segunda-feira, 9 de abril de 2018

AMÉLIE GABRIELLE BOUDET[1]


Madame Kardec

Madame Rivail (Sra. Allan Kardec) nasceu em Thiais, cidade do menor e mais populoso Departamento francês – o Sena, aos 2 do Frimário do ano IV, segundo o Calendário Republicano então vigente na França, e que corresponde a 23 de Novembro de 1795.
Filha de Julien-Louis Boudet, proprietário e antigo tabelião, homem, portanto bem colocado na vida, e de Julie-Louise Seigneat de Lacombe, recebeu, na pia batismal o nome de Amélie-Gabrielle Boudet.
A menina Amélie, filha única, aliando desde cedo grande vivacidade e forte interesse pelos estudos, não foi um problema para os pais, que, a par de fina educação moral, lhe proporcionaram apurados dotes intelectuais.
Após cursar o colégio primário, estabeleceu-se em Paris com a família, ingressando numa Escola Normal, de onde saiu diplomada em professora de 1ª classe.
Revela-nos o Dr. Canuto de Abreu que a senhorinha Amélie também foi professora de Letras e Belas Artes, trazendo de encarnações passadas a tendência inata, por assim dizer, para a poesia e o desenho. Culta e inteligente chegou a dar à luz três obras, assim nomeadas: “Contos Primaveris”, 1825; “Noções de Desenho”, 1826; “O Essencial em Belas Artes”, 1828.
Vivendo em Paris, no mundo das letras e do ensino, quis o Destino que um dia a Srta. Amélie Boudet deparasse com o Professor Hippolyte Denizard Rivail.
De estatura baixa, mas bem proporcionada, de olhos pardos e serenos, gentil e graciosa, vivaz nos gestos e na palavra, denunciando inteligência admirável, Amélie Boudet, aliando ainda a todos esses predicados um sorriso terno e bondoso, logo se fez notar pelo circunspecto Prof. Rivail, em quem reconheceu, de imediato, um homem verdadeiramente superior, culto, polido e reto.
Em 6 de Fevereiro de 1832, firmava-se o contrato de casamento. Amélie Boudet, tinha nove anos mais que o Prof. Rivail, mas tal era a sua jovialidade física e espiritual, que a olhos vistos aparentava a mesma idade do marido. Jamais essa diferença constituiu entrave à felicidade de ambos.
Pouco tempo depois de concluir seus estudos com Pestalozzi, no famoso castelo suíço de Zahringen (Yverdun), o Prof. Rivail fundara em Paris um Instituto Técnico, com orientação baseada nos métodos pestalozzianos. Madame Rivail associou-se ao esposo na afanosa tarefa educacional que ele vinha desempenhando no referido Instituto havia mais de um lustro.
Grandemente louvável era essa iniciativa humana e patriótica do Prof. Rivail, pois, não obstante as leis sucessivas decretadas após a Revolução Francesa em prol do ensino, a instrução pública vivia descurada do Governo, tanto que só em 1833, pela lei Guizot, é que oficial e definitivamente ficaria estabelecido o ensino primário na França.
Em 1835, o casal sofreu doloroso revés. Aquele estabelecimento de ensino foi obrigado a cerrar suas portas e a entrar em liquidação. Possuindo, porém, esposa altamente compreensiva, resignada e corajosa, fácil lhe foi sobrepor-se a esses infaustos acontecimentos. Amparando-se mutuamente, ambos se lançaram a maiores trabalhos. Durante o dia, enquanto Rivail se encarregava da contabilidade de casas comerciais, sua esposa colaborava de alguma forma na preparação dos cursos gratuitos que haviam organizado na própria residência, e que funcionaram de 1835 a 1840.
À noite, novamente juntos, não se davam a descanso justo e merecido, mas improdutivo. O problema da instrução às crianças e aos jovens tornara-se para Prof. Rivail, como o fora para seu mestre Pestalozzi, sempre digno da maior atenção. Por isso, até mesmo as horas da noite ele as dividia para diferentes misteres relacionados com aquele problema, recebendo em todos a cooperação talentosa e espontânea de sua esposa. Além de escrever novas obras de ensino, que, aliás, tiveram grande aceitação, o Prof. Rivail realizava traduções de obras clássicas, preparava para os cursos de Lévi-Alvarès, frequentados por toda a juventude parisiense do bairro de São Germano, e se dedicava ainda, em dias certos da semana, juntamente com sua esposa, a professorar as matérias estatuídas para os já referidos cursos gratuitos.
“Aquele que encontrar uma mulher boa, encontrará o bem e achará gozo no Senhor” ‒ disse Salomão. Amélie Boudet era dessas mulheres boas, nobres e puras, e que, despojadas das vaidades mundanas, descobrem no matrimônio missões nobilitantes a serem desempenhadas.
Nos cursos públicos de Matemáticas e Astronomia que o Prof. Rivail bissemanalmente lecionou, de 1843 a 1848, e aos quais assistiram não só alunos, que também professores, no “Liceu Polimático” que fundou e dirigiu até 1850, não faltou em tempo algum o auxilio eficiente e constante de sua dedicada consorte.
Todas essas realizações e outras mais, a bem do povo, se originaram das palestras costumeiras entre os dois cônjuges, mas, como salientou a Condessa de Ségur, deve-se principalmente à mulher, as inspirações que os homens concretizam. No que toca à Madame Rivail, acreditamos que em muitas ocasiões, além de conselheira, foi ela a inspiradora de vários projetos que o marido pôs em execução. Aliás, é o que nos confirma o Sr. P. G. Leymarie (que com ambos privara) ao declarar que Kardec tinha em grande consideração as opiniões de sua esposa.
Graças principalmente às obras pedagógicas do professor Rivail, adotadas pela própria Universidade de França, e que tiveram sucessivas edições, ele e senhora alcançaram uma posição financeira satisfatória.
O nome Denizard Rivail tornou-se conhecido nos meios cultos e além do mais bastante respeitado. Estava aberto para ele o caminho da riqueza e da glória, no terreno da Pedagogia. Sobrar-lhe-ia, agora, mais tempo para dedicar-se à esposa, que na sua humildade e elevação de espírito jamais reclamara coisa alguma.
A ambos, porém, estava reservada uma missão, grandiosa pela sua importância universal, mas plena de exaustivos trabalhos e dolorosos espinhos.
O primeiro toque de chamada verificou-se em 1854, quando o Prof. Rivail foi atraído para os curiosos fenômenos das “mesas girantes”, então em voga no Mundo todo. Outros convites do Além se seguiram, e vemos, em meados de 1855, na casa da Família Baudin, o Prof. Rivail iniciar os seus primeiros estudos sérios sobre os citados fenômenos, entrevendo, ali, a chave do problema que durante milênios viveu na obscuridade.
Acompanhando o esposo nessas investigações, era de se ver a alegria emotiva com que ela tomava conhecimento dos fatos que descerravam para a Humanidade novos horizontes de felicidade. Após observações e experiências inúmeras, o professor Rivail pôs mãos à maravilhosa obra da Codificação, e é ainda de sua cara consorte, então com 60 anos, que ele recebe todo o apoio moral nesse cometimento. Tornou-se ela verdadeira secretária do esposo, secundando-o nos novos e bem mais árduos trabalhos que agora lhe tomavam todo o tempo, estimulando-o, incentivando-o no cumprimento de sua missão.
