quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

A ESMOLA DA COMPAIXÃO[1]



Irmão X


De portas abertas ao serviço da caridade, a casa dos Apóstolos em Jerusalém vivia repleta, em rumoroso tumulto.
Eram doentes desiludidos que vinham rogar esperança, velhinhos sem consolo que suplicavam abrigo. Mulheres de lívido semblante traziam nos braços crianças aleijadas, que o duro guante do sofrimento mutilara ao nascer, e, de quando em quando, grupos de irmãos generosos chegavam da via pública, acompanhando alienados mentais para que ali recolhessem o benefício da prece. Numa sala pequena, Simão Pedro atendia, prestimoso.
Fosse, porém, pelo cansaço físico ou pelas desilusões hauridas ao contato com as hipocrisias do mundo, o antigo pescador acusava irritação e fadiga, a se expressarem nas exclamações de amargura que não mais podia conter.
Observa aquele homem que vem lá, de braços secos e distendidos? ‒ gritava para Zenon, o companheiro humilde que lhe prestava concurso ‒ aquele é Roboão, o miserável que espancou a própria mãe, numa noite de embriaguez... Não é justo sofra, agora, as conseqüências? E pedia para que o enfermo não lhe ocupasse a atenção.
Logo após, indicando feridenta mulher que se arrasava, buscando-o, exclamou, encolerizado:
Que procuras, infeliz? Gozaste no orgulho e na crueldade, durante longos anos...
Muitas vezes, ouvi-te o riso imundo à frente dos escravos agonizantes que espancavas até à morte... Fora daqui! Fora daqui!...
E a desmandar-se nas indisposições de que se via tocado, em seguida bradou para um velho paralítico que lhe implorava socorro:
Como não te envergonhas de comparecer no pouso do Senhor, quando sempre devoraste o ceitil das viúvas e dos órfãos? Tuas arcas transbordam de maldições e de lágrimas. . . O pranto das vítimas é grilhão nos teus pés. . .
E, por muitas horas, fustigou as desventuras alheias, colocando à mostra, com palavras candentes e incisivas, as deficiências e os erros de quantos lhe vinham suplicar reconforto.
Todavia, quando o Sol desaparecera distante e a névoa crepuscular invadira o suave refúgio, modesto viajante penetrou o estreito cenáculo, exibindo nas mãos largas nódoas sanguinolentas.
No compartimento, agora vazio, apenas o velho pescador se dispunha à retirada, suarento e abatido.
O recém-vindo, silencioso, aproximou-se, sutil, e tocou-o docemente.
O conturbado discípulo do Evangelho só assim lhe deu atenção, clamando, porém, impulsivo:
Quem és tu, que chegas a estas horas, quando o dia de trabalho já terminou?
E porque o desconhecido não respondesse, insistiu com inflexão de censura:
Avia-te sem demora! Dize depressa a que vens...
Nesse instante, porém, deteve-se' a contemplar as rosas de sangue que desabotoavam naquelas mãos belas e finas. Fitou os pés descalços, dos quais transpareciam, ainda vivos, os rubros sinais dos cravos da cruz e, ansioso, encontrou no estranho peregrino o olhar que refletia o fulgor das estrelas...
Perplexo e desfalecente, compreendeu que se achava diante do Mestre, e, ajoelhando-se, em lágrimas, gemeu, aflito:
Senhor! Senhor! Que pretendes de teu servo?
Foi então que Jesus redivivo afagou-lhe a atormentada cabeça e falou em voz triste:
Pedro, lembra-te de que não fomos chamados para socorrer as almas puras... Venho rogarte a caridade do silêncio quando não possas auxiliar! Suplico-te para os filhos de minha esperança a esmola da compaixão...
O rude, mas amoroso pescador de Cafarnaum, mergulhou a face nas mãos calosas para enxugar o pranto copioso e sincero, e quando ergueu, de novo, os olhos para abraçar o visitante querido, no aposento isolado somente havia a sombra da noite que avançava de leve.

 


[1] Contos e Apólogos – Irmão X / Francisco C. Xavier

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

A síndrome da super memória (HSAM) e sua base espiritual[1]

              “(O Espírito) pode lembrar-se dos mais minuciosos pormenores e incidentes, assim relativos aos fatos, como até aos seus pensamentos. Não o faz, porém, quando não tenha utilidade.” (O Livro dos Espíritos, A. Kardec, questão # 306a).

