terça-feira, 30 de janeiro de 2024

SENHORA SCHWABENHAUS – Letargia Extática[1]

 


Allan Kardec

 

Segundo o Courrier des États-Unis, vários jornais relataram o fato que a seguir apresentamos, e que nos pareceu fornecer matéria para um estudo interessante:

 

Diz o Courrier des États-Unis que uma família alemã de Baltimore acaba de emocionar-se vivamente com um caso singular de morte aparente. A Sra. Schwabenhaus, há longo tempo enferma, parecia ter exalado o derradeiro suspiro na noite de segunda para terça-feira. As pessoas que dela cuidavam puderam observar todos os sintomas da morte: o corpo estava gelado e seus membros tornaram-se rígidos. Após ter prestado ao cadáver os últimos deveres, e quando tudo na câmara mortuária estava pronto para o enterro, os assistentes foram repousar. Esgotado de fadiga, o Sr. Schwabenhaus em breve os acompanhou. Estava mergulhado num sono agitado quando, cerca de seis horas da manhã, a voz da esposa feriu-lhe o ouvido. A princípio julgou-se vítima de um sonho; mas o seu nome, repetido várias vezes, não mais lhe deixou qualquer dúvida, precipitando-se de imediato para o quarto da esposa. Aquela que era tida por morta estava sentada na cama, parecendo fruir de todas as faculdades e mais forte do que nunca, desde o início da doença.

A Sra. Schwabenhaus pediu água e depois desejou tomar chá e vinho. Rogou ao marido que fizesse adormecer a criança que chorava num quarto vizinho. Mas ele estava muito emocionado para isso e correu a despertar as demais pessoas de casa. Sorridente, a doente acolheu os amigos e domésticos que, trêmulos, aproximaram-se de seu leito. Não parecia surpreendida com o aparato funerário que lhe feria o olhar.

“Sei que me acreditáveis morta, disse; entretanto, estava apenas adormecida. Durante esse tempo minha alma transportou-se para as regiões celestes; um anjo veio buscar-me e em poucos instantes transpusemos o espaço. O anjo que me conduzia era a filhinha que perdemos o ano passado... Oh! Em breve irei reunir-me a ela... Agora, que experimentei as alegrias do Céu, não mais queria viver na Terra. Pedi ao anjo para, uma vez mais, vir abraçar meu marido e meus filhos; mas logo retornará para buscar-me”.

Às oito horas, após se haver despedido com ternura do marido, dos filhos e de uma multidão de pessoas que a rodeavam, dessa vez a Sra. Schwabenhaus expirou realmente, conforme foi constatado pelos médicos, de forma a não deixar subsistir nenhuma dúvida a esse respeito.

Esta cena impressionou profundamente os habitantes de Baltimore.

 

Havendo sido evocado no dia 27 de abril passado, numa sessão da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, o Espírito da Sra. Schwabenhaus manteve a seguinte conversa:

 

1. Com vistas à nossa instrução, desejaríamos fazer algumas perguntas relacionadas com a vossa morte; consentiríeis em respondê-las?

– Como não, logo agora que começo a vislumbrar as verdades eternas, e sabedora da necessidade que igualmente sentis de também as conhecer?

2. Lembrais da circunstância particular que precedeu vossa morte?

– Sim; foi o momento mais feliz da minha existência na Terra.

3. Durante vossa morte aparente, ouvíeis o que se passava à volta e percebíeis os preparativos do funeral?

– Minha alma estava muita preocupada com a felicidade que se avizinhava.

 

Observação – Sabe-se, em geral, que os letárgicos veem e ouvem o que se passa à volta deles, conservando a lembrança ao despertar. O fato a que nos referimos oferece a particularidade de ser o sono letárgico acompanhado de êxtase, circunstância que explica por que foi desviada a atenção da paciente.

 

4. Tínheis a consciência de não estar morta?

– Sim; mas isso me era ainda mais penoso.

5. Poderíeis dizer a diferença que fazeis entre o sono natural e o letárgico?

– O sono natural é o repouso do corpo; o letárgico, a exaltação da alma.

6. Sofríeis durante a letargia?

– Não.

7. Como se operou vosso retorno à vida?

– Deus permitiu-me voltar para consolar os corações aflitos que me rodeavam.

8. Desejaríamos uma explicação mais material.

– O que chamais de perispírito ainda animava o meu invólucro terrestre.

9. Como foi possível não vos terdes surpreendido à vista dos preparativos que faziam para o enterro?

– Eu sabia que devia morrer; tudo aquilo pouco me importava, desde que havia entrevisto a felicidade dos eleitos.

10. Recobrando a consciência, ficastes satisfeita de retornar à vida?

– Sim, para consolar.

11. Onde estivestes durante o sono letárgico?

– Não posso descrever toda a felicidade que experimentava: a linguagem humana é incapaz de exprimir essas coisas.

12. Ainda vos sentíeis na Terra ou no espaço?

– Nos espaços.

13. Dissestes, quando voltastes a vós, que a filhinha que havíeis perdido no ano anterior vos tinha vindo buscar. É verdade?

– Sim; é um Espírito puro.

 

Observação – Nas respostas dessa mãe, tudo anuncia tratar-se de um Espírito elevado; nada há, pois, de espantoso que um Espírito mais elevado ainda se tivesse unido ao seu por simpatia.

Entretanto, não devemos tomar ao pé da letra a qualificação de Espírito puro, que por vezes os Espíritos se dão entre si. Por essa expressão devemos entender os Espíritos de uma ordem mais elevada que, achando-se completamente desmaterializados e purificados, não mais estão sujeitos à reencarnação: são os anjos que desfrutam a vida eterna. Ora, aqueles que não atingiram um grau suficiente não compreendem ainda esse estado supremo; podem, pois, empregar o termo Espírito puro para designar uma superioridade relativa, mas não absoluta. Disso temos numerosos exemplos, querendo parecer-nos que a Sra. Schwabenhaus encontra-se neste caso. Algumas vezes os Espíritos zombeteiros também se atribuem a qualidade de Espíritos puros, a fim de inspirarem mais confiança àqueles a quem desejam enganar, e que não têm suficiente perspicácia para os julgarem por sua linguagem, pela qual sempre se traem em razão de sua inferioridade.

