sexta-feira, 7 de junho de 2019

Manifesto por um Espiritismo Kardecista Livre[1]




No Brasil existem centros espíritas que dão cursos práticos de mediunidade de cura com aulas sobre física quântica. Noutros centros, apostilas mostram a coreografia correta para se aplicar um passe. Médiuns psicografam livros detalhando planos de dominação das trevas, e lideranças se dedicam a traduzir a Bíblia. Instituições impõem liturgias, proibições e dogmas e consideram o trabalho de Kardec uma revelação divina, seus livros como lei escrita em pedra. E tudo isso é denominado unicamente de espiritismo, apesar das profundas contradições.
Além disso, vivemos num momento histórico de grandes contradições sociais e retrocessos políticos. E muitos espíritas como nós não estão satisfeitos com o conservadorismo predominante em nosso movimento.
Para tentar organizar essa cacofonia, iluminando o que é essência e o que é incoerência, lançamos hoje esse manifesto, que ficará on-line. Nele também mostramos que o espiritismo é um pensamento livre e progressista e deve estar a postos para mudar a sociedade. Nos próximos meses vamos aprofundar as ideias do manifesto aqui no blog da ABPE. Quem quiser assinar (os nomes serão incluídos no site da ABPE), envie nome, cidade e estado ou país para o e-mail: abpe@pedagogiaespirita.org.br

Preâmbulo
O espiritismo no século XXI é um fenômeno multifacetado e complexo. Diferentes correntes que praticam a mediunidade se autodeclaram espíritas; outras, apenas espiritualistas. Todas elas merecem nosso respeito e solidariedade.
Entretanto, esse manifesto se refere à tradição específica de Kardec e quando nos declaramos espíritas aqui, estamos tratando desse legado.
 No Brasil, porém, o país com maior número de espíritas no mundo, criou-se uma forma de espiritismo institucional, hegemônico, que, para nós, não representa a maneira como entendemos o espiritismo fundado por Kardec.
Lançamos assim um manifesto de um movimento espírita kardecista livre, para demarcar o que nos une (e convidamos aqui o próprio movimento institucional) e o que desejamos como vivência e prática de uma filosofia livre, emancipadora e progressista como é a filosofia proposta por Kardec.
Esse manifesto tem a intenção de unir, sem homogeneizar; declarar princípios, sem dogmatismo; propor diálogo sem dissensão.
É uma iniciativa da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita, mas apoiado por todos os signatários (pessoas físicas ou instituições) que manifestam a mesma visão que nós.

Manifesto

1) Aceitamos como princípios espíritas a existência de Deus, a existência dos Espíritos e comunicação com estes e a reencarnação, numa perspectiva de evolução individual e coletiva.
2) Consideramos Allan Kardec a referência fundamental do espiritismo, entendendo que há diversas leituras sobre suas obras e que essas diferenças devem ser respeitadas e debatidas fraternalmente.
3) Vemos o espiritismo como uma filosofia progressista, que não perde a sua identidade e especificidade de espiritualidade racional, quando em diálogo com outras filosofias e com a cultura de cada época histórica.
4) Compreendemos que o espiritismo está em permanente construção, em diálogo com a pesquisa científica, a reflexão filosófica e a comunicação dos Espíritos, desde que se mantenham de Kardec o espírito crítico, a observação empírica e o princípio ético do desinteresse.
5) Entendemos que a ética espírita – que é a do amor universal, inspirada na ética de Jesus – deve orientar nossas ações individuais e coletivas, em prol da transformação social; portanto, devemos marcar posição contra a violência de qualquer espécie, trabalhando pela dignidade humana, pela justiça e combatendo o abuso e a sujeição de pessoas, de qualquer idade ou condição.
6) Consideramos que as manifestações de médiuns, lideranças e dirigentes espíritas são livres e podem e devem ser analisadas e discutidas de forma respeitosa e racional. O exercício da mediunidade e os postos de liderança não conferem autoridade incontestável em nenhum assunto.
7) Rejeitamos a ideia de que o espiritismo seja uma religião institucional. Entendemos que ele propõe uma espiritualidade livre e aberta, com a possibilidade de diálogo com outras tradições espirituais.
8) Rejeitamos qualquer tutela institucional sobre o pensamento espírita: a prática, o estudo, as produções e a representação do espiritismo são livres e não são monopólio de nenhuma instituição nacional ou internacional.
9) Consideramos que o diálogo entre todos os espíritas deve ser aberto, empático e construtivo, sem a perda da criticidade e da liberdade de consciência e expressão.
10) Entendemos o espiritismo como uma proposta pedagógica, que trabalha por uma educação emancipatória de todas e todos para a convivência pacífica, para a justiça e equidade e para a prática de uma espiritualidade amorosa e crítica.




[1] https://blogabpe.org/2019/02/07/manifesto-por-um-espiritismo-kardecista-livre/

quinta-feira, 6 de junho de 2019

VESTE IMPRESTÁVEL[1]



Miramez

De que maneira o Espírito considera o corpo que acaba de deixar?
- Como uma veste incômoda que o molestava e da qual se sente feliz por estar livre.
Que sentimento lhe faz experimentar a visão do seu corpo em decomposição?
- Quase sempre de indiferença, como por uma coisa que não tem mais.
Questão 309/Livro dos Espíritos

