segunda-feira, 26 de agosto de 2024

EUNICE SOUSA GABBI WEAVER[1]

 


 

Eunice Sousa Gabbi Weaver, nasceu numa fazenda de café, na cidade de São Manoel interior de São Paulo, em 19 de setembro de 1902, filha de Henrique Gabbi - carpinteiro, natural da província de Reggio Emília, Itália − e de Leopoldina Gabbi − natural de Piracicaba/SP. Sua vida foi totalmente dedicada aos portadores do mal de Hansen e suas famílias.

Era portadora de beleza particular, impressionava pela altivez sem imposição, pela decisão sem arrogância e pela simplicidade repassada de nobreza. Sua mãe, de origem suíça, falava muitas línguas, imprimia hábitos de estudo e princípios morais austeros. Eram muito amigas, e quando ela morreu moravam em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul. Foi estudar em São Paulo e, durante as férias na fazenda, ocorreu este fato.

 Começo de século, São Paulo, fazenda de café, próspera. No terreiro, vagaroso como numa procissão, vem entrando um bando em farrapos, os rostos ocultos. São mendigos, doentes, associados na miséria, no abandono da vida, que apanham agasalhos e alimentos deixados na porteira. As crianças da Casa Grande são levadas para dentro, às pressas, portas fechadas, cortinas corridas. Uma das meninas se esconde. Súbito, uma mulher abandona o grupo e aproxima-se. Há nela um vago ar aristocrático, restos de nobreza, voz serena, escondida na sombra do grande chapéu de palha, não se vê o rosto:

Sou Rosa! Mesmo que não se lembrem de mim, quero agradecer. Meus pais dizem que me suicidei, é melhor assim, seria segregada; joguei minha roupa no rio, pensaram que me afoguei. Casei-me com aquele homem. Nessa vida de cigano é melhor ser um só.

Rosa Fernandes fora uma linda jovem, filha de vizinhos, que se tornou cobiçada donzela e que a todos encantava, mas que havia, a algum tempo, desaparecido. Esta moça tinha contraído lepra nos tempos de colégio.

Nunca mais Eunice esqueceria os "Olhos de Rosa", e a partir deste episódio, começava o seu trabalho em benefício dos nossos irmãos chegados, como a Grande Servidora do Bem. Ela talvez não tenha feito nada por Rosa Fernandes, mas o fez por muitas "Rosas" que desabrochavam dos seios de hansenianos, e que por enfermidade de seus pais não podiam permanecer com eles.

Em 1927, reencontrou Charles Anderson Weaver, que havia sido seu professor de latim. Dirigia o Colégio Granbery, havia enviuvado e tratava da edição de seu livro, em São Paulo. Eunice ficou fascinada por sua cultura, inteligência, bondade e brilhantismo de ideias. Quando se casaram foram morar em Juiz de Fora, onde lecionou História e Geografia. Foi mais do que um simples matrimônio, antes um encontro de almas mutuamente dedicadas, que se reuniram para um sublime ministério de amor e solidariedade humana.

Em seguida, Dr. Weaver foi convidado pela Universidade de Nova Iorque, a dirigir uma universidade flutuante, a bordo de um luxuoso transatlântico, que faria uma longa viagem, para melhor formação de seus alunos em volta do mundo. Aceitando o honroso convite, partiu do Rio de Janeiro, acompanhado pela esposa em inesquecível cruzeiro de cultura e amor.

Eunice aproveitou para estudar jornalismo, sociologia e filosofia oriental visitando 42 países. Mais tarde, estudou na Columbia University e fez curso de Serviço Social na Universidade de Carolina do Norte (EUA).

Como repórter, trabalhou durante a viagem, viveu um dia inteiro num templo budista, foi até o Himalaia de jumento e entrevistou durante quatro horas Mahatma Ghandi, um dos fatos mais emocionantes de sua vida : Foi o homem mais próximo de Jesus Cristo que conheci.

Por onde andaram, ela procurou conhecer de perto o problema da lepra, o que em relação a ela se havia feito e o quanto restava por se fazer. Estagiou em numerosos leprosários: nas ilhas Sandrich (no Pacífico Sul), no Egito, na China, no Japão e na Índia. Em todo lugar recolhia material de experiência para o ministério redentor a que iria se entregar totalmente.

De volta ao Brasil, em Juiz de Fora, começou a fazer a campanha de assistência aos leprosos. Foi fundada a Sociedade de Assistência aos Lázaros, pois, em Minas Gerais, nesta época, o problema da lepra era terrível: o trem passava de madrugada, o vagão de segunda classe cheio de doentes encaminhados ao único leprosário em Belo Horizonte, o Santa Isabel; e ela levava à estação, roupas, cobertores e refeições. A recomendação era sempre a mesma: Dona Eunice, tome conta de nossos filhos, não os deixe passar fome, não permita que fiquem doentes com esta terrível moléstia.  Aquilo ficava em seus ouvidos. Sabia que a lepra não era hereditária, e a primeira campanha foi organizar preventório, mais tarde, transformados em educandários, com a preocupação de educar crianças sem recalques, fazendo-as participar da comunidade em condições normais.

Em 1935, com muita coragem, conseguiu convencer o Presidente Getúlio Vargas a ajudar oficialmente a obra, que lhe prometeu dar o dobro do que ela conseguisse junto a sociedade civil. Naquela época, a classe política se esquivava do assunto, pois acreditavam que a causa da lepra não daria frutos políticos. Após esse acordo, Eunice passou a viajar por todo o Brasil, lançando a campanha da Federação das Sociedades de Assistência aos Lázaros e Defesa contra a Lepra.

Uma das passagens mais interessantes durante as construções dos Educandários se deu no Amazonas. Eunice estava no canteiro de obras da futura instituição que iria abrigar os filhos dos hansenianos daquela região quando, de repente, um bando de jagunços aparece e tenta impedir a obra sob a alegação que não queriam um leprosário no local, pois na região não existia lepra. Eunice então, sugeriu ao líder dos jagunços que subissem o rio onde, em poucas horas ela lhe mostraria algum leproso, caso contrário, não construiria o Educandário. Nesse instante, pegaram um barco e subiram o rio. Após várias horas percorrendo o referido rio, nenhum leproso foi encontrado.

Os jagunços, com sua costumeira arrogância e cheios de si por terem conseguido impedir a construção do leprosário, resolveram dar a questão por encerrada. Entretanto, num determinado momento, Eunice vendo uma choupana, disse: Pare, aqui tem lepra! Ao descerem do barco concluíram que dentro da choupana havia mais de trinta leprosos. O líder dos jagunços, atônito com o fato ocorrido, abandonou as suas funções de jagunço e passou a ajudar na construção do Educandário. Surgia naquele momento o primeiro coordenador do Educandário de Manaus.