Sem dúvida, nos espíritas, muito devemos a Amélie Boudet e estamos de acordo com o que acertadamente escreveu Samuel Smiles: “os supremos atos da mulher geralmente permanecem ignorados, não saem à luz da admiração do mundo, porque são feitos na vida privada, longe dos olhos do público, pelo único amor do bem”.
O nome de Madame Rivail enfileira-se assim, com muita justiça, entre os de inúmeras mulheres que a História registrou como dedicadas e fiéis colaboradoras dos seus esposos, sem as quais talvez eles não levassem a termo as suas missões. Tais foram, por exemplo, as valorosas esposas de Lavoisier, de Buckland, de Flaxman, de Huber, de Sir William Hamilton, de Stuart Mill, de Faraday, de Tom Hood, de Sir Napier, de Pestalozzi, de Lutero, e de tantos outros homens de gênio. A todas essas Grandes Mulheres, além daquelas muito esquecidas pela História, a Humanidade é devedora eterna!
Lançado O Livro dos Espíritos, da lavra de Allan Kardec, pseudônimo que tomou o Prof. Rivail, este, meses depois, a 1º de Janeiro de 1858, com o apoio tão somente de sua esposa, deu a lume o primeiro número da “Revue Spirite”, periódico que alcançou mais de um século de existência grandemente benéfica ao Espiritismo.
Havia cerca de seis meses que na residência do casal Rivail, então situada à Rua dos Mártires nº 8, se efetuavam sessões bastante concorridas, exigindo da parte de Madame Rivail uma série de cuidados e atenções, que por vezes a deixavam extenuada. O local chegou a se tornar apertado para o elevado número de pessoas que ali compareciam, de sorte que em Abril de 1858 Allan Kardec fundava, fora do seu lar, a “Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas”. Mais uma obra de grave responsabilidade!
Tomar tais iniciativas naquela recuada época, em que o despotismo clerical ainda constituía uma força, não era tarefa para muitos. Havia necessidade de larga dose de devotamento, firmeza de vistas e verdadeiro espírito de sacrifício.
Ao casal Rivail é que coube, apesar de todos os escolhos e perigos que se lhe deparariam em a nova estrada, empreender, com a assistência e proteção do Alto, a maior revolução de ideias de que se teve notícia nos meados do século XIX.
Allan Kardec foi alvo do ódio, da injúria, da calúnia, da inveja, do ciúme e do despeito de inimigos gratuitos, que a todo custo queriam conservar a luz sob o alqueire.
Intrigas, traições, insultos, ingratidões, tudo de mal cercou o ilustre reformador, mas em todos os momentos de provas e dificuldades sempre encontrou, no terno afeto de sua nobre esposa, amparo e consolação, confirmando-se essas palavras de Simalen: “A mulher é a estrela de bonança nos temporais da vida”.
Com vasta correspondência epistolar, proveniente da França e de vários outros países, não fosse a ajuda de sua esposa nesse setor, sem dúvida não sobraria tempo para Allan Kardec se dedicar ao preparo dos livros da Codificação e de sua revista.
Uma série de viagens (em 1860, 1861, 1862, 1864 etc.) realizou Kardec, percorrendo mais de vinte cidades francesas, além de várias outras da Suíça e da Bélgica, em todas semeando as ideias espíritas. Sua veneranda consorte, sempre que suas forças lhe permitiam, acompanhou-o em muitas dessas viagens, cujas despesas, cumpre informar, corriam por conta do próprio casal. Parafraseando o escritor Carlyle, poder-se-ia dizer que Madame Allan Kardec, pelo espaço de quase quarenta anos, foi a companheira amante e fiel do seu marido, e com seus atos e suas palavras sempre o ajudou em tudo quanto ele empreendeu de digno e de bom.
Aos 31 de Março de 1869, com 65 anos de idade, desencarnava, subitamente, Allan Kardec, quando ultimava os preparativos para a mudança de residência. Foi uma perda irreparável para o mundo espiritista, lançando em consternação a todos quantos o amaram. Madame Allan Kardec, quer partilhara com admirável resignação as desilusões e os infortúnios do esposo, agora, com os cabelos nevados pelos seus 74 anos de existência e a alma sublimada pelos ensinos dos Espíritos do Senhor, suportaria qualquer realidade mais dura. Ante a partida do querido companheiro para a Espiritualidade, portou-se como verdadeira espírita, cheia de fé e estoicismo, conquanto, como é natural, abalada no profundo do ser.
No cemitério de Montmartre, onde, com simplicidade, aos 2 de Abril se realizou o sepultamento dos despojos do mestre, comparecia uma multidão de mais de mil pessoas. Discursaram diversos oradores, discípulos dedicados de Kardec, e por último o Sr. E. Muller, que logo no princípio do seu elogio fúnebre ao querido extinto assim se expressou:
Falo em nome de sua viúva, da qual lhe foi companheira fiel e ditosa durante trinta e sete anos de felicidade sem nuvens nem desgostos, daquela que lhe compartiu as crenças e os trabalhos, as vicissitudes e as alegrias, e que se orgulhava da pureza dos costumes, da honestidade absoluta e do desinteresse sublime do esposo; hoje, sozinha, é ela quem nos dá a todos o exemplo de coragem, de tolerância, do perdão das injúrias e do dever escrupulosamente cumprido.
Madame Allan Kardec recebeu da França e do estrangeiro, numerosas e efusivas manifestações de simpatia e encorajamento, o que lhe trouxe novas forças para o prosseguimento da obra do seu amado esposo.
Desejando os espiritistas franceses perpetuar num monumento o seu testemunho de profundo reconhecimento à memória do inesquecível mestre, consultaram nesse sentido a viúva, que, sensibilizada com aqueles desejos humanos mas sinceros, anuiu, encarregando desde logo uma comissão para tomar as necessárias providências. Obedecendo a um desenho do Sr. Sebille, foi então levantado no cemitério do Père-Lachaise um dólmen, constituído de três pedras de granito puro, em posição vertical, sobre as quais se colocou uma quarta pedra, tabular, ligeiramente inclinada, e pesando seis toneladas. No interior deste dólmen, sobre uma coluna também de pedra, fixou-se um busto, em bronze, de Kardec.
Esta nova morada dos despojos mortais do Codificador foi inaugurada em 31 de Março de 1870 , e nessa ocasião o Sr. Levent, vice-presidente da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, discursou, a pedido de Madame Allan Kardec, em nome dela e dos amigos.
Cerca de dois meses após o decesso do excelso missionário de Lyon, sua esposa, no desejo louvável de contribuir para a realização dos plano futuros que ele tivera em mente, e de cujas obras, revista e Livraria passou a ser a única proprietária legal, houve por bem, no interesse da Doutrina, conceder todos os anos certa verba para uma “Caixa Geral do Espiritismo”, cujos fundos seriam aplicados na aquisição de propriedades, a fim de que pudessem ser remediadas quaisquer eventualidades futuras.
Outras sábias decisões foram por ela tomadas no sentido de salvaguardar a propaganda do Espiritismo, sendo, por isso, bastante apreciado pelos espíritas de todo o Mundo o seu nobre desinteresse e devotamento.