O Espírito sendo evoluído, diante do corpo que deixa no ato da desencarnação, curva-se a ele com profunda gratidão pelo aparelho que lhe serviu para o desempenho da sua programação na Terra. Nunca fica pensando nele com saudade, por saber que ele já não lhe pertence, devolvendo à natureza o que lhe foi emprestado por misericórdia divina e que, terminando a sua tarefa, é veste imprestável.
Assim a carne em decomposição volta a seu primitivo estado de energia, desagregando-se em busca de novas atividades, sob a orientação dos benfeitores da eternidade.
O Espírito elevado considera a roupa física que deixou como uma dádiva de Deus, para o seu despertar espiritual, e nunca sente repugnância pelo estado da roupagem que acaba de devolver ao celeiro maior, que é a natureza, pois ela se encontra em plena transformação dos elementos de vida, pela vontade do Criador.
De certo modo, a alma sente-se feliz de livrar-se da carne, quando a compreensão domina os sentimentos. Ela sabe, e a certeza ocupa a sua mente, de que está avançando cada vez mais para a sua libertação espiritual. A lei da reencarnação nos mostra que as vestes carnais são instrumentos de ascensão do ser pensante, e que são inúmeras, por vezes incontáveis, por mudarem de feição nos muitos mundos em que deve habitar.
Na Terra, ela é mais física, pelo estado de atraso da humanidade que a habita, em relação aos mundos superiores. Comparamos o corpo com as vestes que o homem usa para se cobrir, quando elas caem em desuso. Os conhecimentos espirituais que já se adquiriram vão ficando envoltos nos rotos panos e, por isso, alegrar-se-á o Espírito quando tiver que devolver seu corpo ao lugar que pode aproveitá-lo pelas mãos do agente universal, que poderá transformá-lo em utilidade comum a, plantas e departamentos diversos que assistem à natureza.
Nada se perde na criação de Deus; o que parece estar se acabando aos olhos humanos, aparece aos olhos espirituais renovado para melhor servir. Mas há Espíritos envolvidos de tal forma na ignorância, obstinados nas rotas vestes de carne, encontrando-se agarrados nos restos mortais, como dizes, vivendo dramas indescritíveis no próprio campo-santo, perdendo tempo, porém, armazenando lições para o porvir, qual o mendigo nas ruas, cuja mente se encontra quase paralisada em duras provações, e que as suas vestes, como quilangos[2], desintegram-se no seu corpo, que parece querer libertar-se, por direito, da escravidão imposta pela incapacidade espiritual de quem a veste.
O corpo, de certa forma, empana as qualidades da alma, mas também a educa em vários sentidos. É, pois, uma troca onde a matéria serve ao homem e o homem fornece um influxo à matéria.
Devemos estudar mais a vida, meditar mais em Deus, viver mais com Jesus, para compreendermos com mais eficiência a ciência de viver.
Depois que se liberta do corpo, o Espírito, com a devida gratidão, passa a não se interessar mais por ele, porque dali em diante tem que saber cuidar de sua veste, como se fora sua filha, na santificação do amor, no reino que ele passa a pertencer.
Olhar para trás é petrificar a esperança. Enquanto estagias na carne, é preciso que tenhas zelo por ela; que cuides dela como instrumento que Deus te concedeu, para a tua própria felicidade; que a ames na faixa em que ela se encontra, porque o amor é vida em todas as dimensões do viver.




[1] Filosofia Espírita – Volume 7 – Joao Nunes Maia
[2] (Argentina) Um certo tipo de cobertura feita de peles, principalmente guanaco; (Argentina) Cobertor formado por peles costuradas usadas por alguns povos indígenas.

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O que são as aparições e como se formam[1]




Apalpai-me e vede: pois um Espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenha

LUCAS, XXIV, 39

 

Essas palavras são por Lucas atribuídas a Jesus, quando se dirigia aos discípulos atemorizados, por ocasião da aparição entre eles, no terceiro dia depois da crucificação.

Elas não são narradas por outros Evangelistas, pois João diz apenas que Jesus lhes mostrou as mãos e os quadris.

Essas palavras também foram citadas por Inácio[2], um dos mais antigos e eminentes Pais Apostólicos, discípulo e amigo particular dos Apóstolos, mas, em sua citação ele apresenta uma variante da de Lucas, pois diz: Apalpai-me e vede, pois que não sou um Espírito sem corpo (daimonion asomaton). Creio ter sido esta a verdadeira expressão. Os fatos parecem favorecer a opinião de ser o homem composto ‒ primeiro, de um corpo terreno ou natural, visível a nós e que, sujeito imediatamente depois da transformação da morte às leis químicas que governam a matéria inanimada, rapidamente se decompõe; segundo, de um corpo que S. Paulo chama espiritual (perispírito), o qual, como parece, penetra, durante a vida terrena, todo o corpo natural e dele se retira no momento da morte; terceiro, de uma alma, que nada nos demonstra poder aparecer ou existir, sem estar ligada ao corpo espiritual[3].

Assim, podemos considerar os habitantes do outro mundo como homens desembaraçados do corpo natural; a alma e o corpo espiritual sobrevivendo à morte corporal.

É uma opinião corrente, fortificada por tudo o que ouvimos de origem ultramundana, que o corpo espiritual mostra estreita semelhança de forma com o corpo natural. Parece, pois, haver razões de sobra para admitir que nossos amigos, partidos da Terra, não são sombras impalpáveis, mas personagens reais, individualizados, que reconheceremos no outro mundo como os conhecemos neste, somente as formas apresentando, talvez, a expressão mais calma de uma individualidade mais nobre.

Esse corpo espiritual não é usualmente visível aos olhos humanos. Somente o podem ver aqueles que, segundo S. Paulo, possuem o dom de distinguir os Espíritos. Por esse dom natural, os videntes, sem dúvida vêm o corpo espiritual animado pela alma. Não nos surpreendamos, pois, de ouvir John Stuart Mill dizer: Que os homens não devem tomar o limite de suas faculdades como limitação inerente dos modos possíveis da existência do Universo.

Como, porém, esse dom de distinguir os Espíritos é raro e essa prova só pode trazer convicção ao próprio vidente, é claro que, para que as pessoas não videntes tenham a mesma convicção, deve apresentar-se à sua vista alguma coisa mais material que o corpo celestial, pois este pertence à fase seguinte da nossa vida.

A evidência por mim colhida leva-me a declarar que um Espírito pode, em certas condições e provavelmente ajudado por outros Espíritos, fabricar um corpo passageiro, assemelhando-se ao que teve na terra, mas desaparecendo à vista, especialmente quando exposto à luz terrena; estando assim em perfeita concordância com o caráter dos atuais fenômenos, a seguinte expressão de um poeta: Ela sumiu-se ao cantar do galo.

