consequentemente, dos fundamentos reais da sexualidade. Nessa ocasião, sexo e amor estarão indissociavelmente unidos; amor e união familiar, também. Logo, sexo e união familiar será um binómio natural e pacificamente aceito por todos.
Não se retira do ato sexual, com isso, o seu característico de prazer. É prazer e continuará sendo no mundo material. Deve ser, inclusive para justificar e incentivar a sua prática. Não é fonte exclusiva para a procriação, mas sobretudo para a troca de energias e sentimentos entre os seres que se unem para um consórcio de vida, permutando experiências e desenvolvendo projetos
No plano físico, elementos que para o desencarnado tornam-se supérfluos, para os encarnados são fundamentais e sustentam suas sensações de deleite e satisfação. Aí onde estão incluídas todas as funções fisiológicas também está a sexualidade.
Sexualidade não deve ser um tabu, mas também não significa libertinagem. Sua finalidade é proporcionar aos encarnados sensações de prazer através do exercício do sentimento amor.
Servindo, ainda, de prova ou de expiação, conduz o encarnado à senda dos acertos e, portanto, do progresso, ou dos erros e, consequentemente, dos débitos.
Prática sexual pode ser vício, quando se torna busca incessante de prazer imotivado e não sentimental.
Sexo pode ser símbolo de materialismo. Utilizando-o para conquistas interesseiras, forma de sustento ou mesmo instrumento de prazer desenfreado, o encarnado ingressa no cenário do materialismo, afastando-se do ideal.
Quando exercido o ato respectivo por mera obrigação, na relação conjugal, pode ser útil ou não. Melhor agir com amor. Sempre. Não sendo possível, o casal pode praticá-lo como meio de satisfação das necessidades físicas. Ainda que não seja o ideal, é melhor do que ir buscá-lo extra maritalmente.
Como mencionado em item precedente, não se nega a existência da sua prática fora da união familiar, porque é um fato — e corriqueiro na atualidade. Mas, buscando a sua evolução, voltado para o futuro, visando a atingir um estágio superior de depuração, deve o encarnado saber que a sexualidade tem uma finalidade diversa daquela para a qual se volta a maioria da sociedade no presente, por ignorância ou por falta de preparo espiritual para aceitar a realidade. Para tanto, incide o esclarecimento.
Sexo — e a repetição nesse contexto não é demasia ‒ significa instrumento de realização de um sentimento nobre, que é o amor. Aliás, uma das formas de exercitar o amor.
Há outras, até mais profundas e satisfatórias que o sexo — depende da evolução do espírito para aperceber-se disso.
Sendo instrumento de amor e sendo este sentimento por excelência desfrutado no núcleo familiar, base fundamental de evolução de todo ser humano, destina-se o seu exercício à intimidade conjugal. Idealmente nem antes, nem fora dela
Como fazer para contê-lo no tocante àqueles que ainda não conseguem assim aceita-lo? Como todo vício, o melhor caminho é operacionalizar a reforma íntima. Através dela, o encarnado começará, ainda que timidamente, a mudar os seus hábitos e, com o passar do tempo, a compreender a desvantagem do papel do sexo fora da relação conjugal.
Fazendo-se um paralelo com um vício qualquer, a melhor forma para extirpá-lo é a diminuição lenta, gradativa e permanente dos atos erroneos que compõem o quadro vicioso.
Portanto, quem não consegue conter a sua sexualidade de forma natural, nesse contexto, deve encarar o seu problema como um desvio de conduta e, conforme o caso, como um vício. A partir daí, combater o mal torna-se uma peregrinação difícil, mas possível de ser realizada, utilizando como instrumento o processo decrescente e permanente fiscalização de suas próprias atitudes. Haverá dia em que o triunfo será alcançado.
 
