terça-feira, 29 de agosto de 2023

UM CURA MÉDIUM CURADOR[1]

 


Allan Kardec

 

Um dos nossos assinantes do Departamento dos Hautes-Alpes escreve-nos o seguinte:

 

Desde algum tempo se fala muito, no vale do Queyras, de um vigário que, sem estudos médicos, cura uma multidão de pessoas de várias afecções. Há muito tempo que age assim, e dizem que augustas personagens o consultaram, quando era chefe de outra paróquia nos Basses-Alpes. Suas curas tinham dado que falar, e dizem que, por punição, fora enviado como Cura a La Chalpe, comuna vizinha de Abriès, na fronteira do Piemonte. Lá continuou a ser útil à Humanidade, aliviando e curando, como no passado.

Para os espíritas isto nada tem de admirável. Se vos falo do caso é porque no vale do Queyras, como alhures, ele faz muito barulho. Como todos os médiuns curadores sérios, nunca aceita nada. Segundo me disseram, S. M. a Imperatriz herdeira da Rússia lhe teria oferecido várias notas de banco, que ele recusou, rogando que as pusesse na caixa de esmolas, caso as quisesse dar para sua Igreja.

Um outro indivíduo colocou um dia, disfarçadamente, uma moeda de vinte francos entre os seus papéis; quando ele o percebeu, fê-lo voltar, sob pretexto de novas indicações a lhe dar, e lhe devolveu o seu dinheiro.

Uma porção de pessoas fala dessas curas de visu; outras não acreditam. Sei do fato através de pessoas que são as menos convenientes.

Tinham denunciado o Cura por exercício ilegal da Medicina; dois policiais se apresentaram em sua casa para levá-lo à autoridade.

Ele lhes disse:

Eu vos seguirei; mas, um instante, por favor, porque não comi. Almoçai comigo e me vigiareis.

Durante a refeição, ele disse a um dos policiais:

Estais doente.

Doente? Agora nem tanto; há três meses, nada digo.

Pois bem! Sei o que tendes; e, se quiserdes, posso curar-vos já, se fizerdes o que eu disser.

Negociaram e a proposta foi aceita.

O Cura mandou suspender o policial pelos pés, de modo que suas mãos tocassem a terra e o sustentassem; colocou sob sua cabeça uma tigela de leite quente e lhe administrou o que se chama uma fumigação de leite. Ao cabo de alguns minutos, uma cobrinha, dizem uns, um grande verme, segundo outros, cai na tigela. Reconhecido, o policial pôs a cobra numa garrafa e conduziu o cura ao magistrado, ao qual explicou o seu caso, após o que o Cura foi posto em liberdade.

 

Eu teria desejado muito ver esse Cura, acrescenta o nosso correspondente, mas a neve de nossas montanhas torna os caminhos muito difíceis nesta estação; sou obrigado a me contentar com as informações que vos transmito. A conclusão de tudo isto é que esta faculdade se desenvolve e os exemplos se multiplicam. Na comuna que vos cito, e em nosso vale, isto produz um grande efeito. Como sempre, uns dizem: Charlatão; outros, demônio; outros ainda, feiticeiro. Mas os fatos aí estão, e não pude perder a ocasião para dizer a minha maneira de pensar, explicando que os fatos desse gênero nada têm de sobrenatural, nem de diabólico, como se têm visto milhares de exemplos, desde os tempos mais remotos, e que é um modo de manifestação do poder de Deus, sem que haja derrogação de suas leis eternas.



[1] Revista Espírita – abril/1869 – Allan Kardec

sábado, 26 de agosto de 2023

O VALOR DA ORAÇÃO[1]

 


Ramiro Gama

 

A madrinha do Chico, por vezes, passava tempos entregue a obsessão.

Assim é que, nessas fases, a exasperação dela era mais forte.

Em algumas ocasiões, por isso, condenava o menino a vários dias de fome.

Certa feita, já fazia três dias que a criança permanecia em completo jejum.

À tarde, na hora da prece, encontrou a mãezinha desencarnada que lhe perguntou o motivo da tristeza com a qual se apresentava.

— Então, a senhora não sabe — explicou o Chico — tenho passado muita fome.

— Ora, você está reclamando muito, meu filho! — disse Dona Maria João de Deus — menino guloso tem sempre indigestão.

