sábado, 16 de dezembro de 2017

“Mediúnica” aberta ou fechada?[1]


 
Jorge Hessen - jorgehessen@gmail.com


Um leitor levanta um tema conveniente para elucidarmos. Descreve que frequenta várias casas com reuniões mediúnicas “abertas” (públicas). Acredita ser o modo correto. Embora com o passar dos anos tenha conhecido outras casas com as reuniões mediúnicas “fechadas” (privativas).
Em face dele ler muito e observar, analisar, colher opiniões, sobretudo, as que escrevemos para o Movimento Espírita Brasileiro, resolveu fazer a seguinte afirmativa: a quantidade de pessoas que passam a frequentar as casas espíritas após assistirem a comunicações do além “abertas” ao público é mais expressiva.
Obviamente, sob o imperium da racionalidade espírita, não podemos concordar com a afirmativa desse leitor. Embora reconhecemos que ocorrem montões de convites às pessoas recém-chegadas ao centro para assistirem e/ou frequentarem as reuniões mediúnicas, o que representa uma extraordinária leviandade. Aliás, é transformar o grupo mediúnico numa estranha sala de espetáculos de picadeiro espiritual.
As sessões mediúnicas devem merecer dos dirigentes espíritas uma maior atenção. Não se compreende, pois, que uma sessão mediúnica seja ela aberta a pessoas com pouca formação teórica do Espiritismo, ou a curiosos e ou a neófitos, contrariando as orientações dos Benfeitores. Allan Kardec abordou o tema quando respondeu aos leitores que lhe propunham abrisse ao público as sessões da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, medida com a qual não concordava em absoluto[2].
Kardec sugere, além disso, grupos pequenos, em face das potências mentais heterogêneas que há nos “grupões”. Uma reunião mediúnica “aberta ao público” é uma imponderação dispensável, porque tem acesso pessoas carregadas de anseios diversificados, que irão embaraçar, invariavelmente, o exercício espontâneo da mediunidade.
Os Instrutores do além afiançam que uma reunião mediúnica é um grave trabalho, que se desenvolve na estrutura perispirítica, e se a equipe é inábil, é compreensível que muitos embaraços psíquicos sucedam por negligência da mesma. Em face disso o intercâmbio com o além não deve ser aberto ao público, porque, conforme proferimos acima, transformaria numa arena circense com feição especulativa, exibicionista, destituída de intuito elevado, costumes tais que ferem mortalmente os postulados reveladores da Doutrina Espírita.
Mesmo nas reuniões mediúnicas privativas deve-se manter um número ideal de membros, não excedente a 20 pessoas, para que se evitem essas perturbações naturais nos grupamentos massivos. É óbvio que quaisquer argumentos utilizados para defender as reuniões mediúnicas "fechadas ao público", não isentam os grupos "fechados" das influências, pensamentos, desequilíbrios e desarmonias. Contudo isso é dificuldade moral do grupo e não da especificidade privativa da mesma. 
Não podemos e nem devemos esquecer que o Espírito de Verdade nos recomenda; "Espiritas, amai-vos uns aos outros, eis o primeiro ensinamento, instrui-vos eis o segundo” [3]. Este alerta nos conscientiza do tamanho da responsabilidade que nos pesa sobre os ombros. Grupos mediúnicos sérios fazem reuniões periódicas de avaliação das atividades e assim todos os integrantes da equipe possam se afinizar e conversarem, eliminando algum conflito doutrinários que possa haver entre si.
Ademais, para que não se abra espaço para a teatralização de “psicofonias” (quase sempre anímicas – “tipo Bezerra/Divaldo”) e “psicografias” em público, lembremos que não há médiuns especiais e ninguém é melhor que ninguém, devendo todos estarem abertos ao aprendizado permanente e seu devido aperfeiçoamento. Dizem que Divaldo recebe Bezerra em público e Chico psicografava em público. Sim, é verdade, mas será que temos novos Chico’s e Divaldo’s? Excetos os imitadores!
Ah! Para concluir nossos esclarecimentos recomendamos que se algum confrade quiser frequentar uma reunião mediúnica para ouvir e instruir-se (ao vivo) as supostas “mensagens do além”, trate de estudar as Obras codificada por Allan Kardec.