 

14. Que idade tinha essa criança quando morreu?

– Sete anos.

15. Como a reconhecestes?

– Os Espíritos superiores se reconhecem mais depressa.

16. Vós a reconhecestes sob uma forma qualquer?

– Somente a vi como Espírito.

17. O que ela vos dizia?

– “Vem; segue-me em direção ao Eterno”.

18. Vistes outros Espíritos, além do de vossa filha?

– Vi uma porção de outros Espíritos, mas a voz de minha filha e a felicidade que pressentia eram minhas únicas preocupações.

19. Por ocasião de vosso retorno à vida, dissestes que em breve iríeis reencontrar a filha; tínheis, pois, consciência de vossa morte próxima?

– Para mim era uma esperança feliz.

20. Como o sabíeis?

– Quem não sabe que é preciso morrer? Minha doença me dizia bem.

21. Qual era a causa de vossa enfermidade?

– Os desgostos.

22. Que idade tínheis?

– Quarenta e oito anos.

23. Deixando a vida definitivamente, tivestes de imediato consciência clara e lúcida da nova situação?

– Tive-a no momento da letargia.

24. Experimentastes a perturbação que acompanha ordinariamente o retorno à vida espírita?

– Não; estava deslumbrada, mas não perturbada.

 

Observação – Sabe-se que a perturbação que se segue à morte é tanto menor e menos duradoura quanto mais se depurou o Espírito durante a vida. O êxtase que precedeu a morte dessa mulher era, aliás, um primeiro desprendimento da alma de seus laços terrenos.

 

25. Desde que estais morta já revistes vossa filha?

– Frequentemente estou com ela.

26. A ela estais reunida por toda a eternidade?

– Não. Sei, porém, que depois de minhas últimas encarnações estarei no paraíso, onde habitam os Espíritos puros.

27. Então vossas provas não terminaram?

– Não, mas, doravante, serão mais felizes. Não me deixam senão esperar e a esperança já é quase a felicidade.

28. Vossa filha tinha vivido em outros corpos antes daquele pelo qual foi vossa filha?

– Sim; em muitos outros.

29. Sob que forma vos encontrais entre nós?

– Sob minha derradeira forma de mulher.

30. Percebei-nos tão distintamente como o faríeis quando viva?

– Sim.

31. Desde que estais aqui sob a forma que tínheis na Terra, é pelos olhos que nos vedes?

– Claro que não, o Espírito não tem olhos. Encontro-me sob minha última forma tão-somente para satisfazer às leis que regem os Espíritos, quando evocados e obrigados a retomar aquilo a que chamais perispírito.

32. Podeis ler os nossos pensamentos?

– Sim, posso; lerei caso eles sejam bons.

 

Agradecemos as explicações que houvestes por bem nos dar; pela sabedoria das vossas respostas reconhecemos que sois um Espírito elevado e esperamos que possais fruir a felicidade que mereceis.

 

– Sinto-me feliz em contribuir para vossa obra; morrer é uma alegria, quando podemos auxiliar o progresso, como o faço agora.



[1] Revista Espírita – Setembro/1858 – Allan Kardec

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

JOÃO NUNES MAIA[1]

 

 

João Nunes Maia nasceu em 10 de novembro de 1923, em Glaucilândia, antiga Juramento, norte de Minas Gerais. Filho de Joaquim da Silva Maia e Maria Nunes Maia, o casal teve cinco filhos e Joaquim teve outros oito filhos do segundo casamento. João Nunes Maia foi segundo filho do casal; desde de muito novo conversava sozinho e era tido como “estranho” pelos irmãos.

A mediunidade veio à tona cedo, trazendo angústias e aflições. Mas João contou muito com o apoio da mãe, dona Maria Nunes, que se apegava às orações. Mais tarde, a família, à procura de ajuda, procurou de dona Lozinha, conhecida benzedeira da região por ajudar pessoas com diversos problemas. 

Nunes passou a frequentar as reuniões na distante casa de dona Lozinha. Mediunizada, ela o alertava sobre as suas tarefas futuras e sobre a necessidade de conhecer as obras de Allan Kardec. Através do reembolso postal, ele encomenda à Federação Espírita Brasileira (FEB) os livros básicos da Doutrina. De posse deles, viaja para a Fazenda Brejinho, onde estuda por quase um ano. Nessa época, cria o hábito de meditar ao alvorecer e ao pôr do sol e, numa manhã, tem a inspiração que nortearia a Sociedade Espírita Maria Nunes: o lema do Pão e do Livro.

O jovem Nunes muito estudou e lutou, desenvolvendo a psicografia, a psicofonia, a clarividência e o desdobramento.

Em 1950, incentivado pelo pai, e já órfão de mãe, muda-se para Belo Horizonte, sendo acolhido pelo amigo Chico Sapateiro, que ensina-lhe o ofício. Mais tarde, vai morar no bairro Santa Tereza onde conhece sua esposa, Irene Nunes, com quem teve a filha Alcione.

João Nunes frequentou reuniões espíritas em Pedro Leopoldo, onde conheceu o médium Francisco Cândido Xavier, de quem se tornou amigo. Numa reunião mediúnica na União Espírita Mineira (UEM), identifica-se com o Espírito de Fernando Miramez de Olivídeo, seu guia espiritual e autor de vários livros psicografados por Nunes, sendo o primeiro “Alguns Ângulos dos Ensinos do Mestre”.

Conhecido por ser uma pessoa silenciosa, João Nunes Mais muito fez pelo Movimento Espírita. Incentivou, orientou e participou da fundação de várias Casas Espíritas em Belo Horizonte, em Minas Gerais e em outros estados brasileiros.

