terça-feira, 16 de julho de 2019

Evocação de um Surdo-Mudo Encarnado[1]




O Sr. Rul, membro da Sociedade de Paris, transmite-nos o fato que se segue. Disse ele:
Em 1862 conheci um jovem surdo-mudo de doze ou treze anos. Desejoso de fazer uma observação, perguntei aos meus guias protetores se me seria possível evocá-lo. Como a resposta fosse afirmativa, fiz o rapaz vir ao meu quarto e o instalei numa poltrona, com um prato de uvas, que ele se pôs a chupar com ardor.
Por meu lado, sentei-me a uma mesa. Orei e fiz a evocação, como de costume. Ao cabo de alguns instantes minha mão tremeu e escrevi: “Eis-me aqui”.
Olhei o menino: estava imóvel, os olhos fechados, calmo, adormecido, com o prato sobre os joelhos; cessara de comer. Dirigi-lhe as seguintes perguntas:
Onde estás agora?
– Em vosso quarto, em vossa poltrona.
Queres dizer por que és surdo-mudo de nascença?
– É uma expiação de meus crimes passados.
Que crimes cometeste?
– Fui parricida.
Podes dizer se tua mãe, a quem amas tão ternamente, não teria sido, como teu pai ou tua mãe, na existência de que falas, o objeto do crime que cometeste?
Em vão esperei a resposta; minha mão ficou imóvel.
Levantei de novo os olhos para o menino; acabava de despertar e comia as uvas com apetite. Tendo, então, pedido aos guias que me explicassem o que acabava de se passar, foi-me respondido:  Ele deu as informações que desejavas e Deus não permitiu que te desse outras.
Não sei como os partidários da comunicação exclusiva dos demônios nos explicariam o fato. Para mim, conclui que, desde que Deus por vezes nos permite evocar um Espírito encarnado, permite-nos igualmente em relação aos desencarnados, quando o fazemos com o espírito de caridade.

Observação – Por nosso lado, faremos uma outra observação a respeito. Aqui, a prova de identidade resulta do sono provocado pela evocação, e da cessação da escrita no momento de despertar. Quanto ao silêncio guardado sobre a última pergunta, prova a utilidade do véu lançado sobre o passado. Com efeito, suponhamos que a mãe atual desse menino tenha sido sua vítima em outra existência, e que este tenha querido reparar seus erros pela afeição que lhe testemunha; a mãe não seria dolorosamente afetada se soubesse que o filho foi seu assassino? Sua ternura por ele não seria alterada? Foi-lhe permitido revelar a causa de sua enfermidade como assunto de instrução, a fim de nos dar uma prova a mais de que as aflições daqui têm uma causa anterior, quando tal causa não esteja na vida atual, e que assim tudo é conforme a justiça; mas o resto era inútil e poderia ter chegado aos ouvidos da mãe. Por isto os Espíritos o despertaram, no momento em que, talvez, fosse responder. Mais tarde explicaremos a diferença que existe entre a posição desse menino e a de Valentine, do relato precedente.
Além disso, o fato prova um ponto capital: não é somente depois da morte que o Espírito recobra a lembrança de seu passado. Pode dizer-se que não a perde jamais, mesmo na encarnação, porquanto, durante o sono do corpo, quando goza de certa liberdade, o Espírito tem consciência de seus atos anteriores; sabe por que sofre, e que sofre justamente; a lembrança não se apaga senão durante a vida exterior de relação. Mas, em falta de uma lembrança precisa, que lhe poderia ser penosa e prejudicar suas relações sociais, haure novas forças nos instantes de emancipação da alma, se os soube aproveitar.
Deve-se concluir do fato que todos os surdos-mudos tenham sido parricidas? Seria uma consequência absurda, porque a justiça de Deus não está circunscrita em limites absolutos, como a justiça humana. Outros exemplos provam que esta enfermidade resulta, por vezes, do mau uso que o indivíduo tenha feito da faculdade da palavra. Pois que! Exclamarão, será justa uma mesma expiação para duas faltas tão diferentes na sua gravidade? Mas os que assim raciocinam ignoram que a mesma falta oferece infinitos graus de culpabilidade, e que Deus mede a responsabilidade pelas circunstâncias? Aliás, quem sabe se esse menino, supondo seu crime sem escusas, não sofreu duro castigo no mundo dos Espíritos, e seu arrependimento e desejo de reparar não reduziram a expiação terrena a uma simples enfermidade? Admitindo, a título de hipótese, já que o ignoramos, que sua mãe atual tenha sido sua vítima, caso não conservasse para com ela a resolução tomada de reparar sua falta pela ternura, por certo o esperaria um castigo mais terrível, seja no mundo dos Espíritos, seja em nova existência. A justiça de Deus nunca falha e, por ser às vezes tardia, nada perde por esperar; mas Deus, em sua bondade, jamais condena de maneira irremissível, e sempre deixa aberta a porta do arrependimento. Se o culpado demora a aproveitá-lo, sofrerá por mais tempo. Assim, dele sempre depende abreviar os seus sofrimentos. A duração do castigo é proporcional à duração do endurecimento. É assim que a justiça de Deus se concilia com sua bondade e seu amor por suas criaturas.




[1] Revista Espírita – Janeiro/1865 – Allan Kardec

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Nikola Tesla[1]



Ricardo Normando Ferreira de Paula

Se não fosse por Nikola Tesla, possivelmente você não estaria lendo este texto agora na tela do computador e, ainda mais, nenhum equipamento eletroeletrônico existiria.
Entre suas contribuições para o avanço do mundo moderno estão o desenvolvimento do rádio, demonstrando a transmissão sem fios em 1894, robótica, controle remoto, radar, ciência computacional, balística, física nuclear e física teórica.
Suas ideias no mundo foram tão revolucionárias que o Estado de Nova York e muitos outros estados nos EUA proclamaram 10 de julho, aniversário de Nikola Tesla, como o dia de Tesla. Sempre à frente de seu tempo, constituiu-se em um dos maiores visionários da ciência, o que torna injusta a “total escuridão” em que este homem terminou os seus dias. A placa de Rua Nikola Tesla Corner" foi recentemente colocada na esquina da Rua 40 com a Avenida 6, em Manhattan. Há uma foto grande de Tesla na Estátua da Liberdade Museum. O Liberty Science Center, em Jersey City, New Jersey tem uma demonstração de ciência diária da bobina de Tesla criar um milhão de volts de eletricidade diante dos olhos de espectadores.
Este grande gênio nasceu em 10 de julho de 1856 em Smiljan, Lika, que era então parte do Império Austo-Húngaro região, da Croácia. O pai, Milutin Tesla, sacerdote ortodoxo sérvio e a mãe, Djuka Mandic (poderíamos entendê-la como uma inventora) contribuíram de forma determinante nas escolhas futuras de Tesla.
Tesla estudou na Realschule, Karlstadt em 1873, o Instituto Politécnico em Graz, na Áustria e na Universidade de Praga quando ficou fascinado com eletricidade. A partir daí, iniciou sua carreira como engenheiro eletricista com uma companhia telefônica em Budapeste em 1881.
Mais tarde, Tesla recebeu e aceitou uma oferta para trabalhar para Thomas Edison, em Nova York. Seu sonho de infância era ir aos Estados Unidos para aproveitar o poder de Niágara Falls. Tesla começou a melhorar a linha de dínamos de Edison, enquanto trabalhava no laboratório em Nova Jersey. Foi aqui que a sua divergência de opinião com Edison sobre corrente contínua e corrente alternada começou. Apesar de muitas descobertas profícuas, as divergências entre Tesla e Edison, o fez, em 1912, recusar em dividir o Prêmio Nobel de Física entre os dois. Assim, o prêmio acabou sendo dado a outro pesquisador.
Nikola Tesla desenvolveu o modelo polifásico alternado que conhecemos atualmente, além de realizar 40 patentes básicas dos EUA sobre o sistema. Todas estas patentes foram compradas por George Westinghouse. Foi aí que a guerra das correntes tomou corpo maior. O grande conflito era Edison (com sua corrente contínua) versus Tesla-Westinghouse (corrente alternada). Estes acabaram vencendo a batalha por que a tecnologia da corrente alternada se mostrou superior.
Em fevereiro de 1882, Tesla descobriu o campo magnético rotativo, um princípio fundamental na física e na base de quase todos os dispositivos que usam corrente alternada.   Tesla brilhantemente tinha adaptado o princípio da rotação do campo magnético para a construção do motor de indução alternado atual e o sistema polifásico para a geração, transmissão, distribuição e utilização de energia elétrica.
Hoje a eletricidade é gerada a partir da conversão da energia mecânica por meio de suas invenções. Contudo, é consenso entre todos aqueles que conhecem a história de Tesla e as necessidades do mundo moderno que a sua maior conquista foi o sistema polifásico de corrente alternada, que é hoje a forma como todo o globo é iluminado.
Foi condecorado pelo Rei Nikola de Montenegro com a Ordem de Danilo por esta tecnologia.
Ao todo, ele registrou mais de 700 patentes mundiais. Sua visão incluía a exploração de energia solar e do poder do mar. Ele previu comunicações interplanetárias e satélites.
Nikola Tesla também patenteou o sistema básico de rádio em 1896. Sua publicação continha todos os diagramas esquemáticos descrevendo todos os elementos básicos do transmissor de rádio que mais tarde foi usado por Marconi que, em dezembro de 1901, estabeleceu a comunicação sem fios entre o Reino Unido e a New Foundland, no Canadá, o que lhe valeu o prêmio Nobel em 1909.   Contudo, parte do trabalho de Marconi não era original.
Waldorf Astoria foi a residência de Nikola Tesla durante muitos anos. Ele viveu lá quando ele estava no auge do poder financeiro e intelectual.   Lá, organizava jantares convidando pessoas famosas que mais tarde testemunharam experiências elétricas espetaculares em seu laboratório.
Nikola Tesla foi uma das personalidades mais célebres na imprensa americana, no século passado.   De acordo com a edição especial da Life Magazine de setembro de 1997, Tesla está entre as 100 pessoas mais famosas dos últimos 1.000 anos.   Ele é um dos grandes homens que criaram um divisor de águas na história humana.   Ele foi um Super Star.
Em 1894, ele recebeu o doutorado honoris causa pela Universidade de Columbia e Yale e a medalha Elliot Cresson pelo Instituto Franklin.   Em 1934, a cidade de Filadélfia concedeu-lhe a medalha John Scott pelo seu sistema de energia polifásico. Ele era um membro honorário da Associação Nacional de Luz elétrica e um membro da Associação Americana para o Avanço da Ciência.
Em seu 75 º aniversário em 1931, o inventor apareceu na capa da revista Time. Nesta ocasião, Tesla recebeu cartas de congratulações de mais de 70 pioneiros na ciência e na engenharia, incluindo Albert Einstein. Estas cartas foram montadas e apresentadas à Tesla, na forma de um volumoso depoimento.
Tesla faleceu em 07 de janeiro de 1943 no Hotel New Yorker (Sala 3327 no 33 º piso), onde viveu durante os últimos dez anos de sua vida.
Um funeral de Estado foi realizada na St. John the Divine Cathedral em Nova York. Telegramas de condolências foram recebidos de muitos notáveis, incluindo a primeira-dama Eleanor Roosevelt e vice-presidente Wallace. Mais de 2000 pessoas compareceram, entre eles vários prêmios Nobel. Ele foi cremado em Ardsley on the Hudson, em Nova York. Suas cinzas foram colocadas em uma esfera de ouro, a forma preferida de Tesla, em exposição permanente no Museu Tesla em Belgrado, juntamente com sua máscara mortuária.
Para conhecer mais acerca deste grande gênio da humanidade veja o Documentário “Tesla: O mestre dos raios”[ https://www.youtube.com/watch?v=zn46LIvz898 ] .  
Visite também: Tesla Memorial Society of New York, disponível em www.teslasociety.com

Bibliografia:
My Inventions: The Autobiography of Nikola Tesla. Nikola Tesla
Nikola Tesla: a spark of genius. Carol Dommermuth-Costa
As fantásticas invenções de Nikola Tesla.  David Hatcher Childress.  Ed Madras

sábado, 13 de julho de 2019

DÉJÀ VU[1]



Marco Tulio Michalik

A expressão déjà vu é de origem francesa e pode ser traduzida como "já visto". Como já ter estado em um determinado lugar ou já ter vivido certa situação presente, quando na realidade isto não era de conhecimento anterior. Em alguns casos ocorre a habilidade de predizer os eventos que acontecerão em seguida, o que é denominado premonição. Outras vezes, a pessoa pode determinar o tempo exato e o local onde a experiência original ocorreu.
Quando pensamos já ter visto um filme, lido um livro, conhecido uma pessoa, estado em um lugar sem nunca ter ido neste local, ficamos confusos, com dúvida, e temos a sensação de uma experiência déjà vu. Porém o déjà vu clássico nos dá a sensação de estranheza, de estarmos vivenciando uma experiência do passado.
Hans Holzer, em seu livro “Vida Além Vida”, descreve o seguinte:
A maioria dessas experiências déjà vu pode ser explicada com base na precognição. Uma experiência é prevista e não é registrada na hora. Mais tarde, quando a experiência se torna uma realidade objetiva e a pessoa passa por ela, de repente lembra-se "em um piscar de olhos" que já a conhecia. Em outras palavras, a maioria das experiências déjà vu nada mais é do que incidentes precógnitos esquecidos. Contudo, existe uma pequena parte dessas experiências que não pode ser explicada dessa maneira. Entre elas está em ir a uma cidade ou a uma casa pela primeira vez e prever com exatidão como é a casa ou a cidade – a ponto até de conhecer os cômodos, os móveis, a disposição de objetos e outros detalhes que estão muito além do âmbito da precognição normal. (...) Em geral, as experiências precógnitas são parciais e enfatizam certos pontos notáveis, talvez alguns detalhes, mas nunca todo o quadro. Quando o número de detalhes lembrado torna-se muito grande, temos que desconfiar sempre de que se trata de lembranças de uma encarnação passada".

A explicação médica

Os psicólogos e psiquiatras explicam que o sistema de memória temporal – que nos informa a idade, a data dos acontecimentos memorizados ‒ sofre um lapso e nos informa como se fosse antiga uma memória que na verdade foi armazenada centésimos de segundos antes. Ou seja, você tem a sensação de já ter estado em um lugar, e já esteve mesmo, mas dois centésimos de segundos atrás, e fica achando que foi ontem ou há uma semana ou até anos.
Em 1955, Wilder Penfield fez uma experiência em que estimulava eletricamente lóbulos temporais, encontrando um bom número de experiências de déjà vu. As estatísticas mostram que cerca de 30% da população já teve alguma experiência déjà vu. Porém, este fenômeno ocorre com mais frequência em indivíduos com distúrbios neuropatológicos, como a esquizofrenia e a epilepsia. Há também uma predisposição maior por fatores não patológicos, como fadiga, estresse, traumas emocionais, excesso de álcool e drogas.
É um assunto muito interessante, considerada a forma como o fenômeno se processa. Há diversas teorias sobre esse fenômeno, como a psicodinâmica, reencarnação e sonhos, ilusão epiléptica, holografia, distorção do senso de tempo e transferência entre hemisférios cerebrais. Na psicodinâmica, Freud dizia que o déjà vu resultava da lembrança de desejos inconscientes ou fantasias do passado que eram ativadas pela situação presente. Também o déjà vu poderia ser uma autodefesa, ou seja, nosso inconsciente processava a informação de que aquilo já havia acontecido, por isto, não devia temer, pois já havia passado por aquela experiência anteriormente. Essa teoria não explica os casos de premonição, nem de lembranças de datas e locais onde ocorreram eventos no passado e que ninguém conhecia. Nas teorias que associam o déjà vu a sonhos ou desdobramento do espírito, onde o espírito teria realmente vivido estes fatos, livre do corpo, surgiriam as lembranças de encarnações passadas, o que levaria à rememoração na encarnação presente.
Na ilusão epiléptica, há a teoria do Dr. John Jackson, que associa o déjà vu a um sintoma de epilepsia psicomotora, devido à grande incidência de casos de "déjà senti" entre os pacientes epilépticos.
A holografia seria a memória que pode ser armazenada no cérebro como holograma tridimensional, em que pequenas partes de uma figura podem ser utilizadas para reconstruir o todo. Segundo essa teoria, o déjà vu ocorreria quando uma peça de um holograma presente fosse coincidente com outra peça de um holograma no passado. Ou seja, você vê uma foto de uma determinada cidade; tempos depois, você esquece estas imagens e as deixa armazenadas na memória como um holograma. Algum dia, quando você visitar essa cidade da foto, poderá ocorrer um déjà vu, por você se sentir familiarizado com as imagens, sem recordar-se de onde elas vêm.

