sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

NÓS NÃO TEMOS TEMPO[1]




Adriana Machado

O tempo todo pensamos que temos tempo para fazer o que desejamos. É tão intrínseco isso que deixamos para depois o que podemos fazer hoje.
O problema ‒ se posso dizer que é um problema ‒ é que nós não temos tempo. O tempo não nos pertence, ele flui e nós estamos nele, como estamos em Deus.

O Tempo flui
O tempo passa e tudo o que passou não volta mais. O tempo escoa por nossos dedos e tudo o que nele tinha a sua base também com ele escoará. O nosso passado está no passado.
Podemos, porém, não nos desatrelar do passado, trazendo-o para o presente. E fazemos isso porque o passado ainda não é passado; não está acabado, não está encerrado para nós. Ele ainda é presente.
No entanto, o tempo do passado no presente ou o próprio presente no presente, a cada segundo, deixa de existir e o que ficou foram nossas impressões, são as nossas crenças internas construídas ou destruídas a cada experiência. Elas nos fazem mais sábios, mesmo que não estejamos enxergando as lições que ficam para nós; mesmo que não entendamos que aquilo que ficou fará sentindo um dia em nossa existência.

O que é mais valorizado: o Tempo ou o que fazemos com ele?
Após a nossa criação por Deus, nos tornamos seres atemporais ‒ nosso espírito imortal ‒, e para o plano imaterial voltaremos, deixando, finalmente, o ser que sofre o efeito do tempo se findar. Isso nos amedronta, mas é o destino de todos nós que ainda necessitamos viver no plano material. Para nós, na carne, nada fará o tempo voltar e ele poderá fazer falta se acharmos que não o aproveitamos como deveríamos.
Isso é notório quando estamos acamados, doentes em casa ou nos hospitais. Temos tempo para perceber realmente se e como aproveitamos ‒ ou não ‒ o nosso tempo, porque, nos tornamos mais introspectivos quando nestas condições.
Quase todos os médicos e enfermeiras são unânimes em concordar que o que mais se vê, nos quartos, enfermarias e corredores dos hospitais, são os doentes e familiares arrependidos por não terem se doado por inteiro àquela vida ‒ sua ou do seu amor ‒ a si ofertada; por não terem se dedicado mais aos verdadeiros valores do espírito, aos únicos tesouros que o espírito pode acumular e levar daqui. É como se você tivesse resolvido investir todo o seu dinheiro ‒ tempo ‒ em fundos de investimento ‒ escolhas ‒ e estes perderem o seu valor com a quebra da bolsa de valores ‒ escolhas equivocadas.
A culpa por esse horrível investimento o acometerá, mas você poderá se acusar de ter errado se, naquele momento, tudo o levava a acreditar que seus investimentos estavam certos? Preste atenção onde a culpa se baseia, porque, possivelmente, é você se acusando ‒ justa ou injustamente ‒ de não ter feito tudo o que podia para impedir aquele desfecho.
Prestaram a atenção no que eu disse? Justa ou injustamente! Nem sempre estaremos corretos ao nos condenarmos pelas escolhas que fizermos.

Justificativas ou Desculpas?
Voltemos ao caso da doença ou de um dos nossos amores no hospital, lugar onde paramos e nos damos a oportunidade de pensar sobre o que fizemos ou deixamos de fazer em relação a eles ou a nós mesmos: claro que poderíamos ter aproveitado melhor a presença dos nossos filhos, mas eu precisava trabalhar para dar o melhor para eles; claro que poderíamos ter ido visitar mais vezes os nossos pais, mas acreditávamos que teríamos mais tempo; claro que poderíamos ter ajudado financeiramente a nosso irmão quando este pediu ajuda, mas entendíamos que estávamos construindo o seu caráter para lutar pelo que ele sonhava... E quando nós ou estes se vão, uma culpa pode nos atormentar a alma.
Se isso ocorre é porque nós não estávamos totalmente convencidos de nossas próprias justificativas (ou desculpas) e, com o tempo que se foi, amadurecemos para perceber que elas (ou elas) poderiam ser contornadas e que a valorização do ser espiritual deveria ter sido a primeira meta. Mas, todas essas circunstâncias estão no passado e, o amadurecimento, no nosso presente. Por isso, aprendamos com o que ocorreu no passado e tentemos não repetir aquilo que provocou hoje o tormento de nossa alma.

