segunda-feira, 8 de maio de 2017

FERNANDO DE LACERDA[1]


 

Nascido em Loures (Portugal), a 6 de agosto de 1865, e desencarnado no Rio de Janeiro, a 7 de agosto de 1918.
Fernando Augusto de Lacerda e Melo foi célebre médium português, que desenvolveu apreciável esforço em favor da disseminação do Espiritismo.
Aos 25 anos de idade, ingressou no quadro do funcionalismo público de Portugal, entrando, no ano de 1894, na corporação da polícia, onde galgou a posição de subinspetor, cargo que soube desempenhar com inusitada probidade e competência.
Com a queda da monarquia, em 1910, e a consequente proclamação da República, Lacerda foi admoestado no sentido de que não poderia por mais tempo desempenhar aquele cargo.
As rivalidades políticas fervilhavam em Portugal. O famoso caudilho Fernão Boto Machado, moveu intensa campanha jornalística contra o médium. Embarcou para o Brasil, no dia 10 de julho de 1911, onde, ao chegar, recebeu a notícia de que havia sido exonerado de suas funções.
Diante do fato consumado, deliberou fixar sua residência no Rio de Janeiro, onde mereceu generosa acolhida.
A sua mediunidade era notável. Desde outubro de 1906 vinha recebendo várias produções oriundas do plano espiritual, todas elas transmitidas por famosos escritores e homens famosos no mundo social, já desencarnados.
Segundo sua própria narração, certa noite ouviu uma voz emanada de uma entidade invisível, informando que desejava transmitir uma mensagem a uma personalidade importante no mundo das letras. A voz insistiu: Tem paciência, levanta-te e vai escrever. Obedecendo ao Espírito, dirigiu-se ao seu escritório, tomou do lápis e de pronto recebeu belíssima mensagem de Camilo Castelo Branco, dirigida ao seu amigo encarnado, Antônio José da Silva Pinto, vigoroso polemista e escritor de renome, que, diante dos fatos incontestáveis, posteriormente abandonou as ideias materialistas que esposava, abraçando as verdades novas trazidas pelo Espiritismo.
Fernando de Lacerda recebeu, via mediúnica, uma série de quatro livros, editadas em língua portuguesa com o título "Do País da Luz". Muitos Espíritos de grandes vultos da literatura, da política e da religião, se comunicaram por seu intermédio, podendo-se destacar Eça de Queirós, Camilo Castelo Branco, Heliodoro Salgado, Castilho, Herculano, João de Deus, Antônio Vieira, Bertholet, Victor Hugo, Napoleão, César Cantu, Latino Coelho, Leão XIII, Bartolomeu dos Mártires, Teresa D'Ávila, Allan Kardec, Emile Zola, Pedro D'Alcântara, Artur de Azevedo e o Visconde de Ouro Preto. Todas essas mensagens estão contidas na obra acima citada.
É assaz interessante de se constatar que todos os escritos recebidos pela psicografia de Fernando de Lacerda traduzem os mesmos ideais esposados por esses personagens durante a vida terrena, os seus estilos, assinaturas, conselhos de relevante alcance e ensinos bastante edificantes.
Deve-se esclarecer que o médium, quando recebia as mensagens, permanecia em estado de vigília, de completa alheação ao que ia escrevendo. As ideias transmitidas coordenavam-se de maneira rápida e imprevista, surgindo a circunstância de aparecerem palavras de todo estranhas ao médium, bem como revelações inéditas, fatos por que ignorados, diversidade de opiniões e ideias conflitantes com o seu modo de pensar.
De modo geral, ele sentia a aproximação do Espírito que desejava se comunicar e, reiteradamente, via a entidade comunicante.
Também ouvia, com bastante frequência, as palavras que uma segunda personalidade lhe queria ditar. No desabrochar de sua mediunidade, no ano de 1889, durante largo tempo ele teve o seu braço dominado e controlado por uma entidade que na Terra ele conhecera e que do outro lado ressurgia com a mesma letra e a mesma assinatura que tivera em vida, para escrever palavras sarcásticas e injuriosas contra o próprio médium.
Lacerda conversava com as pessoas presentes, enquanto o lápis corria celeremente, enchendo laudas e mais laudas de papel.
Certa vez, estando junto com outro médium, ambos começaram a psicografar ao mesmo tempo. Recebiam estância de seis versos. No final, quando se procurou coordená-las para comporem uma poesia, chegou-se à conclusão de que haviam recebido duas poesias, e que enquanto um deles escrevera as sextilhas, o outro escrevera os pares.
Consta que esse famoso médium conseguia receber duas mensagens simultaneamente, fazendo uso de suas duas mãos.
Ele trabalhava arduamente na psicografia do quarto volume de Do País da Luz, quando seu Espírito emigrou para o mundo imponderável. Um seu amigo retomou os originais que deixara e conseguiu publicar esse importante volume daquela série de quatro.




[1] Personagens do Espiritismo - Antônio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy

sábado, 6 de maio de 2017

PROBLEMA DE SAÚDE[1]