— Mas hoje bem que eu queria comer alguma coisa...

A mãezinha abraçou-o e recomendou:

— Continue na oração e espere um pouco.

O menino ficou repetindo as palavras do Pai Nosso e daí a instantes um grande cão da rua penetrou o quintal.

Aproximou-se dele e deixou cair da bocarra um objeto escuro.

Era um jatobá saboroso...

Chico recolheu, alegre, O pesado fruto, ao mesmo tempo que reviu a mãezinha ao seu lado, acrescentando.

— Misture o jatobá com água e você terá um bom alimento.

E, despedindo-se da criança, acentuou:

— Como você observa, meu filho, quando oramos com fé viva até um cão pode nos ajudar, em nome de Jesus.



[1] Lindos Casos de Chico Xavier – Ramiro Gama

sexta-feira, 25 de agosto de 2023

DOAÇÃO DE ÓRGÃOS E TRANSPLANTES NUMA PERSPECTIVA CRISTÃ[1]

 


Jorge Hessen

 

Nas práticas médicas de todas as especialidades, o transplante de órgãos é a que demonstra com maior clareza a estreita relação entre a morte e a nova vida, o renascimento das cinzas como Fênix: o mitológico pássaro símbolo da renovação do tempo e da vida após a morte[2].

A temática "doação de órgãos e transplantes" é bastante coetânea no cenário terreno. Sobre o assunto as informações instrutivas dos Benfeitores Espirituais não são abundantes. O instigante Projeto Genoma, as investigações sobre células-tronco embrionárias e outras sinalizam o alcance da ciência humana.

Os transplantes, em épocas recuadas repletas de casos de rejeição, tornaram-se práticas hodiernas de recomposição orgânica. O esmero "in-vivo" de experiências visando à regeneração de células e a perspectiva de melhoria de vida caminham adiante, em que pesem as pesquisas ensaiarem, ainda, as iniciantes marchas. Isso torna auspiciosa a expectativa da ciência contemporânea.

Contudo, o receio do desconhecido paira no imaginário de muitos. Alguns espíritas recusam-se a autorizar, em vida, a doação de seus próprios órgãos após o desencarne, alegando que Chico Xavier não era favorável aos transplantes.

Isso não é verdade! Forçoso esclarecer que Chico Xavier, quando afirmou "a minha mediunidade, a minha vida, dediquei à minha família, aos meus amigos, ao povo. A minha morte é minha. Eu tenho este direito. Ninguém pode mexer em meu corpo; ele deve ir para a mãe Terra", fê-lo porque quando ainda encarnado Chico recebeu várias propostas [impróprias] para que seu cérebro fosse estudado após sua desencarnação. Daí o compreensível receio de que seu corpo fosse profanado nesse sentido.

Não podemos esquecer que, se hoje somos potenciais doadores, amanhã poderemos ser ou nossos familiares e amigos potenciais receptores.

Para a maioria das pessoas, a questão da doação é tão remota e distante quanto à morte. Mas para quem está esperando um órgão para transplante, ela significa a única possibilidade de vida![3]

Joanna de Ângelis, sabendo dessa importância, ressalta:

(...) Verdadeira bênção, o transplante de órgãos concede oportunidade de prosseguimento da existência física, na condição de moratória, através da qual o Espírito continua o périplo orgânico. Afinal, a vida no corpo é meio para a plenitude - que é a vida em si mesma, estuante e real[4]

Em entrevista à TV Tupi em agosto de 1964, Chico Xavier comenta que o transplante de órgãos, na opinião dos Espíritos sábios, é um problema da ciência muito legítimo, muito natural e deve ser levado adiante. Os Espíritos, segundo o médium de Uberaba, não acreditam que o transplante de órgãos seja contrário às leis naturais. Pois é muito natural que, ao nos desvencilharmos do corpo físico, venhamos a doar os órgãos prestantes a companheiros necessitados deles, que possam utilizá-los com proveito[5].

A doação de órgãos para transplantes é perfeitamente legítima. Divaldo Franco certifica: se a misericórdia divina nos confere uma organização física sadia, é justo e válido, depois de nos havermos utilizado desse patrimônio, oferecê-lo, graças às conquistas valiosas da ciência e da tecnologia, aos que vieram em carência a fim de continuarem a jornada[6].

