terça-feira, 8 de agosto de 2017

Psicometria um instigante fenômeno psíquico[1]


 Jorge Hessen


Recentemente Maria Rosa Busi, uma médium italiana, desvendou o enigma do desaparecimento de Chiara Bariffi ocorrido em 2002, após "ouvi-la". Busi que levou a polícia até o corpo de uma mulher no fundo do Lago, disse ‒ em depoimento à Justiça de Roma ‒ que uma visão permitiu que ela elucidasse um mistério que já durava quase três anos. "A médium afirma ter poderes clarividentes, foi contatada pelos pais da vítima no início deste ano, para tentar descobrir o que havia acontecido com a filha deles. Eles lhe deram uma fotografia de Chiara, que tinha por volta de 30 anos quando desapareceu, sem deixar notícias nem pistas[2]".
Busi disse no tribunal ter "captado" os últimos momentos da vida de Bariffi antes que ela caísse no lago com seu carro, no fim de 2002. E explicou: "Eu fui ao lago e vi o que aconteceu... Eu a escutei, eu a vi e desenhei um mapa", disse Busi à Agência Reuters, que divulgou o fato. "Ninguém achou que ela estivesse no lago. Quando vi a foto, soube que ela tinha morrido", disse Busi. "Sou clarividente. Posso dizer quando alguém está vivo ou morto[3]". O caso era para a polícia bastante misterioso, levantou-se a tese até de homicídio e até suicídio foi colocado como hipótese, já que Chiara estava com problemas de ordens emocionais. Seus pais tinham sido informados que Chiara havia saído do país e vivia atualmente na Espanha. Busi se recusou a dizer o que teria motivado a morte de Chiara. Ela só disse isso à mãe da vítima. Mas sugeriu que o tempo ruim perto do lago provavelmente desempenhou um papel no destino de Chiara[4]. Estamos diante de típico fenômeno de psicometria[5] que a rigor não é faculdade comum em nossos círculos de atividade, uma vez que só a possuem pessoas dotadas de aguçada sensibilidade psíquica. Nossa atual condição espiritual, ainda deficitária, não permite esses admiráveis recursos perceptivos.
O termo psicometria foi criado em 1849 pelo médico norte-americano J. Rhodes Buchanan. Ele pesquisou e realizou durante vários anos uma série de experiências, mas somente depois de algum tempo, observando os efeitos do fluido magnético com pacientes sonâmbulos, chegou a conclusões cabais. Na definição do livro “Nos Domínios da Mediunidade” de André Luiz, psicografado por Francisco Cândido Xavier, psicometria significa registro, apreciação de atividade intelectual. Entretanto, nos trabalhos mediúnicos, esta palavra designa a faculdade de ler impressões e recordações ao contato com objetos comuns.
O Espírito Áulus relata que o pensamento espalha suas próprias emanações em toda parte a que se projeta, deixando vestígios espirituais onde são arremessados os raios da mente. Como o animal, que deixa no próprio rastro o odor que lhe é característico, tornando-se, por esse motivo, facilmente abordável pela sensibilidade olfativa do cão. O orientador prossegue dizendo que as marcas da individualidade de cada um vibram onde se vive e por elas provocam o bem ou o mal naqueles que entram em contato[6]. No livro “Mecanismos da Mediunidade”, psicografada por Chico Xavier e Waldo Vieira, ditada pelo espírito André Luiz, esclarece que a psicometria é a faculdade de perceber o lado oculto do ambiente e de ler impressões e lembranças ao contato de objetos e documentos. Cita ainda a importância da harmonização entre encarnados e descarnados neste tipo de trabalho, caso contrário pode-se anular a possibilidade de êxito, fugindo dos verdadeiros propósitos. Acrescenta também que pode ser usada em desaparecimento de uma pessoa que não deixou pistas. Por intermédio de um objeto pertencente à vítima, o médium consegue captar a personalidade e fisionomia do proprietário e reporta-se ao seu desaparecimento, podendo até mesmo descobrir seu desencarne e o local onde seu corpo se encontra. Isso porque os objetos adquirem um fluido pessoal humano[7]. Quando tocamos num objeto, imantamo-lo com o fluido que nos é peculiar. E se, além do simples toque ou uso, convertermos inadvertidamente esse objeto, seja um livro, uma foto, uma joia ou, em ponto maior, uma casa ou um automóvel em motivo de obsessiva adoração, ampliando, excessivamente, as noções de posse ou propriedade, o volume de energias fluídicas que sobre o mesmo projetamos é de tal maneira acentuado que a nossa própria mente ali ficará impressa. E dessa forma, em qualquer tempo e lugar, a nossa vida, com méritos e deméritos, desfilará em todas as suas minúcias ante o «radar» do psicômetra.
Há um extraordinário estudo de Ernesto Bozzano contido no livro «Enigmas da Psicometria», através de cuja leitura nos deparamos com impressionantes narrativas, algumas delas abrangendo até mesmo fases remotas da organização planetária terrestre. Para Bozzano o processo pelo qual é possível, ao psicômetra, entrar em relação com os fatos remotos ou próximos, pode ser explicado de duas maneiras principais: uma parte dos fatos e impressões é retirada da própria aura do objeto; outra parte é recolhida da subconsciência do seu possuidor mediante relação telepática que o objeto psicometrado estabelece com o médium. Não é importante que o possuidor esteja encarnado ou desencarnado. O filósofo italiano relata casos que demonstram haver relação psicométrica entre pessoas vivas, animais, vegetais e a matéria inanimada, e também casos de fenômenos telestésicos (sensações à distância)[8]. No início da década de 1970, o prof. W.H. Tenhaeff da Universidade de Utrechet pesquisava a mediunidade de Croiset. O jornalista Allan Vaughan acompanhou Croiset e fez filme sobre o médium em que procurou comprovar sua faculdade mediúnica para clarividência e psicometria.
Vários pesquisadores psíquicos acompanharam o médium holandês sem nunca terem constatado nenhuma fraude. Alguns jornais de sua época que noticiaram seus fenômenos: Daily Express, Evening Standard, Evening News. O Diário de Notícias, do Rio, de 04 janeiro 1964 noticiou os prodígios realizados pelo médium holandês. O Globo de 21 dezembro de 1963 traz depoimento do inspetor de polícia David von Woudenberg sobre o assunto. “São muitos casos complexos de pessoas desaparecidas que têm encontrado soluções nas intervenções dos sensíveis médiuns de psicometria. Daí anteciparmos uma certeza inalienável, de futuro a psicometria se consubstanciará em um instrumento valioso para elucidação de casos, porque não dizer policiais e outros quaisquer que têm desafiado a inteligência humana[9]".




