segunda-feira, 8 de julho de 2019

William Blacke[1]




Já temos asseverado varias vezes que o verdadeiro artista é uma criatura de delicada sensibilidade e que, portanto, mais do que qualquer outra se apercebe das maravilhas da Natureza, maravilhas essas de que os homens em geral não se dão conta. O verdadeiro artista, pela sua sensibilidade muito apurada, está mais que ninguém capacitado de, pela vidência e pela audiência, penetrar nas esferas espirituais e de lá receber inspirações majestosas, seja no que tange à música, à pintura, seja a todos os ramos do conhecimento humano, para depois, através dos imperfeitos meios de que ele dispõe aqui na Terra, dar-nos uma cópia bastante afastada do original, mas mesmo assim suficientemente expressiva para despertar entusiasmo e admiração entre os humanos!
O artista genial torna-se um angustiado, um irritado e revoltado, pela impossibilidade em que se encontra de reproduzir, com fidelidade, o que lhe foi dado contemplar e ouvir, graças ao seu psiquismo.
William Blake foi um artista genial como pintor, gravador e poeta inglês. Nasceu em Soho, Londres, Reino Unido, em 28/11/1757, desencarnando em 12/08/1827, em Londres, com 70 anos de idade.
Estreou com uma coleção de pinturas, todas de caráter original, às quais juntou um texto em versos, que dizia o seguinte: “Cantos de inocência e de experiência”.
Aos poucos sua mediunidade se foi desabrochando, tornando-se então um vidente extraordinário. Suas produções passaram a experimentar a influência direta dos nossos irmãos desencarnados. Dessas obras, sob influência mediúnica, citaremos apenas “As Forças do Paraíso”, obra composta de 16 estampas e pequenas outras, pintadas, aliás, com cores brilhantes, por um processo que jamais se tornou conhecido, processo esse que William Blake afirmava haver-lhe sido revelado pelo Espírito de seu genitor.
Precisamos chamar a atenção de nossos leitores para o fato de que William Blake nasceu e desencarnou numa época em que ainda não havia sido codificada a Doutrina Espírita, pois como se sabe ela surgiu em 1857. Outra revelação de Blake é a seguinte: “Afirmo ter escrito minhas poesias sob a direção do Espírito Milton, como declaro, outrossim, que todas as minhas obras foram inspiradas pelos que já vivem no plano espiritual”.

sábado, 6 de julho de 2019

ESTAMOS ESQUECIDOS[1]



Orson Peter Carrara

No livreto O Espiritismo em sua expressão mais simples, da FEESP, de Allan Kardec, que é dividido em 3 partes (Histórico do Espiritismo, Resumo do Ensinamento dos Espíritos e Máximas extraídas do ensinamento dos Espíritos, além das Notas), encontramos essas preciosidades que parecem esquecidas de todos nós na atualidade do movimento espírita (transcrevo pequenos trechos parciais) :

a) Item 35 no item “Máximas”: O objetivo essencial do Espiritismo é o melhoramento dos homens. Não é preciso procurar nele senão o que pode ajuda-lo para o progresso moral e intelectual;

b) Item 36 no mesmo item: O verdadeiro espírita não é o que crê nas manifestações, mas aquele que faz bom proveito do ensinamento dado pelos Espíritos. Nada adianta acreditar se a crença não faz com que se dê um passo adiante no caminho do progresso e que não o faça melhor para com o próximo.

c) Item 38, continuando: A crença no Espiritismo só é proveitosa para aquele de quem se pode dizer: hoje está melhor do que ontem.

d) E para concluir as transcrições, no item 60: Com o egoísmo, os homens estão em luta perpétua; com a caridade, estarão em paz (...).