Ilustração de Gustave Doré (Wikipédia) para o "Le Petit Poucet" de Charles Perrault em "Histoires ou Contes du Temps passé: Les Contes de ma Mère l'Oye” (1697)

Ademir Xavier


 Artigos acadêmicos promovidos por textos de divulgação na internet refs.(1,2,3) relatam o reconhecimento recente de uma "nova" anomalia psicológica: a "Memória Autobiográfica Altamente Superior", em inglês HSAM ou "Highly Superior Autobiographical Memory" (também chamado "Hipertimesia").
Essa anomalia é caracterizada pela capacidade de alguns indivíduos ‒ a estatística de casos reportados é de 60 no mundo ‒ de se lembrarem de forma bastante detalhada de eventos da sua vida. Um dos casos que chama a atenção é o de Rebecca Sharrock, que se lembra de quando era bebê e de acontecimentos de sua primeira infância, embora não tenha lembranças intrauterinas. Outro é o de Markie Pasternak (2). "Leva certo tempo para se lembrar", comenta Markie, que se recorda de eventos com precisão de uma hora. "Eu não decoro as coisas", ela diz, "não é assim que funciona, eu tenho que ver as coisas, estar lá, tenho que viver, do contrário, aquilo não me afeta" (2).
Tais relatos são muitas vezes tomados com ceticismo, afinal, nossas memórias são eventos privados, que não podem ser "comprovados" externamente. Com a raridade dos casos, há céticos obtusos (os "neuro céticos") que consideram todos fraudes. Para eles essas memórias são baseadas em registros obsessivos em agendas de papel... De uma forma ou de outra, os poucos casos de super memória hoje fazem parte de material de pesquisa realizada no "Centro de Neurobiologia da Memória e do Aprendizado" da UC Irvine (4). De acordo com a descrição desse centro de pesquisa, responsável pelo registro e classificação da síndrome de forma pioneira em 2006 (5):
Indivíduos que tem HSAM têm uma habilidade superior de se lembrar de detalhes específicos de eventos autobibliográficos, gastam uma grande quantidade de tempo lembrando de seu passado e têm uma compreensão detalhada do calendários e de suas características. (4)
O indivíduo não só consegue dizer qual o dia da semana a que se refere determinada data (sem nenhum tipo de cálculo, apenas de "memória da data" mesmo), mas também se lembra em detalhes do que fez ou sofreu naquele dia específico. De acordo com testes feitos na instituição, indivíduos com HSAM não demonstram habilidade superior em testes padrão de memória em comparação a pessoas consideradas "normais". Há também indícios de que a capacidade extraordinária de se lembrar de detalhes do passado seja um empecilho à realização de atividades do dia a dia, mas, ao que parece, portadores dessa capacidade apreciam ser exatamente como são.
A que podemos atribuir essa capacidade? Para a ciência desprovida da ideia de espírito imortal, a HSAM deve ser atribuída a alguma anomalia neuronal importante ‒ possivelmente herdada (dai a crença em uma base genética) e rastreável por meio de exames (com os de imagem por ressonância magnética). Segundo a página da ref.(4), algumas evidências observadas do cérebro indicam "regiões ou redes neurais específicas que se distinguem de grupos de controle, embora esse trabalho ainda seja bastante preliminar" (veja, sobre isso a ref.(6)). A cautela se justifica, já que o estudo foi feito com base em apenas um indivíduo e variações anatômicas do cérebro tendem a ocorrer de forma distribuída na população. Ou seja, pode ser o caso de que por mera chance aquele indivíduo que mostra HSAM tem também um cérebro algo diferente anatomicamente.
 