Irmão X

 
Comentávamos alguns problemas alusivos à saúde humana, quando Olímpio Ericeira, exmédico na Terra, considerou:
– Modifica-se singularmente o campo geral da vida, quando examinado através de nossos objetivos superiores. Sob o ponto de vista espiritual, renovam-se-nos aqui todos os conceitos clássicos da Medicina, em virtude das necessidades fundamentais da alma. Com raríssimas exceções, toda enfermidade reflete as deficiências de natureza profunda. A rigor, não há patologia sem desequilíbrio psíquico, tanto quanto não existe flora microbiana sem clima adequado. Por isso mesmo, grande número de moléstias funcionam como elementos de socorro à inteligência reencarnada. Claro que o homem não pode prescindir do combate contra as forças invasoras, no sentido de preservar o precioso vaso orgânico em que se manifesta; entretanto, não deveria lutar com o pavor do sentenciado e sim com a atenção do trabalhador. A moléstia acidental pode ser aviso prestimoso; as enfermidades de longo curso costumam simbolizar trabalhos de salvamento; as enxaquecas, por vezes, demoram-se no corpo, atendendo a dispositivos da Providência Divina. Se eu dispusesse de autoridade, solicitaria a todos os irmãos reencarnados aceitarem as manifestações patogênicas, dentro da maior serenidade, a fim de que produzam todos os bens de que são portadores.
– Semelhante atitude, porém, é muito difícil! – observou Eduardo Lessa, outro médico desencarnado – o homem estima viver na filosofia do imediatismo. Exige melhora e cura, ao mesmo tempo, e é tarefa complicada atender a criaturas insaciáveis.
– A opinião é justa – tornou Olímpio, em tom grave –, o imediatismo é o escolho com que somos invariavelmente defrontados, em todos os trabalhos de assistência aos companheiros da experiência física. Há doentes, com muitos anos de leito, que reclamam o restabelecimento em alguns dias, necessitados que não percebem os impositivos de ordem moral que os agrilhoam a padecimentos transitórios e pessoas que, intoxicadas pelos escuros pensamentos que cultivam, não reconhecem as sombras da própria mente enfermiça.
E refletindo para dar-nos um exemplo do que asseverava, continuou :
– Inda agora, assisti a uma ocorrência significativa. Através dela observei, mais uma vez, que a pressa de curar, entre os que se movimentam na carne, pode agravar as doenças verdadeiras da alma.
Olímpio fez uma pausa e prosseguiu :
– A Senhora Ramos é criatura de qualidades excelentes, mas na posição maternal é apaixonada ao delírio, o que não impede seja credora de numerosas amizades em nosso plano, em virtude da sua bondade espontânea. Realmente, é caridosa sem ostentação e humilde sem alarde. Ninguém se retira da presença dessa nobre mulher sem sentir-se melhor. Sendo prestativa e fraternal, suas rogativas mobilizam muitos colegas nossos, que a ela se uniram pelos laços indestrutíveis da gratidão.
Não há muitos meses, fui convidado a cooperar no tratamento de Anacleto, filho dessa valiosa missionária do bem. Dispus-me ao concurso solicitado, sondei o caso; depressa reconheci, em companhia de outros amigos, que a moléstia insidiosa deveria ser tratada com muita lentidão, em vista de ascendentes de origem moral. Anacleto apresentava perturbações orgânicas facilmente remediáveis; no entanto, a sua personalidade real exibia enormes desequilíbrios. Era ele um viciado de renovação muito difícil.
O médico da família tratava-o, com acerto; entretanto, a mente transviada do rapaz exigia provas rudes.
A Senhora Ramos vivia receosa. Temia pela saúde do filho e desejava, fervorosamente, a restauração imediata. Todavia, se o facultativo terrestre apressava recursos para o fim em vista, de nosso lado acentuávamos a delonga. Não devia o moço restabelecer-se com facilidade. Tal concessão seria perigosa. Anacleto precisava extrair todo o proveito que a enfermidade lhe poderia conferir e devia socorrer-se da colaboração de muitos amigos encarnados, para entender, de alguma sorte, as obrigações que lhe competiam. As reflexões do leito ser-lhe-iam benéficas. O fígado enfermo, o estômago escoriado e as pernas feridas lhe ensinariam, sem palavras, valiosas lições íntimas. No curso do tempo, fornecer-lhe-iam paciência, fraternidade, gratidão e, sobretudo, algum entendimento da vida. Até à ocasião em que se recolhera para tratamento rigoroso, não passava de criatura inútil. Gastava a mocidade entre arruaças e vícios.
Não sabia agradecer e muito menos cooperar na extensão do bem. Todavia, em virtude da moléstia renitente, começava a ser afável e reconhecido. Já sabia como atender a visitas, como suportar uma conversação em que os seus pontos de vista não eram respeitados e aprendera a sorrir para pessoas menos simpáticas.
A Senhora Ramos, porém, qual ocorre à maioria das mães terrestres, não examinava a situação fora das inquietudes injustificáveis. Acomodava-se muito bem com a fé tranquila dos dias róseos, mas não compreendia a confiança nos dias escuros.
Implorava a restituição imediata da saúde ao filho e consagrava-se apaixonadamente a essa ideia.
De quando em quando, encontrávamo-nos no grupo espiritista, através da organização mediúnica. Expunha-nos, inquieta, as suas aflições e temores.
– Guarde serenidade, minha irmã – repetíamos, invariavelmente –, Anacleto há de curar-se; em qualquer tempo, mais vale atentar para a Vontade de Deus que nos encarcerarmos nos próprios desejos, quase sempre filiados à desorientação e ao egoísmo. Aguardemos com calma.
Nossa amiga, no fundo, pretendia sustentar o elevado padrão de fé, mas acabava sempre em vacilações prejudiciais, dentro do labirinto afetivo.
De nossa reunião espiritual, seguia para a discussão com o médico, no conforto da residência, reclamando remédios mais eficientes, melhoras seguras e resultados mais nítidos.
Assediado pelas rogativas da genitora, o facultativo encarnado lembrou a oportunidade de uma estação de águas. Anacleto iria às fontes curativas e, certo, restauraria o fígado intoxicado.
Consultou-nos a Senhora Ramos, com respeito ao alvitre.
Sabíamos que a medida, em nos reportando ao campo físico, seria excelente, que o rapaz encontraria alívio rápido; no entanto, não ignorávamos que a sua condição espiritual ainda era lamentável, e que, por isso mesmo, o rapaz não se habilitara à recepção daquela bênção. Não víamos tão-somente o organismo enfermo, mas também os interesses vitais da saúde eterna. Examinando todos esses fatores, opinamos em contrário. A pobre mãe recebeu-nos a negativa, mal-humorada, e, após novo acordo com o clínico terreno, assentou que nós outros, os cooperadores espirituais, estacionáramos em equívoco, deliberando a partida do filho para as águas, sem perda de tempo, plenamente despreocupada de nossa lembrança fraternal.
Em poucos dias, viu-se Anacleto em estação elegante.
A essa altura da narrativa, Olímpio fez longa pausa, como a exumar as reminiscências mais fortes e concluiu:
- Efetivamente, o rapaz, em duas semanas, estava quase radicalmente curado. A Senhora Ramos não cabia em si de contente. Anacleto, porém, assim que se viu exonerado dos impedimentos físicos, não mais quis saber das edificantes palestras maternais. Não longe do balneário funcionava grande seção de jogos de azar que, de pronto, lhe fascinaram a mente doentia. Incapaz de procurar o entretenimento sadio, útil ao sistema nervoso enfermiço, atirou-se ao pano verde, desvairadamente, tomado de estranha sede. Ocultando-se à vigilância materna, durante oito noites sucessivas aventurou somas enormes. Quando perdeu o conteúdo da própria bolsa, valeu-se de dois cheques em branco que o pai havia confiado à genitora, devidamente assinados, para despesas eventuais na excursão de cura.
Fez dois saques vultosos, mas perdeu irremediavelmente. Quando viu rolar a ficha derradeira, ausentou-se, alucinado; enceguecido, semilouco, não conseguiu registrar-nos a assistência espiritual e, a sós, no quarto de dormir, ralado de ódio e vergonha, suicidou-se estourando o crânio. E assim terminou a experiência. A Senhora Ramos retirou-se de casa conduzindo um filho doente e regressou trazendo um cadáver.