[2] http://www.espacovital.com.br/novo/noticia_ler.php?idnoticia=1370  Psicometria (Grego: psykhé, alma; metron, medida), é a capacidade de identificar a informação contida nos objetos, ambientes e pessoas, através da leitura das energias presentes nos mesmos. Xavier, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2002.
[3] Idem.
[4] Idem.
[5] Psicometria (Grego: psykhé, alma; metron, medida), é a capacidade de identificar a informação contida nos objetos, ambientes e pessoas, através da leitura das energias presentes nos mesmos.
[6] Xavier, Francisco Cândido. Nos Domínios da Mediunidade, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2002.
[7] Xavier, Francisco Cândido e Vieira Waldo. Mecanismos da Mediunidade, Rio de Janeiro: Ed. FEB, 2000.
[8] Sobre o tema Camille Flammarion, astrônomo francês, fez um sério estudo dos fenômenos de telepatia (ou telestesia como preferia denominar), isto é, "ser advertido, por uma sensação qualquer, de uma coisa que se passa ao longe".
[9] Hessen, Jorge. Luz na Mente, Brasília: Ed. Edicel, 2000, Cap. Falando de Psicometria, pág. 93.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

DR. LUIZ Dl CRISTOFÓRO POSTIGLIONI[1]



Nascido na República Argentina, a 29 de novembro de 1909, e desencarnado no mesmo país, a 10 de fevereiro de 1979, Luiz Di Cristóforo Postiglioni foi um dos mais destacados espíritas argentinos dos últimos tempos. Sua atuação foi das mais intensas e os cargos por ele desempenhados foram dos mais relevantes.
O emérito companheiro foi presidente da Federação Espírita Internacional (1972-1978), tendo, nessa qualidade efetuado visitas a numerosos países, dentre elas a Inglaterra, França, Itália, Grécia, África do Sul e numerosas nações da América Latina, notadamente o Brasil.
Teve extraordinária atuação na Sociedade Constância, de Buenos Aires, inclusive no cargo de vice-presidente. Foi ainda secretário do conhecido periódico portenho "Constância". Dentre as instituições onde militou podemos destacar o Grupo de Estudos Camille Flammarion, do qual foi fundador; Colégio Argentino de Estudos Psíquicos, do qual foi secretário; Confederação Espírita Pan-americano, atuando como secretário em seu primeiro período, e como seu delegado junto ao 2º. Congresso Espírita Panamericano, realizado no Rio de Janeiro, em 1949.
Postiglioni foi decano do Instituto Neo-Pitagórico da Argentina; secretário-geral e em seguida presidente da Confederação Espiritista Argentina, a qual representou nos Congressos Internacionais da Federação Espírita Internacional, realizados em Copenhague (1966) e Glasgow (1969); delegado ao 1º. Congresso Mundial de Biologia e Medicina Nuclear (1964).
Quando da sua desencarnação exercia a presidência da Sociedade Perdoo-te, de La Plata e pertencia ao Movimento do Serviço do Espiritismo, em sua pátria.
O renomado seareiro era conferencista brilhante, tendo defendido teses e monografias várias. Deu sempre sua colaboração incondicional às revistas "La Idea" e "Constância".
Em parceria com o Eng. José S. Fernandes, o Dr. Postiglioni apresentou, no 2º. Congresso Internacional para estudos da Reencarnação, o trabalho "Fundamentos Científico-Filosóficos da Reencarnação", além de "Raiz e Destino de Kardec", "A Ciência e a Alma" e "A Reencarnação em Glasgow".
Na qualidade de Presidente da Confederação Espírita Argentina, visitou o Paraguai e também a representou em Santiago do Chile, na 2ª. Conferência Regional da Confederação Espírita Pan-americana.
Era figura bastante conhecida entre os espíritas brasileiros, e acompanhava de perto o movimento espírita de nosso país.
Homem de grande talento, era dotado de infatigável disposição para o trabalho. Para isso bastava ver a intensidade dos seus escritos, nos mais importantes periódicos da vizinha República, sua atuação como conferencista e sua luta em favor da implantação dos ideais contidos na Doutrina Espírita, uma vez que defendia incondicionalmente a Codificação Kardequiana e o postulado da reencarnação sempre que se lhe deparava oportunidade.
A sua partida representou duro golpe para os espíritas argentinos, acostumados a vê-lo presente em todos os movimentos que se realizavam quer na grande república platina, quer em numerosos outros países.