Entre suas grandes contribuições, estão:

§  Criação da Campanha Nacional do Livro Espírita Gratuito, em 1958, pela qual viajou de caminhão por distantes regiões do Brasil no intuito de divulgar a Doutrina Espírita;

§  Em 1973, através do espírito de Franz Anton Mesmer, recebe a fórmula da Pomada Vovô Pedro, que cura males da pele;

§  Fruto da sua persistência, em 12 de abril de 1955, surge a Sociedade Espírita Maria Nunes (SEMAN). Iniciada com estudos evangélico-doutrinários e humilde distribuição de sopa aos mais necessitados, a SEMAN se ramificou em diversas atividades sociais e permitiu, através da Editora Fonte Viva, sua parceira, a edição de 62 livros psicografados. Espalharam-se pelo Brasil, Portugal, Estados Unidos, Espanha, Japão etc.;

§  Orientou pessoalmente centenas de médiuns em desequilíbrio, e psicografou os 20 volumes da coleção Filosofia Espírita;

§  Empenhou-se para que as instituições espíritas destacassem a qualificação dos seus trabalhadores, e participou da criação do primeiro programa espírita em rádio de Belo Horizonte;

§  Distribuiu, gratuitamente, no centro de Belo Horizonte, uma edição inteira (10 mil volumes) de O Evangelho Segundo o Espiritismo, da FEB;

§  Fundou e inaugurou a Livraria Espírita Mineira, da União Espírita Mineira, por solicitação e com a orientação de Francisco Cândido Xavier, e realizou a primeira Banca do Livro Espírita de Belo Horizonte;

§  Incentivou a abertura de atividades e Casas Espíritas em locais ainda desprovidos, além de ajudar na transição de casas de Umbanda para Casas Espíritas;

§  Além disso, Nunes Maia foi o primeiro diretor doutrinário do Hospital Espírita André Luiz, em Belo Horizonte.

João Nunes faleceu no dia 04 de setembro de 1991. Deixou na Terra a continuação dos seus ideais através da Sociedade Espírita Maria Nunes (SEMAN).

 

 

Fontes:

§  CORRÊA, Ariane de Quadros. João nunes Maia: Uma biografia. Editora Fonte Viva, 2000.

§  Site Mensagem Espírita

§  Site Guia HEU

sábado, 27 de janeiro de 2024

O ESPÍRITA E A HUMANIDADE[1]

 


Miguel Vives y Vives

 

Disse o Senhor: Vós sois o sal da terra; se o sal perder o seu sabor, com o que se há de salgar? E foi como se dissesse que sois a luz do mundo; se a luz perder a sua claridade, com o que se iluminará? Todo espírita que fez profissão pública de sua crença não deve jamais esquecer-se de que, por onde passa, aonde vai, e onde frequenta, está sendo observado e estudado.

Por que nos observam e estudam, para ver como agimos nós, os espíritas, pois sabem que a nossa maneira de pensar é bem diferente da maneira dos que não seguem as nossas ideias. De forma que devemos ter bem presentes aquelas palavras de um grande espírito: Prudência no pensar, prudência no falar, prudência no agir. Porque, se nos esquecermos das regras que o Espiritismo nos prescreve, algumas das quais estão anotadas nos capítulos anteriores, podemos cair no ridículo, por não estarem os nossos atos de acordo com a moral que o mundo espera de nós.

Essa moral, quando bem praticada, é o melhor meio de propagar e exaltar os nossos princípios; de maneira que uma atitude correta e cheia de doçura tem grande poder de atração, e podemos conquistar com ela a simpatia de muitos, fazendo-nos agradáveis pelo nosso trato. Nossas maneiras e costumes são o primeiro instrumento que todo espírita deve usar na propaganda doutrinária: primeiro agir, depois falar; a não ser que a necessidade e as circunstâncias nos obriguem a falar primeiro.

Quando assim tivermos de fazer, devemos ser muito prudentes e humildes, dando provas de uma excelente educação. Porém, sempre que possível, devemos agir primeiro. Vale mais que nos conheçam primeiro por nossas obras, do que por nossas palavras.

Assim, quando chegar a hora de falarmos, nos escutarão com mais respeito e seremos atendidos.

Evitemos entrar na propaganda de nossas ideias, aguardando a ocasião oportuna. Comecemos então por demonstrar o que é a moral do Espiritismo, quais as suas tendências e os seus fins, que são tornar os homens melhores, conquistar a paz para a humanidade e revelar um porvir mais feliz do que aquele que nos espera na Terra. Só devemos entrar na explicação dos fenômenos espíritas quando as pessoas a quem falamos já tenham aceitado a moral, compreendendo algo de sua sublimidade. Nesses casos em que pudermos falar dos fenômenos, devemos explicar aqueles que podem ser mais bem compreendidos, de acordo com o alcance dos nossos ouvintes.

Temos ouvido, às vezes, alguns espíritas exporem fenômenos entre pessoas estranhas à doutrina, dando explicações de fatos que estão muito fora do alcance dos ouvintes. Isso quase sempre resulta em burla ou em maior incredulidade, porque o espírita é logo considerado como fanático, perdendo assim toda influência moral sobre essas pessoas. Por isso, a propaganda moral é quase sempre bem recebida, e mais ainda, se o espírita que a propaga sabe portar-se de maneira correta, o que é muito fácil para todo espírita estudioso, que esteja bem compenetrado do que o Espiritismo lhe prescreve.

Não se deve olvidar que um dos primeiros mandamentos da lei é: Amarás ao próximo como a ti mesmo. Se bem que seja muito difícil praticar este mandamento ao pé da letra, não é menos verdade que os espíritas estão obrigados a praticar a caridade com os seus irmãos de crença. Ora, se entre nós devemos ser indulgentes, benévolos, e devemos ajudar, fechar os olhos e até perdoar, não haveremos de fazer menos para a Humanidade.

Os não-espíritas empenham-se às vezes em questões, alterações, disputas, rixas e não raro se maltratam. Devemos fugir inteiramente de tudo isso. Se com boas maneiras podemos colocar as coisas nos seus lugares, é assim que devemos fazer.

Mas, se para tanto devemos afastar-nos das regras prescritas, é preferível calar, buscando a melhor maneira de sairmos da dificuldade. E se, apesar da nossa prudência e do nosso amor, não pudermos livrar-nos das contendas, devemos sofrer com paciência as iras da ignorância e da má fé. Devemos perdoar sem reservas, do fundo de nossa alma, e pagar o mal com o bem, sempre que possível.

Por isso, não podemos olvidar a figura do Mestre e Senhor.

Ele é o modelo, a verdade e a vida. Que disse Ele, quando o insultavam, apostrofavam, maltratavam e cuspiam? Nada.

Baixava os olhos e perdoava em seu coração. Pois se Ele, que era tão elevado e tanto podia, fez exatamente como ensinou, faremos nós o contrário? Desgraçado do espírita que tem a oportunidade de devolver o bem como pagamento do mal, e não o faz!