Os que têm tido a ventura de testemunhar essa produção da arte espiritual em suas várias fases, afirmam que, quando as condições são favoráveis, ela se mostra às vezes maravilhosamente perfeita e mesmo, transcendentalmente bela. O Doutor Gray, um dos observadores mais meticulosos e desapaixonados, me disse que uma das ocasiões acima referidas, em que a imagem do Doutor Franklin se apresentou, ele fixou firmemente os olhos da figura e neles pôde notar sua vivacidade e expressão características, e mesmo, a mudança dessa expressão, de conformidade com o que se estava passando. O brilho vivaz desses olhos, disse ele, produziu-me a convicção de ser o velho filósofo mesmo e não um outro, que ali se achava assentado à minha frente.

Por qual processo essa criação temporária (se é correto dizermos criação), se efetua, ainda não conhecemos, com certeza, e talvez não possamos conhecer, até que o aprendamos no outro mundo, com esses artistas espirituais.

O que nos parece justificado, como conjeturamos, é que há uma transpiração invisível [assista o vídeo Ectoplasma], no organismo humano, no de todos os seres, mas principalmente no corpo dos sensitivos espirituais, transpiração essa que os Espíritos podem condensar ou, por outra, modificar, de modo a produzir não somente o que apresenta aos sentidos humanos uma forma visível e tangível, mas ainda substâncias semelhantes às roupas terrenas e outros objetos inanimados. Parece que eles podem do mesmo modo produzir o que podemos chamar representações esculpidas de porções da figura humana, como mãos, partes de mão etc.

Lembremo-nos, porém, sempre de que a realidade de um fenômeno é independente da sua explicação.

Eu mesmo já tive uma oportunidade de testemunhar os fenômenos supramencionados.

 

Aparecimento, distintamente visível, de porções destacadas de uma figura humana

Na noite de 27 de julho de 1861, estive em casa do Senhor Underhill. A Senhora Underhill[4] propôs que em vez de efetuar ali a sessão, a transferíssemos para a residência de sua mãe, no n° 66 da Rua 46 West, a fim de que sua irmã Kate pudesse fazer parte do círculo. Assim o fizemos. Preparamo-nos para a sessão na sala inferior e notando que as portas não eram fechadas a chave, propus fôssemos para a sala superior, com o que todos concordaram.

Pelos golpezinhos, me disseram que fechasse as portas, o que fiz, pondo as chaves no bolso. Examinei com cuidado toda a sala, que não tinha armários nem lugar algum reservado. Depois, convidaram-nos a apagar o gás. Dentro de poucos minutos, ouvimos três ou quatro golpes violentos, como produzidos por pesada cachamorra[5] batendo na mesa. Seguiu-se um intervalo de quietação de uns quinze minutos, ao fim do qual apareceu, de súbito, entre a senhorita Kate e a Senhora Underhill, a figura de um ombro. A mão não era distinta, mas o braço era bem formado e parecia ser de mulher de proporções medianas, com o cotovelo dobrado e a parte inferior voltada para cima. Acima da figura havia uma luz, cujo ponto de emanação não era distinto e cuja claridade assemelhava-se à de uma lâmpada ou candeeiro. O braço se mostrava claramente a essa luz, do pulso até o ombro; mas os contornos não eram bem definidos, apresentando-se esbatidos, como se vê nas gravuras não coloridas. Desse braço pendia a manga que descia até cinco ou seis polegadas e assemelhava-se a uma gaze semitransparente. Braço e ombro se aproximaram, movendo-se por cima da mesa e passando pela frente da Senhora Underhill, até à distância de sete ou oito polegadas, balançando-se a manga com o movimento do braço. Aí se conservou cerca de um minuto; depois, desapareceu e reapareceu por três vezes, com intervalos de quatro a cinco minutos, de modo a podermos observá-lo com segurança, pois a luz, qualquer que fosse o seu ponto originário, se movia com a figura, aparecendo e desaparecendo com ela. Não pude distinguir cabeça nem rosto algum acima desse braço, mas, contíguo a ele, havia alguma coisa mal definida, que parecia a pequena porção de uma forma humana.

Depois de algum tempo, uma aparição luminosa mais brilhante que a primeira mostrou-se sobre a mesa e deteve-se a uma distância de quatro ou cinco polegadas da minha face Assemelhava-se a um cilindro iluminado do interior, com altura de cinco ou seis polegadas e o calibre aparentemente de uma polegada. Sobre ele viam-se alguns traços escuros. Por golpezinhos, disseram-nos : Cabelos.

Perguntei se me podiam tocar e logo ele moveu-se para frente e tocou-me na testa com uma certa distinção; o contato se assemelhava ao do cabelo humano. Depois de alguns minutos desapareceu. A descrição feita pelos outros assistentes sobre o que haviam visto, combinou perfeitamente com o que foi visto por mim.

Apenas levantou-se a sessão, examinei as portas e achei-as fechadas. A sala em que nos reunimos, convém lembrar, foi escolhida por mim mesmo.

Alguns anos depois, a 5 de maio de 1868, o Doutor Gray falando das sessões que tivera com o Senhor Livermore, me disse que em uma delas, apareceu sobre a mesa, diante de si, um cilindro com as dimensões do que eu vi; porém, mais felizes que eu, eles tiveram a oportunidade de segurá-lo. Parecia-me, disse o Doutor Gray, ser de cristal de rocha ou de algum outro material duro, perfeitamente transparente, e cheio de um fluido incandescente que luzia fracamente quando o cilindro repousava, porém que, quando agitado espargia uma luz muito brilhante. Enquanto o viram e examinaram, não havia na sala outra luz, além da que ele emitia. Por golpezinhos lhes foi dito que o cilindro era a luz empregada pelos Espíritos para iluminar suas efêmeras produções, sendo ela tão efêmera quanto estas.

Na mesma ocasião, o Doutor Gray afirmou-me que tinha visto uma mão isolada aparecer e desaparecer por quatro ou cinco vezes.