Não há, também, reflexos traumatizantes ou inibidores no corpo espiritual, em contrapartida à mutilação do corpo físico. O doador de olhos não retornará cego ao Além. Se assim fosse, que seria daqueles que têm o corpo consumido pelo fogo ou desintegrado numa explosão?[7]

Quando se pode precisar que uma pessoa esteja realmente morta? Conforme a American Society of Neuroradiology,

a morte encefálica é o estado irreversível de cessação de todo o encéfalo e funções neurais, resultante de edema e maciça destruição dos tecidos encefálicos, apesar de a atividade cardiopulmonar poder ser mantida por avançados sistemas de suporte vital e mecanismo de ventilação[8].

A grande celeuma do assunto é a morte encefálica, na vigência da qual órgãos ou partes do corpo humano são removidos para utilização imediata em enfermos deles necessitados. Estar em morte encefálica é estar em uma condição de parada definitiva e irreversível do encéfalo, incompatível com a vida e da qual ninguém jamais se recupera[9].

Havendo morte cerebral, verificada por exames convencionais e também apoiada em recursos de moderna tecnologia, apenas aparelhos podem manter a vida vegetativa, por vezes por tempo indeterminado.

É nesse estado que se verifica a possibilidade do doador de órgãos "morrer" e só então seus órgãos podem ser aproveitados – já que órgãos sem irrigação sanguínea não servem para transplantes. Seria a eutanásia? Evidentemente que caracterizar o fato como tal carece de argumentação científica (...) para condenarem o transplante de órgãos: a eutanásia de modo algum se encaixaria nesses casos de morte encefálica comprovada9.

A medicina, no mundo todo, tem como certeza que a morte encefálica, que inclui a morte do tronco cerebral[10], só terá constatação através de dois exames neurológicos, com intervalo de seis horas, e um complementar. Assim, quando for constatada cessação irreversível da função neural, esse paciente estará morto, para a unanimidade da literatura médica.

Questão que também amiudemente é levantada é a rejeição do organismo após a cirurgia. Chico Xavier novamente nos vem ao auxílio, explicando:

André Luiz considera a rejeição como um problema claramente compreensível, pois o órgão do corpo espiritual está presente no receptor. O órgão perispiritual provoca os elementos da defensiva do corpo, que os recursos imunológicos em futuro próximo, naturalmente, vão sustar ou coibir[11].

Especialistas, a partir 1967, desenvolveram várias drogas imunossupressoras (ciclosporina, azatiaprina e corticoides), para reduzir a possibilidade de rejeição, passando então os receptores de órgãos a ter uma maior sobrevida[12].

Estatisticamente, o que há é que a taxa de prolongamento de vida dos transplantados é extremamente elevada. Isso graças não só às técnicas médicas, sempre se aperfeiçoando, mas também pelos esquemas imunossupressores que se desenvolveram e se ampliaram consideravelmente, existindo atualmente esquemas que levam a zero por cento (0%) a rejeição celular aguda na fase inicial do transplante, que é quando ocorrem[13].

André Luiz explica que quando a célula é retirada da sua estrutura formadora, no corpo humano, indo laboratorialmente para outro ambiente energético, ela perde o comando mental que a orientava e passa, dessa forma, a individualizar-se; ao ser implantada em outro organismo [por transplante, por exemplo], tenderá a adaptar-se ao novo comando [espiritual] que a revitalizará e a seguir coordenará sua trajetória[14].

Condição essa corroborada por Joanna de Ângelis quando expõe:

(...) transferido o órgão para outro corpo, automaticamente o perispírito do encarnado passa a influenciá-lo, moldando-o às suas necessidades, o que exigirá do paciente beneficiado a urgente transformação moral para melhor, a fim de que o seu mapa de provações seja também modificado pela sua renovação interior, gerando novas causas desencadeadoras para a felicidade que busca e talvez ainda não mereça[15].

Os Espíritos afirmaram a Kardec que o desligamento do corpo físico é um processo altamente especializado e que pode demorar minutos, horas, dias, meses[16]. Embora com a morte física não haja mais qualquer vitalidade no corpo, ainda assim há casos em que o Espírito, cuja vida foi toda material, sensual, fica jungido aos despojos, pela afinidade dada por ele à matéria[17].