Homossexualidade
Significa atração sexual por pessoa do mesmo sexo.
Pode advir de uma inadaptação do Espírito ao corpo que lhe foi destinado; vale dizer: desejava nascer homem e nasceu mulher ou vice-versa. Porta para a irresignação contra Deus, portanto, desvio de conduta, uma vez que não consegue suportar sua prova.
Pode resultar de influenciações provenientes do meio social ou fruto da descuidada educação familiar. Neste caso, mais fácil se torna reverter o desvio. No outro, bem mais complexo e difícil.
Quando irresignado com a prova que lhe foi destinada, o encarnado, em maior ou menor escala (eis porque as várias gradações que passam pelo transexual, pelo bissexual e pelo homossexual propriamente dito), cultiva, no espírito, o desejo de pertencer ao sexo oposto ao seu.
A prática sexual é uma das formas mais visíveis e satisfatórias de encontro do trinômio "mente-sensualidade-prazer", assim, na forma material que encontra satisfação para o seu lado sensual, buscando o prazer sexual racionalmente (o sentimental, que envolve o coração, fica fora desse contexto), o encarnado procura o contato homossexual para amenizar o seu inconformismo latente, às vezes silencioso, mas presente no mais profundo do seu âmago.
Como se disse, reverter essa tendência é difícil. Quando se trata da irresignação espiritual, o processo é lento e necessita, de forma absoluta, do processo de reforma íntima. Quando se trata do homossexualismo resultante de influenciações sociais ou má educação familiar, mais fácil reverter o quadro, ainda que precise, de maneira mais branda, da reforma íntima.
A influência do meio e a educação dada pela família, por serem geralmente estranhas ao âmago do ser, podem ter o condão de adulterar o comportamento do encarnado, mas não conseguem transformá-lo na sua essência. Logo, mais fácil, vindo a conscientização, o próprio ser humano toma rumo diverso, abandonando a anterior ínfluenciação e afastando-se dos maus princípios educativos que o conduziram até então.
Tratando-se da irresignação do espírito, pode levar toda uma jornada para que o encarnado compreenda a sua atitude equivocada. Pode necessitar para isso de mais de um estágio na Crosta. Enfim, somente com uma eficaz reforma íntima é reversível tal tendência.
Sem admitir, no entanto, o erro, jamais conseguirá empreendê-la (a reforma íntima nesse campo). Portanto, manter-se em atividade homossexual , crendo ser algo natural e finalístico, impossível e desnecessário de ser evitado, é encobrir o próprio desvio ou vício e, com isso, impedir o processamento da reforma íntima, única saída para sanar a irresignação indevida.
Como todos os demais desvios de comportamento, que precisam ser combatidos pelos encarnados, o homossexualismo é mais um deles.
Pode parecer inócuo repetir o óbvio, mas não é. Essa repetição tem por fim demonstrar que não podem as pessoas, jamais, discriminar o homossexual de forma alguma. Conferir-lhe tratamento diferenciado e mais rígido do que o encarnado faz com outros desvios de conduta é parte da ignorância, do mero e abjeto preconceito e, sobretudo, de conduta também fruto do desvio.
O homossexualismo é um desvio de conduta. Deve ser combatido. O instrumento para tanto é a reforma íntima. Leve pouco ou muito tempo, não é impossível tal embate, nem tampouco as chances de sucesso.
Apesar disso, não deve ser julgado, nem tampouco condenado por quem desse desvio não padece. Afinal, quem está isento de um desvio de conduta, possui outros. Não possuísse seria perfeito. Sendo-o, não estaria em um planeta de expiação e provas.




[1] Fundamentos da Reforma Íntima - Abel Glaser/ Cairbar Schutel (Espírito)

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

VERSÃO MODERNA (do Sermão do Monte) [1]