[1] Personagens do Espiritismo - Antônio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy

sábado, 5 de agosto de 2017

BRUNA ANDRESSA - Um suicídio “ao vivo”, seus pais e muitas agonias[1]



Jorge Hessen - jorgehessen@gmail.com


A jovem Bruna Andressa Borges, de 19 anos, se suicidou e transmitiu ao vivo o ato na tarde do dia 26 de julho de 2017 na casa de seus pais, na Vila Militar do bairro Bosque, em Rio Branco, Acre. O vídeo foi transmitido através do Instagram para 286 seguidores. Bruna era estudante de Ciências Sociais na Universidade Federal do Acre (Ufac). Antes de se enforcar também publicou mensagens no Facebook. “Já fui abandonada e julgada pela pessoa que achei que seria minha melhor amiga, a pessoa que amei me humilhou e riu da minha cara, me chamou de ridícula. Talvez eu seja, mas não pretendo continuar perguntando para saber”, escreveu.
Os pais de Bruna foram encontrados mortos dois dias depois em casa. Os corpos do subtenente Márcio Augusto de Brito Borges, de 45 anos, e da esposa, a ex-sargento Claudineia da Silva Borges, 39, estavam na casa onde moravam, na Vila Militar. As informações da perícia dão conta de que o casal foi encontrado no mesmo local em que sua filha Bruna cometera suicídio dois dias antes.
Há 7 anos uma jovem de 15 anos suicidou-se com um tiro de revolver, dentro de uma escola, em Curitiba. Não houve grito nem pedido de socorro. Em silêncio, ela entrou no banheiro e se trancou em uma das cinco cabines. Sentada sobre o vaso sanitário, disparou contra a boca. Três meses antes da tragédia, a jovem procurou os pais e pediu para que eles a levassem a um psicólogo. Dizia sentir-se triste e desmotivada. O pai passou a pegá-la na aula de pintura e levá-la, semanalmente, a um psiquiatra. No inquérito policial sobre o suicídio, apurou-se que ela tomava benzodiazepínicos (soníferos) para dormir, e outros medicamentos para controlar a ansiedade que sentia.
Diante dos dilemas acima indagamos: Como os pais podem proteger os filhos dos desequilíbrios emocionais que assolam a juventude de hoje? Obviamente, precisam estar atentos. Interpretar qualquer tentativa ou prenúncio de potencial suicídio como sinal de alerta. O ideal é procurar ajuda especializada de um psicólogo e, para os pais espíritas, os recursos terapêuticos dos centros espíritas. Aproximar-se com mais afinco do filho que apresenta sinais fortes de introspecção ou depressão. O isolamento e o desamparo podem terminar com aguda depressão e ódio da vida.
É evidente que sugerir serem os pais os únicos responsáveis pelo autocídio de um filho é algo muito delicado e preocupante, pois trata-se um ato pessoal de extremo desequilíbrio da personalidade, gerado por circunstâncias atuais ou por reminiscências de existências passadas. Se há culpa dos pais, atribui-se à negligência, à desatenção, a não perceber as mudanças no comportamento do filho e a tudo que acontece à sua volta. Sobre isso, estamos convictos de que a sociedade como um todo é igualmente culpada. Antes de colocar o fardo da culpa nos pais em primeiro lugar, reflitamos: quem pode controlar a pressão psicológica que uma montanha de apelos vazios faz na cabeça dos jovens diariamente?
O suicídio é um ato exclusivamente humano e está presente em todas as culturas. Suas matrizes causais são numerosas e complexas. Os determinantes do suicídio patológico estão nas perturbações mentais, depressões graves, melancolias, desequilíbrios emocionais, delírios crônicos etc. Algumas pessoas nascem com certas desordens psíquicas, tal como a esquizofrenia e o alcoolismo, o que aumenta o risco de suicídio. Há os processos depressivos, em que existem perdas de energia vital no organismo, desvitalizando-o, e, consequentemente, interferindo em todo o mecanismo imunológico da pessoa.
A religião, a moral e todas as filosofias condenam o suicídio como contrário às leis da Natureza. Todas asseveram que ninguém tem o direito de abreviar, voluntariamente, a vida. Entretanto, por que não se tem esse direito? Por que não é livre o homem de por termo aos seus sofrimentos? Ao Espiritismo estava reservado demonstrar, pelo exemplo dos que sucumbiram, que o suicídio não é uma falta somente por constituir infração de uma lei moral - consideração esta de pouco peso para certos indivíduos –, mas também um ato estúpido, pois que nada ganha quem o pratica. Antes, o contrário, é o que se dá com eles na existência espiritual após esse ato tão insano.
A rigor, não existe pessoa "fraca", a ponto de não suportar um problema, por julgá-lo superior às suas forças. O que de fato ocorre é que essa criatura não sabe como mobilizar a sua vontade própria e enfrentar os desafios. Na Terra, é preciso ter tranquilidade para viver, até porque não há tormentos e problemas que durem uma eternidade. Recordemos que Jesus nos assegurou que "O Pai não dá fardos mais pesados que nossos ombros" e "aquele que perseverar até o fim, será salvo [2]".


[2] Mt. 24:13

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

O Espiritismo necessita retornar às suas origens primordiais[1]



