terça-feira, 25 de abril de 2023

ISOLAMENTO DOS CORPOS PESADOS[1]

 


Allan Kardec

 

O movimento imprimido aos corpos inertes pela vontade é hoje de tal forma conhecido que seria quase pueril relatar fatos desse gênero; já o mesmo não acontece quando o movimento se faz acompanhar de certos fenômenos menos vulgares, por exemplo, o de sua suspensão no espaço. Embora os anais do Espiritismo citem numerosos exemplos, esse fenômeno apresenta uma tal derrogação das leis da gravidade que a dúvida parece muito natural a quem quer que os tenha testemunhado. Nós mesmos, confessamos, por mais habituados que estejamos às coisas extraordinárias, ficamos bem contentes em constatar-lhe a realidade. O fato que vamos narrar repetiu-se várias vezes sob nossos olhos, nas reuniões que outrora aconteciam na casa do Sr. B***, na Rua Lamartine, e sabemos que se produziu inúmeras vezes em outros lugares. Podemos, pois, atestá-lo como incontestável. Eis como as coisas se passavam:

 

Oito ou dez pessoas, entre as quais algumas dotadas de um poder especial, embora não fossem reconhecidas como médiuns, sentavam-se em torno de uma pesada e maciça mesa de jantar, com as mãos às suas bordas e unidas, todas, pela intenção e pela vontade.

Ao fim de um tempo mais ou menos longo, dez minutos ou um quarto de hora, conforme fossem as disposições, ambientes mais ou menos favoráveis, a mesa se punha em movimento, a despeito de seu peso de quase cem quilos; deslizava para a direita ou para a esquerda no assoalho; dirigia-se para diversas partes do salão que fossem designadas; levantava-se depois, ora num pé, ora noutro, até formar um ângulo de 45°; e balançava com rapidez, imitando o movimento de baloiço do navio. Se, em tal posição, os assistentes redobrassem os esforços por sua vontade, a mesa se levantaria completamente do solo, a dez ou vinte centímetros de altura, sustentando-se, dessa forma, no espaço sem qualquer ponto de apoio, durante alguns segundos, para cair em seguida com todo o seu peso.

O movimento da mesa, seu levantamento sobre um pé e seu baloiço produziam-se mais ou menos à vontade, várias vezes durante a reunião, e também por diversas vezes sem nenhum contato das mãos; bastava somente a vontade para que a mesa se dirigisse ao lado indicado. O isolamento completo era mais difícil de obter, sendo repetido amiúde, a fim de não ser visto como um fato excepcional.

Ora, isso não se passava apenas na presença dos adeptos, que se poderia crer muito acessíveis à ilusão, mas diante de vinte ou trinta pessoas, entre as quais se achavam algumas muito pouco simpáticas, que não deixariam de levantar a suspeita de alguma artimanha secreta, sem consideração para com o dono da casa, cujo caráter honrado deveria afastar todo pensamento de fraude e para quem, aliás, teria sido um prazer muito singular passar algumas horas por semana a mistificar uma assembleia, sem qualquer proveito.

Narramos o fato em toda a sua simplicidade, sem restrição nem exagero. Não diremos, no entanto, que vimos a mesa adejar no espaço qual se fora uma pluma; porém, mesmo como as coisas se passaram, o fato não demonstra menos a possibilidade do isolamento dos corpos pesados sem ponto de apoio, por meio de uma força até agora desconhecida. Também não diremos que bastava estender a mão ou fazer um sinal qualquer para que, no mesmo instante, a mesa se movesse e se elevasse como por encanto.

Ao contrário, diremos, a bem da verdade, que os primeiros movimentos se verificaram sempre com certa lentidão, não adquirindo senão gradualmente sua máxima intensidade. O levantamento completo só ocorreu após vários movimentos preparatórios, que eram como que ensaios para uma espécie de arremesso. A força atuante parecia redobrar de esforços para encorajar os assistentes, como um homem ou um cavalo que realiza uma pesada tarefa e que é excitado por gestos e palavras. Uma vez produzido o efeito, tudo retornava à calma e, por alguns instantes, nada se obtinha, como se aquela mesma força tivesse necessidade de retomar o fôlego.

 

Muitas vezes teremos ocasião de citar fenômenos desse gênero, sejam espontâneos ou provocados, e realizados em proporções e circunstâncias bem mais extraordinárias; porém, quando tivermos sido testemunha, relatá-lo-emos sempre de maneira a evitar qualquer interpretação falsa ou exagerada. Se no fato relatado acima nos tivéssemos contentado em dizer que vimos uma mesa de cem quilos elevar-se do solo pelo simples contato das mãos, ninguém duvide que muitas pessoas pensariam que a mesa havia subido até o teto, e com a rapidez de um piscar de olhos. É assim que as coisas mais simples se tornam prodígios pelas proporções que lhes empresta a imaginação. O que não haverá de acontecer quando os fatos atravessarem os séculos e passarem pela boca dos poetas! Se se dissesse que a superstição é filha da realidade, ter-se-ia avançado num paradoxo e, todavia, nada é mais verdadeiro; não há superstição que não repouse sobre um fundo real; tudo está em discernir onde termina uma e começa a outra. O verdadeiro meio de combater as superstições não é contestá-las de maneira absoluta; no espírito de certas pessoas há idéias que não se desenraizam tão facilmente, porque sempre há fatos a citar em apoio de sua opinião; ao contrário, é preciso mostrar o que há de real; então, só restará o exagero ridículo, ao qual o bom-senso fará justiça.



[1] Revista Espírita – Fevereiro/1858 – Allan Kardec

segunda-feira, 24 de abril de 2023

JAIME ROLEMBERG DE LIMA[1]

 


Jaime Rolemberg de Lima, nasceu em 16 de setembro de 1913, na pequena Vila de Maruim, Sergipe, filho de Maria Pureza Lima (que ele chamava Mãe Marocas) e do carteiro João Lima Santos.

Corria o ano de 1923. O menino sergipano, com 10 anos de idade, estava arrasado. Apesar da lida difícil de apanhar lenha, cortá-la e vendê-la, junto com seu irmão mais velho, sempre encontrava, ao voltar para casa, o carinho de sua mãe.

Mas, Mãe Marocas sucumbiu à doença e partiu para a Pátria Espiritual, deixando naquele coração infantil, lições que ele levaria pela vida afora.

A força da família, sua importância, foi consolidada por sua madrasta Ana Machado Lima, com quem seu pai casou-se em 1925, pois seus 12 filhos precisavam da presença feminina e materna. D. Aninha foi um anjo bom que moldou definitivamente o caráter daquele menino que cresceu e percebeu que os limites da pequena onde nascera eram pequenos para os seus sonhos.

Seus primeiros estudos, com muito sacrifício, já foram na capital Aracaju e, aos 19 anos, incorporado ao Exército, foi transferido para o Sul, no bojo da revolução de 1932 e depois de cursos para cabo e sargento, fixou-se em Caçapava, no interior de São Paulo, onde se casou com Elza Pinto de Siqueira, que lhe deu os filhos João e Eni.

Foi conquistando seu lugar no Exército, com muito esforço, estudando sem parar e cumprindo seus deveres militares, até que, em 1940, foi transferido para o Rio de Janeiro. Nessa época recebeu aprovação para ingressar na Escola de Intendentes do Exército, de onde saiu aspirante em 2º lugar, tendo servido em vários Estados até voltar novamente para o Rio Janeiro.

Desde 1937, esse nosso esforçado sergipano, Jaime Rolemberg de Lima, ou Rolemberg, como seus amigos o chamavam, havia tomado conhecimento do Espiritismo, desligando-se da religião de seus pais, que eram protestantes Adventistas do Sétimo Dia.

Na sua volta ao Rio, associou-se à Cruzada dos Militares Espíritas, integrando-se ao Movimento Espírita, onde fez grandes amigos, participou da Organização Educacional Espírita, da Casa de Lázaro, da Fundação Cultural Espírita "Paulo de Tarso", da União dos Discípulos de Jesus. Foi um divulgador da Doutrina por intermédio de palestras, artigos e programas de rádio.

Sua grande obra, entretanto, foi o “Lar Fabiano de Cristo”, que fundou com outros companheiros como Carlos Torres Pastorino, Augusto Duque Estrada, Luiz Goulart, Jorge Andréa, Adhemar Aragão e muitos outros idealistas.