A HSAM e sua base no espírito
Independente da explicação materialista, chama a atenção a um espírita com alguma leitura de O Livro dos Espíritos (LE), de A. Kardec, as claras bases espirituais dessa nova capacidade. Basta para isso lembrar a questão #306 e # 306a:
306. O Espírito se lembra, pormenorizadamente, de todos os acontecimentos de sua vida? Apreende o conjunto deles de um golpe de vista retrospectivo?
‒ Lembra-se das coisas, de conformidade com as consequências que delas resultaram para o estado em que se encontra como Espírito errante. Bem compreendes, no entanto, que muitas circunstâncias haverá de sua vida a que não ligará importância alguma e das quais nem sequer procurará recordar-se.
a) Mas, se o quisesse, poderia lembrar-se delas?
‒ Pode lembrar-se dos mais minuciosos pormenores e incidentes, assim relativos aos fatos, como até aos seus pensamentos. Não o faz, porém, quando não tenha utilidade.
As respostas dadas pelos Espíritos também afirmam que o espírito se interessa pelas lembranças que tenham impacto em sua vida maior, principalmente as de vidas anteriores. Não é que o Espírito não tenha a capacidade de se lembrar, mas sim que, a medida que evolui, atribui menos importância aos pequenos fatos do dia a dia que em nada ajudariam ao seu progresso:
308. O Espírito se recorda de todas as existências que precederam a que acaba de ter?
Todo o seu passado se lhe desdobra à vista, quais a um viajor os trechos do caminho que percorreu. Mas, como já dissemos, não se recorda de modo absoluto de todos os seus atos. Lembra-se destes na medida da influência que tiveram na criação do seu estado atual. Quanto às primeiras existências, as que se podem considerar a infância do Espírito, essas se perdem no vago e desaparecem na noite do esquecimento.
É compreensível que as lembranças das primeiras existências tenham se perdido, uma vez que a própria estrutura corpórea era menos aprimorada, de forma que concluímos que, quanto mais evoluído o Espírito, tanto maior será sua capacidade de reter, na memória, pequenos fatos. É provável que a condição da HSAM reflita uma modificação corporal recente (afinal o corpo também está evoluindo) que leve a disseminação dessa capacidade na população em um futuro ainda distante (e então a Hipertimesia será "epidêmica"...).
Na figura acima, esta imagem simboliza o funcionamento da memória. Lembrar-se significa jogar luz e "ver de novo", através da lanterna do espírito, nas memórias do passado que são registradas de forma perene na mente imortal. Dai que a falta da luz não significa que não há memórias, mas que essas jazem na escuridão criada pelo corpo físico (leia-se "cérebro") como uma restrição imposta ao espírito encarnado. 
Também chama a atenção as desvantagens da HSAM, que nos remetem à importância do esquecimento dos fatos passados, uma necessidade que o Espiritismo também foi pioneiro em identificar. Sobre isso, a ref.(7) de J. Marshall, publicada na revista "New Scientist" parece validar essa relevante lição espírita ao afirmar que o "esquecimento é a chave para uma mente saudável". Certamente é, se tais fatos anteriores prejudicarem nosso progresso espiritual, exatamente como previram os Espíritos no LE.  
Não há dúvidas para nós de que a HSAM se acha estabelecida no espírito imortal e o cérebro é apenas a interface que permite registrar tais fatos a partir do mundo material externo (ver Fig. acima). Se ele os registra, é ele também que os oculta em grande parte da visão interna pela qual o espírito se lembra e retém em sua memória "espiritual" todos esses acontecimentos. Ainda que, no estado encarnado, ele não se lembre de um fato porque passou ‒ seja na presente existência, mas, principalmente, nas passadas ‒ isso não implica que ele não o guarde, retido nas camadas mais profundas de sua memória extrafísica.
Para leitores interessados em publicações acadêmicas sobre o assunto, recomendamos a leitura de (5) a (7).
 
 
Referências:
1 - A mulher que lembra de como era ser um bebê:
 2 - Only 60 People in the World Have This Insanely Powerful Memory:
3 - TV24. Esta mulher lembra-se de tudo o que viveu desde que nasceu:
4 - Center for the Neurobiology of Learning and Memory, C CNLM Ayala School of Biological Sciences. Highly Superior Autobiographical Memory:
5 - Parker, E. S., Cahill, L., & McGaugh, J. L. (2006). A case of unusual autobiographical remembering. Neurocase, 12(1), 35-49.
6 - LePort, A. K., Mattfeld, A. T., Dickinson-Anson, H., Fallon, J. H., Stark, C. E., Kruggel, F., ... & McGaugh, J. L. (2012). Behavioral and neuroanatomical investigation of highly superior autobiographical memory (HSAM). Neurobiology of learning and memory, 98(1), 78-92.
7 - Marshall, J. (2008). Forgetfulness is Key to a Healthy Mind. New Scientist Magazine, (2643). Ver:




terça-feira, 5 de dezembro de 2017

A PINTURA E A MÚSICA[1]

(Sociedade Espírita de Paris – Médium: Sr. Alfred Didier)


 

A arte foi definida cem mil vezes: é o belo, o verdadeiro, o bem. A música, que é um dos ramos da arte, pertence inteiramente ao domínio da sensação. Entendamo-nos e tratemos de não ser obscuro. A sensação se produz no homem quando ele compreende a arte de duas maneiras distintas, mas estreitamente ligadas; a sensação do pensamento que tem por conclusão a melancolia ou a filosofia, e, depois, a sensação que pertence por inteiro ao coração. A música, a meu ver, é a arte que vai mais diretamente ao coração. A sensação – havereis de compreender-me – está toda no coração; a pintura, a arquitetura, a escultura, a pintura antes de tudo, atingem muito mais a sensação cerebral.
Numa palavra, a música vai do coração ao Espírito, a pintura do pensamento ao coração. A exaltação religiosa criou o órgão.
Quando na Terra a poesia toca o órgão, os anjos do céu lhe respondem. Assim, a música séria, religiosa eleva a alma e os pensamentos. A música vulgar faz vibrar os nervos, nada mais. Eu bem gostaria de indicar algumas personalidades, mas não tenho esse direito: não estou mais na Terra. Amai o Réquiem de Mozart, que o matou. Não desejo, mais que os Espíritos, a vossa morte pela música, a morte viva, contudo; aí está o esquecimento de tudo quanto é terreno, pela elevação moral.