Todavia, recordemos a situação que ocorre todos os dias nas grandes cidades: a prática da necropsia, exigida por força da Lei, nos casos de morte violenta ou sem causa determinada: abre-se o cadáver, da região esternal até o baixo ventre, expondo-se-lhe as vísceras toracoabdominais[18].

Não se pode perder de vista a questão do mérito individual. Estaria o destino dos Espíritos desencarnados à mercê da decisão dos homens em retirar-lhes os órgãos para transplante, em cremar-lhes o corpo ou em retalhar-lhes as vísceras por ocasião da necrópsia?! O bom senso e a razão gritam que isso não é possível, porquanto seria admitir a justiça do acaso e o acaso não existe![19]

Em síntese, a doação de órgãos para transplantes não afetará o espírito do doador, exceto se acreditarmos ser injusta a Lei de Deus e estarmos no Orbe à deriva da Sua Vontade. Lembremos que nos Estatutos do Pai não há espaço para a injustiça e o transplante de órgãos (façanha da ciência humana) é valiosa oportunidade dentre tantas outras colocadas à nossa disposição para o exercício do amor.



[1] O CONSOLADOR - Ano 17 - N° 837 - 20 de Agosto de 2023 - http://www.oconsolador.com.br/ano17/837/especial.html

[2] Mário Abbud Filho Ex-Presidente da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos. Presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia de São José do Rio Preto. Membro da American Society Transplant Physician. Membro da International Transplantation Society, disponível acesso em 12/04/2005

[3] In Doação de Órgãos e Transplantes, de Wlademir Lisso / Cleusa M. Cardoso de Paiva, disponível acesso em 15/04/2004.

[4] Franco, Divaldo Pereira. Dias Gloriosos, ditado pelo Espírito Joanna de Angelis. Salvador/Ba: Ed. LEAL, 1999, Cf. Cap. Transplantes de Órgãos.

[5] Publicada na Revista Espírita, Allan Kardec, ano X, n°38.

[6] Franco, Divaldo Pereira. Seara de Luz, Salvador: Editora LEAL [o livro apresenta uma série de entrevistas ocorridas com Divaldo entre 1971 e 1990].

[7] Simonetti, Richard. Quem tem medo da morte? - São Paulo /SP: Editora Lumini ,2001.

[8] In: "Dos transplantes de Órgãos à Clonagem", de Rita Maria P. Santos, Ed. Forense, Rio/RJ, 2000, p. 41.

[9] Bezerra, Evandro Noleto. Transplante de Órgãos na Visão Espírita, publicado na Revista Reformador- outubro/1998.

[10] O tronco cerebral, e não o coração, é reconhecido como o organizador e "comandante" de todos os processos vitais. Nele está alojada a capacidade neural para a respiração e batimentos cardíacos espontâneos; sem tronco ninguém respira por si só.

[11] Cf. Revista Espírita Allan Kardec, ano X, n°38.

[12] Folha de S. Paulo, A3, "Opinião", 15 de maio de 2001.

[13] Entrevista com o Prof. Dr. Flávio Jota de Paula Médico da Unidade de Transplante Renal do HC/FMUSP. 1º Secretário da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO). Diretor da I Mini Maratona de Transplantados de Órgãos do Brasil. Publicado em Prática Hospitalar ano IV n º 24 nov-dez/2002.

[14] Xavier, Francisco Cândido. Evolução em dois mundos - Ditado pelo Espírito André Luiz. 5ª Ed. Rio de Janeiro, RJ: Ed FEB, 1972, cap. "Células e Corpo Espiritual".

[15] Franco, Divaldo Pereira. Dias Gloriosos, ditado pelo Espírito Joanna de Angelis. Salvador: Ed. LEAL, 1999.

[16] Kardec, Allan. O Livro dos Espíritos, RJ: Ed FEB/2003, questão n° 155, Cap. XI.

[17] Kühl Eurípedes DOAÇÃO DE ÓRGÃOS TRANSPLANTES Entrevista Virtual disponível acesso em 24/04/2005.

[18] Cf. Bezerra, Evandro Noleto. Transplante de Órgãos na Visão Espírita, publicado na Revista Reformador- outubro/1998.