O Tempo é
O tempo não nos pertence porque ele não nos atende em nossos desejos. Ele chega e vai, ele chega e fica, ele vem e vai sem pudor, sem convite ou carta de despedimento.
Mas, mesmo não nos pertencendo, ele faz diferença, ele nos dá a oportunidade de nos moldar, ele nos dá a chance de refazermos os nossos equívocos simplesmente por estarmos nele e ele escoar de nós.
Não possuímos o tempo e quanto mais tempo gastarmos com o que não nos faz crescer, mais arrependidos poderemos nos sentir por não percebermos que a cada tempo que se vai, menos tempo teremos nesta vivência para melhor dela aproveitar e crescer.
Que entendamos que o tempo é um presente divino e que somente no presente ele existe para nós, mas que, como uma onda intensa, passará e também estará conosco e nos arremeterá aonde necessitamos estar para o nosso aprimoramento.
Usemos do tempo a nosso favor, mesmo que ele não possa ficar, mesmo que ele ainda esteja ao nosso redor!
O tempo não nos pertence, mas é nele que agiremos com os princípios e crenças que nos norteiam para transformarmos a nossa vida no presente, tendo o passado como instrutor e o futuro como meta!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

COMPANHIAS ESPIRITUAIS[1]



Miramez


Atraímos segundo o que somos na urdidura dos nossos pensamentos e sempre salientamos o que vivemos.
A natureza não guarda o que é: mostra a realidade à luz da própria vida. É aptidão de todas as criaturas conhecerem aos semelhantes, mesmo que estes estudem meios de esconder as suas próprias deficiências. O sol da verdade faz desaparecer as sombras das ilusões. Os espíritos despertos para Cristo devem compendiar forças e sumariar meios para a sua renovação interior, porque o que nos atinge exteriormente vem por chamado da voz silenciosa do íntimo de cada ser.
Aproveitai o tempo que passa e acendei as vossas luzes, com a energia divina fornecida pelo Evangelho e nunca mais voltarás para os braços das trevas.
As inteligências que se esqueceram do Cristo e enredam as obsessões jamais atuam por si sós. Elas obedecem à lei de sintonia, presente em todas as formas de vida. O obsidiado culpa sempre aos espíritos que se entregam à vingança, no entanto, se esquecem do poder das forças afins, ligando os corações de encarnados e desencarnados.
A luz se acende quando ascendemos espiritualmente. A vontade é o ponto alto da nossa libertação e dos nossos sofrimentos. As companhias espirituais que temos nos mostram quem somos. Não obstante, a misericórdia de Deus não nos deixa órfãos e almas de alta elevação nos acompanham, carregando a cruz do ambiente pesado que alimentamos, renunciando ao próprio conforto, para nos ajudar, por amor à grande causa da fraternidade universal.
Mesmo na Terra, meu filho, se quereis saber o que sois, vede com quem andais. A escolha dos vossos amigos é o reflexo da vossa personalidade. A menos que, em alguns casos, a caridade vos convide a ajudar os caídos e amparar os infortunados, ir em busca dos sofredores e levar o conforto aos encarcerados, é de vossa competência conhecer com quem estais sintonizando pela chama viva dos corações. A vossa saúde depende muito das companhias que tendes. Aqui nos referimos ao bem-estar de todos os corpos que servem ao espírito na jornada evolutiva.
O homem elevado é sempre assediado por enxame de almas sofredoras e, por vezes, de terríveis malfeitores, que sempre o procuram tentando desvirtuar os seus mais sagrados ideais, porém, o bem é um sol que nunca se apaga.
Se as vossas companhias vos agridem, meditai no que sois e no que estais fazendo, porque qualquer ponto de sintonia, mesmo que seja quase imperceptível, gera vibrações da mesma ressonância e os dois campos de força se entrelaçam, na mais perfeita simbiose espiritual e mesmo física.
A lei anda de mãos dadas com a justiça, para que essa justiça seja transformada em amor, quando a lei for respeitada.
As vossas companhias espirituais são o vosso próprio reflexo em outra dimensão. Não os maltrateis nem condeneis; não fujais, nem persigais. Montai um esquema para ajudar com serenidade e procurai doar amor sem exigência, que elas, as vossas companhias, também foram criadas por Deus e ainda serão vossas irmãs em Cristo.
Não faleis das pessoas que pronunciam palavras contra vós. Se acontecem esses fatos, dai o testemunho de benevolência e de perdão incondicional. A premeditação da ofensa é revide pior, porque leva o fermento da vingança. Não culpeis a ninguém pelos vossos infortúnios: eles estão no endereço certo. Mudai de endereço, mudando de vida. Procurai o Cristo que já vem vos procurando há muito tempo, buscando o esclarecimento na grande lei dos iguais, que não vos deixa esquecer que os semelhantes atraem somente os semelhantes.