 
Irmão X
 

E, respondendo ao companheiro que lhe havia solicitado a tradução do Sermão do Monte, em linguagem moderna, o velhinho amigo deteve-se no capítulo cinco do Apóstolo Mateus, e falou, com voz cheia e vibrante:
Bem-aventurados os pobres de ambições escuras, de sonhos vãos, de projetos vazios e de ilusões desvairadas, que vivem construindo o bem com o pouco que possuem, ajudando em silêncio, sem a mania da glorificação pessoal, atentos à vontade do Senhor e distraídos das exigências da personalidade, porque viverão sem novos débitos, no rumo do Céu que lhes abrirá as portas de ouro, segundo os ditames sublimes da evolução.
Bem-aventurados os que sabem esperar e chorar, sem reclamação e sem gritaria, suportando a maledicência e o sarcasmo, sem ódio, compreendendo nos adversários e nas circunstâncias que os ferem abençoados aguilhões do socorro divino, a impeli-los para diante, na jornada redentora, porque realmente serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, os delicados e os gentis que sabem viver sem provocar antipatias e descontentamentos, mantendo os pontos de vista que lhes são peculiares, conferindo, porém, ao próximo, o mesmo direito de pensar, opinar e experimentar de que se sentem detentores, porque, respeitando cada pessoa, cada coisa em seu lugar, tempo e condição, equilibram o corpo e a alma no seio da harmonia, herdando longa permanência e valiosas lições na Terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, aguardando o pronunciamento do Senhor, através dos acontecimentos inelutáveis da vida, sem querelas nos tribunais e sem papelórios perturbadores que somente aprofundam as chagas da aflição e aniquilam o tempo, trabalhando e aprendendo sempre com os ensinamentos vivos do mundo, porque, efetivamente, um dia serão fartos.
Bem-aventurados os misericordiosos, que se compadecem dos justos e dos injustos, dos ricos e dos pobres, dos bons e dos maus, entendendo que não existem criaturas sem problemas, sempre dispostos à obra de auxílio fraterno a todos, porque, no dia de visitação da luta e da dificuldade, receberão o apoio e a colaboração de que necessitem.
Bem-aventurados os limpos de coração que projetam a claridade de seus intentos puros sobre todas as situações e sobre todas as coisas, porque encontrarão a "parte melhor" da vida, em todos os lugares, conseguindo penetrar a grandeza dos propósitos divinos.
Bem-aventurados os pacificadores que toleram sem mágoa os pequenos sacrifícios de cada dia, em favor da felicidade de todos, e que nunca atiram no incêndio da discórdia a lenha da injúria ou da rebelião, porque serão considerados filhos obedientes de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem a perseguição ou a incompreensão, por amor à solidariedade, à ordem, ao progresso e à paz, reconhecendo, acima da epiderme sensível, os flagrados interesses da Humanidade, servindo sem cessar ao engrandecimento do espírito comum, porque, assim, se habilitam à transferência justa para as atividades do Plano Superior.
Bem-aventurados todos os que forem dilacerados e contundidos pela mentira e pela calúnia, por amor ao ministério santificante do Cristo, fustigados diariamente pela reação das trevas, mas agindo valorosos, com paciência, firmeza e bondade pela vitória do Senhor, porque se candidatam, desse modo, à coroa triunfante dos profetas celestiais e do próprio Mestre que não encontrou, entre os homens, senão a cruz pesada, antes da gloriosa ressurreição.
A essa altura, o iluminado pregador passeou o olhar percuciente e límpido pelo nosso grupo e, finda ligeira pausa, fixou nos lábios amplo e belo sorriso, rematando, serenamente:
Rejubilem-se, cada vez mais, quantos estiverem nessas condições, porque, hoje e amanhã, são bem-aventurados na Terra e nos Céus...
Em seguida, retomou o passo leve para frente, deixando-nos na estranha quietude e na indagação oculta de quem se dispõe a pensar.




[1] Cartas e Crônico – Francisco C. Xavier

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Pela 1ª vez, cientistas removem doença genética de embrião com 'cirurgia química'[1]


 
James Gallagher - 28 setembro 2017


Pesquisadores chineses afirmam ter realizado pela primeira vez no mundo uma "cirurgia química" em embriões humanos para extrair uma doença.
A equipe da Universidade de Sun Yat-sen usou uma técnica chamada "edição de base" para corrigir um único erro entre as três bilhões de "letras" do nosso código genético.
Eles alteraram embriões feitos em laboratório para extrair a doença talassemia beta. A equipe disse que o experimento pode levar, algum dia, ao tratamento de uma série de doenças herdadas geneticamente.
A técnica altera a construção base do DNA: as quatro bases adenina, citosina, guanina e timina. Elas são mais conhecidas por suas respectivas letras iniciais, A, C, G e T.
Todas as instruções para "configurar" o corpo humano e colocá-lo em funcionamento estão codificadas nas combinações dessas quatro bases.
A talassemia beta, uma doença sanguínea que causa sintomas de anemia e pode levar à morte, é provocada por uma mudança em uma única base no código genético ‒ conhecida como mutação pontual.
Os pesquisadores chineses a "editaram de volta". Eles copiaram o DNA e trocaram o G por um A, corrigindo o problema.
"Nós somos os primeiros a demonstrar a viabilidade de curar doenças genéticas em embriões humanos a partir de um sistema de edição de base", disse à BBC Junjiu Huang, um dos cientistas do grupo.
Ele disse que o estudo abre novas portas para tratar pacientes e prevenir bebês de nascerem com a talassemia beta "e até mesmo outras doenças hereditárias".
Os experimentos foram feitos com tecidos de um paciente com a doença e através de embriões humanos criados a partir da clonagem.
 