[2] KARDEC. Allan. Revista Espírita, maio 1861, pág. 140, Brasília: Ed Edicel, 2002.
[3] KARDEC. Allan O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. VI, item 5, RJ: Ed. FEB, 2002.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

O QUE A RAIVA FAZ CONOSCO?[1]


 

Adriana Machado
 

Pensando de cabeça fria, respondo a essa pergunta sobre a raiva com uma resposta muito simples: ela nos incomoda!
Mas, saindo de um momento de turbulência, eu descreveria que a raiva faz muito mais do que isso: ela nos devasta! Ela acaba com a nossa paz, com a nossa alegria, ela nos adoece e... Como é difícil voltar à serenidade anterior!
A raiva não é sentida à toa. Ela só aparece porque algo acontece. E esse algo, vindo de fora ou de dentro, atinge alguma coisa, no nosso mundo interior, que é muito importante para nós, mesmo que não saibamos o que tenha sido. Na maioria das vezes, ficamos com raiva sem conseguirmos identificar o que foi mexido em nós.
Mas, a raiva não é um sentimento natural nosso! Se alguém vive com raiva o tempo todo, algo está mais do que “errado”. Talvez, essa pessoa não esteja percebendo as suas emoções e age assim por acreditar que é um proceder que o ajudará a alcançar o seu objetivo (seja ele qual for). Exemplifico melhor: uma pessoa muito quieta sofre muito com as ações alheias. Então, em um determinado momento, ela reage com raiva e violentamente contra alguém e descobre nele a reação de respeito ou medo. Como ela somente conseguiu agir assim porque estava com raiva, em seu inconsciente, sempre buscará tal emoção para alcançar o seu intento. Então, por várias outras vezes, ela reagirá da mesma forma e gostando do que vê, não parará. Por um tempo, isso dará certo, mas, quando alguém começa a exagerar na raiva ou na violência, a reação natural daqueles que não se sintonizam com essas energias é se afastar. Enquanto, ela não perceber que as pessoas que valem a pena (para ela) estão se afastando, ela, possivelmente, continuará a agir no equívoco, porque foi a forma que percebeu dar certo.
A raiva se impregna em suas ações como uma doença altamente arrebatadora, ficando ali, manifestando os seus sintomas para quem quiser ver, inclusive o próprio raivoso que, no início, está cego para ela. Se ele a percebe, pode querer limitá-la ou extirpá-la, mas levará um tempo razoável para se descontaminar, porque ela fica encubada produzindo o efeito da insatisfação e da tristeza, da indignação e da impaciência. Tudo isso é devastador e viciante em nosso campo interno. Para nos descontaminarmos, para não cairmos realmente doentes em razão de a cultivarmos em nós, precisaremos da compreensão do que é viver com ela e as suas consequências.
Ainda assim, somos seres que desejamos a paz, porque a paz faz parte de nosso ser divino, mas em razão de nossa ignorância, ainda não compreendemos isso. Ainda, nos iludimos acreditando que o nosso orgulho é sábio e o usamos como conselheiro para as nossas próximas ações (pós-raiva) e aí fica tudo pior... Melhor responder a célebre frase do poeta maranhense, Ferreira Gullar: “Você quer ter razão ou ser feliz?”?  No momento do seu distúrbio, se você fizer essa pergunta para si, possivelmente, não agirá tão impulsivamente e se dará uma chance de evitar sofrimentos desnecessários. Quando entramos nestes embates, na maioria das vezes, o objeto da discussão não é tão relevante e sair vencedor não lhe trará nenhuma vantagem. Ou seja, é nada prático.
A raiva é uma consequência, uma reação, e o autor dela seremos somente nós mesmos. Sendo assim, a boa notícia é que podemos amenizá-la, podemos transmutá-la porque se fomos nós que a produzimos no nosso templo interior, somente nós, e tão somente nós, poderemos desconstrui-la. Essa é uma outra benesse da sabedoria divina atuando em nossa vida... Somos os únicos responsáveis pelo nosso bem-estar!
Raiva... Se ainda a temos, que a sintamos mais e mais levemente, abdicando do nosso orgulho e colocando como meta um resultado prático para as nossas ações: sermos felizes!