As dificuldades eram quase intransponíveis, os objetivos eram claros e Rolemberg partiu para a criação de uma empresa que, por missão, suprisse as necessidades do Lar Fabiano com parte dos seus resultados operacionais. Assim, ele fundou a CAPEMI, que foi conduzida pelo seu tino administrativo e empreendedor. Apesar de grandes percalços, ainda hoje ela provê recursos, significativamente, para o Lar Fabiano, além do amparo aos velhos através da CAVADI.

Ainda com o Prof. Pastorino fundou o Grupo Spiritus e a Revista "Sabedoria".

Foi Diretor do Clube Militar, teve presença na campanha em defesa da PETROBRÁS, nas campanhas para a melhoria das condições de sargentos e subtenentes do Exército e foi um dos fundadores do COIFA.

Reformado como Coronel em 1965, dedicou-se integralmente ao seu trabalho social, às lides espiritistas, incentivando eventos culturais, as juventudes espíritas e a divulgação doutrinária.

Jaime Rolemberg de Lima abriu uma exceção em sua agitada agenda, no dia 17 de janeiro de 1978, aos 63 anos de idade. Nesse dia, foi-se embora para a dimensão espiritual, onde logo estava de volta às suas atividades, incentivando, com seu formidável exemplo, aqueles que deram continuidade à sua obra, aqui na Terra.

sábado, 22 de abril de 2023

A ETERNIDADE DE CADA MINUTO[1]

 


Marcelo Anátocles Ferreira - abril/2023


 Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á, e quem perder a sua vida por amor de mim, achá-la-á[2].

Mateus (16:25)

 

No livro O idiota[3], Dostoiévski apresenta uma interessante história narrada pelo personagem principal, o príncipe Míchkin. Em uma conversa informal, ele fala de um homem que, por crime político, tinha sido condenado à pena de morte e estava na fila para a execução. Tinha a firme convicção de que morreria em minutos. Aos vinte e sete anos de vida, organizou aqueles últimos minutos enquanto caminhava para a forca. Era o oitavo da fila e outros caminhavam na sua frente.

Aqueles minutos finais lhe pareciam uma eternidade e um tesouro infinito. Reservara-os para pensar em si mesmo, quando lhe veio à mente a possibilidade de não morrer. Foi quando afirmou para si mesmo: Se me for devolvida a vida, transformarei cada minuto em outras tantas eternidades…

Na hora H, ele teve a pena de morte substituída pela pena de degredo. Não se sabe como ele viveu a partir dali, mas deixou para todos uma importante reflexão.

Essa história nos faz recordar a frase de Jesus, contida em Mateus, sobre salvar ou perder a vida.

O Espírito Camilo a respeito ensina[4]:

Quando queremos penetrar o sentido do ensinamento do Cristo a respeito do ganhar e do perder a vida, faz-se importante tomar outro ângulo para percebermos que serão felizes os que estejam ganhando espiritualmente as próprias existências, convertendo-as em vida, pelas realizações fecundas, pelo crescimento que imprimam às próprias ações, pela fidelidade com que sirvam a Deus, em cada gesto que os caracterize pelo mundo. Esses serão bem-aventurados, recolhendo das Fontes Celestiais, em forma de bênçãos de saúde íntima, de equilíbrio geral e de paz, a vida abundante que souberam buscar ao longo de seus dias na escola terrena.

É necessário transformar cada minuto em eternidade, valorizar o tempo em que estamos no corpo e entender que a Terra é uma grande escola repleta de oportunidades de aprendizado.

Com essa visão, poderemos transformar os momentos em família, por mais dura que seja a situação familiar, em momentos de aprendizado feliz. Aprender com o familiar difícil e as lições que ele nos dá, as renúncias que ele nos exige, os serviços que ele nos impõe. Aprender com o familiar dócil, que nos acaricia e nos faz crescer; e com o familiar forte que nos apoia e nos torna melhores.

Podemos ainda eternizar os momentos de experiência profissional aprendendo com os esforços diários, transformando a rotina em experiência de bênção desde a hora em que acordamos, e agradecemos a Deus pelo trabalho bendito, até a hora em que retornamos, muitas vezes, em uma condução desconfortável, enfrentando um trânsito pesado, mas enriquecendo-nos com a oportunidade de crescimento em grupo.

Devemos eternizar os minutos na Casa Espírita que frequentamos, sendo inteiros em cada dia em que estivermos ali, ainda que não possamos estar em todos os dias que gostaríamos, fazendo da experiência religiosa uma experiência intensa e feliz.

Nas oportunidades em que o corpo apresentar suas limitações, através de enfermidades, precisamos aproveitar as lições de vida que a dor nos traz para que possamos crescer e melhorar interiormente.

Hoje, com os espaços virtuais que a tecnologia nos oferta, é necessário também aproveitar esses avanços para espalhar bênçãos da sabedoria espírita, multiplicando aquilo que recebemos e que nos faz tão bem.

Nos encontros diários, nos contatos sociais com vizinhos, comerciantes, servidores, pedintes e sofredores, devemos doar o que tivermos de melhor, ainda que o dia não esteja sendo dos mais especiais.

Ganhar ou perder a vida.

Se eu tiver minha vida devolvida, viverei cada minuto como uma eternidade.

Estamos vivos, renascidos no corpo com uma infinidade de minutos para aproveitarmos. Que, então, ganhemos a vida…



[2] BÍBLIA, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Rio de Janeiro: Imprensa Bíblica Brasileira, 1966. cap. 16, vers. 25.

[3] DOSTOIÉVSK, Fiódor. “O idiota”. São Paulo: Martin Claret, 2018.

[4] TEIXEIRA, José Raul. “Justiça e amor”. Pelo Espírito Camilo. Niterói: Fráter, 2013. cap. 25.


sexta-feira, 21 de abril de 2023

LIÇÕES DO CURA D’ARS [1]

 


Sandra Borba Pereira − março/2023

 

Nunca a arte de ouvir foi tão valorizada como nesses dias de solidão em meio à multidão, isolamento social provocado pela pandemia, graves problemas de saúde mental, superficialidade nas relações afetivas, indiferença, dentre outras razões.

Ouvir com atenção, indulgência, compaixão e empatia tornou-se qualidade rara e necessária no campo das relações sociais. Todos precisamos dessa escuta sensível: qualquer faixa etária, gênero, situação cultural, perfil psicológico.  É que ser ouvido faz parte das necessidades humanas básicas.

Em elucidativo texto intitulado Escutatória, disponível na internet, o autor Rubem Alves afirma a dificuldade humana de escutar o outro, por várias razões: não saber fazer silêncio interior, indiferença, pressa, desinteresse, falta de humildade para reconhecer o diferente…

No silêncio interior estão nossos medos e isso nos atordoa.

Escutar é, pois, uma atitude de descoberta do nosso humano e do humano do outro.

Um dos maiores escutadores do ser humano foi, no século XIX, um pároco da aldeia francesa, Ars. Um testemunho extraordinário da capacidade de ouvir, consolar, esclarecer e orientar o próximo.

 

Da Infância ao Sacerdócio

João Maria Batista Vianney, o Cura d’Ars,  nasceu em Dardilly,  uma pequena aldeia ao norte de Lyon, distante uns 10 km, a 8 de maio de 1786, filho de Mateus Vianney e Maria Beluse, cristãos fervorosos.

Desde pequenino, demonstrava vocação religiosa e se recolhia para orar, longe das outras crianças. Por ter nascido numa aldeia onde se falava um dialeto local, teve dificuldades no aprendizado da língua francesa a que teve acesso, a partir dos 13 anos.

Em 1809, foi convocado para o exército, mas adoeceu por duas vezes. Esse fato o fez desertar para viver nas montanhas por 14 meses. Seu pai foi obrigado a pagar pesada multa e seu irmão mais novo teve que se alistar em seu lugar. Desapareceria depois, na Alemanha, e esse fato o atormentou durante toda a vida.

Aos 20 anos, começou sua formação para o sacerdócio junto ao Padre Balley que procura minimizar suas dificuldades com a  língua francesa e o domínio do latim. Possuía memória fraca e por isso criou fama de ignorante. Frequentou Seminários em Verrière e Lyon, sempre contando com a ajuda do Padre Balley que lhe ensinava Teologia, francês e latim. Foi, enfim, aprovado em 1814.

Somente aos 29 anos foi ordenado sacerdote e se tornou coadjutor do Padre Balley, que viria a desencarnar em 1817.

Vianney foi, então, enviado, em 1818, para uma paróquia diminuta, de apenas 230 habitantes: Ars.

