sábado, 13 de maio de 2017

MÃE, ESTOU AQUI![1]



Allan Kardec


A Sra. *** havia perdido, há alguns meses, sua filha única, de catorze anos, objeto de toda sua ternura e muito digna de seu pesar, pelas qualidades que dela prometiam fazer uma mulher perfeita. Essa jovem havia sucumbido a uma longa e dolorosa doença. Inconsolável com essa perda, dia a dia a mãe via sua saúde alterar-se, repetindo sem cessar que em breve iria reunir-se à filha.
Instruída da possibilidade de comunicar-se com os seres de além-túmulo, a Sra. *** resolveu procurar, numa conversa com a filha, um alívio para sua pena. Uma senhora de seu conhecimento era médium; mas as duas, com pouca experiência para semelhantes evocações, sobretudo em circunstância assim tão solene, rogaram-me que as assistisse. Éramos apenas três: a mãe, a médium e eu.
Eis o resultado dessa primeira sessão:
A mãe: Em nome de Deus Todo-Poderoso, Espírito Júlia ***, minha filha querida, peço-te que venhas, se Deus o permitir.
Júlia: Mãe! Estou aqui!
A mãe: És tu mesma, minha filha, que me respondes? Como posso saber que és tu?
Júlia: Lili. (Era um pequeno apelido familiar dado à jovem em sua infância; não era conhecido nem da médium, nem de mim, considerando-se que, há vários anos, só a chamavam pelo seu nome de Júlia. A esse sinal, a identidade era evidente; não podendo dominar a emoção, a mãe explode em soluços).
Júlia: Mãe! Por que te afliges? Sou feliz, bem feliz: não sofro mais e te vejo sempre.
A mãe: Mas eu não te vejo. Onde estás?
Júlia: Aqui, ao teu lado, minha mão sobre a Sra. *** (a médium) para fazer-lhe escrever o que te digo. Vê a minha letra (a letra, de fato, era de sua filha).
A mãe: Dizes: minha mão; tens, então, um corpo?
Júlia: Não tenho mais aquele corpo que tanto me fazia sofrer, mas lhe guardo a aparência. Não estás contente por que eu não sofro mais e posso conversar contigo?
A mãe: Se eu te visse, então, reconhecer-te-ia?
Júlia: Sim, sem dúvida, e já me viste muitas vezes em teus sonhos.
A mãe: De fato, já te revi em meus sonhos, mas pensei que fosse efeito da imaginação; uma lembrança.
Júlia: Não; sou eu mesma que estou sempre contigo e procuro consolar-te; fui eu que te inspirei a ideia de evocar-me. Tenho muitas coisas a te dizer. Desconfia do Sr. ***; ele não é sincero. (Esse senhor, conhecido apenas da mãe, e citado assim espontaneamente, era uma nova prova de identidade do Espírito que se manifestava.)
A mãe: Que pode, pois, fazer contra mim o Sr. ***?
Júlia: Não te posso dizer; isto me é proibido. Apenas te advirto para desconfiares dele.
A mãe: Estás entre os anjos?
Júlia: Oh! Ainda não; não sou bastante perfeita.
A mãe: Entretanto, eu não via nenhum defeito em ti; tu eras boa, doce, amável e benevolente para com todos; isso não basta?
Júlia: Para ti, mãe querida, eu não tinha nenhum defeito; e eu o acreditava, pois mo dizias tantas vezes! Mas, agora, vejo o que me falta para ser perfeita.
A mãe: Como adquirirás as qualidades que te faltam?
Júlia: Em novas existências, que serão cada vez mais felizes.
A mãe: É na Terra que terás essas novas existências?
Júlia: Nada sei quanto a isso.
A mãe: Considerando que não havias feito o mal durante tua vida, por que sofreste tanto?
Júlia: Prova! Prova! Eu a suportei com paciência, por minha confiança em Deus; sou muito feliz hoje, por isso. Até breve, mãe querida!
Em presença de semelhantes fatos, quem ousaria falar do vazio do túmulo, quando a vida futura se nos revela assim tão palpável? Essa mãe, minada pelo desgosto, experimenta hoje uma felicidade inefável em poder conversar com a filha; não há mais separação entre elas; suas almas se confundem e se expandem no seio uma da outra, pela permuta de seus pensamentos.
Apesar da discrição com que cercamos este relato, não nos permitiríamos publicá-lo, se a isto não estivéssemos formalmente autorizados. Disse-nos aquela mãe: possam todos quantos perderam seus afetos na Terra sentir a mesma consolação que experimento!
Acrescentaremos somente uma palavra aos que negam a existência dos Espíritos bons; perguntamos como poderiam provar que o Espírito dessa moça fosse um demônio malfazejo.




[1] Revista Espírita – Janeiro/1858

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Imunidade Psíquica[1]


Ermance Dufaux
 

O médium que queira gozar sempre da assistência dos bons Espíritos tem de trabalhar por melhorar-se.
O médium que compreender o seu dever, longe de se orgulhar de uma faculdade que não lhe pertence, visto que lhe pode ser retirada, atribui a Deus as boas coisas que obtém.