Estado de percepção alterado

A distorção do senso de tempo é quando sem ter entrado ainda no estado de consciência, percebemos a situação ao nosso redor. Dessa forma, o tempo parece ser maior do que o normal. Quando entramos no estado de consciência, a situação que já havíamos percebido no estado inconsciente parece-nos uma lembrança do passado. A transferência entre hemisférios cerebrais significa a transferência de informações entre os dois hemisférios do cérebro, que normalmente ocorre em alguns milésimos de segundos. Porém, se esse tempo aumentar para cerca de um minuto, o hemisfério não dominante receberá a informação duas vezes, sendo uma diretamente e outra do outro hemisfério. Dessa forma, ele terá a sensação que os eventos presentes já aconteceram no passado.
Há carência de publicações e depoimentos sobre este assunto. Um rapaz descreveu sua experiência déjà vu na internet, num site renomado. Ele conta que no passado já sofreu catalepsia e teve muito déjà vu, que duravam desde dois a quinze minutos. Ele diz que em uma determinada época de sua vida teve que sair do Brasil e foi trabalhar em um posto de gasolina em Portugal. Um dia chegou um caminhão para abastecer. Enquanto ele se dirigia até o cliente, ativou-se espontaneamente um dèjá vu. Ele sabia que era um processo bioquímico e estava convencido de que aquela cena já tinha acontecido. Ele também podia pensar que a única coisa que não tinha acontecido era justamente ele saber que era um déjà vu. Então, em frações de segundos, pensou:
Ora, aqui estou eu mais uma vez com esta “coisa”. Vou aproveitar para fazer um teste: se o déjà vu for informação somente do passado que está sendo processada por vias não convencionais, eu não serei capaz de adivinhar a quantidade de óleo diesel que o cliente vai desejar.
Após ter esse pensamento extremamente rápido, aquela própria sensação de que tudo aquilo já tinha acontecido, modificou-se e passou a incluir também a sensação de que o cliente iria querer 2.000 escudos de combustível. Lembrou-se, enquanto se aproximava do caminhão, de que aquela quantidade era muito improvável, devido ele já estar acostumado a abastecer no mínimo 5.000 escudos para aquele tipo de veículo pesado. Foi tudo muito rápido e o cliente pediu 2.000 escudos. A sensação de déjà vu continuou, com a ideia de que aquilo já tinha acontecido, com exceção de sua operação mental discursiva; ele sabia que aquilo era um déjà vu e ele tinha livre arbítrio para alterar, seja para confirmar ou para prever o evento seguinte. Ele comenta que seu acontecimento poderia ser interpretado de forma diferente por um terceiro observador porque poderiam argumentar de que houve uma adivinhação, porém, antes de atender o cliente, ele digitou os 2.000 escudos na máquina de combustível, de forma que isto não poderia ser interpretado mais como uma simples operação mental inversa, devido ao fato de que o evento real se concretizou no devir de outras pessoas sem estado de déjà vu.

Experiências com o déjà vu

Como achei interessante seu depoimento, pedi, via e-mail, mais explicações. Essa pessoa me respondeu o seguinte:
Um aspecto importante que gostaria de observar é que por muito tempo estive atento à percepção desta ocorrência o suficiente para poder discriminar quando há somente um déjà vu e quando ocorre a possibilidade de adivinhação concreta em torno de eventos particulares. Isto é, quando o déjà vu ocorre há em minha consciência um “discurso livre” cujas operações mentais permitem inferências antecipadas sobre eventos futuros. Por outras palavras, naquele estado há um discernimento concreto do que é a sensação imediata do “já visto” e do que é pensamento on-line sobre qual evento vai efetivamente ocorrer no futuro independente do déjà vu.
Relatos interessantes são encontrados sobre esse fenômeno. Isso não quer dizer que todas as respostas serão encontradas, mas poderão ter uma visão mais ampla do fenômeno e analisar com mais precisão as teorias defendidas nesta experiência específica.
Voltemos ao livro de Hans Holzer, numa história em que ele descreve a experiência déjà vu de um soldado:
Durante a Segunda Guerra Mundial, um soldado se viu na Bélgica. Enquanto seus companheiros se perguntavam como entrar em determinada casa em uma cidadezinha daquele país, ele lhes mostrou o caminho e subiu a escada à frente deles, explicando, enquanto subia, onde ficava cada cômodo. Quando, depois disso, lhe perguntaram se havia estado ali antes, ele negou, dizendo que nunca havia deixado seu lar nos Estados Unidos, e estava dizendo a verdade. Não conseguia explicar como, de repente, se vira dotado de um conhecimento que não possuía em condições normais.
Devemos ter cuidado para que uma ilusão não se confunda com uma experiência déjà vu. O termo déjà vu se tornou popular dando amplo sentido a tudo que nos parece familiar. A experiência déjà vu é muito profunda e o sentimento é de estranheza. Devem ser separadas, as teorias de reencarnação, sonhos ou desdobramentos, das teorias de desejos inconscientes, fantasias do passado, mecanismo de autodefesa, ilusão epiléptica, entre outras, para melhor discernimento do que realmente é um déjà vu e o que é apenas uma ilusão de nossa imaginação fértil.


Este artigo foi publicado na Revista Cristã de Espiritismo, edição 35

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Quando não aprende através do Amor, aprende-se através da Dor[1]



Dilemar Neto

Existem dois principais caminhos a escolhermos durante a nossa existência e as suas devidas consequências. Podemos escolher o caminho do aprendizado e do esforço próprio, mais difícil mas meritório e com consequências felizes; ou, pelo contrário, o caminho mais fácil, que é o das paixões e da preguiça, que com certeza nos trará consequências dolorosas.
A Doutrina Espírita tem como maior objetivo nos fazer adquirir uma fé racional, ajudando-nos a mudar os nossos posicionamentos perante as mais variadas situações da vida. Esta mudança se dá quando procuramos pensar antes de agir ou de falar, raciocinando se aquela atitude é correta ou não, se as consequências são boas ou ruins. Mas para fazermos este julgamento de valores, devemos procurar conhecimentos em que possamos basear nossas análises, para termos uma visão mais justa do conjunto de fatos em que estamos inseridos.
O Evangelho de Jesus Cristo, junto com a Doutrina Espírita, são os que nos oferecem as mais perfeitas informações neste sentido, onde acharemos a fonte dos mais valiosos ensinos morais e comportamentais, para a melhoria de nossa personalidade. Segue-se uma lista das mais variadas qualidades morais, junto com os correspondentes defeitos, para analisarmos as consequências de cada um deles em nossas vidas, gerando, conforme o caminho que escolhermos, felicidade ou sofrimentos.

