quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Por que o número de crianças hospitalizadas por tentativa de suicídio dobrou nos EUA?[1]


 
Ricardo Senra - Da BBC Brasil em Washington - 7 agosto 2017


Relatos de mães e pais pedindo ajuda após encontrarem seus filhos à beira da morte após tentativas de suicídio se tornaram comuns em fóruns online e redes sociais nos Estados Unidos.

"Minha filha tomou uma garrafa inteira de Lexapro e meia garrafa de Wellbutrin (ambos antidepressivos). Ela vomitou cinco vezes antes de me contar, quando acordei para trabalhar naquela manhã. Essa é uma visão que nenhum pai deveria ver", conta Hammer, em um desabafo que deu origem a mais de 15 relatos semelhantes.

Ann diz que não sabe o que fazer para ajudar a filha. "Ela tem 15 anos e tentou se suicidar hoje ingerindo produtos de limpeza. (...) Ela já tinha tentado se matar vários meses atrás com um corte no pulso".

Claudia fala sobre culpa e vergonha.

Minha filha, uma criança linda e talentosa, teve uma overdose ontem e eu sinto vergonha por não tê-la ajudado e protegido suficientemente. Sinto culpa, porque meu trabalho é garantir que a vida dela seja boa e segura. Mas no fundo, muito no fundo, também sei que a vida hoje é incrivelmente difícil para as crianças. As cobranças e expectativas parecem se mover muito rápido para que eles acompanhem, e eles sentem que falharam.

Phyllis fala sobre o filho, um menino de 15 anos.

Encontrei meu filho no meu quarto, em overdose depois de tomar meus remédios. Não consigo parar de pensar no que poderia ter acontecido. Não consigo dormir, não consigo comer, e aquela manhã não sai da minha cabeça. Encontrei-o deitado na minha cama, quase sem respirar.

As tragédias se refletem nos resultados de dois relatórios divulgados recentemente nos EUA. Eles chamam atenção para um crescimento sem precedentes nas tentativas e mortes consumadas por suicídio entre crianças e adolescentes de todo o país.

As meninas encabeçam o grupo que mais cresce nesse ranking, evidenciando os impactos de problemas geralmente associados a adultos ‒ como depressão, ansiedade, bipolaridade e pressão por padrões de beleza inatingíveis ‒ na saúde mental de quem ainda frequenta a escola.


Recorde

De acordo com dados divulgados na semana passada pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças do governo americano, as mortes de meninas entre 15 e 19 anos por suicídio atingiram um recorde em 40 anos ‒ e dobraram entre 2007 e 2015, com 5,1 casos para cada 100 mil.

O fenômeno atinge também crianças e adolescentes do sexo masculino, cujas mortes ainda acontecem em maior número, mas crescem em ritmo menos acelerado: 30% no mesmo período (são 14,2 casos para cada 100 mil), segundo o órgão oficial.

Em números absolutos, em 2015, foram registrados 524 suicídios de meninas e 1.537 de meninos entre 15 e 19 anos.

Outro relatório apresentado recentemente no Encontro Anual de Sociedades Pediátricas dos EUA aponta que as internações de menores de idade por pensamentos ou tentativas de suicídio dobraram entre 2008 e 2015.

O estudo se focou em crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos e, novamente, apontou que o grupo que mais registrou aumento nas internações é o das meninas ‒ que atualmente respondem por 2 em cada 3 dos casos.

O suicídio é hoje a segunda principal causa de mortes de crianças e jovens em idade escolar (12 a 18 anos) nos EUA, ficando atrás apenas de acidentes.

O volume impressiona: a taxa de suicídios infanto-juvenis, segundo o governo americano, é maior que a soma das mortes por câncer, doenças cardíacas e respiratórias, problemas de nascimento, derrame, pneumonia e febre.


Pressão online

Chefe da ala de saúde comportamental do hospital pediátrico Cook Children's, no Texas, a psicóloga Lisa Elliott diz que os dados recém-revelados "são absolutamente dolorosos, mas não são uma surpresa".

"Nós precisamos tirar os estigmas da saúde mental", diz a PhD, alertando para a incidência dos quadros entre menores de idade, e não só entre adultos. "Problemas de saúde mental têm que ser vistos pelos pais como qualquer doença, da mesma maneira que os problemas de coração são".

Em coro com outros especialistas, ela afirma que o quadro se agrava pelo uso irresponsável de redes sociais, que pode gerar competitividade e uma busca por padrões de beleza e desempenho.

"As redes podem ter impacto negativo sobre a autoestima das meninas e isso aumenta o isolamento delas", avalia Elliott. "Quando notam que não têm uma vida tão perfeita ou glamorosa quanto a de outros, elas concluem que 'algo anormal ou errado está acontecendo comigo'".

Segundo a psicóloga, a sensação de invisibilidade nas redes impulsiona práticas ligadas ao bullying entre jovens de ambos os sexos.

"O anonimato traz uma desumanização, uma perda de empatia pelos outros, especialmente aqueles diferentes de nós. Assim perdemos a capacidade de respeitar as opiniões diferentes, o que infelizmente resulta em mais bullying e mais isolamento".

À BBC Brasil, Eileen Kennedy-Moore, psicóloga e autora de diversos livros sobre saúde mental infantil, diz que não faz sentido proibir o acesso a redes sociais (os celulares e tablets estão aí, não há como lutar contra isso), mas que os pais precisam colocar "limites sensatos" na relação entre seus filhos e aparelhos eletrônicos.