 

Atuação em Ars

Ao chegar em Ars, começou a dar à casa paroquial o seu perfil: só o necessário. Ali, passaria 40 anos e se tornaria o maior fenômeno da prática da confissão da Igreja Católica, na França.

Antes dessa fama de confessor, conquistara os paroquianos com seu jeito simples, simpático e afetuoso. Visitava-os, cotidianamente, dava assistência aos doentes e necessitados, tratava a todos com gentileza, organizou escolas para moças e depois para rapazes, construiu uma igreja para Santa  Filomena, mártir romana,  criou grupo de senhoras e se tornou evangelizador dos pequeninos.

Procurava tornar atraentes as comemorações religiosas como Corpus Christi, incluindo a arte.

Era médium e alguns fenômenos de efeitos físicos ocorreram com sua presença, na primeira metade da década de 1820.

Com o passar dos anos, Ars principiou a receber peregrinos de Lyon e de outros lugares, chegando o Cura a passar de doze a quinze horas no confessionário.

Milhares de pessoas o procuravam para se confessar e saíam consoladas e impressionadas com a intuição do confessor, que parecia perceber a problemática de cada um. Aliava firmeza e suavidade evocando sempre o amor do Bom Deus.

A aldeia precisou criar infraestrutura de hospedagem e alimentação para os peregrinos, que vinham de muito longe, dada a fama do Cura, a partir de 1840, que já era chamado de O Santo de Ars.

Vianney tinha crises existenciais, se achava incompetente para a tarefa, mas a oração diária, três horas pela manhã cedo, e o desejo de servir ao próximo o fizeram ser amado por todos.

Desejava sair de Ars, mas seus superiores não permitiam e, quando se recolheu, certa feita, em sua aldeia, em 1843, exausto, jovens dessa aldeia foram visitá-lo prestando-lhe solidariedade. Voltou uma semana depois, recebido em festa pela multidão.

 

Uma vida dedicada a servir e a ouvir.

Afirmam alguns, que com ele conviveram, que muitas vezes ele chorava com os que iam se confessar e que tocava o fundo do coração das criaturas que o buscavam. Terapeuta inato, dialogava sobre as razões de viver que as criaturas deveriam buscar e sobre o amor do Bom Deus.

Foi envelhecendo e ficando doente, após décadas de serviço. Em 1859, recebeu os sacramentos e ao ser indagado se estava cansado, respondeu: Oh, não. Choro pensando na grande bondade de Nosso Senhor em vir visitar-nos nos últimos momentos.

Em 4 de agosto de 1859, diria sua colaboradora Catarina, deixaria o cansado corpo físico calmo e sereno.

 

Exemplos

O Cura d’Ars é um extraordinário exemplo de superação e desejo de servir. Reconhecia suas deficiências intelectuais, mas a fé e uma firme vontade lhe proporcionaram uma força incrível no serviço ao próximo.

O cuidado com os necessitados, o visitar cotidianamente os paroquianos, a preocupação com todas as faixas etárias, a disponibilidade para atender às multidões carentes, a disciplina da oração e da pregação,  a visão social da importância da educação para  homens e mulheres, a busca de metodologias mais agradáveis para conquistar o público para a temática religiosa, a confiança no amor e amparo divinos são alguns dos legados desse sacerdote que, por ser considerado ignorante, foi enviado para a pequena Ars. Não haviam percebido suas qualidades de devotado servidor do Cristo.

Tornar-se-ia padroeiro dos sacerdotes e foi canonizado em 31 de maio de 1925, pelo Papa Pio XI.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo encontramos, no capítulo VIII, item 20, a mensagem intitulada Bem-aventurados os que têm fechados os olhos, revelando toda sua humildade e submissão à vontade de Deus.

Em dias de tanta solidão entre as criaturas, o exemplo do Cura d’Ars nos convida a sairmos da indiferença diante do outro, ao mergulho interior que nos proporciona a condição de ouvir para ser útil, à luta constante pela superação das nossas próprias fragilidades.

 

 

 

Referências:

§  MARCON, Maria Helena. Os Expoentes da Codificação Espírita. Curitiba: FEP, 2020. cap. João Maria Vianney, o cura d’Ars.

§  JOULIN, Marc. João Maria Vianney – Cura d’Ars: patrono dos sacerdotes. São Paulo: Paulinas, 1998.

§  https://www.vaticannews.va/pt/igreja/news/2020-08/sao-joao-maria-vianney-cura-ars , Acesso em 6.1.2023.


quinta-feira, 20 de abril de 2023

ORAR POR OUTREM[1]

 

Max Nonnenbruch - "Oração"


Miramez

 

Pode-se, com utilidade, orar por outrem?

O Espírito de quem ora atua pela sua vontade de praticar o bem. Atrai a si, mediante a prece, os bons Espíritos e estes se associam ao bem que deseje fazer.

O pensamento e a vontade representam em nós um poder de ação que alcança muito além dos limites da nossa esfera corporal. A prece que façamos por outrem é um ato dessa vontade. Se for ardente e sincera, pode chamar, em auxílio daquele por quem oramos, os bons Espíritos, que lhe virão sugerir bons pensamentos e dar a força de que necessitem seu corpo e sua alma. Mas, ainda aqui, a prece do coração é tudo, a dos lábios nada vale. (Allan Kardec)

Questão 662 / O Livro dos Espíritos

 

O que já escrevemos atrás não tira o estímulo de quem queira orar pelos que sofrem. Orar é um ato de amor, mas, se queres beneficiar realmente o irmão que padece, procura orar com amor, com a prece ardente, de modo que o pensamento sirva de canal para que as bênçãos de Deus possam aliviar o enfermo ou atribulado. No entanto, o sofredor deve estar consciente das suas provas e alimentar a fé, de modo que essa fé corresponda ao que disse Jesus aos inúmeros enfermos que ele curou: A tua fé te curou.

Não só podes, mas deves orar pelos que sofrem, se possível todos os dias, não somente porque podes curar ou aliviar aos que padecem, mas, e principalmente, porque é um exercício de amor, que praticas em teu próprio benefício. Mesmo que o enfermo não tenha fé e não saiba que alguém está pedindo a Deus por ele, será bafejado pela luz da oração sincera, e sentirá um conforto que ele próprio não saberá de onde veio. Isto é Deus operando com o Seu amor para ajudar aos Seus filhos em todas as dimensões da vida em que estagiam.

Nós temos grande empenho em que todos os enfermos conheçam Jesus, enfim, que toda a humanidade o conheça, porque o Mestre é o Governador da Terra; nada se faz nela sem que Ele não saiba e decida.

Todas as coisas foram feitas por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez.

João, 1:3

Se tudo que usamos, em todas as faixas em que vivemos, tem Seu traço de amor, o nosso dever é ser grato a essa Luz, que antes que o mundo fosse, já era.

Orar pelos que sofrem é nosso dever. A luz da oração, chegando aos corações sofredores, pode fazer muito, podendo lembrar ao enfermo que ele deve acordar para as coisas espirituais. É certo que, depois de Deus, somente ele pode fazer alguma coisa por si mesmo; no entanto, uma ajudazinha todos podem dar. Quando alguém dorme, mesmo que seja um sono profundo, pode-se acordá-lo, chamando-o mas, a decisão de permanecer acordado é dele. Depois de Deus, pela força da caridade, somente nós mesmos poderemos nos salvar. As decisões se movem pelo livre arbítrio, para que a conquista seja de quem trabalhou para a sua própria paz.

Quem deseja orar pelos que sofrem, que aprenda a orar com sinceridade, sem interesse que o leve à perturbação. Esse ato deve ser com amor. Somente quem ganha na purificação dos sentimentos é quem trabalhou para a sua evolução espiritual. Nada se perde; portanto, faze alguma coisa por ti mesmo, mudando a corrente dos teus pensamentos, palavras e atos.

A posição de orar, que muitos perguntam, és tu quem escolhes; o que é observado é o que passa pelo teu coração, ante o ponto que escolheste para ser beneficiado. Não é a posição que faz a prece mais ou menos elevada; os sentimentos é que são levados em conta. Quanto mais livre das coisas materiais, mais liberta fica a corrente mental, e busca mais assistência na sintonia dos benfeitores da eternidade. Os Espíritos superiores sempre atendem aos chamados honestos. Quando apenas os lábios falam, sem nada do coração, esses sons se perdem, ou o vento os leva, por não terem a direção do amor.