[1] Saúde – João Nunes Maia            

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Aparições de defunto produzidas pouco depois de um caso de morte e percebidas na mesma casa em que jaz o cadáver[1]




Todos podem aperceber-se da grande importância teórica dos casos de que nos vamos ocupar. Se chegássemos a recolher-lhes um número suficiente, representariam preciosa contribuição em favor da tese espiritualista. Essa possibilidade está, entretanto, ainda bem longe; os fatos em questão são dos mais raros; isso não pode espantar, dadas as condições excepcionais que são necessárias para que eles se possam produzir.
Caso 55 – O caso seguinte, que tiro do vol. V, pág, 422, dos Proceedings of the S. P. R[2]., é também o único que conheço.

Agosto, 1886. No sábado, 24 de outubro de 1868, despedimo-nos de nossos amigos (os Marqueses de Lys) – com os quais permanecêramos em Malvern Well –, para irmos a Cheltenham, residência de um cunhado de meu marido, Georges Copeland.
Desde algum tempo já este estava doente, em consequência de um ataque de paralisia, que o havia reduzido à imobilidade, ficando, no entanto, perfeitamente sãs suas faculdades mentais.
Esta última circunstância fazia que seus amigos ficassem perto do doente, a fim de adoçar-lhe a desventura, tanto quanto possível.
Aproveitando a pouca distância que nos separava, resolvemos, por nossa vez, fazer outro tanto. Fomos, porém, informados de que o doente já tinha outras pessoas em sua casa; decidimos, então, ir para Cheltenham, sem o prevenir, a fim de alugar um apartamento, antes que ele no-lo impedisse de fazer, por um convite.
Tomamos vários quartos situados na vizinhança da habitação de Copeland.
Feito isso, estávamos prontos para nos ausentar do hotel, quando muitos frascos de remédios, dispostos em uma mesa, atraíram o nosso olhar. Perguntamos se havia doentes na casa e nos informaram que certa Sra. R..., hóspede no hotel com sua filha, estava doente desde algum tempo; era coisa de pouca importância e não havia perigo. Depois dessa ocasião não pensamos mais no assunto.
Logo após fomos à casa de Copeland e, no correr da tarde, veio a pronunciar-se o nome dos nossos vizinhos de hotel. Copeland disse, então, que conhecia a Sra. R...; explicou que ela era viúva de um doutor, ex-clínico em Cheltenham, e que uma de suas filhas se casara com um professor de colégio, um certo Sr. V... Lembrei-me então de ter conhecido a Sra. V... por ocasião de uma recepção em casa do Dr. Barry, e ter nela feito reparo por causa de sua grande beleza, enquanto ela conversava com a dona da casa. Era tudo o que eu sabia a respeito dessas senhoras.
Na manhã de domingo, à hora do almoço, observei que meu marido parecia preocupado. Terminado que foi o repasto, perguntou-me ele:
– Ouviste arrastar uma cadeira, há pouco? A velha que mora embaixo morreu na própria cadeira, esta noite; arrastaram esse móvel, trouxeram-na para o quarto.
Fiquei muito impressionada; era a primeira vez que me encontrava nas proximidades de um cadáver; desejei, pois, mudar sem demora, de apartamento. Muitos de nossos amigos, sabendo do fato, nos tinham gentilmente oferecido hospitalidade; mas meu marido se opusera, lembrando que uma mudança é sempre um aborrecimento, que meus terrores eram tolos, que ele não achava nenhum prazer em deslocar-se num dia de domingo, que não era generoso partir porque uma pessoa havia morrido e que, enfim, se assim procedessem para conosco, não nos deixaríamos de aborrecer.
Em suma, tivemos que ficar.
Passei o dia em companhia do cunhado e das sobrinhas e só voltamos ao hotel à hora de ir para a cama.
Depois de haver adormecido, acordei de repente, como de hábito, alta noite, sem causa aparente e vi distintamente, ao pé da cama, um velho fidalgo, de rosto gordo, rosado e sorridente, com um chapéu na mão.
Estava vestido com um casaco azul-celeste, de talhe antigo, guarnecido de botões de metal; tinha um colete claro e calças da mesma cor.
Quanto mais o encarava, melhor lhe discernia os menores detalhes do rosto e das vestes.
Não me senti muito impressionada; depois de algum tempo ensaiei fechar os olhos durante um ou dois minutos; quando os reabri, o velho fidalgo tinha desaparecido.
Dormi algum tempo depois. Vindo a manhã, propus-me nada dizer a ninguém do que me tinha acontecido, até que tivesse visto uma de minhas sobrinhas, à qual queria expor o fato, a fim de saber se, por acaso, não haveria nenhuma semelhança entre o Dr. R... e o fidalgo da minha visão. Apesar de me parecer absurda essa ideia, queria certificar-me.
Encontrei minha sobrinha, Maria Copeland (hoje Senhora Brandling), de volta da igreja, e logo lhe perguntei:
– O Dr. R... não tinha o aspecto de velho fidalgo, de rosto cheio, rosado e sorridente etc. etc.?...
Ela estremeceu de espanto.
– Quem te disse? – perguntou – Nós dizíamos, de fato, que ele se assemelhava mais a um bom feitor de fazenda do que a um doutor. Como é estranho que um homem de aspecto tão vulgar tivesse por filha tão bela criatura!
Tal é a narrativa rigorosamente exata do que me aconteceu. Minhas duas sobrinhas estão ainda vivas e devem lembrar-se exatamente de tudo isso. Naturalmente, não estou em condições de explicar o fato. O corpo da velha senhora jazia no quarto que ficava imediatamente abaixo do nosso.
O que me surpreende, sobretudo, é que eu tivesse ficado tão pouco impressionada e que pudesse dormir alguns instantes depois, sem incomodar ninguém. (Assinado: D. Bacus)