[1] Revista Espírita – Maio/1861 – Allan Kardec

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

ALEXANDER N. AKSAKOF[1]


 


Nascido em Repievka (Rússia) em 27 de maio de 1832 e desencarnado em S. Petersburgo, (atual cidade de Leningrado), a 4 de janeiro de 1903.
Dentre os grandes cientistas que se notabilizaram na investigação e análise dos fenômenos espíritas, nos últimos anos do século passado, destaca-se a figura respeitável de Alexander N. Aksakof, membro de tradicional família da nobreza russa, doutor em filosofia e conselheiro íntimo de Alexandre III, Czar de todas as Rússias.
No desenrolar de sua mocidade, demonstrou acentuada tendência para uma vida de seriedade, palmilhando caminho diferente e revelando notáveis qualidades de investigador, preocupado com as coisas da alma e do mundo espiritual. Devido a essa sua inclinação, teve que enfrentar prolongados anos de vicissitudes espirituais e sociais.
Conquistando o pergaminho de doutor, enveredou pelos árduos caminhos que conduzem ao êxito no campo do conhecimento, tornando-se lente da Academia de Leipzig, na Alemanha.
Integrando-se resolutamente no campo da investigação psíquica, tornou-se diretor do jornal "Psychische Studien", órgão publicado na Alemanha. Não satisfeito com o seu trabalho na direção desse órgão, lançou em Moscou, no ano de 1891, a revista de estudos psíquicos "Rebus", a primeira do gênero que apareceu na Rússia.
O seu nome já era bastante conhecido, como notável doutor em filosofia, quando sustentou viva polêmica com o filósofo alemão, Dr. von Hartmann, no decurso da qual refutou, com sobeja superioridade científica e demonstrações irretorquíveis, as explicações do sábio alemão sobre os fenômenos espíritas, aos quais atribuía um fundo biológico.
Aksakof realizou numerosas experiências e observações no campo científico, tendo realizado trabalhos tão profundos, tão interessantes, que até hoje jamais foram excedidos em matéria de Espiritismo experimental. Para a consecução dessa finalidade, valeu-se do valioso concurso da célebre médium italiana Eusápia Paladino. Com fundamento nesses trabalhos publicou na Alemanha o seu famoso livro "Animismo e Espiritismo", em dois volumes, obra de fôlego impressionante e insuperável em todo o mundo.
Participou ainda de elevado número de experimentação, valendo-se do concurso de médiuns famosos, do que resultou a divulgação do seu notável relatório da "Comissão de Professores", que se reuniu em Milão (Itália), no ano de 1892, a fim de dar parecer sobre os fenômenos observados na obscuridade, baseado nas considerações expressas pelo grande criminalista italiano, Cesare Lombroso, que a essa comissão se confessou envergonhado e condoído, em carta do próprio punho, escrita ao professor Ernesto Giolfi.
Dessa famosa comissão de professores fizeram parte os seguintes doutores: Alexander Aksakof, lente da Academia de Leipzig, diretor do jornal "Psychische Studien" e conselheiro de S.M. o Imperador da Rússia; Giovanni Schiaparèlli — Diretor do Observatório Astronômico de Milão; Dr. Carl Du Prel — Doutor em Filosofia de Munique; Ângelo Brofferio — Professor de Filosofia; Giuseppe Gerosa — Professor de Física da Escola Real Superior de Agricultura de Porcini; G. M. Ermacora — Professor de Física; Giorgio Finzi — Professor de Física; Professor Chiaia; Charles Richet — Professor da Faculdade de Medicina de Paris e diretor da "Revista Científica"; e Cesare Lombroso, notável criminalista italiano.
Mais tarde com o valioso concurso dos médiuns Elisabeth d'Esperance e Politi, além da já mencionada Eusápia Paladino, Cesare Lombroso expõe, de forma definitiva, o resultado de suas experiências realizadas quinze anos depois. Esse trabalho de Lombroso corroborou de forma decisiva tudo aquilo que Aksakof havia descrito em sua obra.
O livro de Aksakof "Animismo e Espiritismo" foi uma réplica à brochura que o célebre filósofo alemão Eduardo von Hartmann — continuador de Schopenhauer — fez editar em 1885, abordando aspectos do Espiritismo. A primeira edição alemã, subordinada ao título "Animismus und Spiritismus" foi publicada em Leipzig, no ano de 1890, provocando da parte do doutor von Hartmann uma resposta à qual deu o título: "A Hipótese dos Espíritos e seus Fantasmas". No ano de 1891, ele voltou novamente, com bastante insistência, procurando reafirmar os argumentos que já havia exposto. Nessa época Alexander Aksakof já estava com a saúde bastante combalida, entretanto, o sábio Carl Du Prel se encarregou de continuar a polêmica com aquele adversário tão temível.
No prefácio de sua monumental obra, retro citada, escreveu Aksakof:
Não pude fazer outra coisa mais do que afirmar publicamente o que vi, ouvi e senti; e quando centenas, milhares de pessoas afirmam a mesma coisa, quanto ao gênero do fenômeno, apesar da variedade infinita das particularidades a fé no tipo de fenômeno se impõe.
Escreveu ainda Aksakof, em fevereiro de 1890:
Interessei-me pelo movimento espírita desde 1855 e, desde então, não deixei de estudá-lo em todas as suas particularidades e através de todas as literaturas. Durante muito tempo aceitei os fatos apoiado no testemunho alheio; foi só em 1870 que assisti à primeira sessão, em um círculo íntimo que eu tinha organizado.
Não fiquei surpreendido de verificar que os fatos eram realmente tais quais me tinham sido referidos por outros; adquiri a convicção profunda de que eles nos ofereciam — como tudo o que existe na Natureza — uma base verdadeiramente sólida, um terreno firme para a fundação de uma ciência nova que seria talvez capaz, em um futuro remoto, de fornecer ao homem a solução do problema da sua existência. Fiz tudo o que estava ao meu alcance para tornar os fatos conhecidos e atrair sobre o seu estudo a atenção dos pensadores isentos de preconceitos.