[19] Bezerra, Evandro Noleto. Transplante de Órgãos na Visão Espírita, publicado na revista Reformador- outubro/1998.

quinta-feira, 24 de agosto de 2023

A MISSÃO DA PALAVRA[1]

 


Miramez

 

Pois que o Espírito é, em si, alguma coisa, não seria mais exato e menos sujeito a confusão dar aos dois elementos gerais as designações de matéria inerte e matéria inteligente?

As palavras pouco nos importam. Compete-vos a vós formular a vossa linguagem de maneira a vos entenderdes. As vossas controvérsias provêm, quase sempre, de não vos entenderdes acerca dos termos que empregais, por ser incompleta a vossa linguagem para exprimir o que não vos fere os sentidos.

 

Um fato patente domina todas as hipóteses: vemos matéria destituída de inteligência e vemos um princípio inteligente que independe da matéria. A origem e a conexão destas duas coisas nos são desconhecidas. Se promanam ou não de uma só fonte; se há pontos de contacto entre ambas; se a inteligência tem existência própria, ou se é uma propriedade, um efeito; se é mesmo, conforme à opinião de alguns, uma emanação da Divindade, ignoramos.

Elas se nos mostram como sendo distintas; daí o considerarmo-las formando os dois princípios constitutivos do Universo. Vemos acima de tudo isso uma inteligência que domina todas as outras, que as governa, que se distingue delas por atributos essenciais. A essa inteligência suprema é que chamamos Deus.(Allan Kardec)

Questão 28/O Livro dos Espíritos

 

Aconselhamos ao leitor reler, antes de iniciar esta leitura, o sábio comentário de Allan Kardec referente à pergunta número vinte e oito, para que tenha força para acalmar o impulso de saber, até onde deve ser alcançado, porque neste rumo das revelações não temos outra coisa a dizer além daquilo que ele expõe, inspirado nas mais altas forças de vida. É bom, e muito bom, que o coração ajude a palavra, inspirando-a na sua grande missão de falar construindo, e construir falando certo.

O verbo que o homem já domina com certa facilidade, seu filho de longa data, educado na boca do sábio, tem a missão junto a todos os seus recursos, de aprofundar-se nos segredos da natureza e fazer os mesmos homens compreenderem as belezas da criação, porém, é de ordem comum entre as coisas de Deus, que ele fale com toda a simplicidade, sem esquecer a clareza dos princípios.

A missão da palavra é sublimada, desde quando temos outros sentidos desenvolvidos para compreendê-la. Para tanto, o nosso dever é educá-la, naquela escola cujo Mestre maior é Nosso Senhor Jesus Cristo. Com Ele a palavra atingiu os cimos da evolução, coroando, com a mais alta condecoração espiritual, o verbo, ao falar como o fez, quando da Sua estada divina junto a nós, da mais elevada virtude vivenciada nos caminhos da Terra: o Amor.

A sabedoria de Deus confunde o raciocínio humano. A essência divina, ao sair da sua pureza lirial, da sua unidade absoluta e indivisível, torna-se díade, manifestando-se em tudo com todos os valores correspondentes às suas mutações, para melhor servir, pela força e claridade do progresso. A razão é pobre para explicar os segredos do Criador. A evolução tem o poder de transformar a inteligência em sentido altamente dominante, na arte de conhecer. Dentro de nós existem, como sabemos, os talentos divinos, que são favos de luz colocados na nossa consciência pelo Senhor. Cada vez que são despertados - na expressão filosófica denominada Evolução - nos mostram rumos novos da sabedoria.

Deus, na conveniência de Sua sabedoria, houve por bem criar inúmeras divisões na construção da casa universal. Cabe a nós outros estudarmos todos os princípios da sabedoria e procurarmos, com humildade, a obediência às leis naturais, que regem e sustentam toda a criação divina. Perder tempo com discussões sem sentido educativo é forçar o inconveniente a transformar-se em ignorância. Se ainda não entendemos o que almejamos conhecer, é bom guardarmos serenidade, e esperarmos a oportunidade, que o arcano do tempo tudo nos revelará no momento preciso, quando as nossas forças suportarem o impacto da verdade.

Tudo que existe obedece a uma sequência estabelecida pela harmonia. A matéria que tanto estudamos tem sua vida própria sob a influência do Espírito, e o Espírito vive na atmosfera de Deus. A independência é, pois, até certo ponto, de concordância e as afinidades congênitas é que nos garantem a vida, na vida de Deus.

