sábado, 18 de maio de 2019

ESPÍRITOS INCRÉDULOS E MATERIALISTAS[1]



(Sociedade Espírita de Paris, 27 de março de 1863)

Pergunta – Na evocação do Sr. Viennois, feita na última sessão, encontra-se esta frase: “Vossa prece comoveu muitos Espíritos levianos e incrédulos.” Como podem os Espíritos ser incrédulos? O meio em que se acham não é, para eles, a negação da incredulidade?
Pedimos aos Espíritos que quiserem comunicar-se, que tratem dessa questão, caso julguem conveniente.
Resposta – (Médium: Sr. d’Ambel). A explicação que me pedis não está escrita minuciosamente em vossas obras? Perguntais por que os Espíritos incrédulos ficaram comovidos. Mas vós mesmos não tendes dito que os Espíritos que se acham na erraticidade aí haviam entrado com suas aptidões, conhecimentos e maneira de ver passados? Meu Deus! Sou ainda muito incipiente para resolver a contento as questões espinhosas da doutrina. Não obstante posso, por experiência, a bem dizer recentemente adquirida, responder às questões de fatos. No mundo em que habitais, acreditava-se geralmente que a morte vem de repente modificar a opinião dos que se foram e que a venda da incredulidade é violentamente arrancada aos que na Terra negavam Deus. Aí está o erro, porque, para estes, a punição começa justamente em permanecerem na mesma incerteza relativamente ao Senhor de todas as coisas e a conservarem a mesma dúvida da Terra. Não, crede-me; a vista obscurecida da inteligência humana não percebe instantaneamente a luz. Procede-se na erraticidade ao menos com tanta prudência quanto na Terra; assim, não se deve projetar os raios de luz elétrica sobre os olhos dos doentes que se queira curar.
A passagem da vida terrestre à espiritual oferece, é certo, um período de confusão, de perturbação para a maioria dos que desencarnam. Alguns há, no entanto, que, desprendidos dos bens terrenos ainda em vida, realizam essa transição tão facilmente quanto uma pomba que se eleva no ar. É fácil perceberdes essa diferença examinando os hábitos dos viajantes que embarcam para atravessar os oceanos. Para alguns a viagem é um prazer; para a maioria um sofrimento, uma aflição que durará até o desembarque.
Pois bem! Ocorre o mesmo com quem viaja da Terra ao mundo dos Espíritos. Alguns se desprendem rapidamente, sem sofrimento e sem perturbação, ao passo que outros são submetidos ao mal da travessia etérea. Mas acontece isto: assim como os viajantes que tocam a terra, ao sair do navio, recuperam o equilíbrio e a saúde, também o Espírito que transpõe os obstáculos da morte acaba por se achar, como no ponto de partida, com a consciência limpa e clara de sua individualidade.
É, pois, certo, meu caro Sr. Kardec, que os incrédulos e os materialistas absolutos conservam sua opinião além do túmulo, até a hora em que a razão ou a graça tiver despertado em seu coração o pensamento verdadeiro, ali escondido. Por isso essa difusão de ideias nas manifestações e essa divergência nas comunicações dos Espíritos de além-túmulo; por isso alguns ditados impregnados de ateísmo ou de panteísmo.
Permiti-me, ao terminar, voltar às questões que me são pessoais. Agradeço-vos porque me evocastes; isto ajudou a me reconhecer. Agradeço também as consolações que dirigistes à minha mulher e vos peço continueis vossas boas exortações, a fim de sustentá-la nas provas que a esperam. Quanto a mim, estarei sempre junto a ela e a inspirarei.
Viennois

Pergunta – Compreende-se a incredulidade em certos Espíritos, mas não se compreenderia o materialismo, pois seu estado é um protesto contra o reino absoluto da matéria e o nada depois da morte.
Resposta – (Médium: Sr. d’Ambel). Apenas uma palavra: todos os corpos sólidos ou fluídicos pertencem à substância material; isto está bem demonstrado. Ora, os que em vida só admitiam um princípio na Natureza – a matéria – muitas vezes não percebem ainda, depois da morte, senão esse princípio único, absoluto. Se refletísseis nos pensamentos que os dominaram toda a vida, achá-los-íeis certos, ainda hoje, sob a inteira subjugação desses mesmos pensamentos. Outrora se consideravam como corpos sólidos; hoje se olham como corpos fluídicos: eis tudo.
Notai bem que eles se apercebem sob uma forma claramente circunscrita, conquanto vaporosa, idêntica à que tinham na Terra, em estado sólido ou humano, de tal sorte que não veem em seu novo estado senão uma transformação de seu ser, no qual não haviam pensado. Mas ficam convencidos de que é um encaminhamento para o fim a que chegarão, quando estiverem suficientemente desprendidos, para se diluírem no todo universal.
Nada mais obstinado do que um sábio; e eles persistem em pensar que, nem por ser demorado, esse fim é menos inevitável.
Uma das condições de sua cegueira moral é de aprisionar mais violentamente nos laços da materialidade e, conseguintemente, de impedi-los que se afastem das regiões terrestres ou similares à Terra. E, assim como a maioria dos desencarnados, cativos na carne, não pode perceber as formas vaporosas dos Espíritos que os cercam, também a opacidade do envoltório dos materialistas lhes impede a contemplação das entidades espirituais que se movem, tão belas e tão radiosas, nas altas esferas do império celeste.
Erasto

Outra – (Médium: Sr. A. Didier). A dúvida é a causa das penas e, muitas vezes, dos erros deste mundo. Ao contrário, o conhecimento do Espiritualismo causa as penas e os erros dos Espíritos.
Onde estaria o castigo se os Espíritos não reconhecessem seus erros senão como consequência da realidade penitenciária da outra vida? Onde estaria o seu castigo se sua alma e seu coração não sentissem todo o erro do cepticismo terreno e o nada da matéria? O Espírito vê o Espírito como a carne vê a carne; o erro do Espírito não é o erro da carne e o homem materialista que aqui duvidou não mais duvida lá em cima.
O suplício dos materialistas é lamentar as alegrias e satisfações terrestres, eles que ainda não podem compreender nem sentir as alegrias e as perfeições da alma. E vede o rebaixamento moral desses Espíritos que vivem completamente na esterilidade moral e física, lamentando esses bens que, momentaneamente, constituíram a sua alegria e atualmente constituem o seu suplício.
Agora, é verdade que sem ser materialista pela satisfação de suas paixões terrenas, pode-se sê-lo mais no campo das ideias e do espírito que nos atos da vida. É o que se chama de livres-pensadores e os que não ousam aprofundar as causas de sua existência. No outro mundo estes também serão punidos; nadam na verdade, mas não são por ela penetrados; seu orgulho abatido os faz sofrer e lamentam aqueles dias terrenos em que, ao menos, tinham liberdade de duvidar.
Lamennais