Jorge Hessen


Após a desencarnação de Allan Kardec o Movimento Espírita francês e mundial sucumbiu, devido à imaturidade doutrinária de Pierre G. Leymarie. A ele foi incumbida a administração do espólio da família de Kardec, assumindo a obrigação de sustentar a propagação do Espiritismo, mas em vez disso mistificou a propaganda doutrinária, e para descrédito do Espiritismo teve que amargar uma cadeira por comprovadas fraudes veiculadas na Revista Espirita. Leymarie era um apaixonado praticante da Teosofia de Blavatsky e defendia as ridículas obras de J.B. Roustaing e para variar era deslumbrado pela maçonaria. Ora, com tal “curriculum vitae”, as suas atuações suscitaram o desfalecimento do Movimento Espírita mundial.
Cinco décadas após a desencarnação de Kardec, nos primórdios do século XX, houve um surto de renascimento do Movimento Espírita francês e mundial até meados da década de 1920, graças às lideranças de Leon Denis, Gabriel Delanne, Gustave Geley e Camille Flammarion, desaparecendo porém rapidamente, quando esses quatro baluartes desencarnam. Logo após, durante a Segunda Guerra Mundial, ocorreu desmontagem e quase o total aniquilamento do Movimento Espírita nas plagas de Kardec. Sobre esse cenário, André Luiz indagou ao Espírito Gabriel Delanne: “Qual a opinião acerca do Espiritismo, na França”? Delanne respondeu: “Não nos é lícito dizer haja alcançado o nível ideal (…) mas, complementando que legiões de companheiros da obra de Allan Kardec reencarnaram, não só na França, porém igualmente em outros países, notadamente no Brasil, para a sustentação do edifício kardequiano”[2].
Sobre o translado do “Espiritismo” para o Brasil, estamos convencidos de que a transposição da respectiva “direção” do Movimento Espírita mundial, da França para o Brasil, sobreveio após a desencarnação dos quatros baluartes supramencionados, no período entre o final da década de 1920 e o início da década de 1930, aliás, coincidindo com o início da missão mediúnica de Francisco Cândido Xavier. Antes desse período, o Espiritismo que era praticado no Brasil seguia o modelito Laymareano, portanto, obrigatoriamente inspirado pela teosofia e pelo roustanguismo, introduzido e apoiado por Luiz Olímpio Teles de Menezes, em seguida liderado pela entidade (edificada a partir do Grupo “Confúcio”) que decidiu autoproclamar-se “mãe” das instituições espíritas do Brasil.
Retornemos à França. O Movimento Espírita francês voltou a se recuperar com certa debilidade por volta dos anos de 1950 e 1960 em razão do regresso ao país de alguns espíritas que residiam no Norte da África (Argélia, Marrocos) e começaram a retornar para a terra de Kardec, arriscando remontar o Movimento Espírita. Nesse sentido, sob a batuta de Roger Perez houve uma breve “oxigenação” do Movimento Espírita francês, porém, a bem da verdade, nunca se recuperou, pelo menos em Paris.
Hoje há diferentes núcleos espíritas no interior da França, mas sem as características daquelas propostas por Allan Kardec. Sobre isso, recebi de notícias de Charles Kempf, um líder espírita francês, residindo na França e participando do Movimento Francês desde os anos 1990, afiançando-me que as dificuldades continuam as mesmas até hoje, por causa do personalismo exagerado de alguns dirigentes, e desinteresse pessoal na atuação no movimento. Tudo isso por falta de estudo das obras básicas da codificação.
Do exposto, pois, indagamos: quais os desafios para o progresso do Espiritismo? Segundo Gabriel Delanne (Espírito) a divulgação e o progresso do Espiritismo na Terra terão de efetuar-se de pessoa a pessoa, de consciência a consciência. A verdade a ninguém atinge através da coação. A verdade para a alma é semelhante à alfabetização para o cérebro. Um sábio, por mais sábio, não consegue aprender a ler por nós. Talvez esse “progresso” do processo de propaganda espírita seja moroso demais para a humanidade, mas, ainda segundo Delanne (Espírito), uma obra-prima de arte exige, por vezes, existências e existências para o artista que persegue a condição do gênio. Como acreditar que o esclarecimento ou o aprimoramento do espírito imortal se faça tão só por afirmações labiais de alguns dias?[3]
César Perri, ex-presidente da FEB no Brasil, lembra-nos que muitos espíritas e diversos dirigentes jamais leram obras psicográficas de Chico Xavier (não consultam as fontes primárias – os livros), pois estão presos anos seguidos a estudo de “apostilas”. A liderança “oficial” do movimento espírita brasileiro não acompanha a expansão da base, ou seja, dos centros espíritas. Há muito a ser realizado para a compreensão da união entre os espíritas – como laço moral, solidário e espiritual. Deve-se observar o respeito à diversidade das situações e condições dos centros espíritas e o conhecimento dessas realidades para o melhor atendimento e apoio às reais demandas das diversificadas instituições. O trabalho de união deve ser constantemente adequado às bases do movimento, ou seja, os centros espíritas[4]. Em suma, cremos que o progresso da Doutrina dos Espíritos não advirá por meio de lideranças federativas, com insuficientes lastros morais, hierarquizadas, emblemáticas e mercantilistas. Aliás, para quem conhece as opiniões de Leopoldo Cirne, após sua saída voluntária da FEB, identificará muitos pontos convergentes que esteamos cá no artigo.
Nossa proposta, e eis aí o grande desafio, é a propagação do Espiritismo no interior do centro espírita através do intercâmbio fraterno do “boca a boca”, “pessoa a pessoa”, “consciência a consciência”, “ombro a ombro”, sem nenhuma necessidade das algemas burocráticas impostas pelas “autoridades” e lideranças federativas “oficiais”, quase sempre sem os lastros de amor e humildade. Lideranças “oficiais” que nada mais fazem do que digladiarem entre si na busca de poderes, de mandos, desmandos e apropriação indébita da coordenadoria do Movimento doutrinário, que deve ser livre, categoricamente distante dos ranços ultramontanistas da pretensa “casa mãe” dos espíritas.
Inspirando-nos em Herculano Pires, reafirmamos que o Espiritismo no Brasil não terá salvação se permanecer sob o tacão das diretrizes oriundas do sofisticado colégio cardinalício (CFN) e das hierarquias impostas pelos ditos órgãos oficiais. Razão pela qual reafirmamos que o Espiritismo necessita retornar às suas origens primordiais (pré-desencarnação de Kardec) que é a SIMPLICIDADE! Ou seja, sem absoluta necessidade de concessionárias “oficiais”[5].