[1] Pontos e Contos – Francisco C. Xavier

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Necessidade e Dificuldades na Prática da Reforma íntima[1]


 
Cairbar Schutel


O processo de reforma íntima desgasta e fere o pundonor do encarnado, transformando-o em joguete da falência da garbosidade de seu sentimento de superioridade, inato, natural e, por vezes, inconsciente.
Não deixa ela de ser, por isso, essencial e crucial na jornada por que passa o Espírito no plano físico.
Seu lado amistoso e geralmente desconhecido é constituído da purificação do âmago do indivíduo e da possibilidade dele sentir a felicidade tão almejada em esfera tão precária.
São os pensamentos do encarnado que o aproximam ou o afastam de Deus, em maior ou menor grau, com maior ou menor duração.
Quanto maior sua paz interior, enorme a possibilidade de estar harmonizado com a Superioridade Divina; quanto maiores forem os seus distúrbios psicológicos ou as perturbações psicossomáticas, crescentes lhe serão as influências negativas do plano inferior da vida.
Higidez física e mental: meta do ser humano.
O equilíbrio é indispensável para que o encarnado, devedor que é por natureza, enfrente os obstáculos da sua trilha no plano físico e seja bem sucedido na sua oportunidade reencarnatória.
Para alcançar a reforma íntima, deve o ser humano cultivar a vontade firme e consciente de que ela é o melhor instrumento que possui para ser mais feliz e vencer tanto na caminhada material quanto na espiritual, paralelas que são.
O livre-arbítrio é o artífice do seu empreendimento, mestre dos seus passos, mentor do seu discernimento. Pode ser herói ou vilão, salvador ou algoz, benéfico ou maligno.
Por isso é livre e para tal é arbítrio. É o comando de vida entregue por Deus nas mãos de cada homem.
Lutar ou não? Essa indagação muitos encarnados se fazem a fim de avaliar a utilidade do complexo empreendimento da reforma íntima.
O sofrimento lhes será inevitável, pois os seus conflitos internos estarão em ebulição e não bastará a aparência para concretizar verdadeiramente qualquer modificação substancial.
Um dos primeiros entraves a ser removido é a ausência ou a dormência da autocrítica. As pessoas, de um modo geral, julgam-se isentas de avaliações ou se concedem o benefício da dúvida, o que dificulta ou impede o reconhecimento dos seus erros e dos desvios de toda ordem, muitas vezes a movimentá-las com frequência no cotidiano.
Não que todos os seres humanos considerem-se perfeitos. Expressam aos outros que não o são, por certo; intimamente, porém, acham que são menos errados que o seu vizinho, portanto, mais perfeitos que o próximo. Aí está a chave inicial do insucesso na reforma íntima.
A persistência do indivíduo no descobrimento dos próprios defeitos ampliará consideravelmente o âmbito de possibilidades de êxito. Somente quem sabe os males que possui, pode curá-los. A ignorância é um sério entrave na renovação interior.
Forças negativas produzem reações similares. Cultivar maus sentimentos, portanto, cria um universo contraproducente ao encarnado.
Abrindo o coração para o bem, estará tecendo condições para um envolvimento positivo e, com isso, surgirá a possibilidade de ouvir críticas e estabelecer o diálogo acerca dos problemas que cercam sua personalidade e seu modo de agir.
Após ter assimilado o processo de autocrítica, o segundo passo será agir com sinceridade. De nada adianta enganar-se na reforma íntima, porque se assim o fizer ela não será autêntica.
A sinceridade prevê a vontade de ouvir críticas para poder solucionar problemas, não com o sentido de retorsão ou revanche.
Quem critica pode estar ou não no mesmo processo. Se estiver, sua censura será fraterna, com o objetivo de esclarecer e não de ferir, tendo por pressuposto a mansuetude e o amor, príncipe dos sentimentos cristãos. Caso não esteja, ainda assim, será a objeção recebida com naturalidade e incidirá o perdão sobre aquele que não soube expressar-se ou mesmo assacou uma inverdade.
Uma terceira dificuldade a ser enfrentada é a bagagem secular de erros e mazelas que o Espírito traz consigo ao longo do seu processo evolutivo. São fatores determinantes para a sua maior ou menor resistência ao processo de reforma íntima.
Não se trata de uma desculpa, nem de uma justificativa excludente, mas somente de mais um entrave na sua luta por um progresso interior.
Obstáculo implacável constitui o maior ou menor desapego aos valores cristãos. Sem fé, não há força interna que seja capaz de levar o encarnado ao áspero combate que irá travar consigo mesmo, visando produzir, com eficácia, a sua reforma íntima.


[1] Fundamentos da Reforma Íntima – Psicografado por Abel Glaser

quinta-feira, 4 de maio de 2017

PARÁBOLA DA FIGUEIRA EM VEGETAÇÃO[1]



Aprendei esta parábola tirada da figueira: quando os seus ramos já se acham tenros e brotam as folhas, sabeis que está próximo o Verão; assim também vós, quando virdes todas estas coisas, sabei que ele (O Filho do Homem) está próximo às portas.

Mateus, XXIV : 32-34 – Marcos, XII : 28-30 – Lucas, XXI : 29-32

A figueira era, na Palestina, uma das árvores de mais valor. Ao lado do trigo, da cevada, do centeio, da azeitona, da amêndoa, do bálsamo e da mirra, o figo constituía um dos produtos mais importantes. Esta árvore, quando não é de ano inteiro, ao aproximar-se o Verão os brotos de suas folhas começam a aparecer, caracterizando assim a mudança de estação.
Para bem assinalar o período da transformação do mundo, que precederia à sua vinda, Jesus comparou-o ao período intermediário entre a Primavera e o Verão, cujos sinais são descritos no capitulo XXIV do Evangelho de Mateus, assim como a entrada do Verão é assinalada pelos brotos da figueira.
E esse Sermão Profético se tem cumprido em toda a linha!
A começar pela derrocada dos templos, o mundo tem passado por todas as tribulações — peste, fome, guerras, terremotos, maremotos; dores e sofrimentos de toda a sorte!
Estes brotos de folhas da “figueira mundo”, depois de transformados em bastas folhagens e em deliciosos figos, servirão para o preparo da Humanidade, a fim de, mais apta, receber as instruções do Cristo, não exteriormente, mas em espírito e verdade, gravando em sua alma esses talentos com que resgatará o seu passado e conquistará o seu futuro!
Esta Parábola da Figueira é, pois, uma exortação à vigilância e à observância dos sinais dos tempos, porque o Filho do Homem virá em momento em que ninguém o espera!
No capítulo Os Sinais dos Tempos[2], o leitor se inteirará melhor do significado desta Parábola.