Revolução genética
A edição de base é um avanço em relação a outra forma de editar genes, a técnica conhecida como Crispr, que já está revolucionando a ciência.
A Crispr quebra o DNA. Quando o corpo tenta consertar a quebra, ela desativa uma série de instruções, que também são chamadas de gene. Aí está a oportunidade de inserir novas informações genéticas.
A edição de base faz as próprias bases de DNA se transformarem umas nas outras.
O professor David Liu, pioneiro da edição de base na Universidade de Harvard, descreveu o método como "cirurgia química".
Ele afirma que a técnica é mais eficiente e tem menos efeitos colaterais indesejados do que a Crispr.
"Cerca de dois terços das variantes genéticas humanas associadas a doenças são mutações pontuais. Portanto, a edição de base tem o potencial de corrigir diretamente, ou reproduzir para fins de pesquisa, muitas [mutações] patogênicas".
O grupo de cientistas da Universidade de Sun Yat-sen em Guangzhou (China) virou manchete anteriormente quando eles foram os primeiros a usar a técnica Crispr em embriões humanos.
O professor Robin Lovell-Badge, do Instituto Francis Crick em Londres, disse que determinados trechos desse último estudo são "engenhosos".
Mas ele também questionou por que eles não fizeram mais pesquisas com animais antes de ir diretamente aos embriões humanos e afirmou que as regras sobre pesquisas com embriões em outros países teriam sido "mais rigorosas".
O estudo, publicado na revista científica Protein and Cell, é o mais recente exemplo da rapidez na evolução da habilidade dos cientistas de manipular o DNA humano.
Isso está provocando um debate profundo de ética na sociedade, sobre o que é e o que não é aceitável nos esforços para prevenir doenças.
O professor Lovell-Badge disse que esses métodos dificilmente serão usados clinicamente em breve.
"Serão necessários muito mais debates sobre ética e sobre como esses métodos seriam regulados. E, em muitos países, incluindo a China, é necessário ter mecanismos mais robustos para regulação, fiscalização e acompanhamento a longo prazo".




terça-feira, 3 de outubro de 2017

Frenologia e Fisiognomonia[1]