Apesar de sua avançada idade, Madame Allan Kardec demonstrava um espírito de trabalho fora do comum, fazendo questão de tudo gerir pessoalmente, cuidando de assuntos diversos, que demandariam várias cabeças. Além de comparecer à reuniões, para as quais era convidada, todos os anos presidia à belíssima sessão em que se comemorava o Dia dos Mortos, e na qual, após vários oradores mostrarem o que em verdade significa a morte à luz do Espiritismo, expressivas comunicações de Espíritos Superiores eram recebidas por diversos médiuns.
Se Madame Allan Kardec – conforme se lê em Revue Spirite de 1869 – se entregasse ao seu interesse pessoal, deixando que as coisas andassem por si mesmas e sem preocupação de sua parte, ela facilmente poderia assegurar tranquilidade e repouso à sua velhice. Mas, colocando-se num ponto de vista superior, e guiada, além disso, pela certeza de que Allan Kardec com ela contava para prosseguir, no rumo já traçado, a obra moralizadora que lhe foi objeto de toda a solicitude durante os últimos anos de vida, Madame Allan Kardec não hesitou um só instante. Profundamente convencida da verdade dos ensinos espíritas, ela buscou garantir a vitalidade do Espiritismo no futuro, e, conforme ela mesma o disse, melhor não saberia aplicar o tempo que ainda lhe restava na Terra, antes de reunir-se ao esposo.
Esforçando-se por concretizar os planos expostos por Allan Kardec, em Revue Spirite de 1868, ela conseguiu, depois de cuidadosos estudos feitos conjuntamente com alguns dos velhos discípulos de Kardec, fundar a Sociedade Anônima do Espiritismo.
Destinada à vulgarização do Espiritismo por todos os meios permitidos pelas leis, a referida sociedade tinha, contudo, como fito principal, a continuação da “Revue Spirite”, a publicação das obras de Kardec e bem assim de todos os livros que tratassem do Espiritismo.
Graças, pois, à visão, ao empenho, ao devotamento sem limites de Madame Allan Kardec, o Espiritismo cresceu a passos de gigante, não só na França, que também no Mundo todo.
Estafantes eram os afazeres dessa admirável mulher, cuja idade já lhe exigia repouso físico e sossego de espírito. Bem cedo, entretanto, os Céus a socorreram. O Sr. P. G. Leymarie, um dos mais fervorosos discípulos de Kardec, desde 1858, médium, homem honesto e trabalhador incansável, assumiu em 1871 a gerência da Revue Spirite e da Livraria, e logo depois, com a renúncia dos companheiros de administração da sociedade anônima, sozinho tomou sob os ombros os pesados encargos da direção. Daí por diante, foi ele o braço direito de Madame Allan Kardec, sempre acatando com respeito as instruções emanadas da venerável anciã, permitindo que ela terminasse seus dias em paz e confiante no progresso contínuo do Espiritismo.
Parecendo muito comercial, aos olhos de alguns espíritas puritanos, o título dado à Sociedade, Madame Allan Kardec, que também nunca simpatizara com esse título, mas que o aceitara por causa de certas conveniências, resolveu, na assembleia geral de 18 de Outubro de 1873, dar-lhe novo nome: “Sociedade para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”, satisfazendo com isso a gregos e troianos.
Muito ainda fez essa extraordinária mulher a prol do Espiritismo e de todos quantos lhe pediam um conselho ou uma palavra de consolo, até que em 21 de Janeiro de 1883, às 5 horas da madrugada, docemente, com rara lucidez de espírito, com aquele mesmo gracioso e meigo sorriso que sempre lhe brincava nos lábios, desatou-se dos últimos laços que a prendiam à matéria.
A querida velhinha tinha então 87 anos, e nessa idade, contam os que a conheceram, ainda lia sem precisar de óculos e escrevia ao mesmo tempo corretamente e com letra firme.
Aplicando-lhe as expressões de célebre escritor, pode-se dizer, sem nenhum excesso, que “sua existência inteira foi um poema cheio de coragem, perseverança, caridade e sabedoria”.
Compreensível, pois, era a consternação que atingiu a família espírita em todos os quadrantes do globo. De acordo com o seus próprios desejos, o enterro de Madame Allan Kardec foi simples e espiriticamente realizado, saindo o féretro de sua residência, na Avenida e Vila Ségur nº  39, para o Père-Lachaise, a 12 quilômetros de distância.
Grande multidão, composta de pessoas humildes e de destaque, compareceu em 23 de Janeiro às exéquias junto ao dólmen de Kardec, onde os despojos da velhinha foram inumados e onde todos os anos, até à sua desencarnação, ela compareceu às solenidades de 31 de março.
Na coluna que suporta o busto do Codificador foram depois gravados, à esquerda, esses dizeres em letras maiúsculas: AMÈLIE GABRIELLE BOUDET – VEUVE ALLAN KARDEC – 21 NOVEMBRE 1795 – 21 JANVIER 1883.
No ato do sepultamento falaram os Srs. P.G. Leymarie, em nome de todos os espíritas e da “Sociedade para a Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”, Charles Fauvety, ilustre escritor e presidente da “Sociedade Científica de Estudos Psicológicos”, e bem assim representantes de outras Instituições e amigos, como Gabriel Delanne, Cot, Carrier, J. Camille Chaigneau, poeta e escritor, Lecoq, Georges Cochet, Louis Vignon, que dedicou delicados versos à querida extinta, o Dr. Josset e a distinta escritora, a Sra. Sofia Rosen-Dufaure, todos fazendo sobressair os reais méritos daquela digna sucessora de Kardec. Por fim, com uma prece feita pelo Sr. Warroquier, os presentes se dispersaram em silêncio.
A nota mais tocante daquelas homenagens póstumas foi dada pelo Sr. Lecoq. Leu ele, para alegria de todos, bela comunicação mediúnica de Antonio de Pádua, recebida em 22 de Janeiro, na qual esse iluminado Espírito descrevia a brilhante recepção com que elevados Amigos do Espaço, juntamente com Allan Kardec, acolheram aquele ser bem aventurado.
No improviso do Sr. P.G. Leymarie, este relembrou, em traços rápidos, algo da vida operosa da veneranda extinta, da sua nobreza d'alma, afirmando, entre outras coisas, que a publicação tanto de O Livro dos Espíritos, quanto da Revue Spirite, se deveu em grande parte à firmeza de ânimo, à insistência, à perseverança de Madame Allan Kardec.
Não deixando herdeiros diretos, pois que não teve filhos, por testamento fez ela sua legatária universal a “Sociedade para Continuação das Obras Espíritas de Allan Kardec”. Embora uma parenta sua, já bem idosa, e os filhos desta intentassem anular essas disposições testamentárias, alegando que ela não estava em perfeito juízo, nada, entretanto, conseguiram, pois as provas em contrário foram esmagadoras.
Em 26 de Janeiro de 1883, o conceituado médium parisiense Sr. E. Cordurié recebia espontaneamente uma mensagem assinada pelo Espírito de Madame Allan Kardec, logo seguida de outra, da autoria de seu esposo. Singelas na forma, belas nos conceitos, tinham ainda um sopro de imortalidade e comprovavam que a vida continua...