[1] Parábolas e Ensinos de Jesus - Cairbar Schutel
[2] Será publicado neste blog na próxima semana.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Formas do Pensamento – Detalhes importantes que todos os médiuns devem saber[1]



Por Felipe Fagundes - E-mail: felipefagun@hotmail.com


Já é demonstrado pela observação dos fatos que o Pensamento e a Vontade constituem
 forças plasticizantes e organizadoras.

Ernesto Bozzano

 

São chamadas Formas-pensamento ou Ideoplastia (confecção de formas a partir de ideias), a maneira como o pensamento da pessoalidade encarnada ou desencarnada atua no fluido cósmico universal[2], construindo formas especificas à cada pensamento, sendo perceptíveis pelos espíritos, por médiuns videntes e, quando esse fluido mais materializado, podendo até impressionar chapas fotográficas.
Allan Kardec, o codificador da doutrina espírita, chamava estas formas de Criações Fluídicas do Pensamento. É através destas formas, que os espíritos apareciam aos médiuns videntes com roupas, sapatos, cigarros e apetrechos em geral, formados pela vontade consciente ou inconsciente deles de se aparecer assim a alguém. Na obra O Livro Dos Médiuns, de 1864, no capitulo O Laboratório do Mundo Invisível, Allan Kardec discorre sobre esta formação de objeto e coisas, que o pensamento e a vontade dos espíritos podem fazer. Já na sua obra A Gênese, onde ele faz um grande resumo dos postulados espíritas, ele relembra:
Os Espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, não manipulando-os como os homens manipulam os gases, mas empregando o pensamento e a vontade. Para os Espíritos, o pensamento e a vontade são o que é a mão para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem àqueles fluidos tal ou qual direção, os aglomeram, combinam ou dispersam, organizam com eles conjuntos que apresentam uma aparência, uma forma, uma coloração determinadas; mudam-lhes as propriedades, como um químico muda a dos gases ou de outros corpos, combinando-os segundo certas leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual. KARDEC, pág. 250.
Como se vê essas formas de pensamentos, além de apresentarem morfologia específica a cada tipo de pensamento, possuem qualidades benéficas ou maléficas. E estas qualidades estão de acordo com o sentimento com que elas são emanadas. Annie Beasent e C.W. Leadbeater (1988), sensitivos do movimento teosófico[3], estudaram a fundo cada tipo de forma pensamento que eles e outros sensitivos conseguiram enxergar, de acordo com o sentimento com que elas eram criadas.
Por exemplo, sentimentos de raiva, formavam sobre a cabeça do pensador, formas de raiadas, de flechas, pensamentos de inveja formavam formas de garras etc.. E essas formas fluídicas, segundo estes estudiosos, eram formadas a partir do corpo mental[4] do pensador, movimentando em direção à pessoa pensada ou a algum objeto desejado. No caso de pessoas, essas imagens fixam-se na aura do encarnado ou desencarnado pensado, imprimindo-lhes mal estar de diversas matizes, tanto no corpo espiritual, ou somatizando no corpo físico, podendo até gerar doenças. No caso de objetos desejados, estas formas pensamentos, juntamente com seu conteúdo energético, podem “impregnar-se” no material.
Existem sensitivos que conseguem sentir, por esse motivo, as energias de cada objeto. Esse processo chama-se Psicometria[5]. É por isso que objetos muito antigos, que foram desejados por muitas gerações, podem imprimir em seu novo dono, se tiver sensibilidade suficiente, vários sentimentos, como tristeza, raiva, rancor etc..
Esse fato, é claro para o movimento espírita, cujo ensinamento quanto a esse processo podemos encontrar mais em detalhes nas obras de Chico Xavier, pelo espirito André Luiz, “Nos Domínios da Mediunidade” (capitulo 26) e em “Mecanismos da Mediunidade” (capitulo 20).
Annie Beasent e C.W. Leadbeater, definem essas criações fluídicas, em sua obra “Formas de Pensamento”:
Todo pensamento dá origem a uma série de vibrações que no mesmo momento atuam na matéria do corpo mental. Uma esplêndida gama de cores o acompanha, comparável às reverberações do sol nas borbulhas formadas por uma queda de água, porém com uma intensidade mil vezes maior. Sob este impulso, o corpo mental projeta para o exterior uma porção vibrante de si mesmo, que toma uma forma determinada [...]
[...] Desta maneira, temos uma forma de pensamento pura e simples, uma entidade vivente, de uma atividade intensa, criada pela ideia que lhe deu nascimento. Se esta forma é constituída pela matéria mais sutil, será tão poderosa quanto enérgica, e poderá, sob a direção de uma vontade tranquila e firme, desempenhar um papel de alta transcendência. A.BEASANT, pág. 22 e 23
Vemos que esta definição é semelhante, embora mais elaborada, da de Kardec. Em desempenhar um papel de “alta transcendência”, os autores da obra querem dizer que, produzindo pensamento de amor e de paz, e dirigi-los a uma determinada pessoa, por exemplo, esta poderá se beneficiar de seu conteúdo energético benéfico, como que magnetizando esta pessoa. Esse processo não seria como um passe espírita, uma doação de fluidos benéficos, mas sim uma transmissão de imagem que refletiria positivamente na construção mental da pessoa. Na verdade é um processo similar, pois cada forma de pensamento faz com que a pessoa receptora use suas próprias energias de forma benéfica ou maléfica, cujos pensamentos e sentimentos deram sua origem.
Da mesma forma, pensamentos negativos, de ira ou inveja, por exemplo, podem imprimir na pessoa desejada mal estares, dores no corpo físico etc.. É uma espécie de obsessão telepática entre indivíduos, sejam eles encarnados ou desencarnados.
Como foi dito, muitos sensitivos conseguem ver essas formas pensamentos, tanto serem formadas, geralmente acima da cabeça do pensador, quanto nas pessoas que receberam, em suas auras, essas formas pensamentos. O famoso médium James Van Praagh, eu seu livro “Espíritos Entre Nós”, cita um caso interessante de como é percebida por ele essas criações fluídicas do pensamento.