Todos os reinos se encontram na posição de orar; falta aos homens aprenderem a agradecer a Deus pelo que Ele fez e nos dá constantemente por Amor.



[1] Filosofia Espírita – Volume 13 – João Nunes Maia

quarta-feira, 19 de abril de 2023

SER ESPÍRITA[1]

 

Jacques-Louis David - "Belisarius"


Silvio Seno Chibeni

 

“Pois que vos dizeis espíritas, sede-o.”

Simeão[2]

 

Resumo: O que é ser espírita? Raras vezes essa questão é colocada, embora o qualificativo espírita seja amplamente usado. Neste trabalho examina-se como Allan Kardec abordou a questão, em diversas de suas obras. Procura-se salientar a relevância das considerações de Kardec para as reflexões que cada um de nós deve fazer acerca de sua condição de espírita.

 

1. O Livro dos Espíritos

Nesta primeira seção centralizaremos a análise no tratamento dado por Kardec à questão do que é ser espírita na obra fundamental do Espiritismo, O Livro dos Espíritos. Como se observa pela leitura do primeiro parágrafo da Introdução, o termo espírita, foi, como vários outros, inventado por Kardec com o objetivo específico de conferir clareza terminológica à nova área que estava sendo criada. A palavra espírita foi inicialmente introduzida como adjetivo, para qualificar diversos substantivos, como doutrina, filosofia, fenômeno etc. Assim, as expressões doutrina espírita, filosofia espírita, fenômenos espíritas e outras aparecem já na primeira edição, de 1857.

No presente trabalho estaremos interessados primordialmente na aplicação desse adjetivo a pessoas: homem espírita, mulher espírita, criança espírita etc. Desse uso do adjetivo deriva, por omissão do substantivo, o substantivo ‘espírita’, que aparece em frases como: ‘Espíritas! Amai-vos, este o primeiro ensinamento; instruí-vos, este o segundo’, ‘os bons espíritas’ etc. Trata-se de um fenômeno linguístico comum; outros casos semelhantes seriam, por exemplo, os substantivos jovem, louco, criminoso, e uma infinidade de outros.

É interessante observar que em O Livro dos Espíritos o termo espírita ainda não aparece como substantivo, ou como adjetivo aplicado a pessoas. Todavia, na segunda edição, de 1860 (o texto definitivo que usamos até hoje), Kardec efetivamente considerou a questão que nos ocupa, embora numa formulação diferente. Ele o fez no item 7 da conclusão. (Na primeira edição não havia conclusão, mas apenas um curto Epílogo). Vejamos o trecho relevante:

O Espiritismo se apresenta sob três aspectos diferentes: o fato das manifestações, os princípios de filosofia e de moral que delas decorrem e a aplicação desses princípios. Daí, três classes, ou, antes, três graus de adeptos: 1º  os que creem nas manifestações e se limitam a comprová-las; para esses, o Espiritismo é uma ciência experimental; 2º  os que lhe percebem as consequências morais; 3º  os que praticam ou se esforçam por praticar essa moral. (O Livro dos Espíritos, conclusão, item 7)

Nota-se aqui que a referência aos “adeptos” equivale a uma referência aos “espíritas”, no sentido substantivado que o termo adquiriria depois. Observa-se também que a distinção das três “classes” ou “graus” de adeptos ou de espíritas é feita a partir da distinção de três “aspectos” do Espiritismo. Hoje em dia é comum falar-se nos três aspectos do Espiritismo como sendo o científico, o filosófico e o religioso, ou moral. A distinção que Kardec traça aqui não coincide exatamente com essa distinção contemporânea[3].

O primeiro aspecto que ele aponta, “o fato das manifestações”, consiste simplesmente dos fatos, ou fenômenos, espíritas, como os movimentos de objetos, os ruídos, a tiptologia, a vidência, a psicografia etc. Embora tais fenômenos sejam de importância capital, por seu papel histórico no surgimento do Espiritismo e por constituírem sua base experimental, eles por si sós não constituem a ciência espírita. Nenhuma ciência, aliás, consiste unicamente de um simples relato de fenômenos. Outro ingrediente essencial de qualquer ciência é a teoria, ou seja, o conjunto de leis ou princípios que regulam os fenômenos. Ora, na classificação traçada nesse item da conclusão tais princípios já integram o segundo aspecto. Deve-se lembrar que, seguindo a forma de expressão da época, Kardec muitas vezes se refere à teoria espírita, mesmo em sua dimensão científica, como filosofia. Assim, quando fala aqui nos “princípios de filosofia” certamente inclui os princípios genuinamente científicos do Espiritismo. O segundo aspecto do Espiritismo indicado por Kardec nessa passagem é, pois, o seu aspecto teórico, numa acepção ampla do termo, que inclui tanto a ciência propriamente dita como a filosofia.

O terceiro aspecto, a “aplicação” dos princípios espíritas, remete ao plano prático, ao plano de nossas ações. Naturalmente, essa aplicação dos princípios espíritas só faz sentido para uma classe especial deles, justamente os princípios morais. Os outros, de cunho mais propriamente científico, não podem evidentemente ser objeto de “aplicação” em nossas ações, mas unicamente na análise intelectual que façamos dos fenômenos espíritas e de outros fenômenos relevantes para o Espiritismo. A moral, ou ética, é a área da filosofia que se ocupa do estudo das ações humanas: os critérios do certo e do errado, do bem e do mal, dos direitos e deveres. Portanto, nesta e nas demais passagens que examinaremos adiante a aplicação ou prática do Espiritismo deve ser entendida como a prática de seus princípios morais.

Traçada essa distinção entre os três aspectos do Espiritismo, fica naturalmente indicada uma distinção entre os adeptos do Espiritismo. Numa primeira classe estão aqueles que simplesmente reconhecem que os fenômenos espíritas são reais, e não uma fraude, ou uma ilusão. A segunda classe é formada por aqueles que, além dos fenômenos, reconhecem os princípios que os regem e os que deles decorrem, por análise filosófica, incluindo-se aí os princípios morais. Na terceira classe, por fim, estão aqueles que percebem a excelência desses princípios morais e os tomam como diretrizes de sua própria conduta, ou pelo menos se esforçam por adaptá-la a eles.

Kardec observa que essas classes também podem ser consideradas “graus”, na medida em que a aceitação dos três aspectos do Espiritismo pode ser feita um por vez, na ordem indicada. Como veremos nas seções 2 e 4, a distinção das três classes de espíritas reaparecerá de forma explícita, com pequenas variações de expressão, em O Livro dos Médiuns e em Viagem Espírita em 1862.

 

2. O Livro dos Médiuns, O Céu e o Inferno e O que é o Espiritismo

O capítulo 3 da primeira parte de O Livro dos Médiuns, intitulado “Do método”, é de grande relevância para o nosso tema. O método a que o título se refere é, por um lado, o método de proceder na apresentação do Espiritismo aos não-espíritas e, por outro, o método geral de estudo do Espiritismo. Kardec mostra aqui toda a sua sensibilidade didática, pois o modo de divulgar e abordar o Espiritismo, assim como qualquer outra disciplina de igual complexidade, deverá levar em conta a pessoa ou grupo de pessoas a quem nos estamos dirigimos.

No parágrafo 19 e seguintes Kardec mostra em detalhes por que é falsa a “crença geral que, para convencer, basta apresentar fatos”. Sua análise ressalta, entre outros pontos, a importância de se dispor de uma teoria bem elaborada, capaz de dar inteligibilidade aos fatos. É justamente nesse ponto que o Espiritismo se mostra muito superior a outras abordagens de investigação dos fenômenos anímicos e mediúnicos. Um exame geral dessa questão foi empreendido por nós no artigo “A excelência metodológica do Espiritismo” (ver Referências Bibliográficas), no qual analisamos não somente esse capítulo de O Livro dos Médiuns mas também trechos importantes do primeiro capítulo de O que é o Espiritismo. Deste último livro, destacamos aqui apenas esta passagem do diálogo com o cético (segundo diálogo, seção “Elementos de convicção”):

Há duas coisas no Espiritismo: a parte experimental das manifestações e a doutrina filosófica. Ora, eu sou todos os dias visitado por pessoas que ainda nada viram e creem tão firmemente como eu, pelo só estudo que fizeram da parte filosófica; para elas o fenômeno das manifestações é acessório; o fundo é a doutrina, a ciência; eles a veem tão grande, tão racional, que nela encontram tudo quanto possa satisfazer às suas aspirações interiores, à parte o fato das manifestações; do que concluem que, supondo não existissem as manifestações, a doutrina não deixaria de ser sempre a que melhor resolve uma multidão de problemas reputados insolúveis.