Estamos esquecidos dessas orientações? Por que estamos nos perdendo tanto em polêmicas e discussões absolutamente dispensáveis, que só desviam o foco do principal objetivo da Doutrina: nosso melhoramento moral. Quanta discussão vazia, quanta perda de tempo, entre acusações e disputas absolutamente dispensáveis??!!
Temos um tesouro nas mãos, com o dever de espalhá-lo em benefício da humanidade!
Enorme responsabilidade essa! E ficamos em disputas internas, em acusações e polêmicas desnecessárias, absolutamente dispensáveis, desviando focos e desvirtuando objetivos.
Melhor não será prestarmos atenção nessas máximas e concentrarmos esforços para a proposta do Espiritismo. Agora que o filme Kardec desperta interesse, exatamente pela movimentação na mídia, deverá naturalmente haver uma demanda maior nas instituições.
Estamos preparados para atender essa nova demanda? Analisemos com imparcialidade para responder: estamos preparados, estruturados? OU anda estamos em discussões vazias, concorrendo opiniões e pontos de vistas?
O que verdadeiramente buscamos no Espiritismo? Com que objetivo? Quais nossos propósitos? Não é melhor despertarmos desses pesadelos e agirmos na direção do bem? Que autoridade tenho para questionar isso? Nenhuma, também sou um aprendiz, necessitado igualmente desse olhar interno, mas entristecido do esquecimento de nosso dever maior de estudar e viver a Doutrina Espírita, embalados que estamos pelas ilusões da vaidade, da disputa de opiniões e de posturas personalistas que ainda imperam em nós.... Voltemos a estudar Kardec para viver o Espiritismo. A pergunta é para mim, para você, para todos nós: estamos esquecidos?

sexta-feira, 5 de julho de 2019

O DIREITO A EVOLUÇÃO[1]



Armando Correa de Siqueira Neto- armandocsn@ig.com.br

A Lei de Atração entre os seres humanos demonstra ser a evidência acerca da qualidade do estado em que nos encontramos no gráfico evolutivo, pois, ao que tudo indica, somos todos seres inferiores. Se os holofotes dos fatos incidem sobre o considerável volume de transgressões existente na atualidade — da mentira prejudicial à violência que traumatiza ou extingue —, por mais que tantos padeçam pelo conflitante medo e inquietante mal-estar da convivência tão marcada por extremos de mentalidades, ainda assim nos encontramos na mesmíssima escola, e o que varia, observa-se, é o grau de avanço no qual se situa cada aluno.
Embora existam fileiras iniciais na classe, é na equivalente coexistência que o pessoal do fundão busca, mesmo sem o perceber, dar novos passos em direção aos confins da espiritualidade à luz da consciência; esta, caríssima de se obter por sua natureza transformadora, cuja exigência impõe colossal esforço, além de dedicação por incontável tempo.
Os espíritos, sempre estudantes na escola da vida, mantêm-se inquietos e provocadores uns aos outros, sobretudo àqueles em que os graus de desenvolvimento são distantes e adversos, aproximando-se, no movimento inverso, quando a sutil atração faz encontrar seus pares naturais mediante a similaridade pertinente. Exemplo interessante, o Brasil e seu descontrole relacionado aos crimes de toda ordem, manifesta forte atração pelo ingresso reencarnatório de espíritos significativamente atrasados, cuja moral lhes escapa com facilidade desde a infância, dificultando a luminosidade ética adulta de se instalar com a devida lucidez, restando, pois, a obscura ignorância como obstinada companhia e a deficiente educação a corroer as oportunidades. Ainda que outros países denominados de primeiro-mundistas possam revelar o seu quinhão no submundo do atraso ao baixar as guardas da vigilância, a sua maioria populacional contida, e ajustada aos moldes civilizatórios, impede o volumoso fluxo de renascimentos de tais entidades que abundam em oportunidades espirituais e geográficas qual o mapa brasileiro.