O marido da Senhora Bacus confirma o acontecimento:

Leamington, 27 de setembro de 1886.
Li a narração de minha mulher a respeito do que sucedeu em Cheltenham, quando nós aí estivemos em 1868. Ela responde exatamente ao que minha mulher contou de viva voz, na manhã que se seguiu ao fato do qual perfeitamente me recordo. Também me lembro de que nessa manhã mesma ela contou todos os detalhes do acontecimento à sua sobrinha.
(Assinado: Henry Bacchus)

Para mais amplos detalhes e outros testemunhos, envio o leitor aos Proceedings, no lugar citado.
No fato que precede, o detalhe mais importante, sob o ponto de vista teórico, é o da declaração da percipiente de não ter nunca conhecido e não haver tido nunca ideia do aspecto do defunto Dr. R... – o que levaria a admitir a realidade objetiva da aparição, afastando a hipótese de um fenômeno de autossugestão alucinatória provocada na Sra. Bacchus pelo pensamento desagradável de ter perto de si o cadáver da Senhora R...; salvo se se quiser encontrar a causa da visão num fenômeno de transmissão de pensamento, vindo da filha da Sra. R..., pensamento que podia estar voltado para a recordação do pai, ou bem a transmissão de uma imagem análoga percebida em sonho pela mesma pessoa – interpretação que não é preciso rejeitar, porque ela parece assaz gratuita.




[1] Fenômenos Psíquicos no Momento da Morte – 6ª. Categoria – Ernesto Bozzano
[2] Society for Psychical Research

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

UM DRAMA ÍNTIMO – Apreciação Moral[1]





O Monde illustré, de 7 de fevereiro de 1863, conta o seguinte drama de família que, com justa razão, comoveu a sociedade de Florença. Assim começa o autor a sua narração:

Eis a história. Ele era um velho de setenta e dois anos; ela, uma jovem de vinte. Haviam casado há três anos... Não vos revolteis! o velho conde, originário de Viterbo, era absolutamente sem família, o que é muito estranho para um milionário! Amália não era sem família, mas antes sem milhões. Para compensar as coisas, quase a tendo visto nascer, sabendo-a de bom coração e de espírito encantador, ele tinha dito à mãe: ‘Deixai-me paternalmente casar com Amália; durante alguns anos ela cuidará de mim; e depois... ‘.
Fez-se o casamento. Amália compreende os seus deveres; cerca o velho dos mais assíduos cuidados e lhe sacrifica todos os prazeres de sua idade. Tendo o conde ficado cego e quase paralítico, ela passava longas horas do dia a lhe fazer companhia, leituras, a lhe contar tudo quanto o podia distrair e encantar. ‘Como sois boa, minha cara filha! ’, exclamava ele muitas vezes, tomando-lhe as mãos e atraindo-a para depor sobre sua fronte o casto e doce beijo da ternura e do reconhecimento.
Entretanto, um dia notou que Amália se afasta de sua pessoa; que, embora sempre assídua e cheia de solicitude, parece temer sentar-se ao seu lado. Uma suspeita lhe atravessa o espírito.
Uma noite, quando ela fazia a leitura, ele lhe agarra o braço, a atrai para si e enlaça-lhe a cintura; então, soltando um grito terrível, cai desmaiado de emoção e de cólera aos pés da jovem! Amália perde a cabeça; lança-se para a escada, atinge o andar mais alto da casa, precipita-se pela janela e cai despedaçada. O velho não sobreviveu mais que seis horas a esta catástrofe.