[2] XAVIER, Francisco Cândido e VIEIRA Waldo. Entre irmãos de outras terras, Entrevista realizada pelo espírito de André Luiz com o espírito de Gabriel Delanne, RJ: Ed. FEB, 1970
[3] Idem.
[5] Que não tem nada a ver com a presumida Comissão Organizadora do Espiritismo, segundo Allan Kardec.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

O PONTO DE VISTA[1]




A ideia clara e precisa que se faz da vida futura dá uma fé inabalável no porvir, e essa fé tem consequências enormes sobre a moralização dos homens, porque muda completamente o ponto de vista pelo qual eles encaram a vida terrena. Para aquele que se coloca, pelo pensamento, na vida espiritual, que é infinita, a vida corporal não é mais do que rápida passagem, uma breve permanência num país ingrato.
As vicissitudes e as tribulações da vida são apenas incidentes que ele enfrenta com paciência, porque sabe que são de curta duração e devem ser seguidos de uma situação mais feliz. A morte nada tem de pavoroso, não é mais a porta do nada, mas a da libertação, que abre para o exilado a morada da felicidade e da paz.
Sabendo que se encontra numa condição temporária e não definitiva, ele encara as dificuldades da vida com mais indiferença, do que resulta uma calma de espírito que lhe abranda as amarguras.
Pela simples dúvida sobre a vida futura, o homem concentra todos os seus pensamentos na vida terrena. Incerto do porvir dedica-se inteiramente ao presente. Não entrevendo bens mais preciosos que os da terra, ele se porta como a criança que nada vê além dos seus brinquedos e tudo faz para obtê-los. A perda do menor dos seus bens causa-lhe pungente mágoa. Um desengano, uma esperança perdida, uma ambição insatisfeita, uma injustiça de que for vítima, o orgulho ou a vaidade ferida, são tantos outros tormentos, que fazem da vida uma angústia perpétua, pois que se entrega voluntariamente a uma verdadeira tortura de todos os instantes.
Sob o ponto de vista da vida terrena, em cujo centro se coloca, tudo se agiganta ao seu redor.
O mal que o atinge, como o bem que toca aos outros, tudo adquire aos seus olhos enorme importância. É como o homem que, dentro de uma cidade, vê tudo grande em seu redor: os cidadãos eminentes como os monumentos, mas que, subindo a uma montanha, tudo lhe parece pequeno.
Assim acontece com aquele que encara a vida terrena do ponto de vista da vida futura: a humanidade, como as estrelas no céu, se perde na imensidade; ele então se apercebe de que grandes e pequenos se confundem como as formigas num monte de terra; que operários e poderosos são da mesma estatura; e ele lamenta essas criaturas efêmeras, que tanto se esfalfam para conquistar uma posição que os eleva tão pouco e por tão pouco tempo.
É assim que a importância atribuída aos bens terrenos está sempre na razão inversa da fé que se tem na vida futura.
Se todos pensarem assim, dir-se-á, ninguém mais se ocupando das coisas da terra, tudo perigará. Mas não, porque o homem procura instintivamente o seu bem-estar, e mesmo tendo a certeza de que ficará por pouco tempo em algum lugar, ainda quererá estar o melhor ou o menos mal possível. Não há uma só pessoa que, sentindo um espinho sob a mão, não a retire para não ser picada. Ora, a procura do bem-estar força o homem a melhorar todas as coisas, impulsionado como ele é pelo instinto do progresso e da conservação, que decorre das próprias leis da natureza. Ele trabalha, portanto, por necessidade, por gosto e por dever, e com isso cumpre os desígnios da Providência, que o colocou na terra para esse fim. Só aquele que considera o futuro pode dar ao presente uma importância relativa, consolando-se facilmente de seus revezes, ao pensar no destino que o aguarda.
Deus não condena, portanto, os gozos terrenos, mas o abuso desses gozos, em prejuízo dos interesses da alma. É contra esse abuso que se previnem os que compreendem estas palavras de Jesus: O meu reino não é deste mundo.
Aquele que se identifica com a vida futura é semelhante a um homem rico, que perde uma pequena soma sem se perturbar; e aquele que concentra os seus pensamentos na vida terrestre é como o pobre que, ao perder tudo o que possui, cai em desespero.
O Espiritismo dá amplitude ao pensamento e abre-lhe novos horizontes. Em vez dessa visão estreita e mesquinha, que o concentra na vida presente, fazendo do instante que passa sobre a terra o único e frágil esteio do futuro eterno, ele nos mostra que esta vida é um simples elo do conjunto harmonioso e grandioso da obra do Criador, e revela a solidariedade que liga todas as existências de um mesmo ser, todos os seres de um mesmo mundo e os seres de todos os mundos. Oferece, assim, uma base e uma razão de ser à fraternidade universal, enquanto a doutrina da criação da alma, no momento do nascimento de cada corpo, faz que todos os seres sejam estranhos uns aos outros. Essa solidariedade das partes de um mesmo todo explica o que é inexplicável, quando apenas consideramos uma parte. Essa visão de conjuntos, os homens do tempo de Cristo não podiam compreender, e por isso o seu conhecimento foi reservado para mais tarde.




[1] O Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo II – Meu Reino Não é Deste Mundo – Allan Kardec

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O DIREITO À EVOLUÇÃO[1]