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO – Cap. XXVIII, Item 9
 
As tarefas sucediam-se umas às outras no Nosocômio Esperança[2] . A obra de amor do apóstolo sacramentano tornou-se polo dispensador das bênçãos da complacente misericórdia.
Naquela manhã, antes mesmo do sol afugentar a madrugada, preparávamos para mais uma caravana de aprendizado. Vamos acompanhar Dona Maria Modesto Cravo em atividade de assistência fraternal na Terra. Convidamos uma pequena equipe de jovens que faziam seus primeiros estágios de aprendizado junto à crosta, depois de alguns meses de adaptação pós- desencarne.
Rumamos para o local previamente combinado e lá, já encontramos Dona Modesta[3] e outros amigos do Hospital. Após os cumprimentos, ela explicou-nos a atividade com detalhes, nesses termos:
— Nossa intercessão dessa hora é providência de urgência em favor de Cesário, dedicado médium da seara espírita. Nosso irmão tem se apresentado com disposições valorosas ao trabalho, razão pela qual as investidas espirituais perseguem-no com programação perseverante.
Aproximamo-nos do médium oferecendo liberdade aos jovens componentes da equipe, a cena era muito educativa. Cesário estava preparando-se para as atividades do dia em seu lar através da oração, no entanto, à porta de sua residência, uma chusma de almas postavam-se em atenciosa expectativa. Percebemos nítido halo magnífico provindo das dependências de sua casa abrangendo larga faixa de espaço até a vizinhança, impedindo a entrada daqueles que certamente estavam à espreita da oportunidade para alguma iniciativa infeliz.
Cesário preparava-se para sair e notamos intensa movimentação. Dona Modesta fez um sinal ao irmão Ferreira, experiente companheiro dos serviços de defesa, e vimos toda a sua equipe em atitude que bem recordavam os momentos que antecedem os combates da Terra. Cesário tornou a direção da rua com seu veículo e o vozerio da turba foi ouvido com estrondo. Dona Modesta, na condição de condutora, pediu-nos a prece, o que fizemos com emoção. Após a oração e visão espiritual de todos nós aguçou-se e constatamos, ao lado do médium, a sua amorosa benfeitora envolvendo-o em dulçorosa paz. Um anel magnético muito luminoso com cones violetas prateadas acomodava-se sobre a cabeça de Cesário, como se fosse uma boina com a parte superior aberta. Constatávamos que petardos de matéria enfermiça eram atirados sobre o servidor, mas eram dissolvidos integralmente por alguma “força especial” que partia desse anel. Os jovens, curiosos mas vigilantes nos serviços de apoio, olhavam para mim como a rogar orientação para a hora que se prenunciava como sendo portadora de gravidade.
Observamos então que o trabalhador da mediunidade, tão logo dispôs de alguns momentos, estacionou seu automóvel em razão de súbito mal estar mental.
Sentia pelos canais medianímicos que algo não estava bem. Recorreu à prece e percebeu que estava sendo alvo de um ataque de adversários do amor. Tomou então a iniciativa de criar um laço constante com sua memória, estabelecendo um clima de segurança, buscou a leitura refazente e orou com carinho pelos que lhe atacavam pedindo a Jesus pelo bem de todos eles. Irmão Ferreira com sua equipe de colaboradores utilizava-se de recursos eficazes de proteção. Rapidamente, constatamos que a cilada foi frustrada e todos nós nos reuníamos a Dona Modesta para agradecer a Deus e aprender um pouco mais. Assim que foram encerradas as atividades, a devotada servidora do Cristo colocou-se à disposição dos jovens aprendizes para as oportunas indagações. Sérgio toma a palavra e diz:
— Dona Modesta, podemos classificar as atividades dessa hora como uma desobsessão?
— Certamente. Podemos dizer que é um gênero específico de obsessão. Comumente encontramos três tipos de almas nos capítulos da obsessão: os nossos credores de outros tempos, os oportunistas que criam vínculos pela invigilância humana e os declarados adversários do bem.
— Em que caso enquadram-se os agressores de Cesário?
— São adversários ferrenhos do Espiritismo que procuram atormentá-lo. É um caso típico de “obsessão controlada”.
— Obsessão controlada?!!
— Nosso irmão apresenta o recurso à imunidade psíquica com o que nos permite uma tarefa de parceira. Ele é usufrutuário de um “contrato de assistência” permanente em razão dos méritos que se fez credor.
Enquanto Sérgio interrogava, os demais amigos mal continham sua ânsia de saber. Prenunciando a curiosidade de todos, o coração querido de Pedro Helvécio que acompanhava-nos a tarefa dirigiu a palavra à nossa instrutora buscando sintetizar as questões:
— Dona Maria, explique-nos, por caridade, sobre aquele anel luminoso na cabeça de Cesário.
— Sim, Helvécio. É uma criação de almas superiores em favor da obra do bem que todos, pouco a pouco, estamos construindo na Terra. Chama-se “imunizador psíquico”. Composto de material rarefeito, mas de alta potencia irradiadora de ondas mentais de curta frequência, é um aparelho de defesa mental que concede ao médium melhores recursos no desempenho de sua missão.
Tomado de um impulso, Rosângela, outra integrante de nosso grupo que serviu com louvor às fileiras do Protestantismo, indagou:
— Todos os médiuns carregam esse anel?
— Não, minha jovem. O “imunizador psíquico” é uma concessão da misericórdia. Fruto de um planejamento no tempo...
— O que fez Cesário para merecê-lo? Será um “espírito santo” com elevada missão? Terá ele algum mandato diante de Deus?
— Cesário em se dedicando à tarefa da educação de si mesmo como todos os benfeitores da Nova Revelação. Não é portador de missões especiais e nem dotado de grande elevação moral. Sua qualidade mais saliente, por enquanto, é a devoção persistente que apresenta, ininterruptamente, durante duas décadas no serviço mediúnico socorrista de almas perturbadas.