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

UM HOMEM DE BEM TERIA MORRIDO[1]



Fénelon – Sens – 1861

 

Dizeis frequentemente, ao falar de um malvado que escapa a um perigo: se fosse um homem de bem, teria morrido. Pois bem, ao dizer isso, estais com a verdade, porque, efetivamente, Deus concede muitas vezes, a um Espírito ainda jovem na senda do progresso, uma prova mais longa que a um bom, que receberá, em recompensa ao seu mérito, o favor de uma prova tão curta quanto possível. Assim, pois, quando empregais este axioma, não duvideis de que estais cometendo uma blasfêmia.
Se morre um homem de bem, vizinho de um malvado, apressai-vos a dizer: seria bem melhor se tivesse morrido aquele. Cometeis então um grande erro, porque aquele que parte terminou a sua tarefa, e o que ficou talvez nem a tenha começado.
Por que, então, quereis que o mau não tenha tempo de acabá-la, e que o outro continue preso à gleba terrena?
Que diríeis de um prisioneiro que, tendo concluído a sua pena, continuasse na prisão, enquanto se desse a liberdade a outro que não tinha direito?
Ficai sabendo, pois, que a verdadeira liberdade está no desprendimento dos laços corporais, e que enquanto estais na Terra, estais em cativeiro.
Habituai-vos a não censurar o que não podeis compreender, e crede que Deus é justo em todas as coisas.
Frequentemente, o que vos parece um mal é um bem. Mas as vossas faculdades são tão limitadas, que o conjunto do grande todo escapa aos vossos sentidos obtusos.
Esforçai-vos por superar, pelo pensamento, a vossa estreita esfera, e à medida que vos elevar, a importância da vida terrena diminuirá aos vossos olhos. Porque, então, ela vos aparecerá como um simples incidente, na infinita duração da vossa existência espiritual, a única verdadeira existência.




[1] O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo V – Bem Aventurados os Aflitos – Allan Kardec

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Auto-de-fé de Barcelona[1]

 