[1] Personagens do Espiritismo - Antônio de Souza Lucena e Paulo Alves Godoy

domingo, 3 de dezembro de 2017

NO QUE CONSISTE O NOSSO PLANEJAMENTO REENCARNATÓRIO[1]


 
Adriana Machado


Fazemos uma ideia muito errada sobre o que é o nosso planejamento reencarnatório. E nos equivocamos porque temos ideias muito deturpadas do que é sairmos vencedores, termos boas experiências, superarmos nossas dificuldades.
Enquanto não percebermos que a nossa existência não se resume a um punhado de experiências que nos farão sofrer, não compreenderemos a essência de nossa própria realidade.
E porque pensamos isso? Primeiro, porque muitos ainda acreditam que é pelo sofrimento que seremos felizes! Interpretamos, equivocadamente, que sendo a dor necessária para o nosso crescimento, o sofrimento também o será, como se um dependesse do outro, como fossem um só. Mas, hoje, mais do que nunca, esses conceitos estão sendo explicados de uma forma mais simples e libertadora: dor e sofrimento são dois aspectos de uma experiência, sendo que a primeira é a forma que encaramos a experiência em que vivemos e o segundo, como nos deixamos senti-la.
Quando é afirmado que a dor é necessária, está se dizendo, simplesmente, que a maioria de nós, seres terrenos, nesta etapa evolutiva, somente nos freamos quando algo “desagradável” aos nossos olhos nos acontece. Esse algo, normalmente, é um alarme que nos faz perceber que precisamos parar e descobrir, de uma forma mais racional e sem destemperos, qual o caminho que nos retirará daquela trajetória desastrosa que estávamos percorrendo. E por que digo “aos nossos olhos”? Porque tal circunstância pode ser horrível para nós e não ser para um outro alguém. Eu posso perder a paz em uma circunstância que outra pessoa a vivenciaria sem muitos tumultos... Por isso, a dor é subjetiva, da mesma forma que a intensidade de nosso sofrimento também é. Ambos, serão avaliados pelo indivíduo e dada a sua importância e intensidade segundo a sua forma de enxergar a vida.
Mas, o que isso tem a ver com a programação reencarnatória? Tudo, porque ambas serão produzidas pelo indivíduo segundo a sua noção consciente ou inconsciente de seus débitos e trabalhadas em suas existências materiais. Está muito claro para mim que, os nossos débitos são contraídos pelas nossas ações equivocadas, mas eles só são mantidos pela nossa consciência culpada. Mesmo quando pensamos naquele indivíduo que não tem noção exata de seus equívocos e é aprisionado pelos seus algozes no plano imaterial, isso só acontece porque ele, como qualquer um de nós, já “sabe” o que é certo e errado, e ele “vibra” conforme este entendimento. Desde a vinda dos grandes Mestres, incluindo Jesus, não podemos mais dizer que não sabemos onde erramos.
Por isso, quando participamos de nossa programação reencarnatória, temos em nossa mente o que queremos superar e se possível “pagar” para nos vermos livres de nossa consciência perturbada. Elegemos muitas possíveis experiências não especificadas[2], mas úteis para o nosso desabrochar e, na ilusão de um menino pequeno que acha que se esconde atrás de suas próprias mãos, enxergamos muita dor e empreendemos muito sofrimento nelas para nos vermos pagando por cada erro cometido.
Precisamos compreender que sermos vencedores em uma existência terrena, termos boas experiências e superarmos nossas dificuldades depende de como vemos o que recebemos da vida e estas podem ser por nós transmutadas para um olhar mais humano e caridoso para conosco. Se não aprendermos isso, ao acreditarmos que precisaremos padecer os horrores de uma doença terminal para nos livrarmos de nossos males, será isso que construiremos para nós ao final de nossa existência. Assim, atendendo ao nosso desejo, a vida nos dará a chave de nossa libertação (a doença terminal) para que alcancemos o objetivo de nossa programação reencarnatória que é, tão somente, alcançarmos a nossa felicidade espiritual.