— Quer dizer então que após um período de serviços de vinte anos os médiuns podem receber semelhante graça?
— Compreendo sua terminologia, considerando sua formação evangélica, mas não se trata de graça, Rosângela, e sim de mérito, justiça e complacência divina. Nosso irmão perseverou durante esse tempo, mas além disso integrou o escasso grupo de servidores doutrinários que apresentam uma rara qualidade.
— E qual é essa qualidade, Dona Modesta?
— Cooperativismo cristão. Apesar de suas vivências doutrinárias restringiram-se a uma casa espírita, desde os seus primeiros passos nos projetos doutrinários tem se oferecido pelo bem de outras agremiações, desenvolvendo um estimável labor coletivo junto à seara. Graças a isso, tem chamado a atenção dos inimigos da causa que procuram desanimá-lo no ideal com sorrateiras armadilhas. Sua sincera disposição de melhoria espiritual é seu verdadeiro recurso imunizador, todavia, algumas almas superiores analisaram o pedido de sua amável mentora para que lhe fosse prestado esse benefício para alento e estímulo.
Sérgio mais uma vez retorna com outra pergunta:
— Será sensato entender essa concessão como prêmio?
— Prêmio, meu filho, à luz do Evangelho significa recurso para trabalhar mais, e nosso companheiro na carne já entendeu isso. Ele tem claramente estabelecido para si mesmo a consciência da “concessão” da qual foi alvo e com que objetivos lhe foi outorgada. Tão logo foi implantado o “anel” em seu cérebro, ele passou a experimentar uma maior capacidade de domínio interior que suavizou as dores íntimas e ampliou-lhe as percepções extrafísicas. Sua avaliação, entretanto, ao invés de convergir para uma ideia vaidosa de dotes morais adquiridos ou virtudes conquistadas, conduziu-se para o que expressa as intenções nobres do Plano Superior em relação ao seu dever, ou seja, amparo para melhor servir. Dessa forma, em regime de parceira que amadurece a cada dia, temos condições de manter as obsessões de nosso irmão sob controle rigoroso e proveitoso.
— Perdoai-me a infantilidade, Dona Modesta, mas não posso deixar de expor meu pensamento: não haverá aqui alguma parcialidade na ajuda de Cesário?
— Absolutamente, Sérgio, não existe. Não se sinta tão infantil por perguntar. É um raciocínio comum para quem veio da Terra há tão pouco tempo como você. Pediria ao nosso Helvécio que pudesse ler para nós aquele conhecido trecho de O Livro dos Médiuns, para esclarecimento de todos.
Compulsando a obra do codificador sem nenhuma dificuldade e como quem já esperava semelhante pedido de Dona Modesta, o nosso amigo destacou o item 268, questões 19 e 20, que dizem:  Poderiam os Espíritos superiores impedir que os maus Espíritos tomassem falsos nomes?
Certamente que o podem, porém, quanto piores são os Espíritos, mais obstinados se mostram e muitas vezes resistem a todas as injunções. Também é preciso saibais que há pessoas pelas quais os Espíritos superiores se interessam mais do que outras e, quando eles julgam conveniente, as preservam dos ataques da mentira. Contra essas pessoas os Espíritos enganadores nada podem.
Qual o motivo de semelhante parcialidade?
Não há parcialidade, há justiça. Os bons Espíritos se interessam pelos que usam criteriosamente da faculdade de discernir e trabalham seriamente por melhorar-se.
Dão a esses suas preferências e os secundam, pouco, porém, se incomodam com aqueles junto dos quais perdem o tempo em belas palavras.
Terminada a leitura, como nada mais restasse a perguntar, nossa instrutora concluiu com orientações que somente poderiam vir de um coração tão generoso e experiente nas questões da mediunidade.
O médium em questão não está isento de sua luta autoeducativa em razão dos “anéis defensivos”, e sempre tem sido lembrado sobre isso nas suas incursões noturnas fora do corpo. Esse “artefato de proteção” é implantado no corpo sutil entre o cérebro e o corpo perispiritual, junto ao centro coronário, através de uma verdadeira cirurgia que lembra um transplante... E assim como nos transplantes orgânicos pode haver a rejeição, igualmente no tema em foco, se nosso irmão não continuar alimentando-se das benesses do sentimento da fé e do amor – sustendo das nobres realizações –, poderá ocorrer uma “suspensão natural” da imunização psíquica. Até agora, entretanto, Cesário vem demonstrando bom proveito relativamente ao alívio mental da sobrecarga de vibrações que lhe são desfechadas, utilizando-se desse “empréstimo” para investir mais no trabalho do bem. Porém, dia virá em que suas defesas naturais superarão os recursos defensivos do anel protetor, e ele não mais terá a mesma função. Nessa ocasião, como sempre acontece com outros medianeiros, dentre os poucos que se fazem credores desses tipos de amparo, sua benfeitoria, obviamente, lhe oferecerá outros créditos, sempre visando a expansão da luz de todos. Os recursos nesse sentido são infinitos como expressões do Amor do Pai.
Arrematando sua fala sempre sincera e bem humorada, Dona Maria Modesto assim encerrou sua lição:
— Importante considerar que o “anel” propicia-lhe proteção, inclusive, em relação aos petardos mentais dos encarnados que não lhe são tão simpáticos aos esforços no bem coletivo. E não imaginem que seja de fora das lidas doutrinárias a origem dessas “forças contrárias”. Essa é uma questão que deveria merecer de todos os espíritas encarnados uma investigação mais séria, porque, pelo que temos constatado, as obsessões de homem para homem são mais comuns que imaginam nossos irmãos na carne. E sem querer decepcionar a ninguém, sou obrigada a concluir que, mesmo clareados com a luz do Espiritismo, existe muito espírita obsidiando espírita... Quem sabe, além do gênero que já mencionai sobre as obsessões controladas, poderíamos classificar mais esse tipo no capítulo das interferências obsessivas, talvez com o título “obsessão espírita!!!