Observação – À primeira vista esta apreciação parece em contradição com a de Erasto. Este admite que certos Espíritos podem conservar as ideias materialistas, enquanto Lamennais pensa que essas ideias são apenas o pesar dos prazeres materiais, mas que tais Espíritos estão perfeitamente esclarecidos quanto ao seu estado espiritual. Os fatos parecem vir em apoio da opinião de Erasto. Desde que vemos Espíritos que, mesmo muito tempo depois da morte, ainda se julgam vivos, dedicam-se ou creem dedicar-se às ocupações terrenas, é que têm completa ilusão quanto à sua posição e não se dão conta absolutamente de seu estado espiritual.
Já que não se julgam mortos, não seria de admirar que tivessem conservado a ideia do nada após a morte, que para eles ainda não veio. Foi sem dúvida neste sentido que quis falar Erasto.
Resposta – Evidentemente eles têm a ideia do nada; mas é uma questão de tempo. Chega o momento em que no alto se rompe o véu e as ideias materialistas se tornam inaceitáveis. A resposta de Erasto assenta sobre fatos particulares e momentâneos; eu não falava senão de fatos gerais e definitivos.
Lamennais

Observação – A divergência era apenas aparente e só resultava do ponto de vista sob o qual cada um encarava a questão.
É bastante evidente que um Espírito não pode ficar perpetuamente materialista. Perguntava-se tão-somente se essa ideia seria necessariamente destruída logo após a morte. Ora, ambos os Espíritos estão de acordo quanto a este ponto e se pronunciam pela negativa. Acrescentemos que a persistência da dúvida sobre o futuro é um castigo para o Espírito incrédulo; é para ele uma tortura tanto mais pungente porque não tem as preocupações terrenas para distraí-lo.




[1] Revista Espírita – Maio/1863 – Allan Kardec

sexta-feira, 17 de maio de 2019

SAÚDE OU DOENÇAS SÃO ESCOLHAS PESSOAIS[1]



Raul de Mello Franco Júnior

A doutrina espírita, manancial de luz e de saúde, adverte: somos responsáveis pelos cuidados com o nosso corpo material e com o nosso corpo espiritual. A matéria apresenta-se em estados que ainda nos são desconhecidos e que impressão alguma causam aos nossos sentidos[2]. Somos energia que vibra e oscila permanentemente: luz condensada num universo de formas.
A nossa capacidade de conhecer, dominar e interagir com esse campo energético faz toda a diferença entre a liberdade da saúde e a escravidão da doença.
A nova biologia, rompendo as fronteiras do determinismo genético e sem as amarras do dogmatismo religioso, ganha paulatinamente a confiança de centenas de pesquisadores e cientistas. Ela já não tem dúvidas: a vida de uma célula (carregamos cerca de 50 trilhões delas) “é controlada pelo ambiente físico e energético em que se encontra e não pelos genes. Os genes são meros modelos moleculares utilizados na construção das células, dos tecidos e órgãos”[3]. É o que a nova ciência denomina “epigenética”.
Para o espírita, isso sequer constitui novidade. Há décadas, André Luiz vem nos ensinando que “cada criatura, com os sentimentos que lhe caracterizam a vida íntima, emite raios específicos e vive na onda espiritual com que se identifica. Cada alma se envolve no círculo de forças vivas que lhe transpiram do ‘hálito’ mental”, pura corrente energética[4]. Em “Evolução em dois mundos” (1959), foi taxativo: “tirando a imprevidência, a imprudência e a falta de higiene, todas as patologias derivam da relação profunda do Espírito e seus campos energéticos mais profundos, que vão aos poucos se manifestando no corpo”.
A aceitação desses pressupostos deve repercutir na dinâmica de vida de cada um. Saúde e doença são trilhas escolhidas desde os primeiros anos da encarnação. As opções pelo meridiano do equilíbrio interior (vigilância dos pensamentos, sentimentos, emoções e preocupações; prece, meditação, leitura edificante etc.) e pela seleção alimentar criteriosa (a fuga do curral alimentar imposto pela sociedade de consumo e pela gastronomia familiar) são os primeiros passos na direção de um corpo saudável. A eles se conectam, entre outros vetores, os hábitos de vida (combate aos vícios e ao sedentarismo; relativização da importância do suporte material etc.) e a habilidade no enfrentamento das doenças (renúncia à busca de soluções químicas ou farmacológicas tão instantâneas quanto perigosas).
Percorre a senda do adoecimento quem não aprende a lidar com as suas fobias. Enlaça o enfraquecimento das forças aquele que deixa de aprimorar a capacidade do autoperdão ou da compreensão da falibilidade alheia (indulgência e perdão). Mergulha nos vagões das sombras do sofrimento quem não encontra tempo para festejar o brilho da vida ao lado das pessoas que ama. Está a gestar o embrião da dor aquele que, no aspecto qualitativo e/ou quantitativo, seleciona o que come e o que bebe unicamente pelo colorido do paladar e do prazer. Pessoas que trocam os recursos da farmácia de Deus, disposta de forma exuberante na estante da natureza, pelas incursões habituais e impulsivas nas drogarias multiplicadas nos centros urbanos (frutos do egoísmo e da ganância do homem) agem como o terrorista que, meticulosamente, constrói a bomba-relógio que, “do dia para a noite”, vai explodir no seu colo. “Não somos meras máquinas bioquímicas que podem recuperar o equilíbrio físico e mental simplesmente tomando medicamentos” (Bruce Lipton).
É imprescindível manter um corpo vigoroso. A alma é prisioneira da carne e dela depende para se movimentar e manter a ilusão da liberdade[5]. Contudo, falha nesse dever o encarnado que não se informa adequadamente ou, negligente, age como se a vida outra coisa não lhe exigisse, senão aguardar a morte.
A partir desta edição, viajaremos juntos pelos campos promissores da saúde preventiva e da medicina holística. Pessoas de todas as crenças (e o espírita, de forma especial) precisam tomar consciência e agir diante das tragédias que as cercam. Populações inteiras são vítimas inconscientes ou inocentes úteis de grandes conglomerados de produção alimentícia (um dos mais badalados nichos da sociedade de consumo), da indústria química e da indústria farmacêutica. Não se pode calar diante deste genocídio silencioso e inconsequente que, de forma impiedosa, abate milhões de pessoas todos os dias! Conhecer as trincheiras de proteção nesta guerra será a missão da nossa coluna ao longo deste ano.