Todavia, a visão global pode nos contemplar com importantes aspectos neste panorama de apreensões, os avanços tecnológicos, quais os remédios cujas substâncias químicas tomaram o lugar da fé de outrora (não houve soma, só subtração), debilitando o uso de “poderes” naturais interiores, enfraquecendo, assim, os “milagres” de cura e de apoio mútuo às necessidades que também aproximam (e influenciam o desenvolvimento) uns aos outros. E, ainda, os avanços materiais relacionados ao conforto e as facilidades, mas, de irremediável priorização quanto ao status, à absurda competição além da conta, e da ilusória e desmedida ganância para atingi-los em nome do ego que tanto busca o troféu da importância própria diante do vazio que as relações humanas, grosso modo, atingiram em tempos de inebriante superficialidade e falta de profundo propósito.
Ainda, a explosão demográfica que concentrou gente demais em grandes centros e regiões e ofereceu recursos naturais de menos (e sua disputa mundial), a não ser através das gigantescas corporações comerciais que se aglutinam e se tornam cada vez mais tão poderosas quão assustadoras, no controle da qualidade de seus produtos, notadamente os alimentícios, e na quantidade que teima em não chegar aos subnutridos, uma massa humana que assusta ao vociferar seus gementes números: mais de um bilhão ao redor do triste planeta, segundo dados da ONU – a Organização das Nações Unidas. Salve-se quem puder…
São medonhas notícias, mas elas talvez carreguem uma inevitabilidade em seu bojo? Por ventura não é em meio à tamanha agitação social e caótico vendaval psicológico que os espíritos encontram terreno fértil para evoluir mais do que o comum? Quanto pior, maior a possibilidade de evoluir? Provas difíceis atestam maior honraria aos estudantes zelosos, e os promovem aos vizinhos e prósperos passos? Quem quer aproveitar a ocasião? E, ao desfrutá-la, quem estenderá a mão ao próximo, para que ele também se adiante e enriqueça a teia comum que nos une, fazendo ganhar ainda mais mutuamente? Contudo, e se estiver muito difícil para renovar o fôlego, imprescindível semente que faz florescer o jardim da perseverança?
Na intolerância de tal convívio (não nos esqueçamos do débito cármico ao qual estamos cativos e somos direcionados naturalmente), a saída estratégica, pergunta-se, não é se distanciar no que for possível, e sacudir as nossas sandálias que eventualmente carreguem o pecaminoso pó de qualquer resquício culpável? Vale o provérbio “os incomodados que se retirem”, em certos casos, defensivamente — quem não há de tirar o espinho que por ventura tenha entrado no dedo? A afronta, sob o manto do desejo de encarcerar ou de exterminar o lado que se opõe, a despeito de ser uma resposta defensiva ao temor, é fruto de rebelde cegueira daquele que “se esquece” que já esteve em tal posição um dia, e que, com toda justiça que nos cerca, merece as chances de tentar progredir, cuja centelha espiritual, sempre disponível em potência, permite alcançar o sagrado momento do ato, em repetidas inspirações de descoberta pessoal evolutiva.
Compartilhar do mesmo educandário, ainda que ligados a divergentes consciências e riscos, portanto, é um direito assegurado pela amorosa e paciente lei evolutiva, dado que sempre estaremos, com as nossas patinadas estudantis, um nível abaixo de um próximo já ocupado na escalada de tantos espíritos que, por seu mérito (não obstante terem de conviver com outros de peculiaridade inferior), também servem de exemplo e podem influenciar e atrair ao crescimento através de tais relações essenciais.