Os jornais espanhóis não foram tão sóbrios de reflexões quanto os jornais franceses sobre esse acontecimento.
Seja qual for a opinião que se professe em relação às ideias espíritas, há no fato em si algo de tão estranho para o tempo em que vivemos, que mais excita piedade do que cólera contra gente que parece ter dormido durante vários séculos e haver despertado sem consciência do caminho que a Humanidade percorreu, julgando-se ainda no ponto de partida.
Eis um extrato do artigo em questão, publicado por Las Novedades, um dos grandes jornais de Madrid:
O auto-de-fé celebrado há alguns meses em La Coruña, em que foi queimado grande número de livros à porta de uma igreja, tinha produzido no nosso e no espírito de todos os homens de ideias liberais uma impressão muito triste. Mas é com indignação ainda bem maior que foi recebida em toda a Espanha a notícia do segundo auto-de-fé em Barcelona, nesta capital civilizada da Catalunha, em meio a uma população essencialmente liberal, à qual sem dúvida fizeram este bárbaro insulto, porque nela reconhecem grandes qualidades.
Depois de relatar os fatos, conforme o jornal de Barcelona, acrescenta:
Eis o repugnante espetáculo, autorizado pelos homens da união liberal, em pleno século dezenove: uma fogueira em La Coruña, outra em Barcelona, e ainda muitas outras, que não faltarão, em outros lugares. É o que deve acontecer, pois é uma consequência imediata do espírito geral que domina o atual estado de coisas e que em tudo se reflete. Reação no interior, relativa aos projetos de lei apresentados; reação no exterior, apoiando todos os governos reacionários da Itália, antes e depois de sua queda, combatendo as ideias liberais em todas as ocasiões, buscando por todos os lados o apoio da reação, obtido ao preço das mais desastradas concessões.
Seguem-se longas considerações, referentes aos sintomas e às consequências deste ato, mas que, pelo seu caráter eminentemente político, não são da competência do nosso jornal.
O Diário de Barcelona, jornal ultramontano, foi o primeiro a anunciar o auto-de-fé, dizendo:
Os títulos dos livros queimados bastavam para justificar a sua condenação; que é direito e dever da Igreja fazer respeitar a sua autoridade, tanto mais quanto se dá carta branca à liberdade de imprensa, principalmente nos países que desfrutam da terrível chaga da liberdade de cultos.
La Coruña, jornal de Barcelona, fez a respeito as seguintes reflexões:
Esperávamos que nosso colega (El Diário), que tinha dado a notícia, tivesse a bondade de satisfazer a curiosidade do público, seriamente alarmado por semelhante ato, incrível nos tempos em que vivemos; mas foi em vão que esperamos as suas explicações. Desde então temos sido assaltados por perguntas sobre esse acontecimento, e somos obrigados a dizer que os amigos do governo com isso sofrem mais penas do que os que lhe fazem oposição.
Com vistas a satisfazer a curiosidade tão vivamente excitada, pusemo-nos em busca da verdade; infelizmente o fato é verdadeiro. O auto-de-fé foi celebrado nas seguintes circunstâncias:
Os expedientes empregados para chegar a esse resultado não poderiam ter sido mais diligentes nem mais eficazes.
Apresentaram ao controle da Alfândega os livros supracitados.
Responderam ao comissário que não podiam ser expedidos sem uma licença do senhor bispo. O senhor bispo estava ausente; quando retornou, apresentaram-lhe um exemplar de cada obra; depois de as haver lido ou mandado ler por pessoas de sua confiança, conformando-se com o julgamento de sua consciência, ordenou que fossem lançados ao fogo, como imorais e contrários à fé católica. Reclamaram contra tal sentença e pediram ao governo, já que não permitiam a circulação de tais livros na Espanha, que pelo menos fosse permitido ao seu proprietário reexpedi-los ao lugar de procedência; mas até isto foi recusado, sob a alegação de que, sendo contrários à moral e à fé católica, o governo não podia consentir que esses livros fossem perverter a moral e a religião de outros países.
Malgrado isto, o proprietário foi obrigado a pagar os direitos que, parece, não deveriam ser exigidos. Uma grande multidão assistiu ao auto-de-fé, o que não é de admirar, se se levar em conta a hora e o local da execução e, sobretudo, o inusitado do espetáculo. O efeito produzido sobre os assistentes foi de estupefação entre alguns, de riso em outros e de indignação no maior número, à medida que se davam conta do que se passava. Palavras de ódio saíram de várias bocas, vindo depois as piadas, os ditos grotescos e mordazes dos que viam com extremo prazer a cegueira de certos homens. Nisto têm razão, porque nesta reação, digna do tempo da Inquisição, entreveem o mais rápido triunfo de suas ideias; zombavam para que essa cerimônia não aumentasse o prestígio da autoridade que, com tanta complacência, se presta a exigências verdadeiramente ridículas. Quando esfriaram as cinzas dessa nova fogueira, observou-se que as pessoas presentes, ou que passavam nas cercanias, instruídas do fato, dirigiam-se para o local do auto-de-fé, ali recolhendo uma parte das cinzas.
Tal é o relato dos acontecimentos, que não deixam de provocar comentários entre as pessoas que se encontram.
Indignam-se, lamentam, alegram-se ou se regozijam, conforme a maneira de interpretar as coisas. Os partidários sinceros da paz, do princípio de autoridade e da religião se afligem com essas demonstrações reacionárias, porque compreendem que às reações se sucedem as revoluções, e porque sabem que os que semeiam vento só podem colher tempestades. Os liberais sinceros se indignam que semelhantes espetáculos sejam dados ao mundo por homens que não compreendem a religião sem intolerância, querendo impô-la como Maomé impunha o Alcorão.
Agora, abstração feita da qualificação dada aos livros queimados, examinaremos o fato em si. Pode a jurisprudência admitir que um bispo diocesano tenha uma autoridade sem apelo e possa impedir a publicação e a circulação de um livro? Dirão que a lei de imprensa assinala o que deve ser feito neste caso. Mas diz a lei que se os livros forem maus e perniciosos, serão lançados ao fogo com tal aparato? Nela não encontramos nenhum artigo que possa justificar um ato semelhante. Além disso, os livros em questão foram publicamente declarados. Um comissário declara livros à alfândega, porque poderiam estar arrolados na categoria dos assinalados no artigo 6; passam a censura diocesana, o governo poderia proibir-lhes a circulação e a coisa estava acabada. Os sacerdotes deveriam limitar-se a aconselhar aos seus fiéis a abstenção de tal ou qual leitura, caso a julgassem contrária à moral e à religião; mas não se lhes deveria conceder um poder absoluto, que os torna juízes e carrascos. Não vamos emitir nenhuma opinião sobre o valor das obras queimadas; o que visamos é o fato, suas tendências, o espírito que ele revela. Doravante, em que diocese deixariam de usar, se não de abusar, de uma faculdade que em nossa opinião o próprio governo não tem, se em Barcelona, na liberal Barcelona, o fazem? O absolutismo é muito sagaz; ensaia se pode dar um golpe de autoridade em alguma parte; se vencer, ousa mais. Esperemos, todavia, que os esforços do absolutismo sejam inúteis e que todas as concessões que lhe façam não tenham outro resultado senão desmascarar o partido que, repetindo cenas como as de quinta-feira última, se precipite cada vez mais no abismo para onde corre obstinadamente. É o que nos leva a esperar o efeito produzido pelo auto-de-fé em Barcelona.
 