[2] Em nosso planejamento, com raras exceções, não escolhemos passar especificamente por uma avalanche ou um tiroteio, uma queda de avião ou acidente de carro... Escolheremos, de uma forma geral, passar por uma experiência que nos ajudará a compreender o valor da vida, da família ou do emprego que nos sustenta... Daí, as circunstâncias serão construídas a partir de nossas ações, serão o resultado de nossas construções segundo as nossas escolhas de toda uma vida.

sábado, 2 de dezembro de 2017

CONTATO COM ESPÍRITOS NO PRESÍDIO[1]


 

Wellington Balbo

 

Alguns anos atrás que minha filha, Olívia, começou a queixar-se de influência espiritual.
Segundo ela, o Espírito de uma menina a perseguia causando-lhe embaraços de todos os tipos. Falava com ela e aparecia-lhe em sonhos.
Como na época morávamos juntos, resolvi, certo dia, conversar com o Espírito que perseguia minha filha.
Fomos até a sala, oramos, e eu, em voz alta, iniciei a fala. Disse para o Espírito sobre Jesus, abordei a questão do amor, perdão, vida após a morte e pedi que seguisse seu caminho, deixando Olívia em paz.
A situação resolveu-se e, desde então minha filha não mais acusou a presença da entidade que apoquentava sua vida.
Bem provável ter sido o caso de um Espírito ainda sem conhecer sua real condição. Parecia-me, realmente, uma entidade muito mais perdida do que má.
Por que contei este fato?
Porque algumas pessoas consideram que não se deve estabelecer contato com os Espíritos fora do ambiente do centro espírita.
Esquecem, todavia, que os Espíritos estão entre nós, a todos os instantes, e basta o pensamento para que os imortais estejam mais próximos.
Aliás, Kardec trouxe um Espiritismo com Espíritos, sem grande cerimônia para contatar os imortais.
Segundo Kardec bastava o sentimento fervoroso e o desejo sério de instruir-se para, então, ser digno de receber os bons Espíritos, fosse onde fosse, estivesse onde estivesse.
Muito mais do que a geografia, ensina Kardec que o importante é o coração puro.
No que concerne a manifestação dos Espíritos, Kardec narra pitoresco fato.
Conta ter recebido carta de um presidiário que se convertera ao Espiritismo.
A missiva está na Revista Espírita, fevereiro de 1864. O detento informa que o Espiritismo teve o poder de levá-lo à reflexão. Ele, então, ao conhecer o Espiritismo pode perceber o mal que havia feito, sendo, pois, despertado para uma nova vida por meio da fé.
Mas eis que o presidiário informa estar contatando os bons Espíritos no presídio.
E eles, os bons Espíritos, não lhe faltavam a assistência e compareciam, ditando-lhe palavras reconfortantes, ou seja, o presidiário era médium e fazia o contato com os Espíritos na própria cela  em que se encontrava.
Kardec encerra o texto de forma primorosa, informando-nos que nenhum obstáculo, nem mesmo o fato de se estar na prisão é impeditivo de confabular com os bons Espíritos, pois estes manifestam-se aqui, ali e acolá...
Quer o homem queira ou não, os Espíritos são livres e não aceitam que neles se coloquem amarras de qualquer tipo.
E como são livres, estarão onde bem quiserem e entenderem, não sendo, pois, apenas o centro espírita palco para a presença das entidades desencarnadas.
Elas estão por toda parte e a nós cabe entender como se processa este contato para, então, colaborar de alguma forma, caso se faça necessário nosso concurso.
 