Existe algo de divino dentro da matéria e outro tanto vibrando no Espírito, que por enquanto desconhecemos. Até para os grandes benfeitores - pelo menos é o que ouvimos deles - Deus é um segredo absoluto. Não podemos decifrá-lo, por faltar em nós as qualidades de um deus.



[1] Filosofia Espírita – Volume 1 – João Nunes Maia

quarta-feira, 23 de agosto de 2023

HARRY PRICE[1]

 


John Fraser

 

Harry Price (1881-1948) foi um investigador paranormal britânico. Ele era uma figura enérgica e controversa, bem conhecido do público por inúmeras investigações de alto nível sobre assombrações e outros fenômenos psíquicos. No entanto, sua propensão à publicidade e sua reputação de não confiável o colocaram em conflito com outros pesquisadores.

 

Origens

Tal como acontece com muito sobre Harry Price, suas origens são uma questão controversa. Ele se referia a si mesmo como um 'rapaz de Shropshire'[2] e, de acordo com seu executor literário, nasceu na cidade de Shrewsbury, em Shropshire[3], embora pareça nunca ter dito isso explicitamente. Parece provável que a conexão com Shropshire fosse a família de seu pai; ele próprio nasceu em Holborn, então um bairro pobre de Londres. Aparentemente, ele desejava obscurecer suas origens da classe trabalhadora[4].

 

Investigações iniciais

Um interesse precoce em conjuração levou Price a estudar os truques usados ​​por alguns médiuns de sessões espíritas, e isso o introduziu no campo da pesquisa psíquica[5]. Em tenra idade, tornou-se membro do Magic Circle e, a partir de 1921, foi bibliotecário honorário do exclusivo clube de mágicos[6].  Aqui ele fez contatos importantes, incluindo Eric Dingwall, que mais tarde realizou investigações em nome da Society for Psychical Research - SPR[7]. Ele também conheceu o mágico de palco Harry Houdini, com quem compartilhava um profundo interesse tanto em colecionar livros sobre magia quanto em pesquisas psíquicas[8].

A primeira intervenção significativa de Price foi expor a trapaça de um conhecido fotógrafo de 'espíritos' chamado William Hope, co-publicando com Dingwall um livro fac-símile The Revelations of a Sprit Medium (1922)[9]. Isso levou os dois homens a serem convidados por um pesquisador alemão, Albert Schrenck-Notzing, para acompanhá-lo no estudo de dois jovens médiuns austríacos, Willy e Rudi Schneider, cujos efeitos Price achou impressionantes. Em 1923, ele testou a médium Stella Cranshaw em condições controladas, observando, entre outros efeitos, uma mesa de madeira que se movia sozinha a comandos falados e uma queda repentina e anômala de temperatura[10]. Seu livro sobre Cranshaw chamou a atenção do público[11].

Price inicialmente se envolveu com a SPR como membro, mas foi tratado com desconfiança por membros seniores, que foram alienados por sua defesa do espiritismo[12]. Alguns também eram antagônicos às suas origens de classe baixa e falta de educação universitária[13]. Com suas ambições na SPR bloqueadas, Price procurou a London Spiritualist Alliance - LSA, em cujas instalações ele havia realizado seus experimentos com Stella Cranshaw, para ver se ela acomodaria uma nova organização que investigaria objetivamente médiuns e outros fenômenos. A LSA aceitou a proposta em 1925 e foi criado o Laboratório Nacional de Pesquisas Psíquicas, com Price como diretor honorário. O patrocínio de crentes convictos foi compensado pelo envolvimento de respeitados pesquisadores científicos psi, incluindo Schrenck-Notzing da Alemanha, Eugene Osty da França e Christian Winther da Dinamarca.

Um laboratório e uma sala de sessões foram montados, separados por uma pequena 'câmara defletora' para impedir o vazamento de luz ou som durante os experimentos; outras salas eram uma oficina, quarto escuro e escritório[14]. O equipamento de laboratório incluía (entre muitos, outros itens):

§  eletroscópios, para detectar a magnitude da carga elétrica em um corpo

§  barógrafos, para registrar continuamente a pressão atmosférica

§  termógrafos, para fazer leituras contínuas de temperaturas.