Quantos me disseram que essas ideias estavam em germe no seu cérebro, conquanto em estado de confusão. O Espiritismo veio coordená-las, dar-lhes corpo, e foi para eles como um raio de luz. É o que explica o número de adeptos que a simples leitura de O Livro dos Espíritos produziu. Acreditais que esse número seria o que é hoje, se nunca tivéssemos passado das mesas girantes e falantes?

Vemos, pois, que Kardec localizava o caráter científico do Espiritismo na “doutrina”, na sua “parte filosófica”, que, no contexto de nossa análise, deve ser entendida como aquilo a que vimos denominando “teoria”. Os fatos em si não constituem a ciência, conforme já salientamos na seção anterior. Daí a importância de se tomar o Espiritismo no seu conjunto, fenômenos e teoria, sem o que ficaria mutilado.

Embora seja possível haver, e de fato haja, “adeptos” que param no primeiro “grau”, no mero reconhecimento da realidade dos fenômenos, essa atitude não é racional ou científica.

Antes de prosseguir, devemos ainda esclarecer a noção de crença, a que o presente estudo fará referências tantas vezes. Crença, no sentido filosófico, não é o processo vulgarmente entendido como tal, que envolve algum tipo de sentimento místico ou religioso. É um dos ingredientes básicos de qualquer conhecimento. Na Grécia antiga, onde nasceu a filosofia, os filósofos já deram grande importância ao estudo do assunto. Uma das análises mais influentes foi a de Platão, que propôs que para que um sujeito S saiba alguma coisa P, três requisitos devem ser cumpridos: 1º S deve acreditar em P; 2º P deve ser verdade; e 3º S deve ter evidência para a verdade de P. A crença é, pois, o primeiro ingrediente do conhecimento.

É de fundamental importância reconhecer que a crença, nesse sentido filosófico próprio, é algo involuntário: não está em nosso poder crer ou deixar de crer numa determinada coisa. A crença “ocorre” em nós quando estamos diante de certas circunstâncias, por um tipo de “automatismo” cognitivo. O máximo que podemos fazer é voluntariamente buscar circunstâncias que esclareçam o ponto em questão, o que poderá então determinar a crença, ou descrença, dependendo do caso. Isso remete, pois, ao terceiro requisito da definição platônica de conhecimento: a evidência.

Tudo isso mostra quão insensata é a posição comum, de que a crença é algo que se prescreva, que se ordene, que se delibere fazer. Se a pessoa não estiver diante da evidência relevante, ninguém, nem mesmo ela própria, poderá fazê-la crer ou não crer nisso ou naquilo. Conhecedor desse ponto importante, Kardec sempre enfatizou que o Espiritismo, em particular, jamais poderia ser imposto. A crença em seus fenômenos e princípios só pode ser o resultado da exposição ao corpo de evidência apropriado.

Ademais, como vimos nas passagens transcritas, Kardec sabia que o fornecimento de evidência parcial, exclusivamente experimental, em geral é ineficaz até mesmo para produzir crença na realidade dos fenômenos. O Espiritismo tem de ser apresentado, e considerado, em seu conjunto, fenômenos e princípios científicos e filosóficos, para que possibilite a formação de crença sólida e fundamentada.

Passemos agora ao parágrafo 28 de O Livro dos Médiuns, onde reaparece a distinção das três classes de espíritas esboçada na conclusão de O Livro dos Espíritos. Antes de apresentá-la, Kardec destaca a existência de duas classes por assim dizer “intermediárias” entre a dos opositores (amplamente examinada na parte precedente do capítulo) e a dos adeptos “que se convenceram por um estudo direto”: a dos incertos (parágrafo 26) e a dos espíritas sem o saberem (parágrafo 27). Os primeiros são aqueles que, em geral espiritualistas, têm uma “vaga intuição das ideias espíritas”, mas sem a coordenação e precisão que lhes confere o Espiritismo. Quando este lhe é apresentado, “é como um raio de luz: a claridade que dissipa o nevoeiro”; acolhem-no então pressurosamente.

Quanto à curiosa classe dos que, no fundo, são espíritas, mas disso não se dão conta, é formada pelos que “sem jamais terem ouvido tratar da doutrina espírita, possuem o sentimento inato dos grandes princípios que dela decorrem, e esse sentimento se reflete em algumas passagens de seus escritos e de seus discursos, a ponto de suporem, os que os ouvem, que eles são completamente iniciados.” Kardec nota que a distinção entre essa classe e a precedente é tênue, esta podendo ser considerada uma variante daquela. Talvez o que distinga a segunda seja um maior grau de coordenação e clareza das ideias. Nota ainda que há numerosos exemplos de indivíduos dessa classe entre os escritores profanos e sagrados, poetas, oradores, moralistas e filósofos, antigos e modernos. Um exemplo interessante está relatado na segunda parte da obra O Céu e o Inferno. No capítulo 2, dedicado às comunicações dos Espíritos felizes, há o caso de  Jean Reynaud, que em sua última encarnação levou vida virtuosa. Dentre as questões que lhe foram propostas destacamos esta:

P. – Em vida professáveis o Espiritismo?

R. – Há uma grande diferença entre professar e praticar. Muita gente professa uma doutrina sem praticá-la; pois bem, eu praticava mas não professava [o Espiritismo]. Assim como cristão é todo homem que segue as leis do Cristo, mesmo sem conhecê-lo, assim também podemos ser espíritas, acreditando na imortalidade da alma, nas reencarnações, no progresso incessante, nas provações terrenas, abluções necessárias ao melhoramento. Acreditando em tudo isso, eu era, portanto, espírita. Compreendi a erraticidade, laço intermediário das reencarnações e purgatório no qual o Espírito culposo se despoja das vestes impuras para revestir nova toga, e onde o Espírito em evolução tece cuidadosamente essa toga que há de carregar no intuito de conservá-la pura. Compreendi tudo isso, e, sem professar, continuei a praticar.

A resposta do Espírito chama a atenção para um ponto central na análise da questão do que é ser espírita. É a aceitação dos princípios básicos do Espiritismo que deve delinear a condição de espírita (quando se vai, é claro, além do rudimentar primeiro “grau” de adesão). Sendo uma disciplina científica e filosófica viva, dinâmica, o Espiritismo tem, e não pode deixar de ter, áreas de fronteira, onde as ideias ainda estão em elaboração e os princípios em fase de teste. Isso não compromete, no entanto, os princípios fundamentais, que constituem o núcleo teórico espírita, já devidamente assentado. Jean Reynaud, como muitos outros, reconhecia esse núcleo como verdadeiro, embora não o tivesse estudado diretamente nas fontes espíritas. Depois, no mundo espiritual, compreendeu que, por essa razão, era espírita, embora sem o saber, ou seja, sem haver explicitamente aplicado a si essa denominação. Além disso, não se contentou em ficar no segundo “grau”: incorporou em sua conduta a moral decorrente desses princípios fundamentais. Era, pois, um espírita pleno, da terceira classe.

Esse ponto remete a um comentário de Kardec no capítulo 4 de O Livro dos Médiuns, “Dos sistemas”. No parágrafo 50 examina o chamado “sistema da alma material”. Embora sua aparência discrepante, na verdade o sistema “não infirma qualquer dos princípios fundamentais da Doutrina Espírita”. Não nos cabe aprofundar aqui a discussão técnica desse tópico. O que nos interessa mais é a exemplificação que fornece da distinção entre o núcleo e a periferia da teoria espírita. O tópico em questão é periférico, e eventuais divergências quanto a ele não devem ser razão para a divisão entre os espíritas:

Semelhante opinião, restrita, aliás, mesmo que se achasse mais generalizada, não constituiria uma cisão entre os espíritas, do mesmo modo que as duas teorias da emissão e das ondulações da luz não significam uma cisão entre os físicos. Os que se decidissem a formar grupo à parte, por uma questão tão pueril, provariam, só com isso, que ligam mais importância ao acessório do que ao principal e que se acham compelidos à desunião por Espíritos que não podem ser bons, visto que os bons Espíritos jamais insuflam a acrimônia, nem a cizânia. Daí o concitarmos todos os verdadeiros espíritas a se manterem em guarda contra tais sugestões, e a não darem a certos pormenores mais importância do que merecem; o essencial é o fundo.