A princípio tinha a cor escura do bronze; depois, essa cor foi cada vez mais clareando, até que na última exibição o aspecto era o de mão caucásica.

Noutra ocasião, levaram-lhe os óculos e depois os restituíram.

Pediu-lhe mostrassem como o tinham feito, e, logo viu dois dedos imperfeitos, assemelhando-se quase a garras, presos a um pedaço de mão que aparecia na sombra. Eles pareciam animados ou, pelo menos, obedecendo a alguma vontade, porque, como tenazes vivas, segurar os óculos, levaram-nos, e depois trouxeram-nos. O Senhor Livermore notou, pelo tato, que esses dedos eram sólidos.

À pergunta do Doutor Gray sobre o motivo pelo qual não se mostrava toda a mão em vez dos dedos somente, responderam que muitos se assustariam ou sentiriam repugnância, à vista de uma formação amorfa.

Outra ocasião, uma massa que parecia de carne foi posta sobre o pé do Doutor Gray, que para essa experiência se tinha descalçado.

Deixada ali, a seu pedido, por algum tempo, ela tornou-se intoleravelmente quente e ele supõe mesmo que, se continuasse, queimá-lo-ia. Daí lhe veio a sugestão de haver sido o fósforo um dos ingredientes empregado: o que talvez explique as histórias de espectros segurando o pulso e as mãos de pessoas atemorizadas, deixando a impressão de dedos de fogo.

O Doutor Gray relatou-me uma observação ainda mais importante. Em uma das últimas ocasiões em que se apresentou a figura do Doutor Franklin, o rosto mostrou-se a princípio imperfeitamente formado, com um só olho, havendo no lugar do outro e do lado da face uma cavidade escura que lhe dava um aspecto horrendo. Contemplando-o, Kate Fox deu um grito de terror, causando a extinção temporária da luz que aclarava a figura.

Criança tola! - exclamou o Doutor, segurando-lhe as mãos. Não vês que estás interrompendo uma das mais interessantes experiências que se têm feito no mundo, a da gradual formação de uma aparição?

Essa apreciação filosófica do caso, acalmou gradualmente os nervos excitados de Kate e expeliu seus terrores supersticiosos, de modo que, quando depois de um intervalo de menos de cinco minutos, a face do sábio reapareceu com as suas feições perfeitas e a expressão de calma e bondade, foi ela a primeira que exclamou: Bonito! Isso deu-se em uma das últimas sessões a que o Doutor Gray assistiu. Em muitas ocasiões anteriores a essa, como ele mesmo informou, a face ainda que distintamente apresentada, parecia, às vezes, enrugada e como feita de massa de trigo; e outras vezes assemelhava-se à face de um cadáver. Omito outros detalhes e menores incidentes, pois tudo o que sabemos ainda nos não fornece uma base suficiente para estabelecer uma teoria a respeito do verdadeiro caráter e processo de formação das aparições. Não duvido que, mesmo neste mundo, possamos algum dia saber muito mais sobre essa matéria. Esses eidolas[6] parece tornarem-se gradualmente mais comuns e pode entrar nas vistas de Deus fazer que no futuro esses fenômenos sejam o fundamento de uma crença universal na imortalidade. Considero-o muito provável, pelo fato de nos tempos modernos o progresso moral e espiritual não acompanhar o intelectual e material. A capacidade mental ou física, porém, tem um valor duvidoso, se o elemento ético ou religioso lhe não der uma benéfica direção. Não vejo como um tal elemento civilizador se possa manifestar em pleno poder, prevalecer contra o erro e o vício e dominar a nossa raça, sem o auxílio, não de uma crença vaga, adotada em credos escritos, mas de uma viva, fume e ardente convicção, como a que fornece a evidência dos sentidos, da existência de um mundo melhor, onde todos os pensamentos e atos terrenos, por mais que aqui se ocultem, produzirão infalivelmente seus fritos, de modo que os sentimentos e os atos maus têm sempre como inevitável consequência às penas e sofrimentos, e os bons uma vida de venturas, que ainda não nos é dado conceber.



[1] Região em Litígio – entre este mundo e o outro – Robert Dale Owen - FEB

[2] Acredita-se ter sido discípulo de Pedro, e foi bispo de Antióquia por volta do ano 70. Sofreu o martírio ao tempo de Trajano, em idade avançada, no ano 107.

[3] Chamo Espírito à alma presa ao corpo espiritual.

[4] Liah Fox, uma das irmãs Fox.

[5]  Pedaço cilíndrico de madeira que serve de arma. = CACETE, CACHAPORRA, CACHEIRA (Portugal).

 

 

[6] Eidola é uma palavra que se relaciona com a teoria sobre a visão criada pelo filósofo Leucipo de Mileto, que viveu em meados de 500 anos antes de Cristo. O significado de eidola é um tipo de partícula hipotética de sua teoria. Ele acreditava que todos os objetos realizassem a emissão de partículas (as eidolas), e essas partículas é que continham as informações absorvidas pelos olhos humanos, que faziam as pessoas enxergar as cores e as formas. https://brainly.com.br/tarefa/3652516#readmore

terça-feira, 4 de junho de 2019

Um Criminoso Arrependido[1],[2] – Continuação



(Passy, 4 de outubro de 1864 – Médium: Sr. Rul.)

Nota – O médium tivera a intenção de evocar Latour desde o momento do suplício. Tendo perguntado a seu guia espiritual se poderia fazê-lo, este respondeu que esperasse lhe fosse indicado o momento. Somente no dia 3 de outubro a autorização foi dada, após ter lido o artigo da Revista, que fazia referência ao caso.