[1] Reforma Íntima sem Martírio – Wanderley S. de Oliveira
[2] Obra de amor no plano espiritual fundada por Eurípedes Barsanulfo.
[3] Maria Modesto Cravo nasceu em Uberaba a 16 de abril de 1899 e desencarnou em Belo Horizonte a 8 de agosto de 1964. Uma das pioneiras do Espiritismo em Uberaba, atual com devotamento junto ao “Centro Espírita Uberabense” e ao “Lar Espírita”. Médium de excelentes qualidades, trabalhadora incansável do amor ao próximo e mulher de muitas virtudes, Dona Modesta, como era conhecida, foi a fundadora do “Sanatório Espírita de Uberaba”, voltado para tratamento dos transtornos mentais, inaugurado em 31/12/1933 e em plena atividade até hoje. Foi nessa casa de amor que se tornou conhecido o valoroso companheiro Dr. Inácio Ferreira, médico psiquiatra e um dos baluartes do bem.

quinta-feira, 11 de maio de 2017

OS SINAIS DOS TEMPOS[1]

 


Ao sair Jesus do templo, disse-lhe um dos seus discípulos: Olha, Mestre, que pedras e que edifícios! Disse-lhe Jesus: Vê estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada.
Estando ele sentado no Monte das Oliveiras, defronte do templo, perguntaram-lhe em particular Pedro, Tiago, João e André: Dize-nos quando sucederão estas coisas, e que sinal haverá quando elas estiverem para se cumprir?
Então Jesus começou a dizer-lhes: Vede que ninguém vos engane. Muitos virão em meu nome, dizendo: Sou eu, e enganarão a muitos. Quando, porém, ouvirdes falar de guerras, e rumores de guerras, não vos assusteis: porque é necessário que assim aconteça mas não é ainda o fim. Pois se levantará nação contra nação, e reino contra reino. Haverá terremotos em vários lugares, e haverá fome: estas coisas são o princípio das dores. Estais vós de sobreaviso; pois vos hão de entregar aos tribunais e sereis açoitados nas sinagogas, e haveis de comparecer diante dos reis e governadores por minha causa, para lhes servir de testemunho. Mas é necessário que primeiro o Evangelho seja pregado a todas as nações, e quando vos conduzirem para vos entregar, não vos preocupeis com o que haveis de dizer, mas falai o que vos for dado naquela hora, porque não sois vós os que falais, mas o Espírito Santo. Um irmão entregará à morte a seu irmão e um pai a seu filho; e os filhos se levantarão contra seus pais e os farão morrer. Sereis também odiados de todos por causa do meu nome; mas aquele que perseverar até o fim será salvo.
Quando, porém, virdes a abominação da desolação estar onde não deve (quem lê entenda), então os que estiverem na Judéia fujam para os montes; o que se achar no eirado, não desça e nem entre para tirar as coisas de sua casa; e o que estiver no campo, não volte para tomar sua capa. Mas ai das que estiverem grávidas e das que amamentarem naqueles dias! Rogai que não suceda isso no Inverno; porque aqueles dias serão de tribulação, tal qual nunca houve desde o princípio da criação por Deus feita até agora, nem haverá jamais. E se o Senhor não abreviasse aqueles dias, ninguém seria salvo; mas por causa dos eleitos, que ele escolheu, os abreviou.
Então se alguém vos disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo acolá! Não acrediteis; levantar-se-ão falsos Cristos e falsos profetas, e farão milagres e prodígios, para enganar os eleitos se possível fora. Estais vós de sobreaviso; de antemão vos tenho dito todas as coisas.
Mas naqueles dias, depois daquela atribulação, o Sol escurecerá, a Lua não dará mais claridade, as estrelas cairão do céu e as potestades celestes serão abaladas. Então se há de ver o Filho do Homem vindo nas nuvens com grande poder e glória. E Ele enviará os anjos e ajuntará os seus eleitos dos quatro ventos, da extremidade da Terra à extremidade do céu.
Marcos, XIII : 1-27
 
Este trecho do Evangelho, provavelmente da última fase da vida de Jesus, é digno do nosso estudo e atenção.
Já o Mestre havia lançado o seu libelo contra os escribas e fariseus, os cegos guias de cegos, que erigiam os sepulcros dos profetas a quem seus pais haviam trucidado; aos traficantes das graças de Deus; aos vendilhões do templo. Ele já havia lamentado Jerusalém, que matava os profetas e enviados que transpunham suas portas quando, ao chamarem os discípulos sua atenção para as grandezas do templo, aproveitou-se da oportunidade para proferir, perante eles, o seu Sermão Profético como o chamam os Evangelhos.
Foi nessa ocasião que Jesus falou aos discípulos dos tempos que haviam de chegar e das ocorrências que se desenrolariam no mundo, até a iniciação de uma nova fase de vida para a Humanidade; sem outro exórdio que pudesse desviar a atenção dos admiráveis painéis por meio dos quais mostrou aos que o cercavam os fatos que se desenrolariam depois da sua passagem para a Espiritualidade, começou Jesus a falar do grande e suntuoso Templo de Jerusalém, do qual não ficaria pedra sobre pedra.
Era este o final maior dos acontecimentos que estavam próximos, foi justamente o que se realizou.
Do Templo de Jerusalém não ficou pedra sobre pedra, como também não ficará pedra sobre pedra de todos os monumentos que o orgulho, a vaidade e o egoísmo humano edificaram em nome de Deus!
Grande era a missão que cumpria ao Mestre levar a termo, e de retirada do Templo onde Ele havia apostrofado os sacerdotes, o Mestre seguira para o Monte das Oliveiras, sítio predileto onde, por várias vezes, se tinha reunido com seus discípulos, mostrando-lhes do alto do pico, cuja vista abrangia extensos horizontes, as belezas da Natureza matizada pelos reflexos do Sol.
Sentado na relva, melancólico e pensativo, começou então o Mestre a responder às perguntas daqueles que deveriam apostolar a sua causa, salientando os fatos que assinalariam o fim dos tempos do mundo sacerdotal, que precederia o início do mundo espiritual, ou seja da fase iniciativa do Reinado do Espírito sobre a matéria. Tomando como símbolo das grandezas humanas o Templo de Jerusalém, Jesus fez ver a seus discípulos que todas essas pompas luxuosas, que adormecem o Espírito e aniquilam o sentimento, distraem os homens de seus deveres para com Deus e o próximo, impedindo as almas de cumprirem seus deveres evangélicos.
O Mestre já havia também predito os grandes martírios que teria de sofrer, predições que se realizaram à letra; mas que tudo isso era preciso que se cumprisse; e que Ele voltaria ao mundo no tempo da restauração final da sua Palavra. Mas, antes disso, o mundo teria de passar por grandes transformações e a Humanidade por grandes sofrimentos.
Perguntando-lhe os discípulos a época em que ocorreriam esses acontecimentos, Jesus começou por ensiná-los a raciocinar, ensinando-lhes a discernir os homens e os Espíritos, a fim de poderem distinguir os tempos preditos.
Cuidado! Ninguém vos engane, porque muitos virão em meu nome dizendo: eu sou o Cristo, e enganarão a muitos.
Se alguém vos disser: eis aqui o Cristo ou ei-lo ali, não acrediteis; porque hão de levantar-se falsos Cristos e falsos profetas e mostrarão tais sinais e milagres que, se fora possível, enganariam até os escolhidos.
Se disserem que o Cristo está no deserto, não saiais; se disserem que está no interior da casa não acrediteis porque assim como o relâmpago sai do Oriente para o Ocidente, assim será a vinda do Filho do Homem.
Com esta exposição Jesus fez ver que a sua vinda não seria como daquela vez, em que fora crucificado; viria em Espírito, presidindo o grande movimento de espiritualização do mundo, tal como se está verificando sob os auspícios do Espiritismo! Frisou bem os mistificadores, que apresentariam Cristo fechado em câmaras e no interior das casas, assim como os que aparecem nos desertos, arrebatam multidões curiosas e constituem redutos de fanáticos.
E foi só depois de bem exaltar o sentimento e o raciocínio de seus discípulos, que o Filho de Deus julgou acertado narrar as dores por que o mundo teria de passar e as lutas que seus seguidores teriam de sustentar na obra da regeneração humana.
Haveis, primeiramente, de ouvir rumores de guerra, mas não vos assusteis, porque não é ainda nessa ocasião que virá o fim, pois levantar-se-á nação contra nação, reino contra reino, e haverá fome e terremotos em vários lugares; mas tudo isso é o principio das dores.
Esta predição está realizada e continua a se verificar; as guerras que têm assolado ultimamente o planeta não deixam dúvida sobre a realização da previsão. Os ataques contra a palavra apostólica, levando os divulgadores aos tribunais, têm continuado desde os primeiros tempos do Cristianismo.
Desde os tempos de Nero, prosseguindo sempre, estendendo-se à alçada da Igreja de Roma, que entregava os “hereges” ao braço forte para lhes serem infligidos os maiores suplícios, a história dos inquisidores e da Inquisição, compondo páginas de sangue na História da Humanidade, deixam ver claramente o cumprimento também desse trecho do Evangelho.
A Grande Guerra de 1914-18, que fez mais de 30 milhões de vítimas; a grande peste que levou outras tantas ou ainda mais; as lutas que fervilham em todo o mundo não são mais que os sinais característicos, preditos pelo Nazareno, do fim dos tempos em que o mundo terá de passar por uma completa reforma no que se refere à moral.
Jesus acrescentou que, em virtude da iniquidade a que os homens se entregariam, o amor se esfriaria e não haveria mais caridade; os afetos se extinguiriam e o caráter se abastardaria.
É o que estamos vendo por toda a parte! O luxo, as pompas, a ganância do ouro, o desejo da multiplicação de fortunas; o egoísmo endeusado; e, de outro lado, o desprezo para com os necessitados, para com os enfermos e abandonados!
Em vez de hospitais, erguem-se igrejas; em vez de casas de instrução, constroem-se cadeias; em vez de luz, a Humanidade veste-se de trevas!
Um dos mais característicos “sinais dos tempos” é a Pregação do Evangelho, como está escrito: Este Evangelho será pregado pelo mundo todo; então virá o fim.
Graças ao Espiritismo, ou seja, aos Espíritos da Verdade, este convite para seguir a Cristo se está realizando como um aviso amoroso da vinda, em Espírito, de Jesus, que restabelecerá na Terra o Reinado do Espírito.
A pregação do Evangelho é o machado posto à raiz das árvores infrutíferas; é a exortação à regeneração dos costumes para a espiritualização dos homens.
Outro característico igual é: a abominação da desolação predita pelo Profeta Daniel, que se havia de verificar no lugar santo.
É fato bem patente aos olhos de todos: o que os homens chamam lugar santo são as igrejas; e não há quem conteste a desolação que lavra nas igrejas!
Que é atualmente religião? Nada. O que é uma igreja? Um lugar abominável, onde se pode encontrar tudo menos amor a Deus, caridade, amor ao próximo, respeito, moral!
A Igreja atual é um ponto de diversão como qualquer outro, é um botequim de festas onde se mercadejam frangos e leitões.
Que é a religião do povo, hoje?
Onde está a fé, a Esperança, a Caridade, que unem, sustentam, amparam e elevam a massa popular? O que há são tráficos de missas, tráficos de batismos, tráficos de casamentos, tráficos de nascimentos e tráficos de mortos! Tudo é mercadoria, tudo se vende na religião do povo, tudo se mercadeja nas igrejas dessa Babilônia!
A Imortalidade, a comunhão das almas e dos santos, desapareceu do Credo; o Diabo venceu a Divindade: o Inferno tragou o Céu!
Não há crença, não há fé; para a massa do povo, tudo termina com a morte; a Igreja proclamou: pulvis est, et in pulveris reverteris, “és pó e ao pó tornarás”; spiritus qui vales non redit, “os mortos não retornam”. O túmulo é então, a última palavra da vida! Eis o sinal certo do fim dos tempos; eis a desolação e a abominação, predita por Jesus, imperando no “lugar santo”!
As últimas predições do Mestre, exaradas no referido capítulo, versam sobre os fenômenos físicos, os sinais no céu. Todos dizem: “o tempo está mudado”. De fato, o tempo está mudado e essa mudança foi predita por Jesus há quase dois mil anos, para assinalar o fim do Mundo da Carne e o advento do Mundo do Espírito.
Finalmente, diz o texto: “As estrelas cairão do céu e as potestades serão abaladas.”
Essas Estrelas mais não são que os Espíritos Superiores, que viriam tomar parte nessa restauração, mesmo porque só eles serão capazes de abalar as potestades, os governos civis e religiosos, da Terra e do Espaço, que conduziram os homens à degradação em que se acham!
Eles vêm ajuntar os escolhidos dos quatro ventos e chamá-los a formar esse Reino desejado, que pedimos cotidianamente ao Senhor no “Pai Nosso”.
Vamos concluir, aconselhando o leitor a tomar um lugar nas fileiras do Cristo, porque só assim ficará resguardado dos males futuros que farão ruir o mundo velho com suas paixões, para, removidos os escombros, erguer-se em cada alma uma cátedra onde o Espírito da Verdade possa pontificar!




[1] Parábolas e Ensinos de Jesus - Cairbar Schutel

quarta-feira, 10 de maio de 2017

A Bioética e o Paradigma Espírita[1]


 
Nubor Orlando Facure[2]


O progresso científico nos faz crer que estamos rompendo as fronteiras do impossível e a ousadia dos cientistas parece atropelar a ficção e provocar uma rotura no mito da criação. A cada nova descoberta que nos surpreende ficamos com a impressão de que estamos indo longe demais e o sistema de frenagem parece que ficou fora do nosso alcance. Cada descoberta, no entanto, revela o paradoxo que expõe com mais ênfase as nossas contradições : o que passamos a saber demonstra com mais força o que ainda não sabemos.
Identificamos as subpartículas da matéria, sua equivalência com a energia e dissecamos um feixe de luz em ondas e em “quantas” de energia. Desconhecemos, porém, qual é a essência da energia, de onde provem a matéria que nos impressiona e não temos ainda uma noção muito segura dos fundamentos do Universo.
Dissecamos a célula, recombinamos sua química, traduzimos seu código reprodutor e ousamos alterar o abecedário genético. Podemos fazer cópias de qualquer forma de vida e dotá-las de aparências ou aptidões previamente escolhidas. Desconhecemos, porém, qual é a essência que produz a vida e de onde provém esta força que dá vida às células. Não temos, também, uma noção muito segura dos fundamentos que nos apontam qual é a origem da vida.
Os aparelhos de ultrassom nos permitem “ver” a criança dentro do útero em três dimensões. Podemos identificar seus defeitos estruturais confirmando precocemente a existência de malformações fetais. A biópsia das células da cavidade amniótica dentro do útero nos dão um registro de identidade da criança bem antes dela nascer. Ficam assim, os pais e o médico com a possibilidade de decidir sobre o ônus de continuar ou não a gestação de uma criança que se apresentará com paralisias ou retardo pela vida toda. Precisamos saber, porém, se interromper esta vida não significa perturbar o desenrolar de uma outra vida que transcende as expressões da matéria, para a qual, a deformação física faz parte das suas necessidades. Não há como fazermos esta pergunta para esta criança antes que ela venha ao mundo, mas sabemos que as que estão entre nós, mesmo ferindo suas pernas quando tentam caminhar, contorcendo suas mãos quando tentam escrever ou mastigando as palavras quando tentam falar, estas, mesmo assim, querem viver. E, se possível, de mãos dadas com as suas mães. 
Os meios de cultura, os microscópios e os delicados instrumentos de manipulação das células nos permitiram lidar com o óvulo e o espermatozoide com a mesma facilidade com que Mendel combinou as flores e as ervilhas do seu jardim. As cores das ervilhas e das flores podem variar com a mesma facilidade com que podemos escolher o sexo, a cor da pele e a cor dos olhos para as nossas crianças. Estes filhos, porém, não trazem consigo, a certeza da felicidade, do respeito à vida ou a obediência aos pais quando estes souberam apenas fornecer o material genético que a reprodução assistida facilitou. Precisamos esclarecer se antecedendo a forma física não existe um ser transcendente cujas qualidades e aptidões nos são inteiramente desconhecidas.
Os equipamentos médicos de respiração assistida prolongam a vida de milhares de pacientes que a UTI teima em salvar. Os transplantes de órgãos dão ao paciente a oportunidade de um renascer na jornada da vida. Os imunossupressores controlam a rejeição nos transplantados e reduzem as respostas indesejadas em inúmeras doenças que a imunologia está esclarecendo a causa. Aplicações que atingem diretamente o sistema nervoso estão controlando dores terríveis que incomodam os pacientes com câncer. Estes progressos todos, porém, não conseguirão nunca solucionar o dilema da morte e do sofrimento que às vezes a antecede. Por outro lado, estes recursos que aliviam e prolongam a vida, podem, com a mesma competência, serem postos a disposição para decidir a data da morte ou a interrupção do sofrimento. O recurso da tecnologia veste a toga de juiz no médico que não sabe ver um sentido purificador de Almas quando a dor se torna crônica ou incontrolável. Precisamos saber se aliviar o sofrimento físico não precipita um compromisso maior ou se compromete um resgate que estaremos adiando.
O homem está acostumado a usar sua inteligência para fragmentar seus problemas e com isto poder dominá-los. Hoje, a extensão do nosso conhecimento nos permite perceber que esta separação “espedaça o complexo do mundo em fragmentos desconjuntados”, fraciona um problema específico mas cria um dilema gigantesco pela repercussão no todo. Este modelo de fragmentação e a competência tecnológica que ele proporcionou, não são suficientes para resolver as contradições do nosso mundo interior. Temos de rever nossas posições éticas com argumentos que extrapolem os limites e o alcance da Ciência. Principalmente, por que nos falta responder aquelas perguntas essenciais que esclareçam quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Nos dias de hoje estes dilemas nos parecem serem inadiáveis.
Os dilemas da ética de hoje nos empurraram precipitadamente para o aborto que descarta a criança malformada; a eutanásia que apressa a morte pressupondo alívio do sofrimento; a gestação de crianças sem vínculo afetivo com os pais; a manipulação genética que poderá escolher a aparência física; a vida psicossocial do organismo completo, em contraposição à vida biológica de meia dúzia de células embrionárias fecundadas em laboratório. Parece que não nos damos conta de estarmos esticando ou cortando o fio da “teia da vida”.
Em 1857 Allan Kardec codificou uma Doutrina de bases científicas, filosóficas e religiosas. Entre seus princípios se afirma que a fé tem de se submeter ao critério de racionalidade. Seus enunciados científicos não se prendem às amarras de uma ciência que só consiga enxergar o mundo material que impressiona nossos limitados sentidos. Suas verdades estão sujeitas ao progresso humano que a própria Ciência tende a promover.
O seu conteúdo foi fornecido por Espíritos que acompanham e promovem o desenvolvimento da Humanidade. Eles afirmaram que somos todos Almas imortais que ocupamos provisoriamente um corpo físico que nos permite viver experiências que, de simples e ignorantes, nos tornarão sábios e puros de coração. Este processo de evolução se faz numa série incontáveis de reencarnações que se processam na Terra e em outros planos da criação divina.
Esta Doutrina nos revela que o aborto destrói a vida biológica e impede a reencarnação do espírito que habita este corpo desde a fecundação, comprometendo sua evolução espiritual.
A eutanásia adia o resgate e a reparação de débitos contraídos pelo espírito, cujo corpo sofre para possibilitar sua redenção. Isto não significa evitar meios de aliviar a dor ou o sofrimento, mas, de impedir que se utilize a morte como recurso terapêutico.
Cada um de nós recebe ao reencarnar, o corpo mais adequado às suas necessidades espirituais. A manipulação genética visando os benefícios e as dificuldades que este corpo venha a se manifestar, são estabelecidas por entidades espirituais que zelam por nosso progresso. A evolução do conhecimento humano vai possibilitar que o médico-cientista participe e favoreça nossas possibilidades físicas, mas, jamais nos livrará dos compromissos cármicos que nossos débitos pretéritos impõem como conta a pagar em nosso próprio benefício.
Nossa vinculação familiar já esteve ligada ao sobrenome ou aos títulos de nobreza. Hoje, está determinada pelos laços matrimoniais ou pela paternidade reconhecida no DNA. As técnicas de reprodução estão desmontando todos estes vínculos físicos, carnais, mas não conseguirão nos desfazer dos compromissos que deixamos de cumprir diante de irmãos de outras vidas, que mais cedo ou mais tarde, cruzarão nosso caminho, atraídos pela vibração que as algemas da culpa ou os laços de amor nos impulsionarem.
Ensinam os Espíritos que a reencarnação tem início no momento da fecundação através de processos complexos que exigem a “regressão” do corpo espiritual do reencarnante, a ordenação do patrimônio genético que ele vai receber e a conjunção de forças de atração exercidas pelos futuros pais. Esses Instrutores espirituais nos anteciparam que a fecundação e o desenvolvimento do embrião pode ocorrer sem a presença de um espírito assumindo este corpo. Este fato pode nos permitir imaginar que a fecundação em laboratório ocorre desprovida de um espírito em suas células e a gravidez só será bem sucedida quando a conjunção de diversos fatores ligados a participação de um espírito e a conjunção de vibrações dos pais promoverem a sintonia desta união.
Quando Allan Kardec perguntou aos Espírito qual o nosso maior direito, eles responderam que é o direito de viver. A vida é a maior expressão da criação de Deus. Ainda não temos alcance suficiente para compreender a extensão da criação divina que expressa vida em tudo que existe. Os Espíritos, no entanto, ensinaram que o princípio inteligente deverá percorrer toda jornada de evolução, do átomo ao arcanjo.