Temos, pois, aqui uma eloquente lição, relevante mesmo em nossos dias, quando já não se discute tanto o sistema da alma material, mas outros pontos secundários, que são confundidos com os essenciais, prejudicando o desenvolvimento normal do Espiritismo, e além disso gerando dissensões e rancores inteiramente contrários aos princípios morais do próprio Espiritismo.

Vejamos, por fim, o parágrafo 28 do mesmo livro, onde aparece uma classificação dos que “se convenceram por um estudo direto”:

1º Os que creem pura e simplesmente nas manifestações. Para eles, o Espiritismo é apenas uma ciência de observação, uma série de fatos mais ou menos curiosos. Chamar-lhes-emos espíritas experimentadores.

2º Os que no Espiritismo veem mais do que fatos; compreendem-lhe a parte filosófica; admiram a moral daí decorrente, mas não a praticam. Insignificante ou nula é a influência que lhes exerce nos caracteres. Em nada alteram seus hábitos e não se privariam de um só gozo que fosse. O avarento continua a sê-lo, o orgulhoso se conserva cheio de si, o invejoso e o cioso sempre hostis. Consideram a caridade cristã apenas uma bela máxima. São os espíritas imperfeitos.

3º Os que não se contentam com admirar a moral espírita, que a praticam e lhe aceitam todas as consequências. Convencidos de que a existência terrena é uma prova passageira, tratam de aproveitar os seus breves instantes para avançar pela senda do progresso, única que os pode elevar na hierarquia do mundo dos Espíritos, esforçando-se por fazer o bem e coibir seus maus pendores. As relações com eles sempre oferecem segurança, porque a convicção que nutrem os preserva de pensarem em praticar o mal. A caridade é, em tudo, a regra de proceder a que obedecem. São os verdadeiros espíritas, ou melhor, os espíritas cristãos.

Trata-se, pois, da mesma distinção apresentada no item 7 da conclusão de O Livro dos Espíritos. O que há de novo aqui são apenas as denominações que Kardec propõe: espíritas experimentadores (ocupam-se só da parte experimental ou fenomênica), espíritas imperfeitos (aceitam os princípios, mas não os aproveitam para melhorar sua conduta), e espíritas verdadeiros, ou cristãos (põem em prática, ou se esforçam por praticar a moral espírita-cristã). Embora não possuindo nada de absoluto, essas denominações são bastante apropriadas, e foram repetidas por Kardec em outras obras, como veremos nas seções seguintes.

Ainda no parágrafo 28 de O Livro dos Médiuns Kardec apresenta uma última classe, a dos espíritas exaltados. Trata-se de um caso aberrante, que mesmo hoje continua existindo, e que por isso merece ser anotado aqui.

A espécie humana seria perfeita, se sempre tomasse o lado bom das coisas. Em tudo, o exagero é prejudicial. Em Espiritismo, infunde confiança demasiado cega e frequentemente pueril, no tocante ao mundo invisível, e leva a aceitar-se, com extrema facilidade e sem verificação, aquilo cujo absurdo, ou impossibilidade a reflexão e o exame demonstrariam. O entusiasmo, porém, não reflete, deslumbra. Esta espécie de adeptos é mais nociva do que útil à causa do Espiritismo [...].

Tiramos daqui outra lição importante: a de não deixar que um entusiasmo exagerado nos faça perder de vista a metodologia eminentemente racional empregada por Kardec no estabelecimento das bases do Espiritismo, e que deve estar sempre presente ao longo do seu desenvolvimento.

 

3. O Evangelho segundo o Espiritismo

O capítulo 17 de O Evangelho segundo o Espiritismo traz, em seu item 4, um importante texto de Kardec sobre o assunto que nos ocupa aqui, intitulado “Os bons espíritas”. Esse texto dá sequência ao anterior, “O homem de bem”, em que Kardec apresenta a impressionante enumeração das qualidades que distinguem o homem de bem; essa enumeração aproveita e estende a que é feita no item 918 de O Livro dos Espíritos. O texto sobre os bons espíritas inicia justamente salientando que

Bem compreendido, mas sobretudo bem sentido, o Espiritismo leva aos resultados acima expostos, que caracterizam o verdadeiro espírita, como o cristão verdadeiro, pois que um o mesmo é que outro. O Espiritismo não institui nenhuma nova moral; apenas facilita aos homens a inteligência e a prática da do Cristo, facultando fé inabalável e esclarecida aos que duvidam ou vacilam.

É essa coincidência dos preceitos morais espíritas com os preceitos morais cristãos que justifica a denominação espíritas cristãos, que, como vimos, aparece no parágrafo 28 de O Livro dos Médiuns, e será depois retomada em Viagem Espírita em 1862 (como veremos na próxima seção). Deve-se, porém, notar que Kardec não preconiza que se use sempre essa expressão – ou qualquer outra, aliás –, em substituição a espírita, simplesmente. Ele a utilizou no contexto especial da análise das diferentes posturas dos homens diante do Espiritismo. Seria impróprio tentar usá-la irrestritamente, como às vezes de fato se faz no movimento espírita, na tentativa talvez de diferençar os espíritas dos adeptos de outras vertentes espiritualistas ou mediunistas.

Prossigamos, porém, no texto do Evangelho. Nos parágrafos que seguem o que acaba de ser transcrito Kardec dirige-se à questão de por que, afinal, há pessoas que ficam no primeiro ou segundo “graus” da adesão espírita, sem ir adiante. Vejamos como a questão é formulada e respondida, no que respeita ao estacionamento na primeira classe:

Muitos, entretanto, dos que acreditam nos fatos das manifestações não lhes apreendem as consequências, nem o alcance moral, ou, se os apreendem, não os aplicam a si mesmos. A que atribuir isso? A alguma falta de clareza da doutrina? Não, pois que ela não contém alegorias nem figuras que possam dar lugar a falsas interpretações. A clareza é da sua essência mesma e é donde lhe vem a força, porque a faz ir direito à inteligência. Nada tem de misteriosa e seus iniciados não se acham de posse de qualquer segredo, oculto ao vulgo.

Será então necessária, para compreendê-la, uma inteligência fora do comum? Não, tanto que há homens de notória capacidade que não a compreendem, ao passo que inteligências vulgares, moços mesmo, apenas saídos da adolescência, lhes apreendem, com admirável precisão, os mais delicados matizes. Provém isso de que a parte por assim dizer material da ciência somente requer olhos que observem, enquanto a parte essencial exige um certo grau de sensibilidade, a que se pode chamar maturidade do senso moral, maturidade que independe da idade e do grau de instrução, porque é peculiar ao desenvolvimento, em sentido especial, do Espírito encarnado.

O problema não é, pois, nenhuma falta de clareza da teoria espírita. Kardec, aliás, teve sempre uma preocupação extrema com esse aspecto; seus textos são, indubitavelmente, os mais claros, objetivos e precisos textos espíritas já escritos.

Também não é que a teoria espírita seja difícil, intricada, como geralmente são as ciências e sistemas filosóficos acadêmicos; nos seus traços fundamentais ela é bastante acessível à inteligência de um ser humano comum. A verdadeira razão pela qual alguns se limitam a observar e comprovar os fenômenos é a deficiência de uma sensibilidade especial, a que Kardec chama de senso moral, uma faculdade do ser humano que lhe possibilita ir longe na exploração das implicações filosóficas de um conjunto de fatos ou ideias. Como as palavras finais de Kardec sugerem, tal faculdade não se adquire de uma hora para outra, requerendo um longo período de amadurecimento, que certamente se estende por inúmeras encarnações.

No parágrafo seguinte Kardec explica por que algumas pessoas podem estacionar na segunda classe, não se preocupando em aplicar as máximas morais espíritas à sua própria conduta:

Nalguns, ainda muito tenazes são os laços da matéria para permitirem que o Espírito se desprenda das coisas da Terra; a névoa que os envolve tira-lhes a visão do infinito, donde resulta não romperem facilmente com os seus pendores nem com seus hábitos, não percebendo haja qualquer coisa melhor do que aquilo de que são dotados. Têm a crença nos Espíritos como um simples fato, mas que nada ou bem pouco lhes modifica as tendências instintivas. [...] Esses são os espíritas imperfeitos, alguns dos quais ficam a meio caminho ou se afastam de seus irmãos em crença, porque recuam ante a obrigação de se reformarem, ou então guardam as suas simpatias para os que lhes compartilham das fraquezas ou das prevenções. Contudo, a aceitação do princípio da doutrina é um primeiro passo que lhes tornará mais fácil o segundo, noutra existência.