Pensemos nisso.




sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Escapes e Compensações[1]


 

Cairbar Schutel


Fundamentalmente inseridos no contexto do materialismo, escapes e compensações servem também a todos os outros desvios de conduta ligados ao egoísmo e ao orgulho.
Escape, no contexto da reforma íntima, é o processo, composto por atos isolados ou conjuntos, em períodos ou fases, que representa uma fuga à realidade por parte do encarnado, ao longo de seu estágio na crosta terrestre.
Compensação, nesse mesmo contexto, é o processo pelo qual o ser humano equilibra ou reequilibra a interação razão-sentimento, buscando contrabalançar suas provas e suas expiações com prazeres materiais ou fugazes, de qualquer ordem, objetivando também uma fuga à realidade.
Escapes e compensações compõem o cotidiano de vários indivíduos, indisciplinados e revoltados com o processo de reforma íntima ou mesmo com as provas que devem enfrentar na jornada física.
Quando se depara com um obstáculo, do qual se vê impossibilitado de fugir e não quer verdadeiramente resolver, o ser humano, de regra, tende a tomar dois rumos alternativos: o escape ou a compensação. Utilizando o escape, torna-se indiferente ou alheio à questão, fechando- se em si mesmo e ignorando, em suma, o que se passa à sua volta, quando o seu dever cristão impõe-lhe a luta e a perseverança. Ao usar a compensação, mergulha num oceano de dádivas e dívidas materiais, quase sempre no contexto do materialismo de qualquer espécie. Em ambos os casos não consegue, porque não quer atacar de frente o empecilho natural e necessário que a vida lhe impõe.
O estágio na Crosta é repleto de pressões de toda ordem e o encarnado costuma ser cobrado pelos outros e por si mesmo. Buscar ser fraterno e solidário, nesse quadro que seu coração considera desolador, é-lhe um fardo.
Não vê por que, no seu raciocínio constituído por teorias secundárias, deixar a pessoa de se conceder uma compensação pelo que vivencia; encontra sempre uma justificativa fundada para o seu escape.
A regra é que tais escapes e compensações se dão no campo dos sentimentos negativos do ser. Hipótese rara, quase inexistente no Globo, é a daquele que assimila bem e de modo positivo suas frustrações diante das provas e expiações que tem a enfrentar.
A lógica explica. Se o indivíduo não tem sensibilidade e raciocínio suficientes para compreender a necessidade de tais enfrentamentos cotidianos, necessitando fantasiar sua existência para suportar a jornada terrena, natural lhe parece que suas compensações se deem na senda do erro.
Por outro lado, falar em escape, por si só, significa um desvio. Fugir não significa elevação moral de ninguém na maioria dos casos.
A compensação pode constituir um equilíbrio baseado em atos positivos, tal como alguém "curar" uma ansiedade gerada por um entrave qualquer dedicando-se cada vez mais à caridade e ao auxílio fraterno ao próximo.
Escapes e compensações também são mascarados em algumas situações. Faz parte de a natureza humana buscar cobrir de aparência positiva os seus erros.
Aquele que muito trabalha, alegando ser contra a ociosidade, a título de exemplo, mas impondo-se um regime exagerado de isolamento social e privando-se do lazer, pode estar constituindo para si mesmo um escape ou uma compensação. Porque não sabe lidar com alguma insegurança ou deficiência sua, volta-se ao trabalho para fugir à realidade, evitando contato com a comunidade ou mesmo com a família e, com isso, busca suprir sua carência de solidariedade.
Normalmente o exagero demonstra a impropriedade da conduta. Atirar-se com abuso a determinada atividade ou à prática de algum comportamento evidencia indício de escape ou compensação.
Para enfrentar um único problema, pode o encarnado valer-se desses dois mecanismos, ao mesmo tempo, sucessiva ou alternadamente.
O procedimento cristão, fundamentado nos bons sentimentos[2], exige que o ser humano abstenha-se da prática frequente de fuga à realidade. Esta não lhe traz progresso, porque o afasta da luta, evita o enfrentamento que origina a modificação do seu comportamento, lapidando-lhe o âmago e aprimorando a sua maneira de se conduzir na existência corpórea.
Em verdade, os escapes e as compensações são utilizados porque o indivíduo teme sofrer. E sofre porque não compreende a realidade e a inevitabilidade das sucessivas provas que possui.
Há, no entanto, vários modos da pessoa vivenciar uma compensação ou utilizar um escape.