[2]Nubor Orlando Facure, CRM-SP 11789, é diretor do Instituto do Cérebro de Campinas, e ex-professor titular de neurocirurgia da UNICAMP. Diversos de seus textos na interface ciência-espiritismo, bem como referências a suas publicações recentes nessa área encontram-se no site http://www.geocities.com/nubor_facure/

terça-feira, 9 de maio de 2017

Teoria das Manifestações Físicas - 2 [1]



Rogamos aos nossos leitores o obséquio de se reportarem ao primeiro artigo que publicamos acerca desse assunto [vide “Teoria das Manifestações Físicas”, publicada neste blog em 02/05/2017]; sendo este a sua continuação, seria pouco inteligível se não se tivesse em mente aquele começo.
As explicações que demos sobre as manifestações físicas, como dissemos, fundam-se sobre a observação e a dedução lógica dos fatos: concluímos de acordo com o que vimos. Agora, como se operam, na matéria eterizada, as modificações que vão torná-la perceptível e tangível? Deixemos, primeiro, que falem os Espíritos, a quem interrogamos a respeito desse assunto, acrescentando depois os nossos próprios comentários. As respostas seguintes foram dadas pelo Espírito São Luís; concordam com o que nos havia sido dito anteriormente por outros Espíritos.
1. Como pode um Espírito aparecer com a solidez de um corpo vivo?
– Ele combina uma parte do fluido universal com o fluido que o médium libera, próprio a esse efeito. À sua vontade, esse fluído toma a forma que o Espírito deseja; mas em geral a forma é impalpável.
2. Qual é a natureza desse fluido?
– Fluido; está dito tudo.
3. Esse fluido é material?
– Semimaterial.
4. É esse fluido que compõe o perispírito?
– Sim, é a ligação do Espírito à matéria.
5. É esse fluido que dá vida, o princípio vital?
– Sempre ele; eu disse ligação.
6. Esse fluido é uma emanação da Divindade?
– Não.
7. É uma criação da Divindade?
– Sim, tudo é criado, exceto o próprio Deus.
8. O fluido universal tem alguma relação com o fluido elétrico, do qual conhecemos os efeitos?
– Sim; é o seu elemento.
9. A substância etérea que existe entre os planetas é o fluido universal em questão?
– Ele envolve os mundos: sem o princípio vital, nada viveria. Se um homem se elevasse além do envoltório fluídico que circunda os globos, pereceria, porquanto o princípio vital dele se retiraria, para juntar-se à massa. Esse fluido vos anima; é ele que respirais.
10. Esse fluido é o mesmo em todos os globos?
– É o mesmo princípio, mais ou menos eterizado, conforme a natureza dos globos; o vosso é um dos mais materiais.
11. Desde que é esse fluido que compõe o perispírito, estaria em uma espécie de condensação que, até certo ponto, o aproxima da matéria?
– Até um certo ponto, sim, visto não ter suas propriedades; é mais ou menos condensado, conforme os mundos.
12. São os Espíritos solidificados que erguem uma mesa?
– Essa pergunta não levará ainda ao que desejais. Quando uma mesa se move sob vossas mãos, o Espírito evocado por vosso Espírito vai haurir, do fluido cósmico universal, aquilo com que haverá de animar essa mesa com uma vida factícia. Os Espíritos que produzem tais efeitos são sempre Espíritos inferiores, ainda não inteiramente desprendidos de seu fluido ou perispírito. Estando assim preparada à sua vontade – à vontade dos Espíritos batedores – o Espírito a atrai e a movimenta, sob a influência do seu próprio fluido, liberado por sua vontade. Quando a massa que deseja levantar ou mover lhe é demasiado pesada, chama em seu auxílio Espíritos que se acham nas mesmas condições que ele. Creio que me expliquei com bastante clareza para fazer-me compreender.
13. Os Espíritos que ele chama em seu auxílio são inferiores?
– Quase sempre são iguais; frequentemente vêm por si mesmos.
14. Compreendemos que os Espíritos superiores não se ocupem de coisas que estão abaixo deles; mas perguntamos, em virtude de serem desmaterializados, se teriam o poder de o fazer, caso tivessem vontade?
– Têm a força moral, como os outros têm a força física; quando necessitam desta última, servem-se dos que a possuem. Não se vos disse que eles se servem dos Espíritos inferiores como o fazeis com os carregadores?
15. De onde vem o poder especial do Sr. Home?
– De sua organização.
16. Que tem ela de particular?
– Essa pergunta não está clara.
17. Perguntamos se se trata de sua organização física ou moral.
– Eu disse organização.
18. Entre as pessoas presentes há alguém que possa ter a mesma faculdade do Sr. Home?
– Têm-na em certo grau. Não foi um de vós que fez mover a mesa?
19. Quando uma pessoa faz mover um objeto, é sempre pelo concurso de um Espírito estranho, ou a ação pode provir somente do médium?
– Algumas vezes o Espírito do médium pode agir sozinho, porém, na maioria das vezes, é com o auxílio dos Espíritos evocados; isso é fácil de reconhecer.
20. Como é que os Espíritos aparecem com as roupas que usavam na Terra?
– Delas muitas vezes só têm a aparência. Aliás, quantos fenômenos sem solução não tendes entre vós? Como pode o vento, que é impalpável, arrancar e quebrar árvores, que são compostas de matéria sólida?