Desgraçado do espírita que pode perdoar e não perdoa! Pois dias virão em que exclamará:

De que me serviu saber o que sabia, e de me haver chamado espírita? Mais me valera nada saber, para não arcar com tamanha responsabilidade!

Há espíritas que, guiados por sua ardente caridade, se dedicam a curar enfermos por meios magnéticos, seja com água, seja com passes. Quando a estas práticas não se misturam segundas intenções, havendo apenas um amor ardente pelos enfermos e o desejo puro de fazer o bem, com ardente fé no Pai, podem alcançar-se bons resultados. Entretanto, deve-se considerar que, se o espírita deve usar de prudência em todos os casos, muito mais deverá usá-la quando pretende dar saúde aos enfermos. Deve ele levar uma vida muito pura, isenta de falhas e defeitos que possam retirar-lhe a boa proteção, porque, do contrário, em lugar de fazer bem aos enfermos, lhes fará mal, prejudicando-os.

Aquele que deseja aliviar ou curar a Humanidade doente, mesmo que apenas no âmbito das suas relações particulares, deve levar uma vida de santidade. Chamemo-la assim, para melhor distinguir o que a pratica, tanto mais se o espírita que cura não for dotado de conhecimentos médicos ou de outra ciência que o autorize a tanto. Os que, porém, só o fazem por amor à Humanidade devem despojar-se de tudo o que possa empanar o brilho de seus espíritos, para que o seu perispírito e o seu corpo possam transmitir os bons fluidos. De maneira que devem aplicar-se constantemente a seguinte máxima:

Se queres curar aos demais, cura primeiro o teu corpo e a tua alma, pois, do contrário, como curarás aos outros, se estás enfermo?

Claro que devem ser observados os costumes e as maneiras que atrás assinalamos, abstendo-se de fazer aos enfermos promessas que não podem ser cumpridas. Pois o que se dedica a práticas tão elevadas nunca deve confiar em suas próprias forças, mas conta apenas com o seu bom desejo, a sua boa vontade, e sobretudo com a ajuda de Deus e dos bons Espíritos, procurando ter fé n’Aquele que curou os cegos, os paralíticos, e ressuscitou os mortos. Assim fazendo, muito poderá esperar do Todo poderoso, e sua missão será uma consolação para os que choram e os que sofrem[2].

Mas não deve olvidar que precisa dar de graça o que de graça recebe, porque é muito prejudicial e anti-espírita fazer da proteção do Alto uma profissão lucrativa. É bom fazer a caridade, mas é muito mau explorá-la.

Em resumo:

§  a Humanidade geme, chora, desespera-se, pelo muito que sofre; o egoísmo tudo devora; as vítimas da maldade se sucedem sem parar; as religiões se desviaram do caminho; os homens de bem, intermediários entre a Humanidade e a Providência, são escassos;

§  os espíritas estão encarregados de trazer a luz, já que sabem porque a Humanidade sofre, porque chora, porque se desespera;

§  sacrifiquemo-nos, pois, para poder explicar-lhe a causa de seus sofrimentos, de suas lágrimas, de seu desespero;

§  procedamos de maneira a mostrar que a dor depura, eleva, santifica, exalta, e assim cumpriremos a nossa missão.

O espírita que muito deseja fazer por seus semelhantes não deve perder de vista o Senhor – quando o açoitavam atado ao pilar, quando o coroavam de espinhos, quando carregava a cruz, quando consumava o seu sacrifício –, para saber imitá-lo em seus atos de amor pela Humanidade, de abnegação e de sacrifício.

Vós sois o sal da terra; se o sal perder o seu sabor, com o que se há de salgar?



[1] O TESOURO DOS ESPÍRITAS – Miguel Vives y Vives

[2] No original há esta maravilhosa expressão, praticamente intraduzível: “su misión será un paño de lágrimas”, que traduzimos apenas por: será uma consolação. Que não se perca a imagem original. (N.T.)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

IDENTIFICAÇÃO COM O MUNDO ESPIRITUAL[1]

 



Andres Gustavo Arruda

           

Lançai para adiante o olhar; quanto mais vos elevardes pelo pensamento, acima da vida material, tanto menos vos magoarão as coisas da Terra. 

(Allan Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. XII).

 

Com o advento da Doutrina Espírita foi-nos revelada, de forma inconcussa, a existência do mundo espiritual.  Assim, a visão estreita que outrora tínhamos acerca da vida e do objetivo de nossa estada na Terra deu lugar ao horizonte ilimitado e infinito da dimensão extrafísica, e, dessarte, compreendemos que nossa existência no plano físico consiste em estágio, no qual devemos empreender o maior esforço possível para nos aperfeiçoarmos intelecto-moralmente e avançarmos alguns passos na senda da evolução.

Sobre as consequências decorrentes dessa visão espiritualista da vida e da crença na existência do mundo espiritual, assim se exprimiu Kardec[2]:

Revelando-nos a existência do mundo invisível que nos cerca e em meio do qual vivemos sem o suspeitarmos, ele nos dá a conhecer, pelo exemplo dos que viveram, as condições da nossa felicidade ou da nossa desgraça futuras; explica a causa de nossos sofrimentos na Terra e a maneira de os suavizarmos.[...] O homem, convencido da grandeza e da importância de sua existência futura, que é eterna, a compara com a incerteza da vida terrena, que é tão curta,  e se eleva pelo pensamento acima das mesquinhas considerações humanas. Conhecendo a causa e o objetivo de suas misérias, suporta-as com paciência e resignação, porque sabe que são o meio de chegar a um estado melhor. (grifamos).

À face do que acima destacamos, infere-se que nunca estamos fora do mundo espiritual, posto que estejamos encarnados. Os Espíritos desencarnados, estes sim, encontram-se fora do mundo físico, embora se relacionem mentalmente conosco de forma incessante. Ao demais, devemos lembrar que a dimensão extrafísica é a das causas, donde tudo se origina, e a dimensão material ou física é a dos efeitos. Desta forma, procuremos nos identificar, desde já, com o nosso mundo de origem, a fim de não passarmos, no Além, por um processo de reeducação espiritual, em face dos nossos conceitos equivocados acerca do mundo dos Espíritos. Para tal, não se faz mister que sejamos dotados da faculdade de vidência ou de vista dupla. Não é disso que estamos falando. Consiste essa identificação com o mundo espiritual a convicção firme e inabalável da nossa condição de seres espirituais e de pautarmos nossa vivência diária de acordo com esse entendimento, pois a crença nessa realidade não pode e não deve ser um simples fato; é preciso que nosso coração seja tocado e que esse conhecimento  mude nossa forma de pensar, agir e sentir. Disso resulta o impositivo da prática dos ensinamentos de Jesus, uma vez que o Evangelho é o caminho que nos levará à felicidade futura.