sábado, 7 de abril de 2018

O SUS, as terapias alternativas, o “Passe”, as remunerações e o “dai de Graça”[1]



Jorge Hessen

O Ministério da Saúde promulgou a admissão de determinadas “terapias alternativas” ao Sistema Único de Saúde (SUS), dentre as quais a terapia por imposição de mãos (seria o Reiki oriundo do vitalismo, criado em 1922 pelo monge budista japonês Mikao Usui? Ou seria apenas a imposição de mãos sem apelo “religioso” e configurando apenas transfusão magnética tal como ocorre nas casas espíritas? Seriam os dois?
Além da tal imposição de mãos, o SUS também vai bancar tratamentos alternativos como apiterapia, aromaterapia, bioenergética, constelação familiar, cromoterapia, geoterapia, hipnoterapia, ozonioterapia e terapia de florais. Esses procedimentos são chamados de Práticas Integrativas e Complementares (Pics), pois utilizam recursos terapêuticos baseados em tradições populares, voltados para “curar” e prevenir algumas supostas doenças.
Sobre as tais “imposições das mãos”, será que é fator alvissareiro, será que poderá abrir as portas laicas e as mentes para a realidade inquestionável da força do chamado “passe espírita” ou melhor do passe gerido pelos Espíritos? Ou será que uma prática tão sublime será banalizada?
O que podemos ponderar sobre tal complexo assunto?
Uma questão subjacente que deve ser abordada com muito cuidado é justamente o gerenciamento dos agentes dessas “terapias alternativas”, isto é, como escolher e nomear esses “profissionais”? Não se pode perder de vista que tais terapias serão aplicadas por “especialistas” contratados, portanto serão “profissionais” devidamente assalariados para tal função! Diante disso, considerando que haja passista espírita entre os terapeutas, respeitando os preceitos cristãos, recomendamos o alerta ‒ “dai de graça o que de graça recebestes[2]”.
Sobre esse assunto já li sugestões charmosas e outras um tanto quanto absurdas. Uma delas seria a possibilidade dos centros espíritas oferecerem os serviços de passes gratuitamente nas unidades do SUS. Mas, há os incautos que insinuam a destinação do eventual salário aos profissionais para as instituições beneficentes e/ou espíritas. Ora isto seria um abjeto comércio dos dons mediúnicos. Recordemos que todo serviço espiritual gratuito é padrão da legítima prática espírita.
Ante esse panorama que está sendo construído na área de saúde pública, certamente haverá “espíritas” que desculparão a própria consciência nutrindo o subterfúgio de que aplicar passe e ser remunerado pelo SUS não é comerciar a caridade do passe. Possivelmente haverá esvaziamento da voluntária doação gratuita do passe nas casas espíritas, pois os passistas “desempregados” estarão disputando vagas no SUS. E se forem contratados, na melhor das hipóteses, estarão cansados à noite para a tarefa espírita. Ou, ainda, na pior das hipóteses, poderão disputar parte do valor que deverá ser revertido a eles próprios que também têm dificuldade financeira.
Sabemos que há alguns hospitais que ainda não consentem a aplicação de passes quando confrades espíritas visitam os enfermos nas enfermarias. Talvez proíbam por prevenção ideológica ou preconceito médico e ou religioso. Seguramente, diante dessa nova norma do governo, creio que essa oposição poderá ser atenuada. Ou por outro lado, talvez o empecilho aumente, pois, considerando que o serviço será remunerado (pelo SUS), não será fácil convencer que “passistas” profissionais não terão a ideia brilhante de entrar na justiça do trabalho pedindo vínculo empregatício com os hospitais que permitirem o gesto “caridoso”. Tudo é possível. O tema é complexo e vai muito além do que talvez estejamos avistando.
Quem sabe a ação constituída pela chamada liderança espírita junto ao governo seja oportuna nesta circunstância. Afinal de contas o atual governo está bradando por terapêuticas alternativas pelo SUS. Diante de tal desafio, será que o espírita terá capacidade de aprovisionar, de graça, e com preparação organizada dos passistas a fim de formalizar as normas oficiais de procedimento sob o princípio do voluntariado perante os hospitais?

Fonte: A Luz na Mente

sexta-feira, 6 de abril de 2018

A abordagem beligerante da desobsessão[1]



Marcus Vinicius de Azevedo Braga

1. A visão beligerante
O escritor argentino Eugenio Raúl Zaffaroni[2], no estudo do punitivismo com uma das facetas do Direito Penal, traz como uma das ideias centrais de suas pesquisas que o poder punitivo se construiu na sociedade moderna como uma forma de tratamento hostil para os seres humanos enquadrados em determinadas situações, negando-lhes a condição de pessoa, seus direitos fundamentais, legitimando para estes o tratamento estigmatizante, segregador. Um inimigo do Estado, em uma visão polarizada do mundo, que produz um estado de guerra permanente, que gera medo e coalizão, mas uma união de trincheira.
Essa visão do inimigo que deve ser perseguido e exterminado não figura apenas no Direito Penal punitivista, mas também surge no histórico religioso do fenômeno da Inquisição, como sistema jurídico canônico para combater a heresia, esta que seria capitaneada por uma entidade sobrenatural causadora de todo o mal, que agiria por meio de ardis e tentações.
Modelos tão antigos, mas tão atuais.
Muito ódio permeia essas abordagens de questões religiosas e sociais, e olhando mais amiúde a literatura espírita sobre o fenômeno da desobsessão (a oficial e a controversa), sejam os livros mais técnico-procedimentais, sejam as obras mais romanceadas, figura por vezes, de forma sutil ou ostensiva, uma visão dos espíritos sofredores como inimigos a serem combatidos e expulsos.
Um superdimensionamento conspiratório das organizações dos desencarnados em sofrimento, que é uma visão recorrente no Movimento Espírita, presente também nas falas e práticas, nas quais as pessoas revelam síndromes de perseguição nas quais atribuem suas mazelas aos obsessores, ou ainda, taxam de obsediado qualquer um que apresente opinião divergente do status quo.
Esse discurso de medo, que lembra as histórias de súcubos e de bruxas da Idade Média, ou ainda, lendas escapistas como o Boto no Brasil amazônico, alimentam uma visão teológica de medo e de delegação das responsabilidades individuais, com medidas saneadoras no sentido de se combater esse inimigo, que ainda que chamado de irmão, é visto não como alguém, mas como algo.
Alimentam-se, assim, paranoias, que abrem espaços, inclusive, para que as pessoas sejam vítimas da extorsão por médiuns interesseiros, ou ainda, para que se comportem como soldados de uma guerra sem sentido, buscando estratégias para atacar esse suposto inimigo, motivados no trabalho de assistência espiritual por fatores estranhos à essência dessas atividades.