Dona Eunice Weaver esteve presente, também, em memoráveis labores assistenciais, criando e ajudando obras meritórias surgidas no Brasil, como verdadeira sacerdotisa da fraternidade. Foi a primeira mulher a receber, no Brasil, a Ordem Nacional do Mérito, no grau de Comendador, em Novembro de 1950, e também o troféu internacional "Damien-Dutton" (pela primeira vez outorgado a uma pessoa da América do Sul).

Publicou a Vida de Florence Nightingale, A Enfermeira e A História Maravilhosa da Vida.

Representou o nosso país em inúmeros congressos mundiais sobre a doença, organizou serviços contra a lepra no Paraguai, Cuba, México, Guatemala, Costa Rica e Venezuela.

Em 1960, Eunice Weaver recebeu o título de Cidadã Carioca ao completar 25 anos na direção da Federação e, em 11/09/1965, por indicação do vereador Pedro de Castro, recebeu o título de Cidadã Honorária de Juiz de Fora. Em Outubro de 1967, foi para a ONU como delegada brasileira no 12º Congresso Mundial.

Sofreu, entretanto, incompreensões e experimentou amarguras sem fim. Corajosa e arrebatada, possuía elevado caráter, que a permitiu manter-se lutando tenazmente em defesa dos seus "filhos", enfrentando dificuldades compreensíveis e situações complexas, nunca lhe faltando, porém, os auxílios da misericórdia do Senhor, e em hora alguma foi escasso o socorro do céu!

Apesar das dificuldades naturais, no mais, tudo eram felicidades e contínuas alegrias. Mas, a batalhadora Eunice Weaver perde inesperadamente o esposo, rompendo-se o elo de luz que lhe sustentava o equilíbrio no labor de consolação e de misericórdia. Na ausência do sempre solícito esposo, a jornada a sós lhe é mais difícil. Amigos leais buscaram animá-la, confortando-a e encorajando-a para a luta, mas a ausência física do idolatrado companheiro, pungia fortemente.

Entretanto, em 1959, uma de suas amigas a levou até Pedro Leopoldo para conhecer o médium Chico Xavier e, a mensagem de paz e otimismo transmitida pelo médium, lhe deu forças para continuar. Ela, agora sentia que seu marido não a abandonara. E, com garra, voltou a enfrentar todas as tarefas que a vida lhe impusera. Ora era a luta por verbas sempre escassas e difíceis, adiante, os serviços administrativos fatigantes. As viagens contínuas e exaustivas, continuavam sustentadas pelo amor, feito de renúncia pelos menos favorecidos − "Os filhos do Calvário"−, marchando em direção do amanhã ajudada por centenas de mulheres valorosas que ainda prosseguem inspiradas no seu imorredouro exemplo.

Sempre trabalhando, faleceu em 9 de Dezembro de 1969, aos 67 anos, como sempre vivera: dedicada ao próximo. Terminando de discutir compromissos com o Governo do Rio Grande do Sul, ela voltava feliz na expectativa de melhores dias para aqueles a quem considerava os seus de coração, quando foi subitamente chamada para a Vida Espiritual. Transladado seu corpo ao Rio de Janeiro, lá foi velado na Igreja Metodista e sepultada no Cemitério dos Ingleses, ao lado do seu idolatrado esposo.

Seu trabalho missionário, entretanto, cresceu e prossegue no ministério do socorro e apoio aos hansenianos e suas famílias.

Gigante como Eunice Weaver não morre; é como a vela: Se gasta no afã de servir, iluminando o caminho de alguém.

Rev. Manoel H. da Silva

 

Crônica de Vera Brant da página: http://www.verabrant.com.br/quadro01.htm



[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=629

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

MÉDIUM ALÉM DO SEU TEMPO[1]

 


 Orson Peter Carrara

 

Resgatei das páginas da RIE-Revista Internacional de Espiritismo, edição de dezembro de 2001, excelente abordagem da querida amiga Yeda Hungria. Pela excelência da pesquisa, trazemos aos amigos esse trabalho para novamente ser divulgado, pois muita gente não conhece esse caso da história mediúnica mundial. Apesar de longo, o texto merece ser lido.

Ressalte-se também que a citada publicação, fundada por Cairbar Schutel, completa seu centenário de fundação no próximo mês de fevereiro de 2025.

Intitulado EDGAR CAYCE - UM MÉDIUM ALÉM DE SEU TEMPO, reproduzo nas linhas seguintes o texto assinado por Yeda Hungria:

Edgar Cayce foi o mais notável e o mais documentado médium dos Estados Unidos. Era capaz, em transe inconsciente, de diagnosticar doenças, indicar tratamentos e responder a qualquer pergunta. Podia também identificar a aura humana e descrever as condições psicofísicas das pessoas.

Cayce nasceu em 18 de março de 1877, numa fazenda em Hopkinsville, Kentucky. Único varão de uma família com cinco filhos, desde criança exibia sensibilidade além dos cinco sentidos. Aos seis anos, contou aos pais que via e conversava com parentes falecidos; aos treze, teve uma visão que o influenciaria para sempre: apareceu-lhe o espírito de uma mulher que lhe indagou qual o seu maior desejo. Era o de ajudar a todos, sobretudo as crianças.

A partir de então, desenvolveu rara percepção. Bastava dormir sobre um livro escolar ou documento que adquiria memória fotográfica do conteúdo, podendo repetir palavra por palavra ou qualquer parte do texto.

Adolescente, deixou a escola na oitava série para ajudar no sustento da família. Com a idade de vinte anos empregou-se na livraria da cidade, quando conheceu e ficou noivo de Gertrude Evans.

No ano de 1900, foi acometido de paralisia nas cordas vocais e nos músculos da garganta, ficando completamente sem voz. A despeito dos esforços médicos este estado se prolongava por um ano. Conformara-se até em não mais poder falar, indo, por isso, trabalhar como ajudante de fotógrafo.

Àquela época, os espetáculos de hipnotismo em palcos estavam em moda e um artista de nome Hart apresentava-se na cidade. Havia testemunhado curas sob hipnose e ofereceu-se para ajudar Cayce. Na primeira sessão o paciente conseguiu falar, mas somente hipnotizado. As sessões, entretanto, foram suspensas por lhe causarem insônia.

Em 1901, um médico de Nova Iorque encorajou-o a prosseguir com as práticas de hipnose para recuperar a voz, desde que essas práticas fornecessem também o diagnóstico e o tratamento para o seu mal.

Convidou então o amigo Al Layne, hipnotista e osteopata, para colocá-lo em transe. Durante o sono revelou que a doença decorria de “uma situação psicológica produzindo um efeito físico”. Esse efeito poderia ser removido no estado de inconsciência, bastando um comando para normalizar a circulação sanguínea nas áreas afetadas. Quando Cayce despertou, achava-se completamente curado.