Fonte: O Consolador




[2] O Livro dos Espíritos – Questão 22 – Allan Kardec
[3] A Biologia da Crença – Bruce H. Lipton
[4] Nos domínios da Mediunidade – André Luiz/Francisco C. Xavier - 1955
[5] Evangelho Segundo o Espiritismo – Capítulo XVII – item 11 – Allan Kardec

quinta-feira, 16 de maio de 2019

TRAÇOS DO PRETÉRITO[1]




Miramez

O homem, em suas diferentes encarnações, conserva os traços do caráter físico de existências anteriores?
‒ O novo corpo nenhuma relação tem com o antigo, que está destruído. Entretanto, o Espírito se reflete sobre o corpo. Sem dúvida o corpo não é mais que matéria, mas, malgrado isso, ele é modelado pela capacidade do Espírito, que lhe imprime um certo caráter, principalmente sobre o rosto, e é com fundamento que se designam os olhos como espelho da alma. Por isso, uma pessoa excessivamente feia, quando nela habita um Espírito bom, criterioso e humano, tem alguma coisa que agrada, a passo que existem rostos muito belos que nada fazem sentir e pelos quais se tem, mesmo, repulsa. Poderia crer que só os corpos bem feitos servem de envoltório aos Espíritos mais perfeitos, embora encontres todos os dias homens de bem sob aparências disformes? Sem haver uma semelhança pronunciada, a similitude de gostos e de pendores pode, pois, dar o que se chama “um ar de família”.
O corpo reveste a alma, numa nova encarnação, não tendo nenhuma relação necessária com o corpo que ela deixou, uma vez que pode ele ter tido uma procedência muito diferente, seria absurdo admitir-se uma sucessão de existências com uma semelhança física que não é senão fortuita. Entretanto, as qualidades do Espírito modificam, muitas vezes, os órgãos que servem à sua manifestação e imprimem sobre o rosto, e mesmo ao conjunto de maneiras, um cunho especial. É assim que, sob um envoltório mais humilde, podem-se encontrar expressões de grandeza e de dignidade, enquanto que sob o vestuário de um grande senhor veem-se, às vezes, as expressões da baixeza e da ignomínia. Certas pessoas saídas das posições mais obscuras, adquirem, sem esforços, os hábitos e as maneiras da alta sociedade. Parece que elas reencontram seu ambiente, ao passo que outras, malgrado o seu berço e a sua educação, estão sempre deslocadas nesse meio. Como explicar esse fato senão como um reflexo do que foi o Espírito?
Questão 217/Livro dos Espíritos

Existem certas leis que podem ou não ser aplicadas, isso de conformidade com o lugar ou com a pessoa que vai servir de instrumento. O corpo em formação nada tem a ver com o corpo que o Espírito teve em outra vida, no entanto, ele pode apresentar traços profundos, pela impressão da mente do reencarnante, se esse tem essa força já desenvolvida na sua estrutura espiritual.
Há casos em que o corpo da presente reencarnação de um Espírito parece cópia do outro que ele deixou em passadas existências. Aquela que mais agradou-lhe fica mais fortemente impressa na consciência, esse é o fato. Não que o corpo herde traços de outros corpos por leis que regem a matéria em formação.
A herança mais acentuada, biologicamente falando, são as características físicas dos pais, pois as pessoas imprimem, nos seus próprios gens, a vida que levam, em relação a enfermidade e até ao próprio caráter. Os filhos, então, nascem predispostos a tais enfermidades. Como os Espíritos que se reúnem em família estão espiritualmente endividados, mais ou menos no mesmo nível, eles, sem generalizar, podem vir a sofrer as mesmas doenças dos seus ancestrais.
Como, entretanto, a misericórdia de Deus pelas mãos de Jesus é muito grande, pode-se livrar de muitas enfermidades que vêm pelos fios das heranças, desde quando se compreenda o que deve ser feito para a devida limpeza cármica. O dever do devedor é pagar.
Acontece muitas vezes, e por certo é o que mais acontece, que Espíritos de baixa vibração aparecem em outros corpos com pouquíssimas mudanças, tanto moral quanto física. Somente o tempo modificar-lhes-á, devagarinho, em inúmeras reencarnações, os traços.
Quando já compreendemos essas leis, podemos e devemos nos esforçar na nossa própria melhoria espiritual. Analisemos o que somos e passaremos a ser melhores; observemos nossos pensamentos, analisemos nossa fala, nossa vida, e vejamos se ela está em sintonia com Jesus.
Procuremos com Jesus os meios mais rápidos de saldar nossas contas, que ficaremos livres, com mais rapidez, do grilhão da dor, cuja semente nós mesmos plantamos.
Não devemos pensar que somente em corpos bem moldados se encontram Espíritos de elevação. Pode ser, e quase sempre é, o contrário. Os grandes missionários pedem corpos sem atração física, para que eles possam desempenhar melhor sua missão. Reconheceremos essas almas pela vida que levam, pela presença benfeitora, pelo amor que desprendem na sublimação do próprio amor.
Jesus é o sol espiritual que nos guia a todos. Se queremos melhorar, não nos esqueçamos do Mestre, que Ele não nos esquece. Se queremos viver de boas heranças, devemos procurar herdar as qualidades enobrecidas de Jesus. Basta que queiramos. Comecemos, que Ele ajudar-nos-á na conquista.
Convidamos os pais a observarem os seus filhos, notando o que têm para consertar moralmente e trabalharem com amor, pois Deus opera com todos, no silêncio da vida. Cada esforço de aprimoramento é semente de luz para todos os corações do grupo familiar. O dever da família humana é trabalhar no sentido de todos por um e um por todos. Façamos qual o sol e a chuva, a água e o ar, que operam constantemente sem exigências, que a luz nascerá em nós.