 
A frenologia é ciência que trata das funções atribuídas a cada parte do cérebro. O Dr. Gall, fundador dessa ciência, pensava que, desde que o cérebro é o ponto para onde são conduzidas todas as sensações, e de onde partem todas as manifestações das faculdades intelectuais e morais, cada uma das faculdades primitivas deveria ter ali o seu órgão especial. Assim, seu sistema consiste na localização das faculdades. Sendo o desenvolvimento de cada parte cerebral determinado pelo desenvolvimento da calota óssea, produzindo protuberâncias, concluiu ele que, do exame dessas protuberâncias, poder-se-ia deduzir a predominância de tal ou qual faculdade e, daí, o caráter ou as aptidões do indivíduo. Daí, também, o nome de cranioscopia dado a essa ciência, com a diferença de que a frenologia tem por objeto tudo o que diz respeito às atribuições do cérebro, enquanto a cranioscopia se limita às ilações tiradas da inspeção do crânio.
Numa palavra, Gall fez, a respeito do crânio e do cérebro, o que fez Lavater para os traços fisionômicos.
Não há por que discutir aqui o mérito desta ciência, nem examinar se é verdadeira ou exagerada em todas as suas consequências. Mas ela foi, alternadamente, defendida e criticada por homens de alto valor científico. Se certos detalhes são ainda hipotéticos, nem por isso deixa de repousar sobre um princípio incontestável, o das funções gerais do cérebro, e sobre as relações existentes entre o desenvolvimento ou a atrofia desse órgão e as manifestações intelectuais. O nosso objetivo é o estudo das suas consequências psicológicas.
Das relações existentes entre o desenvolvimento do cérebro e a manifestação de certas faculdades, alguns sábios concluíram que os órgãos cerebrais são a própria fonte das faculdades, doutrina que não é outra senão a do materialismo, porquanto tende à negação do princípio inteligente estranho à matéria. Consequentemente, faz do homem uma máquina, sem livre-arbítrio e sem responsabilidade de seus atos, já que sempre poderia atribuir os seus erros à sua organização e seria injustiça puni-lo por faltas que não teriam dependido dele cometer. Ficamos abalados pelas consequências de semelhante teoria, e com razão.
Devia-se, por isso, proscrever a frenologia? Não, mas examinar o que nela poderia haver de verdadeiro ou de falso na maneira de encarar os fatos. Ora, esse exame prova que as atribuições do cérebro em geral, e mesmo a localização das faculdades, podem conciliar-se perfeitamente com o espiritualismo mais severo, que nisso encontraria a explicação de certos fatos. Admitamos, por um instante, a título de hipótese, a existência de um órgão especial para o instinto musical. Suponhamos, além disso, como nos ensina a Doutrina Espírita, que um Espírito, cuja existência é muito anterior ao seu corpo, reencarne com a faculdade musical muito desenvolvida; esta se exercerá naturalmente sobre o órgão correspondente e estimulará o seu desenvolvimento, como o exercício de um membro aumenta o volume dos músculos. Como na infância o sistema ósseo oferece pouca resistência, o crânio sofre a influência do movimento expansivo da massa cerebral.
Desse modo, o desenvolvimento do crânio é produzido pelo desenvolvimento do cérebro, assim como o desenvolvimento do cérebro o é pelo da faculdade. A faculdade é a causa primeira; o estado do cérebro é um efeito consecutivo. Sem a faculdade o órgão não existiria ou seria apenas rudimentar. Encarada sob esse ponto de vista, a frenologia, como se vê, nada tem de contrário à moral, porquanto deixa ao homem toda a sua responsabilidade, cabendo-nos acrescentar que esta teoria é, ao mesmo tempo, conforme a lógica e à observação dos fatos.
Objetam com os casos bem conhecidos, nos quais a influência do organismo sobre a manifestação das faculdades é incontestável, como os da loucura e da idiotia, mas é fácil resolver a questão. Veem-se todos os dias homens muito inteligentes tornarem-se loucos. O que prova isto? Um homem muito forte pode quebrar a perna e não poderá mais andar. Ora, a vontade de andar não está na perna, mas no cérebro; esta vontade só é paralisada pela impossibilidade de mover a perna. No louco, o órgão que servia às manifestações do pensamento, estando avariado por uma causa física qualquer, o pensamento já não pode manifestar-se de maneira regular; erra a torto e a direito, fazendo o que chamamos extravagâncias. Mas nem por isso deixa de existir em sua integridade, e a prova disso está em que, se o órgão for restabelecido, volta o pensamento original, como o movimento da perna que é curada.