Foi a primeira das milhares de leituras – assim chamadas as respostas - produzidas ao longo de sua produtiva existência.

Cayce descreveu o mecanismo de recepção da leitura. Ao iniciar, afrouxava as roupas e deitava-se no sofá em seu escritório. Mãos sobre a testa, “na região do terceiro olho” (plexo frontal), punha-se em meditação. Aguardava poucos minutos, até identificar uma luz branca, algumas vezes tendendo para dourado (quando não a via, não conseguia fornecer a leitura). As mãos iam ao plexo solar, a respiração tornava-se profunda e rítmica por breves instantes. Os olhos fechados começavam a piscar e se abriam lentamente. O acompanhante sabia, então, que ele estava pronto para iniciar a leitura. Se ela se referisse à saúde, lhe bastavam apenas o nome e o endereço do consulente. Ele repetia-os vagarosamente até o paciente ser localizado, quando iniciava a descrição dos sintomas. Em seguida, expunha o diagnóstico e o tratamento. Cayce mantinha-se em total estado de inconsciência durante o processo.

Um médico homeopata, o dr. Wesley Ketchum, recém-chegado à cidade, quis testar-lhe os talentos e procurou-o para confirmar sua apendicite. A leitura, no entanto, revelou resultado completamente diferente. Cético, o dr. Ketchum recorreu a um colega, mas para sua surpresa, a informação do sensitivo estava correta. O homeopata passou a solicitar-lhe diagnósticos para seus casos difíceis...

No mês de junho de 1903 Cayce casou-se com Gertrude Evans, e quatro anos depois nasceu-lhes Hugh Lynn.

A este, seguiu-se Milton Porter, em 1911, apresentando graves problemas de saúde. A revelação da leitura que a doença era fatal transtornou-lhes a vida.

Após a desencarnação do filho, Gertrude foi acometida de tuberculose, sem possibilidade terapêutica, segundo os médicos. Cayce, orientado pelas leituras, preparou-lhe uma mistura de ervas e alopáticos. Decorridos dois dias, ela sentia-se melhor. Ao cabo de cinco meses curara-se completamente.

Em 1912, o dr. Hugo Münsterberg, da Universidade de Harvard, pesquisou o trabalho de Cayce com o intuito de descobrir fraude. Concluída a investigação, o clínico estava convencido da autenticidade e da eficácia das recomendações das leituras.

Cayce obteve emprego como fotógrafo no Alabama e no ano seguinte comprou o estúdio onde trabalhava.

A quietude da vida lhe durou pouco. O filho Hugh Lynn, atingido no rosto pela explosão de um ‘flash’ no estúdio, teve os olhos gravemente queimados. Devido à extensão da lesão, os médicos recomendaram a retirada do olho direito. A leitura, entretanto, informou que a cirurgia era desnecessária, porquanto a visão estava preservada. Foi indicada uma medicação associada à prescrita pelos clínicos, repouso total no escuro, olhos vendados durante duas semanas. Retirada a oclusão, Hugh Lynn voltou a enxergar normalmente. Os jornais divulgaram mais essa cura.  A fama de Cayce aumentava e dezenas de pessoas começavam a procurá-lo.

Devido ao crescente volume de leituras, foi admitida, em 1923, a secretária Gladys Davis para estenografá-las.

De 1901 a 1923 as comunicações limitaram-se a diagnósticos e tratamentos de doenças. Desde então passaram a abordar temas diversos, como reencarnação, embora isso parecesse estranho à fé religiosa de Cayce. Após minucioso estudo e interpretação da Bíblia – seu livro de cabeceira – convenceu-se de que a ideia das vidas sucessivas não era incompatível com o Cristianismo.

Tais comunicações, chamadas de leituras da Vida, abordavam existências passadas, espiritualidade, meditação, virtudes, leis naturais, civilizações antigas, filosofia, psicologia, história, profecias, relações humanas, os anos desconhecidos da vida de Jesus, e outros.

A reencarnação é apresentada como necessária ao aprimoramento do espírito, e a causa das enfermidades encontra-se nas agressões às leis divinas em nosso passado milenar.

O crescimento espiritual era tema constante nas leituras. Enfatizava que somos seres espirituais, ligados a um corpo físico a fim de aprender, evolver e compreender nossa verdadeira relação com Deus. Para atingir esse crescimento devemos exercer a bondade, a tolerância, a paciência, o amor enfim. A meditação e a prece eram descritas como práticas para aquietar a mente e relaxar o corpo, focando a atenção para o nosso íntimo em busca da autoanálise e da correção de rumo.

Esses registros proporcionaram fascinante visão de algumas antigas civilizações. As duas mais notáveis eram as da Atlântida e do Egito. Segundo Cayce, muitas das tecnologias contemporâneas a ele eram, na verdade, a redescoberta de conhecimentos e informações dos atlantes. Alguns deles, prevendo a destruição do continente, emigraram para o Egito, que se tornou líder em programas sociais e de transformação pessoal.

A par da sua fama nacional surgiam céticos para tentar apontar fraudes, mas acabavam por se render à evidência das leituras. Um deles, Thomas Sugrue, convencido da realidade e da importância daquele trabalho, culminou por lançar uma das melhores biografias do médium – There is a River – publicada em 1943, quando ainda vivia o biografado.

 A despeito dos avisos para serem dadas somente duas leituras por dia, a fim de preservar a saúde, Cayce produzia até oito delas. Sentia-se na obrigação de atender a todos que lhe pediam ajuda.

No início de 1944 apresentava sinais de cansaço. No mês de setembro, acometido de exaustão, recebeu o último aviso para que repousasse até o final de seus dias. Decorrido pouco tempo, um derrame cerebral deixou-o parcialmente imobilizado.

Retornou ao Mundo da Luz, aos 67 anos, em 3 de janeiro de 1945, dois dias após o previsto por ele. Três meses depois seguiu-lhe a devotada esposa.

Cayce produziu 14.256 leituras ao longo de 43 anos de intensa atividade dedicada ao esclarecimento e ao alívio do sofrimento físico de mais de 10.000 pessoas. Jamais reivindicou qualquer privilégio por seu trabalho nem se considerava um profeta. Suas leituras não pregavam a aceitação de uma nova crença religiosa, apenas convidavam a experimentar os princípios nelas expostos.

Sem o conhecimento espírita, que lhe daria outra visão do fenômeno, as leituras para ele emanavam do subconsciente do consulente e dos arquivos acásicos – fonte etérica constituída dos pensamentos, palavras e ações produzidas na Terra.