Refere ele a um diretor de cinema em Hollywood, que era “mal querido” pelos seus subordinados, e, por isso, se apresentava nele varias formas de pensamento negativos em sua aura, oriundo das pessoas que não gostavam dele:
Sombras escuras e sujas e formas que pareciam cobras que se projetavam do topo de sua cabeça.
Em suas costas, as formas pareciam facas ou espadas, como se ele fosse um porco-espinho. O que pensei instintivamente foi que as espadas talvez fossem formas de pensamento negativo lançadas por pessoas a quem ele prejudicara.
Afastei-me e fui me refugiar em meu escritório, onde anotei o que havia testemunhado. Era óbvio que esse produtor não tinha ideia das formas de pensamento negativo que carregava nas costas.
Essas energias provavelmente ainda levariam muitos anos para surtir efeito em seu corpo, mas quem pode ter certeza? Quanto mais ele se envolvesse com o mal e quanto mais desrespeito e insensibilidade demonstrasse para com os outros, mais poder esses encostos provavelmente acumulariam, deixando-o exposto a algo muito pior, que é a possessão”. Praagh pag.108
Portanto, é pacifico tanto no Kardecismo, quanto no movimento espírita e no movimento espiritualista Teosófico, a realidade, a ação e os efeitos das Formas do Pensamento. A cada dia, no meio espírita, podemos conhecer sensitivos que são capazes de percebê-los.
As ideoplastias, por representarem o próprio pensamento emitido, com seu conteúdo intelectual e energético, está diretamente envolvido nos fenômenos mediúnicos. É sabido, ademais, que os espíritos quando se querem comunicar melhor, num médium que não possui uma afinidade fluídica suficientemente grande para se ligar ao períspirito da entidade comunicante, este se serve de formas-pensamentos para expressar suas ideias. O médium, assim, captando a forma mental, tem o papel de interpretá-la, e essa interpretação, às vezes, pode conter vários erros, dependendo do conteúdo intelectual do médium na compreensão. Por isso, nas comunicações espirituais, sejam através da psicografia ou psicofonia, o grau de animismo[6] deve ser considerado.
As comunicações espirituais, em centros espíritas, em sessões de desobsessão, apresentam outro tipo comum de interferência nas comunicações: os pensamentos das outras pessoas ligadas ao círculo da reunião. Nessas reuniões mediúnicas se tem o médium, que dará a comunicação direta com o espirito, o dialogador e os médiuns de sustentação, que ajudam, com sua mentalização, na harmonização do ambiente. Nesses casos, há um circuito mediúnico, ou seja, todas as pessoas presentes estão de alguma forma ligadas mentalmente uma as outras. Dessa forma, pode ocorrer que o pensamento em desequilíbrio de um dos assistentes interfiram negativamente numa determinada comunicação mediúnica que venha a ocorrer. Por exemplo, no livro “Pensamento e Vontade”, Ernesto Bozzano cita um caso de uma forma mental (ideoplastia) que interferiu numa determinada reunião mediúnica:
Notável incidente veio misturar-se às manifestações, quando um dos assistentes, dotado de clarividência - o Sr.Aron Wilkinson -, exclamou de repente: um papagaio pousa-me no ombro e agita as asas... Agora, voou sobre a Sra. Everitt... (A Sra. Everitt estava assentada do outro lado da mesa) . Ela declara, por sua vez, estar sentindo o contato da ave. Wilkinson continua: Agora o papagaio canta o hino real da Inglaterra. Agita novamente as asas, sobe, ei-lo que se foi. Episódio incompreensível para todos, menos para a Sra. Everitt, que logo o explicou, contando que havia meses se incumbia de guardar um papagaio, que muito se lhe afeiçoara. Ainda na véspera recebera de casa uma carta, na qual lhe informavam que o bicho aprendia rapidamente a cantar o hino real. Todos os presentes ignoravam o fato […] Bozzano, pág. 20.
Ernesto Bozzano completa: “Não há dúvida de que o episódio em apreço se explica por um fenômeno de objetivação do pensamento subconsciente da Sra. Everitt”. Ainda explica o autor que esta forma-pensamento estava tão materializada no subconsciente da senhora em apresso que a ideoplastia fazia movimentos, estimulado e controlado por uma vontade subconsciente.
Este é apenas um dos exemplos de como o pensamento, que tem poder plástico, pode interferir negativamente, ou ate positivamente, nas sessões mediúnicas comuns.
Outro fenômeno interessante ocorre também com muita frequência: é a visão de fantasmas, nas chamadas casas mal-assombradas ou locais assombrados. Nos documentos da metapsíquica e parapsicologia existem muitos casos de pessoas, em diferentes épocas, verem neste locais a mesma forma fantasmagórica, com os mesmos caracteres e apetrechos, tais como roupas, sapatos etc.. Geralmente, essas aparições estão associadas a histórias de dramas que ocorreram nestes lugares e que, as pessoas que as viveram, com seu conteúdo emocional, “plasmaram” essas imagens, desafiando o espaço e o tempo.
Na verdade, muitas dessas aparições são de fato, formas-pensamentos que insistem em permanecer por tempos variáveis em certos locais.
Muitos médiuns videntes, inclusive, tem certas dificuldades em diferenciar essas aparições de ideoplastias das aparições de espíritos propriamente dito. Alguns sensitivos dizem que uma das formas de distinguir uma das outras, é justamente perceber se a forma possui movimento inteligente e/ou dão mesmo alguma comunicação!
Portanto, a forma-pensamento ou ideoplastias, demonstra como o ato de pensar age no fluido cósmico universal, expressando-se em formas e energias especificas à cada sentimento, em cujo pensamento deu origem. E a vontade, seja ela consciente ou inconsciente, imprime-lhe direção à pessoa ou objeto pensado, alterando-lhes as propriedades fluídicas, podendo assim, ajudar na construção do bem comum, ou emaranhando-se em vibrações menos nobres, podendo aprisionar seu emissor, nas teias da obsessão!
 
