sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Indigesta psicosfera do carnaval[1]


 
Jorge Hessen – 05/02/2016
Nos períodos de folia os carnavalescos surgem de todos os lados na busca do nutrimento de suas devassidões. Para tais são longas as estações de dias e noites para as preparações do delírio demente dos três dias de miragens. Os incautos esfolam as finanças familiares para experimentar o encanto efêmero de curtir dias de completa paranoia. Adolescentes e marmanjos se abandonam nas arapucas pegajosas das drogas lícitas e ilícitas. Não compreendem que bandos de malfeitores do além (obsessores) igualmente colonizam as avenidas das escolas de samba num lúgubre show de bizarrices. Celerados das escuridões espirituais se acoplam aos bobalhões fantasiados pelos condutores invisíveis do pensamento, em face dos entulhos concupiscentes que trazem no mundo íntimo.
Sobrevém uma permuta vibratória em todos e em tudo. Os espíritos das brumas umbralinas se conectam aos escravos de momo descuidados, desvirtuando-os a devassidões deprimentes e jeitos grotescos de deploráveis implicações morais. Tramas tétricas são armadas no além-tumba e levadas a efeito nessas oportunidades em que momo impera dominador sobre as pessoas que se consentem despenhar na festa medonha.
Enquanto olhos embaciados dos foliões abrangem o fulgor dos refletores e das fantasias brilhantes (inspirações ridículas impostas pelos malfeitores habitantes das províncias lamacentas do além-túmulo), nas avenidas onde percorrem carros alegóricos (que, pasmem! Já até transportou a efígie do Chico Xavier sob aplausos de omissos líderes espíritas), a visão dos espíritos observa o recinto espiritual envolto em carregadas e sombrias nuvens cunhadas pelas oscilações de baixo teor mental.
Os três dias de folia, assim, poderão se transformar em três séculos de penosas reparações. É bom pensarmos um pouco nisso: o que o carnaval traz ao nosso Espírito? Alegria? Divertimento? Cultura? É de se perguntar: será que vale a pena pagar preço tão elevado por uns dias de desvario grupal?
Quando se pretende alcançar essa alegria, através do prazer desregrado e dos excessos de toda ordem, o resultado é a insatisfação íntima, o vazio interior provocado pelo desequilíbrio moral e espiritual. Portanto, não fossem os exageros, o Carnaval, como festa de integração sócio racial, poderia se tornar um acontecimento compreensível, até porque não admitir isso é incorrer em erro de intolerância. Porém, para os espíritas merece reflexão a advertência de André Luiz: “Afastar-se de festas lamentáveis, como aquelas que assinalam a passagem do carnaval, inclusive as que se destaquem pelos excessos de gula, desregramento ou manifestações exteriores espetaculares. A verdadeira alegria não foge da temperança”. [2]
A efervescência momesca é episódio que satura, em si, a carga da barbárie e do primitivismo que ainda reina entre nós, os encarnados, distinguidos pelas paixões do prazer violento. Costuma ser chamado de folia, que vem do francês folle, que significa loucura ou extravagância.
Nos dias conturbados de hoje, sabe-se que “(…) de cada dez casais que caem juntos na folia, sete terminam a noite brigados (cenas de ciúme etc.); que, desses mesmos dez casais, posteriormente, seis se transformam em adultério, cabendo uma média de três para os homens e três para as mulheres (por exemplo); que, de cada dez pessoas (homens e mulheres) no carnaval, pelo menos sete se submetem espontaneamente a coisas que normalmente abominam no seu dia a dia, como álcool, entorpecente etc. Dizem, ainda, que tudo isso decorre do êxtase atingido na Grande Festa, quando o símbolo da liberdade, da igualdade, mas, também, da orgia e depravação, somadas ao abuso do álcool, levam as pessoas a se comportarem fora do seu normal (…)” [3].
O Espírito Emmanuel adverte: “Ao lado dos mascarados da pseudo-alegria, passam os leprosos, os cegos, as crianças abandonadas, as mães aflitas e sofredoras. (…) Enquanto há miseráveis que estendem as mãos súplices, cheios de necessidades e de fome, sobram as fartas contribuições para que os salões se enfeitem” [4].
Como proferi supra, nesse panorama, os obsessores “influenciam os incautos que se deixam arrastar pelas paixões de Momo, impelindo-os a excessos lamentáveis, comuns por essa época do ano, e através dos quais eles próprios, os Espíritos, se locupletam de todos os gozos e desmandos materiais, valendo-se, para tanto, das vibrações viciadas e contaminadas de impurezas dos mesmos adeptos de Momo, aos quais se agarram” [5].
Portanto, além da companhia de encarnados, vincula-se a nós uma inumerável legião de seres invisíveis, recebendo deles boas e más influências a depender da faixa de sintonia em que nos encontremos. As tendências ao transtorno comportamental de cada um, e a correspondente impotência ou apatia em vencê-las, são qual imã que atrai os espíritos desequilibrados e fomentadores do descaso à dignidade humana, que, em suma, não existiriam se vivêssemos no firme propósito de educar as paixões instintivas que nos animalizam.
Será racional fechar as portas dos centros espíritas nos dias de Carnaval, ou mudar o procedimento das reuniões? Existem alguns centros que fecham suas portas nos feriados do carnaval por vários motivos não razoáveis. Repensemos: uma pessoa com necessidades imediatas de atendimento fraterno, ou dos recursos espirituais urgentes em caso de obsessão, seria fraterno fazê-la esperar para ser atendida após as “cinzas”, uma vez ocorrendo essa infelicidade em dia de feriado momesco?
Os foliões crônicos declaram que o carnaval é um extravasador de tensões, “liberando as energias”… Entretanto, no carnaval não são serenadas as taxas de agressividade e as neuroses. O que se observa é um somatório da bestialidade urbana e de desventura doméstica. Aparecem após os funestos três dias as gravidezes indesejadas e a consequente proliferação de assassinatos de intrusos bebês nos ventres, incidem acidentes automobilísticos, ampliação da criminalidade, estupros, suicídios, aumento do consumo de várias substâncias estupefacientes e de alcoólicos, assim como o aparecimento de novos viciados, dispersão das moléstias sexualmente transmissíveis (inclusive a AIDS) e as chagas morais, assinalando, densamente, certas almas desavisadas e imprevidentes.
O carnaval edifica o nosso Espírito? Muitos espíritas, ingenuamente, julgam que a participação nas festas de Carnaval, tão do agrado dos brasileiros, nenhum mal acarreta à nossa integridade fisiopsicoespiritual. No entanto, por detrás da aparente alegria e transitória felicidade, revela-se o verdadeiro atraso espiritual em que ainda vivemos pela explosão de animalidade que ainda impera em nosso ser. É importante lembrá-los de que há muitas outras formas de diversão, recreação ou entretenimento disponíveis ao homem contemporâneo, alguns verdadeiros meios de alegria salutar e aprimoramento (individual e coletivo), para nossa escolha.
Não vemos, por fim, outro caminho que não seja o da “abstinência sincera dos folguedos”, do controle das sensações e dos instintos, da canalização das energias, empregando o tempo de feriado do carnaval para a descoberta de si mesmo; o entrosamento com os familiares, o aprendizado através de livros e filmes instrutivos ou pela frequência a reuniões espíritas, eventos educacionais, culturais ou mesmo o descanso, já que o ritmo frenético do dia a dia exige, cada vez mais, preparo e estrutura físico-psicológica para os embates pela sobrevivência.
 Somente poderemos garantir a vitória do Espírito sobre a matéria se fortalecermos a nossa fé, renovando-nos mentalmente, praticando o bem nos moldes dos códigos evangélicos, propostos por Jesus Cristo.



[2] Vieira, Waldo. Conduta Espírita, ditado pelo Espirito André Luiz, Rio de Janeiro: Ed FEB, 2001, cap.37 “Perante As Fórmulas Sociais”.
[3] São José Carlos Augusto. Carnaval: Grande Festa… De enganos! , Artigo publicado na Revista Reformador/FEB-Fev. 1983.
[4] Xavier, Francisco Cândido. Sobre o Carnaval, mensagem ditada pelo Espírito Emmanuel, fonte: Revista Reformador, Publicação da FEB fevereiro/1987.
[5] Pereira, Ivone. Devassando o Invisível, Rio de Janeiro: cap. V, edição da FEB, 1998.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Evocação no Movimento Espírita: quem disse que não há?[1]


 
Alexandre Fontes da Fonseca - 10/12/2015


Uma das questões de maior interesse no movimento espírita diz respeito à evocação direta de Espíritos em reuniões mediúnicas. Kardec abre o capítulo XXV, “Das Evocações”, de O Livro dos Médiuns (LM) [2] , dizendo que:

 “Os Espíritos podem comunicar-se espontaneamente, ou acudir ao nosso chamado, isto é, vir por evocação. Pensam algumas pessoas que todos devem abster-se de evocar tal ou tal Espírito e ser preferível que se espere aquele que queira comunicar-se. Fundam-se em que, chamando determinado Espírito, não podemos ter a certeza de ser ele quem se apresente, ao passo que aquele que vem espontaneamente, (...), melhor prova a sua identidade,(...). Em nossa opinião, isso é um erro: primeiramente, porque há sempre em torno de nós Espíritos, as mais das vezes de condição inferior, que outra coisa não querem senão comunicar-se; em segundo lugar e mesmo por esta última razão, não chamar a nenhum em particular é abrir a porta a todos os que queiram entrar. (...) A chamada direta de determinado Espírito constitui um laço entre ele e nós; chamamo-lo pelo nosso desejo e opomos assim uma espécie de barreira aos intrusos. Sem uma chamada direta, um Espírito nenhum motivo terá muitas vezes para vir confabular conosco, a menos que seja o nosso Espírito familiar.” (item 269, grifos em negritos, meus).

            Essas palavras de Kardec, a primeira vista, fazem supor que seria imprescindível evocar determinados Espíritos em uma reunião mediúnica. Porém, um estudo mais atento do Cap. XXV do LM, permite perceber que a ideia não é bem essa. Ainda no item 269 Kardec diz:

“Cada uma destas duas maneiras de operar tem suas vantagens e nenhuma desvantagem haveria, senão na exclusão absoluta de uma delas.” (grifos em negrito, meus).

Kardec, então, considera que há “vantagens”, isto é, benefícios nas duas formas de operar a reunião mediúnica: em que há, e em que não há evocação. E complementa dizendo que “nenhuma desvantagem haveria” a menos que houvesse “exclusão absoluta de uma delas” (grifamos), isto é, que se fizesse reuniões onde não se faz nenhum tipo de evocação ou, o contrário, onde se recebe, apenas, comunicações de Espíritos evocados diretamente. Ainda neste item, Kardec complementa:

“As comunicações espontâneas inconveniente nenhum apresentam, quando se está senhor dos Espíritos e certo de não deixar que os maus tomem a dianteira. (...) O exame escrupuloso, que temos aconselhado, é, aliás, uma garantia contra as comunicações más. Nas reuniões regulares, naquelas, sobretudo, em que se faz um trabalho continuado, há sempre Espíritos habituais que a elas comparecem, sem que sejam chamados, por estarem prevenidos, em virtude mesmo da regularidade das sessões.” (grifos em negrito, meus).

            Kardec deixa, então, claro que quando seguimos a recomendação de fazer um “exame escrupuloso”, isto é, uma análise profunda das comunicações recebidas, não há inconveniente algum em aguardar por comunicações espontâneas numa reunião mediúnica. E acrescenta que nas “reuniões regulares”, isto é, naquelas que ocorrem com frequência regular, “Espíritos habituais” estão sempre presentes.

            Alguns companheiros têm usado esses comentários de Kardec para criticar a forma como os centros espíritas, em sua maioria, orientam e realizam as reuniões espíritas. Alegam, respeitosamente, que fazer evocações nas reuniões mediúnicas é exemplo de Kardec. Mas, será que realmente as reuniões mediúnicas dos centros espíritas estão ocorrendo de modo errado ou incompleto? Nosso propósito, aqui, é mostrar que, na verdade, os centros espíritas estão agindo corretamente e de acordo com essas e outras orientações de Kardec e dos bons Espíritos na Codificação. Para isso, analisemos, as citações de Kardec, acima destacadas.

Primeiro: Kardec está certo quando diz que é um erro não evocarmos os Espíritos em nossas reuniões mediúnicas. Mas quem disse que a evocação não é feita em todas as reuniões mediúnicas comuns das casas espíritas? Quando um companheiro do grupo mediúnico eleva o pensamento em preces para rogar ajuda, inspiração e amparo dos bons Espíritos para a reunião que se inicia, está fazendo uma evocação direta aos bons Espíritos! Jesus não disse: “onde quer que se encontrem duas ou três pessoas reunidas em meu nome, eu com elas estarei.” (MATEUS, XVIII, 20)? Se os membros do grupo estão em sintonia com aquele que, em voz alta, faz a prece, então Jesus será representado na reunião por bons Espíritos (ver o item 5 do capítulo XXVIII de O Evangelho Segundo o Espiritismo (ESE) [3]). Não é necessário nem correto evocar essa ou aquela entidade conhecida, pois sabemos que nem sempre um determinado Espírito pode nos atender (Cap. XXV do LM), e porque quando desejamos a presença e assistência de bons Espíritos, não importa o nome, nem a personalidade que foi conhecida quando encarnado, mas sim se detém conhecimento e bondade suficientes para nos conduzir ao progresso. Além disso, embora não constitua uma evocação direta, quando, em preces, rogamos ajuda para encarnados ou desencarnados, de certa forma estamos fazendo um tipo de evocação, isto é, estamos demonstrando em pensamento, e com respeito, que algumas pessoas são importantes para nós e desejamos que elas sejam ajudadas.

Segundo: Kardec está certo quando diz que a reunião mediúnica ideal é aquela em que se combina evocação com comunicações espontâneas. Quem disse que isso não ocorre nas reuniões mediúnicas comuns das casas espíritas? As evocações são feitas no momento da prece e nas vibrações pelos necessitados, enquanto que as comunicações espontâneas ocorrem ao longo da reunião. Como explica Kardec no capítulo XXV do LM, nem sempre os Espíritos com quem desejamos nos comunicar tem condições de atender nosso chamado. Logo, ao mesmo tempo que, em preces, rogamos ajuda para os Espíritos que sabemos estarem necessitados, deixamos para os bons Espíritos a escolha daqueles que estão em melhores condições de receberem os benefícios da comunicação mediúnica e do diálogo fraterno. Isso se chama organização para melhor servir, o que é condição necessária para a prática eficiente da caridade. No fundo, se analisarmos bem, não se pode nem chamar isso de comunicações espontâneas porque não será qualquer um que irá se comunicar, mas só aqueles que os bons Espíritos sabem que podem ser beneficiados através da reunião mediúnica. Para nós encarnados, parece que as comunicações são espontâneas, mas não o são na realidade. Tudo atende a organização e preparo prévios da espiritualidade.

Terceiro: as reuniões mediúnicas no movimento espírita são periódicas, isto é, ocorrem com frequência regular, geralmente semanal. Logo, nessas reuniões, há a presença de bons Espíritos habituais.

Em quarto lugar, não há com o que se preocupar com eventuais comunicações espontâneas porque os bons grupos mediúnicos realizam fidedignamente a recomendação espírita de realizar um “exame escrupuloso” das comunicações já que, segundo Kardec, essa é “uma garantia contra as comunicações más”.

Portanto, o movimento espírita já segue as orientações de Kardec no tocante às reuniões mediúnicas, comunicações com os Espíritos e, inclusive, evocações. É graças a essa conduta que os centros espíritas podem oferecer ajuda eficiente na realização de comunicações mediúnicas com Espíritos maus. A esse respeito, no item 278 do LM, Kardec diz:

“Uma questão importante se apresenta aqui, a de saber se há ou não inconveniente em evocar maus Espíritos. Isto depende do fim que se tenha em vista e do ascendente que se possa exercer sobre eles. O inconveniente é nulo, quando são chamados com um fim sério, qual o de os instruir e melhorar; é, ao contrário, muito grande, quando chamados por mera curiosidade ou por divertimento, ou, ainda quando quem os chama se põe na dependência deles, pedindo-lhes um serviço qualquer.” (Grifos em negrito, meus).

            Aqui vemos o quinto requisito satisfeito pelos grupos mediúnicos dos centros espíritas em todo o país. Os grupos mediúnicos de desobsessão ocorrem com o fim único e sério de “instruir e melhorar” os Espíritos necessitados de orientação, equilíbrio e paz. A evocação, no caso dos grupos de desobsessão, ocorre quando lembramos na prece inicial, de pessoas que estejam sofrendo influências negativas de certos Espíritos, de Espíritos que saibamos estarem sofrendo e influenciando algumas pessoas, ou quando pedimos aos bons Espíritos que sejamos úteis para ajudar aqueles Espíritos maus que, na análise deles, estão em condições de receberem ajuda através do grupo.

            Com base nas explicações acima, podemos entender a recomendação de Emmanuel na obra O Consolador [4], questão 369:

“369 – É aconselhável a evocação direta de determinados Espíritos”?

- Não somos dos que aconselham a evocação direta e pessoal, em caso algum. Se essa evocação é passível de êxito, sua exequibilidade somente pode ser examinada no plano espiritual. Daí a necessidade de sermos espontâneos, porquanto, no complexo dos fenômenos espiríticos, a solução de muitas incógnitas espera o avanço moral dos aprendizes sinceros da Doutrina. O estudioso bem-intencionado, portanto, deve pedir sem exigir, orar sem reclamar, observar sem pressa, considerando que a esfera espiritual lhe conhece os méritos e retribuirá os seus esforços de acordo com a necessidade de sua posição evolutiva e segundo o merecimento do seu coração. Podereis objetar que Allan Kardec se interessou pela evocação direta, procedendo a realizações dessa natureza, mas precisamos ponderar, no seu esforço, a tarefa excepcional do Codificador, aliada a necessidade de méritos ainda distantes da esfera de atividade dos aprendizes comuns.” (Grifos em negrito, meus).

            Ninguém é proibido de, em pensamento, pedir ajuda para determinado Espírito, rogar notícias de algum familiar ou amigo desencarnado, ou desejar orientação deste ou daquele mentor espiritual. Mas, a Doutrina Espírita esclarece que: i) nem sempre os Espíritos podem atender à evocação (questões 2, 3, 4 e 9 do item 282 do LM); ii) podem simplesmente não desejar atendê-las (questões 10 e 22 do item 282 do LM); e iii) outros Espíritos podem se fazer passar pelos que foram evocados (questões 23 e 26 do item 282 e questão 36a do item 283 do LM). Assim, pensando nos nobres objetivos de uma reunião mediúnica, a abstenção de se evocar, exigir ou esperar pela comunicação de determinado Espírito resguarda o grupo de possíveis mistificações. Em nota à questão 36a do item 283 do LM, Kardec diz: “Os Espíritos levianos se aproveitam sempre da inexperiência dos interrogantes; guardam-se, porém, de dirigir-se aos que eles sabem bastante esclarecidos para lhes descobrir as imposturas e que não lhes dariam crédito aos contos.” (Grifos em negrito, meus). Isso mostra que a preocupação de Emmanuel é mais do que justa. Como o centro espírita contém a presença de companheiros experientes na tarefa mediúnica, as razões acima mostram, também, porque é mais seguro que se pratique a mediunidade no ambiente das casas espíritas, e não nos lares ou em outros locais.

            Em conclusão, vemos que as reuniões mediúnicas que ocorrem nos centros espíritas, estão em pleno acordo com as orientações do Espiritismo. Se engana quem pensa que não ocorrem evocações nas reuniões mediúnicas ordinárias no movimento espírita.




[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Editora FEB, 96ª edição, Rio de Janeiro (1996).
[3] KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Editora FEB, 112ª Edição, Rio de Janeiro (1996).
[4] XAVIER, Francisco Cândido, por Emmanuel. O Consolador. Editora FEB, 11ª edição, Rio de Janeiro (1985).

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

Isolamento saudável[1]




Jorge Hessen[2] - 28/dezembro/2015

  
Define o dicionarista a “solidão” como um estado de quem se sente ou está só. Para os psicólogos a solidão é uma “moléstia astuciosa”, que nenhum instrumento médico consegue identificar, o que resulta, quase sempre, em determinados reflexos comportamentais, a saber: isolamento, inabalável esmorecimento, irreprimível indisposição, tristeza sem causa, baixa autoestima.
O psicólogo John Cachopo, após seis anos de estudos com 2 mil pessoas, afirma que os solitários correm mais risco de falecer do que os outros. É que a solidão eleva a pressão arterial, logo, aumenta também os riscos de infartos e derrames. Além disso, o isolamento enfraquece o sistema imunológico e piora a qualidade do sono.
Não ignoramos que hoje em dia muitas pessoas moram sozinhas e levam uma vida relativamente serena. Não se pode dizer que são pessoas “doentes” se as mesmas se sintam bem nessa circunstância. Até porque a sensação de isolamento pode estar presente em qualquer lugar ou situação, como numa festa com os amigos, no trabalho e até mesmo dentro de casa com a própria família.
Experimenta-se atualmente a sediciosa sensação de insulamento na multidão. Indivíduos estão cercados por pessoas em ônibus, metrôs, aviões, estádios, avenidas, ruas e, contudo, nessa avalanche de gente avultam os solitários na multidão. E quanto mais são cercados de pessoas, de barulho, de tarefas, mais se agrava a sensação de que estão sozinhos. Parece algo contraditório. Será a “tal solidão” a ausência de companhia? Consistiria em uma fuga da civilização?
Há os que defendem que solidão seja a arte do encontro com o vazio existencial. Esse vazio é de mão dupla. Uma é a da existência, da busca de um significado metafísico; a outra é a da ausência, da perda de algo importante. A liberdade é uma descoberta solitária, e por isso muitos tentam evitá-la. Garantem tais estudiosos que a solidão é boa e que ficar sozinho não é vergonhoso. Todas as pessoas deveriam ficar sozinhas, de vez em quando, para estabelecer um diálogo interno e descobrir sua força pessoal. Na solidão o indivíduo entende que a harmonia e a paz de espírito só podem ser encontradas dentro dele mesmo.
Realmente há quem use a prodigiosa solidão como tempo de inspiração, análise e programação. Quando fazemos silêncio exterior, damos vazão ao mundo interno, intenso e palpitante. Há tanta gente mergulhada em alaridos indigestos, dominada por conversas maledicentes ou pelo estrondo de risadas burlescas; há tanta gente rodeada de pessoas, mas com a alma amargurada, oprimida, oca. Lembremos que tudo tem o seu tempo determinado, conforme narra o Eclesiastes.
 
“Há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar, tempo de colher, tempo de chorar e tempo de sorrir; tempo de falar e tempo de silenciar também”.[3]
Então, por que temer a frutífera solidão? Se a vida nos oferece ocasiões de solidão, saibamos abrigá-la como um tesouro. Aproveitemos cada instante para meditações.
Obviamente o “isolamento absoluto” é contrário à lei da Natureza. Somos seres sociais e, por instinto, buscamos a sociedade e devemos concorrer para o seu progresso, auxiliando-nos mutuamente. Completamente isolados não dispomos de todas as faculdades. No isolamento incondicional ficamos brutalizados e morremos. Por essas razões é importante caracterizar as distintas solidões – aquela que significa fuga deliberada do convívio social daquela outra que nos abastece a alma.
A solidão com o serviço aos semelhantes gera a grandeza. A rocha que sustenta a planície costuma viver isolada, e o Sol que alimenta o mundo inteiro brilha sozinho. Emmanuel ensina que “Jesus escalou o Calvário, de cruz aos ombros feridos e ninguém o seguiu na morte afrontosa, à exceção de dois malfeitores, constrangidos à punição, em obediência à justiça”.[4]
Não esperemos pelos outros na marcha de sacrifício e engrandecimento. “E não olvidemos que, pelo ministério da redenção que exerceu para todas as criaturas, o Divino Amigo dos Homens não somente viveu, lutou e sofreu sozinho, mas também foi perseguido e crucificado…”.[5]



[2] Servidor Publico Federal, residente em Brasília, palestrante, escritor, articulista em diversos jornais e sites, com textos publicados na Revista Reformador da FEB, O Espírita de Brasília, O Imortal, Revista Internacional do Espiritismo, entre outros e além de Conselheiro da Revista Eletrônica O Consolador.
[3] Eclesiastes 3:1-8
[4] Xavier, Francisco Cândido. Fonte Viva , ditado pelo Espírito Emmanuel, cap. 70, RJ: Ed. FEB, 1999
[5] Idem