Homem profundamente espiritualizado, dizia que buscava sintonizar com a vontade de Deus recorrendo constantemente à oração e doando-se ao próximo. 

Nunca foi tão atual e profética sua afirmação em 1932: A Terra passa por um momento em que as pessoas procuram em toda parte saber mais acerca dos mistérios da mente e da alma.

Interessante é a identidade de princípios entre aspectos do ideário das leituras e os postulados da Doutrina Espírita, prova incontestável da universalidade dos ensinos dos Seres de Luz...

Claudeen Cowell, da Associação para a Pesquisa e o Conhecimento, onde se encontra depositado o acervo de Cayce, declarou-nos que seus seguidores não o consideram um médium e sim um “canal que se comunicava com os planos divinos”.

Para nós, espíritas, no entanto, não resta qualquer dúvida quanto à atuação medianímica de Edgar Cayce nas abençoadas leituras, as quais entendemos como mensagens dos Benfeitores Espirituais.

 

ASSOCIAÇÃO PARA A PESQUISA E O CONHECIMENTO

 

Nasceu da realização de antigo sonho de Edgar Cayce de construir um hospital capaz de fornecer os tratamentos indicados pelas leituras e de proporcionar ajuda espiritual aos pacientes.

A cidade balneária de Virginia Beach, no Estado da Virginia, foi o local recomendado, para onde Cayce mudou-se em setembro de 1925 com a família e a secretária Gladys Davis.

Após mal sucedida tentativa com alguns sócios, alheios à natureza da sua missão, um empresário de Nova Iorque, Morton Blumenthal, apresentou-se para financiar a obra.

Localizado em suave elevação, com vista para o Oceano Atlântico, o Hospital Cayce foi inaugurado em novembro de 1928. Médicos e técnicos qualificados produziam os medicamentos, conforme as orientações das leituras, para os pacientes que vinham de todo o país.

A despeito do sucesso inicial, o hospital acabou por sofrer o impacto das crises causadas pela quebra da Bolsa americana e pela depressão econômica resultante. Sem suporte financeiro encerrou as atividades em fevereiro de 1931.

Em junho do mesmo ano, Cayce e um grupo de amigos fundaram a Associação para a Pesquisa e o Conhecimento nas terras do antigo hospital. Foi criada como uma organização sem fins lucrativos para preservar, pesquisar e oferecer ao público os ensinos contidos nas leituras, entre eles, saúde holística, percepção extra-sensorial, vida após a morte, espiritualização do homem, desenvolvimento do potencial psíquico, e outros. Até hoje esses ideais são perseguidos.

A Associação está localizada na rua 67, número 215. Ocupa um amplo e moderno edifício com três pavimentos e confortáveis instalações. Ao nível da rua, o estacionamento de veículos; à esquerda, repousante e acolhedor bosque – o Jardim da Meditação - oferece momentos de silêncio e reflexão. Mais além, o prédio do histórico hospital abriga o setor administrativo, a Escola Cayce/Reilly de Massoterapia com diversos cursos e os serviços de saúde baseados nas leituras.

O Centro de Visitantes, no primeiro andar da Associação, dispõe de recepção, salão de conferências e livraria com títulos sobre metafísica, saúde holística e os relacionados com as respostas de Cayce. Oferece também artigos para presentes, calendários, fitas de vídeo e medicamentos produzidos segundo as leituras. Ainda no saguão, elevador e escada conduzem aos pavimentos superiores.

No segundo andar funcionam diversos cursos e uma grande biblioteca onde se encontram as leituras. A preservação delas se deve à dedicação e à competência da secretária Gladys Davis que as classificou e catalogou, após a morte do médium, durante 26 anos, tornando-as acessíveis à consulta.

A biblioteca abriga ainda coleções de obras sobre metafísica, incluindo saúde holística, psicologia, parapsicologia, religião comparada, reencarnação etc.

Para nossa surpresa, encontramos exemplares de O Livro dos Espíritos e O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec, em espanhol, e O Homem dos Milagres (biografia de Cayce), A Voz do Antigo Egito, de F.V. Lorenz e Projeciologia, de Waldo Vieira, todos em português.

No terceiro andar, um salão exclusivo para meditação, transmite indescritível sensação de paz e elevação, resultantes da psicosfera moldada pelos frequentadores. Na parede frontal, amplo terraço descortina exuberante panorama do Atlântico. À esquerda, artístico vitral filtra em belas nuanças a luz do poente.  Na parede oposta, expressivo óleo de George Inness Jr. – “Viagem para o Egito” - adotado por Cayce como símbolo para meditação e, ao lado, em suaves tintas, a excelsa figura do Divino Mestre. Outras telas favorecem a reflexão e a harmonia interior.

O ingresso nesse ambiente nos foi permitido pela administração que, desde o início de nossa visitação, ao declararmos nosso interesse e objetivo, mostrou-se extremamente cooperativa, destacando funcionárias para nos assessorar.

Também em Virginia Beach funcionam a Universidade Atlântica, com mestrado em estudos transpessoais; Instituto Edgar Cayce para Estudos Intuitivos, dirigido ao desenvolvimento do potencial psíquico; Programas para Jovens e Famílias, voltados para a dinâmica educacional; Programa para Procura de Deus e Crescimento Espiritual, fórum onde se discute o conteúdo das leituras e sua aplicação; Serviços de Preces, constituído de grupos dedicados à oração e o Programa Além da Prisão, de apoio espiritual aos internos, ajudando-os a entender suas realidades. Fornece também livros edificantes para bibliotecas de estabelecimentos prisionais.

Após a desencarnação de Edgar Cayce, o primogênito Hugh Lynn conduziu com sucesso os destinos da Associação, dinamizando e expandindo mundialmente suas atividades.

Dirigida por Charles Thomas Cayce, neto do fundador, é uma organização atuante e dinâmica, empenhada integralmente na construção do homem espiritual, voltado para a exteriorização dos mais puros e nobres sentimentos.

Edgar Cayce, por sua vida e obra, foi realmente um médium muito além do seu tempo”.



[1] O CONSOLADOR - Ano 18 - N° 880 - 14 de Julho de 2024 - https://www.oconsolador.com.br/ano18/880/especial.html

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

FOGO ETERNO[1]

 


Miramez

 

Donde procede a doutrina do fogo eterno?

- Imagem, semelhante a tantas outras, tomada como realidade.

 

Mas, o temor desse fogo não produzirá bom resultado?

- Vede se serve de freio, mesmo entre os que o ensinam. Se ensinardes coisas que mais tarde a razão venha a repelir, causareis uma impressão que não será duradoura, nem salutar.