BIBLIOGRAFIA
BEASANT, A. & LEADBEATER, C.W. As Formas Do Pensamento. Editora Pensamento.
BOZZANO, Ernesto. Pensamento e Vontade. Disponível no site: http://bvespírita.com/Pensamento%20e%20Vontade%20(Ernesto%20Bozzano).pdf.
KARDEC, Allan A Gênese. FEB. Disponível no site :
PRAAGH, James Van. Espíritos Entre Nós. Editora Sextante, 2009.




[1] Revista Ciência Espírita – Setembro/2016
[2] O fluido cósmico universal é a matéria elementar primitiva, cujas modificações e transformações constituem a inumerável variedade dos corpos da natureza. Como princípio elementar do universo, ele assume dois estados distintos: o de eterização ou imponderabilidade (fluidos mais sutis, formando os planos espirituais e corpos espirituais menos densos), e o de materialização ou de ponderabilidade, que é, de certa maneira, consecutivo àquele (fluidos mais materializados, formando os planos espirituais mais densos e seus corpos sutis igualmente mais densos e a matéria física tangível que conhecemos em nosso globo, com nossos corpos materiais).
Em outras palavras, todas as formas de matéria, sejam astrais ou materiais são oriundas desse fluído primitivo, também chamado de Hálito Divino, por Allan Kardec
[3] A Sociedade Teosófica ou Teosofia foi fundada por Helena Petrovna Blavatsky e pelo coronel Henry Steel Olcott, primeiro a presidir esta instituição, em Nova York, no dia 17 de novembro de 1875. Ela condensa elementos filosóficos, religiosos e científicos, inerentes às diversas religiões e culturas, desde o nascimento da Humanidade. Segundo Blavatsky, estas crenças estão presentes de uma forma ou de outra nas mais variadas civilizações ao longo do tempo.
Portanto, a Teosofia seria uma nova forma de se exprimir os conceitos transcendentais do homem, não numa religião ou numa profissão de fé, mas num estudo das habilidades mentais e transcendentais do homem.
[4] Corpo Mental, Segundo o movimento espiritualista, seria um envoltório energético de matéria mais sutil que o perispírito. Seria o corpo ou envoltório fluídico da Mente. Segundo alguns espiritualistas, pessoas que desempenham um atividade mais intelectual possuem este corpo mais desenvolvido.
[5] Psicometria é a medida feita através da mente. Refere-se ao processo parapsíquico com que médiuns especiais, chamamos médiuns psicômetras, conseguem sentir as energias dos objetos materiais, muitas vezes identificando a historiografia em que o material passou.
[6] Animismo é a interferência intelectual do médium nas comunicações espirituais, fazendo com que a informação que o espirito quer passar, por meio de sua mediunidade, seja mais ou menos distorcida.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Teoria das Manifestações Físicas[1]

 