Finalmente, os que se dispõem superar os traços indesejáveis de seu caráter são os que passam à condição de verdadeiros espíritas:

Aquele que pode ser, com razão, qualificado de espírita verdadeiro e sincero, se acha em grau superior de adiantamento moral. O espírito, que nele domina de modo mais completo a matéria, dá-lhe uma percepção mais clara do futuro; os princípios da doutrina lhe fazem vibrar fibras que nos outros se conservam inertes. Em suma: é tocado no coração, pelo que inabalável se lhe torna a fé. Um é qual músico que alguns acordes bastam para comover, ao passo que outro apenas ouve sons. Reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que emprega para domar suas inclinações más. Enquanto um se contenta com o seu horizonte limitado, outro, que apreende alguma coisa de melhor, se esforça por desligar-se dele e sempre o consegue, se tem firme a vontade.

Note-se a referência à dimensão não puramente intelectual da questão, com a bela imagem do ser “tocado no coração”. É o sentimento profundo das leis divinas, inscritas na consciência, agora mobilizado para nos colocar na rota de nosso crescimento espiritual.

Nos comentários de Kardec à parábola do semeador, que integram o mesmo capítulo de O Evangelho segundo o Espiritismo que estamos considerando, encontramos outra referência interessante à condição de espírita. Após notar que a parábola “exprime perfeitamente os matizes existentes na maneira de serem utilizados os ensinos do Evangelho”, Kardec acrescenta:

Não menos justa aplicação encontra ela nas diferentes categorias espíritas. Não se acham simbolizados nela os que apenas atentam nos fenômenos materiais e nenhuma consequência tiram deles, porque neles mais não veem do que fatos curiosos? Os que apenas se preocupam com o lado brilhante das comunicações dos Espíritos, pelas quais só se interessam quando lhes satisfazem à imaginação, e que, depois de as terem ouvido, se conservam tão frios e indiferentes quanto eram? Os que reconhecem muito bons os conselhos e os admiram, mas para serem aplicados aos outros e não a si próprios? Aqueles, finalmente, para os quais essas instruções são como a semente que cai em terra boa e dá frutos?

 

4. Obras Póstumas e Viagem Espírita em 1862

Nos livros analisados nas seções precedentes, notamos que, ao caracterizar os verdadeiros espíritas, Kardec tem o cuidado de não incluir a perfeição moral, nem a reforma moral instantânea, mas o esforço perseverante de aperfeiçoar-se. No texto do Evangelho há, como vimos, um arrazoado sobre as causas de nossa dificuldade em promover essa reforma, dificuldade que, nos casos mais graves, pode temporariamente reter-nos na classe dos espíritas imperfeitos. Em alguns ensaios da primeira parte de Obras Póstumas esse assunto é retomado de forma mais extensa. Como cada um de nós experimenta, com maior ou menor frequência e intensidade, a inércia que tende a nos manter moralmente como estamos, vale a pena meditar sobre as lúcidas considerações de Kardec nesses ensaios.

Uma primeira referência ao assunto é feita no importante texto intitulado “O egoísmo e o orgulho”. Vejamos sua parte final:

O Espiritismo é, sem contradita, o mais poderoso elemento de moralização, porque mina pela base o egoísmo e o orgulho, facultando um ponto de apoio à moral. Há feito milagres de conversão; é certo que ainda são apenas curas individuais e não raro parciais. O que, porém, ele há produzido com relação a indivíduos constitui penhor do que produzirá um dia sobre as massas. Não lhe é possível arrancar de um só golpe as ervas daninhas. Ele dá a fé e a fé é a boa semente, mas mister se faz que ela tenha tempo de germinar e de frutificar, razão por que nem todos os espíritas já são perfeitos.

Na sequência do ensaio Kardec aborda um tema que lhe é muito caro: a importância da educação moral das crianças, como o meio mais eficaz para corrigir as tendência viciosas que se enraizaram no Espírito.

A outra passagem de Obras Póstumas sobre o aperfeiçoamento moral dos espíritas está no ensaio “Os desertores”. Como indica o título, o ensaio trata daqueles que, dentro do movimento espírita, cultivam discórdias e ciúmes, levantam questões irritantes, propõem cisões, ou tomam-se de entusiasmo irrefletido e danoso. De forma bastante significativa, Kardec chama-os de espíritas de contrabando, já que adentraram o meio espírita sem a devida “chancela” moral. Pois bem: depois de alertar-nos quanto a esse caso, Kardec prossegue:

Se passarmos à categoria dos espíritas propriamente ditos, ainda aí depararemos com certas fraquezas humanas, das quais a doutrina não triunfa imediatamente. As mais difíceis de vencer-se são o egoísmo e o orgulho, as duas paixões fundamentais do homem. Entre os adeptos convictos, não há deserções, na lídima acepção do termo, visto como aquele que desertasse, por motivo de interesse ou qualquer outro, nunca teria sido sinceramente espírita; pode, entretanto, haver desfalecimentos [...].

Todos os outros são espíritas que em verdade merecem esse qualificativo. Aceitam por si mesmos todas as consequências da doutrina e são reconhecíveis pelos esforços que empregam por melhorar-se. Sem desprezarem, além dos limites do razoável, os interesses materiais, estes são, para eles, o acessório e não o principal; não consideram a vida terrena senão como travessia mais ou menos penosa; estão certos de que do emprego útil ou inútil que lhe derem depende o futuro; têm por mesquinhos os gozos que ela proporciona, em face do objetivo esplêndido que entreveem no além; não se intimidam com os obstáculos com que topem no caminho; veem nas vicissitudes e decepções provas que não lhes causam desânimo, porque sabem que o repouso será o prêmio do trabalho. Daí vem que não se verificam entre eles deserções, nem desfalecimentos.

Na famosa viagem que Kardec fez ao sul da França em 1862, diversas questões sobre o Espiritismo e o movimento espírita lhe foram formuladas. Uma delas é relevante para o ponto que estamos considerando. Trata-se da questão que na obra Viagem Espírita em 1862 recebeu o número 2:

P. – Não seria desejável que os espíritas tivessem uma palavra de ordem, um sinal qualquer para se reconhecerem ao se avistarem?

R. – Os espíritas não formam nem uma sociedade secreta, nem uma afiliação, não devendo, pois, possuir nenhum sinal secreto de reconhecimento. Nada ensinam ou praticam que não possa ser conhecido de todos, não tendo, por conseguinte, nada a ocultar. Um sinal, uma palavra de ordem, poderia, além disso, ser apropriada por falsos irmãos, de nada vos adiantando.

Tendes uma palavra de ordem compreendida em todos os cantos do mundo: a caridade. Tal palavra é fácil de ser pronunciada; mas a verdadeira caridade não pode ser falsificada. Pela prática da verdadeira caridade sempre reconhecereis um irmão, ainda que não seja espírita. Deveis estender-lhe a mão, mesmo que não partilhe vossas crenças, pois não deixará por isso de ser benevolente e tolerante.

A resposta de Kardec aponta, pois, diversas inconveniências na introdução de uma palavra de ordem formal ou um sinal exterior qualquer. A “solução” apontada por Kardec para a identificação dos verdadeiros espíritas é usarmos como critério a assimilação, por parte do adepto, do preceito moral da caridade. Como sabemos, esse preceito sintetiza a moral espírita-cristã, de modo que quem o põe em prática, ou ao menos se preocupa incessantemente em praticá-lo, exibe, por isso mesmo, os traços essenciais de um verdadeiro espírita (além, é claro, da aceitação racional dos princípios fundamentais da teoria científico-filosófica do Espiritismo). Ademais, o comportamento marcado pela caridade não é passível de falsificação: quem imitasse o comportamento cristão o tempo todo, sem nunca dele se desviar, já seria, de fato, um verdadeiro cristão.