[1] Filosofia Espírita – Volume 5 – João Nunes Maia

quarta-feira, 15 de maio de 2019

DECADÊNCIA ÉTICA[1]



Vianna de Carvalho

Analisando-se a situação socioespiritual do planeta na atualidade, não há como negar-se a presença da destrutiva onda de pessimismo e utilitarismo que domina as criaturas humanas em toda parte.
Apoiados no niilismo, embora os comportamentos rotulados de religiosos de alguns de seus segmentos sociais, o cinismo das pessoas e a decadência da ética dão-nos a dimensão do desespero que avassala as mentes e os corações atormentados.
Em consequência, a violência e o despautério, a drogadição e o erotismo substituem as aspirações de enobrecimento dos seres, como mecanismos escapistas para preencher o vazio existencial e o desencanto que se apossaram do século XX, que se desenhava com perspectivas iluministas, libertadoras, ricas de anseios de felicidade e de beleza.
A amargura toma conta dos indivíduos que se sentem coisificados, enquanto a revolta arma as multidões desvairadas que se levantam contra os abusos do poder, as injustiças sociais, os desregramentos dos dominadores, a desonestidade dos legisladores que perderam o respeito moral, a liberdade, e o direito de viver com o mínimo de honorabilidade que seja...
Pode-se afirmar que a aparente calma que ainda paira sobre algumas nações não esconde os paióis de explosivos prestes a deflagrar o estouro prenunciador das tragédias que produz.
Não se trata, porém, de uma ocorrência inesperada, quando se observam as suas raízes plantadas no fim do século XVIII, por ocasião da Revolução Francesa, quando a tirania substituiu os ideais dos filósofos da liberdade, instaurando os dias do terror. Em desesperada tentativa de manter a ordem na França, Robespierre, chamado o incorruptível, que lutara pelos ideais da fraternidade, da liberdade e da igualdade, não teve forças morais para resistir às pressões do desespero das massas e de outros pensadores, mantendo a guilhotina a funcionar sem trégua, a ponto de tornar-se ultrajante ditador e sanguinário. Vítima de um golpe de seus adversários da Convenção, foi preso e também guilhotinado.
Nesse período difícil, a morte de Deus foi anunciada, e a revolta retirou os vestígios da Sua presença no país, inclusive mudando os nomes de ruas, boulevards e praças que os tivessem de santos ou denominações religiosas, assim os objetos de culto das igrejas, tentando apagar a lembrança da fé e da crença espiritual no território francês.
Logo depois, com o retorno de Deus por meio da Concordata de 1802, firmada por Napoleão Bonaparte com o Vaticano, permaneceram os ódios e resquícios do período de revolta e de perseguições inclementes, dando lugar a um amortecimento ético dos sentimentos. O Iluminisno em declínio favoreceu o Positivismo em ascensão, enquanto as ideias pessimistas e destrutivas de Arthur Schopenhauer espalhavam-se por toda parte, proclamando a desnecessidade de Deus e de qualquer formulação religiosa no comportamento humano.
À medida que o materialismo tomava conta da cultura, a amargura doentia de Friedrich Nietzsche passou a comandar as mentes e os corações desesperados, amparados no ceticismo científico das Academias, que assevera ser a alma uma sudorese cerebral que desaparecia com a morte do encéfalo. Nessa paisagem de morbidez e desencanto, o ateísmo tornou-se a diretriz comportamental dos indivíduos, que logo depois se atiram à guerra perversa de 1869-1870, que ressurgiu entre 1914-1918 e retornou calamitosa entre 1939-1945, com as mais inacreditáveis cargas de ódio e destruição de que a História tem notícia. Muito contribuíram para essa tragédia as ideias do super-homem do referido Nietzsche e o pensamento de Heidegger, que muito influenciou o surgimento do nazismo, partido ao qual ele se filiou por algum tempo, embora rompendo depois quando da perseguição aos professores judeus da Universidade de Freiburg, onde era reitor...
A ética do mais forte substituiu a dos direitos humanos e da dignidade, em face da aristocracia do poder totalitário e mesmo de alguns governantes...
Heidegger influenciou filosoficamente Jean-Paul Sartre com o seu pensamento sobre o ser, servindo de inspiração para o existencialismo e total desinteresse pelos valores ético-morais que conduziram a civilização ao longo dos séculos.
Viver agora e fruir ao máximo, não poucas vezes sem qualquer respeito pelos direitos dos outros, cultivar o prazer até a exaustão, passaram a ser os comportamentos aceitos e divulgados como recurso valioso para a preservação da vida e das experiências de alegria e de bem-estar.
Lamentavelmente, as religiões ortodoxas, incapazes de oferecer resistência filosófica e ética aos absurdos da nova ordem, por se manterem fiéis aos programas medievais totalmente ultrapassados, foram desprezadas e consideradas responsáveis pela miserabilidade do ser humano, pelos seus desaires, pelas suas amarguras.
Carregado pelas heranças teológicas do pecado e da culpa, o ser humano rompeu com as tradições enganosas e preferiu arrostar as consequências da sua liberdade, derrapando na libertinagem.