Assim, o pensamento não está no cérebro, como não se encontra na calota craniana. O cérebro é o instrumento do pensamento, como o olho é o instrumento da visão, e o crânio é a superfície sólida que se molda aos movimentos do instrumento. Se o instrumento for deteriorado não ocorrerá manifestação, exatamente como não se pode mais ver ao se perder um olho.
Entretanto, por vezes acontece que a suspensão da livre manifestação do pensamento não se deve a uma causa acidental, como na loucura. A constituição primitiva dos órgãos pode oferecer ao Espírito, desde o nascimento, um obstáculo do qual sua atividade não pode triunfar. É o que acontece quando os órgãos são atrofiados ou apresentam uma resistência insuperável. Tal é o caso da idiotia. O Espírito está como que aprisionado e sofre essa constrição, mas nem por isso deixa de pensar como Espírito, do mesmo modo que um prisioneiro atrás das grades. O estudo das manifestações do Espírito de pessoas vivas, pela evocação, lança uma grande luz sobre os fenômenos psicológicos. Isolando o Espírito da matéria, prova-se pelos fatos que os órgãos não são a causa das faculdades, mas simples instrumentos, com o auxílio dos quais as faculdades se manifestam com maior ou menor liberdade ou precisão; que muitas vezes funcionam como abafadores, que amortecem as manifestações, o que explica a maior liberdade do Espírito, uma vez desprendido da matéria.
No conceito materialista, o que é um idiota? Nada; é apenas um ser humano. Conforme a Doutrina Espírita é um ser dotado de razão como todo mundo, mas enfermo de nascença pelo cérebro, como outros o são pelos membros. Ao reabilitá-lo, não será tal doutrina mais moral, mais humana, que a que dele faz um ser desprezível? Não é mais consolador para um pai, que tem a infelicidade de ter um tal filho, pensar que esse envoltório imperfeito encerra uma alma que pensa?
Aos que, sem serem materialistas, não admitem a pluralidade das existências, perguntaremos: O que é a alma do idiota? Se a alma é formada ao mesmo tempo com o corpo, por que criaria Deus seres assim desgraçados? Qual será o seu futuro?
Admiti, ao contrário, uma sucessão de existências e tudo se explica conforme a justiça: a idiotia pode ser uma punição ou uma prova e, em todo caso, não passa de um incidente na vida do Espírito. Isto não é maior, mais digno da justiça de Deus, do que supor que o Pai tenha criado um ser fracassado para sempre?
Agora lancemos as vistas para a fisiognomonia. Esta ciência é baseada no princípio incontestável de que é o pensamento que põe os órgãos em jogo, que imprime aos músculos certos movimentos. Daí se segue que, estudando as relações entre os movimentos aparentes e o pensamento, dos movimentos vistos podemos deduzir o pensamento, que não vemos. É assim que não nos enganaremos quanto à intenção de quem faz um gesto ameaçador ou amigável; que reconheceremos o modo de andar de um homem apressado e o do que não o é. De todos os músculos, os mais móveis são os da face; ali se refletem muitas vezes até os mais delicados matizes do pensamento. Eis por que, com razão, se diz que o rosto é o espelho da alma. Pela frequência de certas sensações, os músculos contraem o hábito dos movimentos correspondentes e acabam formando a ruga. A forma exterior se modifica, assim, pelas impressões da alma, de onde se segue que, dessa forma, algumas vezes se podem deduzir essas impressões, como do gesto podemos deduzir o pensamento. Tal é o princípio geral da arte ou, se se quiser, da ciência fisiognomônica. Este princípio é verdadeiro; não apenas se apoia sobre base racional, mas é confirmado pela observação, tendo Lavater a glória, se não de o haver descoberto, pelo menos de o ter desenvolvido e formulado em corpo de doutrina. Infelizmente, Lavater caiu no erro comum à maioria dos autores de sistemas, ou seja, a partir de um princípio verdadeiro sob certos pontos, concluírem por uma aplicação universal e, em seu entusiasmo por terem descoberto uma verdade, a vê-la por toda parte. Eis aí o exagero e, muitas vezes, o ridículo.
Não nos cabe examinar aqui o sistema de Lavater em seus detalhes: diremos apenas que tanto é ele consequente ao remontar do físico ao moral por certos sinais exteriores, quanto é ilógico ao atribuir um sentido qualquer às formas ou sinais sobre os quais o pensamento não pode exercer nenhuma ação. É a falsa aplicação de um princípio verdadeiro que muitas vezes o relega ao nível das crenças supersticiosas, e que leva a confundir na mesma reprovação os que veem certo e os que exageram.
Digamos, entretanto, para ser justo, que muitas vezes a falta é menos do mestre que dos discípulos que, em sua admiração fanática e irrefletida, por vezes levam as consequências de um princípio além dos limites do possível.