Impotente para, na sua linguagem, definir a natureza daqueles sofrimentos, o homem não encontrou comparação mais enérgica do que a do fogo, pois, para ele, o fogo é o tipo do mais cruel suplício e o símbolo da ação mais violenta. Por isso é que a crença no fogo eterno data da mais remota antiguidade, tendo-a os povos modernos herdado dos mais antigos. Por isso também é que o homem diz, em sua linguagem figurada: o fogo das paixões; abrasar de amor, de ciúme etc.

Questão 974 / O Livro dos Espíritos

                                                                          

A ignorância fez o homem menos instruído crer que poderia pagar suas faltas no fogo espiritual, ao qual se deu o nome que faz tremer a tantos: inferno. Mais tarde, os mais espiritualizados passaram a descobrir que esse inferno existe mesmo, porém, que com mais intensidade, dentro das criaturas, na condenação da própria consciência. Entretanto, ele é transitório, e não eterno. Eterno, somente o amor.

Nos caminhos que a alma deve percorrer, existe de tudo que se pode imaginar, e muito mais. A narrativas dos lugares infernais, que os teólogos descrevem, passam a ser céu, se buscarmos a realidade do que verdadeiramente existe em zonas inferiores; no entanto, não devemos mencionar esses ambientes, para não levar os homens a criarem imagens negativas que lhes poderão trazer mais inquietações espirituais.

A criação do fogo do inferno parece que serviu para amedrontar certos tipos de Espíritos que, não sendo pelo temor, poderiam fazer coisas piores. Porém, generalizaram em demasia essas imagens, de modo que o fantasma foi contra os seus criadores e alimentadores desta mentira do terror. As opiniões são diversas sobre a validade da criação do "fogo do inferno", realimentada pelo Catolicismo Romano. Uns dizem que foi benéfica, outros que foi destruidora. O próprio O Livro dos Espíritos, em perguntas e respostas anteriores, nos informa que tudo tem uma razão de ser; sendo assim, nada se perde e os benfeitores da espiritualidade têm a capacidade de transformar tudo em bênçãos de luz para a libertação das criaturas.

Eis que estamos em frente à época de transformações, e o próprio Espiritismo é esse progresso, mudando situações e ampliando condições, no sentido de que as almas dos dois planos se conscientizem da verdade mais acentuada. Os que foram condenados ao "fogo do inferno" estão de volta dizendo a verdade, e os que condenaram esta ilusão igualmente voltaram para falar das verdades eternas, já conscientizados destas verdades, pela realidade que encontraram ao desencarnar. Dentre eles, alguns estão entre aqueles que deixaram profundas mensagens em O Evangelho Segundo o Espiritismo.

Se assim podemos dizer, falamos que o "fogo do inferno" está na consciência, mas que ninguém, Espírito algum ", ficará eternamente sofrendo. Se o Espírito foi criado simples e ignorante, haverá de passar por todas as provações, expiando seus erros e sofrendo as conseqüências dos seus atos; no entanto, os maiores da espiritualidade, que dirigem a Terra, também passaram por esses caminhos, neste ou em outros mundos. Todos somos iguais, em tudo o de que precisamos para nos libertar.

Não somente o "fogo do inferno" é imagem ilusória, mas milhares de outras, e o tempo irá mostrar a verdadeira realidade. O Espírito recebe o que deve e pode suportar. O estudioso da História Universal pode verificar quantas mentiras caíram com o tempo. A astronomia moderna pode confirmar o que falamos. Quantas teorias caíram com o progresso!

Não precisas te apegar somente à questão do "fogo do inferno"; as mentiras, por vezes, e se podemos assim dizer, formam plataforma para que a verdade possa aparecer, e mesmo ela surgindo, é na relatividade que os corações possam suportar. Por quanto tempo os sábios afirmaram que a Terra era sustentada por quatro elefantes? A própria medicina, quantos consertos não vem dando às suas teorias?

Não é somente o "fogo do inferno" que constitui ilusão; no fundo, em tudo que se fala existe algo de verdade, embrulhado nas letras que se escrevem. O fogo existe, fora e dentro das almas que alimentam pensamentos errôneos e desrespeitam às leis naturais criadas por Deus.

Se queres, leitor amigo, salvar-te deste fogo, que por vezes se encontra mais próximo do que pensas, lembra-te desta asserção do Evangelho:

Honra o teu pai e a tua mãe e amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Mateus, 19:19

A tua mente, com este exercício, passará a abrir as portas do conhecimento de Deus e das Suas leis, que nos dirigem a todos. Quem obedece a esses preceitos do Evangelho, destrói o inferno íntimo, e no lugar desse fogo surgirá a luz que alimenta a vida pelos processos do amor.



[1] Espírita Filosofia – Volume 20 – João Nunes Maia

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

MARTA LORENZ (caso de reencarnação)[1]

 

Rio Grande do Sul - Brasil

K.M. Wehrstein

 

Neste caso de reencarnação brasileira, uma criança relembrou a vida de uma pessoa que cometeu suicídio, tendo prometido retornar como filha de uma amiga próxima, que de fato gerou a criança com as memórias. A maioria de suas muitas declarações foi perdida, mas o suficiente foi registrado para tornar este um caso rico.

 

Crença na Reencarnação no Brasil

O pesquisador pioneiro em reencarnação Ian Stevenson observa que o Brasil provavelmente tem a crença mais forte na reencarnação de todas as nações ocidentais, graças à dupla influência do animismo africano e do espiritismo francês, fundado por Allan Kardec no século XIX. Nesse clima, ele observa, os pais tendem a aceitar crianças que se lembram de vidas passadas. Veja aqui mais informações sobre casos de reencarnação no Brasil[2].

 

Sinhá de Oliveira

Maria Januária de Oliveiro, mais conhecida como Sinhá ou Sinhazinha, nasceu por volta de 1890, filha de um próspero fazendeiro na província mais ao sul do Brasil. Ela supostamente amava a vida rural, mas também gostava de visitar sua amiga Ida Lorenz, esposa do professor Francisco Lorenz, na aldeia vizinha de Dom Feliciano.

Sinhá se apaixonou duas vezes por homens que seu pai desaprovava, o segundo dos quais cometeu suicídio quando foi impedido de se casar com ela. Ela mesma ficou deprimida e suicida, tentando pegar um resfriado saindo vestida de forma inadequada no frio. Uma infecção na laringe se espalhou para seus pulmões, transformando-se em tuberculose, da qual ela morreu.

Em seu leito de morte, Sinhá disse a Ida Lorenz que queria morrer, mas prometeu a Ida que ela renasceria como sua filha. Ela disse:

Quando renascer e em uma idade em que eu puder falar sobre o mistério do renascimento no corpo da garotinha que será sua filha, eu contarei muitas coisas da minha vida presente, e assim você reconhecerá a verdade[3].