Ressaltemos que é natural a dificuldade de identificação com o mundo espiritual por parte de nós, Espíritos encarnados, bem como a adaptação dos recém-libertos do corpo físico à nova realidade, conforme se conclui do que acentua o Espírito Cairbar Schutel, na obra “Voltei”, do Irmão Jacob[3]:

Comentou Schutel as surpresas dos primeiros dias do homem desencarnado, na vida extracorpórea, alegando que os decênios transcorridos no corpo carnal imprimem hábitos que, efetivamente, passam a constituir uma ‘’segunda natureza’’ para a individualidade.

Importante lembrarmos que o fato sermos – os espíritas – dotados de conhecimentos espirituais não nos torna indenes às dificuldades acima mencionadas, haja vista que, para a superação das mesmas é imprescindível a transformação moral para melhor, pois, do contrário, ainda que estejamos no Espiritismo, o Espiritismo não estará em nós. Vejamos, agora, alguns caracteres que constituem o Espírito elevado – aquele que se identifica, já na vida corpórea, com o mundo espiritual[4]:

918. Por que sinais se pode reconhecer no homem o progresso real que deve elevar o seu Espírito na hierarquia espírita?

− O Espírito prova a sua elevação quando todos os atos da sua vida corpórea constituem a prática da lei de Deus e quando compreende por antecipação a vida espiritual. (grifamos).

Compreender por antecipação a vida espiritual é identificar-se plenamente com ela. É viver tendo consciência de que, a qualquer momento, poderemos retornar para nosso mundo de origem, onde nos depararemos com as nossas próprias criações.

 

O testemunho de Kardec

Conforme asseverado alhures, a identificação com o mundo espiritual constitui apanágio dos homens de bem. E é exatamente essa identificação que auxilia os grandes missionários no cumprimento de suas tarefas, propiciando-lhes a fé para enfrentar com estoicismo todas as intempéries e vicissitudes inerentes ao estágio no corpo de carne. Sobre sua experiência pessoal – um tanto amarga – menciona o Codificador[5]:

Fui alvo do ódio de inimigos intransigentes, da calúnia, da inveja e do ciúme; infames libelos foram publicados contra mim; as minhas melhores instruções foram adulteradas; fui traído por aqueles em quem mais confiava e pago com ingratidão por aqueles a quem servi.

A Sociedade de Paris foi um foco constante de intrigas urdidas por aqueles próprios que se diziam estar a meu lado e que, abraçando-me pela frente, me apunhalavam pelas costas. Disseram que os meus sectários eram pagos com o dinheiro que eu arranjava com o Espiritismo. Não tive mais repouso e muitas vezes verguei ao peso do trabalho; comprometi a saúde e arrisquei a vida.

[...] Se eu dissesse que o bem compensa o mal, não diria a verdade; porque o bem – falo das satisfações morais – sobrepujou o mal, sem comparação possível. Quando me vinha uma decepção, uma contrariedade, eu me elevava, em pensamentos, acima da humanidade, colocava-me, por antecipação, na região dos Espíritos, e desse ponto culminante, onde descobria muitas razões, as misérias da vida passavam por mim sem me atingir. Habituei-me tanto a isso, que os maus nunca me perturbaram. (grifamos).

Com efeito, os Espíritos Superiores que encarnam na Terra para impulsionar o progresso não devem esperar a compreensão humana! Se esta última advém, é sempre da parte de alguns poucos mais lúcidos e moralizados. Como bem se observou acima, Kardec não fugiu à regra; foi caluniado, incompreendido, traído por seus contemporâneos, pois, como Espírito de escol, era avançado para a época em que vivia. Entretanto, pelo fato de estar plenamente identificado com a Vida Real, enfrentou corajosa e resignadamente todos os dissabores e decepções que lhe sobrevieram.

 

Ambiguidade de conduta

De acordo com o que dissemos em outra parte, o mundo espiritual é o mundo das causas. Dentro dessa perspectiva, necessário se faz que a personalidade (Espírito encarnado) conheça profundamente a sua individualidade (Espírito), a fim de que não suceda a chamada ambiguidade de conduta, que consiste em o indivíduo aparentar uma conduta saudável ante a sociedade terrena e, ao revés, em demonstrar desequilíbrios vários no plano espiritual. Ocorre que a vida na Terra impõe certos limites ao Espírito reencarnado, como, por exemplo, a necessidade de trabalhar e cumprir deveres, o que impede, de certo modo, a manifestação completa do seu querer[6]. Disso resulta o impositivo da análise pessoal do comportamento, a fim de elucubrar seus reais desejos, porquanto nem sempre o que constitui interesse para a personalidade é relevante para a individualidade – que na vida espiritual, onde as coisas são definidas, mostra-se tal qual é, sem mimetizar absolutamente nada.

Nessa linha, transcrevemos as sábias colocações do Benfeitor Emmanuel[7]:

Se desejas saber quem és, observa o que pensas, quando estás sem ninguém; e se queres conhecer o lugar que te espera, depois da morte, examina o que fazes contigo mesmo nas horas livres. (grifamos).

Entrando em contato com a nossa realidade interior, através da meditação e da prece, aprenderemos a ouvir a voz da própria consciência, onde se encontra exarada a lei de Deus; outrossim, receberemos orientações seguras dos Amigos Espirituais, fortalecendo-nos na luta sem igual contra nós mesmos.