Fonte: Jornal Ciência Espirita

quinta-feira, 4 de julho de 2019

DIVISÃO DA LEI[1]


Miramez

Que pensais da divisão da Lei Natural em dez partes, compreendendo as leis sobre a adoração, o trabalho, a reprodução, a conservação, a destruição, a sociedade, o progresso, a igualdade, a liberdade, enfim, a de justiça, de amor e de caridade?
‒ Essa divisão da Lei de Deus em dez partes é a de Moisés e pode abranger todas as circunstâncias da vida, o que é essencial. Podes, pois, segui-la, sem que ela tenha por isso nada de absoluto, não mais que todos os outros sistemas de classificação que dependem do ponto de vista sob o qual se considera uma coisa. A última lei é a mais importante: é por ela que o homem pode avançar mais na vida espiritual, porque ela resume todas as outras.
Questão 648/Livro dos Espíritos

Moisés anotou o dito dos emissários espirituais, contendo as dez regras para que os homens se educassem, preparando-se, dessa forma, o ambiente propício para a descida da Grande Luz desprendida de Deus: Jesus.
Ele e o Pai são um.
Isso nos leva a crer na sintonia de Jesus com o Criador, e é o que deveremos fazer, igualmente: nos ligarmos a Jesus, e poder falar como Ele: "Eu e Jesus somos um no amor".
A Doutrina Espírita, sendo o Cristianismo renascendo nesta época, pela misericórdia do mesmo Jesus, divide e subdivide as leis ao infinito. Nela existem amontoados de conceitos de luz, proporcionando a todas as criaturas que procuram aprimorar-se os meios mais eficazes e mais reais para o despertamento dos dons espirituais que todos temos.
"Não desprezeis as escrituras", disse Paulo; vamos ler de tudo extraindo deste tudo o que é bom para nós. Para tanto, temos uma razão para escolher: educar é o nosso lema, e instruir, a nossa meta. Agradeçamos isso a essa doutrina de luz, que surgiu no mundo pelas bênçãos de Jesus Cristo. Educar e instruir são divisões da lei de amor.
Poderemos entender Jesus de muitas formas, como sendo meios para a iluminação da consciência, entendendo determinadas verdades, como a reencarnação do Espírito quantas vezes forem necessárias.
Então lhe disse Jesus: Levanta-te, toma o teu leito e anda. (João, 5:8)
O leito é como se fosse o próprio corpo, que o Espírito estava prestes a deixar, e o "levanta-te e anda", é mostrando a necessidade da alma de estar ligada ao corpo para a sua evolução espiritual. Tudo que o Mestre falou tem muitos significados, de maneira que todos possam compreender e se educar.
"Amar ao próximo como a nós mesmos" é muito interessante para as criaturas porque, neste mandamento, as criaturas passam a conhecer a Deus neste amor, porque essa regra divina e humana, traz para todas as almas segurança e felicidade. Podes estar certo de que todo o bem que encontrares nos teus passos são divisões das leis de amor, te convidando para a educação e para a sabedoria. Não percas a oportunidade que tens de servir com alegria e desprendimento. Com isso, começarás a ver outras coisas donde se desprende luz, construtora da paz. Começa pela educação da tua palavra em todas as circunstâncias; por meio do teu verbo, poderás servir em todos os minutos.
Observa o que João anotou e presenciou, sobre a força da palavra do Mestre: Muitos outros creram n'Ele, por causa da sua palavra. (João, 4:41)
A palavra bem ritmada no bem, a palavra educada no amor, faz que os ouvintes creiam no bem, e passem a fazê-lo pelo seu exemplo. Esse é um dos objetivos do Espiritismo, ensinar as criaturas a fazerem o bem por amor, tornando-se eles o próprio amor, com a segurança da Caridade.
Apega-te a todas as divisões da lei de Deus, pois elas são forças de luz do coração do Criador, ampliando a nossa crença em Jesus Cristo.




[1] Filosofia Espírita – Volume 13 – João Nunes Maia

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Autopremonições de doença[1]




Seria difícil, nessa primeira subdivisão, encontrar um só caso cujos detalhes não pudessem ser explicados por um fenômeno de autossugestão; limitar-me-ei, portanto, a relatar um exemplo único, que, embora escolhido entre os mais característicos, não escapa desse defeito comum.
Extraio-o – resumindo-o em parte – da obra do Dr. Alphonse Teste: Manuel Pratique du Magnétisme Animal (pág. 140).
Sexta-feira, 8 de maio, o Dr. Teste mergulhou a Sra. Hortense M. num estado de sonambulismo, na presença do seu marido. Logo que foi adormecida, ela anunciou:
– Estou grávida de 15 dias, não levarei a gravidez até o fim e ressinto um desgosto pungente. Na próxima terça-feira (12 de maio) terei medo de uma coisa qualquer, levarei uma queda, e como resultado, um falso parto.
– Do que terá medo, então, senhora? – perguntei-lhe com uma expressão de interesse que estava longe de ser simulada.
– Não sei de nada, senhor.
– Mas onde isso vai acontecer-lhe? Onde cairá?
– Não posso dizê-lo; não sei de nada.
– Não há nenhum meio de evitar tudo isso?
– Nenhum.
– Se, entretanto, nós não a deixarmos?
– Isso não servirá de nada.
– Só Deus poderia, portanto, prevenir o acidente que temem.
– Só Deus, mas ele não o fará, e estou profundamente aflita.
– E ficará muito doente?
– Sim, durante três dias.
– Sabe com certeza o que experimentará?
– Sem dúvida, e vou dizer-lhe: Terça-feira, às três e meia, logo depois de ter estado assustada, terei uma fraqueza que durará oito minutos; depois dessa fraqueza terei uma dor nos rins muito violenta que durará o resto do dia e se prolongará por toda a noite. Na quarta-feira pela manhã começarei a perder sangue; essa perda aumentará com rapidez e se tornará abundante. Todavia, não será necessário inquietar-se, pois ela não me causará a morte. Na manhã de quinta-feira estarei bem melhor, poderei até deixar meu leito durante quase todo o dia; mas à tarde, às cinco e meia, terei uma nova perda que será seguida de delírio. A noite de quinta-feira até a sexta-feira será boa, mas na noite de sexta-feira perderei a razão.
A Sra. Hortense não falava mais; e sem acreditar explicitamente no que ela nos dizia, ficamos tão chocados, que não pensávamos mais em interrogá-la. Entretanto, M., vivamente emocionado com a narrativa de sua mulher, e, sobretudo com suas últimas palavras, perguntou-lhe com uma indescritível ansiedade se ela ficaria muito tempo demente.
– Três dias – ela responde com uma calma perfeita. Depois acrescentou com uma doçura cheia de graça: – Vai, não se preocupe, Alfredo, não ficarei louca e não morrerei; sofrerei, eis tudo.
Ao despertar, como sempre, a Sra. Hortense esquecera-se de tudo e o Dr. Teste, no interesse da paciente e da ciência, recomendou ao marido guardar segredo absoluto sobre o incidente. Ao mesmo tempo, tomou nota de tudo e submeteu suas anotações ao Dr. Amédée Latour. Chegada a terça-feira, foi à casa do casal M., encontrando-o à mesa, e observou que a Sra. Hortense estava em perfeita saúde e excelente humor. Finda a refeição, tendo obtido a permissão para mergulhar a Sra. Hortense em sonambulismo, perguntou:
– Como vai, senhora?
– Muito bem, senhor; mas não por muito tempo.
– Como assim?
A Sra. Hortense repetiu, então, sua frase sacramental da sexta-feira, a saber: Entre duas e quatro horas terei medo de qualquer coisa, levarei uma queda, que resultará numa perda abundante etc.
– Mas, afinal, qual o objeto que lhe dará medo?
– Não sei de nada.
– Então, senhora, se isso que a senhora diz se realizar, é preciso admitir uma fatalidade nos incidentes que lhes acontecem.
– Sim, senhor; como na maioria dos que acontecem com todos os homens.
– E não há nenhum meio de se subtrair a essa fatalidade?
– Nenhum.
– Esta tarde, senhora, estarei à altura de contradizê-la.
– Esta tarde, senhor, o senhor estará muito inquieto com a minha saúde, pois ficarei muito doente.
Nesse momento, o Dr. Teste despertou a Sra. Hortense, que não se lembrou de nada. De acordo com o marido, tomaram-se todas as precauções imagináveis para evitar o menor incidente fortuito; e quando a hora indicada se aproximou, fecharam hermeticamente os postigos, com medo de que um acidente na rua, ou na casa em frente, determinasse a realização da profecia. Pouco depois soou três e meia, quando a Sra. Hortense, que observava com ligeiro espanto o que se passava em torno dela, levantou-se de repente do divã sobre o qual tínhamos pedido que ela se sentasse, e disse:
– Permitam-se, senhores, furtar-me um minuto à sua inconcebível solicitude?
– Onde pretende ir, senhora? – eu perguntava com um ar de inquietude que não pudera disfarçar.
– Ah! Meu Deus! Senhor, o que é que o senhor tem? Pensa que tenho projetos de suicídio?
– Não, senhora, mas...
– Mas o quê?
– Sinto que estou sendo indiscreto, mas é a sua saúde que me interessa.
– Então, senhor – retomava ela rindo –, uma razão a mais para me deixar sair.
O motivo, como se vê, era plausível, e não havia nenhum meio de insistir. Todavia, M., que quis levar a coisa até o fim, disse à sua mulher:
– Pois bem, minha boa amiga, permita-me acompanhá-la até lá.
– Como! Mas é então uma aposta?
– Precisamente, senhora, uma aposta entre a senhora e eu, e que certamente ganharei, embora a senhora tenha jurado me fazer perder...
A Sra. Hortense olha-nos alternadamente e permanece bem distante de adivinhar.
– Uma aposta entre os dois? – ela repete... – Vamos, não compreendo nada; mas não importa... Veremos.
Ela aceita o braço que o marido lhe oferece e sai morrendo de rir.
Eu também ria, e entretanto experimentava um pressentimento de que o momento decisivo havia chegado. Era tão verdadeiro que essa ideia me preocupava, que pensava em entrar no aposento do senhor e da senhora durante sua ausência, e fiquei como um porteiro na porta da sala de espera, onde não tinha nada para fazer.
De repente, um grito estridente se fez ouvir, e o barulho de um corpo que cai ressoou na escadaria exterior. Subo correndo. À porta do banheiro, M. traz nos seus braços sua mulher desvairada, agonizante.
Foi ela mesma que gritou; o barulho que chocou meu ouvido foi bem o de sua queda. No momento em que acabava de deixar o braço do seu marido para entrar no banheiro, um rato (a Sra. Hortense tem um horror incrível desses animais), ali, onde há 20 anos jura-se não se ter visto um único, apresentara-se à sua vista e causara-lhe um terror tão vivo e tão repentino que ela caíra de costas, sem que houvesse possibilidade de segurá-la. Eis o fato tal como se passou, e juro pela minha honra.
O primeiro ponto da predição tinha-se realizado; o resto se efetuaria com a mesma exatidão. A Sra. Hortense teve sua fraqueza, suas dores, sua perda, seu delírio, seu dia calmo e seus três dias de alienação. Não faltou nada; nem a natureza dos fenômenos anunciados, nem a ordem em que se sucederiam. O Dr. Amédée Latour e vários amigos de M. seguiram com interesse as diferentes fases dessa miraculosa doença, que, graças a Deus, não deixou hoje nenhum traço.
Quem ousaria, depois de semelhantes fatos, impor ainda limites ao possível e definir a vida humana?
Quando, em 1901, reproduzi este caso na Revue d’Etudes Psychiques, Myers objetou com razão que, apesar do caráter notável sob outros aspectos, ele não oferecia nenhuma evidência precisa premonitória; e continuava assim: “O sonâmbulo não soube indicar precedentemente a causa do seu medo... Na ausência do rato, o eu subliminal da senhora Hortense saberia descobrir, provavelmente, alguma outra causa, real ou imaginária, do seu medo, e seus efeitos seriam seguidos na ordem estabelecida com antecedência”.
É inegável que as pesquisas modernas sobre os fenômenos hipnóticos provam o bom fundamento das observações de Myers; será necessário ouvir, portanto, que o mesmo curioso incidente do rato não basta para conferir um valor precognitivo ao caso em questão; isso não exclui, naturalmente, a possibilidade de que seja realmente, em parte, premonitório; porém em matéria científica as probabilidades não contam.
Observarei, entretanto, que em matéria de sugestão e autossugestão é preciso distinguir entre os estados superficiais de hipnose, nos quais a mentalidade do indivíduo encontra-se muito diminuída, as faculdades de discernimento abolidas, as condições de credulidade – em virtude das quais são determinadas as sugestões – aumentadas em proporção, e os estados profundos de hipnose, em que a mentalidade do indivíduo torna-se, ao contrario, maravilhosamente aumentada, onde as faculdades de discernimento estão disfarçadas e as condições de credulidade inexistentes, o que torna consequentemente impossível qualquer forma de sugestão e de autossugestão, como o sabem muito bem os hipnólogos modernos.
Ora, encontrando-se o eu do Dr. Teste evidentemente em condições de “sonambulismo lúcido”, o que equivale a um dos estados profundos de hipnose, seria difícil de conciliar esse fato com a explicação autossugestiva; inconciliáveis pareceriam também as circunstâncias de uma personalidade sonambúlica que, de um lado, exprime-se com bastante bom senso para manifestar suas condições perfeitas de integridade mental, e de outro mostra-se privada de razão a ponto de maltratar cegamente a parte consciente de si mesma. Os casos de lutas intestinas, elas próprias designadas pela expressão de personalidades por contraste, não poderiam ser adiantadas para contradizer minha afirmativa, pois estes últimos são fundamentalmente diferentes; e, realizando-se em condições de desagregação espontânea ou provocada da personalidade consciente, não podem criar – e não criam – senão personalidades subconscientes dotadas de mentalidade mais ou menos rudimentar, anormais e amorais, isto é, em perfeita harmonia com as ações que elas efetuam, o que não se produz justamente no caso oposto.

Em matéria de hipnose e de sugestão, minha opinião é de que sobra muito para perscrutar e para modificar nas teorias em voga, que pecam pelo seu amor transbordante pela generalização. Os estados profundos de hipnose esperam ainda pelo homem de ciência que tentará esclarecê-los como convém.





[1] Fenômenos Premonitórios – Autopremonições de doença ou de morte - Ernesto Bozzano

terça-feira, 2 de julho de 2019

Dissertações Espíritas[1],[2] - SOBRE OS ESPÍRITOS QUE AINDA SE JULGAM VIVOS



(Sociedade de Paris, 21 de julho de 1864 – Médium: Sr. Vézy)

Já vos falamos muitas vezes das diversas provas e expiações; mas diariamente não descobris novas? Elas são infinitas, como o são os vícios da Humanidade. Como vos estabelecer a sua nomenclatura? E, contudo, vindes reclamar por um fato e eu vou tentar instruir-vos.
Nem tudo é provação na existência. A vida do Espírito continua, como já vos foi dito, desde o nascimento até o infinito; para alguns a morte não passa de simples acidente, que em nada influi sobre o destino daquele que morre. Uma telha caída, um ataque de apoplexia, uma morte violenta, muitas vezes apenas separam o Espírito de seu envoltório material; mas o invólucro perispiritual conserva, pelo menos em parte, as propriedades do corpo que acaba de sucumbir. Se eu pudesse, num dia de batalha, abrir-vos os olhos que possuís, mas dos quais não podeis fazer uso, veríeis muitas lutas continuando, muitos soldados se atirando ainda ao assalto, defendendo e atacando os redutos; ouvi-los-íeis até soltando hurras e gritos de guerra, em meio ao silêncio, e sob o véu lúgubre que se segue a um dia de carnificina. Terminado o combate, voltam a seus lares, para abraçar os velhos pais, as velhas mães, que os esperam. Para alguns, esse estado às vezes dura muito; é uma continuidade da vida terrestre, um estado misto entre a vida corporal e a vida espiritual. Por que, se foram simples e honestos, sentiriam o frio da tumba? Por que passariam bruscamente da vida à morte, da claridade do dia à noite? Deus não é injusto e deixa aos pobres de espírito esse prazer, esperando que vejam seu estado pelo desenvolvimento das próprias faculdades, e que possam passar calmamente da vida material à vida real do Espírito.
Consolai-vos, pois, vós que tendes pais, mães, irmãos ou filhos que se extinguiram sem luta. Talvez lhes seja permitido ainda que seus lábios se aproximem de vossas frontes. Enxugai as lágrimas: o pranto vos é doloroso e eles se admiram vendo que chorais; cercam com os braços o vosso pescoço e vos pedem que lhes sorriam. Sorri, pois, a esses invisíveis e orai para que troquem o papel de companheiros pelo de guias; para que abram as suas asas espirituais, que lhes permitirão adejar no infinito e vos trazer as suas suaves emanações.
Notai bem que não vos digo que todas as mortes repentinas fazem o Espírito cair nesse estado. Não; mas não há um só cuja matéria não tenha de lutar com o Espírito que volta a si. Houve o duelo, a carne rasgou-se, o Espírito se obscureceu no momento da separação e, na erraticidade, reconheceu a verdadeira vida.
Agora vou dizer-vos algumas palavras sobre aqueles para os quais este estado é uma provação. Oh! Como ele é penoso! Eles se julgam vivos e bem vivos, possuindo um corpo capaz de sentir e deleitar-se com os prazeres da Terra; porém, quando suas mãos os querem tocar, eles se desvanecem; quando querem aproximar os lábios de uma taça ou de uma fruta, os lábios se aniquilam; veem, querem tocar, mas não podem sentir nem tocar.
Que bela imagem oferece o paganismo desse suplício, ao apresentar Tântalo com sede e com fome e jamais podendo tocar os lábios na fonte de água, que sussurra ao seu ouvido, ou no fruto, que parece maduro para ele! Há maldições e anátemas nos gritos desses infelizes! Que fizeram para suportar tais sofrimentos?
Perguntai a Deus: é a lei, que foi escrita por ele. Quem mata a espada morrerá pela espada; quem profanou o próximo, por sua vez será profanado. A grande lei de talião estava escrita no livro de Moisés e ainda está no grande livro da expiação.
Orai, pois, incessantemente pelos que chegam à hora final; seus olhos se fecharão; dormirão no espaço como dormiram na Terra e, ao despertar, encontrarão não mais um juiz severo, mas um pai compassivo, a assinalar-lhes novas obras e novos destinos.

Santo Agostinho





[1] Revista Espírita – Novembro/1864 – Allan Kardec
[2] N. do T.: Embora o título Dissertações Espíritas não conste no original, Allan Kardec o registrou no sumário, razão por que o repomos em seu devido lugar.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

Walter Whately Carington[1]




Carington nasceu em Londres, em 1884, e foi educado na Universidade de Cambridge, onde estudou ciências. Ele foi admitido no Middle Temple em 8 de novembro de 1912, mas retirou-se em 1916. Ele se juntou ao Royal Flying Corps durante a Primeira Guerra Mundial e se tornou um piloto experiente, mas ficou gravemente ferido após um pouso forçado. Em nome do Ministério do Ar e do Ministério da Guerra, ele retornou a Cambridge para realizar pesquisas sobre acústica, com referência especial a problemas psicológicos. Neste momento, ele inventou alguns métodos inovadores para a avaliação matemática de sentimentos, o que se mostrou útil em seu trabalho posterior.
Metapsiquista inglês, o mais importante da primeira metade do nosso século. Começou a atividade de pesquisador através da experimentação, em 1916/17, com a Sra. Osborne Leonard e depois com Kathleen Goligher e Eva Carriere. Depois de alguns anos, voltou-se principalmente para o estudo da telepatia.
Ele foi um dos primeiros na Europa a aplicar o método quantitativo. Em seus primeiros experimentos, realizados entre 1939 e 1945, não se serviu de mapas de percepção extrassensorial (PES / ESP), mas de desenhos, na crença de que o desenho, por uma carga emocional mais intensa, poderia dar melhores resultados de símbolos abstratos.
Normalmente, expunha em seu estudo, entre as 07:00 e as 09h30 da manhã, um desenho em preto e branco selecionado aleatoriamente a partir de várias centenas: seus sujeitos, sempre muito numerosos, tinham de procurar, nessa mesma hora, reproduzir o desenho exposto. Com este método, no entanto, era difícil calcular as probabilidades de sucesso e fracasso e traduzir os resultados em números.
De todo modo, Carington teve resultados significativos e foi capaz de observar, além disso, talvez de primeira, o chamado deslocamento temporal: muitos de seus sujeitos, de fato, tendiam a adivinhar não o desenho efetivamente exposto, mas o que tinha sido exposto no dia anterior ou o que o experimentador teria exposto no dia seguinte. Sua teoria da associação de ideias foi muito discutida; com ela, ele procurou explicar a telepatia. Primeiro, ele supôs a existência de um subconsciente comum, em que as imagens e ideias se associam espontaneamente graças a rechamadas habituais recíprocas. Um caso elementar pode ser aquele de dois amigos que, passando em frente a um bar, têm a ideia de tomar uma bebida: não se trataria da passagem de uma ideia de um para o outro, mas simplesmente o fato de que a ideia "bar" é associada em ambos à ideia de "aperitivo".
Quando um experimentador escolhe um desenho a ser exibido, a ideia do desenho se associa nele à ideia do experimento e, em seu inconsciente, uma tende a chamar a outra; dado que a ideia do experimento é comum tanto ao investigador quanto aos sujeitos, é provável que, mesmo nos sujeitos tal ideia se associe à do desenho escolhido. É claro que esse caso é muito diferente daquele dos dois amigos em frente a um bar: e "aperitivo" já ocorre em ambos há tempos; nisso, a associação entre "experiência" e "desenho" ocorre ao experimentador no momento, mas não ao sujeito, que deve obtê-la do inconsciente comum.
A essa teoria se liga a, também muito discutida, psicônica: hoje ambas foram praticamente abandonadas.
Principais obras: Fundamentos do Espiritismo, 1920; Teoria dos Mecanismos de Sobrevivência, 1920; Morte do Materialismo, 1932; Telepatia, 1945.
Faleceu em 02 de março de 1947.