2. Quem é o inimigo?
Essa visão do inimigo do bem, do espiritismo, da casa, ou seja, “meu” inimigo, surge então na prática da desobsessão nas casas espíritas, constituindo mais um atavismo, uma importação de paradigmas de tempos inquisitoriais, ou de outras denominações religiosas, que tem como foco o exterior, um mal alienígena que precisa ser expulso, ou exorcizado, e que devemos orar e vigiar, em um binômio que poderia ser traduzido como temer e se proteger.
Essa abordagem não adentra nas relações que suportam o processo da obsessão, as paixões, os compromissos passados, e traz tudo para uma visão de uma eterna labuta entre o bem e o mal, como se existissem dois poderes rivais no governo do mundo, e que devêssemos nos posicionar em relação a estes, em uma visão oriunda de uma época em que o homem se encontrava ainda incapaz de, pela razão, penetrar a essência do Ser supremo[3]. Uma matriz desumanizada e que difere em muito da visão da Doutrina Espírita dos atributos de Deus, e do nosso papel na evolução, como encarnados e como desencarnados.
Aí ouvem-se os discursos de que temos que estar atentos, pois querem derrubar o nosso trabalho. Narrativas mirabolantes de tramas que são feitas na espiritualidade para destruir reuniões, parecendo, por vezes, que em nossas residências estaríamos tranquilos e que basta nos filiarmos a um trabalho, para sermos objeto de uma perseguição desenfreada.
Terminamos assim por enxergar os espíritos desencarnados não como seres em evolução, como nós, mas como inimigos que precisam ser combatidos. E nesse desiderato, nos arvoramos como cruzados nas lutas contra as forças do mal das falanges desencarnadas. Esquecemos nossa natureza, que somos todos filhos de Deus, e preferimos o comodismo de um pensamento maniqueísta que busca bons e maus absolutos, indicando apenas a quem devemos combater. O mundo é mais complexo que isso.
Idealizamos heróis, vilões, e aventuras fantásticas, nas quais queremos arregimentar um exército e clamamos por união, motivados pelo medo do que poderá nos acontecer se não encararmos esse inimigo de forma coesa, como em uma organização militar, na busca de uma vitória de Pirro.
O espírito sofredor, agindo individualmente ou por meio de alguma organização, é um agente motivado por interesses, forças, desejos, paixões, como nós, e se busca agir contra casas e trabalhos, vociferando e ameaçando, merece de nós uma postura mais refletida, mais amena, para além de se colocar como inimigo em uma guerra, na qual não devemos nos alistar.

3. Quem é você?
Nesse sentido, a pergunta é qual o nosso papel nessa prática de lidar com obsessores e obsediados em nossas reuniões mediúnicas? Se focarmos em ardis, escaramuças e ainda, na busca da vitória que não virá, pois não é uma batalha, nos afogaremos nessa lógica de buscar o inimigo, e de expulsá-lo ou exterminá-lo, em um paradigma antigo, ainda que por vezes fantasiados por palavras doces e cândidas.
A atividade do dialogador, outrora chamado equivocadamente de doutrinador, não é uma tertúlia racional na qual se impõe a um contendor as nossas verdades, ou de uma doutrina. Assemelha-se muito mais a um esclarecimento ou acolhimento, do que um duelo verbal. Não resgatamos vítimas de obsessores, e sim buscamos atender espíritos que estão irmanados em um sofrimento mútuo, aparentemente vestidos de algozes e vítimas.
Não somos soldados. Somos vetores do amor.
Não podemos patrocinar visões incoerentes com a mensagem de amor do espiritismo, em propostas que fortaleçam o medo, a exteriorização das mazelas, relembrando a lição de Kardec[4], que indica que: “No tocante ao Espírito obsessor, por mau que ele seja, é necessário tratá-lo com serenidade, mas ao mesmo tempo com benevolência, vencendo-o pelo bom procedimento, orando por ele”, ensinando-nos que a forma de vencer essa guerra é não vê-la como um confronto. Não nos cabe jogar querosene nessas fogueiras, e sim, água!
O problema não são os espíritos sofredores, magos das sombras, e as suas diversas formas de organização que apimentam a nossa imaginação, e sim como encaramos nas atividades mediúnicas essas interações. Agiremos da mesma forma de outrora, como uma guerra fluídica, energética, verbal, ou entenderemos que a nossa abordagem é que deve ser diferente, pautada no amor, no exemplo, e no conhecimento de forma instrumental que ajude aquele irmão a romper aquele ciclo?
Por óbvio, que quando o espírito se manifesta na psicofonia com ameaças e bravatas, é normal que tenhamos medo, mas é preciso compreender a lógica da causa e efeito trazida pelo espiritismo, e ainda, que nosso papel ali não é de guerreiro que combate o inimigo ali trazido, devendo dar respostas à altura, mas sim de um irmão pelo qual a espiritualidade instrumentaliza o atendimento aquele outro irmão em humanidade, e ainda aproveita aquela interação para ensinar lições profundas a todos que participam da reunião.

4. Conclusão
O livro “O Céu e o Inferno”, de Allan Kardec, uma obra pouco lida, citada e estudada, trata mais do que da Justiça Divina, e sim da quebra dos paradigmas da teologia cristã, mostrando que o espiritismo enxerga essas relações metafísicas de outra forma, consoante com a visão de um Deus justo e bom, e ainda, das vidas sucessivas.
O fracasso dessa quebra de paradigmas se reflete em práticas e discursos, e no caso discutido aqui, em nossa visão dos espíritos sofredores e da abordagem dada na interação com estes.
A visão do obsessor inimigo, que quer nos derrubar, mascara pela sua polarização as relações de nossas reuniões, nem tão perfeitas e ungidas assim, e desses espíritos, desorientados e que sustentam ameaças para esconder as suas fraquezas.
Fiéis à essência do pensamento espírita, enxerguemos o amor como remédio que cura doentes na atividade de obsessão, e não antagonismos que partidarizam grupos, e superestimam nós e eles, quando na verdade somos todos viajores dessa longa estrada chamada evolução.