 
Armando Correa de Siqueira Neto[2] - 12/06/2017


A Lei de Atração entre os seres humanos demonstra ser a evidência acerca da qualidade do estado em que nos encontramos no gráfico evolutivo, pois, ao que tudo indica, somos todos seres inferiores. Se os holofotes dos fatos incidem sobre o considerável volume de transgressões existente na atualidade — da mentira prejudicial à violência que traumatiza ou extingue —, por mais que tantos padeçam pelo conflitante medo e inquietante mal-estar da convivência tão marcada por extremos de mentalidades, ainda assim nos encontramos na mesmíssima escola, e o que varia, observa-se, é o grau de avanço no qual se situa cada aluno.
Embora existam fileiras iniciais na classe, é na equivalente coexistência que o pessoal do fundão busca, mesmo sem o perceber, dar novos passos em direção aos confins da espiritualidade à luz da consciência; esta, caríssima de se obter por sua natureza transformadora, cuja exigência impõe colossal esforço, além de dedicação por incontável tempo.
Os espíritos, sempre estudantes na escola da vida, mantêm-se inquietos e provocadores uns aos outros, sobretudo àqueles em que os graus de desenvolvimento são distantes e aversos, aproximando-se, no movimento inverso, quando a sutil atração faz encontrar seus pares naturais mediante a similaridade pertinente. Exemplo interessante, o Brasil e seu descontrole relacionado aos crimes de toda ordem, manifesta forte atração pelo ingresso reencarnatório de espíritos significativamente atrasados, cuja moral lhes escapa com facilidade desde a infância, dificultando a luminosidade ética adulta de se instalar com a devida lucidez, restando, pois, a obscura ignorância como obstinada companhia e a deficiente educação a corroer as oportunidades. Ainda que outros países denominados de primeiro-mundistas possam revelar o seu quinhão no submundo do atraso ao baixar as guardas da vigilância, a sua maioria populacional contida, e ajustada aos moldes civilizatórios, impede o volumoso fluxo de renascimentos de tais entidades que abundam em oportunidades espirituais e geográficas qual o mapa brasileiro.
Todavia, a visão global pode nos contemplar com importantes aspectos neste panorama de apreensões, os avanços tecnológicos, quais os remédios cujas substâncias químicas tomaram o lugar da fé de outrora (não houve soma, só subtração), debilitando o uso de “poderes” naturais interiores, enfraquecendo, assim, os “milagres” de cura e de apoio mútuo às necessidades que também aproximam (e influenciam o desenvolvimento) uns aos outros. E, ainda, os avanços materiais relacionados ao conforto e as facilidades, mas, de irremediável priorização quanto ao status, à absurda competição além da conta, e da ilusória e desmedida ganância para atingi-los em nome do ego que tanto busca o troféu da importância própria diante do vazio que as relações humanas, grosso modo, atingiram em tempos de inebriante superficialidade e falta de profundo propósito.
Ainda, a explosão demográfica que concentrou gente demais em grandes centros e regiões e ofereceu recursos naturais de menos (e sua disputa mundial), a não ser através das gigantescas corporações comerciais que se aglutinam e se tornam cada vez mais tão poderosas quão assustadoras, no controle da qualidade de seus produtos, notadamente os alimentícios, e na quantidade que teima em não chegar aos subnutridos, uma massa humana que assusta ao vociferar seus gementes números: mais de um bilhão ao redor do triste planeta, segundo dados da ONU – a Organização das Nações Unidas. Salve-se quem puder…
São medonhas notícias, mas elas talvez carreguem uma inevitabilidade em seu bojo? Por ventura não é em meio à tamanha agitação social e caótico vendaval psicológico que os espíritos encontram terreno fértil para evoluir mais do que o comum? Quanto pior, maior a possibilidade de evoluir? Provas difíceis atestam maior honraria aos estudantes zelosos, e os promovem aos vizinhos e prósperos passos? Quem quer aproveitar a ocasião? E, ao desfrutá-la, quem estenderá a mão ao próximo, para que ele também se adiante e enriqueça a teia comum que nos une, fazendo ganhar ainda mais mutuamente? Contudo, e se estiver muito difícil para renovar o fôlego, imprescindível semente que faz florescer o jardim da perseverança?
Na intolerância de tal convívio (não nos esqueçamos do débito cármico ao qual estamos cativos e somos direcionados naturalmente), a saída estratégica, pergunta-se, não é se distanciar no que for possível, e sacudir as nossas sandálias que eventualmente carreguem o pecaminoso pó de qualquer resquício culpável? Vale o provérbio “os incomodados que se retirem”, em certos casos, defensivamente — quem não há de tirar o espinho que por ventura tenha entrado no dedo? A afronta, sob o manto do desejo de encarcerar ou de exterminar o lado que se opõe, a despeito de ser uma resposta defensiva ao temor, é fruto de rebelde cegueira daquele que “se esquece” que já esteve em tal posição um dia, e que, com toda justiça que nos cerca, merece as chances de tentar progredir, cuja centelha espiritual, sempre disponível em potência, permite alcançar o sagrado momento do ato, em repetidas inspirações de descoberta pessoal evolutiva.
Compartilhar do mesmo educandário, ainda que ligados a divergentes consciências e riscos, portanto, é um direito assegurado pela amorosa e paciente lei evolutiva, dado que sempre estaremos, com as nossas patinadas estudantis, um nível abaixo de um próximo já ocupado na escalada de tantos espíritos que, por seu mérito (não obstante terem de conviver com outros de peculiaridade inferior), também servem de exemplo e podem influenciar e atrair ao crescimento através de tais relações essenciais.




[2] Armando Correa de Siqueira Neto é psicólogo e mestre em liderança - armandocsn@ig.com.br

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Quadro da Vida Espírita - 2[1]

 