Humildade e Orgulho: O orgulho é o maior dos defeitos e o mais difícil de ser combatido, pois ele está no âmago do nosso ser. Dizem os espíritos superiores que é o último a ser eliminado. Ele nos faz ter a falsa ideia de que somos melhores e superiores às outras pessoas, e em alguns casos até mais que o próprio Deus. Ele dificulta muito o aprendizado moral, pois o orgulhoso não está disposto a se melhorar porque acha que não necessita disto. Este defeito se manifesta de várias formas e maneiras: podemos encontrar dentro de nós o orgulho racial, profissional, religioso, social entre outros. Às vezes temos até mesmo o orgulho de sermos caridosos, de sermos espíritas, mas não devemos nos iludir e achar que somos melhores que as outras pessoas. O melhor combate a este perigoso defeito é adquirirmos a humildade, que se faz quando nos colocamos abaixo de Deus e iguais aos nossos irmãos. O exercício da humildade se dá quando procuramos em nós os defeitos que vemos nos outros, procurando aprender com tudo e todos que estão em nossa volta.
Caridade e Egoísmo: O Egoísta pensa primeiro em si, depois pensa nas necessidades dos outros, e é isto exatamente que o mundo nos ensina atualmente. Se deixarmos o materialismo tomar conta do nosso ser, iremos nos tornar uma pessoa do mundo, ou seja, um egoísta de primeira. Para combater isto é necessário procurarmos compreender o que a Doutrina fala a respeito da verdadeira caridade e vivenciarmos este sentimento que vai trazer a felicidade para nós e para os que nos rodeiam. A verdadeira caridade modifica o nosso posicionamento de vida, fazendo-nos perceber que os nossos problemas não são os maiores e nem os mais importantes do mundo. Onde vamos compreender as necessidades e os problemas dos nossos semelhantes e trabalhar para melhorar este estado de coisas.
A solução dos maiores problemas da nossa sociedade seria a prática da caridade cristã, onde o mais forte e preparado ajudaria e amparar o mais fraco e o oprimido
Paciência e Irritação: Irritação e nervosismo mostram bem a situação atual de desequilíbrio por que passa a sociedade. Todos estão com pressa, correndo atrás apenas de sua vida e de seus interesses. E se alguém ou algo atrapalha esta correria, as pessoas se descontrolam e se atiram contra este obstáculo de uma forma lamentável. Estes descontroles emocionais não só trazem consequências espirituais funestas, como também causam graves males físicos.
Com a prática diária da paciência, que é a tranquilidade e a calma perante os obstáculos ou às coisas que nos atingem, nós iremos cultivar uma vida mais saudável, tanto no campo espiritual como na parte física.
Citamos a passagem de Jesus, do Evangelho de Mateus (6: 25-34), onde o Mestre nos diz: "Não vos inquieteis, pois, pelo dia de amanhã, pois o dia de amanhã cuidará de si mesmo. Basta a cada dia o seu mal".
Fé e Insegurança: Nos ensina Kardec que a fé não é só religiosa, mas é sim um sentimento de força de vontade, ou vontade de querer, que pode ser usado em todos os aspectos de nossa vida. A fé nos dá a capacidade de usarmos os nossos atributos para atingirmos certos objetivos. Ela tem que estar aliada à humildade, para reconhecermos as nossas limitações e procurarmos superá-las. Já a fé religiosa direciona todas as nossas capacidade para procurar somente o bem, dando-nos uma confiança no futuro e na justiça de Deus. A Doutrina Espírita alia a este sentimento a lógica e a razão, transformando este sentimento em fé racional, que é o maior instrumento para combater as inseguranças que tomam conta do nosso ser em alguns momentos de nossa vida.
Simplicidade e Vaidade: A vaidade reflete em todos os aspectos do nosso ser e não somente na aparência. Claro que devemos nos vestir de uma forma adequada ao lugar em que estivermos indo. Para as mulheres não é proibido se arrumar ou usar maquiagem ou joias. Também não é proibido cuidar do nosso corpo com exercícios ou dietas. O que a Doutrina pede é que não haja exageros e que não se faça disto o objetivo de nossa existência. Antes de tudo, deve-se pensar no Espírito, e depois na saúde do corpo e então a boa aparência física será consequência, pois o belo não é só aquilo que está na moda. É bom lembrar-nos que a simplicidade é a atitude dos espíritos superiores, aqueles que já estão despidos dos defeitos mais grosseiros.
Perdão e Mágoa: A mágoa é um dos mais destrutivos venenos espirituais, trazendo prejuízos incalculáveis ao ser. Jesus colocou uma grande ênfase ao perdão das ofensas, porque Ele sabia que só assim poderemos evitar sofrimentos profundos, para nós e os nossos companheiros de vida. E só se perdoa de verdade quando esquecemos emocionalmente as ofensas recebidas, não relembrando mais os sentimentos negativos que aquele ato gerou. Esta atitude é indispensável para a nossa saúde mental, espiritual e física.
Indulgência e Maledicência: A pessoa indulgente é aquela que é tolerante e compreensiva para com os defeitos alheios. Não comenta levianamente os erros dos outros, e sempre procura realçar o melhor lado das pessoas. Quando fala de um defeito ou erro alheio, é sempre com caridade e benevolência e com objetivo de aprender ou ensinar.
Disse Jesus: "Com a medida que medirdes, vos medirão também" (Mateus, 7:2), para que compreendamos que se falarmos mal de alguém, não poderemos reclamar quando outros agirem da mesma forma conosco.
Mansidão e Brutalidade: Jesus ensinou que precisamos ser como Ele, que foi manso e humilde de coração. E ser manso é ser afável para com o próximo, evitando o máximo a destemperança e a violência, mesmo em situações adversas. Nós que pretendemos ser espíritas temos a obrigação de cultivarmos a mansidão, pois ela é filha da racionalidade, viga mestra da Fé Espírita.
Obediência e Revolta: A obediência aos desígnios da vida e às Leis de Deus é a condição primordial para evitarmos um sentimento comum, que é a revolta perante as mais variadas situações da vida. Ensinam-nos os espíritos evoluídos, que a melhor e mais rápida maneira de passarmos por um período ruim é aceitarmos a situação, e não reclamar dela, trabalhando incessantemente para melhorá-la. Revolta gera desequilíbrio e desequilíbrio gera mais dor e sofrimento.
Razão e Ignorância: A ignorância é a ausência de conhecimento e compreensão das coisas. E só iremos superar a ignorância que mora dentro de todos nós, exercitando o que Deus nos deu de mais valioso, que é a nossa inteligência. E ela deve ser usada a todo o momento para analisarmos tudo o que iremos falar ou fazer, para evitarmos o máximo os erros provenientes de nossa ignorância das situações vivenciadas por nós. A razão ou racionalidade é o exercício deste ato, que deve ser contínuo e diário. Só assim iremos aproveitar o máximo as oportunidades de aprendizado que esta atual reencarnação nos oferece.