P. – Ouvistes as minhas preces?
– Sim; ouvi-as e vo-las agradeço, não obstante a minha perturbação. Fui evocado quase imediatamente depois da minha morte, porém não pude manifestar-me logo, de modo que muitos Espíritos levianos tomaram-me o nome e a vez. Aproveitei a estada em Bruxelas do Presidente da Sociedade de Paris e comuniquei-me, com a aquiescência de Espíritos superiores.
Voltarei a manifestar-me na Sociedade, a fim de fazer revelações que serão um começo de reparação às minhas faltas, podendo também servir de ensinamento a todos os criminosos que me lerem e meditarem na exposição dos meus sofrimentos. É somente sobre o Espírito dos homens fracos ou das crianças que a narrativa de penas infernais pode produzir efeitos terroristas. Ora, um grande malfeitor não é um espírito pusilânime, e o temor da polícia é para ele mais real que a descrição dos tormentos do inferno. Eis por que todos os que me lerem ficarão comovidos com as minhas palavras e com os meus padecimentos, que não são ficções. Não há um só padre que possa dizer que viu o que tenho visto, porque tenho assistido às torturas dos danados. Mas, quando eu vier dizer: – “Eis o que se passou após a minha morte, a morte do corpo; eis a minha enorme decepção ao me reconhecer vivo, ao contrário do que supunha e tinha tomado pelo termo dos suplícios, quando era o começo de outras torturas, aliás indescritíveis!” – Então, mais de um se deterá à borda do precipício em que ia despenhar-se, e cada um dos desgraçados, desviados por mim da senda criminosa, concorrerá para o resgate das minhas faltas. É assim que do próprio mal sai o bem, e que a vontade de Deus se manifesta em toda parte, na Terra como no espaço.
Foi-me permitido libertar-me do olhar das minhas vítimas transformadas em carrascos, a fim de comunicar convosco; ao deixar-vos, entretanto, tornarei a vê-las e só esta ideia me causa tal sofrimento que eu não poderia descrevê-lo. Sou feliz quando me evocam, porque assim deixo o meu inferno por alguns instantes.
Orai sempre ao Senhor por mim, pedi-lhe que me liberte do olhar das minhas vítimas.
Sim, oremos juntos. A prece faz tanto bem... Estou mais aliviado; não sinto tão pesado o fardo que me acabrunha. Vejo um resquício de esperança luzindo-me aos olhos e, contrito, exclamo: Bendita a mão do Senhor e seja feita a sua vontade!
J. Latour

O guia espiritual do médium dita o seguinte:
Não tome os primeiros gritos do Espírito que se arrepende como sinal infalível de suas resoluções. Ele pode estar de boa-fé em suas promessas, porque a primeira impressão que sente ao se ver no mundo dos Espíritos é de tal modo fulminante que, ao primeiro testemunho de caridade que recebe de um Espírito encarnado, ele se entrega às expansões do reconhecimento e do arrependimento. Mas, por vezes, a reação é igual à ação e, em muitas outras, esse Espírito culpado, que ditou a um médium tão boas palavras, pode voltar à sua natureza perversa, às suas tendências criminosas. Como uma criança que ensaia os primeiros passos, precisa de ajuda para não cair.

No dia seguinte o Espírito Latour foi evocado novamente.
O médium – Em vez de pedir a Deus para vos furtar ao olhar das vossas vítimas, eu vos convido a pedir a Ele que vos dê a força necessária para suportardes essa tortura expiatória.
– Eu preferiria livrar-me de tais olhares. Se soubésseis quanto sofro... O homem mais insensível comover-se-ia vendo impressos na minha fisionomia, como que a fogo, os sofrimentos de minha alma. Farei, entretanto, o que me aconselhais, pois compreendo ser esse um meio de expiar um pouco mais rapidamente as minhas faltas. É qual dolorosa operação que viesse curar um corpo gravemente adoentado. Ah! Pudessem ver-me os culpados da Terra, e ficariam apavorados das consequências de seus crimes, desses crimes que, ignorados dos homens, são, no entanto, vistos pelos Espíritos. Como a ignorância é fatal para tanta gente!
Que responsabilidade assumem os que recusam instrução às classes pobres da sociedade! Acreditam que com polícia e soldados se previnem crimes... Que grande erro! Se dobrassem ou quadruplicassem o número de agentes da autoridade, os mesmos crimes seriam cometidos, porque é preciso que os Espíritos maus encarnados cometam crimes.
Eu me recomendo à vossa caridade.

Observação – Sem dúvida é por um resquício de preconceitos terrenos que diz Latour: É preciso que os Espíritos maus encarnados cometam crimes. Seria a fatalidade nas ações dos homens, doutrina que a todos desculparia. Aliás, é muito natural que ao sair de semelhante existência, o Espírito não compreenda ainda a liberdade moral, sem a qual o homem estaria ao nível dos animais. Causa admiração que ele não diga coisas ainda piores.
A comunicação seguinte, do mesmo Espírito, foi obtida espontaneamente em Bruxelas, pela Sra. C..., o mesmo médium que havia servido de instrumento à cena relatada no número de outubro.
‒ Nada mais receeis de mim; estou mais tranquilo, embora ainda padeça. Vendo o meu arrependimento, Deus teve compaixão de mim. Agora sofro por causa desse arrependimento, que me demonstra a enormidade dos meus crimes. Bem aconselhado na vida, eu não teria jamais praticado todo esse mal, mas, sem repressão, obedeci cegamente aos meus instintos. Se todos os homens pensassem mais em Deus, ou, antes, se nele acreditassem, tais faltas não seriam cometidas.
Falha é, porém, a justiça dos homens; uma falta muita vez passageira leva o homem ao cárcere, que não deixa de ser um foco de perversão. Daí sai ele completamente corrompido pelos maus exemplos e conselhos. Dado porém que a sua índole seja boa e forte para se não corromper, ainda assim, de lá saído, ele vai encontrar fechadas todas as portas, retraídas todas as mãos, indiferentes todos os corações! Que lhes resta pois? O desprezo, a miséria, o abandono e o desespero, se é que o assistem boas resoluções de se corrigir. Então a miséria o leva aos extremos, e assim é que também ele se toma de desprezo por seu semelhante, assim é que o odeia e perde a noção do bem e do mal, por isso que repelido se encontra, a despeito das suas boas intenções. Para angariar o necessário, rouba, mata às vezes, e depois... depois o executam! Meu Deus, ao ser presa novamente das minhas alucinações, sinto que a vossa mão se estende por sobre mim; sinto que a vossa bondade me envolve e protege.
Obrigado, meu Deus! Na próxima existência empregarei toda a minha inteligência no socorro aos desgraçados que sucumbiram, a fim de os preservar da queda. Obrigado a vós que não desdenhais de comunicar comigo; nada receeis, pois bem o vedes, eu não sou mau. Quando pensardes em mim, não vos figureis o meu retrato pelo que de mim vistes, mas o de uma alma angustiada que agradece a vossa indulgência.
Adeus; evocai-me ainda e orai a Deus por mim.
Latour

Observação – O Espírito faz alusão ao temor que sua presença inspirava ao médium.
Sofro, diz ele ainda, por esse arrependimento, que me mostra a enormidade de minhas faltas. Há nisto um pensamento profundo. Realmente, o Espírito não compreende a gravidade de seus erros senão quando se arrepende; o arrependimento traz o pesar, o remorso, sentimento doloroso, que é a transição do mal para o bem, da doença moral para a saúde moral. É para se furtarem a isto que os Espíritos perversos se tornam inflexíveis à voz da consciência, como os doentes que repelem o remédio que os deve curar. Procuram iludir-se e atordoar-se, persistindo no mal.
Latour chegou a um período em que o endurecimento acaba por ceder; o remorso entrou em seu coração; seguiu-se o arrependimento; compreende a extensão do mal que fez; vê a sua abjeção e sofre com isto. Eis por que diz: Sofro por esse arrependimento. Em sua existência precedente, deveria ter sido pior que nesta, porquanto, se se tivesse arrependido como o fez agora, sua vida teria sido melhor. As resoluções tomadas agora influirão sobre sua existência terrestre futura; a que acaba de deixar, por mais criminosa que tenha sido, marcou-lhe uma etapa de progresso. É mais que provável que, antes de começá-la, ele fosse, na erraticidade, um desses Espíritos maus, rebeldes, obstinados no mal, como se veem tantos.
Muitas pessoas perguntaram que proveito poder-se-ia tirar das existências passadas, já que não se lembram do que foram, nem do que fizeram.
Esta questão está completamente resolvida, levando-se em conta que, se o mal que praticamos estivesse apagado, e se dele não restasse traço algum em nossos corações, sua lembrança seria inútil, uma vez que com eles não mais temos de nos preocupar.
Quanto àquilo de que não nos corrigimos completamente, nós o conhecemos por nossas tendências atuais; é para estas que devemos concentrar toda a nossa atenção. Basta saber o que somos, sem que seja necessário saber o que fomos.
Durante a vida, quando se considera a dificuldade da reabilitação do mais arrependido dos culpados, da reprovação de que é objeto, deve-se agradecer a Deus por ter lançado um véu sobre o passado. Se Latour tivesse sido condenado em tempo hábil, e mesmo se tivesse sido absolvido, seus antecedentes levariam a sociedade a rejeitá-lo. A despeito do seu arrependimento quem o teria admitido na intimidade? Os sentimentos que hoje manifesta como Espírito nos fazem esperar que, na próxima existência terrena, será um homem de bem, estimado e considerado. Mas suponde que se saiba quem foi Latour: a reprovação ainda o perseguirá. O véu lançado sobre o passado abre-lhe a porta da reabilitação; poderá sentar-se sem temor e sem desonra entre as mais distintas pessoas. Quantos não gostariam, fosse qual fosse o preço, de apagar da memória dos homens certos anos de sua existência!
Que se encontre, então, uma doutrina que melhor se concilie com a justiça e a bondade de Deus! Aliás, esta doutrina não é uma teoria, mas um resultado da observação. Não foram os espíritas que a imaginaram; eles viram e observaram as diversas situações em que se apresentam os Espíritos; procuraram a sua explicação, da qual saiu a doutrina. Se a aceitaram é porque ela resulta dos fatos e lhes pareceu mais racional que todas as concebidas até hoje sobre o futuro da alma.
Latour foi evocado muitas vezes, o que era muito natural. Mas, como sucede em casos semelhantes, houve muitas comunicações apócrifas, e os Espíritos levianos não perderam essa ocasião. A própria situação de Latour se opunha a que se pudesse manifestar quase simultaneamente em tantos pontos ao mesmo tempo. Tal ubiquidade só é privilégio dos Espíritos superiores.
As comunicações que referimos são mais autênticas?
Pensamos que sim e o desejamos, sobretudo para o bem desse Espírito. Em falta dessas provas materiais, que constatam a identidade de modo absoluto, como muitas vezes são obtidas, pelo menos temos provas morais, que tanto resultam das circunstâncias em que ocorrem as manifestações, quanto da concordância. Sobre as comunicações que conhecemos, oriundas de fontes diversas, pelo menos três quartas partes concordam quanto ao fundo; entre as outras algumas não resistem a um exame, tão evidente é o erro de situação, em flagrante contradição com o que nos ensina a experiência sobre o estado dos Espíritos no mundo espiritual.
Seja como for, não se pode recusar àquelas que citamos um alto ensino moral. O Espírito pode ter sido, deve mesmo ter sido ajudado em suas reflexões e, sobretudo, na escolha das expressões, por Espíritos mais adiantados. Mas, em casos semelhantes, estes últimos só assistem na forma, e não no fundo, e jamais põem o Espírito inferior em contradição consigo mesmo.
Em Latour puderam poetizar a forma do arrependimento, mas não o teriam levado a exprimir o arrependimento contra a sua vontade, porque o Espírito tem o seu livre-arbítrio; nele viam o germe dos bons sentimentos, razão por que o ajudaram a exprimi-los, contribuindo, dessa maneira, para desenvolvê-los, ao mesmo tempo em que para ele atraíram a comiseração.
Há algo de mais comovente, de mais moral, susceptível de impressionar mais vivamente, do que o quadro desse grande criminoso arrependido, a manifestar desespero e remorso? Que, em meio às torturas, perseguido pelo olhar incessante de suas vítimas, eleva o pensamento a Deus para implorar misericórdia? Não está aí um salutar exemplo para os culpados? Tudo é sensato em suas palavras; tudo é natural em sua situação, enquanto a que lhe é atribuída por certas comunicações é ridícula. Compreende-se a natureza de suas angústias; elas são racionais, terríveis, embora simples e sem encenação fantasmagórica. Por que se não teria arrependido? Por que não haveria nele uma corda sensível e vibrante? Está precisamente aí o lado moral de suas comunicações; é a inteligência que tem da situação; são os pesares, as resoluções, os projetos de reparação que são eminentemente instrutivos. Que haveria de extraordinário no fato de ter-se arrependido sinceramente antes de morrer? Que tivesse dito antes o que dissera depois?

Aos olhos da maioria de seus semelhantes, um retorno ao bem antes de sua morte teria passado por uma fraqueza. Sua voz de além-túmulo é a revelação do futuro que os aguarda. Está absolutamente certo quando diz que o seu exemplo é mais adequado a reconduzir os culpados que as perspectiva das chamas do inferno e, mesmo, o patíbulo. Por que, então, não o daria nas prisões? Isto levaria mais de um a refletir, conforme temos vários exemplos. Como, porém, acreditar nas palavras de um morto, quando se crê que, após a morte, tudo está acabado? Contudo, dia virá em que se reconhecerá esta verdade: que os mortos po




[1] Revista Espírita – Novembro/1864 – Allan Kardec
[2] N. do T.: Vide O Céu e o Inferno, 2ª parte, capítulo VI – Jacques Latour (continuação).

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Richard Hodgson[1]




Nasceu em 24 de setembro de 1855, em Melbourne, Austrália. Seu interesse pelas pesquisas psíquicas iniciou-se quando era jovem. Emigrou para a Inglaterra em 1878, onde continuou seus estudos sobre Direito, em Cambridge. Tomou parte ativa na Ghost Society para investigação dos fenômenos psíquicos. Foi membro da Sociedade para Pesquisas Psíquicas de Londres, desde sua fundação, no ano de 1882. Seu treinamento profissional e inclinações fizeram-no especialista na detecção de fraudes.
Foi enviado aos Estados unidos em 1887 para atuar como secretário do ramo americano da Sociedade para Pesquisas Psíquicas, em Boston.
Por intermédio do Professor William James passou a investigar os dons da notável médium americana Leonore Piper (vide biografia publicada neste blog em 01/04/2019), mais conhecida como Sra. Piper. Iniciou-se um longo período de pesquisas e também uma grande amizade com a família Piper e com William James. Os procedimentos cuidadosos e até policiais que tomou para averiguar o trabalho mediúnico dela tornaram-no muito conhecido. Em 1897 publicou um trabalho favorável sobre a mediunidade da Sra. Piper.
Depois de permanecer dez anos nos Estados Unidos retornou à Inglaterra, onde viveu um ano. Na época, tornou-se editor do “Journal” e dos “Proceedings” da Sociedade para Pesquisas Psíquicas. Voltou aos Estados Unidos para continuar suas pesquisas com a Sra. Piper e pretendia publicar outro trabalho, mas não o conseguiu.
Depois de sua repentina morte, ocorrida em Boston em 20 de dezembro de 1905, passou a se manifestar pela mediunidade da Sra. Piper. Suas mensagens foram estudadas por William James e James Hyslop. Na Inglaterra suas mensagens foram analisadas também por Sir Oliver Lodge.
N. Fodor cita uma distinção “Hodgson Fellow” em Pesquisa Psíquica da Universidade de Harvard.
Faleceu em 21 de dezembro de 1905, na cidade de Boston, Massachusetts, Estados Unidos.

sábado, 1 de junho de 2019

OS SÓCIOS INVÍSIVEIS DOS VÍCIOS[1]



Rogério Coelho

(…) Espíritos que perderam o corpo físico e, que abandonam-se à viciação, transformam-se em vampiros, à procura de quem lhes aceite as sugestões infelizes[2].
O mestre lionês perguntou[3] aos Benfeitores Espirituais se o mal não se torna um arrastamento irresistível, quando o homem se acha, de certo modo, mergulhado na atmosfera do vício. Ao que os Espíritos responderam: arrastamento sim; irresistível não!
Realmente nada pode resistir à força de vontade e à motivação para o bem. Quando com vontade firme empreendemos o combate, não há arrastamento que não ceda.
Em que pese a ostensiva influência espiritual, o livre-arbítrio fica sempre preservado. Os Espíritos, portanto, não possuem o irresistível poder de nos induzir ao vício e muito menos de alimentá-lo, a não ser que o permitamos, pois há quem se compraza em comportamentos deletérios. Aqui vige a lei de sintonia. É como dizia o velho axioma popular: assombração sabe pra quem aparece.
De uma maneira eufêmica e elegante, Jesus colocou a mesma linha de pensamento desses axiomas, quando afirmou[4]: Onde está o tesouro, ali se encontra o coração.
Faz-se necessária a ampliação do conceito da palavra vício, vez que não constitui vício tão somente o tabagismo, a alcoofilia, as drogas e quejandos, mas tudo que, de uma forma ou de outra, caracteriza uma compulsão irresistível, como por exemplo: comer mais do que o necessário, um joguinho inocente de baralho etc. Tudo isso pode ter como corolário uma arruinadora viciação de lamentáveis consequências.
Eis a declaração feita por um Espírito viciado em jogo, evocado em uma reunião mediúnica:
Fui um viciado no jogo de cartas. Destruí minha vida por causa disso. Sem o saber, eu era um doente da Alma e jamais atendi aos apelos de meus familiares para parar com o hábito.
Minha iniciação deu-se na infância, vendo meu pai envolvido com esse “entretenimento”. Quando me vi adulto, depois de cuidar de minha vida profissional, dediquei-me totalmente ao baralho.
No princípio, apostava pequenas quantias com os amigos, apenas por brincadeira, mas o que era prazer virou necessidade e as importâncias das apostas cresceram junto com a compulsão de jogar sem parar. Só parava alguns minutos para atender – apressadamente – às necessidades fisiológicas. Acabei perdendo todo o meu patrimônio penosamente amealhado em uma vida inteira de trabalho. Desencarnei deixando minha família em péssima situação financeira.
Aportei no Mundo Espiritual num dos piores estados psíquicos que se possa imaginar.
Depois de ter sido recolhido pelos Benfeitores Amigos, demorei muito em situação de letargia e, mais tarde, eles me ensinaram que o Bem não tem duas faces, e que uma árvore não pode dar frutos bons e maus ao mesmo tempo. Lembrei-me, então, que Jesus já havia dito isso, só que não atinei em aplicar essas palavras em minha vida, como, aliás, nada apliquei do que Ele ensinou ao preço de Sua própria vida.
O jogo é pernicioso ao crescimento das criaturas em toda e qualquer situação.
Quisera ter condições de ajudar aos irmãos, que ainda estão se iniciando nesse caminho traiçoeiro; conscientizá-los dos malefícios causados por essa moléstia tão amplamente acoroçoada pela sociedade.
O jogo escraviza o homem tal qual as drogas, contra as quais combatem com energia. De qualquer natureza ele é sempre um mal, tanto para quem faz uso como para quem o promove. Ninguém pode sequer imaginar o aspecto espiritual da jogatina: verdadeiros vampiros associam-se aos incautos e quanto mais se apaixonam pelo jogo, mais necessidade passam a ter dele, numa estreita e constringente simbiose.