SOBRE O AUTO-DE-FÉ DE BARCELONA[2]
O amor da verdade deve sempre fazer-se ouvir: ela rompe o véu e brilha ao mesmo tempo por toda parte. O Espiritismo tornou-se conhecido de todos; logo será julgado e posto em prática. Quanto mais perseguições houver, tanto mais depressa esta sublime doutrina alcançará o apogeu. Seus mais cruéis inimigos, os inimigos do Cristo e do progresso, atuam de maneira que ninguém possa ignorar a permissão de Deus, dada àqueles que deixaram esta Terra de exílio, de voltarem aos que amaram.
Ficai certos: as fogueiras apagar-se-ão por si mesmas; e se os livros são lançados ao fogo, o pensamento imortal lhes sobrevive.
Dollet
Nota – Este Espírito, tendo se manifestado espontaneamente, disse ser o de um antigo livreiro do século dezesseis.
 OUTRA
Era necessário que algo ferisse violentamente certos Espíritos encarnados, a fim de que se decidissem a ocupar-se desta grande doutrina que vai regenerar o mundo. Nada é feito inutilmente em vossa Terra. Nós, que inspiramos o auto-de-fé de Barcelona, sabíamos perfeitamente que assim agindo daríamos um grande passo à frente. Esse fato brutal, inacreditável nos tempos atuais, foi consumado com vistas a chamar a atenção dos jornalistas que se mantinham indiferentes diante da profunda agitação que tomava conta das cidades e dos centros espíritas. Eles deixavam dizer e fazer, mas, obstinados, faziam ouvidos de mercador, respondendo pelo mutismo ao desejo de propaganda dos adeptos do Espiritismo. Queiram ou não, é preciso que hoje falem; uns, constatando o histórico do caso de Barcelona, outros o desmentindo, ensejaram uma polêmica que fará a volta ao mundo e da qual só o Espiritismo aproveitará. Eis por que hoje a retaguarda da Inquisição praticou o seu último auto-de-fé, porque assim o quisemos.
São Domingos
 




[1] Revista Espírita – Dezembro/1861 – Allan Kardec
[2] Revista Espírita – Novembro/1861 – Allan Kardec

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

ANDREW JACKSON DAVIES[1]

 