Sucede que, toda vez quando se arrebentam as algemas da escravidão de qualquer tipo, a ânsia de liberdade é tão grande que, por desconhecimento dos seus limites, aquele que a aspira tomba nos resvaladouros da irresponsabilidade, da agressividade aos direitos alheios, do abuso desrespeitoso.
Assim ocorrendo, desaparece a ética da conduta para apresentar-se o direito de exceção, colocando-se o indivíduo acima da lei, da ordem e de qualquer restrição.
Os avanços da Ciência, demitizando algumas das informações e dogmas religiosos, os milagres de Jesus, que passaram a ser observados do ponto de vista das doutrinas psicológicas e parapsicológicas, reduziram a cultura ao materialismo, desde 1859, quando Charles Darwin, por intermédio do Evolucionismo, aplicou o golpe de misericórdia ao mitológico Criacionismo bíblico, servindo de suporte para a vitalização do ateísmo.
A contribuição da Tecnologia, alargando e aproximando os espaços e as distâncias, facultando a demonstração dos postulados científicos por meio das experiências dos fatos, foi fundamental para a indiferença humana pelos códigos de dignidade e de valorização da própria vida.
O século XX, portanto, herdeiro da revolução filosófico-científica do passado, rapidamente aceitou o novo comportamento que se consolidou durante a revolução hippieista dos anos 60, quando se deram as grandes mudanças de conduta, e a tradições nobres como a família, o casamento, a dignidade, a ordem passaram a ser instituições ultrapassadas.
Irrompendo em avalancha avassaladora, tomou conta da juventude, que se sentia castrada pela intolerância e pelo poder dominador, passando a constituir um novo mundo, um modo diferente de vida...
O aborto, a eutanásia, o suicídio, a agressividade, passaram a ser éticos na linguagem nova, que iam culminar nos homens e mulheres bombas, nos atentados terroristas, no crime organizado, na violência urbana, no alcoolismo exacerbado, no tabagismo, na drogadição e no sexo destituído de qualquer sentido moral e afetivo.
Dando-se largas aos instintos primários, o nadismo, estimulando o erotismo, coisificou os seres humanos, que passaram a vender-se no mercado da luxúria sem qualquer pudor, sob o disfarce de experiências artísticas, desde que economicamente rentáveis.
Nesse comércio hediondo, em que pouquíssimos logram alcançar os patamares elevados, multidões de jovens inexperientes são devorados pelas máfias que o administram, passando os tratores da indiferença sobre os corpos e as almas mutiladas daqueles que ficaram vencidos durante as tentativas iniciais.
Inevitavelmente, houve uma total decadência ética da cultura e da civilização, que passaram a adorar os novos deuses do prazer e do engodo, da utopia e da mentira, embora vivendo-se o vazio existencial que leva à depressão e ao suicídio.
Nada obstante, nesse ínterim surgiu o Espiritismo em 1857, revitalizando a ética moral, baseada nas lições insuperáveis de Jesus, que foram corrompidas pelas ambições e conchavos humanos através dos séculos, desde o dia em que se uniram ao Império Romano, passando de perseguidas a perseguidoras.
Com a revelação dos imortais, a vida passou a ter sentido profundo e significado psicológico indiscutível, como decorrência da proposta filosófica erguida pelos pilotis dos fatos demonstrativos da imortalidade da alma, da vida futura, da Justiça Divina e da Lei de Causa e Efeito, responsável por todos os fenômenos humanos.
A partir de então, embora lentamente, vem sendo restaurada a proposta do amor como fonte inexaurível para a felicidade, em razão dos seus conteúdos otimistas e realistas, que dignificam a espécie humana, proporcionando-lhes os necessários estímulos para desenvolver e atingir as culminâncias da iluminação pessoal.
A falência do novo comportamento niilista encontra-se em toda parte, porque a sua doutrina enganou os seus adoradores, conduzindo-os às aflições superlativas e às angústias dantes jamais vivenciadas.
Aturdidas, essas multidões decepcionadas e sem rumo buscam, mesmo sem o saber, retornar às origens do bem e da alegria, ao encontro da pureza de sentimentos e de convivência nobre, sentindo falta da fraternidade que deve sempre viger entre os seres humanos, sequiosos de paz e de esperança.
Ninguém pode viver em equilíbrio sem a bênção confortadora da esperança que abre perspectivas formosas para o futuro.
O Espiritismo, portanto, possuindo os paradigmas que foram deixados para trás pelo anarquismo e ceticismo, apresenta-os como propostas que levam à ética do dever e da harmonia, proporcionando ventura.
A crença em Deus, a crença na imortalidade da alma, a crença na comunicabilidade dos Espíritos, a crença na reencarnação, a crença na pluralidade dos mundos habitados e as propostas ético-morais de O evangelho segundo o espiritismo, que proporciona uma releitura das lições insuperáveis de Jesus, conforme as conhecemos em as narrativas dos evangelistas, são as novas diretrizes para a construção do ser humano feliz e da sociedade contemporânea, reflexionando e vivendo a vigorosa ética espírita, que resume as mais grandiosas formulações da ancestral diante das novas necessidades que tomam conta da sociedade.
Revigorada, a ética lentamente ressurge e passará a comandar os destinos humanos na direção da paz e da alegria de viver mediante o correto culto dos deveres.