André Luiz desvela[5] para todos nós os cinzentos e embaciados panoramas onde estão alocadas no Mundo Espiritual essas Almas enviscadas no vício. Aprendamos um pouco com o ilustre Benfeitor Espiritual:
(…) Muitos de nossos irmãos, que já se desvencilharam do vaso carnal, se apegam com tamanho desvario às sensações da experiência física, que se cosem àqueles nossos amigos terrestres temporariamente desequilibrados nos desagradáveis costumes por que se deixam influenciar.
(…) Esses nossos companheiros situaram a mente nos apetites mais baixos do mundo, alimentando-se com um tipo de emoções que os localiza na vizinhança da animalidade. Não obstante haverem frequentado santuários religiosos, não se preocuparam em atender aos princípios da fé que abraçaram, acreditando que a existência devia ser para eles o culto de satisfações menos dignas, com a exaltação dos mais astuciosos e dos mais fortes. O chamamento da morte encontrou-os na esfera de impressões delituosas e escuras e, como é da Lei que cada alma receba da vida de conformidade com aquilo que dá[6], não encontram interesse senão nos lugares onde podem nutrir as ilusões que lhes são peculiares, porquanto, na posição em que se veem, temem a verdade e abominam-na procedendo como a coruja que foge à luz.
Chegará o dia em que a própria Natureza lhes esvaziará o cálice (…), utilizando-se de uma infinidade incomensurável de processos de reajuste, no Universo Infinito em que se cumprem os Desígnios do Senhor, chamem-se eles aflição, desencanto, cansaço, tédio, sofrimento, cárcere…

Há dolorosas reencarnações que significam tremenda luta expiatória para as almas necrosadas no vício. Temos, por exemplo, o mongolismo, a hidrocefalia, a paralisia, a cegueira, a epilepsia secundária, o idiotismo, o aleijão de nascença e muitos outros recursos, angustiosos embora, mas necessários, e que podem funcionar em benefício da mente desequilibrada, desde o berço, em plena fase infantil. Na maioria das vezes, semelhantes processos de cura prodigalizam bons resultados pelas provações obrigatórias que oferecem…
No entanto, se as criaturas visivelmente confiadas à devassidão resolverem reconsiderar o próprio caminho, se voltarem à regularidade, através da renovação mental com alicerces no bem, ganhariam tempo, recuperando a si mesmas… Usando a alavanca da vontade, atingimos a realização de verdadeiros milagres; mas, para isso, há que se despender esforço heroico.
(…) Onde há pensamento, há correntes mentais e onde existem correntes mentais existe associação. E toda associação é interdependência e influenciação recíproca. Daí concluímos quanto à necessidade de vida nobre, a fim de atrairmos pensamentos que nos enobreçam. Trabalho digno, bondade, compreensão fraterna, serviço aos semelhantes, respeito à Natureza e oração constituem os meios mais puros de assimilar os princípios superiores da vida, porque damos e recebemos, em Espírito, no plano das ideias, segundo as leis universais que não conseguiremos iludir.
Concluem os Espíritos Superiores[7]:
(…) não tereis verdadeiramente o direito de dizer-vos civilizados, senão quando de vossa sociedade houverdes banido os vícios que a desonram e quando viverdes como irmãos, praticando a caridade cristã. Até então, sereis apenas povos esclarecidos, que hão percorrido a primeira fase da civilização.

Com todos esses fatos, podemos compreender um pouco melhor o que motivou Jesus a dizer[8]:
Se, portanto, a luz que em ti há são trevas, quão grandes serão tais trevas! Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e a Mamon.



Fonte: Mundo Espírita (FEP)




[2] Xavier, Francisco Cândido. “Seara dos médiuns”. Pelo Espírito Emmanuel. 11. ed. Rio de Janeiro: FEB, 1998. cap. Espíritos perturbados.
[3] Kardec, Allan. O livro dos Espíritos. 88ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. pt. 3, cap. 1, q. 645.
[4] Bíblia, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 6, vers. 21.
[5] Xavier, Francisco Cândido. “Nos domínios da mediunidade”. 12ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 1983. cap. 15.
[6] Bíblia, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 16, vers. 27.
[7] Kardec, Allan. O livro dos Espíritos. 88ª ed. Rio de Janeiro: FEB, 2006. pt. 3, cap. VIII, q. 793.
[8] Bíblia, N. T. Mateus. Português. O novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Campinas: Os Gideões Internacionais no Brasil, 1988. cap. 6, vers. 23 e 24.