21. Que entendeis quando afirmais que essas roupas têm apenas a sua aparência?
– Ao tocá-las nada se sente.
22. Se bem compreendemos o que nos dissestes, o princípio vital reside no fluido universal; o Espírito haure nesse fluido o envoltório semimaterial que constitui o seu perispírito, e é por meio desse fluido que ele age sobre a matéria inerte. É isso mesmo?
 – Sim; isto é, ele anima a matéria com uma espécie de vida factícia; a matéria se anima da vida animal. A mesa que se move sob vossas mãos vive e sofre como o animal; obedece por si mesma ao ser inteligente. Não é ele que a dirige, como o homem com um fardo; quando a mesa se ergue, não é o Espírito que a levanta, é a mesa animada que obedece ao Espírito inteligente.
23. Desde que o fluido universal é a fonte da vida, é, ao mesmo tempo, a fonte da inteligência?
– Não; o fluido anima somente a matéria. Essa teoria das manifestações físicas oferece vários pontos de contato com a que demos, mas dela difere sob certos aspectos. De uma e da outra ressalta um ponto capital: o fluido universal, no qual reside o princípio da vida, é o agente principal dessas manifestações e esse agente recebe sua impulsão do Espírito, quer seja encarnado ou errante. Esse fluido condensado constitui o perispírito ou envoltório semimaterial do Espírito. Quando encarnado, o perispírito está unido à matéria do corpo; no estado de erraticidade, fica livre. Ora, duas questões se apresentam aqui: a da aparição dos Espíritos e a do movimento imprimido aos corpos sólidos.
Em relação à primeira, diremos que, no estado normal, a matéria eterizada do perispírito escapa à percepção dos nossos órgãos; só a alma pode vê-la, quer em sonho, quer em estado sonambúlico ou, até mesmo, semiadormecida; numa palavra, toda vez em que houver suspensão total ou parcial da atividade dos sentidos. Quando o Espírito está encarnado, a substância do perispírito se acha mais ou menos ligada intimamente à matéria do corpo, mais ou menos aderente, se assim nos podemos exprimir.
Em algumas pessoas há uma espécie de emanação desse fluido, em consequência de sua organização, e é isso que constitui propriamente os médiuns de efeitos físicos. Emanando do corpo, esse fluido se combina, segundo leis que nos são desconhecidas, com o fluido que forma o envoltório semimaterial de um Espírito estranho. Disso resulta uma modificação, uma espécie de reação molecular que lhe altera momentaneamente as propriedades, a ponto de torná-lo visível e, em certos casos, tangível. Esse efeito pode produzir-se com ou sem o concurso da vontade do médium; é isso que distingue os médiuns naturais dos médiuns facultativos. A emissão do fluido pode ser mais ou menos abundante: daí os médiuns mais ou menos potentes; e como tal emissão não é permanente, fica explicada a intermitência daquele poder. Enfim, se se levar em conta o grau de afinidade que pode existir entre o fluido do médium e o de tal ou qual Espírito, conceber-se-á que sua ação possa exercer-se sobre uns e não sobre outros.
Evidentemente, o que acabamos de dizer também se aplica à força mediúnica, no que concerne ao movimento dos corpos sólidos; resta saber como se opera esse movimento. Conforme as respostas que relatamos acima, a questão se apresenta sob uma luz inteiramente nova; assim, quando um objeto é posto em movimento, erguido ou lançado no ar, não é o Espírito que o agarra, empurra e levanta, como o faríamos com a mão; ele, por assim dizer, o satura com o seu fluido, combinando-o com o do médium, e o objeto, assim momentaneamente vivificado, age como o faria um ser vivo, com a diferença de que, não tendo vontade própria, segue a impulsão da vontade do Espírito, tanto podendo essa vontade ser do Espírito do médium quanto de um Espírito estranho e, algumas vezes, dos dois, agindo de comum acordo, conforme sejam ou não simpáticos.
A simpatia ou antipatia que pode existir entre os médiuns e os Espíritos que se ocupam desses efeitos materiais explica por que nem todos são aptos a provocá-los.
Desde que o fluido vital, emitido de alguma sorte pelo Espírito, dá uma vida factícia e momentânea aos corpos inertes; desde que outra coisa não é o perispírito senão o próprio fluido vital, segue-se que, quando encarnado, é o Espírito que dá vida ao corpo, por intermédio de seu perispírito; fica-lhe unido enquanto a organização o permite; quando se retira, o corpo morre. Agora, se em vez de uma mesa, talhamos uma estátua em madeira, e se agirmos sobre ela como sobre a mesa, teremos uma estátua que se movimentará, que baterá, que responderá por movimentos e pancadas; numa palavra, uma estátua momentaneamente animada de uma vida artificial. Quanta claridade lança essa teoria sobre uma multidão de fenômenos até aqui inexplicados! Quantas alegorias e efeitos misteriosos ela explica! É toda uma filosofia.



[1] Revista Espírita – Junho/1858 – Allan Kardec