Para encerrar este trabalho, vejamos alguns outros trechos de Viagem Espírita em 1862 que retomam a classificação dos espíritas em três grupos, e comentam de forma eloquente o assunto da reforma moral dos espíritas. Abrindo a obra estão as “Impressões gerais” da viagem, o relato sucinto das observações mais significativas feitas por Kardec no contato com o movimento espírita nascente. Destacamos, da p. 11 da edição francesa corrente, o seguinte trecho:

Crer já é muito, sem dúvida; mas só a crença não basta, se não conduz a resultados. Infelizmente, há muitos nessa condição: para eles o Espiritismo é apenas um fato, uma bela teoria, uma letra morta, que nada lhes altera no caráter, nem nos hábitos. Ao lado, porém, dos espíritas que simplesmente creem ou são simpáticos à ideia, há os espíritas de coração. Somos feliz de haver encontrado muitos deles; vimos transformações que se poderia dizer milagrosas; coletamos exemplos admiráveis de zelo, abnegação e devotamento, de caridade verdadeiramente evangélica, que poderíamos apropriadamente chamar de belas marcas do Espiritismo.

Notemos, além dos aspectos que já estavam presentes nas citações das outras obras, a expressiva frase “espíritas de coração”, que tão bem destaca essa sensibilização do íntimo do verdadeiro espírita, quando percebe a excelência dos princípios morais espíritas. É essa sensibilização que desperta a vontade e promove “transformações que se poderia dizer milagrosas” no comportamento das pessoas.

Em sua viagem Kardec proferiu também discurso extremamente substancial, dividido em três partes, nas cidades de Lyon e Bordeaux. Na primeira parte aborda, entre outras questões, a de que havia pessoas que se diziam espíritas e mesmo assim se colocavam como seus inimigos. Para explicar tal anomalia recorre novamente à classificação dos espíritas em três grupos. Como o texto apresenta detalhes novos, e um desenvolvimento importante, vale a pena ser transcrito (pp. 25-7):

O que pode, porém, parecer surpreendente é que eu tenha adversários até entre os partidários do Espiritismo. É aqui que uma explicação se faz necessária.

Entre os que adotam as ideias espíritas há, como sabeis, três categorias bem distintas:

1. Os que creem pura e simplesmente nos fenômenos das manifestações, sem deles deduzir nenhuma consequência moral;

2. Os que veem o lado moral, aplicando-o porém aos outros, e não a si próprios;

3. Os que aceitam para si mesmos todas as consequências da doutrina, cuja moral aplicam ou se esforçam por aplicar. Como vós também sabeis, estes são os verdadeiros espíritas, ou espíritas cristãos.

Essa distinção é importante, por explicar diversas anomalias aparentes; sem ela seria difícil entender a conduta de certas pessoas. O que diz a moral espírita? Amai-vos uns aos outros; perdoai vossos inimigos; retribuí o mal com o bem; não alimenteis ódio, rancor, animosidade, inveja ou ciúme; sede severos convosco mesmos e indulgentes com os outros. Tais devem ser os sentimentos de um verdadeiro espírita, daquele que, antes da forma, vê o fundo; que coloca o espírito acima da matéria. Poderá ter inimigos, mas não será inimigo de ninguém, pois que a ninguém considera tal, nem, muito menos, a ninguém procura fazer mal. [...] O Espiritismo tem por divisa: Fora da caridade não há salvação; igualmente verdadeiro é dizer: Fora da caridade não há verdadeiros espíritas. Concito-vos a inscreverem doravante esta dupla máxima em vossa bandeira, pois resume, a um só tempo, o objetivo do Espiritismo e o dever que ele impõe.

Dentre tantos aspectos interessantes dessa passagem, destacamos dois: a incompatibilidade da condição verdadeiro espírita com o cultivo sistemático de defeitos morais graves – no caso em foco, tomar pessoas por inimigas; e a dupla “divisa” proposta para o Espiritismo: Fora da caridade não há salvação, nem verdadeiros espíritas.

Na terceira parte do discurso proferido em Lyon e Bordeaux encontramos estas eloquentes palavras (pp. 57-8):

No princípio das manifestações espíritas, muitos as aceitaram sem lhes prever as consequências; a maioria não viu nelas senão efeitos mais ou menos curiosos. Quando, porém, surgiu daí uma moral severa, com deveres rigorosos a cumprir, muitos não sentiram forças de a praticar, de amoldar-se a ela; não tiveram a coragem do devotamento, da abnegação, da humildade; neles, a natureza corporal sobrepujou a espiritual; puderam crer, mas recuaram diante da execução. Não havia, pois, na origem, senão espíritas, ou seja, crentes. Depois, a filosofia e a moral abriram a essa ciência um horizonte novo, criando os espíritas praticantes. Os primeiros ficaram na retaguarda, os outros seguiram adiante.

Quanto aos espíritas que se formaram depois da estruturação do Espiritismo, Kardec comenta, no parágrafo seguinte, que

a grande maioria aceitou a doutrina precisamente por causa de sua moral e de sua filosofia; eis por que se esforçam por praticá-la. Pretender que devessem todos tornar-se perfeitos seria ignorar a natureza do ser humano. Ainda, porém, que se tenham despojado apenas de algumas partes do homem velho, já será um progresso a ser levado em conta. Só não encontram desculpas aos olhos de Deus aqueles que, estando devidamente esclarecidos, não se aproveitem disso como poderiam. Ser-lhes-ão pedidas contas severas, e, como mostram inúmeros exemplos, poderão sofrer as consequências disso já nesta vida. Ao lado desses, porém, há também muitos em quem uma verdadeira metamorfose operou-se, que encontraram nessa crença a força para vencer pendores de há muito enraizados, para romper com velhos hábitos, para fazer calar ressentimentos e inimizades, para encurtar as separações sociais. Pedem milagres ao Espiritismo: aí estão os que ele produz. (pp. 58-9)

Que nós, que estudamos o Espiritismo e reconhecemos plenamente a sua excelência enquanto ciência e filosofia, possamos aproveitá-lo integralmente, para que também em nós se opere essa sublime “metamorfose”, esse “milagre” da superação de nossas milenares imperfeições morais, rumo à edificação do homem novo, do verdadeiro cristão, do verdadeiro espírita.

 

Referências bibliográficas:

CHIBENI, S. S. “A excelência metodológica do Espiritismo”, Reformador, novembro de 1988, pp. 328-333, e dezembro de 1988, pp. 373-378. (Reproduzido em Mundo Espírita, novembro de 1999, encarte especial. Também disponível no site do Grupo de Estudos Espíritas da Unicamp:

http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482 . (A partir de 2009: www.geeu.net.br .)

–––. “O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso”, 2003, disponível em http://www.geocities.com/Athens/Academy/8482 ). (A partir de 2009: www.geeu.net.br .)

KARDEC, A. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 1ª  ed. francesa. 1ª  ed., bilíngüe, trad. e ed. Canuto Abreu. São Paulo, Companhia Editora Ismael, 1957.

–––. Le Livre des Esprits. Reprodução fotomecânica da 2ª  ed. francesa, com adendos do Autor. 1ª . ed., Rio, Federação Espírita Brasileira, 1998.

–––. O Livro dos Espíritos. Trad. de Guillon Ribeiro. 43ª  ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

–––. Revue Spirite. (Coleção da Federação Espírita do Paraná.) Versões digitais, em imagem, de todos os volumes disponíveis em www.ipeak.com.br .

–––. Qu'est-ce que le Spiritisme. Paris, Dervy-Livres, 1975.

–––. O que é o Espiritismo. (s. trad.) 25ª  ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

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–––. O Livro dos Médiuns. Trad. Guillon Ribeiro, 59ª  ed., revista, Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

–––. Voyage Spirite en 1862. Paris, Vermet, 1988. Uma cópia digital da primeira edição está disponível, a partir de 2011, em www.ipeak.com.br .

–––. L’Évangile selon le Spiritisme. (Reprodução fotográfica da 3ª  edição francesa.) 1ª ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, 1979.

–––. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Guillon Ribeiro. 113ª  ed., Rio, FEB.

–––. Le Ciel et l’Enfer. Farciennes, Editions de l’Union Spirite, 1951.

–––. O Céu e o Inferno. Trad. de Manuel Quintão. 28ª edição, Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d.

–––. Oeuvres Posthumes. (Ed. André Dumas.) Paris, Dervy-Livres, 1978. Também na edição original de Leymarie, em texto eletrônico, Centre d'Études Spirites Léon Denis:

http://perso.wanadoo.fr/charles.kempf/

–––. Obras Póstumas. Trad. Guillon Ribeiro, 18ª  ed., Rio de Janeiro, Federação Espírita Brasileira, s.d



[2]  O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. 10, item 14, “Perdão das ofensas”.

[3] Para uma análise desta última distinção, ver nosso artigo intitulado “O Espiritismo em seu tríplice aspecto: científico, filosófico e religioso”, cuja referência é dada no final.