[2] ZAFFARONI, Eugenio Raúl. O inimigo no direito penal. Tradução de Sérgio Lamarão. 2. ed. Rio de Janeiro: Revan, 2007. (Coleção Pensamento Criminológico).
[3] KARDEC, Allan. O céu e o inferno. [tradução de Manuel Justiniano Quintão]. 61. ed. 1. imp. (Edição Histórica) – Brasília: FEB, 2013.
[4] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Tradução da 2ª. edição francesa por J. Herculano Pires. São Paulo – LAKE, 2004.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

PROVAS VOLUNTÁRIAS E VERDADEIRO CILÍCIO[1]


Doutores da Alegria

Um Anjo da Guarda – Paris, 1863


Perguntais se é permitido abrandar as vossas provas. Essa pergunta lembra estas outras: é permitido ao que se afoga procurar salvar-se? E a quem espetou-se num espinho, retirá-lo? Ao que está doente, chamar um médico?
As provas têm por fim exercitar a inteligência, assim como a paciência e a resignação. Um homem pode nascer numa posição penosa e difícil, precisamente para obrigá-lo a procurar os meios de vencer as dificuldades.
Mérito consiste em suportar sem murmurações as consequências dos males que não se podem evitar, em perseverar na luta, em não se desesperar quando não se sai bem, e nunca em deixar as coisas correrem, que seria antes preguiça que virtude.
Essa questão nos conduz naturalmente a outra. Desde que Jesus disse: "Bem-aventurados os aflitos", há méritos em procurar as aflições, agravando as provas por meio de sofrimentos voluntários? A isso responderei muito claramente: sim, e um grande mérito, quando os sofrimentos e as privações têm por fim o bem do próximo, porque se trata da caridade pelo sacrifício; não, quando eles só têm por fim o bem próprio, porque se trata de egoísmo pelo fanatismo.
Há uma grande distinção a fazer. Quanto a vós, pessoalmente, contentai-vos com as provas que Deus vos manda, não aumenteis a carga já por vezes bem pesada; aceitai-as sem queixas e com fé, eis tudo o que Ele vos pede.
Não enfraqueçais o vosso corpo com privações inúteis e macerações sem propósito, porque tendes necessidade de todas as vossas forças, para cumprir vossa missão de trabalho na Terra. Torturar voluntariamente, martirizar o vosso corpo, é infringir a lei de Deus, que vos dá os meios de sustentá-lo e de fortalecê-lo. Debilitá-lo sem necessidade é um verdadeiro suicídio. Usai, mas não abuseis: tal é a lei. O abuso das melhores coisas traz as suas punições, pelas consequências inevitáveis.
Bem outra é a questão dos sofrimentos que uma pessoa se impõe para aliviar o próximo. Se suportardes o frio e a fome para agasalhar e alimentar aquele que necessita, e vosso corpo sofrer com isso, eis um sacrifício que é abençoado por Deus.
Vós, que deixais vossos toucadores perfumados para levar consolação aos aposentos infectos; que sujais vossas mãos delicadas curando chagas; que vos privais do sono para velar à cabeceira de um doente que é vosso irmão em Deus; vós enfim, que aplicais a vossa saúde na prática das boas obras, tendes nisso o vosso cilício[2], verdadeiro cilício de bênçãos, porque as alegrias do mundo não ressecaram o vosso coração. Vós não adormecestes no seio das voluptuosidades enlanguescedoras da fortuna, mas vos transformastes nos anjos consoladores dos pobres deserdados.
Mas vós que vos retirais do mundo para evitar suas seduções e viver no isolamento, qual a vossa utilidade na Terra? Onde está a vossa coragem nas provas, pois que fugis da luta e desertais do combate? Se quiserdes um cilício, aplicai-o à vossa alma e não ao vosso corpo; mortificai o vosso Espírito e não a vossa carne; fustigai-o vosso orgulho; recebei as humilhações sem vos queixardes; machucai vosso amor-próprio; insensibilizai-vos para a dor da injúria e da calúnia, mais pungente que a dor física. Eis aí o verdadeiro cilício, cujas feridas vos serão contadas, porque atestarão a vossa coragem, e a vossa submissão à vontade de Deus.




[1] O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo V – Bem Aventurados os Aflitos – Allan Kardec.
[2] Cilício era uma túnica, cinto ou cordão de crina, que se trazia sobre a pele para mortificação ou penitência. Acessado em https://pt.wikipedia.org/wiki/Cil%C3%ADcio

quarta-feira, 4 de abril de 2018

Como assim!? Crianças em reuniões mediúnicas?[1]



Dora Incontri – Publicado em 24/03/2018

Nos últimos meses, por conta de diversos debates em que a Associação Brasileira de Pedagogia Espírita tem se envolvido, marcando posições claras, temos recebido centenas de retornos via e-mail, comentários no blog e no Facebook. Muitas nos indagaram a respeito da participação de crianças em reuniões mediúnicas.
O que se dá é que as crianças – nem todas – podem apresentar percepções mediúnicas muito cedo e precisam ser orientadas. E quando a mediunidade estoura, principalmente na adolescência, precisa ser aceita e trabalhada.
O trato com os espíritos – assim nos ensina Kardec – deve ser sério, ético, bem orientado, mas também natural, em grupos familiares, pequenos, sem mistérios, sem hierarquias. Todo mundo sabe que o Espiritismo nasceu através de meninas médiuns, adolescentes. As Baudin, Ermance Dufaux, Jafet, entre outras.  Na Revista Espírita, Kardec narra o seguinte episódio, encantador, que até transcrevi em minha tese sobre Pedagogia Espírita, na USP:
“Um dia, ele (o menino) se achava em casa de uma pessoa do seu conhecimento e brincava no páteo com sua priminha, de cinco anos, dois meninos, um de sete, outro de quatro anos. A senhora que morava no rés-do-chão os convidou a entrar em sua casa e lhes deu bombons. As crianças, como se pode imaginar, não se fizeram de rogadas.
A senhora perguntou ao filho do Sr. Delanne:
Como te chamas, meu filho?
— Eu me chamo Gabriel, senhora.
Que faz teu pai?

— Senhora, meu pai é espírita.

Não conheço esta profissão.
— Mas, senhora, não é uma profissão; meu pai não é pago para isto, ele o faz com desinteresse e para fazer o bem aos homens.
Meu rapazinho, não sei o que queres dizer.

— Como! Jamais ouvistes falar das mesas girante?

Então, meu amigo, bem gostaria que teu pai estivesse aqui para as fazer girar.

— É inútil, senhora, eu tenho, eu mesmo, o poder de as fazer girar.

Então, queres experimentar e me fazer ver como se procede?

— De boa vontade, senhora.