"Adolescentes e crianças sempre tiveram a sensação de uma audiência imaginária, de que todos estão sempre olhando para eles", conta a especialista, que vive e trabalha em Nova York.

"Com as redes sociais, a experiência de ser vigiado e julgado o tempo todo aumenta", avalia.

Segundo Kennedy-Moore, os aparelhos eletrônicos "também precisam ser colocados para dormir, já que nada de bom acontece nesses telefones depois da meia-noite".

"As relações online podem ser uma fonte de apoio e conforto. Pacientes de câncer, por exemplo, encontram grupos de apoio na internet que são maravilhosos", diz Moore. "Mas amizades online não podem substituir as amizades cara a cara, e os pais precisam prestar atenção nisso".


Economia e 'contágio'

Daniel J. Reidenberg, diretor do Conselho Nacional para Prevenção de Suicídios, alerta para outras raízes associadas ao aumento dos suicídios infanto-juvenis.

"Há uma pressão extrema sobre esse grupo por competição, ambições e preocupações com o futuro", diz.

"Crises econômicas também têm impacto, uma vez que alguns jovens se sentem um fardo para as famílias. Jogos, vídeos, TV e filmes também influenciam muito as mentes dos jovens. Outra chave para a questão são outros suicídios a que esses jovens expostos. O contágio do suicídio é real, e os jovens são particularmente sensíveis a ele", diz o especialista à BBC Brasil.

Segundo Lisa Elliott, enquanto meninos que tentam cometer suicídio apelam para métodos mais violentos, como o uso de armas, os casos de meninas são normalmente associados ao excesso de substâncias controladas e drogas ilícitas.

"Adolescentes não entendem completamente as drogas que estão ingerindo e suas potenciais consequências. Isso pode resultar em overdoses acidentais", alerta.

De acordo com os entrevistados, os pais que buscam ajuda profissional normalmente contam que encontraram menções a suicídio nos telefones ou cadernos dos filhos, ou perceberam mudanças de comportamento, como isolamento e afastamento dos amigos, irritabilidade, problemas de sono e em notas escolares e falta de interesse em atividades que antes agradavam.

"A tentativa mostra muitas vezes que as crianças querem dizer que estão muito bravas ou tristes, mas não sabem como articular isso", avalia Kennedy-Moore. "E muitas pesquisas mostram que a maioria dos que tentam se suicidar acaba se arrependendo do ato".

Para Elliott, os dados apontados pelas pesquisas não devem ser ignorados pelos pais ‒ cujo maior erro costuma ser achar que histórias como as que abrem esta reportagem nunca acontecerão com pessoas próximas.

As referências a suicídios no noticiário, segundo a especialista, podem servir como oportunidade para conversas sobre o tema entre pais e filhos.

"Pergunte a eles por que acham que isso está acontecendo e se sentem algo semelhante", diz. "Assim, você pode descobrir muito sobre o que eles ou seus amigos estão vivendo".

A presença dos pais nas vidas das crianças e jovens é a estratégia mais eficaz, segundo os entrevistados.

"Muitas vezes, nós enchemos a agenda dos nossos filhos com atividades porque pensamos que é saudável, quando seria melhor ter mais tempo com relações humanas saudáveis e realmente gastar tempo em família com qualidade, sem dispositivos eletrônicos", afirma Elliott.


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Psiconeuroimunologia: a intrigante técnica de escrever sobre traumas que ajuda a curar o corpo[1]