Alguns levam o ser humano a um universo inaceitável de erros de toda ordem. É o caso daquele que, por ter nascido em família economicamente pobre, inconformado, sem saber como ou sem querer enfrentar a prova que o estágio encarnatório lhe impõe, volta-se à prática de crimes de toda espécie como compensação ao seu "sofrimento". Trata-se de um exemplo de compensação danosa.
O homem cerca-se de negativismo, temeroso de enfrentar conflitos na tão indispensável posição de pai ou esposo em sua família (que implica dedicação e abnegação cotidianas), valendo-se de seu trabalho a título de escape.
Certamente, há compensações e escapes mais leves os quais, ainda que não ideais, são menos danosos ao progresso do ser.
O materialista é o usuário por excelência desses procedimentos, porque lhe é muito fácil trocar um bem terreno por outro ou mesmo um prazer espiritual por algo material.
Outro exemplo: o homem que, orgulhoso, vendo-se ferido no brio, sem saber como lidar com a sensação gerada, explode em cólera. Sua reação de ira pode tanto estar no campo do escape quanto da compensação. Aquele que sente prazer nessa troca está compensando (orgulho ferido v. reação colérica). Quem reage inconscientemente, sem fazer a ligação entre uma e outra, está escapulindo.
A reforma íntima deve fazer ver ao ser humano indispensabilidade de diminuir, até cessar, a utilização do escape e da compensação como processos de fuga à realidade.
Porém, mesmo no processo de reforma íntima, utiliza-se o encarnado desses mecanismos. Para trabalhar a modificação do seu âmago, que traz sofrimento porque implica luta, pode haver o uso de compensações ou mesmo de escapes.
"Se devo promover minha reforma íntima, necessito de uma compensação" — diz muitas vezes o homem. Essa manifestação é natural, pois o ser, no atual estágio evolutivo da humanidade, não está, de regra, preparado a ceder unilateralmente, sem receber em troca algum benefício.
Menos mal assim, desde que compense de forma plausível. Fará sua reforma íntima dessa maneira até que compreenda; pelo aprimoramento sequencial do espírito, a inutilidade de instrumentos acessórios para isso, seja quanto à compensação, seja quanto ao escape.
Raciocínio: melhor a atitude compensatória leve do que o erro grave; mais conveniente cada um promover a sua reforma íntima diante de uma compensação, ainda que não ideal, mas próximo do cristão, do que permanecer estagnado ou assumir novos e maiores débitos.
Sentimento: pior o escape do que o enfrentamento do problema; mais conveniente a criatura instaurar e cultivar a reforma íntima do que fugir à realidade, ainda que isso lhe traga sofrimento.
A compensação está para o raciocínio do mesmo modo que o escape está para o sentimento. A primeira é mais razão provocada por um processo de lógica, ao qual se vincula momento de decidir. A segunda é mais sentimento, causado por uma instância emotiva, que exalta a alma e provoca a decisão.
Caminhar no processo de reforma íntima, de maneira crescente e segura, é uma peregrinação que demanda tempo. Não se faz da noite para o dia. Pode levar períodos curtos, em cada uma de suas fases, mas a regra é que dure anos, quiçá séculos. O procedimento pode ser encurtado na exata medida em que livre-arbítrio é bem utilizado pelo indivíduo.
A irresignação, o que, de regra, equivale ao sofrimento presente, confere à pessoa menores chances de recompensa espiritual futura.
Escapes e compensações possuem o seu lado positivo, mas não são o ideal a ser alcançado pelo homem na sua caminhada evolutiva. Ao contrário, representam nesse caso o meio para o encarnado chegar a uma finalidade maior, que é a prática da sua reforma íntima. No decorrer desta última, instrumento de progresso, tais pretextos vão perdendo a sua razão de ser e devem ser afastados pelo ser humano, imperando, em seu lugar, a resignação.




[1] Fundamentos da Reforma Íntima – Cairbar Schutel / psicografado por Abel Glaser
[2] Abnegação, afabilidade, bem-querer, benevolência, bondade, brandura, caridade, carinho, clemência, compaixão, confiança, coragem, desprendimento, devotamento, disciplina, doçura, esperança, fé, flexibilidade, generosidade, gratidão, humildade, indulgência, lealdade, justiça, mansuetude, misericórdia, modéstia, otimismo, paciência, pacificidade, perseverança, piedade, pureza de coração, resignação, responsabilidade, simpatia, simplicidade, sinceridade, solidariedade, ternura.