Dito isto, ele se senta ao pé da mesinha da sala e faz sentar os seus três camaradinhas; e eis os quatro gravemente pondo as mãos em cima. Gabriel fez uma evocação, em tom muito sério e com recolhimento. Apenas terminou, para grande estupefação da senhora e das crianças a mesa ergueu-se e bateu com força.
— Perguntai, senhora, quem vem responder pela mesa.
A vizinha interroga e a mesa soletra as palavras: teu pai. A senhora empalidece de emoção. E continua: então, meu pai, podes dizer se devo mandar a carta que acabo de escrever? — A mesa responde: Sim, sem dúvida. — Para me provar que és tu, meu bom pai, que estás aí, podias dizer há quantos estás morto? — Logo a mesa bate oito pancadas bem acentuadas. Era justo o número de anos. — Podias dizer teu nome e o da cidade onde morreste? — A mesa soletra os dois nomes.

As lágrimas jorraram dos olhos daquela senhora, que não pode mais continuar, aterrada por esta revelação e dominada pela emoção. (…) não é a primeira vez que a mediunidade se revela em crianças, na intimidade das famílias. Não é a realização daquela palavra profética: Vossos filhos e vossas filhas profetizarão (Atos, II, 17)?
Como se depreende dessa narrativa e de outras, que podem ser lidas na Revista Espírita, as crianças participavam de reuniões mediúnicas familiares no tempo de Kardec, como também acontecia até as décadas de 60 e 70, no movimento espírita brasileiro.
O que mudou?
O movimento se institucionalizou, se hierarquizou, se engessou. Perdeu convívio, familiaridade, naturalidade, humanismo, olho no olho. Virou algo cheio de regras (que nada têm a ver com Kardec), apostilado, empobrecido, em que as pessoas se sentem distanciadas, desempoderadas e cada vez mais incapazes de lidar com o fenômeno mediúnico.
Na ABPE, recebemos inúmeras pessoas, entre adolescentes, jovens e maduras, que simplesmente não encontram espaço para trabalhar a mediunidade, em centros espíritas convencionais. Tudo muito demorado, desumanizado, com dirigentes ríspidos e muitas vezes castradores. Para começar a aplicar um passe ou ter permissão para receber um mentor, 5 anos de curso básico, mais 3 de curso de desenvolvimento mediúnico e quando passou tudo isso, a mediunidade secou ou o cidadão já desistiu.
A outra situação são os centros comandados por algum médium de relativo destaque e onde só o tal pode ser médium…
Então, o que se dá é que egos inchados, incapacidade de acolher e desenvolver pessoas que possam contribuir no espiritismo, visão burocrática e apostilada da mediunidade – tudo isso leva a um espiritismo sem espíritos. E quando há espíritos, o médium guru monopoliza a mediunidade e como suas manifestações não estão sujeitas à crítica, vira essa miscelânea oba-oba que impera em muitos centros, livros e no movimento em geral.
Hoje mesmo, na mediúnica para iniciantes da ABPE, em Bragança Paulista, conversávamos, algumas pessoas mais maduras e idosas, sobre como havia sido nossa convivência com a mediunidade na infância: familiar, natural, doméstica.  Eu mesma posso contar da minha experiência pessoal nesse sentido. Desde muito pequena, via reuniões domésticas em casa, com comunicações de espíritos e achava isso muito natural. Muitas vezes, participei de orações na casa de Herculano Pires (que frequentava desde dois anos de idade) e via por exemplo, as comunicações da Irmã Ditinha, uma preta velha que dava valiosos conselhos, inclusive para as crianças.
Aos 11, estava morando com minha família na Alemanha, onde não havia nem em sonho algum centro espírita, e comecei a psicografar poesias. Aos 15, já de volta ao Brasil, comecei a trabalhar, como médium de psicofonia, na reunião mediúnica do Centro Espírita Cairbar Schutel, dirigido por Herculano.
As mediunidades, que se tornarão uma tarefa existencial do indivíduo, começam cedo. E devem ser acolhidas, orientadas. Eu jamais poderia esperar para fazer um curso de anos, apostilado, num centro espírita, para começar a exercer as faculdades inatas que trazia e que quando vêm à tona, são altamente perturbadoras. Aos 11, comecei a ler livros espíritas, para entender o que se passava comigo. Aos 14, já havia devorado vários livros de Kardec, incluindo O Livro dos Médiuns de cabo a rabo.
Para resumir em itens claros, precisos e absolutamente dentro do que propôs Kardec (porque se algumas das posições das obras de Kardec podem ser revistas hoje por conta do contexto histórico em que viveu, o que permanece insuperável é a sua proposta simples, série, racional e ética no trato com a mediunidade):
1) Crianças podem sim, desde que não tenham medo, participar de reuniões mediúnicas familiares, ouvir mentores, presenciar comunicações de espíritos sofredores, ver fenômenos outros como psicografia, pintura mediúnica etc. E é até muito bom que o façam, pois para elas, a imortalidade da alma e a comunicação com os espíritos vai se tornando algo natural, como aliás, é de fato.
2) Crianças devem ser acolhidas e orientadas na oração, no estudo, se têm percepções mediúnicas. Mas não devem desenvolver mediunidade.
3) Adolescentes podem e devem desenvolver sua mediunidade, orientados por médiuns mais experientes, e acompanhados nos estudos, se mostrarem fenômenos e percepções que possam ser interpretados como fenômenos mediúnicos. Há que se ter o necessário discernimento para saber se o jovem está psiquicamente saudável e pode assumir tal responsabilidade.
4) Os adultos que quiserem ou necessitar trabalhar a própria mediunidade, podem e devem fazê-lo, estudando Kardec sozinho ou em grupo, participando de reuniões, com médiuns experientes e confiáveis.
5) As reuniões mediúnicas devem ser com poucas pessoas, afinadas, conectadas afetivamente, numa organização desierarquizada, onde todos se tratem de maneira fraternal e igualitária, em que as pessoas se sintam à vontade para serem médiuns, mas também encontrem crítica amistosa.

Isso é espiritismo. O resto virou igreja. E se continuarmos nessa via em que estamos, teremos um movimento espírita sem espíritos!

terça-feira, 3 de abril de 2018

RELAÇÕES SIMPÁTICAS ENTRE VIVOS E MORTOS[1]

(Sociedade Espírita de Argel – Médium: Sr. B...)