Claudia Hammond - Da BBC Future

Em 1986, o professor de Psicologia James Pennebaker descobriu algo extraordinário, que inspirou uma geração de pesquisadores a fazer centenas de experimentos. Ele pediu a estudantes que passassem 15 minutos escrevendo sobre o maior trauma de suas vidas ou, caso não tivessem passado por um, sobre o momento mais difícil que viveram.
Eles tinham que se soltar e incluir seus pensamentos mais profundos, mesmo que nunca os tivessem compartilhado antes. Eles realizaram essa mesma tarefa por quatro dias consecutivos. Não foi fácil. Pennebaker disse que, em média, um a cada 20 alunos acabou chorando, mas, quando questionados se queriam continuar o experimento, sempre disseram que sim. Enquanto isso, um grupo de controle passou o mesmo número de sessões escrevendo descrições de coisas neutras, como uma árvore ou seus quartos.
O pesquisador então passou seis meses monitorando a frequência com que os estudantes iam ao médico. No dia em que viu os resultados, ele saiu do laboratório, encontrou um amigo que o esperava no carro e lhe disse que havia descoberto algo grande. Os estudantes que escreveram sobre seus sentimentos secretos foram muitas vezes menos ao médico nos meses seguintes.
Desde então, a área da psiconeuroimunologia tem explorado a ligação entre o que agora é conhecido como escrita expressiva e o funcionamento do sistema imune.
Os estudos seguintes examinaram o efeito dessa escrita em tudo, de asma e artrite até câncer de mama e enxaqueca. Por exemplo, em um estudo pequeno, conduzido no Kansas (EUA), foi descoberto que mulheres com câncer de mama tinham menos sintomas incômodos e iam a menos consultas médicas relacionadas ao câncer nos meses seguintes ao experimento.
O objetivo do estudo não era observar o diagnóstico de câncer a longo prazo e os autores não sugerem que o câncer poderia ser afetado. Mas a curto prazo, outros aspectos da saúde da mulher pareciam melhores que aqueles nos grupos de controle que escreveram sobre outra coisa além de seus sentimentos em relação ao câncer.
No entanto, isso nem sempre funciona. Uma meta-análise de Joanne Fratarolli, da Universidade da Califórnia em Riverside, apontou que há um efeito em geral, mas que este é pequeno. Para uma intervenção livre e positiva, é um benefício que vale a pena. Alguns estudos tiveram resultados decepcionantes, mas há uma área em que os resultados são mais consistentes: a da cura de ferimentos.
Nesses estudos, voluntários corajosos fazem a escrita expressiva e alguns dias depois recebem um anestésico local e, então, uma biópsia no braço. O ferimento geralmente mede 4 milímetros e cura em algumas semanas. Essa cura é monitorada repetidamente e é mais rápida se os voluntários escrevem sobre seus pensamentos mais secretos.
O ato de colocar palavras no papel faz o que, afinal? Inicialmente se assumia que isso estava ligado à catarse, ao fato de que as pessoas se sentiam melhor porque colocavam seus sentimentos para fora. Mas então Pennebaker começou a olhar com atenção para a linguagem usada pelas pessoas na escrita.
Ele descobriu que os tipos de palavras usadas mudam no transcorrer das quatro sessões. Aqueles cujos ferimentos curavam mais rápido começaram a usar mais a palavra "eu", mas nas últimas sessões usavam "ele" ou "ela" com maior frequência, sugerindo que eles estavam olhando para o acontecido com outras perspectivas. Eles também usaram palavras como "porque", implicando que estavam dando sentido aos acontecimentos e os colocando em uma narrativa. Pennebaker acredita que o simples ato de rotular seus sentimentos e colocá-los em uma história pode afetar o sistema imune de alguma forma.
Mas há uma descoberta curiosa sugerindo que pode haver outra coisa acontecendo. Imaginar um acontecimento traumático e escrever uma história a respeito dele pode fazer a ferida curar mais rápido, então talvez a diferença esteja menos relacionada com a resolução de questões passadas e mais com encontrar uma maneira de regular suas próprias emoções.
Após o primeiro dia de escrita, a maioria das pessoas disse que remoer o passado as fez se sentir pior. Será que o estresse fez as pessoas liberarem hormônios de estresse como o cortisol, que também é benéfico a curto prazo e pode fortalecer o sistema imune? Ou será que é a melhora do humor depois de vários dias escrevendo que traz os benefícios para a imunidade? Até agora, ninguém sabe.
Seja qual for o mecanismo, apesar de várias décadas de pesquisa mostrando que funciona, a técnica raramente é usada clinicamente. Dá até para imaginar uma situação em que pessoas com cirurgia marcada sejam instruídas a praticar a escrita expressiva nas semanas anteriores ao procedimento, mas poucos estudos usaram populações clínicas com ferimentos reais e cirúrgicos em vez de aplicar ferimentos artificialmente em estudantes saudáveis.
Também funciona melhor para algumas pessoas em relação a outras e tudo depende do quanto elas se engajam no processo. Além disso, o efeito é a curto prazo, então você teria que calcular bem o tempo. Escrever sobre seus sentimentos não aumenta sua imunidade para sempre. Se as mesmas pessoas se machucarem de novo alguns meses após o estudo inicial, elas não vão se curar mais rápido que outra pessoa qualquer.
Agora, uma pesquisa recente da Nova Zelândia sugeriu que não é necessário realizar a escrita antes de você se machucar. Pode funcionar do mesmo jeito se você fizer a escrita expressiva depois. Isso abre um leque de possibilidades para a prática não apenas quando a cirurgia é planejada, mas para ferimentos que não podemos prever.
Kavita Vedhara, da Universidade de Nottingham, e sua equipe na Nova Zelândia fizeram um experimento com 120 voluntários saudáveis e pediram a eles para escrever ou sobre um evento estressante ou sobre o que fizeram no dia anterior. Isso foi feito antes ou depois de uma biópsia no braço. As pessoas que estavam no grupo da escrita expressiva (que escreveram sobre o evento estressante) tinham uma tendência seis vezes maior de ter o ferimento curado em 10 dias na comparação com as outras.
Ainda é preciso realizar mais estudos com pacientes reais, mas talvez um dia, quando passarmos por uma operação, poderemos ir para casa com instruções sobre escrita expressiva. Como diz Kavita Vedhara, o efeito "é de curto prazo, mas poderoso".


Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site da BBC Future.
O conteúdo desta matéria é apenas para informação geral e não deve ser tratado como substituto de um aconselhamento médico. A BBC não é responsável por qualquer diagnóstico feito com base no conteúdo do site.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Problema Moral – Os Canibais[1]



Um de nossos assinantes dirigiu-nos a seguinte pergunta, rogando-nos que fosse respondida pelos Espíritos que nos assistem, caso ainda não a tivesse sido.
 Os Espíritos errantes, depois de um lapso de tempo mais ou menos longo, desejam e pedem a Deus a reencarnação como meio de progresso espiritual. Escolhem as provas e, usando o livre-arbítrio, elegem naturalmente aquelas que lhes parecem mais apropriadas a esse progresso, no mundo onde a reencarnação lhes é permitida. Ora, durante sua existência errante, que empregam em instruir-se (são eles que nos dizem), ficam sabendo quais as nações que melhor podem fazê-los atingir o fim a que se propõem. Veem populações ferozes, antropófagas e têm a certeza de que, nelas encarnando, tornar-se-ão ferozes e comedores de carne humana.
Seguramente não é nesse meio que haverão de realizar o progresso espiritual; seus instintos brutais apenas terão adquirido mais consistência pela força do hábito. Eis então prejudicado o seu objetivo, quanto à escolha das encarnações entre tal ou qual povo.
“O mesmo acontece com certas posições sociais. Entre estas, certamente há as que apresentam obstáculos invencíveis ao progresso espiritual. Citarei apenas os magarefes[2] nos matadouros, os carrascos etc.. Dizem que tais criaturas são necessárias: umas, porque não podemos passar sem alimentação animal; outras, porque é preciso executar as decisões da justiça, requeridas pela nossa organização social. Não é menos verdade que, reencarnando no corpo de uma criança destinada a abraçar uma ou outra dessas profissões, deve o Espírito saber que envereda por caminho errado e que se priva voluntariamente dos meios que o podem conduzir à perfeição. Não poderia acontecer, com a permissão de Deus, que nenhum Espírito quisesse esses gêneros de existência e, nesse caso, qual a necessidade dessas profissões em nosso estamento[3] social?
A resposta a essa questão decorre de todos os ensinamentos que nos têm sido dados. Podemos, pois, respondê-la, sem ter que submetê-la novamente aos Espíritos.
É evidente que um Espírito já elevado, por exemplo, o de um europeu esclarecido, não poderá escolher como meio de progresso uma existência selvagem: em vez de avançar, retrogradaria.
Mas sabemos que nossos próprios antropófagos não se encontram no último degrau da escala e que há mundos onde o embrutecimento e a ferocidade não têm analogia na Terra. Esses Espíritos ainda são inferiores aos mais atrasados Espíritos de nosso mundo e, renascer entre nossos selvagens é, para eles, um progresso. Se não visam mais alto, é que sua inferioridade moral não lhes permite compreender um progresso mais completo. O Espírito não pode avançar senão gradualmente; deve passar sucessivamente por todos os graus, de forma que cada passo à frente seja uma base para assentar um novo progresso. Ele não pode transpor de um salto a distância que separa a barbárie da civilização, como o escolar não pode ser promovido, sem transição, do á-bê-cê à retórica. É nisso que vemos uma das necessidades da reencarnação, que está verdadeiramente conforme à justiça de Deus. Não fora assim, em que se transformariam esses milhões de seres que morrem no último estado de degradação, caso não tivessem meios de atingir a superioridade? Por que os teria Deus deserdado dos favores concedidos aos outros homens? Nós o repetimos, por ser um ponto essencial: em razão de sua inteligência limitada, não compreendem o que é melhor senão do seu ponto de vista e dentro de estreitos limites. Há, entretanto, alguns que se transviam por quererem subir muito alto, e que nos oferecem o triste espetáculo da ferocidade no meio da civilização. Estes, voltando entre os canibais, lucrarão ainda.
Essas considerações também se aplicam às profissões de que fala o nosso correspondente. É evidente que oferecem superioridade relativa para certos Espíritos e não é nesse sentido que se deve compreender a escolha que farão. Pelo mesmo motivo, elas podem ser escolhidas como expiação ou como missão, porquanto nenhuma existe na qual não se possa encontrar oportunidade de fazer o bem e de progredir, pela própria maneira com que são exercidas.
Quanto à questão de saber em que se tornariam essas profissões, caso nenhum Espírito as quisesse abraçar, está respondida pelos fatos. Desde que os Espíritos que as alimentam procedem de mais baixo, não se deve temer o desemprego. Quando o progresso social permitir a supressão do ofício de carrasco, desaparecerá essa classe e não os candidatos, que se irão apresentar entre outros povos ou em outros mundos menos adiantados.





[1] Revista Espírita – Abril/1859 – Allan Kardec
[2] O que mata e esfola reses no matadouro.
[3] Modo de estar.


segunda-feira, 14 de agosto de 2017

MARECHAL MÁRIO TRAVASSOS[1]

 