Dissemos que ao entrar em sua nova vida o Espírito necessita de algum tempo para se reconhecer, que tudo lhe é estranho e desconhecido. Sem dúvida haverão de perguntar como pode ser assim, já que ele teve outras existências corporais. Essas existências foram separadas por intervalos, durante os quais ele habitava o mundo dos Espíritos; tal mundo, portanto, não lhe deveria ser desconhecido, considerando que não o vê pela primeira vez.
Várias causas contribuem para que essas percepções lhe pareçam novas, embora já as tenha experimentado. Dissemos que a morte é sempre seguida por um instante de perturbação, que pode ser de curta duração. Nesse estado, suas ideias são sempre vagas e confusas; de alguma sorte a vida corporal se confunde com a vida espírita e ele ainda não as pode separar em seu pensamento.
Dissipada a primeira impressão, as ideias pouco a pouco se tornam claras e, com elas, a lembrança do passado, que não volta senão gradualmente à memória, porquanto jamais essa memória irrompe bruscamente. Apenas quando ele se encontra completamente desmaterializado é que o passado se desdobra à sua frente, como algo impreciso, saindo de um nevoeiro. Somente então ele se recorda de todos os atos de sua última existência, seguidos dos atos das existências anteriores e de suas diversas passagens pelo mundo dos Espíritos. Concebe-se, pois, que durante um certo tempo esse mundo lhe deva parecer novo, até que ele se tenha reconhecido completamente e a lembrança das sensações ali experimentadas lhe tenha voltado de maneira precisa. Mas a esta causa deve juntar-se uma outra, não menos preponderante.
O estado do Espírito, como Espírito, varia extraordinariamente, na razão do grau de sua elevação e pureza. À medida que se eleva e se depura, suas percepções e sensações se tornam menos grosseiras, adquirindo mais primor, mais sutileza e mais delicadeza; vê, sente e compreende coisas que não podia ver, nem sentir, nem compreender numa condição inferior. Ora, cada existência corporal, sendo para ele uma oportunidade de progresso, condu-lo a um novo meio, porque se encontra, caso haja progredido, entre Espíritos de outra ordem, cujas ideias, pensamentos e hábitos são diferentes. Acrescente-se que tal depuração lhe permite penetrar, sempre como Espírito, em mundos inacessíveis aos Espíritos inferiores, como entre nós os salões da alta sociedade são interditos às pessoas mal-educadas.
Quanto menos esclarecido, tanto mais limitado é o seu horizonte; à medida que se eleva e se depura, esse horizonte se amplia e, com ele, o círculo de suas ideias e percepções. A seguinte comparação nos permite compreendê-lo. Suponhamos um camponês bruto e ignorante, vindo a Paris pela primeira vez. Conhecerá e compreenderá a Paris do mundo sábio e elegante? Não, porque frequentará apenas as pessoas de sua classe e os bairros que elas habitam. Mas se, no intervalo de uma segunda viagem, esse camponês se desenvolveu, havendo adquirido instrução e boas maneiras, outros serão seus hábitos e as suas relações. Verá, então, um mundo novo para ele, que em nada se assemelhará à Paris de outrora. O mesmo acontece com os Espíritos; nem todos, porém, experimentam esse mesmo grau de incerteza. À medida que progridem, suas ideias se desenvolvem e a memória se aperfeiçoa: familiarizam-se antecipadamente com a sua nova situação; seu retorno entre os outros Espíritos nada mais tem que os surpreenda; encontram-se em seu meio normal e, passado o primeiro momento de perturbação, reconhecem-se quase imediatamente.
Tal é a situação geral dos Espíritos, no chamado estado de erraticidade. Mas o que fazem nesse estado? Como passam o tempo? Para nós essas questões são de interesse capital e eles mesmos é que vão respondê-las, como foram eles que nos deram as explicações que acabamos de fornecer, pois nada disso é produto de nossa imaginação; não se trata de um sistema saído de nosso cérebro: julgamos conforme vemos e ouvimos. Abstraindo-nos de qualquer opinião sobre o Espiritismo, haveremos de convir que essa teoria da vida de além-túmulo nada tem de irracional; ela apresenta uma sequência e um encadeamento perfeitamente lógicos, que honrariam mais de um filósofo.
Seria erro pensar que a vida espírita seja uma vida ociosa. É, ao contrário, essencialmente ativa, e todos nos falam de suas ocupações; tais ocupações diferem necessariamente, conforme seja o Espírito errante ou encarnado. No estado de encarnação, elas são relativas à natureza dos globos por eles habitados, às necessidades que dependem do estado físico e moral desses mundos, bem como da organização dos seres vivos. Não é isso que vamos tratar aqui; falaremos somente dos Espíritos errantes. Entre os que alcançaram um certo grau de elevação, uns velam pela realização dos desígnios de Deus nos grandes destinos do Universo; dirigem a marcha dos acontecimentos e concorrem para o progresso de cada mundo; outros tomam os indivíduos sob sua proteção, constituindo-se em seus gênios tutelares e anjos-da-guarda, acompanhando-os desde o nascimento até à morte, buscando encaminhá-los na senda do bem: é uma felicidade para eles quando os seus esforços são coroados de sucesso. Alguns encarnam em mundos inferiores, para neles realizarem missões de progresso; por seus trabalhos, exemplos, conselhos e ensinamentos procuram fazer que uns progridam nas ciências ou nas artes, outros na moral. Submetem-se, então, voluntariamente às vicissitudes de uma vida corporal muitas vezes penosa, com vistas a fazer o bem, e o bem que fazem lhes é levado em conta. Outros, finalmente, não têm atribuições especiais: vão a toda parte onde a sua presença pode ser útil, dão conselhos, inspiram boas ideias, sustentam a coragem dos que vacilam, fortificam os fracos e castigam os presunçosos.