Por que, em nossas conversas com os Espíritos das pessoas que nos foram muito queridas, sentimos um embaraço, uma frieza mesmo, que jamais teríamos sentido quando elas eram vivas?
Resposta:
Porque sois materiais e nós não mais o somos.
Vou fazer uma comparação que, como todas as comparações, não será absolutamente exata; contudo, o será bastante para o que quero dizer.
Suponho que experimentes por uma mulher uma dessas paixões que só os romancistas imaginam entre vós e que considerais exageradas, enquanto para nós parecem pouco diferir, pelo menos das que conhecemos na vastidão infinita.
Continuo supondo. Depois de ter tido, por algum tempo, a felicidade inefável de falar diariamente com essa mulher e de a contemplar tanto quanto possível, uma circunstância qualquer faz com que não mais a possas ver e que deves contentar-te apenas em ouvi-la.
Crês que teu amor resistiria sem nenhuma brecha a uma situação desse gênero, prolongada indefinidamente? Confessa que ele sofreria alguma modificação, ou aquilo que chamaríamos uma diminuição.
Vamos mais longe. Não só não poderás mais ver esta bela amiga, mas nem mesmo poderás ouvi-la. Não deixam que te aproximes dela. Prolonga essa situação durante alguns anos e vê o que acontecerá.
Agora, mais um passo. A mulher que amas está morta; há muito tempo encontra-se sepultada nas trevas do sepulcro.
Nova mudança em ti. Não quero dizer que a paixão esteja morta com o seu objeto, mas sustento que, pelo menos, transformou-se.
E de tal modo que, se por um favor celeste, a mulher que tanto lamentas e por quem sempre choras viesse apresentar-se à tua frente, não na odiosa realidade do esqueleto que repousa no cemitério, mas sob a forma que amavas e adoravas até o êxtase, estás bem seguro de que o primeiro efeito da aparição imprevista não seria um sentimento de profundo terror?
Como vês, meu amigo, as paixões, as afeições vivas não são possíveis em toda a sua plenitude senão entre pessoas da mesma natureza, entre mundanos e mundanos, entre Espíritos e Espíritos. Com isto não pretendo dizer que toda afeição deva apagar-se com a morte, mas que muda de natureza e toma outro caráter. Numa palavra, quero dizer que em vossa Terra conservais uma boa lembrança daqueles a quem amastes, mas que a matéria, no meio da qual viveis, só vos permite compreender e praticar amores materiais; que, sendo tal gênero necessariamente impossível entre vós e nós, sois tão desajeitados e frios nas vossas relações conosco. Se queres convencer-te, relê algumas conversas espíritas entre parentes, amigos ou conhecidos; nelas encontrarás tanto gelo que fará com que os habitantes dos polos sintam frio[2].
Não o queremos, nem nos entristecemos por isso, desde que sejamos suficientemente elevados na hierarquia dos Espíritos para perceber e compreender; mas, naturalmente, isto não deixa de ter alguma influência sobre a nossa maneira de ser para convosco.
Lembra-te da história de Hanifa que, podendo entrar em comunicação com a filha querida, que tanto pranteava, faz-lhe esta primeira pergunta: Há um tesouro oculto nesta casa? Só obteve como resposta uma bela mistificação, que ela mesma provocou!
Penso, meu amigo, ter dito o bastante para que bem sintas a causa do mal-estar que necessariamente existe entre vós e nós. Poderia ter dito mais. Por exemplo, que vemos todas as vossas imperfeições e impurezas do corpo e da alma e que, do vosso lado, tendes a consciência de que o vemos. Confessa que é embaraçoso para ambos os lados. Coloca dois amantes apaixonadíssimos nessa caixa de vidro onde tudo aparece, tanto no moral como no físico e pergunta a ti mesmo o que acontecerá.
Quanto a nós, animados por um sentimento de caridade que não podeis compreender, somos, em relação a vós, como a boa mãe, a quem as enfermidades e as traquinadas do filho chorão que lhe tira o sono não a fazem esquecer, nem mesmo por um instante, os sublimes instintos da maternidade. Nós vos vemos fracos, feios, maus e, contudo, vos amamos, porque nos esforçamos por melhorar-vos. Mas não nos fazeis justiça, temendo-nos mais do que nos amando.

Désiré Léglise

Poeta argelino, morto em 1851




[1] Revista Espírita – Maio/1862 – Allan Kardec
[2] N. do T.: Ora o Espírito emprega a segunda pessoa do singular, ora a segunda do plural.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

George Valiantine[1]



Não existe uma biografia completa do médium George Valiantine, mas pode se ler nas entrelinhas a sua vida e o seu trabalho mediúnico.
Mr. Herbert Dennis Bradley fez um minucioso relato da mediunidade de voz direta (Pneumatofonia) de George Valiantine, o conhecido médium americano.
Em sua obra “Rumos às Estrelas”, H. Dennis Bradley conseguiu relatar as diversas vozes espirituais ocorridas no seu próprio grupo doméstico.
É impossível exagerar os serviços que o trabalho dedicado e de auto-sacrifício de Mr. Bradley prestou à ciência psíquica.
George Valiantine chegou à Inglaterra a 1° de fevereiro de 1924, depois de um entendimento entre mim e De Wyckoff. Fomos ao seu encontro em Waterloo, donde o levamos de auto diretamente para Dorincourt; lá devia permanecer durante a sua estação na Inglaterra, sempre na mais completa ignorância das experiências psíquicas por mim feitas depois do nosso encontro além mar.
 Valiantine é um homem de cinquenta anos de idade. Lento e reticente; interessa-se por um número mínimo de coisas; crê naturalmente em espíritos, e tenho dificuldades em lembrar-me de outro assunto que ele discuta com fluência. Interpelei-o sobre a arte e a literatura americana: nada sabe. Consultei-o sobre teatro: idem. Igualmente desinteressado da vida comercial. Possui um vocabulário muito limitado e revela pouca noção do valor das palavras.
Quando inquirido por alguém sobre o que pensava de Londres, respondeu: “Uma cidade grande” - e foi só.
 Contou-me que só depois dos quarenta e três anos veio a descobrir a sua mediunidade. Antes disso lembra-se de por várias vezes ter ouvido pancadas nas paredes e mesas, que ele atribuía a estalos da madeira.
Há uns sete anos, quando hospedado num hotel durante uma saída a negócios, ouviu na porta de seu quarto três pancadas muito distintas. Acendeu a luz; levantou-se da cama para ver quem era. Aberta a porta, não encontrou ninguém. Fechou-a de novo. Mais três pancadinhas fizeram-se ouvir, dessa vez na parede do corredor. Foi novamente verificar quem era, e como não visse ninguém tocou a campainha de serviço. O criado assegurou-lhe que o corredor e o quarto contíguo estavam desertos.
Logo depois teve enseje de contar o fato a uma senhora das suas relações, dedicada ao espiritualismo, a qual o persuadiu de ter com ela uma sessão em sala escura. Nessa sessão, a quem esteve presente sua mulher, recebeu, por intermédio da mesinha, uma mensagem de Bert Everett, seu cunhado falecido de algum tempo.
A partir daí gradativamente Valiantine desenvolveu a força mediúnica até chegar a ouvir a voz direta de Everett - o qual lhe recomendou o uso da corneta acústica e mais coisas. Foi arranjada a corneta, e na noite seguinte pôde ouvir com perfeita clareza a voz do cunhado. Até aquele dia ignorara completamente o que fosse uma corneta acústica.
 Estranhos fenômenos ocorreram depois disso. As cordas de um violino vibraram enquanto o traziam para a sala. Uma voz do além cantou com acompanhamento de guitarra.
Everett instruiu-o sobre o modo de organizar um gabinete onde pudessem ser obtidas materializações. Valiantine agiu de acordo e numa noite em que caiu em transe Everett materializou-se de corpo inteiro.




[1] Rumo às Estrelas - H. Dennis Bradley