Esta foi a primeira vez que um laboratório tão sofisticado foi instalado na Grã-Bretanha para fins de pesquisa psíquica. Como seria visto na investigação de Price em 1929 sobre Rudi Schneider, instrumentos relativamente complexos poderiam ser usados ​​para estabelecer o controle de um meio[15].  Sua inauguração foi recebida com considerável publicidade na mídia. Em dois anos, a organização conquistou 995 membros, garantindo fundos suficientes para funcionar[16].

Price mais tarde reorganizou seu laboratório como o Conselho da Universidade de Londres para Investigação Psíquica. Embora nunca tenha feito parte oficialmente da Universidade de Londres, foi auxiliado por vários de seus acadêmicos e representou a primeira tentativa de vincular a pesquisa paranormal à ciência dominante[17]. Em 1937, a Universidade de Bonn ofereceu a Price a oportunidade de criar um departamento universitário de pesquisa psíquica, mas ele recusou, provavelmente devido à deterioração da situação política na Alemanha na época.

 

Investigações posteriores

Price foi um pesquisador de campo ativo, envolvendo-se em episódios como o poltergeist de Battersea (1928) e a assombração de Cashens' Gap (1935)[18].  A gama de seus interesses em fenômenos anômalos foi demonstrada por seus testes com os firewalkers Kuda Bux e Ahmed Hussain, que demonstraram que o efeito não era devido a truques ou poderes paranormais[19]. Depois de 1929, ele se envolveu em uma longa investigação sobre uma assombração na Reitoria de Borley, em Essex, tema do livro best-seller The Most Haunted House in England[20]. Em 1937, Price alugou o prédio como inquilino e publicou um guia para observadores independentes, provavelmente a primeira vez que instruções detalhadas foram produzidas para investigar uma assombração[21]. 

 

Crítica e controvérsia

Price era um talentoso autopropagandista com um olho astuto para o que atrairia a publicidade da mídia. Por exemplo, quando ele realizou experimentos de caminhada sobre o fogo, ele usou não apenas carvão, mas também papel na forma de cinquenta exemplares do The Times, um gesto que o jornal retribuiu ao divulgar generosamente o experimento[22]. 

Mas Price era frequentemente criticado por conduzir investigações de episódios espúrios apenas para atrair publicidade. Um exemplo é o caso de um 'mangusto falante' que se apresentou na casa da família Irving na Ilha de Man, embora essa alegação aparentemente trivial possa de fato ter merecido exame como um possível caso de comunicação do tipo poltergeist. Price levou isso a sério, apenas para apontar em sua visita que os painéis de madeira e a construção incomum do prédio o tornavam "um grande tubo de fala"[23], uma base para autoengano ou possível fraude.

Ainda menos defensável aos olhos dos críticos de Price foi o Brocken Experiment de 1932, uma excursão à Alemanha acompanhada pelo filósofo Cyril Joad para testar um antigo ritual para transformar uma cabra em "um jovem de beleza incomparável". A zombaria dos colegas cientistas pegou Price de surpresa, já que o passeio havia sido planejado como um entretenimento e não como um experimento sério[24], do tipo que também tem sido encenado nos últimos tempos[25].

Críticas mais sérias foram dirigidas a Price em relação ao caso Borley Rectory. Uma investigação aprofundada de suas alegações pela Society for Psychical Research encontrou falhas consideráveis ​​em seus métodos e conclusões. Em particular, a controvérsia ligada ao detalhe de um tijolo voador, que foi atribuído por Price ao trabalho de um poltergeist, mas que um jornalista que era ele na época considerou mais provável ter sido jogado por um dos trabalhadores presentes no site[26]. Um colega de Price, membro de seu Laboratório Nacional, declarou após uma visita: "Embora não tivesse certeza, deixei Borley com a suspeita definitiva de que o Sr. Price poderia ser responsável por pelo menos alguns dos fenômenos"[27].

Price aumentou a reputação de desconfiança com alegações surpreendentes de que havia pego Rudi Schneider, o médium austríaco que ele endossou após uma série de sessões investigativas em 1929-30, depois falsificando alguns efeitos. Price publicou uma fotografia de uma sessão em 1932 que, segundo ele, mostrava Schneider fazendo movimentos suspeitos. Um exame aprofundado por um pesquisador da SPR não encontrou nenhuma base para isso e concluiu que uma combinação de ciúme e irritação contra seu ex-protegido motivou Price a fazer falsas acusações[28].

Price é creditado até mesmo pelos críticos por ter introduzido procedimentos científicos modernos na investigação paranormal, ajudando a descobrir explicações racionais em casos que de outra forma poderiam ser considerados paranormais. Sua personalidade extravagante também ajudou a levar o campo da pesquisa psíquica a um público muito maior do que o dos intelectuais de classe alta que dominavam o campo na Grã-Bretanha[29]. 

Não há dúvida de que Price era um personagem ambicioso e às vezes abrasivo, que era apreciado e odiado em igual medida. O autor Richard Morris resume Price como "um blefador supremo, um vigarista hedonista, um contador de histórias fantástico, um grande ilusionista, um escritor talentoso e um excêntrico maravilhoso"[30]. Trevor H. Hall foi menos positivo, afirmando: 'A montagem de sua coleção de livros foi... a realização mais útil de Price durante sua vida'[31]. Em contraste, o veterano parapsicólogo americano Hereward Carrington considerou sua contribuição à pesquisa psíquica 'inestimável', expressando a esperança de que após sua morte 'personalidades serão agora desconsideradas e seu trabalho doravante receberá a apreciação que, em minha opinião, merece'[32].

 

Literatura

§  Adams Paul & Eddie Brazil  ‘The Harry Price Website’ in:

§   http://www.harrypricewebsite.co.uk/Seance/Schneider/schneider-fodor.htm (retrieved Mar,15 2015).

§  Dingwall, Eric, Goldney Kathleen & Hall, Trevor. H. (1956). The Haunting of Borley Rectory - A Critical Survey of the Evidence (London: SPR) p. 163.

§  Hall, Trevor (1978).  Search for Harry Price (London, Great Duckworth & Co).

§  Gregory, Anita 1985). The Strange Case of Rudi Schneider (Metuchen and London: Scarecrow).

§  Marks, Kathy (14th Feb 2008). ‘The Ghost Ship that Refused to Come back from the Dead‘. The Independent.

§  Morris, Richard (2006). Harry Price – The Psychic Detective (Stroud: Sutton Publishing).

§  Price, Harry (1925). Stella C . An Account of Some Original Experiments in Psychical Research (London: Hurst & Blacket).

§  Price , Harry (1926) ‘A Model Psychic in:

§  http://www.harrypricewebsite.co.uk/Seance/Laboratory/model-lab-price.htm (retrieved 15th March 15 2015).

§  Price , Harry (1936.) The Haunting of Cashens Gap: A modern 'miracle' investigated (London Methuen & Co).

§  Price, Harry (1937). The Alleged Haunting of Borley Rectory. Instructions for Observers (London: University of London Council for Psychic investigation).

§  Price, Harry (1940). The Most Haunted House in England : Ten years investigation of Borley Rectory (London: Longman, Green & Co).

§  Price, Harry (1942) Search for Truth (London: Collins).

§  Tabori, Paul ‘(1950/1974). Harry Price Ghost Hunter (London: Sphere Books).

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Price, 1942, cap. 1.

[3] Tabori, 1950/1974, p. 28.

[4] Morris, 2006.

[5] Tabori, 1950/1974, p. 41.

[6] Tabori, 1950/1974, p. 41.

[7] Morris, 2006, p. 45.

[8] Morris, 2006, p. 46.

[9] Morris, 2006, p. 46.

[10] Tabori, 1950/1974, pp. 83-84.

[11] Price, 1925.

[12] Morris, 2006, p. 78.

[13] Morris, 2006, p. 78.

[14] Price, 1926,

[15] Adams & Brasil, 2015.

[16] Morris, 2006, p. 78.

[17] Tabori, 1950/1974, pp. 153-54.

[18] Price, 1936.

[19] Tabori, 1950/1974, pp. 192-195.

[20] Price, 1940.

[21] Price, 1937.

[22] Tabori, 1950/1974, p. 192.

[23] Price, 1936, pág. 96.

[24] Morris, 2006, p. 157.

[25] Marcos, 2008.

[26] Dingwall, Goldney & Hall, 1956, pág. 163.

[27] Morris, 2006, pp. 127-128.

[28] Gregório, 1985.

[29] Morris, 2006, p. 213.

[30] Morris, 2006, p. 213.

[31] Salão, 1978.

[32] Tabori, 1950/1974, p. 283.