Nascido no dia 20 de janeiro de 1891, na cidade do Rio de Janeiro, vindo a desencarnar na mesma cidade, no dia 20 de julho de 1973.
Era filho do General Silvestre Rodrigues da Silva Travassos e Dna. Maria José de Araújo Travassos, tendo se casado, em 1912, com Dna. Felismina Duarte de Oliveira Travassos.
Ingressou na Escola Militar de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1908, saindo Aspirante em 2 de janeiro de 1911, fazendo brilhante carreira militar até o generalato. 2º. Tenente, em 1915, 1º. Tenente, em 1920, Capitão, em 1925, Major, em 1933, Tenente-Coronel (por merecimento), em 1938, Coronel (por merecimento), em 1941, General-de-Brigada, em 1946, General-de-Divisão, em 1951 e General-de-Exército, em 1952, posto em que foi transferido para Reserva. Posteriormente à sua transferência para a Reserva, foi promovido a Marechal.
Teve os seguintes comandos: Participou da Campanha do Contestado, 1914/1915; Comandante do 8º. BC-São Leopoldo, em Rezende, 1939. Serviu no Estado-Maior do Exército, 1940, Professor da Escola de Estado Maior, 1941, Comandante da Escola Preparatória de Cadetes do Ceará, 1942/1943, Comandante da Escola Militar do Realengo, 1943/1944, Comandante do Depósito do Pessoal da FEB, embarcando para a Zona de Operações de Guerra, em Nápoles, na Itália, de 1944 a 1945. Comissões como Oficial-General: Comandante da 5ª. Região Militar, 1947, Comandante do CAER, 1948, Diretor de Ensino do Exército, onde realizou vários Simpósios e Seminários para reforma total do ensino no Exército. Juntamente com o General José Pessoa, criou a Academia Militar de Agulhas Negras, tendo sido o seu 1º. Comandante, e, com o mesmo companheiro, foi designado para indicar o local onde deveria ser construída a nova Capital do Brasil (Brasília). Fato interessante se deu nessa oportunidade, podendo-se considerar de caráter mediúnico. Ao chegarem ao ponto pré-estabelecido, lá depararam com uma inscrição relativa a uma profecia de Dom Bosco segundo a qual, exatamente ali nasceria uma civilização de onde emanaria mel e leite para toda a Humanidade (segundo se sabe, na linguagem simbólica dos clarividentes, mel e leite significam sabedoria espiritual). No Exército fez os seguintes cursos: Infantaria e Cavalaria, Aperfeiçoamento e de Estado-Maior. Recebeu inúmeras medalhas e condecorações.
Por longos anos presidiu a ABE "Associação Brasileira de Educação". Jornalista profissional, pertenceu ao quadro de redatores do Jornal do Brasil durante muitos anos, colaborando ainda em outros periódicos, como: "Defesa Nacional" e "O Estado de S. Paulo". Sua obra literária, ressalta importantes aspectos da Geopolítica Brasileira, com os seguintes volumes: "Aspectos Geográficos Sul-Americanos", 1933, "Projeção Continental do Brasil", 1938 e "Introdução à Geografia das Comunicações Brasileiras", 1942. Alguns de seus livros inspiraram o aproveitamento do Rio São Francisco e segundo o próprio Ministro da Educação, a Transamazônica.
Nasceu em lar espírita, onde seu pai costumava realizar uma sessão de caráter experimental com os familiares. Em sua juventude, passou a estudar a Doutrina, à Luz da Codificação Kardequiana, para a qual se sentiu inclinado diante dos argumentos de "O Livro dos Espíritos" e de "O Evangelho Segundo o Espiritismo", passando a adotar os seus princípios morais.
Na década de 1920, conheceu Viana de Carvalho, um dos maiores tribunos da Doutrina Espírita de todas as épocas, o qual iniciava uma campanha de evangelização da infância, com as chamadas "Aulas de Moral Cristã". O Marechal Mário Travassos entusiasmou-se pelo assunto, colaborando muito nesse setor, sendo mesmo um dos pioneiros do movimento de evangelização da infância no meio espírita.
Orador fluente, era convidado constantemente para conferências no Rio de Janeiro e Estados vizinhos, pregando Doutrina Espírita e Evangelho. Deolindo Amorim o convidou para ser um dos professores do Instituto de Cultura Espírita do Brasil, no qual ministrou aulas de Doutrina por muitos anos. Foi Vice-Presidente da Cruzada dos Militares Espíritas, por anos seguidos e o iniciador das Semanas Maurícias. Idealizou o Dicionário Espírita, quando colaborava no Grupo Espírita "Regeneração", ministrando aulas de Doutrina Espírita, baseado em "O Livro dos Espíritos". Foi um dos expositores de um Círculo de Cultura Espírita, que até hoje se realiza no Grupo Espírita "Discípulos de Samuel" em Aldeia Campista. No dia 30 de junho de 1953, juntamente com Luiz Antônio Mileco e Marcos Vinícius Teles, fundava a SPLEB - Sociedade Pró-Livro Espírita em Braille, realizando o seu primeiro anteprojeto de Estatuto.
Durante 20 anos, foi o seu Presidente e membro vitalício de seu Conselho. Essa Sociedade tem por finalidade editar e distribuir gratuitamente livros espíritas em Braille, a todas as Sociedades de Cegos do Brasil, já tendo editado em Braile quase toda obra de Allan Kardec, exceto "Obras Póstumas" e a "Revista Espírita". Editou também, "O Consolador" de Emmanuel e "Biografias de Grandes Vultos do Espiritismo". Para o Braille, foram passadas várias obras espíritas, espiritualistas e de cultura geral, destinadas às bibliotecas das Sociedades. Em 1953, realizou o Primeiro Congresso de Cegos Espíritas, no Rio de Janeiro, o primeiro congresso nesse gênero de que se tem notícias. Com o seu prestígio pessoal muito contribuiu para o desenvolvimento da SPLEB, inclusive dotando-a de sede própria.
O Marechal Mário Travassos era um idealista, amava Jesus com todas as veras de seu grande coração e procurava segui-lo através de Seu Evangelho de Amor Penalizado da prova dos cegos, desejando minorar-lhes os sofrimentos, dedicou-se de corpo e alma ao estudo do Braille, para que através da leitura das obras espíritas, principalmente dos livros da Codificação Kardequiana pudessem compreender a bondade infinita de Deus, e pela lei da reencarnação, descobrissem o porquê de suas deficiências físicas.
O seu corpo foi velado por parentes e amigos, além de uma guarda de honra constituída por Cadetes da Academia Militar de Agulhas Negras. Ao seu sepultamento compareceram inúmeros oficiais, generais e militares de várias categorias, grande número de representantes de Instituições Espíritas. Antes da saída do féretro, Luiz Antônio Mileco, seu companheiro de todas as horas, fez breve alocução exaltando as qualidades militares e espíritas do insigne confrade, terminando com sentida prece a Jesus, rogando amparo e luz, para o companheiro que partiu.