Concebe-se facilmente a influência moral dos Espíritos e as relações que possam ter com nossa alma, ou com o Espírito em nós encarnado.
Compreende-se que dois seres da mesma natureza possam comunicar-se pelo pensamento, que é um de seus atributos, sem o auxílio dos órgãos da palavra; porém, mais difícil de compreender são os efeitos materiais que eles podem produzir, tais como ruídos, movimentos de corpos sólidos e aparições, sobretudo as tangíveis. Vamos tentar dar a explicação, segundo os próprios Espíritos e conforme a observação dos fatos.
A ideia que fazemos da natureza dos Espíritos torna, à primeira vista, incompreensível esses fenômenos. Diz-se que o Espírito é a ausência completa da matéria, portanto não pode agir materialmente; ora, aí está o erro. Interrogados sobre a questão de saber se são imateriais, assim responderam os Espíritos: Imaterial não é bem o termo, porquanto o Espírito é alguma coisa, sem o que seria o nada. É, se quiserdes, matéria, mas de tal forma etérea que para vós é como se não existisse[2]. Assim, o Espírito não é, como alguns pensam, uma abstração; é um ser, mas cuja natureza íntima escapa totalmente aos nossos sentidos grosseiros.
Encarnado no corpo, o Espírito constitui a alma; quando o deixa com a morte, não sai despojado de todo o envoltório. Dizem-nos todos que conservam a forma que tinham quando vivos e, de fato, quando nos aparecem, geralmente é sob aquela por que os conhecemos na Terra.
Observemo-los atentamente no momento em que acabam de deixar a vida: acham-se em estado de perturbação; ao seu redor tudo é confuso; veem seu corpo são ou mutilado, segundo o gênero de morte; por outro lado, veem-se e sentem-se vivos; alguma coisa lhes diz que aquele é o seu corpo e não compreendem porque deles estão separados: o laço que os unia, pois, não está ainda completamente rompido.
Dissipado esse primeiro momento de perturbação, o corpo torna-se para eles uma roupa velha, da qual se despojaram e que não lamentam, mas continuam a se ver em sua forma primitiva.
Ora, isto não é um sistema: é o resultado das observações feitas com inúmeros sensitivos. Que se reportem agora ao que narramos de certas manifestações produzidas pelo Sr. Home e outros médiuns desse gênero: aparecem mãos, que têm todas as propriedades de mãos vivas, que tocamos, que nos seguram e que se esvanecem repentinamente. Que devemos concluir disso? Que a alma não deixa tudo no caixão e que leva alguma coisa consigo.
Assim, haveria em nós duas espécies de matéria: uma grosseira, que constitui o envoltório externo; a outra sutil e indestrutível. A morte é a destruição, ou melhor, a desagregação da primeira, daquela que a alma abandona; a outra se libera e segue a alma que, dessa maneira, continua tendo sempre um envoltório; é o que chamamos perispírito. Essa matéria sutil, extraída por assim dizer de todas as partes do corpo ao qual estava ligada durante a vida, dele conserva a forma; eis por que os Espíritos se veem e por que nos aparecem tais quais eram quando vivos. Mas essa matéria sutil não tem a tenacidade nem a rigidez da matéria compacta do corpo; é, se assim nos podemos exprimir, flexível e expansível; por isso a forma que toma, embora calcada sobre a do corpo, não é absoluta: dobra-se à vontade do Espírito, que pode dar-lhe tal ou qual aparência, à sua vontade, ao passo que o envoltório sólido oferece-lhe uma resistência insuperável. Desembaraçado desse entrave que o comprimia, o perispírito dilata-se ou se contrai, transforma-se, presta-se a todas as metamorfoses, segundo a vontade que atua sobre ele.
Prova a observação – e insistimos nesse vocábulo observação, porque toda a nossa teoria é consequência de fatos estudados – que a matéria sutil que constitui o segundo envoltório do Espírito só pouco a pouco se desprende do corpo, e não instantaneamente. Assim, os laços que unem a alma e o corpo não são subitamente rompidos pela morte. Ora, o estado de perturbação que observamos dura todo o tempo em que se opera o desprendimento; o Espírito não recobra a inteira liberdade de suas faculdades, nem a consciência clara de si mesmo, senão quando esse desprendimento é completo.
A experiência prova ainda que a duração desse desprendimento varia segundo os indivíduos. Em alguns se opera em três ou quatro dias, enquanto em outros somente se completa ao cabo de vários meses. Assim, a destruição do corpo e a decomposição pútrida não bastam para operar a separação; eis por que certos Espíritos dizem: sinto os vermes a me roerem.
Em algumas pessoas a separação começa antes da morte; são as que em vida se elevaram, pelo pensamento e pela pureza de seus sentimentos, bem acima das coisas materiais; nelas a morte encontra apenas fracos liames entre a alma e o corpo, e que se rompem quase instantaneamente. Quanto mais o homem viveu materialmente, quanto mais seus pensamentos foram absorvidos nos prazeres e nas preocupações da personalidade, tanto mais tenazes são esses laços; parece que a matéria sutil se identifica com a matéria compacta e que entre elas haja coesão molecular; daí por que não se separam senão lenta e dificilmente.
Nos primeiros instantes que se seguem à morte, quando ainda existe união entre o corpo e o perispírito, conserva este muito melhor a impressão da forma corpórea, da qual reflete, por assim dizer, todos os matizes e, mesmo, todos os acidentes. Eis por que um supliciado nos dizia, poucos dias após a sua execução: se pudésseis ver-me, ver-me-íeis com a cabeça separada do tronco.
Um homem que morreu assassinado, nos dizia: Vede a ferida que me fizeram no coração. Acreditava que poderíamos vê-lo.
Essas considerações levaram-nos a examinar a interessante questão da sensação dos Espíritos e de seus sofrimentos; fá-lo-emos em outro artigo, limitando-nos aqui ao estudo das manifestações físicas.
Imaginemos, pois, o Espírito revestido de seu envoltório semi material, ou perispírito, tendo a forma ou a aparência que possuía quando encarnado. Alguns até se servem dessa expressão para se designarem; dizem: minha aparência está em tal lugar.
Evidentemente, estão aí os manes dos Antigos. A matéria desse envoltório é bastante sutil para escapar à nossa vista, em seu estado normal, mas nem por isso deixa de ser visível. Nós a percebemos, primeiro, pelos olhos da alma, nas visões produzidas durante os sonhos; porém, não é disso que vamos nos ocupar. Essa matéria eterizada é passível de modificações, e o próprio Espírito pode fazê-la sofrer uma espécie de condensação que a torna perceptível aos olhos materiais: é o que acontece nas aparições vaporosas. A sutileza dessa matéria permite-lhe atravessar os corpos sólidos, razão por que tais aparições não encontram obstáculos e por que tantas vezes se desvanecem através das paredes.
A condensação pode chegar a ponto de produzir a resistência e a tangibilidade; é o caso das mãos que podemos ver e tocar; mas essa condensação – única palavra de que nos podemos servir para exprimir o nosso pensamento, embora a expressão não seja perfeitamente exata – essa condensação, dizíamos, ou melhor, essa solidificação da matéria eterizada é apenas temporária ou acidental, visto não se encontrar em seu estado normal. Daí por que essas aparições tangíveis, num determinado momento, nos escapam como uma sombra. Assim, do mesmo modo que vemos um corpo se nos apresentar em estado sólido, líquido ou gasoso, conforme seu grau de condensação, de igual modo a matéria do perispírito poderá apresentar-se em estado sólido, vaporoso visível, ou vaporoso invisível. Veremos, a seguir, como se opera essa modificação.
A mão aparente tangível oferece uma resistência; exerce uma pressão; deixa impressões; opera uma tração sobre os objetos que seguramos; há, pois, nela uma força. Ora, esses fatos, que não são hipóteses, podem conduzir-nos à explicação das manifestações físicas.
Notemos, em primeiro lugar, que essa mão obedece a uma inteligência, visto agir espontaneamente; que dá sinais inequívocos de vontade e obedece a um pensamento: pertence, pois, a um ser completo, que se nos revela apenas por essa parte de si mesmo; e a prova disso é a impressão que produz das partes invisíveis, os dentes deixando marcas impressas na pele e provocando dor.
Entre as diferentes manifestações, uma das mais interessantes, sem dúvida, é o toque espontâneo dos instrumentos musicais. Os pianos e os acordeões parecem ser, para esse efeito, os instrumentos de predileção. Esse fenômeno explica-se muito naturalmente pelo que o precede. A mão que tem a força de segurar um objeto pode muito bem apoiar-se sobre as teclas e fazê-las ressoar; aliás, por diversas vezes vimos os dedos da mão em ação e, quando a mão não é vista, veem-se as teclas se agitarem e o fole abrir-se e fechar-se. Essas teclas só podem ser movidas por mão invisível, dando prova de sua inteligência, tocando árias perfeitamente ritmadas, e não como sons incoerentes.
Uma vez que essa mão pode enfiar-nos as unhas na carne, beliscar-nos, arrebatar aquilo que temos na mão; desde que a vemos apanhar e transportar um objeto, como o faríamos nós mesmos, pode muito bem dar pancadas, levantar e derrubar uma mesa, agitar uma campainha, puxar cortinas e, até mesmo, dar-nos uma bofetada invisível.
Sem dúvida perguntarão como pode essa mão ter a mesma força, tanto no estado vaporoso invisível quanto no estado tangível. E por que não? Não vemos o ar derrubar edifícios, o gás lançar projéteis, a eletricidade transmitir sinais e o fluido do ímã levantar massas? Por que a matéria eterizada do perispírito seria menos poderosa? Não a queiramos submeter às nossas experiências de laboratório e às nossas fórmulas algébricas; sobretudo por havermos tomado os gases como termo de comparação, não lhes vamos atribuir propriedades idênticas, nem computar suas forças como calculamos a do vapor. Até o momento ela escapa a todos os nossos instrumentos; é uma nova ordem de ideias que está fora da alçada das ciências exatas; eis por que essas ciências não nos oferecem aptidão especial para apreciá-las.
Demos essa teoria do movimento dos corpos sólidos sob a influência dos Espíritos, somente para mostrar a questão sob todas as faces e provar que, sem nos afastarmos muito das ideias preconcebidas, podemos dar-nos conta da ação dos Espíritos sobre a matéria; mas outra há, de elevado alcance filosófico, dada pelos próprios Espíritos, e que lança sobre essa questão uma luz inteiramente nova. Compreendê-la-emos melhor depois de a havermos lido; aliás, é útil conhecer todos os sistemas, a fim de se poder compará-los.
Resta, pois, explicar agora como se opera essa modificação da substância eterizada do perispírito; por que processo o Espírito opera e, em consequência, qual o papel dos médiuns de efeitos físicos na produção desses fenômenos; aquilo que neles se passa em tais circunstâncias, a causa e a natureza de suas faculdades etc.. É o que faremos no próximo artigo.