[1] Psicografia de Divaldo Pereira Franco, em Boca Raton, Flórida, EUA, na manhã de 24 de junho de 2009.

terça-feira, 14 de maio de 2019

Transmissão do Pensamento - MEU FANTÁSTICO[1]




Sob este último título, lê-se na “Presse littéraire”, de 15 de março de 1854, o artigo seguinte, assinado por Émile Deschamps:
Se o homem só acreditasse no que compreende, não acreditaria em Deus, nem em si mesmo, nem nos astros que rolam sobre sua cabeça, nem na erva que cresce sob seus pés.
Milagres, profecias, visões, fantasmas, prognósticos, pressentimentos, coincidências sobrenaturais etc., que se deve pensar de tudo isto? Os espíritos fortes saem dessa enrascada com duas palavras: mentira ou acaso. Nada mais cômodo. As almas supersticiosas saem-se bem, ou não se saem. Prefiro muito mais essas almas àqueles espíritos. Com efeito, é preciso ter imaginação para que se possa tê-la doente, ao passo que basta ser eleitor e assinante de dois ou três jornais industriais para saber muito sobre isto e crer tão pouco quanto Voltaire. E, depois, prefiro a loucura à tolice, a superstição à incredulidade; mas, o que prefiro acima de tudo é a verdade, a luz, a razão; busco-as com uma fé viva e um coração sincero; examino todas as coisas e tomo o partido de não ter preconceito por coisa alguma.
Vejamos. Quê! o mundo material e visível está cheio de mistérios impenetráveis, de fenômenos inexplicáveis, e não se haveria de querer que o mundo intelectual, que a vida da alma, que já é um milagre, também tivessem seus fenômenos e seus mistérios!
Por que tal pensamento bom, tal fervorosa prece, tal outro desejo não teriam o poder de produzir ou suscitar certos acontecimentos, bênçãos ou catástrofes? Por que não existiriam causas morais, como existem causas físicas, das quais não nos damos conta? E por que os germes de todas as coisas não seriam depositados e fecundados na terra do coração e da alma, para despontarem mais tarde sob a forma palpável dos fatos? Ora, quando Deus, em raras circunstâncias, e para alguns de seus filhos, julga por bem levantar a ponta do véu eterno e espalhar sobre suas frontes um raio fugidio do archote da presciência, devemos abster-nos de gritar que é absurdo e, assim, de blasfemar contra a luz e a própria verdade.
Eis uma reflexão que tenho feito muitas vezes: Foi dado às aves e a certos animais prever e anunciar a tempestade, as inundações, os terremotos. Diariamente os barômetros nos dizem o tempo que fará amanhã; e o homem não poderia, por meio de um sonho, de uma visão, de um sinal qualquer da Providência, ser advertido algumas vezes de algum acontecimento futuro, que interesse à sua alma, à sua vida, à sua eternidade? Então o Espírito também não tem a sua atmosfera, cujas variações possa pressentir? Enfim, seja qual for a miséria do maravilhoso neste século muito positivo, haveria ainda charme e utilidade em suprimi-lo, se todos aqueles que lhe refletem fracos clarões levassem a um foco comum todos esses raios divergentes; se cada um, depois de ter conscienciosamente interrogado suas recordações, redigisse de boa-fé e depositasse nos arquivos uma ata circunstanciada do que experimentou, do que lhe adveio de sobrenatural e de miraculoso. Talvez um dia se encontre alguém que, analisando os sintomas e os acontecimentos, consiga recompor, em parte, uma ciência perdida. Em todo o caso, comporia um livro que valeria muitos outros.
Quanto a mim, aparentemente sou o que se chama uma pessoa impressionável, porque tive de tudo isto em minha vida, aliás, tão obscura. Sou o primeiro a apresentar o meu tributo, convicto de que esta visão interior tem sempre uma espécie de interesse. Todo o maravilhoso que vos dou, leitores, por menor que seja, passou-se em minha vida real. Desde que sei ler, registro no papel tudo quanto me acontece de sobrenatural. São memórias de um gênero singular.
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No mês de fevereiro de 1846 eu viajava pela França.
Chegando a uma rica e grande cidade, fui dar um passeio em frente às belas lojas de que está repleta. Começou a chover; abriguei-me numa elegante galeria; de repente fiquei imóvel; meus olhos não conseguiam desviar-se da figura de uma jovem, sozinha atrás de uma vitrina de joias. Conquanto muito bela, não foi sua beleza que me fascinou. Não sei que interesse misterioso, que laço inexplicável dominava e prendia todo o meu ser. Era uma simpatia súbita e profunda, sem qualquer conotação sensual, mas de uma força irresistível, como o desconhecido em todas as coisas. Fui empurrado como uma máquina para a loja, por um poder sobrenatural.
Comprei alguns pequenos objetos e paguei, dizendo:
Obrigado, senhorita Sara. A jovem olhou-me com um ar algo surpreso.
– É de causar admiração, continuei, que um estranho saiba o vosso nome, um dos vossos nomes; mas se quiserdes pensar atentamente em todos os vossos nomes, eu os direi sem vacilar.
Faríeis isto?
– Sim, senhor, respondeu ela, meio risonha, meio trêmula.
– Pois bem! Continuei, olhando-a fixamente no rosto, chamai-vos Sara, Adèle, Benjamine N...
– Está certo, replicou ela; e depois de alguns segundos de estupor começou a rir livremente, e eu vi que ela pensava que eu tivesse obtido tais informações na vizinhança, o que me divertiu. Mas eu, convicto de que não sabia uma palavra de tudo isso, fiquei perplexo com esta adivinhação instantânea.
No dia seguinte, e em muitos outros, acorri à bela loja; minha adivinhação se renovava a cada momento. Eu lhe pedia que pensasse em algo, sem mo dizer, e quase imediatamente eu lia em sua face o pensamento não explicado. Pedia-lhe que escrevesse, sem que eu visse, algumas palavras com o lápis; depois de olhá-la um minuto, eu escrevia as mesmas palavras e na mesma ordem. Lia no seu pensamento como num livro aberto e ela não lia no meu: eis a minha superioridade. Mas ela me impunha suas ideias e emoções.
Se pensasse seriamente num objeto; se repetisse intimamente as palavras do escrito, logo eu adivinhava tudo. O mistério estava entre o seu e o meu cérebro, e não entre minhas faculdades de intuição e as coisas materiais. Seja como for, havia-se estabelecido entre nós uma relação tanto mais íntima quanto mais pura.
Uma noite escutei junto ao ouvido uma forte voz, que me gritava: Sara está doente, muito doente! Corri à sua casa; um médico a velava e esperava uma crise. Na véspera à noite Sara tinha voltado com febre ardente; o delírio tinha continuado durante toda a noite. O médico chamou-me à parte e me disse que estava muito receoso. Dessa peça eu via em cheio o rosto de Sara e minha intuição, vencendo a inquietação, fez com que eu dissesse baixinho ao médico: Doutor, quereis saber de que imagens está ocupado o seu sono febril? Neste momento ela se crê na grande Ópera de Paris, onde jamais esteve, e uma dançarina, entre outras ervas, corta uma planta de cicuta e lhe atira dizendo: É para ti. O médico pensou que eu delirasse. Alguns minutos depois a doente despertou pesadamente e suas primeiras palavras foram: ‘Oh! como a Ópera é bonita! mas, por que esta cicuta, que me atira a bela ninfa?’ O médico ficou estupefato. Uma poção, que incluía cicuta, foi administrada a Sara que, em poucos dias, ficou curada.