Seguindo estes importantes princípios é que conseguiremos cumprir a nossa tarefa primordial aqui na Terra, que é a de sairmos desta vida mais evoluídos e sábios do que entramos.

Fonte: Rede Amigo Espírita

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Quinta força fundamental da natureza pode ter sido descoberta[1]



Com informações da UCI - 19/08/2016

Revolucionário
Experimentos realizados por físicos húngaros em meados do ano passado podem ter descoberto uma nova partícula subatômica que revela a existência de uma quinta força fundamental da natureza.
"Se for verdade, é revolucionário," disse Jonathan Feng, da Universidade da Califórnia, nos EUA, cuja equipe está apresentando uma nova teoria para tentar explicar a anomalia encontrada pelos físicos húngaros.
"Há décadas nós conhecemos as quatro forças fundamentais: gravitação, eletromagnetismo e as forças nucleares forte e fraca. Se for confirmada por outros experimentos, esta descoberta de uma possível quinta força vai mudar completamente a nossa compreensão do Universo, com consequências para a unificação das forças e para a matéria escura," acrescentou.

Nova partícula de luz
Em 2015, uma equipe da Academia de Ciências da Hungria estava à procura de "fótons escuros", partículas que poderiam explicar a elusiva matéria escura, que os físicos dizem que compõe cerca de 85% da massa do Universo.
Eles não encontraram exatamente o que procuravam, mas descobriram uma anomalia no decaimento radioativo que aponta para a existência de um fóton com massa, uma partícula de luz exatamente 30 vezes mais pesada do que um elétron.
"Os experimentalistas não foram capazes de afirmar que era uma nova força," disse Feng. "Eles simplesmente viram um excesso de eventos que indica uma nova partícula, mas não estava claro para eles se era uma partícula de matéria ou de uma partícula que transmite força".
O grupo de Feng então reuniu, além desses novos dados, todos os outros experimentos anteriores na área e demonstrou que as evidências desfavorecem fortemente tanto partículas de matéria quanto os fótons escuros.
Eles então propuseram uma nova teoria que sintetiza todos os dados existentes e determina que a descoberta pode indicar uma quinta força fundamental da natureza.

Quinta força fundamental da natureza pode ter sido descoberta
Vários experimentos já levantaram a possibilidade da existência de uma Quinta Força Fundamental da natureza. [Imagem: Marc Airhart (UTexas-Austin)/Steve Jacobsen (Northwestern University)]

Bóson X protofóbico
A nova teoria estabelece que, em vez de ser um fóton escuro, a nova partícula pode ser um "bóson X protofóbico". Enquanto a força elétrica normal age sobre elétrons e prótons, este bóson recém-descoberto interage apenas com elétrons e nêutrons - e em uma gama extremamente limitada.
"Não há nenhum outro bóson que tenhamos observado que tenha essa mesma característica. Nós simplesmente o chamamos de 'bóson X', onde X significa desconhecido," explicou Timothy Tait, coautor da nova teoria.
Feng destaca que novos experimentos são cruciais, o que não será difícil, já que a partícula não é muito pesada e há vários laboratórios ao redor do mundo que conseguem gerar a energia necessária para que ela apareça: "Mas a razão pela qual tem sido difícil encontrá-la é que suas interações são muito fracas. Como a nova partícula é tão leve, existem muitos grupos experimentais que trabalham em pequenos laboratórios ao redor do mundo que podem seguir as indicações iniciais, agora que eles sabem onde procurar".

Força mais fundamental e Setor Escuro
Como tantas outras descobertas científicas, esta abre campos inteiramente novos de investigação.
Uma possibilidade intrigante é que essa potencial quinta força fundamental pode se juntar às forças eletromagnética e nuclear forte e fraca como "manifestações de uma força maior, mais fundamental," defende Feng.
Citando o entendimento que os físicos têm do Modelo Padrão, ele especula que pode haver também um "setor escuro" inteiro, com sua própria matéria e suas próprias forças - englobando assim, a matéria escura e a energia escura.
"É possível que estes dois setores [o normal e o escuro] falem um com o outro e interajam através de interações de alguma forma veladas, mas fundamentais," propõe ele. "Esta força do setor escuro pode se manifestar como esta força protofóbica que estamos vendo como resultado do experimento húngaro. Num sentido mais amplo, ela se encaixa com a nossa pesquisa original para compreender a natureza da matéria escura."
 