[1] Revista Espírita – Maio/1858 – Allan Kardec
[2] N. do T.: Vide O Livro dos Espíritos – Livro II – pergunta 82.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

ERNESTINA FERREIRA DOS SANTOS[1]

 


Nasceu no dia 1º. de janeiro de 1879, no Rio de Janeiro; e desencarnou no dia 16 de novembro de 1953, na mesma cidade.
Era filha de Aristides Gonçalves Ferreira e D. Augusta Dias Ferreira.
Pequenina perdeu o seu pai, ficando aos cuidados de sua boa e dedicada genitora, que lhe deu esmerada educação. Muito franzina, de saúde delicada, aos cinco anos de idade foi acometida de forte dor na perna esquerda; era o início de porose óssea, que lhe desarticulou o quadril. Depois de uma série de operações dolorosíssimas, teve que amputar a cabeça do fêmur, ficando com uma perna mais curta, valendo-lhe anos de intenso martírio; suas dores eram tamanhas que só se podia penetrar no seu quarto nas pontas dos pés, para evitar-lhe perturbações.
Assim, chegou à juventude nesse martírio constante. Rebelou-se com a religião de seus pais, o catolicismo professado por toda família. Argumentava então: "Eu sinto que Deus existe, porém não como O apresentam. Porque eu que nunca fiz mal a ninguém, sofro tanto, enquanto tanta gente perversa tem saúde e vive feliz?" O seu avô, que lhe queria muito bem, ficava horrorizado com esse seu pensamento, dizendo: "Vamos rezar, gente, que nossa Nenê está sendo tentada pelo diabo".
Sua mãe, professora, viúva, pobre e cheia de filhos, foi transferida para Jacarepaguá. Lá conheceu um casal de fazendeiros, pais de nove filhos, casando-se um deles com sua filha mais velha, daí nascendo um romance de outro filho do casal, com Ernestina, sem esperança de se realizar o enlace em virtude da precariedade de seu estado de saúde.
Ignácio Barbosa dos Santos, dois anos mais velho que Ernestina, apaixonou-se pela sua candura. Era de índole boa e amorosa e passou a ser seu par constante, acompanhando-a sem desanimar, apesar de sua enfermidade e de seu estado de fraqueza.
Com 17 anos, tendo sofrido sete operações na perna, andava com dificuldade, com dores atrozes. Mesmo assim, ambos se sentiam cada vez mais apaixonados. Por certo eram espíritos compromissados que se reencontravam.
Devido à sua enfermidade, foi levada a procurar um curador de nome Eduardo Silva, em S. Paulo, o qual, embora não sendo espírita, era dotado de faculdades mediúnicas. Nessa época um seu primo presenteou-a com um exemplar de O Evangelho Segundo o Espiritismo.
No decurso da viagem ela leu o livro e sentiu que um novo horizonte se descortinou a seus olhos. Nessa época, quando Eduardo Silva impôs suas mãos sobre ela, fez com que sentisse grande melhora em seu estado físico; no hotel ela notou que suas vestes estavam molhadas com uma secreção. Com novas aplicações de passes, suas dores desapareceram por completo.
Sentindo-se curada, dois anos depois consentiu no casamento, tornando-se esposa e mãe. O seu esposo tornou-se enfermeiro desvelado, com profundo sentimento de proteção para o seu defeito físico.
Anos depois de casados, a moléstia tornou a manifestar-se.
O médico aconselhou uma intervenção cirúrgica, porém, surgiu em seu caminho um cidadão que professava o Espiritismo, o qual lhe sugeriu a aplicação de passes, recomendação que ela recebeu com intensa alegria. Nossa época teve a oportunidade de desenvolver a sua mediunidade, dando passividade a um Espírito de nome Ester que, remontando às vidas pretéritas, revelou-lhe as causas do seu sofrimento. Logo em seguida o médico constatou que ela estava radicalmente curada.
Integrando-se no Espiritismo, ela e seu esposo fundaram no próprio lar o "Grupo Espírita Cultivadores da Verdade", que funcionou algum tempo sob a direção do Sr. Serrão, um amigo da família, tendo posteriormente assumido a sua direção o famoso médium Inácio Bittencourt.
Foi então criado o "Pão dos Pobres", uma forma de assistência aos necessitados, tendo Ernestina muitas vezes subido os morros, com a ajuda de um garoto, a fim de praticar a sua tarefa assistencial.
Nessa época o seu esposo sofreu um revés financeiro, tendo que liquidar sua firma. Ernestina fez um concurso na Escola Normal, diplomando-se professora, passando a ajudar o esposo, até que a vida do casal se normalizasse.
A sua aspiração primacial consistia em fundar uma casa para abrigar crianças desamparadas, porém não via viabilidades para isso, pois as disponibilidades eram diminutas; as pessoas que frequentavam o Grupo, bastante modestas e pobres.
Teresa de Jesus, que se comunicava por seu intermédio, anunciava que, daquela pequenina associação de Pão aos Necessitados, se desenvolveria grande Casa de Caridade, em futuro muito próximo.
No dia 31 de dezembro de 1918, tudo estava pronto para a distribuição no dia seguinte: os pacotes de gêneros, os cortes de fazenda, roupinhas, brinquedos e até dinheiro em envelope, quando alguém bate à porta, entregando uma lista com a importância de novecentos e trinta mil réis, uma fortuna naquela época. Que fazer com aquele dinheiro todo? Pensou Ernestina, e guardou-o para posterior deliberação. No dia seguinte, 1º. de janeiro de 1919, fez-se a distribuição habitual. Era quarta-feira e, naquela noite, realizou-se a sessão. No final, como de costume veio a comunicação de Teresa de Jesus, dizendo: "O dinheiro que entrou à última hora é a semente para a Casa de Caridade que venho anunciando. Será para as criancinhas mais pobres que encontrardes. Trabalhai, que eu vos ajudarei".
A alegria foi geral. No mesmo instante, lavrou-se a ata de fundação e os presentes inscreveram-se como sócios fundadores, e a primeira diretoria do Abrigo "Teresa de Jesus" ficou assim constituída: Presidente, Ignácio Bittencourt; Vice-Presidente, Raul Salgado Zenha; Diretora, Ernestina F. dos Santos; Vice-Diretora, Maria Emília Appa dos Santos; Diretor, Ignácio Santos; Vice-Diretor, Manoel Santos; Tesoureiro, Antônio Batista Coelho; Vice-Tesoureiro, Samuel Caldas; Secretário, Octávio Pereira Legey; Vice-Secretário, Alexandre Dyott Fontenelle; e Procurador, João Esberard.
A sua abnegação e o seu espírito de trabalho, junto às crianças e aos necessitados, sua alma caridosa e sua bondade personificada valeram-lhe, em 1951, o Diploma e a Medalha de "Honra ao Mérito", outorgados pela Rádio Nacional, num programa dirigido pelo Dr. Paulo Roberto destinado a agraciar aqueles que se sobressaíssem pelos benefícios prestados em causas humanitárias.
Não desejamos santificar ninguém, não é esse o nosso objetivo ao desvendar essas grandes vidas, porém mostrá-las como exemplo de abnegação aos pósteros, dizendo-lhes: que mesmo nesta época, em que imperam a maldade e a corrupção, nem tudo está perdido, grandes almas salientam-se pela doçura de sentimentos e força moral, como verdadeiros discípulos de Cristo.
Sua desencarnação deixou à sua retaguarda um rastro de luz, seguido por um punhado de companheiros que, até hoje, sustenta e haverá de sustentar sempre a Casa de "Teresa de Jesus", Instituição modelar no Estado do Rio de Janeiro.




[1] Personagens do Espiritismo - Antônio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy