terça-feira, 19 de janeiro de 2021

MEDIUNIDADE DE VIDÊNCIA NAS CRIANÇAS[1]

 



Allan Kardec

 

Um dos nossos correspondentes nos escreve de Caen:

 

Ultimamente eu estava no hotel Saint-Pierre, em Caen; tomava um copo de cerveja enquanto lia um jornal. A filhinha da casa, creio com cerca de quatro anos, estava sentada na escada e comia cerejas. Não percebia que eu a via e parecia entregue numa conversa com seres invisíveis, aos quais oferecia cerejas. Tudo o indicava: sua fisionomia, seus gestos, as inflexões da voz. Ora se virava bruscamente, dizendo: Tu, tu não as terás; não és gentil. – Eis para ti, dizia a uma outra. – Então, o que é que me atiras? Dizia a uma terceira. Dir-se-ia rodeada por outras crianças; ora se levantava, estendia as mãos, oferecendo o que tinha; ora seus olhos seguiam objetos invisíveis para mim, que a entristeciam ou a faziam dar gargalhadas. Esta pequena cena durou mais de meia hora e a conversa só terminou quando a menina percebeu que eu a observava. Sei que muitas vezes as crianças se divertem em apartes deste gênero, mas aqui era completamente diferente; a fisionomia e as maneiras refletiam impressões reais, que não eram as de um jogo representado. Eu pensava, sem dúvida, que era um médium vidente ainda verde, e me dizia que se todas as mães de família fossem iniciadas nas leis do Espiritismo, aí colheriam numerosos casos de observação e se explicariam muitos fatos que passam despercebidos, e cujo conhecimento lhes seria útil para a direção de seus filhos.

 

É lamentável que o nosso correspondente não tenha tido a ideia de interrogar essa menina sobre as pessoas com as quais ela conversava. Teria podido assegurar-se se a conversa realmente tinha ocorrido com seres invisíveis e, neste caso, daí poderia ter saído uma instrução tanto mais importante porque, sendo o nosso correspondente um espírita muito esclarecido, poderia dirigir utilmente as perguntas. Seja como for, muitos outros fatos provam que a mediunidade de vidência é muito comum, se não mesmo geral, nas crianças, e isto é providencial. Ao sair da vida espiritual, os guias da criança vêm conduzi-la ao porto de embarque para o mundo terrestre, como vêm buscá-la em seu retorno. Mostram-se a elas nos primeiros tempos, a fim de que a transição não seja muito brusca; depois se apagam pouco a pouco, à medida que a criança cresce e pode agir em virtude de seu livre-arbítrio. Então a deixam às suas próprias forças, desaparecendo aos seus olhos, mas sem a perder de vista. A filhinha em questão, em vez de ser, como pensa o nosso correspondente, um médium vidente ainda verde, bem poderia estar em seu declínio, e não mais gozar desta faculdade para o resto da vida. (Vide: Criança afetada de mutismo, publicada neste blog em 13/08/2019).

 

Allan Kardec



[1] Revista Espírita – Setembro/1866 – Allan Kardec

2 comentários:

  1. Primeira postagem sua que acompanho diretamente do seu blog, abraços fraternos

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  2. Agradeço seu comentário e a sua participação em meu blog. Aqui você terá condições de pesquisar mais de 1900 artigos já publicados, abordando diversos assuntos da Doutrina Espírita. Seus comentários serão sempre bem vindos.

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