Haverão de perguntar que relação pode ter esta história com o Espiritismo. Vê-se aí a intervenção de alguns Espíritos maliciosos? Essas relações estão nas deduções que o Espiritismo ensina a tirar das coisas aparentemente mais vulgares da vida.
Enquanto o céptico ou o indiferente não vê num fato senão uma oportunidade para exercitar sua verve zombeteira, ou passa ao lado sem o notar, o espírita o observa e dele tira instrução, remontando às causas providenciais, sondando-lhes as consequências para a vida futura, conforme os exemplos que as relações de além-túmulo lhe oferecem da Justiça de Deus.
No fato acima relatado, em vez de simples anedota divertida, entre o velho ele e a jovem ela, o Espiritismo vê duas vítimas. Ora, como o interesse pelos infelizes não se detém no limiar da vida presente, mas os segue na vida porvindoura, na qual acredita, ele pergunta se aí não há um duplo castigo para uma dupla falta e se ambos não foram punidos por onde pecaram. Vê um suicídio; e como sabe que esse crime é sempre punido, pergunta qual o grau de responsabilidade em que incorre aquele que o cometeu.
Vós que acreditais que o Espiritismo só se ocupa de duendes, de aparições fantásticas, de mesas girantes e de Espíritos batedores, se vos désseis ao trabalho de estudá-lo, saberíeis que ele toca em todas as questões morais. Esses Espíritos, que vos parecem tão ridículos, e que, entretanto, não passam das almas dos homens, dão a quem observa as suas manifestações a prova de que ele próprio é Espírito, momentaneamente ligado a um corpo; vê na morte não o fim da vida, mas a porta da prisão que se abre ao prisioneiro para restituí-lo à liberdade. Aprende que as vicissitudes da vida corporal são as consequências de suas próprias imperfeições, isto é, das expiações pelo passado e pelo presente, e provações para o futuro. Daí é naturalmente conduzido a não ver o cego acaso nos acontecimentos, mas a mão da Providência. Para ele a reta sentença: A cada um segundo as suas obras não só acha a sua aplicação no além-túmulo, mas, também, até mesmo na Terra.
Eis por que tudo o que se passa à sua volta tem o seu valor, a sua razão de ser; ele o estuda para dele tirar proveito e regular sua conduta com vistas ao futuro que, para ele, é uma realidade demonstrada. Remontando às causas dos infortúnios que o afligem, aprende a não mais acusar a sorte ou a fatalidade por tais desgraças, mas a si mesmo.
Não tendo esta digressão outro objetivo a não ser mostrar que o Espiritismo se ocupa de algo mais que de Espíritos batedores, voltemos ao nosso assunto. Já que o fato foi tornado público, é permitido apreciá-lo, levando-se em conta que não designamos ninguém nominalmente.
Se se examinar a coisa do ponto de vista puramente mundano, a maioria só verá nele a consequência muito natural de uma união desproporcionada e atirará no velho a pedra do ridículo como oração fúnebre; outros acusarão de ingratidão a jovem mulher que enganou a confiança do homem generoso que queria enriquecê-la.
Mas, para o espírita, ela tem um lado mais sério, pois aí busca um ensinamento. Então perguntaremos se, na ação do velho, não haveria mais egoísmo que generosidade ao submeter uma moça, quase criança, à sua caducidade, por laços indissolúveis, numa idade em que, antes, deveria pensar no recolhimento, e não nos prazeres da vida? Se, impondo-lhe esse duro sacrifício, não era fazê-la pagar bem caro a fortuna que ele lhe prometera? Não há verdadeira generosidade sem desinteresse. Quanto à jovem, não podia aceitar esses laços senão com a perspectiva de vê-los rompidos em breve, já que nenhum motivo de afeição a ligava ao velho. Havia, pois, cálculo de ambos os lados e esse cálculo foi frustrado; Deus não permitiu que nenhum deles o aproveitasse, infligindo a desilusão a um e a vergonha ao outro, que os mataram a ambos.
Resta a responsabilidade do suicídio, que jamais fica impune, mas que, muitas vezes, encontra circunstâncias atenuantes.
A mãe da moça, para encorajá-la a aceitá-lo, havia dito: “Com esta grande fortuna farás a felicidade do homem pobre que amares. Enquanto esperas, honra e respeita esse grande coração que quis fazer-te sua herdeira, durante o tempo que lhe restar de vida.”
Era tomá-la pelo lado sensível; mas, para fruir dos benefícios desse grande coração, que teria sido muito maior se a tivesse dotado sem interesse, era preciso especular sobre a duração de sua vida. A jovem errou ao ceder, mas a mãe errou mais em excitá-la e certamente é ela que incorrerá na maior parte da responsabilidade do suicídio da filha. Assim, aquele que se mata para escapar à miséria é culpado da falta de coragem e de resignação, mas, muito mais culpado ainda, é o causador primário desse ato de desespero.
Eis o que o Espiritismo ensina, pelos exemplos que põe aos nossos olhos e aos daqueles que estudam o mundo invisível. Quanto à mãe, sua punição começa nesta vida: primeiro pela morte horrível da filha, cuja imagem talvez venha persegui-la e torturá-la de remorsos; depois, pela inutilidade do sacrifício que provocou, uma vez que a fortuna do marido, morto seis horas depois de sua mulher, vai para os colaterais afastados, e ela não a aproveitará.
Os jornais estão cheios de casos de todos os gêneros, louváveis ou censuráveis, que, como este que acabamos de referir, podem oferecer assuntos para estudos morais sérios; para os espíritas é uma mina inesgotável de observações e instruções. O Espiritismo lhes dá os meios de aí descobrir o que se passa despercebido para os indiferentes e, mais ainda, para os cépticos, que só veem os fatos picantes, sem lhes procurar nem as causas, nem as consequências. Para os grupos, é um elemento fecundo de trabalho, no qual os Espíritos protetores não deixarão de auxiliá-los, dando a sua apreciação.




[1] Revista Espírita – Fevereiro/1864 – Allan Kardec

sábado, 12 de janeiro de 2019

RECOMEÇO SUGERE AMPLIAR REFLEXÃO



Orson Peter Carrara



O momento decisivo da evolução humana pede persistência, coragem, mas também calma.
Se pensarmos no alcance no final da conhecida expressão de Jesus: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei, podemos ampliar seu entendimento e entender seu divino convite.
Afinal o “como eu vos amei”, como devemos entender?
Como é que Ele nos amou?
Em boa síntese didática-educativa, podemos entender que:
a.      Ele sempre respeitou nossa posição evolutiva. Tanto que sempre valorizava quem dele sem aproximava. Às diferentes personalidades que o procuraram, da mulher adúltera ao doutor da lei, respeitou-lhes o estágio moral.
b.      Nada pediu em trocapelos inúmeros benefícios que trouxe à humanidade. Isso é uma demonstração de amor. Ama e porque ama ampara, consola, conforta, orienta; nada exigiu, aguarda nosso despertar.
c.       Importou-se conosco. Esse importar-se conosco foi demonstrado na prática pelas expressivas manifestações de entendimento de nossa precária condição evolutiva, estendendo-nos seu divino amparo e orientação.

Daí a recomendação fraterna: “Amai-vos uns aos outros”. Mas apresentou também a proposta de como fazê-lo, acrescentando o “como eu vos amei”. Até porque – e hoje entendemos com mais exatidão – ele é o Modelo e Guia, referência mais alta que possuímos no planeta para seguir e nos esforçarmos como exemplo para incorporarmos ao comportamento.
Essa adoção de postura no comportamento é capaz de vencer obstáculos, extinguir contendas e dispensar mágoas, ressentimentos ou sentimentos de vingança ou mesmo temores infundados, uma vez que estamos todos protegidos por sua grandeza e bondade.
É a calma, a resignação ativa, que trabalha, compreende e encontra outros caminhos que sejam de paz para superação dos imensos desafios da atualidade.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

JESUS E A VIOLÊNCIA DOS CRISTÃOS[1]



Dora Incontri

Não é de política que vou falar, por enquanto. Vou falar de humanismo, de cristianismo, de fraternidade. Estamos mergulhados numa onda de ódio, de radicalismo fascista, de rejeição ao bom senso.
E a quem podemos recorrer para inspirar nossas ações, nossas palavras, nossos pensamentos? Se nos pretendemos cristãos, sejamos católicos, evangélicos ou espíritas, ou simplesmente simpatizantes de Cristo, é justamente a ele que devemos apelar: para os seus ensinos, para o seu exemplo, para o seu legado. Jesus puro e simples e não aos cristãos, que dizem segui-lo.
Cristãos já fizeram as Cruzadas, já incendiaram gente na Inquisição, participaram e participam de grupos racistas e violentos, como a Ku-klux-klan, apoiaram o nazismo e perseguiram judeus e muçulmanos, séculos afora…
Mas será que, ao fazerem tudo isso, chegaram alguma vez perto de seu Mestre, foram semeadores do seu Reino nesse mundo? Ou a cada gesto de violência e intolerância, guerra e morticínio, retardaram a vinda do Reino e espalharam as sombras do fanatismo e da ignorância?
De novo hoje, vemos cristãos que não entendem Jesus, ou pelo menos, acham-no talvez um tanto utópico, um tanto mole, um tanto romântico, inaquedado para a dureza de nosso mundo e dos nossos tempos.
Não, Jesus não era um covarde, assim como não o foram seus verdadeiros seguidores, como Francisco de Assis, Gandhi (que apesar de hindu, se inspirava também no Sermão da Montanha), Martin Luther King e tantos outros, que enfrentaram a perseguição, a prisão e até a morte, para semear o Reino da verdade e da fraternidade no mundo.
O verdadeiro cristão não fere, não julga, não mata, não tem desejos de extermínio, tormento e castigo do outro. O verdadeiro cristão acolhe, perdoa, se compadece, entende que a violência do outro é doença, ignorância e não se rebaixa com mais violência, mas eleva-se em exemplo de paz, em proposta de educação. “Não julgueis para não serdes julgados”, “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra!”
O verdadeiro cristão não discrimina, não fere, não grita, não favorece a guerra, não anda armado, não condena a sexualidade alheia. “Quem estiver sem pecado, atire a primeira pedra!” “Quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Essa frase, aliás, foi dita a Pedro, no momento em que ele, Mestre, estava sendo preso e o apóstolo sacou de uma espada para defender Jesus. Nesse minuto, recebeu a lição máxima da não-violência: é melhor ser injustiçado do que injustiçar, ser ferido do que ferir, ser preso, torturado e morto, do que prender, torturar e matar…
Essa é a filosofia cristã… por isso, durante 300 anos, os primeiros cristãos se entregavam aos leões da arena romana, cantando seu perdão e orando pelos algozes.
Quem acha tudo isso rematada loucura, fraqueza ou utopia, não entendeu a mensagem de Jesus e ainda está vivendo os valores da velha Roma, em que é preciso lavar a honra com sangue e em que perdoar é indignidade e humilhação.
Nosso problema central é que depois de 300 anos sendo vítimas pacíficas da perseguição romana, os cristãos ascendem ao poder, pelas mãos de Constantino, funda-se a Igreja Católica Apostólica Romana e, de mártires, pouco a pouco, os cristãos se tornam perseguidores, inquisidores, guerreiros, poderosos – tudo em nome de Jesus, num permanente sofisma histórico!
Desde então, vivemos nessa contradição absurda: uma civilização que se diz seguidora de Jesus, mas que é constituída de Estados militarizados, de policiamento aos indivíduos, de repressão à liberdade, de descrença na fraternidade entre os seres humanos. Sociedades construídas em bases de violência, exploração e exclusão. Foi por isso que Tolstoi entendeu o cristianismo como uma forma de anarquismo, com a abolição de todos os poderes, porque todos são sustentados pela violência institucional.
Somos cristãos, discípulos de um Mestre que tinha entre seus seguidores mulheres de todas as condições e inclusive, após a morte, apareceu em primeiro lugar para uma mulher – mas a nossa civilização violenta, desrespeita, oprime a mulher…
Somos cristãos, discípulos de um Mestre que amava as crianças e dizia que deveríamos ser como elas, para ganhar o Reino dos Céus, e a nossa civilização ainda abusa, violenta, escraviza e domestica a criança…
Somos cristãos, discípulos de um Mestre que disse que deveríamos nos amar uns aos outros, como ele nos amou, e nossos Estados, a polícia e muitos cidadãos consideram natural matar, guerrear, torturar…
Somos cristãos, discípulos de um Mestre que andava com gente que era considerada ralé em sua época – prostitutas, escribas, cobradores de impostos – e consideramos desculpável discriminar (e até matar!!) alguém por sua orientação sexual.
Somos cristãos, discípulos de um Mestre que disse que seus seguidores viriam do Ocidente e do Oriente e pregou e viveu a fraternidade universal e praticamos durante séculos a escravidão de africanos e ainda estamos estruturados socialmente no racismo, na desigualdade, na exclusão social…
Jesus amado! Tanta clareza usaste, palavras tão poéticas, diretas e simples… Exemplos tão tocantes, arrebatadores e fortes! E parece que a maioria nada entendeu. Ou vamos descobrindo passo a passo, cada qual no seu ritmo evolutivo (Gandhi dizia que o bem anda na velocidade de uma lesma!!!) que: violência só gera violência, que o amor cobre a multidão de pecados e que o Reino só virá pela fraternidade entre todos os seres humanos!
O princípio da não-violência não nos induz à omissão, à covardia, à moleza de atitudes ou ao silêncio de quem consente com toda sorte de violência. A prática da não-violência é a resistência ao mal; é a luta pacífica, sem ódio, mas com firmeza; é a permanente semeadura de valores como dignidade humana, respeito a todas as criaturas, igualdade de direitos e justiça!
Justiça que não é vingança ou punição, massacre e ódio. Justiça que é o pão para todos, a vida respeitada, a educação garantida, a saúde cuidada e o crime, se existir nas condições de uma sociedade justa e bem organizada, tratado como um problema psíquico a ser cuidado e não como um motivo para arrancar do criminoso a sua dignidade e a sua capacidade de superação e educação.

Fonte: Kardec Rio Preto




[1] https://gecasadocaminhosv.blogspot.com/2019/01/jesus-e-violencia-dos-cristaos-dora.html

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A NOITE A OBSESSÃO É MAIOR[1]



Fernando Rossit

De acordo com Richard Simonetti, autor do livro “Quem tem Medo da Obsessão?”, a obsessão é mais intensa durante a noite, quando estamos dormindo.
Durante o sono o espírito se distancia do corpo físico, mas não fica inativo. Neste momento o encontro com entes queridos é possível da mesma forma com desafetos e Espíritos mal intencionados.
Essa influência, se não combatida, pode nos levar à Obsessão, isto é, a uma ação prejudicial que um ou mais Espíritos exercem sobre nós.
Simonetti cita o livro “Libertação”, psicografia de Francisco Cândido Xavier, onde o Espírito André Luiz reporta-se à experiência de uma senhora perseguida por dois obsessores que tinham duplo propósito: comprometer sua tarefa como médium e conturbar o trabalho de seu marido, dedicado dirigente espírita.
Como sempre fazem, os Espíritos Obsessores atacam nossos pontos fracos ou, em outras palavras, nossos defeitos. Essa Senhora citada na obra “Libertação” era médium espírita, mas era frágil em suas convicções, gostava de se destacar pelas suas tarefas, se tornando presa fácil nas mãos dos Obsessores.
Como tinha dúvidas a respeito de sua mediunidade, os Espíritos perturbadores aproveitaram suas vacilações para incutir a ideia de que as manifestações que transmitia eram fruto de sua própria mente.
Além disso, como era também muito ciumenta, atiçavam nela tendências ao ciúme, sugerindo que o marido usava sua posição no centro espírita para seduzir mulheres.
Dois defeitos “bem aproveitados” pelos Espíritos perturbadores.
Os obsessores conversavam com ela, confundindo-a em relação aos seus compromissos mediúnicos e à fidelidade do marido.
Eles entravam em contato com ela durante as horas de sono.
O marido, homem disciplinado e esclarecido, amigo das virtudes evangélicas, afastava-se do veículo físico (desdobrava-se) e participava de atividades de aprendizado e trabalho, junto de benfeitores espirituais.
Já sua mulher, ao despertar, sente mal estar porque aquelas “orientações” que recebia dos Espíritos perturbadores repercutiam em seu psiquismo, inspirando-lhe desânimo e indignação.
André Luiz presencia uma dessas sessões de aliciamento para a perturbação e registra o deplorável estado da médium ao despertar.
Oh! Como sou infeliz! – bradou, angustiada – estou sozinha, sozinha!
O marido, inspirado por benfeitor espiritual, tem imenso trabalho para pacificá-la.
Os Obsessores, apresentando-se como “amigos” e “protetores”, conquistaram sua confiança. Como se programassem sua mente, incutem-lhes ideias infelizes que martelarão seu cérebro durante a vigília, emergindo na forma de dúvidas, temores, angústias, impulsos desajustados e depressão.
Ocorre, muitas vezes, uma verdadeira hipnose espiritual.
Seria equívoco situar as horas de sono como páginas em branco na existência humana.
São páginas escritas com tinta invisível, tão importantes quanto aquelas que escrevemos na vigília, com insuspeitada e ampla influência sobre nossos estados de ânimo, nossas ideias e sentimentos.
É muito importante nosso preparo antes de dormir, evitando programas de TV ou filmes de conteúdo negativo, por exemplo.
A prece antes de dormir é um excelente recurso para que possamos ter bons sonhos porque nos liga aos Bons Espíritos, garantindo-nos boas companhias espiritais.
No entanto, a forma mais eficaz para estarmos ligados ao Bem e impedirmos que venhamos a ser influenciados por Espíritos maus, é a nossa mudança de hábitos e costumes, nossa transformação moral.
Façamos sempre uma autoanálise sincera a respeito do nosso comportamento, analisando nossos pensamentos e atos, e busquemos ser melhores a cada dia.
Lembremo-nos: um mau pensamento sempre é inspirado por um Espírito perturbador. No entanto, a sua influência somente ocorrerá se houver sintonia, isto é, se ele encontrar dentro de nós o canal para estabelecer a perturbação espiritual.
Esse canal chama-se imperfeições morais, tais como: ciúme, inveja, maledicência, orgulho, vaidade, intolerância, preconceito, irritabilidade, hábitos negativos de reclamação, críticas, julgamentos etc.
Atenção, portanto.



Fonte: Kardec Rio Preto


Bibliografia consultada:
o   Quem tem medo da Obsessão, de Richard Simonetti
o   O Livro dos Espíritos, Cap. VIII, 2ª parte, Allan Kardec.
o   Libertação – Chico Xavier/André Luiz