 

Preocupação com a morte

Para se forrar às preocupações com a morte é imprescindível encará-la em seu verdadeiro sentido, ou seja, fazer dela uma ideia a mais exata possível para que vida espiritual se sobreponha à vida material. Posto assim, destacamos as palavras de Allan Kardec acerca do assunto em tela[8]:

Apegando-se ao exterior, o homem só vê a vida do corpo, quando a vida real é a da alma. O corpo estando privado de vida, tudo lhe parece perdido e ele se desespera. Se, em lugar de concentrar o seu pensamento nas vestes exteriores, ele o dirigisse para a verdadeira fonte da vida, para a alma, ser real que sobrevive a tudo, lamentaria menos o corpo, fonte de tantas misérias e dores. Mas para isso necessita de uma força que o Espírito só adquire amadurecendo.

A preocupação com a morte está ligada à insuficiência de noções sobre a vida futura. Por isso, quanto mais ela se liga à necessidade de viver, mais aumenta o temor da destruição do corpo com o fim de tudo. Ela é assim provocada pelo secreto desejo de sobrevivência da alma, ainda velada pela incerteza.

A preocupação se enfraquece a medida (sic) que se desenvolve a certeza e desaparece por completo quando esta se firma.

Portanto, quanto mais identificados com o mundo espiritual, tanto mais fácil nos será a compreensão da morte em sua real acepção e caráter libertador, facultando-nos a resignação – que consiste na aquiescência do coração – em face dos desafios e provações da experiência humana, tirando proveito do sofrimento como processo de reequilíbrio com a lei da causalidade espiritual, amando, perdoando e servindo à luz meridiana do Evangelho de Jesus e da Codificação Kardeciana.

Aprofundemo-nos, pois, no conhecimento de nós mesmos, de maneira que, como espíritos encarnados, possamos ter ciência do que a nossa individualidade realmente é, identificando-nos desde agora com a vida espiritual, a vida normal de todos nós.

 

Referências:

§  KARDEC, Allan. Obras póstumas; revisão, introdução e notas de J. Herculano Pires; tradução de João Teixeira de Paula. 14. ed. São Paulo: LAKE, 2007.        

§  KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno, ou, A Justiça Divina Segundo o Espiritismo; edição inteiramente revista segundo o original francês por João Teixeira de Paula e J. Herculano Pires, introdução de J. Herculano Pires. 13. ed. São Paulo: LAKE, 2011.

§  KARDEC, Allan. O livro dos Espíritos: filosofia espiritualista; tradução de J. Herculano Pires, revista e anotada pelo tradutor para esclarecimento e atualização dos problemas do texto. 67. ed. São Paulo: LAKE, 2010.

§  KARDEC, Allan. “O Espiritismo na sua expressão mais simples e outros opúsculos de Kardec”; tradução de Evandro Noleto Bezerra. 2. ed. 1.ª reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

§  XAVIER, Francisco Cândido. “Justiça divina: estudos e dissertações em torno da substância religiosa de O céu e o inferno”, de Allan Kardec; [ditado pelo Espírito Emmanuel]. 13. ed. 2.ª reimp. Rio de Janeiro:  FEB, 2010.

§  XAVIER, Francisco Cândido. “Voltei”; [ditado pelo Espírito Irmão Jacob]. 28. ed. 4.ª reimp. Rio de Janeiro: FEB, 2010.

 



[1] O CONSOLADOR - Ano 17 - N° 858 - 21 de Janeiro de 2024 - https://www.oconsolador.com.br/ano17/858/especial.html

[2] O espiritismo na sua expressão mais simples e outros opúsculos de Kardec, cap. Histórico do Espiritismo, p. 34.

[3] Voltei, cap. 13, p. 111.

[4] Questão 918 de O Livro dos Espíritos.

[5] Obras póstumas. A minha iniciação no Espiritismo, p.231.

[6] A referida conclusão surgiu a partir de análise da Questão 965 de O Livro dos Espíritos. Eis a aludida questão da obra susodita: “965.Têm alguma coisa de material as penas e gozos da alma depois da morte? “Não podem ser materiais, di-lo o bom-senso, pois que a alma não é matéria. Nada têm de carnal essas penas e esses gozos; entretanto, são mil vezes mais vivos do que os que experimentais na Terra, porque o Espírito, uma vez liberto, é mais impressionável. Então, já a matéria não lhe embota as sensações.” (237 a 257). KARDEC. Allan. O livro dos Espíritos: filosofia espiritualista. Trad. Guillon Ribeiro. 93. ed. 1. imp. (Edição Histórica). Brasília: FEB, 2013.

[7] Justiça divina. Lugar depois da morte, p. 117

[8] O céu e o inferno. A preocupação com a morte, p. 26.

quinta-feira, 25 de janeiro de 2024

SENTIMENTO INATO[1]

 


Miramez

 

A adoração é o resultado de um sentimento inato ou o produto de um ensinamento?

− Sentimento inato, como o da Divindade. A consciência de sua fraqueza leva o homem a se curvar diante d’Aquele que o pode proteger.

Questão 650 / O Livro dos Espíritos

 

Adorar a Deus é um sentimento inato na criatura, reconhecendo Aquele que a protege por todos os meios. É uma gratidão dos que já reconhecem ou despertaram para a realidade.

O reconhecimento da sua fraqueza, leva o homem a curvar-se diante da Força Soberana, porque encontra nessa força-maior toda a sua segurança, depositando sua fé e fruindo dela toda a esperança de viver.

Crer em Deus é saber que Ele existe; as formas de reconhecer essa paternidade são diversas, de acordo com a evolução já alcançada. Por que duvidar da existência de Deus? Em quem se irá crer? Ele, se bem analisares, está sempre te protegendo, dando-te a vida, o alimento, a água, o ar, as vestes, a moradia, tudo que existe e tudo de que precisas.

Reforça teus sentimentos de gratidão Àquele que nunca te esquece, e cada vez mais aproximar-te-ás da Luz que te gerou. Se essa crença é um sentimento inato de todos os povos, tem um fundamento na verdade. O nosso dever é cada vez mais apurar esse sentimento e saber, da melhor forma, adorar ao Criador de todas as coisas.

Se Jesus reduziu os dez mandamentos a apenas dois, e ainda te agradam os dez, segue colocando-os em prática, que não perderás por isso. Se tu, igualmente, queres reduzir os dois a um apenas, podes fazê-lo, porque quem ama a Deus sobre todas as coisas, ou em todas as coisas, está realmente amando a tudo e a todos. Basta que compreendas o que é amar. O amor é a sinfonia eterna do universo, se tens alguma gratidão por pessoas que te fazem o bem, o que diante de Deus é um simples dever, como não ser grato Àquele que te deu a vida? Essa gratidão é adoração, e ser grato é dar continuidade àquilo de bom que se recebeu, e que aprova a consciência em Cristo.