Sinhá morreu em outubro de 1917 aos 28 anos.

 

Marta Lorenz

Cerca de dez meses depois, em 14 de agosto de 1918, Marta nasceu de Ida Lorenz. De acordo com um relato publicado por seu pai, Francisco Lorenz, ela mencionou sua vida passada pela primeira vez para sua irmã mais velha, Lola, quando pediu para ser carregada nas costas de Lola. "Quando eu era grande e você era pequena", ela disse, "eu costumava carregá-la com frequência[4]".

Lorenz registrou cerca de 120 declarações separadas feitas por Marta sobre a vida de Sinhá e reconhecimentos de pessoas conhecidas por Sinhá. Se tivessem sido preservadas, teriam tornado o caso o mais bem documentado existente, mas Lorenz as registrou em taquigrafia e elas foram involuntariamente descartadas por um membro da família que não as reconheceu pelo que eram. O relato de Lorenz, baseado na memória, foi publicado por ele como parte de um livro de 1946 sobre um caso de aparente xenoglossia egípcia[5]. Neste relato, ele omitiu muitos itens lembrados por outros membros da família.

 

Investigação

Lorenz faleceu em 1957, mas seu filho Waldomiro Lorenz continuou interessado no caso de Marta e no de seu irmão mais novo, Paulo Lorenz. Waldomiro coletou depoimentos de Marta que foram lembrados por outros membros da família antes de 1962, quando Stevenson visitou o Brasil. Stevenson soube de ambos os casos por meio de correspondência com Waldomiro.

Stevenson passou cinco dias investigando os casos de Marta e Paulo. Seu português era suficiente para entender as respostas, mas ele também usou dois intérpretes, um dos quais era Waldomiro Lorenz. Ele entrevistou Marta, agora com 44 anos, bem como três de seus irmãos, três irmãs e duas irmãs adotivas, todos os quais tinham sido crianças mais velhas ou jovens adultos quando Marta era pequena. Ele também entrevistou uma irmã sobrevivente de Sinhá.

Nos anos seguintes, Stevenson correspondeu-se com Waldomiro, particularmente sobre o suicídio do irmão mais novo dele e de Marta, Paulo. Em 1972, Stevenson viajou ao Brasil e visitou Marta para uma nova entrevista.

Stevenson publicou o caso de Marta Lorenz em seu livro Vinte casos sugestivos de reencarnação[6] .

 

Declarações e Reconhecimentos

Stevenson tabula 28 declarações e reconhecimentos da primeira infância de Marta que foram verificados por parentes da vida atual e de vidas passadas. Uma amostragem:

§  Na casa de Sinhá havia vacas, bois, laranjas e 'cabras que não eram cabras' (ela disse isso aos dois anos e meio, antes de saber a palavra 'ovelha').

§  Os nomes dela eram Sinhá, Maria e mais uma (quando perguntaram "Era Januária?" ela respondeu "sim").

§  O pai de Sinhá era mais velho do que o de Marta agora; tinha barba e falava de modo áspero (ela conseguia imitá-lo bem).

§  Reconhecimento do pai de Sinhá, acariciando sua barba e dizendo 'Olá, papai', quando ela tinha menos de um ano de idade.

§  O pai de Sinhá tinha uma cozinheira negra e um criado negro em quem batia, e Sinhá certa vez tentou intervir quando o menino gritou por socorro.

§  Reconhecimento de um dos namorados com quem o pai de Sinhá a proibiu de se casar.

§  Quando Ida Lorenz vinha visitá-la, Sinhá fazia café e esperava na frente da casa, tocando um fonógrafo que ela colocava em uma pedra para recebê-la.

§  Ela descreveu a maneira débil de falar de Sinhá quando ela estava prestes a morrer (conhecida apenas por Ida Lorenz).

§  Sinhá havia contraído sua doença fatal durante uma viagem a uma cidade onde havia muitos mascarados (o pai de Marta verificou que era para Pelotas, na época do Carnaval); no caminho para casa, a família foi pega por uma forte chuva e teve que passar a noite em uma casa velha.

§  Reconhecimento de Francisca de Oliveira como prima e afilhada de Sinhá.

§  Sinhá tinha um cavalo branco que era chamado de 'barroso' (cor de barro).

§  Sinhá tinha um gato branco.

§  Sinhá havia dado a Carlos Lorenz, seu afilhado, duas vacas antes de morrer; ambas deram à luz bezerros depois de sua morte e antes do nascimento de Marta (uma aparente lembrança de intervalo).

§  O funeral de Sinhá contou com a presença de muitas pessoas negras, mas poucas mulheres brancas, incluindo Ida Lorenz, que se afastaram por medo de contrair tuberculose, e o pai de Marta compareceu ao funeral de Sinhá (outras aparentes lembranças do intervalo).

§  Reconhecimento de um relógio na casa do pai de Sinhá, que segundo ela tinha seu nome completo gravado na parte de trás (o que estava correto).

Stevenson observou que, embora as duas famílias se conhecessem, e a mãe de Marta fosse muito próxima de Sinhá, alguns dos fatos que Marta deu eram desconhecidos para seu pai, como Sinhá tentando impedir que seu pai batesse no criado, e a chuva forte que forçou a família a buscar abrigo após a visita a Pelotas. Outros, como o relógio com seu nome, eram desconhecidos para qualquer pessoa na família Lorenz.

 

Comportamentos

Marta demonstrou muitos comportamentos relacionados a vidas passadas . Quando criança, ela frequentemente pedia para ser levada à casa de Sinhá. Seu pai não a levou até que ela tivesse doze anos e não falasse mais espontaneamente sobre sua vida passada, tendo cessado entre as idades de sete e dez anos.

Marta, escreve Stevenson, identificou-se completamente como Sinhá, 'ao longo de uma linha de desenvolvimento contínuo, não como uma substituição para sua identidade como Marta[7]'. Ela geralmente prefaciava suas memórias com 'quando eu era Sinhá', ou 'quando eu era grande'. Ela ficava brava se alguém maltratasse seu irmão Carlos, porque ele tinha sido o favorito de Sinhá, e afilhado de Sinhá. A identificação não diminuiu conforme ela cresceu. Como adulta, ela ansiava por um reencontro com Florinzho, o homem que havia cometido suicídio quando não pôde se casar com ela.

Ela também estava profundamente ciente da continuidade da identidade de vida para vida. Quando criança, ela contradisse uma pessoa que disse que os mortos nunca retornam. Para outra, ela declarou que os mortos não ficam em seus túmulos.