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

S. José de Cupertino e a mediunidade de efeitos físicos[1]



Não menos positivo é o fato do erguimento de uma pessoa; mas, é algo muito mais raro, porque é mais difícil de ser imitado. É sabido que o Sr. Home se elevou mais de uma vez até ao teto, dando assim volta à sala.
Dizem que S. Cupertino possuía a mesma faculdade, não sendo o fato mais miraculoso com este do que com aquele.
A. Kardec, "A Gênese", Cap. XIV, "Os fluidos", II - Explicação de alguns fenômenos considerados sobrenaturais.
Estaria o Século XXI pronto para confrontar fenômeno destruidor de paradigmas, a levitação?  (M. Grosso[2])
O fenômeno mediúnico manifesta-se das mais variadas maneiras, numa escala de força e tempo que ainda nos é desconhecida. Quando surgem as circunstâncias favoráveis, eclodem sem consideração por fé, crença ou ponto de vista. Se há manifestações tão singelas e apagadas que passam despercebidas da maioria, por outro lado, há as que causam admiração e espanto, tamanho o grau de aparente desrespeito às leis naturais - porque representam operação de leis desconhecidas - que imprimem as suas testemunhas. A revista "Edge Science" de Dezembro de 2015 (número 242) traz um artigo interessante de Michael Grosso sobre uma figura lendária da Igreja, o santo S. José de Cupertino (160-1663). José de Cupertino (Giuseppe da Copertino) foi canonizado por Clemente XIII em 1767 e, até hoje, é adorado por Católicos que veem nele uma das 200 derrogações (ou suspensões) das leis naturais por obra direta de Deus que a Igreja conta entre seus santos. Por que? Eis uma das histórias que se conta, segundo M. Grosso2:
Próximo ao natal de 1632, o Padre Giuseppe convidou alguns pastores a trazer seus instrumentos musicais para tocar na igreja de Grotella, na Itália. Ao entrarem na igreja, começou José a cantar e dançar. Mais tarde os pastores narraram sob juramento o que aconteceu: "Padre Giuseppe estava tão feliz que começou a dançar no centro da nave ao som das flautas. De repente, suspirou em voz alta e gritou, voando pelos ares como um pássaro, até metade da distância do teto, onde continuou a dançar acima do altar principal. Isso foi ainda mais formidável, pois o altar estava repleto de velas acesas e ele permaneceu entre elas sem derrubar nenhuma. Ficou naquela posição, com seus joelhos acima do altar, abraçado ao tabernáculo por cerca de quinze minutos e então retornou, sem causar qualquer transtorno. Seus olhos estavam cheios d'água e disse: 'Louvado seja Deus, meus irmãos'. Permanecemos todos em admiração e disse comigo mesmo: 'Isso sim é que é um milagre'“[3].
José de Copertino tinha a incrível capacidade de levitar, fenômeno que ocorreu por 35 anos ininterruptos até seu falecimento. Antes da manifestação de voo, José caia numa espécie de "êxtase", conforme descrito por seus biógrafos. O mais difícil é desacreditar as milhares de testemunhas que viram José levitar sob pena de se chegar a uma explicação ridícula ou anacrônica. Nas palavras de M. Grosso2:
Poderíamos nos perguntar: dado que José era tão submisso e aparentemente pouco inteligente[4], como pôde ele enganar tantas pessoas, algumas inclusive bastante ilustres? De acordo com registros históricos, José levitou diante do Papa Urbano VIII, vários cardiais, médicos, o Rei da Polônia, o Duque de Brunswick, a Princesa de Savoia e numerosas outras personalidades VIP’s. Podemos concluir que nenhum deles era esperto o suficiente para desmascarar esse impostor? Poderia José ter enganado o Papa Bento XIV (Prosper Lambertini), conhecido por ser um racionalista? A alternativa a essa explicação é que todos esses dignatários eram parte de uma ilusão em massa para criar a imagem de um padre voador. Mas, com que objetivo? E, por que, depois de tantos séculos, ninguém se apresentou para revelar a verdade sobre tal conspiração?
As evidências de levitação de José de Cupertino têm um peso ainda maior porque, segundo2, durante a contra-reforma protestante, a Inquisição chegou a encarcerar José, proibindo-o de realizar a missa ou participar de procissões públicas. As autoridades inquisitoriais não queriam que a população o vissem voar e, assim, buscassem no padre curas e outros milagres, como está fartamente registrado em autos de várias paróquias como Grotella, Nápoles, Roma, Nardo, Pietra Rubbia, Osimo e Fossombrone2. Pode-se dizer qualquer coisa da ética dos métodos e das motivações do tribunal do Santo Ofício, mas o fato é José foi preso justamente pela comoção pública causada por seus voos, e seria ele um caso de fogueira se descobrissem uma impostura. O estado de êxtase em que a população ficava ao ver o fenômeno alarmou outras paróquias que procuram na Inquisição uma maneira de parar as manifestações. 
José de Cupertino e a mediunidade de efeitos físicos
Segundo M. Grosso em2, a época de José de Cupertino era um tempo que pessoas eram queimadas vivas caso não tivessem as "credenciais de fé" necessárias. Portanto, os registros históricos confirmam a realidade do fenômeno da levitação e criam um problema difícil para os céticos. É o que chamamos de "anomalia". A explicação do fato, portanto, deve ser outra. Ainda segundo Grosso:
Quando olho para as fontes históricas das narrações sobre José, encontro registros bem documentados, narrativas que descrevem fenômenos estranhos, não somente levitação: histórias de fragrâncias inexplicáveis que persistiam por meses ou anos impregnadas a objetos, descrições sobre curas, do que hoje se chama de "telepatia" ou que, no Século XVII, era conhecido com "leitura dos corações" ou "discernimento" e, finalmente, a vida de José foi capaz de gerar muitos documentos que descrevem suas profecias e clarividência. Domenico Bermini, um historiador eclesiástico, afirma em uma biografia de José (de 1722) que ele registrou 22 profecias de pessoas que iriam falecer2.
Manifestações de efeitos físicos são pródigas em fenômenos de levitação (o caso das mesas girantes) e curas. E as tais "profecias" descritas pelos biógrafos de José de Cupertino atestam sua capacidade mediúnica intelectual, sua habilidade de ouvir ou receber informações dos Espíritos sobre fatos à distância - particularmente associados ao estado de pessoas próximas à desencarnação. Ainda que Espíritos não apareçam3 no que se produziu dos relatos do santo (e não poderiam aparecer, pois aquela era uma época de perseguições aos que não estavam de acordo com a fé ortodoxa), o que temos dos relatos é suficiente para caracterizá-lo como um dos mais poderosos médiuns que já passou pela Terra.
Sobre S. Cupertino, comenta Kardec[5]:
Os fenômenos espíritas, bem como os magnéticos, antes que suas causas fossem conhecidas, tiveram que passar por prodígios. Ora, como os céticos, os espíritos fortes, isto é, os que têm o privilégio exclusivo da razão e do bom-senso, não creem que uma coisa seja possível desde que não a compreendem. É por isso que todos os fatos tidos como prodigiosos são objeto de suas zombarias. Como a religião contém grande número de fatos desse gênero, não creem na religião. Daí à incredulidade absoluta há apenas um passo. Explicando a maioria desses fatos, o Espiritismo lhes dá uma razão de ser. Ele, pois, vem em auxílio à religião, demonstrando a possibilidade de certos fatos que, por não mais terem caráter miraculoso, não são menos extraordinários; e Deus nem é menos grande, nem menos poderoso por não haver derrogado as suas leis. De quantos gracejos não foram objeto as levitações de São Cupertino? Ora, a suspensão no ar dos corpos pesados é um fato explicado pelo Espiritismo. Nós, pessoalmente, fomos testemunha ocular, e o Sr. Home, como outras pessoas de nosso conhecimento, repetiram várias vezes o fenômeno passado com São Cupertino. Assim, o fenômeno entra na ordem das coisas naturais.
Além da citação acima, Kardec mais de uma vez comentou sobre a descrença e escárnio que sempre acompanhava as referências a José de Cupertino. Na Revista Espírita de Outubro de 1859, artigo "Os Milagres", escreve: "De quantas graçolas não foram objeto as levitações de São Cupertino?" Tal fenômeno tem a mesma causa dos médiuns[6] D. D. Home (1833-1886) e C. C. Mirabelli (1889-1951), por exemplo, que realizaram levitações no Século XIX na Europa e XX no Brasil, respectivamente. Mas, no artigo de M. Grosso, temos a confirmação da mediunidade de José de Cupertino, pela presença de outras manifestações espontâneas, típicas da mediunidade de efeitos físicos e intelectuais.
 Qualquer que seja o ponto de vista que se tenha sobre os voos de S. Cupertino, os registros históricos permanecem como seus testemunhos e não permitem fácil interpretação em termos de teorias de conspiração, alucinação em massa ou fraude. Fazem eles parte de uma época em que fraudes teriam vida curta, tanto por conta da existência de uma polícia doutrinária que punia severamente os que se aventuravam a zombar da fé hegemônica, como pela titularidade e inteligência dos notáveis que assistiram o fenômeno mais de uma vez. 
Continuarão os céticos a duvidar dentro de seu direito. No Século XXI, qualquer registro fotográfico de um genuíno fenômeno de levitação seria facilmente explicado como manipulações de softwares como o "Photoshop". Céticos mais duros exigiriam, para aceitá-lo, um número arbitrário de demonstrações nas mais exóticas condições possíveis, que levariam o médium à loucura. De nossa parte, ficamos contentes em descobrir na história mais um exemplo de mediunidade rara de efeitos físicos, que confirma as regularidade - não obstante peculiaridade - das manifestações mediúnicas descobertas pelos pioneiros do Espiritismo. Podemos dizer que José de Cupertino, duzentos anos antes, antecedeu o fenômeno das mesas girantes do alvorecer do Espiritismo; tendo sido provavelmente ajudado por muitos Espíritos em suas manifestações de voo. Seu caráter piedoso o tornou insuspeito ao Santo Ofício, que procurou cercear entretanto as manifestações. Tivesse as mesas girantes surgido naquela época, tal como aconteceu no Século XIX, muitas pessoas teriam ido para a fogueira.