Se considerarmos o número infinito de mundos que povoam o Universo e o incalculável número de seres que o habitam, compreenderemos que os Espíritos têm muito em que se ocupar; tais ocupações, porém, nada têm de penosas; eles as realizam com alegria, voluntariamente, sem constrangimento, e sua felicidade é triunfar naquilo que empreendem; ninguém pensa numa ociosidade eterna, que seria um verdadeiro suplício. Quando as circunstâncias o exigem, reúnem-se em conselho, deliberam sobre a marcha a seguir, conforme os acontecimentos, dão ordens aos Espíritos que lhes são subordinados e vão para onde o dever os chama. Essas assembleias são mais ou menos gerais ou particulares, conforme a importância do assunto; nenhum lugar especial e circunscrito é destinado a essas reuniões: o espaço é o domínio dos Espíritos. Entretanto, elas se realizam de preferência nos globos onde estão os seus objetivos. Os Espíritos encarnados, que neles estão em missão, delas participam conforme a sua elevação; enquanto o corpo repousa, vão haurir conselhos dos outros Espíritos e, muitas vezes, receber ordens sobre a conduta que devem adotar como homens. É verdade que ao despertar não conservam uma lembrança precisa daquilo que se passou, delas guardando a intuição, que os leva a agir como se o fizessem por conta própria.
Descendo na hierarquia, encontramos Espíritos menos elevados, menos depurados e, consequentemente, menos esclarecidos; nem por isso deixam de ser bons, preenchendo funções análogas nas esferas de atividades mais restritas. Sua ação, em vez de estender-se aos diferentes mundos, exerce-se mais especialmente num globo determinado e está relacionada com o seu grau de desenvolvimento; sua influência é mais individual e tem como objetivo coisas de menor importância.
A seguir vem a multidão de Espíritos vulgares, mais ou menos bons ou maus, que pululam à nossa volta. Eles se elevam pouco a pouco acima da Humanidade, da qual representam todos os matizes e os refletem, pois que dela guardam os vícios e as virtudes. Em grande número deles encontramos os gostos, as ideias e inclinações que possuíam em vida. Suas faculdades são limitadas, seu julgamento falível como o dos homens e, muitas vezes, errôneo e imbuído de preconceitos.
Em outros o senso moral é mais desenvolvido; sem terem grande superioridade nem grande profundidade, julgam com mais acerto, condenando muitas vezes o que fizeram, disseram ou pensaram em vida. Ademais, há uma coisa notável: mesmo entre os Espíritos mais vulgares, a maioria tem sentimentos mais depurados como Espíritos do que como homens, desde que a vida espírita os esclarece sobre os seus defeitos; salvo poucas exceções, arrependem-se amargamente e lamentam o mal que fizeram, porque lhes sofrem mais ou menos cruelmente as consequências.
Vimos alguns deles que não eram melhores do que o haviam sido em vida; jamais, porém, piores. O endurecimento absoluto é muito raro e apenas temporário, porque, cedo ou tarde, acabam padecendo a sua posição e pode-se mesmo dizer que todos aspiram ao aperfeiçoamento, porque compreendem que este é o único meio de sair da sua inferioridade. Instruir-se, esclarecer-se, eis aí a sua grande preocupação, e eles se sentem felizes quando a isso podem acrescentar pequenas missões de confiança que os elevam aos seus próprios olhos.
Têm, também, suas assembleias, mais ou menos sérias, conforme a natureza de seus pensamentos. Falam-nos, veem e observam o que se passa; imiscuem-se em nossas reuniões, em nossos jogos, em nossas festas e espetáculos, bem como em nossas ocupações sérias. Ouvem nossas conversas: os mais levianos para se divertirem, para rirem à nossa custa ou para nos pregarem alguma peça, caso o possam; os outros para se instruírem.
Observam os homens, analisam o seu caráter e fazem o que chamam estudo de costumes, com vistas à escolha de sua futura existência.
Vimos o Espírito no momento em que, deixando o corpo, entra em sua nova vida. Analisamos as suas sensações e seguimos o desenvolvimento gradual de suas ideias. Os primeiros momentos são empregados em se reconhecerem e em se darem conta do que com eles se passa. Em suma, experimentam, por assim dizer, suas faculdades, como a criança que, pouco a pouco, vê crescer suas forças e pensamentos. Falamos dos Espíritos vulgares, porquanto os outros, como já dissemos, de alguma sorte estão previamente identificados com o estado espírita, que nenhuma surpresa lhes causa, a não ser a alegria de se encontrarem livres dos entraves e dos sofrimentos corporais. Entre os Espíritos inferiores muitos sentem saudades da vida terrena, porque sua situação como Espírito é cem vezes pior. Eis por que buscam uma distração na visão do que outrora constituíam as suas delícias, embora até mesmo essa visão lhes seja um suplício, já que sentem desejos mas não os podem satisfazer.
A necessidade de progredir é geral entre os Espíritos; é isso que os impele ao trabalho por seu melhoramento, porque compreendem que é este o preço de sua felicidade. Nem todos, porém, experimentam tal necessidade no mesmo grau, sobretudo no início; alguns chegam mesmo a comprazer-se numa espécie de vagabundagem, mas que não dura muito tempo; logo a atividade se torna para eles uma necessidade imperiosa, à qual, aliás, são impelidos por outros Espíritos, que lhes estimulam os sentimentos do bem.
Vem a seguir o que se pode chamar de escória do mundo espírita, constituída de todos os Espíritos impuros, cuja única preocupação é o mal. Sofrem e desejariam que todos sofressem como eles. A inveja lhes torna odiosa toda superioridade; o ódio é a sua essência. Não podendo assenhorear-se dos Espíritos, apoderam-se dos homens, atacando os que lhes parecem mais fracos. Excitar as más paixões, insuflar a discórdia, separar os amigos, provocar rixas, alimentar o orgulho dos ambiciosos para, em seguida, se darem ao prazer de abatê-los, espalhando o erro e a mentira – numa palavra, desviar do bem – tais são os seus pensamentos dominantes.
Mas por que permite Deus que assim seja? Deus não tem que nos prestar contas. Dizem-nos os Espíritos superiores que os maus são provações para os bons, e que não há virtude onde não há vitória a conquistar. Ademais, se esses Espíritos malfazejos se reúnem na Terra, é que nela encontram eco e simpatia.
Consolemo-nos imaginando que, acima desta abjeção que nos cerca, há seres puros e benevolentes que nos amam, sustentam-nos, encorajam-nos e nos estendem os braços para nos levarem até eles, conduzindo-nos a mundos melhores onde o mal não encontra acesso, caso saibamos fazer aquilo que é preciso para o merecer.
 



[1] Revista Espírita – Abril/1859 – Allan Kardec