Agora, se examinarmos esta ciência nas suas relações com o Espiritismo, teremos de combater várias induções errôneas que dela poderiam ser tiradas. Entre as relações fisiognomônicas, existe principalmente uma sobre a qual a imaginação muitas vezes se exerceu: é a semelhança de algumas pessoas com certos animais.
Procuremos, então, buscar a causa.
A semelhança física entre os parentes resulta da consanguinidade que transmite, de um a outro, partículas orgânicas semelhantes[2], porque o corpo procede do corpo. Mas não poderia vir ao pensamento de ninguém supor que aquele que se parece com um gato, por exemplo, tenha nas veias o sangue de gato. Há, pois, uma outra causa. De início, pode ser fortuita e sem qualquer significação: é o caso mais comum. Todavia, além da semelhança física, nota-se por vezes uma certa analogia de inclinações. Isto poderia explicar-se pela mesma causa que modifica os traços da fisionomia. Se um Espírito ainda atrasado conserva alguns dos instintos do animal, seu caráter, como homem, terá esses traços, e as paixões que o agitam poderão dar a esses traços algo que lembre vagamente os do animal cujos instintos possui. Mas esses traços se apagam à medida que o Espírito se depura e o homem avança no caminho da perfeição.
Aqui, portanto, seria o Espírito a imprimir sua marca na fisionomia; mas da similitude dos instintos seria absurdo concluir que o homem, que tem os do gato, possa ser a encarnação do Espírito de um gato. Longe de ensinar semelhante teoria, o Espiritismo sempre demonstrou o seu ridículo e a sua impossibilidade. É verdade que se nota uma gradação contínua na série animal; mas entre o animal e o homem há uma solução de continuidade. Ora, mesmo admitindo, o que é apenas um sistema, que o Espírito tenha passado por todos os graus da escala animal, antes de chegar ao homem, haveria sempre, de um ao outro, uma interrupção que não existiria se o Espírito do animal pudesse encarnar-se diretamente no corpo do homem. Se assim fosse, entre os Espíritos errantes haveria os de animais, como há Espíritos humanos, o que não acontece.
Sem entrar no exame aprofundado desta questão, que discutiremos mais tarde, dizemos, conforme os Espíritos, que nisto estão de acordo com a observação dos fatos, que nenhum homem é a reencarnação do Espírito de um animal. Os instintos animais do homem decorrem da imperfeição de seu próprio Espírito, ainda não depurado e que, sob a influência da matéria, dá preponderância às necessidades físicas sobre as morais e sobre o senso moral, não ainda suficientemente desenvolvido. Sendo as mesmas as necessidades físicas no homem e no animal, necessariamente resulta que, até o senso moral estabelecer um contrapeso, pode haver entre eles uma certa analogia de instintos; mas aí se detém a paridade; o senso moral que não existe num, e que no outro germina e cresce incessantemente, estabelece entre eles a verdadeira linha de demarcação.
Uma outra indução não menos errônea é tirada do princípio da pluralidade das existências. Da sua semelhança com certas personagens, algumas concluem que podem ter sido tais personagens. Ora, do que precede, é fácil demonstrar que aí existe apenas uma ideia quimérica. Como dissemos, as relações consanguíneas podem produzir uma similitude de formas, mas não é este aqui o caso, pois Esopo pode ter sido mais tarde um homem bonito e Sócrates um belo rapaz. Assim, quando não há filiação corporal, só haverá uma semelhança fortuita, porquanto não há nenhuma necessidade para o Espírito habitar corpos parecidos e, ao tomar um novo corpo, não traz nenhuma parcela do antigo.
Entretanto, conforme o que dissemos acima, quanto ao caráter que as paixões podem imprimir aos traços, poder-se-ia pensar que, se um Espírito não progrediu sensivelmente e retorna com as mesmas inclinações, poderá trazer no rosto identidade de expressão. Isto é exato, mas seria no máximo um ar de família, e daí a uma semelhança real há muita distância. Aliás, este caso deve ser excepcional, pois é raro que o Espírito não venha em outra existência com disposições sensivelmente modificadas. Assim, dos sinais fisiognomônicos não se pode tirar absolutamente nenhum indício das existências anteriores. Só podemos encontrá-las no caráter moral, nas ideias instintivas e intuitivas, nas inclinações inatas, nas que não resultam da educação, assim como na natureza das expiações suportadas. E ainda isto só poderia indicar o gênero de existência, o caráter que se deveria ter, levando em conta o progresso, mas não a individualidade. (Vide O Livro dos Espíritos, números 216 e 217).