[2] M. Grosso (2015) Ectasy and Gravitation: The Levitation of Joseph of Copertino. Edge Science, n. 24. Um publicação da Society for Scientific Exploration. A revista pode ser acessada em: http://microver.se/sse-pdf/edgescience_24.pdf (Acesso: dez. 2015)
[3] M. Grosso (2016). The Man Who Could Fly: St. Joseph of Copertino and the Mystery of Levitation. Rowman & Littlefield, p. 79.
Ele era carente de capacidade intelectual a ponto de chamar-se a si mesmo de “Frei Burro”. Mas, cheio de luzes sobrenaturais, discorria em profundidade sobre temas teológicos e resolvia intrincadas questões que lhe eram apresentadas.
[5] A. Kardec (1860) O Maravilhoso e o sobrenatural. Revista Espírita, Edição de setembro.
[6] Outros médiuns menos conhecidos e associados às manifestações de levitação são: Amadee Zuccarini, Einer Nielsen, Boerge Michaelsen e Colin Evans, esse último, entretanto, considerado um impostor segundo os autores céticos da Wikipédia. Há ainda o caso de uma levitação do faquir Subbayah Pullavar. Ver http://www.spiritarchive.org/levitation-of-humans.html

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Sonhos sexuais e outros sonhos: por que somos diferentes nos sonhos?[1]


31/01/2016

 
Por que fazemos coisas nos sonhos que não fazemos quando estamos acordados? Por que temos um comportamento tão diferente nos sonhos?
Essas questões perturbam muita gente. Todos os dias recebo perguntas sobre os sonhos – vale lembrar que eu não interpreto sonhos. Mas o que realmente perturba as pessoas são determinadas atividades recorrentes que acontecem durante o período de sono físico: brigas, uso de drogas, e, principalmente, sexo. Quando essas experiências acontecem com plena lucidez, então, o desconhecimento do assunto pode fazer tudo parecer assustador.
O leitor Gabriel Tollentino pesquisou alguns artigos meus e elaborou uma compilação sobre o assunto, que publico a seguir. A quem interessar, coloquei link[2] no meio do texto que conduzem a outros artigos relacionados ao tema.
 
Boa leitura!
 
Morel Felipe Wilkon, gostaria de te agradecer profundamente pelos teus artigos e teu trabalho de esclarecimento como um todo. Apesar de estudar o Espiritismo há mais de 10 anos eu nunca havia conseguido compreender bem essa diferença que temos quando estamos desdobrados ou quando estamos no estado de vigília.
Para tirar as minhas dúvidas gastei horas e horas lendo teus artigos, as dúvidas dos leitores e as tuas respostas a eles e fiz uma compilação.
Muito obrigado pelo teu trabalho de esclarecimento, Morel. Que a Providência Divina te dê muitas forças para continuar nos ajudando.
Os sonhos podem ser comuns, reflexivos ou espíritas.
Sonhos comuns são a continuação de nossas disposições físicas ou psicológicas. Por exemplo: quando você vai dormir com fome e sonha com comida, ou quando você terá uma entrevista de emprego no dia seguinte e sonha com a entrevista.
Sonhos reflexivos são fragmentos de lembranças, dessas ou de outras existências.
Sonhos espíritas são a atividade durante o sono. São aqueles sonhos que parecem que são reais – e na verdade são.
André Luiz nos afirma que três em cada quatro pessoas buscam prazeres em zonas astrais inferiores durante o período de sono. É preciso reconhecer que a maioria, ao se projetar do corpo físico durante o sono, vai em busca daquilo que mais ocupa o seu pensamento durante o dia, no estado de vigília (que de vigília tem muito pouco) – assim será nossa ação, ativa ou passiva, à noite, durante o período de sono.
Assim, os que são raivosos no estado de vigília lutam com seus inimigos durante o repouso do corpo; o viciado é atraído pelo vício; o erotizado é atraído pelo sexo. É comum a procura por vícios de toda espécie: álcool, drogas, jogo, negócios escusos. Inimigos se encontram para brigar, criminosos voltam ao local do crime, ladrões roubam, fofoqueiros fazem intrigas, invejosos sabotam, rancorosos praticam vinganças. O sexo é, disparado, o maior atrativo para esses festeiros.
 