Nascido nos Estados Unidos da América do Norte, no dia 11 de agosto de 1826, e desencarnado em sua residência de Watertown, Estado de Massachusetts, no mesmo país, no dia 13 de janeiro de 1910.
Andrew Jackson Davies é cognominado "o pai do Moderno Espiritualismo" e "Allan Kardec norte-americano".
Filho de pais humildes e incultos, nasceu também entre gente humilde e desprovida de recursos intelectuais, num distrito rural do Estado de Nova Iorque, nas margens do rio Hudson.
Em sua infância, revelou-se um menino pouco atilado, baldo de atividades intelectuais e com um corpo bastante mirrado, nada revelando nele que futuramente seria um médium de excepcional destaque.
Nos últimos anos de sua infância, passou a ouvir vozes gentis e agradáveis, acompanhadas de belos fenômenos de clarividência.
Em seguida desenvolveu-se nele também um dom mediúnico que lhe possibilitava diagnosticar várias enfermidades.
No dia 6 de março de 1844, ocorreu com ele um fenômeno de transporte espiritual. Da localidade de Poughkeepsie, onde residia, foi arrebatado até as montanhas de Catskill, cerca de cinquenta e cinco quilômetros distante. Nessas montanhas teve a oportunidade de confabular com os Espíritos de dois homens idosos, os quais lhe revelaram ser seus mentores, posteriormente identificados como Galeno e Swedenborg. Esse foi o primeiro contato que Davies teve com Espíritos desencarnados.
Com o decorrer dos tempos, a sua mediunidade tomou novos rumos. Quando em transe, falava vários idiomas, inclusive o hebraico, dos quais não tinha o menor conhecimento.
Sem conhecer gramática ou regras de linguagem, desconhecendo também qualquer estudo sobre ciência ou literatura, tinha a oportunidade de discorrer sobre intrincadas questões de Arqueologia histórica e bíblica, de mitologia e temas linguísticos e sociais. Segundo as opiniões expressas por homens eruditos da época, dentre eles o Dr. George Bush, professor da Universidade de Nova Iorque, as respostas dadas por Andrew Jackson Davies eram de tal envergadura que "fariam honra a qualquer erudito daquela cidade, mesmo que, para fornecê-las, tivesse consultado todas as bibliotecas da Cristandade".
Várias pessoas de renome foram atraídas pela sua mediunidade, dentre elas o Rev. William Fishboug, o Dr. Lyon e Edgar Allan Poe. Durante muitos anos o médium ditou, em transe mediúnico, um livro sobre os segredos da Natureza, o qual foi publicado no ano de 1847, com o título "Os Princípios da Natureza". Sobre essa obra "Sir" Arthur Conan Doyle exarou a opinião de tratar-se de um dos mais profundos e originais livros sobre Filosofia.
Posteriormente teve a oportunidade de receber mediunicamente outras obras, em parte editadas sob o título geral de Filosofia Harmônica e atribuídas ao Espírito de Swedenborg.
Dezenas de edições dessas obras foram publicadas nos Estados Unidos, demonstrando o interesse que elas despertaram. A doutrina apregoada por Jackson Davies atraiu uma quantidade enorme de prosélitos.
Davies não era um místico ou religioso, no sentido vulgar, e nem aceitava os ensinamentos bíblicos em sua forma literal.
No entanto, era um homem sério, incorruptível, amante da verdade e compenetrado da sua imensa responsabilidade na transmissão dos ensinamentos que recebia dos Espíritos. Apesar de desprovido de bens materiais, jamais deixou de exercer a caridade para com os menos favorecidos, e era inquebrantável no desiderato de aplicar a justiça em toda a sua plenitude.
Suas faculdades mediúnicas tiveram maior desenvoltura após ter ele atingido 21 anos de idade. Nessa época começou a divisar e descrever vários fenômenos desencarnatórios, fornecendo dados minuciosos sobre eles. Essas revelações coincidiam com as descrições fornecidas por outros médiuns, em várias partes do mundo.
Anteriormente ao ano de 1856, Andrew Jackson Davies profetizou a invenção do automóvel e de veículos aéreos acionados por uma força motriz de natureza explosiva, as máquinas de escrever e, ao que tudo indica, também locomotivas movidas por motores de combustão interna. É simplesmente assombrosa a descrição que o médium deu sobre esses inventos em sua obra hoje centenária, denominada "Penetrália".
Em 1847, ele predisse a manifestação ostensiva dos Espíritos com as criaturas humanas, adiantando que o advento desses dias não estava muito distante.
Foi um prelúdio daquilo que surgiria um ano mais tarde, em 31 de março de 1848, quando se estabeleceu um sistema de intercâmbio com o plano espiritual, através das médiuns irmãs Fox.
Realmente, numa de suas notas, escritas precisamente nessa data, escreveu ele: "Esta madrugada um sopro fresco passou pelo meu rosto, e ouvi uma voz, suave e firme, dizer-me: "Irmão, foi dado início a um bom trabalho; contempla a demonstração viva que surge. Pus-me a cismar no significado de tal mensagem".
Ele estava muito longe de supor que, naquela mesma noite, Margarida, Catarina e Leah Fox estabeleciam, no vilarejo de Hydesville, um sistema de conversação com os Espíritos, através de pancadas, inaugurando o grandioso movimento espiritual mundial.
Devido a essa revelação, o médium passou a ser conhecido como "o profeta da Nova Revelação".
Após a publicação de livros sobre "Filosofia Harmônica", obras de alto nível moral e intelectual, Davies começou a receber as "Revelações Divinas da Natureza", em cuja recepção consumiu os anos seguintes de sua vida.
Descrevendo o mundo espiritual, Davies afirmou ter visto por lá uma vida semelhante à da Terra, vida a que se poderia chamar semimaterial, com gostos e objetivos adaptados às nossas naturezas, que a chamada morte não modifica. Observou também que nesses planos espirituais, o trabalho científico, o artístico, o literário e o humanitário, não cessam jamais. Viu também as várias fases e graus do progresso espiritual, descrevendo as causas que motivam o retardamento da marcha evolutiva do ser humano.
Numa viagem que o seu Espírito encetou a um plano espiritual, ele descreveu um lugar denominado Swnmerland, onde os Espíritos de crianças desencarnadas, reunidas em grupo, em grandes e belos edifícios, recebem instrução e cuidados especiais, tudo de conformidade com a idade e o conhecimento delas.
Davies ficou tão empolgado com o sistema ali implantado e sua engenhosa organização, que buscou imitá-la no plano físico. Daí nasceu o primeiro Liceu Espiritista, por ele fundado em 25 de janeiro de 1863, em Dodsworth Hall, Broadway, Nova Iorque. Esse movimento liceano ramificou-se a grande número de países de fala inglesa, notadamente a Inglaterra, Estados Unidos, Austrália e outros.
Como não poderia deixar de ser, Jackson Davies também foi vítima de acusações caluniosas e críticas acerbas, contra ele assacadas por detratores da sua obra. Homem superior, a tudo se sobrepunha com tolerância evangélica e larga compreensão.