Os associados de Marta notaram uma similaridade entre sua caligrafia e a de Sinhá, embora isso nunca tenha sido avaliado de forma independente. Observações de semelhança facial foram amplamente descartadas por Stevenson, já que todos os observadores sabiam sobre a aparente reencarnação. Ele deu crédito a apenas uma alegação desse tipo: uma mulher idosa, uma serva da família Oliviero, com quem Marta nunca havia discutido suas memórias, declarou: "Essa garota se parece com Sinhá."

Marta sofria de doenças físicas que afetavam particularmente sua laringe e que tinham semelhança com a morte de Sinhá por tuberculose. Antes dos dez anos, ela contraiu infecções respiratórias superiores frequentes, fazendo com que sua voz se tornasse áspera. Ela se lembrava de que isso acontecia cerca de uma vez por mês, causando rouquidão e dor de garganta. Nessas ocasiões, ela se sentia grande em seu corpo e acreditava que morreria, a doença aparentemente desencadeando associações de vidas passadas.

Testemunhas que conheceram Sinhá e Marta observaram semelhanças de personalidade, como gosto por gatos, amor pela dança, medo da chuva (que a própria Marta disse ter herdado) e uma forte fobia de sangue.

 

PERCEPÇÃO EXTRASSENSORIAL

Tanto Sinhá quanto Marta eram conhecidas por terem poderes incomuns de percepção extrassensorial (PES). Sinhá demonstrou precognição de forma mais impressionante quando, como acontecia frequentemente, anunciou que sua amiga Ida Lorenz viria visitá-la com antecedência.

Dois irmãos de Marta lembraram que ela tinha clarividência suficiente para saber o título de um livro que lhe deram antes de desembrulhá-lo. Aos cinco ou seis anos, Marta teve uma visão noturna de uma menina chamada Celica, que tinha sido uma amiga próxima ou parente de Sinhá, chamando-a, 'Sinhá, Sinhá'. O pai de Marta anotou a hora e descobriu que correspondia precisamente à hora da morte de uma menina chamada Celica que vivia a cerca de quinze milhas de distância, uma impressão de crise aparente , já que nem Marta nem ninguém ao seu redor tinha qualquer maneira de saber sobre sua morte naquela época por meios normais.

Curiosamente, como Stevenson relata em outra obra, Sinhá teria se manifestado como um espírito depois que Marta nasceu. Enquanto ela ainda era uma criança, antes de qualquer menção de sua parte sobre uma vida passada, uma tentativa de contato com Sinhá foi feita por meio de um médium. Os presentes testemunharam que Sinhá se comunicou concisamente: 'Não me chame. Eu reencarnei![8]' 

Stevenson observa que as claras habilidades de PES de Marta levantam a possibilidade de que ela tenha obtido seu conhecimento aparente de vidas passadas lendo psiquicamente os pensamentos de outros. No entanto, ele observa que a PES não explicaria o grau e a persistência, muitas vezes ao longo de muitos anos, de identificação com outra pessoa demonstrada em casos como o de Marta[9], nem as habilidades especializadas que aparentemente são transferidas para alguns casos de reencarnação (embora o caso de Paulo Lorenz demonstre isso melhor do que o de Marta)[10].

Além disso, Stevenson argumenta em Twenty Cases, que a PES como explicação para casos aparentes de reencarnação não explica as experiências de crianças que, diferentemente de Marta, não mostram nenhuma outra evidência de habilidade de PES. Ele argumenta que não há motivo aparente para pessoas que aparentemente se lembram de uma vida passada sustentarem a identificação por um longo período de tempo, e que, fora dos casos de reencarnação, não há evidências que sugiram que os pais são capazes de impor psiquicamente uma identidade alternativa a uma criança. Finalmente, ele observa que em muitos casos ricos de reencarnação, as famílias atuais e anteriores não tinham associação ou conhecimento uma da outra antes da criança dar declarações precisas, tornando uma explicação de PES duvidosa[11].

 

Desenvolvimento posterior

Em 1972, Stevenson soube por Marta que o estado de suas memórias de vidas passadas não havia mudado muito nos dez anos desde que ele a vira pela última vez. Ele chegou a sentir que ela ainda se lembrava de mais do que ele havia pensado anteriormente. Ela parecia se lembrar particularmente bem de detalhes associados a Florinzho, seu último amor, com quem ela havia efetivamente realizado um suicídio duplo. Seus dois primeiros filhos morreram na infância, e ela acreditava que ambos tinham sido tentativas de reencarnação de Florinzho, a partir de sua observação de que as marcas de nascença em suas cabeças correspondiam às que ele tinha.

Ela continuou a pensar em si mesma como Sinhá e Marta, e manteve os mesmos traços de personalidade e problemas de saúde. Ela tinha ataques de bronquite cerca de quatro vezes por ano, perdendo a voz a cada vez. Stevenson chama essa suscetibilidade de 'uma espécie de “marca de nascença interna” relacionada à vida e à morte anteriores[12]'.

Marta ficou tão perturbada com o suicídio de seu irmão Paulo em 1966 que ficou internada por mais de três semanas, e não havia se recuperado totalmente quando Stevenson visitou o local em 1972. Em 1969, ela perdeu Carlos, afilhado de Sinhá, e ainda chorava ao se lembrar dele três anos depois.

Marta revelou a Stevenson que ainda mantinha algo da tendência suicida de Sinhá; ela nunca havia realmente tentado, mas admitiu que muitas vezes desejou morrer e que poderia ter se matado algumas vezes se tivesse uma arma.

Agora de meia-idade, ela sentia que sua vida anterior e atual eram aproximadamente iguais em grau de felicidade. O próprio Stevenson observou que Marta Lorenz desfrutava de uma bênção que lhe fora negada em sua vida anterior: um marido amoroso.

 

Literatura

§  Lorenz, F.V. (1946). A Voz de Antigo Egito. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira.

§  Stevenson, I. (1974). Twenty Cases Suggestive of Reincarnation (2nd ed., rev.). Charlottesville, Virginia, USA: University Press of Virginia.

§  Stevenson, I. (1980). Cases of the Reincarnation Type. Vol. III: Twelve Cases in Lebanon and Turkey. Charlottesville, Virginia, USA: University Press of Virginia.

§  Stevenson, I (1997). Reincarnation and Biology: A Contribution to the Etiology of Birthmarks and Birth Defects. Volume 1: Birthmarks. Westport, Connecticut, USA: Praeger.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Stevenson (1974), 181-82.

[3] Stevenson (1974), 183.

[4] Lorenz (1946) citado por Stevenson (1974), 184.

[5] Lorenz (1946). Veja Stevenson (1974), 183 n4.

[6] Stevenson (1974), 181-203. Todas as informações neste artigo são extraídas desta fonte, exceto quando indicado de outra forma.

[7] Stevenson (1974), 187.

[8] Stevenson (1980), 256.

[9] Veja Stevenson (1974), 357-61.

[10] Veja Stevenson (1974), 372.