Bibliografia:
Particle Physics Models for the 17 MeV Anomaly in Beryllium Nuclear Decays
Jonathan L. Feng, Bartosz Fornal, Iftah Galon, Susan Gardner, Jordan Smolinsky, Tim M. P. Tait, Philip Tanedo
Physical Review Letters
DOI: 10.1103/PhysRevLett.116.042501

Protophobic Fifth Force Interpretation of the Observed Anomaly in 8Be Nuclear Transitions
Jonathan L. Feng, Bartosz Fornal, Iftah Galon, Susan Gardner, Jordan Smolinsky, Tim M. P. Tait, Philip Tanedo

Observation of Anomalous Internal Pair Creation in 8Be: A Possible Signature of a Light, Neutral Boson
A. J. Krasznahorkay, M. Csatlós, L. Csige, Z. Gácsi, J. Gulyás, M. Hunyadi, T. J. Ketel, A. Krasznahorkay, I. Kuti, B. M. Nyakó, L. Stuhl, J. Timár, T. G. Tornyi, Zs. Vajta
Physical Review Letters

terça-feira, 9 de julho de 2019

SUICÍDIO IMPEDIDO PELO ESPIRITISMO[1]




Escrevem-nos de Lyon, em 3 de outubro de 1864:
Conheceis a reputação do capitão B... É um homem de fé ardente, de convicção comprovada; dele já falastes em vossa Revista. Há algum tempo achava-se nas margens do rio Saône, em companhia de um advogado, espírita como ele. Prolongando o passeio, aqueles senhores entraram num restaurante para almoçar e logo viram outro viajante, entrando no mesmo estabelecimento.
O recém-chegado falava alto, ordenava o prato com brusquidão e parecia querer monopolizar o pessoal do restaurante. Vendo esse sem-cerimônia, o capitão disse em voz alta algumas palavras um pouco severas ao recém-vindo. De repente sentiu-se tomado de estranha tristeza. O Sr. B... é médium audiente; ouve distintamente a voz de seu filho, do qual recebe frequentes comunicações, murmurando ao seu ouvido: ‘O homem tão rude que estais vendo vai suicidar-se. Vem aqui fazer sua última refeição’.
O capitão levanta-se precipitadamente, dirige-se ao desordeiro e lhe pede perdão por ter externado tão alto o seu pensamento. Depois o arrasta para fora do estabelecimento e lhe diz: ‘Senhor, ides suicidar-vos’. Houve grande estupefação da parte do indivíduo, ancião de setenta e seis anos, que lhe respondeu:
 “Quem vos pode revelar semelhante coisa?”
– “Deus”, respondeu o Sr. B...
Depois, começou a falar-lhe docemente e com bondade sobre a imortalidade da alma e, reconduzindo-o a Lyon, o entreteve sobre o Espiritismo e de tudo quanto em casos tais Deus pode inspirar, a fim de encorajar e consolar.

O velho contou-lhe sua história. Antigo ortopedista, tinha sido arruinado por um sócio infiel. Ficando doente, viu-se forçado a ficar longo tempo no hospital; mas, uma vez curado, sua saúde o atirou no olho da rua, sem nenhum recurso. Foi recolhido por uma pobre operária, criatura sublime que, durante meses seguidos, o alimentou, sem a isto ser obrigada por nenhum laço que não fosse a piedade. Mas o medo de lhe continuar sendo um fardo o havia impelido ao suicídio.
O capitão foi ver a digna mulher, encorajou-a, ajudou-a; mas quando se tem de viver, o dinheiro acaba depressa e ontem todo o parco mobiliário da operária teria sido vendido se alguns espíritas não tivessem resgatado os poucos móveis de seu único quarto, pois, desde que passou a alimentar o velho, há um ano, a casa de penhores havia apreendido colchões, cobertores etc.
A penhora foi suspensa graças aos bons corações, tocados por esse generoso devotamento. Mas não é tudo: é preciso continuar até que o velho tenha conseguido um refúgio junto às irmãs de caridade. A respeito, Cárita fez-me escrever uma comunicação, que vos remeto, com toda a expressão de nosso reconhecimento, a vós, caro senhor, que nos tornastes espíritas. Quanto a mim, não esqueço que me convidastes a ir ter convosco, quando voltardes.
Eis a comunicação:
Apelo aos bons corações.
O Espiritismo, esta estrela do Oriente, não vem somente abrir-vos as portas da Ciência. Faz mais que isto: é um amigo que vos conduz uns aos outros, para vos ensinar o amor ao próximo e, sobretudo, a caridade. Não esta esmola degradante, que procura na bolsa a menor moeda para lançar na mão do pobre, mas a doce mansuetude do Cristo, que conhecia o caminho onde se encontra o infortúnio oculto.
Meus bons amigos, encontrei em meu caminho uma destas misérias de que a História não fala, mas de que o coração se lembra, quando testemunhou tão rudes provas. É uma pobre mulher; é mãe; tem um filho desempregado há vários meses; além disso, alimenta uma infeliz operária, como ela. E, como se não bastasse, um velho vem diariamente encontrá-la à hora do almoço, quando há o que comer. Mas no dia em que falta o necessário, as duas pobres mulheres, criaturas admiráveis pela caridade, dão a sua refeição aos dois homens, o velho e o jovem, sob a alegação de que, estando com fome, comeram antes. Vi isto repetir-se muitas vezes; vi o velho, num momento de desespero, vender sua última roupa, e querer, por insigne ato de loucura, dar o último adeus à vida, antes de partir para o mundo invisível, onde Deus vos julga a todos.
Vi a fome imprimir suas marcas nesses deserdados do bem-estar social, mas as mulheres oraram a Deus com fervor, e foram ouvidas. Já pôs irmãos, espíritas, sobre os seus passos, e quando a caridade chama, os corações devotados respondem. As lágrimas do desespero já secaram; só resta a angústia do amanhã, o fantasma ameaçador do inverno, com seu cortejo de geadas, de gelo e de neve. Eu vos estendo a mão em favor deste infortúnio. Os pobres, amigos, são envidados de Deus. Vêm dizer-vos: Nós sofremos; Deus o quer; é o nosso castigo e, ao mesmo tempo, um exemplo para a nossa melhora. Vendo-nos tão infelizes, vosso coração se enternece, vossos sentimentos se dilatam, aprendeis a amar e a lamentar o infeliz. Socorrei-nos, a fim de que não murmuremos e, também, para que Deus vos sorria dos píncaros de seu belo paraíso.
 Eis o que disse a pobre em seus farrapos; eis o que repete o anjo-da-guarda que vos vela e o que vos repito, simples mensageira da caridade, intermediária entre o Céu e vós.
Sorride ao infortúnio, ó vós que sois tão ricamente dotados de todas as qualidades do coração; ajudai-me em minha tarefa; não deixeis fechar-se esse santuário de vossa alma, onde mergulhou o olhar de Deus. E um dia, quando entrardes na mãe pátria, quando, com o olhar incerto e o passo inseguro, buscardes o vosso caminho através da imensidade, eu vos abrirei a porta do templo de par em par, onde tudo é amor e caridade, e vos direi: Entrai, meus amados, eu vos conheço!

Cárita

A quem farão acreditar seja esta a linguagem do diabo?
Foi a voz do diabo que se fez escutar ao ouvido do capitão, sob o nome de seu filho, para adverti-lo que o velho ia suicidar-se e, ao mesmo tempo, manifestar-lhe pesar por haver dito palavras que o deviam ferir? Conforme a doutrina que um partido busca fazer prevalecer, segundo a qual só o diabo se comunica, esse capitão deveria ter repelido como satânica a voz que lhe falava; disso teria resultado o suicídio do velho, o mobiliário das pobres operárias teria sido vendido e elas talvez tivessem morrido de fome.
Entre os donativos que recebemos em sua intenção, há um que devemos mencionar, embora sem nomear o autor. Estava acompanhado da seguinte carta:
Senhor Allan Kardec,
Soube por um parente, que o obteve de vós, o relato da bela ação, verdadeiramente cristã, realizada por uma pobre operária de Lyon, em benefício de um velho infeliz. O parente também me mostrou um apelo muito eloquente em seu favor, por um Espírito que se dá o nome de Cárita. À sua pergunta, se nele eu reconhecia a linguagem do demônio, respondi que os nossos melhores santos não falariam melhor. É minha opinião, e foi por isso que tomei a liberdade de pedir-lhe uma cópia.
Senhor, não passo de um pobre padre, mas vos envio o óbolo da viúva, em nome de Jesus-Cristo, para essa brava e digna mulher. Anexo, encontrareis a módica soma de cinco francos, lamentando não poder dar mais. Peço o favor de silenciar o meu nome.
Dignai-vos aceitar etc.

Abade X...



[1] Revista Espírita – Novembro/1864 – Allan Kardec

segunda-feira, 8 de julho de 2019

William Blacke[1]




Já temos asseverado varias vezes que o verdadeiro artista é uma criatura de delicada sensibilidade e que, portanto, mais do que qualquer outra se apercebe das maravilhas da Natureza, maravilhas essas de que os homens em geral não se dão conta. O verdadeiro artista, pela sua sensibilidade muito apurada, está mais que ninguém capacitado de, pela vidência e pela audiência, penetrar nas esferas espirituais e de lá receber inspirações majestosas, seja no que tange à música, à pintura, seja a todos os ramos do conhecimento humano, para depois, através dos imperfeitos meios de que ele dispõe aqui na Terra, dar-nos uma cópia bastante afastada do original, mas mesmo assim suficientemente expressiva para despertar entusiasmo e admiração entre os humanos!
O artista genial torna-se um angustiado, um irritado e revoltado, pela impossibilidade em que se encontra de reproduzir, com fidelidade, o que lhe foi dado contemplar e ouvir, graças ao seu psiquismo.
William Blake foi um artista genial como pintor, gravador e poeta inglês. Nasceu em Soho, Londres, Reino Unido, em 28/11/1757, desencarnando em 12/08/1827, em Londres, com 70 anos de idade.
Estreou com uma coleção de pinturas, todas de caráter original, às quais juntou um texto em versos, que dizia o seguinte: “Cantos de inocência e de experiência”.
Aos poucos sua mediunidade se foi desabrochando, tornando-se então um vidente extraordinário. Suas produções passaram a experimentar a influência direta dos nossos irmãos desencarnados. Dessas obras, sob influência mediúnica, citaremos apenas “As Forças do Paraíso”, obra composta de 16 estampas e pequenas outras, pintadas, aliás, com cores brilhantes, por um processo que jamais se tornou conhecido, processo esse que William Blake afirmava haver-lhe sido revelado pelo Espírito de seu genitor.
Precisamos chamar a atenção de nossos leitores para o fato de que William Blake nasceu e desencarnou numa época em que ainda não havia sido codificada a Doutrina Espírita, pois como se sabe ela surgiu em 1857. Outra revelação de Blake é a seguinte: “Afirmo ter escrito minhas poesias sob a direção do Espírito Milton, como declaro, outrossim, que todas as minhas obras foram inspiradas pelos que já vivem no plano espiritual”.