Quando as expedições de Portugal chegaram ao Brasil, encontraram milhares de seres humanos, que já adoravam a Deus. Onde eles obtiveram esses ensinamentos sobre a gratidão ao Criador? Era o sentimento inato nas almas dos selvagens, como força da alma para que a segurança não faltasse em seus corações. Entre os negros do continente africano também havia o reconhecimento a um Criador e O adoravam da sua forma. É Deus operando em tudo e em todos, de conformidade com a evolução de cada um.

Se procurarmos a diferença da adoração a Deus, entre o sábio e o índio, pode ser que no último encontremos mais sinceridade. Onde a razão domina, o interesse mora. No entanto, o Espírito elevado é que expressa sua gratidão com mais profundidade, porque no momento da adoração se entrega ao Senhor com todo o desprendimento, querendo ser apenas Seu filho do coração, e se iguala a todos, para se fazer uno na simplicidade em que foi criado, sem a ignorância, por já entender as belezas da vida, de onde emana o verdadeiro amor.



[1] Filosofia Espírita – Volume 13 – João Nunes Maia

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

EXPERIMENTOS DE TELEPATIA DELGADO-ROMERO E HOWARD[1]

 



Robert McLuhan

 

Os psicólogos americanos Edward Delgado-Romero e George Howard realizaram polêmicos experimentos de telepatia ganzfeld em 2005, com o objetivo de corrigir descobertas parapsicológicas "falhas". Seus métodos e argumentos foram criticados por parapsicólogos.

 

Fundo

Edward Delgado-Romero é professor do departamento de aconselhamento e serviços de desenvolvimento humano da Faculdade de Educação da Universidade da Geórgia[2].  George S. Howard é professor emérito da Universidade de Notre Dame, cuja pesquisa se concentra na melhoria da metodologia de pesquisa em diversas áreas aplicadas da psicologia[3]. Num artigo de 2005 publicado na revista Humanistic Psychology, descreveram tentativas de replicar descobertas em domínios da psicologia que consideravam improváveis ​​de serem verdadeiras. Uma delas foi a pesquisa experimental de telepatia usando o método Ganzfeld.

 

Experimentos

Delgado-Romero e Howard criticam um problema “flagrante” com muitas pesquisas em psicologia, que atribuem ao viés de publicação (o efeito “gaveta de arquivo”), isto é, uma preferência por relatar descobertas significativas em vez de não significativas[4]. Eles propõem que meta-análises enganosas em vários domínios podem ser verificadas através da realização de novos estudos e da aceitação de todos os resultados, independentemente de atingirem ou não significância estatística.

Os autores afirmam que os seus três novos estudos sobre intenções de implementação deram resultados próximos da meta-análise da literatura de investigação, o que, na sua opinião, confirmou as suas conclusões significativas. Em contrapartida, três novos estudos sobre os efeitos da oração intercessória remota produziram um resultado nulo, contrariando o efeito significativo encontrado na literatura de investigação. Da mesma forma, três estudos não conseguiram replicar o chamado efeito Mozart, a alegação de que os participantes numa experiência obtiveram pontuações mais elevadas num teste de QI depois de ouvirem uma sonata de Mozart do que um grupo de controle.

Os autores então recorrem a experimentos Ganzfeld que afirmam mostrar que algumas pessoas têm poderes telepáticos, com sujeitos em estado dissociado tentando identificar uma imagem ou videoclipe alvo de um conjunto de quatro. Eles observam duas meta-análises positivas, de Bem e Honorton (1994) e Storm e Ertel (2001) que encontraram uma taxa de acerto de 32% e 31% respectivamente, onde 25% é a média de chance, e também uma meta-análise negativa de Wiseman e Milton que encontraram uma taxa de acerto (não significativa) de 27%.

Em três experiências iniciais de Ganzfeld, 45% dos participantes escolheram o alvo correto na primeira, 40% na segunda e 20% na terceira, num total de 35%, o que, segundo eles, foi superior às duas meta-análises positivas. Cinco estudos adicionais produziram resultados de 30%, 30%, 20%, 35% e 40%. O total de oito experimentos obteve uma taxa de acerto geral de 32%, em estreita concordância com as meta-análises positivas. Eles também notam que quando estes resultados são adicionados aos dados da meta-análise negativa de Milton e Wiseman, o seu valor significativo é elevado "precariamente perto de demonstrar que os humanos têm poderes psíquicos[5]".

Os autores afirmam que estavam “confortáveis” com as suas conclusões negativas relativamente às literaturas de investigação da oração intercessória e do efeito Mozart (ou seja, que estas eram falhas), mas que “ainda estavam muito desconfortáveis” com a conclusão de que “alguns humanos possuem poderes psíquicos, embora isso seja sugerido por seus próprios dados e pelos dados de muitos outros. Então decidiram por uma pesquisa complementar com um novo protocolo. Eles observam que, “de acordo com a teoria psíquica, se um membro do par for psíquico (P) mas o outro não (n), não haverá transmissão de informação. Somente pares PP podem enviar e receber mensagens com sucesso[6].' Calculando nesta base, argumentam que o Ganzfeld é metodologicamente muito menos poderoso do que se supunha até agora e encontraram uma forma de abordar esta questão.

Para aumentar o número de pares “psíquicos”, nos últimos quatro ensaios selecionaram 13 pares de participantes que já tinham identificado corretamente o alvo e estavam dispostos a continuar. Para que um par obtivesse uma pontuação significativamente acima do acaso, era necessário identificar o alvo correto três ou quatro vezes em todas as quatro tentativas. No entanto, nenhum o fez. Um par acertou dois; cinco acertaram uma e sete não acertaram. Os autores concluem:

Estes são dados extremamente decepcionantes para indivíduos que acreditam que os humanos possuem poderes psíquicos – especialmente porque a amostra foi submetida a um procedimento de seleção para aumentar a percentagem de Ps na amostra. Devido a este último conjunto de dados, não acreditamos que os humanos possuam poderes telepáticos. Além disso, o número correto de aproximadamente 32% obtido em um enorme número de estudos de psi permanece desconcertante. Talvez este fenômeno de 7% seja comparável ao “fator bruto” de Meehl (1978), que sugere que tudo está correlacionado com todo o resto até um pequeno grau. Meehl citou isso como evidência de que uma hipótese nula nunca é literalmente verdadeira. Ou talvez simplesmente reflita a nossa preferência duradoura por resultados significativos em detrimento de estudos que obtenham resultados não significativos[7].