Os exemplos de transmissão do pensamento são muito frequentes, não, talvez, de maneira tão característica quanto no fato acima, mas sob formas diversas. Quantos fenômenos assim se passam diariamente aos nossos olhos, que são como os fios condutores da vida espiritual, e aos quais, no entanto, a Ciência não se digna conceder a menor atenção! Por certo, nem todos os que os repelem são materialistas; muitos admitem uma vida espiritual, mas sem relações diretas com a vida orgânica. No dia em que essas relações forem reconhecidas como lei fisiológica, ver-se-á realizar-se um imenso progresso, porquanto só então a Ciência terá a chave de uma porção de efeitos aparentemente misteriosos, que prefere negar, por não os poder explicar à sua maneira e com os seus meios, limitados às leis da matéria bruta.
Ligação íntima da vida espiritual e da vida orgânica durante a existência terrena; destruição da vida orgânica e persistência da vida espiritual após a morte; ação do fluido perispiritual sobre o organismo; reação incessante do mundo invisível sobre o mundo visível e reciprocamente: tal é a lei que o Espiritismo vem demonstrar, e que abre à Ciência e ao homem moral, horizontes completamente novos.
Por qual lei da fisiologia puramente material poder-se-iam explicar os fenômenos do gênero do relatado acima? Para que o Sr. Deschamps pudesse ler tão claramente no pensamento da moça, era preciso um intermediário entre ambos, um laço qualquer.
Quem bem refletir sobre o artigo precedente reconhecerá que esse laço é a irradiação fluídica, que dá a visão espiritual, visão que não é obstada pelos corpos materiais.
Sabe-se que os Espíritos não necessitam de linguagem articulada. Compreendem-se sem o auxílio da palavra, apenas pela transmissão do pensamento, que é a linguagem universal. Por vezes isto também se dá entre os homens, porque os homens são Espíritos encarnados e, por esta razão, gozam, em maior ou menor grau, dos atributos e das faculdades do Espírito.
Mas, então, por que a moça não lia o pensamento do Sr. Deschamps? Porque numa visão espiritual estava desenvolvida; no outro, não. Segue-se que ele pudesse ver tudo, ler nos espelhos espirituais, por exemplo, ou ver a distância, à maneira dos sonâmbulos? Não, porque sua faculdade podia estar desenvolvida apenas num sentido especial, e parcialmente. Podia ler com a mesma facilidade o pensamento de todo o mundo? Não o diz, mas é provável que não, pois pode existir, de indivíduo a indivíduo, relações fluídicas que facilitam essa transmissão e não existir do mesmo indivíduo para uma outra pessoa. Ainda não conhecemos senão imperfeitamente as propriedades desse fluido universal, agente tão poderoso e que desempenha tão grande papel nos fenômenos da Natureza. Conhecemos o princípio, e já é muito para nos darmos conta de muitas coisas; os detalhes virão a seu tempo.
Tendo sido o fato acima comunicado à Sociedade de Paris, um Espírito deu a respeito a seguinte instrução:
(Sociedade Espírita de Paris, 8 de julho de 1864 – Médium: Sr. A. Didier)
Os ignorantes – e como os há! – ficam cheios de dúvidas e de inquietação quando ouvem falar de fenômenos espíritas. Segundo eles, a face do mundo está transtornada; a intimidade do coração, dos sentimentos e a virgindade do pensamento são lançadas através do mundo e entregues à mercê do primeiro que vier. Com efeito, o mundo estaria mudado singularmente e a vida privada não estaria protegida atrás da personalidade de cada um, se todos os homens pudessem ler no espírito uns dos outros.
Um ignorante nos diz com muita ingenuidade: Mas a justiça, as perseguições da polícia, as operações comerciais, governamentais, poderiam ser consideravelmente revistas, corrigidas, esclarecidas etc., com o auxílio desses processos. Os erros estão muito espalhados. A ignorância tem isto de particular: faz esquecer completamente o objetivo das coisas, para lançar o espírito inculto numa série de incoerências.
Razão tinha Jesus ao dizer: “Meu reino não é deste mundo”, o que também significava que neste mundo as coisas não se passam como no seu reino. O Espiritismo, que em tudo e por tudo é o espiritualismo do Cristianismo, pode igualmente dizer aos ambiciosos e aos terroristas ignorantes, que o seu grande objetivo não é dar pilhas de ouro a um e deixar a consciência de um ser fraco à mercê de um ser mais forte, e de aliar a força e a fraqueza num duelo eternamente inevitável, prestes a acontecer; não. Se o Espiritismo proporciona satisfações, são as da calma, da esperança e da fé; se às vezes adverte por pressentimentos, ou pela visão adormecida ou desperta, é que os Espíritos sabem perfeitamente que uma ação caridosa particular não transtornará a superfície do globo. Aliás, se se observar a marcha dos fenômenos, o mal aí tem uma parte mínima. A ciência funesta parece relegada nos alfarrábios dos velhos alquimistas, e se Cagliostro voltasse, certamente não viria armado da varinha mágica ou do frasco encantado com que se apresentava, mas com sua força elétrica, comunicativa, espiritualista e sonambúlica, força que todo ser superior possui em si e que, ao mesmo tempo, toca o coração e o cérebro.
Como eu dizia ultimamente (o Espírito faz alusão a outra comunicação), a adivinhação era o maior dom de Jesus.
Destinados a se tornarem superiores, como Espíritos, pedimos a Deus uma parte dos raios que concedeu a certos seres privilegiados, que facultou a mim mesmo e que eu poderia ter espalhado mais judiciosamente.
Mesmer

Observação – Não há uma só das faculdades concedidas ao homem da qual este não possa abusar, em virtude de seu livre-arbítrio.
Não é a faculdade que é má em si, mas o uso que dela se faz. Se os homens fossem bons, nenhuma seria de temer, porque ninguém as usaria para o mal. No estado de inferioridade em que ainda se acham os homens na Terra, a penetração do pensamento, se fosse geral, seria, talvez, uma das mais perigosas, porque se tem muito a esconder, e muitos podem abusar. Mas, sejam quais forem os inconvenientes, se ela existe é um fato que se deve aceitar, por bem ou por mal, pois não se pode suprimir um efeito natural. Deus, porém, que é soberanamente bom, mede a extensão dessa faculdade pela nossa fraqueza. Ele no-la mostra de vez em quando, para fazer-nos compreender melhor a nossa essência espiritual e nos advertir de trabalhar a nossa depuração, para não termos de temê-la.




[1] Revista Espírita – Outubro/1864 – Allan Kardec

segunda-feira, 13 de maio de 2019

Maurice Lachâtre[1]




Maurice Lachâtre é uma das figuras mais luminosas e corajosas da França, no século XIX.
Nascido em 14 de outubro de 1814, em Issoudun, no Departamento de Indre(França), Maurice Lachâtre mudou-se ainda jovem para Paris, atraído pela borbulhante vida intelectual da capital francesa.
Editor e escritor, foi em ambas as atividades o contestador por excelência, em choque permanente com o regime político e a religião católica dominante.
Em 1857, foi condenado a um ano de prisão e a uma multa de seis mil francos, por ter editado o romance Os mistérios do povo, de Eugén Sue, que difundia os ideais socialistas.
No ano seguinte, sofreu uma nova condenação pelo regime de Napoleão III (que Victor Hugo chamou de Napoléon, le petit), pela publicação do Dicionário Universal Ilustrado. A pena era duríssima: seis anos de prisão.
Para escapar, Lachâtre refugiou-se na Espanha, estabelecendo-se como livreiro em Barcelona. Homem inquieto, atento às novidades, acompanhava o grande movimento de renovação espiritual que surgia em seu país.
Em 1861, escreveu a Allan Kardec, solicitando-lhe a remessa de livros espíritas, que desejava comercializar em sua livraria. Kardec enviou dois caixotes, contendo 300 livros. A remessa atendia a todos os requisitos legais da alfândega espanhola, mas a sua liberação foi sustada, sob a alegação de ser indispensável a aprovação do bispo de Barcelona, Antonio Palau y Termens.
Concluiu o bispo que se tratava de livros perniciosos, que deviam ser lançados ao fogo por serem imorais e contrários à fé católica. A execução ocorreu no dia 9 de outubro de 1861, ficando conhecida entre os espíritas como o Auto de Fé de Barcelona.
A partir daí, os padres passaram a vigiar de perto as publicações de Lachâtre. O dedo da Igreja encontra-se por trás da sentença da justiça francesa, de 27 de janeiro de 1869, que condenava à destruição a “História dos Papas”, que Lachâtre publicara em 1842-43, em dez volumes. Não foi o suficiente para abatê-lo.
Em 1870, quando ocorre a Comuna, Lachâtre retorna a Paris, num lance de ousadia, e passa a colaborar no jornal Vengeur, de Félix Pyat. A vitória do governo e a violentíssima repressão levaram-no de volta a Espanha, onde manteve a sua intensa atividade intelectual.
Em 1874, publicou dois livros, a “História do Consulado e do Império” e a “História da Restauração”. Seis anos depois, saía a “História da Inquisição”.
Com a anistia, retornou à França, fundou uma nova editora, em Paris, e entregou-se de corpo e alma à sua grande obra, o “Novo Dicionário Universal”, considerada por contemporâneos como a maior enciclopédia de conhecimentos humanos até então publicada, incluía, inclusive, todos os termos específicos do vocabulário espírita.
Maurice Lachâtre faleceu em 09 de março de 1900, em Paris.

sábado, 11 de maio de 2019

É SEMPRE ASSIM[1]



Orson Peter Carrara

É comum, muito comum, que toda iniciativa, toda ideia inovadora, toda postura que altere paradigmas e tente vencer preconceitos ou modelos ultrapassados, encontre resistência, encontre circunstâncias desafiadoras, contrárias e mesmo pessoas que – muitas vezes até com violência, ainda que velada – movimentam forças e opiniões para desmotivar ou destruir anseios de progresso ou de mudanças…
Note-se que nomes famosos ou não, que de certa forma alteraram padrões de comportamento, trouxeram inovações que beneficiaram muita gente ou provocaram benéficas mudanças no modus operandi – seja de uma empresa, de uma instituição, de uma nação ou mesmo da civilização – nunca encontraram facilidades. Ao contrário, tudo parecia conspirar contra. Muitos obstáculos se apresentaram, aparentemente insuperáveis como verdadeiros testes de paciência e perseverança.
Isso está bem caracterizado no espetacular filme "O Menino que descobriu o vento", cuja sinopse deixo ao leitor pesquisar, para estimular a curiosidade e ampliar o prazer da busca pelo filme, disponível no Netflix. De lançamento muito recente, eis opção que desejo recomendar ao leitor, pois as lições ali contidas de perseverança, coragem, fé e determinação são marcantes, sem falar dos exemplos variados do que é capaz a corrupção, ou dos efeitos danosos da omissão política ou mesmo do desinteresse pelo bem da coletividade. Além, é claro, dos benefícios todos da humildade e da confiança na vida.
Não deixe, pois, de ver. Emoção e reflexão garantidas.
Para bem ilustrar nosso raciocínio, vale buscar o livro A Gênese, em seu capítulo XVI, item 12, onde encontramos:
As mais das vezes, os acontecimentos vulgares da vida privada são consequência da maneira de proceder de cada um: este, de acordo com as suas capacidades, com a sua habilidade, com a sua perseverança, prudência e energia, terá êxito naquilo em que outro verá malogrados todos os seus esforços, por efeito da sua inaptidão, de sorte que se pode dizer que cada um é o artífice do seu próprio futuro, futuro que jamais se encontra sujeito a uma cega fatalidade, independente da sua personalidade. Conhecendo-se o caráter de um indivíduo, facilmente se lhe pode predizer a sorte que o espera no caminho por onde haja ele enveredado.

Parece-nos muito oportuno refletir esse ângulo das experiências humanas…