Sexo astral: sexo com espíritos, sexo dormindo
No plano físico nós desenvolvemos uma determinada personalidade. Você nasceu em uma determinada família, teve uma certa criação, conviveu com pessoas, viu e ouviu coisas, entrou em contato com cultura, religião, valores, opiniões, e foi se moldando conforme foi crescendo.
Você não é no dia-a-dia como você é de verdade. Mesmo que você seja uma pessoa boa, autêntica, sincera, leal, correta. Isso é o papel que você representa, como numa peça de teatro. É claro que, se você interpreta um papel bom assim, é porque você já desenvolveu, ao longo de inúmeras existências, condições para dar conta deste papel. Um espírito menos experiente que você, ou menos esforçado, menos esclarecido, não teria condições de desenvolver uma personalidade como a sua, mesmo que tivesse sido criado com os melhores cuidados e com muito amor.
Muitas pessoas são surpreendidas com a diferença de personalidade que apresentam em sonho, quando estão desdobradas. Nos sonhos não nos comportamos da mesma forma que no estado de vigília (acordados). Nos sonhos não temos o chamado da matéria a nos lembrar compromissos, obrigações, deveres e valores morais impostos pela sociedade. Nos sonhos “cai a máscara”. Se no momento em que desencarnamos a máscara cai, é bom saber que durante o sono também.
O que pensamos ou julgamos no estado de vigília não é necessariamente o que acreditamos intimamente. Temos freios sociais, temos valores que cultivamos, temos leis e normas de conduta a seguir, temos ideais ético-moral-religiosos. Mas não somos só isso, não somos apenas essa aparência encarnada. Somos espíritos com experiências milenares tentando, aos poucos, nos desvencilhar de nossas fraquezas.
Quando o nosso corpo físico repousa, nos libertamos parcialmente e a superfície de nossa consciência – aquilo em que normalmente acreditamos – não tem mais tanto valor. Às vezes não tem valor nenhum. Enquanto o nosso corpo físico repousa, durante o sono, ficamos parcialmente libertos e damos vazão ao que somos intimamente.
 
Espiritismo e sonhos eróticos
Não somos apenas o que aparentamos ser. Quando estamos acordados, temos que seguir normas impostas pela sociedade, nos freamos a nós mesmos. Ao dormirmos, tomamos contato com outros níveis de consciência. Sempre atraímos os espíritos que se afinizam conosco. Durante o sono, mantemos atividade com eles.
Os espíritos que vêm até nós em busca de sexo querem roubar nossas energias. Como não têm mais o corpo físico, precisam das energias de um encarnado para se manterem como eram quando encarnados – cheios de vícios e apegados à matéria.
 
O sono e a vampirização sexual
É muito comum fazermos coisas, em sonho, que não faríamos acordados. Quando despertos, temos freios morais, temos propósitos, que nos foram ensinados ou que nós mesmos escolhemos, de não fazer certas coisas. Mas o que somos quando estamos acordados é apenas uma parte do que somos integralmente. Não temos, durante o sono, o mesmo nível de consciência que no estado de vigília. A pessoa que você é quando está acordada é a parte mais superficial do espírito imortal que você é.
Quando estamos desdobrados pelo sono físico, assumimos um nível mais profundo de consciência sobre o qual temos menos domínio, pois ele não está sujeito aos medos e convenções morais que costumamos adotar. Para mudar esse quadro é preciso levar a sério o controle dos pensamentos. Não se muda da noite para o dia; nossos costumes são muito antigos e precisamos persistir em nossos novos propósitos para vencermos as nossas próprias fraquezas.
Se uma pessoa que é viciada em pornografia ou qualquer outro vício, no seu estado de vigília, toma conscientemente a decisão de abster-se de pornografia, provavelmente seu espírito continuará por um período buscando o vício no plano astral. Mas para deixar de consentir com nossas antigas fraquezas é preciso mudar profundamente, não apenas a superfície – por isso chamamos de reforma íntima.
Você precisa ocupar-se com novas atividades, ocupar a mente com coisas construtivas, ler muito sobre assuntos ligados à espiritualidade, orar e controlar o pensamento. Quanto mais você ocupar o seu pensamento com assuntos elevados, mais difícil será você acessar essas vibrações baixas durante o sono.
A tendência é que nos ocupemos, durante o sono, com as coisas que ocupam o nosso pensamento, consciente ou inconscientemente, durante o estado de vigília. Se você desenvolver novas atividades, novos padrões positivos de pensamento, em pouco tempo estará com a sintonia mais elevada e irá ocupar-se, pouco a pouco, com os novos assuntos durante o período de sono.
Sempre que formamos um novo propósito e o colocamos em prática demora ainda algum tempo para que isso seja colocado em prática também no plano astral. O grande problema de muitas pessoas é que elas têm um comportamento aqui, no plano físico, mas o seu subconsciente permanece tomado pelos comportamentos antigos. E todas as noites, quando o corpo físico repousa e o espírito se vê parcialmente liberto da matéria, continuam praticando os seus comportamentos antigos no plano astral. Boicotam a si mesmas.
Só conseguiremos dominar a nós mesmos seguindo o ensinamento do mestre dos mestres: orando e vigiando. A oração nos conecta com Deus e vigiar os nossos pensamentos eleva nossa sintonia e vibração.
 
Espiritismo e sonho lúcido
É preciso que os novos hábitos e pensamentos estejam plenamente incorporados no seu cotidiano, que você os tenha como uma verdade natural e segura, para que esses novos valores sejam seguidos e sentidos também enquanto você estiver desdobrado no plano astral. Leva algum tempo até convencermos nosso íntimo de que mudamos.
A energia que despendemos no desejo sexual pode ser canalizada para coisas mais construtivas e úteis. É a mesma energia utilizada nos processos criativos, nas artes, nos esportes. Mas para isso é preciso um adiantamento moral que muitos de nós ainda não temos. Ou algum conhecimento do assunto e muita vontade. Com vontade quase tudo é possível.