[1] Personagens do Espiritismo - Antônio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy

sábado, 9 de dezembro de 2017

O que as pessoas costumam falar pouco antes de morrer?[1]



Catherine Mackie e Simone Stewart - Da BBC News - 11 novembro 2017


A BBC News entrevistou enfermeiras especializadas em cuidados paliativos e de pacientes com câncer do hospital da Universidade Royal Stoke, no Reino Unido, para saber o que ocupa a mente de pessoas em estado terminal e quais são seus desejos derradeiros.
Alguns pedem seu drink favorito, diz a enfermeira Dani Jervis.
Às vezes, elas só querem uma xícara de chá, afirma Carina Lowe, que trabalha no mesmo hospital.
Outra enfermeira se recorda de uma paciente idosa que estava internada em uma ala de cirurgia bastante movimentada.
O marido dela também ficou doente, e eles só queriam que suas camas ficassem juntas, diz Angela Beeson.
Deitados um ao lado do outro, de mãos dadas, vi eles cantando juntos. Os dois morreram naquela ala, com dez dias de diferença um do outro.
 
Sem medo
Naturalmente, é esperado que o período logo antes da própria morte, quando uma pessoa está ciente de que não lhe resta muito tempo, seja de muita tristeza na maioria das vezes.
No entanto, esse estágio final não é inteiramente marcado por sentimentos ruins, conta a enfermeira Louise Massey.
Ver a alegria no rosto de uma pessoa quando ela está morrendo e seu cachorro vem visitar é algo que não tem preço, diz ela.
Esse tipo de situação não é incomum, como se recorda a enfermeira Nicki Morgan: Já tivemos uma vez um border collie e um pastor alemão deitados na cama com um senhor; esse era seu desejo final.
A enfermeira Massey leva na memória o caso de um paciente que, há muitos anos, estava morrendo e apenas parcialmente consciente.
Ele disse que estava feliz de morrer, porque havia tido um vislumbre do céu, que era um lugar maravilhoso e que não tinha mais medo de partir.
 
Premonições
Uma das enfermeiras ouvidas pela BBC conta que, com frequência, ocorrem coincidências que alguns interpretam como premonições.
Pessoas já disseram: Completo 80 anos em algumas semanas. Vou ter minha festa de aniversário e depois eu vou partir. E, estranhamente, vimos isso acontecer, recorda-se Morgan.
Mas e quanto a arrependimentos? Há muitos? Ou os pacientes deixam isso para trás?
Lembro-me de uma pessoa me dizendo que a vida é muito curta e que devemos fazer o que nos deixa felizes, afirma Jervis.
A enfermeira Morgan diz que é muito comum as pessoas nesta situação pensarem em suas aposentadorias.
Com frequência, as pessoas trabalharam muito, determinaram uma data para se aposentar e pensam que ficaram doentes justo neste momento e não tiveram tempo suficiente para aproveitar e fazer as coisas que gostam.
Lowe se lembra de sobre um episódio que ocorreu há pouco tempo com ela: Uma coisa que foi dita para mim bem recentemente é que o processo de morrer não é como na TV ou no cinema.
 