[1] Revista Espírita – Julho/1860 – Allan Kardec
[2] N. do T.: Kardec serviu-se das teorias científicas da época. Só em 1865 Mendel publicaria seus primeiros trabalhos de genética, enquanto a molécula de DNA, base da hereditariedade, nem sequer era sonhada.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

SEBASTIÃO LASNEAU[1]

 Lenine Brum Junqueira Passos, Ircema, Chico Xavier, Sebastião Lasneau e esposa

Nascido em Barra de Piraí, Estado do Rio de Janeiro, no dia 12 de novembro de 1900, e desencarnado na mesma cidade, no dia 30 de março de 1969.
Sebastião Lasneau era poeta, repentista e trocadilhista, fazia versos de improviso e qualquer motivo lhe sugeria um tema.
As Semanas Espíritas de várias cidades dos Estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Espírito Santo e outros, não estavam completas sem a sua presença. Dava expansão à rima e ao ritmo, registrando sempre a presença dos confrades espíritas em quadrinhas que recitava com muita verve (imaginação viva).
Seus pais foram Evilásio Antônio Lasneau e Etelvina Santos Lasneau. Iniciou sua vida profissional trabalhando em algumas empresas existentes nas cidades de Paracambi e Mendes (Estado do Rio de Janeiro), passando posteriormente a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil, onde permaneceu durante cerca de vinte anos, aposentando-se por invalidez. Nessa ocasião exercia as funções de cabineiro na Estação de Sant'Ana da Barra.
Lasneau casou-se em primeiras núpcias com Augusta Dias Lasneau e com ela conviveu durante cerca de sete anos, quando inesperadamente ficou viúvo, com dois filhos em tenra idade.
Algum tempo depois, casou-se, em segunda núpcias, com Olívia Lasneau, que se tornou mãe carinhosa para seus filhos e esposa dedicada durante trinta e seis anos.
Nenhum de seus biógrafos registrou o motivo pelo qual ele se tornou adepto do Espiritismo. Consta que, em 1944, ingressou no quadro social do Grêmio Espírita de Beneficência de Barra do Piraí, a cuja instituição dedicou a maior parte de sua vida. Foi eleito seu presidente na gestão de 1954, e vice-presidente em 1955, tendo cedido à causa espírita, todo o tempo que tinha disponível.
Passou por uma expiação dificílima: atacado de glaucoma, perdeu completamente a visão. Era diabético e sofria horrivelmente do fígado. Teve polinevrite[2] com dores lancinantes causadas pelo glaucoma. Acometido de todas essas enfermidades, jamais lamentava-se, rogando sempre a Deus para que lhe concedesse forças para lutar por um mundo melhor. Lançou mãos de todos os recursos que a Medicina da época lhe facultava, sem qualquer resultado positivo. Por fim, a conselho de amigos, foi a Caratinga (Minas Gerais), e, na Fazenda Eureka, de propriedade de confrades, submeteu-se a uma intervenção mediúnica, realizada por Espíritos materializados. Não conseguiu recuperar a visão, porém desapareceram todas as dores que sofria no globo ocular.
Além de poeta, foi excelente expositor de temas doutrinários do Espiritismo, tendo realizado apreciável tarefa no campo da divulgação doutrinária. Proferiu grande número de palestras em instituições espíritas do Estado do Rio de Janeiro. Aproveitava sempre o trajeto de suas viagens para elaborar quadrinhas primorosas, com temas evangélicos e doutrinários, a fim de brindar o público ouvinte.
Teve sempre a melhor boa vontade para com os novos poetas, a todos ensinando, corrigindo e incentivando. Escreveu o jornalista Dr. Agnelo Morato, da cidade de Franca (SP), numa crônica estampada no jornal "A Nova Era":
Foi extraordinário animador do movimento moço nas fileiras espíritas e seus versos representavam incontido estímulo e incentivo ao bom ânimo de todos os sofredores. Conhecia a matemática do tempo; na sua marcha milenar, vai pondo os dias sobre os dias, anos sobre anos, vida sobre vida, na sua eterna conta de somar.
Todo ele se expande em ritmos e sonoridade, revelando fé raciocinada, consolações que obteve ao abeberar-se na fonte de sabedoria espírita, um dos nossos melhores poetas e prosadores.
 
Com enorme dificuldade, conseguiu editar alguns livros de sua autoria, os quais tiveram os seguintes títulos: "Pôr do Sol", "Versos para Eva Musa", "Versos para a Mocidade", "Poemas de Barra do Piraí", "Espiritismo em Três-Rios", "Cancioneiros da Fraternidade", "Almas que Cantam" e "Quadras a Completar".
Deixou ainda alguns livros inéditos, intitulados: "Roseiral de Luz", "Eterna Canção", "Poemas das Origens", "Amizade Inter-Planos" e mais um sem-número de trabalhos, os quais, se colecionados, formariam outros tantos livros.
Sebastião Lasneau dedicou-se também ao jornalismo. Foi redator de vários jornais, inclusive do "Jornal do Povo", de Barra do Piraí. Escrevia crônicas e poesias, conforme se pode ver nas edições do jornal, referentes ao ano de 1941. Musicou alguns de seus versos e fez várias paródias espiritualizadas de músicas famosa da época, as quais eram muito cantadas nos movimentos de mocidade. Foi autor do "Hino do Cinquentenário de Barra do Piraí". Foi patrono do Ginásio Estadual "S. José". Recebeu o título de cidadão Guaraniense, na cidade de Guarani (Minas Gerais). Foi juiz de vários concursos de poesias, inclusive da lª CONJEB (I Confraternização de Mocidades Espíritas do Brasil), realizada em Marília (Estado de S. Paulo), certame levado a efeito no ano de 1965.
Após a sua desencarnação, como homenagem póstuma, foi eleito Patrono do "Círculo dos Missivistas Amigos", um movimento fraterno que promove a correspondência entre pessoas livres e encarceradas, em todo o Brasil. Participou também de vários concursos, em jogos florais, realizados na cidade de Taubaté (SP), Nova Friburgo (RJ) e outras cidades, ganhando inúmeros certificados.
Sebastião Lasneau foi, portanto, um dos grandes vultos espíritas, cuja obra teve por cenário numerosas cidades do Estado do Rio de Janeiro e de outros Estados da região Centro-Sul do Brasil, fazendo-o através de uma participação efetiva e constante, em todas as grandes realizações que eram efetuadas em prol da divulgação da Doutrina dos Espíritos, tornando-se, por isso, uma personalidade querida e requisitada por todos.




[1] Personagens do Espiritismo - Antônio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy
[2] Infecção ou afecção degenerativa que ataca diversos nervos periféricos. = POLINEURITE