Concluindo, os autores recomendam esta metodologia como “uma técnica promissora para separar literaturas de pesquisa adequadas (isto é, intenções de implementação) das literaturas de pesquisa mais problemáticas (isto é, oração intercessória remota, o efeito Mozart, telepatia)”. Eles continuam recomendando uma mudança de estatísticas frequentistas para estatísticas bayesianas calculadas a partir de probabilidades anteriores.

 

Crítica

Os parapsicólogos contestaram as afirmações de Delgado-Romero e Howard em cartas à revista.

 

Artur Hastings

Arthur Hastings, professor de psicologia transpessoal na Universidade de Sofia, escreveu:

Explicar os resultados sugerindo que eles são grosseiros não é muito científico. Nem é uma boa prática conceber uma segunda experiência com um desenho diferente, porque a equipe de investigação está “muito desconfortável” com a conclusão consistente dos seus próprios seis estudos de que “alguns humanos possuem poderes psíquicos”, uma descoberta que é consistente com meta- análise da pesquisa sobre este assunto e o grande conjunto de estudos na literatura revisada por pares[8].

Hastings também apontou que a técnica ganzfeld não testa apenas a telepatia e é apenas um dos muitos projetos experimentais de PES. Ele sugeriu que o artigo demonstrava pouca familiaridade com pesquisas na área, observando que o termo 'poderes psíquicos' utilizado pelos autores está carregado de pressupostos semânticos e, portanto, raramente é utilizado em discussões científicas. 

 

Bierman e Lobach

Os psicólogos holandeses Dick Bierman e Eva Lobach também escreveram para a revista[9]. Considerando que “a última e mais abrangente meta-análise baseada em 79 estudos de Ganzfeld relatou uma taxa de acerto média e altamente estatisticamente significativa de 31% (Storm & Ertel, 2001)”, eles dizem não estar surpresos que a taxa de acerto de 32% relatado por Delgado-Romero e Howard está em torno desse número. Eles também sustentam que a questão dos efeitos de gaveta de arquivo foi examinada de perto por parapsicólogos e considerada “insignificante”.

Eles criticam a 'teoria psíquica' dos autores como baseada na ideia de transmissão de sinal do 'rádio mental', que os parapsicólogos rejeitam. Eles ressaltam que tais estudos podem ser influenciados pelas próprias expectativas dos experimentadores sobre o resultado (o 'efeito do experimentador'), observando que, neste caso, a taxa de acerto de 13% obtida no estudo final, que produziu apenas 7 acertos em 52 tentativas, ficou bem abaixo da média do acaso, um resultado estatisticamente significativo na direção negativa. Salientam ainda que a sua experiência, tendo sido redesenhada a meio, não tenta replicar a investigação original e, portanto, não conta como uma avaliação da literatura.

Perguntam também porque é que os autores interromperam a sua tentativa de replicação da oração intercessória após três estudos, tendo obtido o resultado que esperavam, mas realizaram novos ensaios da experiência de telepatia tendo obtido resultados positivos – uma inconsistência que dizem revelar um “preconceito implícito”. Eles concordam com a recomendação dos autores de utilizar a estatística Bayesiana, pois isso deixaria clara a presença de tal viés.

 

Reitor Radin

No que diz respeito às alegações dos autores sobre o viés de publicação, Dean Radin, cientista-chefe do Instituto de Ciências Noéticas , apontou que o campo da parapsicologia adotou uma política oficial de oposição ao relato de resultados seletivos em 1975. Ele argumentou ainda que o campo é demasiado pequeno para que estudos mal sucedidos possam ser ocultados: um inquérito realizado em 1980 por Susan Blackmore, uma céptica psi, concluiu que o relato seletivo “não é um contribuidor importante” para o relato global de resultados positivos[10]. Ele acrescentou que “as análises de potenciais vieses do filedrawer em meta-análises posteriores desta literatura confirmaram repetidamente que os efeitos do filedrawer não podem explicar de forma plausível os resultados significativos observados[11]”.

 

Literatura

§  Bierman, D.J, & Lobach, E. (2005). Towards More Explicit Means of Assessing Controversial Research Literatures. Humanistic Psychologist 35/3, 1-5.

§  Blackmore, S. (1980). The extent of selective reporting of ESP ganzfeld studies. European Journal of Parapsychology 3, 213-219.

§  Delgado-Romero, E.A., & Howard, G.S. (2005). Finding and correcting flawed research literatures.  Humanistic Psychologist 33/4, 293-303.

§  Hastings, A. (2007). Comment on Delgado-Romero and Howard. Humanistic Psychologist 35/3, 301-302.

§  Meehl, P. E. (1978). Theoretical risks and tabular asterisks: Sir Karl, Sir Ronald and the slow progress of soft psychology. Journal of Consulting and Clinical Psychology 46, 806-834.

§  Milton, J., & Wiseman, R. (1999). Does psi exist? Lack of replication of an anomalous process of information transfer. Psychological Bulletin 125, 387-91.

§  Radin, D. (2006). Finding or Imagining Flawed Research? Humanistic Psychologist 35/3, 297-99.

§  Radin, D. (2013). Supernormal: Science, Yoga and the Evidence for Extraordinary Psychic Abilities. New York: Deepak Chopra Books/Random House.

§  Storm, L., & Ertel, S. (2001). Does psi exist? Comments on Milton and Wiseman’s (1999) meta-analysis of ganzfeld research. Psychological Bulletin 127, 424-33.

 

 

Traduzido com Google Tradutor



[4] Delgado-Romero & Howard (2005), 294.

[5] Delgado-Romero & Howard (2005), 298.

[6] Delgado-Romero & Howard (2005), 298.

[7] Delgado-Romero & Howard (2005), 300.

[8] Hastings (2007).

[9] Bierman e Lobach (2005).

[10] Blackmore (1980), 217.

[11] Radin (2006). Veja também Radin 2013.