'Boa morte'
Por sua vez, Jervis diz acreditar ser possível ter uma experiência que pode ser descrita como "uma boa morte". A comunicação é essencial, afirma.
Massey concorda: Isso pode significar não sentir dor, ter a família ao lado, pode ser o local onde querem morrer.
As enfermeiras têm alguns conselhos que acreditam que podem ajudar neste que é o único momento inescapável da vida: a morte.
Se há algo que você quer fazer, corra atrás disso, diz Jervis.
Falamos de todos os outros assuntos hoje em dia, mas viver também significa falar sobre a morte. Quais são seus objetivos na vida? O que é importante para você?, afirma Massey.
A enfermeira Beeson fala que seu trabalho acabou por completo com seu medo da morte e mudou sua postura diante do assunto. Falo disso abertamente com a minha família, diz.
Precisamos planejar com antecedência os cuidados que receberemos.




sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Criança e materialismo[1]


 

Cairbar Schutel


A criança é egocêntrica, e, portanto, via de regra, egoísta e de tendência materialista[2].
Seu mundo ainda é limitado e seus sentimentos desabrocham cautelosa e continuamente. O desenvolvimento gradual do corpo físico tolhe a plenitude de sua inteligência e destreza mental.
Trata-se de um Espírito que, reencarnado, dá os primeiros passos na sua presente jornada no plano físico. É natural que traga reminiscências das vidas pretéritas e defeitos, cuja raiz é o egoísmo, arraigados no seu inconsciente.
Cabe ao adulto a tarefa de educar e reeducar o infante.
Bons ou maus exemplos; redundam em sua boa ou má educação. O materialismo do adulto, portanto, somente incrementa o infantil.
Existem, apesar de raras, crianças generosas e pouco egoístas, que partilham seu pequenino universo de brinquedos e mínimos pertences com quem está ao seu redor. Normalmente, são Espíritos mais evoluídos que têm a programação de desenvolver uma especial missão na Crosta.
Alguém pode questionar: por que, afinal, a criança é tão materialista?
A resposta não é difícil de ser dada. Suas necessidades pessoais desdobram-se, nesse início de vida, em dois aspectos fundamentais: o sentimental e o material.
O primeiro deles é preenchido pelo amor e pela atenção que recebe preferencialmente dos genitores ou, em segundo plano, dos responsáveis pela sua criação.
O segundo diz respeito à sobrevivência do próprio infante, incapaz, ainda, de suprir suas necessidades. Encontra-se, pois, quase totalmente dependente dos adultos. Seu mundo é parcela menor, mas operante, do universo adulto. Não conseguindo agir por si, espelha-se nos pais e nos outros, ao seu redor. Encontra enorme apego aos bens materiais por parte da maioria dos encarnados. Torna-se, também por isso, em face da sua imaturidade, materialista por excelência, cópia quase fiel dos que lhe servem de exemplo.
O descortinar do mundo, impulsionado pelo aumento da capacidade de raciocínio e incremento do livre-arbítrio, vai permitindo à criança formar seu caráter e moldar sua personalidade. De naturalmente materialista e egoísta, porque precisa sobreviver e sente a necessidade de ter tudo só para si, a fim de garantir tal propósito inconsciente, passa para o estágio do discernimento e aprende a diferençar o positivo do negativo, o bom do mau e, especialmente, o valor material do espiritual. Nessa transição está a grande importância da educação que recebe. Caso consiga ser bem orientada, nessa fase, a criança atenua o seu egoísmo logo cedo e conseguirá, quando adulta, ter amplas e reais chances de empreender a reforma íntima, abandonando grande parcela do seu materialismo. Não recebendo orientação adequada, dependendo, pois, basicamente de sua bagagem espiritual, ou auferindo ainda maus exemplos, fornecidos pelos pais ou responsáveis no campo do materialismo, desenvolverá, de regra, o seu lado egoísta e alimentará, no seu âmago, a errada concepção de que a riqueza material é o maior objetivo do ser humano e deve ser conquistada a qualquer preço. Neste caso, as mesmas ações agressivas que tinha no passado o infante, para manter consigo o seu brinquedo predileto, poderá desenvolver-se quando adulto, levando-o a assenhorear-se de bens materiais, tornando-os sua meta principal de vida.
Se no começo de sua atual existência na crosta terrestre a criança é materialista por necessidade e ignorância, ao longo do crescimento o encarnado pode consolidar o materialismo por influência do meio, falta de orientação e ausência de bagagem espiritual do pretérito suficiente para garantir-lhe o esclarecimento de per si.




[1] Fundamentos da Reforma Íntima – Cairbar Schutel / Abel Glaser
[2] Ser materialista é o homem privilegiar o mundo físico como se fosse sua última morada. Daí advém as duas formas básicas de materialismo: não crer em Deus e na imortalidade da alma e viver primordialmente pelos — ou em função de — bens materiais.