[1] Personagens do Espiritismo - Antônio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy

sábado, 12 de agosto de 2017

ACATEMOS A DOR FÍSICA COMO EDUCADORA DA ALMA[1]


 
Jorge Hessen - jorgehessen@gmail.com
 

Uma comovente batalha judicial dos pais de um bebê britânico em estado terminal acabou envolvendo até mesmo o Papa Francisco. Trata-se de Charlie Gard que sofre de síndrome de miopatia mitocondrial, uma síndrome genética raríssima e incurável que provoca a perda da força muscular e danos cerebrais. Ele nasceu em agosto de 2016 e, dois meses depois, precisou ser internado, onde permanece desde então, no Hospital Great Ormond Street, em Londres.
O serviço de saúde pública do Reino Unido (NHS) explicou que Charlie tem danos cerebrais irreversíveis, não se move, escuta ou enxerga, além de ter problemas no coração, fígado e rins. Seus pulmões apenas funcionam por aparelhos. O NHS disse que os médicos chegaram a tentar um tratamento experimental trazido dos EUA, mas Charlie não apresentou melhora. Por isso, defende o desligamento dos aparelhos que o mantém vivo.
Mas seus pais, Chris Gard e Connie Yates ‒ e uma comunidade de apoiadores ‒, lutam contra a decisão do hospital e pedem permissão para levar o bebê aos Estados Unidos para receber o tratamento experimental diretamente. No dia 27 de junho de 2017, entretanto, eles perderam a última instância do pedido na Justiça britânica, que avaliou que a busca pelo tratamento nos EUA apenas prolongaria o sofrimento do bebê sem oferecer possibilidade de cura.
A Corte Europeia de Direitos Humanos também concluiu que o tratamento "causaria danos significativos a Charlie", seguindo a opinião dos especialistas do hospital, e orientou pelo desligamento dos aparelhos. No dia 02 de julho de 2017, após a decisão da Justiça britânica, o Papa Francisco pediu que os pais de Charlie possam "tratar de seu filho até o fim". O Vaticano disse que o papa estava acompanhando o caso "com carinho e tristeza".
O serviço de saúde pública do Reino Unido (NHS) não propõe a eutanásia, mas a ortotanásia[2]. Os pais de Charlie lutam pela distanásia, ou seja, desejam o prolongamento artificial do processo de tratamento, o que para os juízes e médicos tem trazido sofrimento para Charlie, e nessa situação a medicina não prevê possibilidades de melhoria ou de cura.
No Brasil, médicos revelam que eutanásia é prática habitual em UTI’s, e que apressar, sem dor ou sofrimento, a morte de um doente incurável é ato frequente e muitas vezes pouco discutido nas UTI's dos hospitais brasileiros[3]. Nos Conselhos Regionais de Medicina, a tendência é de aceitação da eutanásia, exceto em casos esparsos de desentendimentos entre familiares, sobre a hora de cessar os tratamentos.
Médicos e especialistas em bioética defendem a ortotanásia, como no caso de Charlie Gard, que é o ato de retirar equipamentos ou medicações, de que se servem para prolongar a vida - Charlie hoje se encontra em estado terminal. Ao retirar esses suportes de vida (equipamentos ou medicações), mantendo apenas a analgesia e tranquilizantes, espera-se que a natureza se encarregue de agenciar a fatalidade biológica (morte).
Charlie está sofrendo com intensidade? Sim, está! Mas toda dor tem a sua serventia. Sob o ponto de vista espírita, aprendemos que a agonia física prolongada pode ter finalidade preciosa para a alma, e a moléstia incurável pode ser, em verdade, um bem. Nem sempre conhecemos as reflexões que o Espírito pode fazer nas convulsões da dor biológica e os tormentos que lhe podem ser poupados graças a um relâmpago de arrependimento.
Entendamos e acatemos a dor física, como instrutora das almas e, sem vacilações ou indagações descabidas, amparemos quantos lhes experimentam a presença constrangedora e educativa, lembrando sempre que a nós compete, tão somente, o dever de servir, porquanto a Justiça, em última instância, pertence a Deus, que distribui conosco o alívio e a aflição, a enfermidade, a vida e a morte no momento oportuno.
O verdadeiro cristão porta-se, sempre, em favor da manutenção da vida e com respeito aos desígnios de Deus, buscando não só minorar os sofrimentos do próximo ‒ sem eutanásias passivas, claro! ‒ mas também confiar na justiça e na bondade divina, até porque nos Estatutos de Deus não há espaço para dores injustas.


[2] Etimologicamente, a palavra "ortotanásia" significa "morte correta", onde orto = certo e thanatos = morte. A ortotanásia, ou "eutanásia passiva" pode ser definida como o não prolongamento artificial do processo natural de morte, onde o médico, sem provocar diretamente a morte do indivíduo, suspende os tratamentos extraordinários que apenas trariam mais desconforto e sofrimento ao doente, sem melhorias práticas.
[3] Associação de Medicina Intensiva Brasileira nega que a eutanásia seja frequente nas UTI's no Brasil.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

PARÁBOLA DO AVARENTO[1]



Cairbar Schutel
 

As terras de um homem rico produziram muito fruto. E ele discorria consigo: Que hei de fazer, pois não tenho onde recolher os meus frutos? E disse: farei isto: derribarei os meus celeiros e os construirei maiores, e aí guardarei toda a colheita e os meus bens e direi à minha alma: Minha alma, tens muitos bens em depósito para largos anos; descansa, come e bebe e regala-te. Mas Deus disse-lhe: Insensato, esta noite te exigirão a tua alma; e as coisas que ajuntaste para quem serão? Assim é aquele que entesoura para si e não é rico para com Deus.

(Lucas, XII, 16-21.)

 
Quanto mais se avizinhava o tempo do cumprimento da Missão do Divino Messias, mais Ele intensificava o seu trabalho de difusão da Doutrina de que havia sido encarregado, pelo Supremo Senhor, de trazer à Terra.
Os escribas e fariseus já faziam planos sinistros para acabar com a vida do Filho do Homem, quando o Mestre Excelente iniciou a exposição das imaginosas parábolas que constituem um dos mais eloquentes capítulos do Novo Testamento.
A Parábola do Avarento é uma síntese maravilhosa do trágico fim de todos aqueles que não veem a felicidade senão no dinheiro e se constituem em seus escravos incondicionais. Para essa gente, havendo dinheiro, há tudo. Periclite a família, cambaleie a sociedade, arraste-se o mendigo pelas vias públicas envergonhado e descomposto, chore e soluce o aflito, grite de dores o enfermo miserável ou o inválido sem pão e sem lar, nada comove esses corações de pedra, nada lhes demove, nada consegue mudar-lhes ou desviar-lhes as vistas dos “seus frutos”, dos seus celeiros, do seu ouro!
São homens desumanos, sem alma; pelo menos ignoram a existência, em si mesmos, desse princípio imortal que deve constituir, para todos, o principal objeto de cuidados e de carinho.
A avareza é a véspera da mendicidade, ou seja, o fator da miséria.
Quantos miseráveis perambulam pelas praças, implorando o óbolo e que, mesmo nesta existência, foram ricos, sustentaram grandezas, bastos celeiros transbordantes!
Quantos párias se arrastam pelas ruas, a bater de porta em porta, implorando “uma esmola pelo amor de Deus!”
Qual a origem dessa situação penosa que atravessam, qual a causa desses sofrimentos? A avareza! Ricos em dinheiro, eram pobres para com Deus, porque, embora não lhes faltasse tempo, nunca se dedicaram a Deus, nunca procuraram a sua lei, nunca pesquisaram o próprio íntimo em busca de algo que existe, que sente, que quer e não quer, que ama e que odeia, que vê o passado, que ao menos teme o futuro; nunca buscaram saber se essa centelha de inteligência que lhes dá tanto amor ao ouro, tanta ganância pelos lucros terrenos poderá, quiçá, sobreviver a esse corpo que, de uma hora para outra, cairá exânime, para ser entregue ao banquete dos vermes!
O que valem riquezas efêmeras, sombras de felicidade que se esvaem, fumo de grandezas que desaparecem à primeira visita de uma enfermidade mortal! O que valem celeiros repletos em presença do “ladrão da morte”, que chega em momento inesperado, e, até, quando nos julgamos em plena mocidade e com ótima saúde!
Míseros avarentos dos bens que Deus vos confiou! Pensais, porventura, que não tereis de prestar ao Senhor severas contas desse depósito? Pensa que eles hão de permanecer conosco e servirão para multiplicar cada vez mais a vossa fortuna? Em verdade vos afirmo que vosso ouro se converterá em brasas a causticar vossa consciência! Em verdade vos digo que ele se transformará em peias e algemas, resultantes da ação nefasta que exercestes em detrimento dos que tinham fome, dos que tinham sede, dos enfermos desprezados, dos pobres trabalhadores de quem explorastes o trabalho!
Ricos! Movimentai esse talento que o Senhor vos concedeu! Granjeai amigos com esse tesouro da iniquidade, para que eles vos auxiliem a entrar nos tabernáculos eternos! Fazei o bem; socorrei o pobre; amparai o órfão; auxiliai a viúva necessitada; curai o enfermo, como se ele fosse vosso irmão ou vosso filho; pagai com generosidade o trabalhador que está ao vosso serviço! Fazei mais: comprai livros e aproveitai os momentos de ócio para vos instruir, por que um rico ignorante é tanto como um asno de sela dourada! Ilustrai o vosso Espírito; fazei para vós, tesouros e celeiros nos Céus, aonde os vermes não chegam, os ladrões não alcançam, a morte não entra!
Lembrai-vos da Parábola do Avarento, cuja alma, na mesma noite em que fazia castelos no ar, foi chamada pelo Senhor!




[1] Parábolas e Ensinos de Jesus - Cairbar Schutel

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Consequências da brincadeira do copo[1]



José Lucas - 23/02/2016
 

 NOTA do EDITOR:

Caros leitores, apresentamos este breve relato para auxiliar na instrução dos jovens que por curiosidade se entregam à tentativa de se comunicar com os espíritos, por variados motivos, sem o devido cuidado que somente o estudo e a reflexão poderiam proporcionar.  A falta de maturidade e a falta de esclarecimento podem abrir perigoso espaço para perturbações de ordem psicológica de graves consequências a curto e a longo prazo, portanto, cabe a conscientização por parte dos pais, não através da ameaça, das consequências desastrosas que podem advir, mas através da conversa aberta e direta. Para tal, nos serve a Codificação.
 
A espiritualidade vai despertando cada vez com mais força junto dos jovens. A vontade de falar com os espíritos é grande e por vezes metem-se em aventuras que podem ser perigosas, como o jogo do copo. Ora veja por que.
 
05h10 da manhã
O telefone tocou! Alvoroço em casa, pensa-se logo o pior! Quem terá morrido? Quem terá tido um acidente? Ou seria alguma chamada urgente do trabalho? Ou alguma brincadeira de mau gosto por parte de quem tem insônias? Não, não era brincadeira. O telefonema era a sério.
Uma amiga nossa, de 15 anos de idade, de uma cidade vizinha, estava do outro lado da linha, num descontrole nervoso por demais evidente. A história conta-se em breves pinceladas.
Sofia, de 15 anos de idade, tinha feito uma sessão mediúnica para tentar falar com os espíritos, e assim tentar saber notícias do seu primo, há cerca de dois anos desencarnado (falecido) num desastre de moto. Juntou-se mais uns amigos e já não era a primeira vez que o faziam. À volta de uma mesa utilizava o jogo do copo, com um abecedário em volta, a palavra sim e não, números de 0 a 9 e invocavam a presença de pessoas já falecidas. Nessa noite, Sofia vira o copo a mexer, (como aliás das outras vezes) e ao perguntarem quem estava presente a resposta fora: “Satanás”. Entre outras “revelações” chocantes, acabaram por terminar o jogo. Ela, Sofia, ficou assustadíssima, não conseguia dormir, pois acreditava que tinha comunicado com o Satanás.
 
O Espiritismo precisa ser estudado… como aliás, qualquer outra ciência
Lá lhe explicamos que o Satanás não existe, que diabos somos nós quando praticamos o mal, quando odiamos, matamos etc.. Foi-lhe igualmente explicado que não acreditasse no que fora dito pois eram espíritos galhofeiros, que pretendiam assim explorar a credulidade alheia para se divertirem com a inexperiência desses jovens. Com um pouco de tempo, a jovem lá se acalmou sob juras de nunca mais voltar a fazer tal brincadeira.
Temos recebido na associação onde colaboramos, nas Caldas da Rainha, na Associação Cultural Espírita, muitos reportes de jovens que aparecem perturbados depois de fazerem o jogo do copo.
Aconselhamos vivamente a que não o façam, pois podem correr sérios riscos de perturbação espiritual.
O contato com o mundo espiritual é perfeitamente natural e normal, mas, como tudo na vida, obedece a certas normas de segurança que urge conhecer. Não pegamos num automóvel sem aprender a conduzir, não nos submetemos a um exame escolar sem estudar previamente. Também assim, quem pretende comunicar com o mundo espiritual pode fazê-lo, mas deve estudar primeiro, informar-se e depois, dentro de certas condições de segurança então poderá efetuar esses contatos normalmente.
Aconselhamos seriamente as pessoas a estudarem os livros de Allan Kardec , nomeadamente «O Livro dos Médiuns» que explica todas as nuanças desta atividade. Igualmente se aconselha que as pessoas interessadas neste intercâmbio, se dirijam a uma associação espírita, se informem, e apenas pratiquem a mediunidade dentro da associação espírita, onde o podem fazer em segurança, se aí não houver qualquer tipo de interesse e/ou comércio.
O contato com o mundo espiritual é perfeitamente natural e normal, mas, como tudo na vida, obedece a certas normas de segurança que urge conhecer.
O Espiritismo é uma doutrina universalista, e como tal, qualquer pessoa pode dentro dos parâmetros de segurança que Allan Kardec estabeleceu em «O Livro dos Médiuns», comunicar com o mundo espiritual, o que lhe confere a autenticidade do fenômeno, já que não depende da crença no Espiritismo ou em outra corrente filosófica e/ou religiosa para que se obtenham resultados.
No entanto, reforçamos, não o devem fazer nas escolas, em casa, por curiosidade ou divertimento (cujas consequências podem ser perigosas), mas sim devem contatar uma associação espírita, estudarem, e aí sim, quando tiverem oportunidade, integrarem-se nas suas atividades (não correndo assim qualquer risco).
O Espiritismo é uma doutrina muito lógica, que corresponde às expectativas de todos nós, explicando o porquê da vida, das suas dissemelhanças bem como abrindo novos horizontes para o porvir do homem. No entanto, como qualquer outra ciência, ele tem de ser… estudado. E , para isso, não há nada melhor do que começar pelo «O Livro dos Espíritos», «O Evangelho segundo o Espiritismo», «O Livro dos Médiuns», «A Gênese» e «O Céu e o Inferno», todos eles de Allan Kardec.