[11] Veja Stevenson (1974), 372-73 para o resumo das objeções à PES como uma explicação que ele havia desenvolvido até então.

[12] Stevenson (1974), 201.

terça-feira, 20 de agosto de 2024

SR. HOME – 3[1]

 


Allan Kardec

 

(Terceiro artigo – Vide os números de fevereiro e março de 1858)

 

Não é de nosso conhecimento que o Sr. Home tenha feito aparecer, pelo menos visivelmente a todos, outras partes do corpo além das mãos. Cita-se, entretanto, um general, morto na Criméia, que teria aparecido à sua viúva e visível somente a ela; mas não pudemos constatar a realidade do fato, sobretudo no que diz respeito à intervenção do Sr. Home em tal circunstância. Limitar-nos-emos apenas àquilo que pudermos afirmar. Por que mãos, de preferência a pés ou a uma cabeça? É o que não sabemos e ele próprio ignora. Interrogados a respeito, os Espíritos responderam que outros médiuns poderiam fazer aparecer o corpo inteiro; aliás, não é isso o ponto mais importante; se só as mãos aparecem, as demais partes do corpo não são menos evidentes, como se verá dentro em pouco.

A aparição de uma mão geralmente se manifesta, em primeiro lugar, sob a toalha da mesa, através de ondulações produzidas ao percorrer toda a sua superfície; depois se mostra à borda da toalha, que ela levanta; algumas vezes vem postar-se sobre a toalha, bem no meio da mesa; frequentemente, toma um objeto e o leva para baixo da toalha. Essa mão, visível para todo o mundo, não é vaporosa, nem translúcida; tem a cor e a opacidade naturais; no punho, termina de maneira vaga, mal definida; se é tocada com precaução, confiança e sem segunda intenção hostil, oferece a resistência, a solidez e a impressão de uma mão viva; seu calor é suave, úmido e comparável ao de um pombo morto há cerca de meia hora. Não é de forma alguma inerte, porquanto age, presta-se aos movimentos que se lhe imprime, ou resiste, acaricia-vos ou vos aperta. Se, ao contrário, quiserdes pegá-la bruscamente e de surpresa, somente encontrareis o vazio. Uma testemunha ocular narrou-nos o seguinte fato que com ela se passou. Tinha entre os dedos uma campainha de mesa; uma mão, a princípio invisível, pouco depois perfeitamente visível, veio pegá-la, fazendo esforços para arrancá-la; não o tendo conseguido, passou por cima para fazê-la escorregar; o esforço da tração era muito sensível, qual se fora mão humana. Tendo querido segurar violentamente essa mão, a sua só encontrou o ar; havendo retirado os dedos, a campainha ficou suspensa no espaço e veio pousar lentamente no assoalho.

Algumas vezes há várias mãos. A mesma testemunha contou-nos o fato que se segue. Várias pessoas estavam reunidas em torno de uma dessas mesas de sala de jantar que se separam em duas. Golpes são batidos; a mesa se agita, abre-se por si mesma e, através da fenda, aparecem três mãos, uma de tamanho natural, muito grande outra, e uma terceira completamente felpuda; toca-se nelas, apalpa-se-lhes, elas vos apertam a mão, depois se esvanecem. Na casa de um de nossos amigos, que havia perdido um filho de tenra idade, é a mão de um recém-nascido que aparece; todos a podem ver e tocar; essa criança acomoda-se no colo da mãe, que sente distintamente a impressão de todo o seu corpo sobre os joelhos.

Frequentemente, a mão vem pousar sobre vós. Então a vedes ou, se não o conseguis, percebeis a pressão de seus dedos; algumas vezes ela vos acaricia, em outras vos belisca até provocar dor. Na presença de várias pessoas, o Sr. Home sentiu que lhe pegavam o pulso, e os assistentes puderam ver-lhe a pele puxada.

Um instante depois ele sentiu que o mordiam e a marca da impressão de dois dentes ficou visivelmente assinalada durante mais de uma hora.

A mão que aparece também pode escrever. Algumas vezes ela se coloca no meio da mesa, pega o lápis e traça letras sobre um papel especialmente colocado para esse fim. Na maioria das vezes leva o papel para debaixo da mesa e o traz de volta todo escrito. Se a mão permanece invisível, a escrita parece produzir-se por si mesma. Obtêm-se, por esse meio, respostas às diversas perguntas que se quer fazer.

Um outro gênero de manifestações não menos notável, mas que se explica pelo que acabamos de dizer, é o dos instrumentos de música que tocam sozinhos. Em geral são pianos ou acordeões.

Nessas circunstâncias, vê-se distintamente as teclas se agitarem e o fole mover-se. A mão que toca ora é visível, ora invisível; a ária que se ouve pode ser conhecida e executada a pedido de alguém. Se o artista invisível é deixado à vontade, produz acordes harmoniosos, cujo efeito lembra a vaga e suave melodia da harpa eólica. Na residência de um de nossos assinantes, onde tais fenômenos se produziram muitas vezes, o Espírito que assim se manifestava era o de um rapaz, falecido há algum tempo, amigo da família e que, quando vivo, possuía notável talento como músico; a natureza das árias que preferia tocar não deixava nenhuma dúvida quanto à sua identidade às pessoas que o haviam conhecido.

O fato mais extraordinário desse gênero de manifestações não é, em nossa opinião, o da aparição. Se fosse sempre vaporosa, concordaria com a natureza etérea que atribuímos aos Espíritos; ora, nada se oporia a que essa matéria etérea se tornasse perceptível à vista por uma espécie de condensação, sem perder sua propriedade vaporosa. O que há de mais estranho é a solidificação dessa mesma matéria, bastante resistente para deixar uma impressão visível em nossos órgãos. Daremos, em nosso próximo número, a explicação desse singular fenômeno, conforme o ensinamento dos próprios Espíritos. Limitar-nos-emos, hoje, a deduzir-lhe uma consequência relativa ao toque espontâneo dos instrumentos de música. Com efeito, desde que a tangibilidade temporária dessa matéria eterizada é um fato constatado; que, nesse estado, uma mão, aparente ou não, oferece bastante resistência para exercer pressão sobre os corpos sólidos, nada há de espantoso em que possa exercer pressão suficiente para mover as teclas de um instrumento. Por outro lado, fatos não menos positivos atestam que essa mão pertence a uma inteligência; nada, pois, de admirar que tal inteligência se manifeste por sons musicais, como o pode fazer pela escrita ou pelo desenho. Uma vez entrados nessa ordem de ideias, as pancadas, o movimento dos objetos e todos os fenômenos espíritas de ordem material se explicam naturalmente.



[1] REVISTA ESPÍRITA – abril/1858 – Allan Kardec