sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

AS AMARRAÇÕES ESPIRITUAIS ENTRE OS GÊMEOS[1]




Jorge Hessen - jorgehessen@gmail.com

A concepção de um novo filho no seio familiar possibilita o reencontro de espíritos que trazem em comum as boas experiências de vidas anteriores. Reaproximação que começa na programação pré-existencial reencarnatória, esquematizada nas instituições espirituais. Se sucederem filhos gêmeos idênticos, serão situações especiais que despertarão a maior atenção dos pais.
Várias teorias já foram sugeridas para explicar os mecanismos determinantes da gemelaridade idêntica. Fatores ambientais e genéticos foram descritos como predisponentes a essa circunstância obstétrica. Todavia existem causas mais transcendentes. Os gêmeos univitelinos (idênticos) renascem com a semelhança física e suas células são geneticamente iguais. Têm mesma alimentação e os mesmos cuidados. Convivem sob as mesmas influências magnéticas e impressões mentais do meio ambiente. Possuem um cérebro com idênticas possibilidades biológicas e potenciais bioquímicas. Contudo, quase sempre esses gêmeos seguem condutas diferentes.
Frequentemente os gêmeos idênticos são espíritos que têm forte afinidade. Porém, às vezes, não! O mecanismo das múltiplas vidas consegue elucidar as ocasionais diferenças entre dois espíritos física e geneticamente semelhantes, pois os gêmeos univitelinos, conquanto genética e fisiologicamente tenham as mesmas vulnerabilidades e potencialidades orgânicas, são espiritualmente cada qual absolutamente ÚNICOS no Universo. Não se pode explicar apenas pelas influências do meio gestacional, educativo ou fatores genéticos, as diferenças comportamentais que quase sempre eles apresentam.
Do ponto de vista reencarnacionista, identificaremos que os gêmeos univitelinos (ou não) trazem um acervo moral e intelectual dessemelhantes das vivências antecedentes. Cada qual experimentou circunstâncias que registraram em sua organização psicossomática com tendências intelecto-morais categoricamente particulares. Podem ocorrer que tais gêmeos fiquem interligados emocionalmente durante a vida, mesmo que sejam psiquicamente diferentes, ao ponto de captar as oscilações de aflição e desgosto do outro.
Seguramente, as experiências em comum de vidas antecedentes que os mantinham reciprocamente conectados, interrompidas na gestação, comportam a instantânea e fina sintonia mento-magnética entre os dois, motivo pelo qual percebem, eventualmente, as ocorrências difíceis que o outro experimenta. A semelhança de caráter que muitas vezes existe entre dois irmãos, mormente se gêmeos, decorre da simpatia que os aproximam por analogia de sentimentos e os fazem felizes por estarem juntos. Kardec comenta que “Em muitos casos, os irmãos gêmeos são Espíritos simpáticos, que se unem por analogia de sentimentos, porém, nem todos são assim. Pode acontecer o contrário: serem Espíritos inimigos que a justiça divina faz se reencontrarem na formação biológica, no sentido de que se processe o perdão com mais eficiência[2]”.
Com relação aos vínculos espirituais entre os gêmeos, é certo que existem, mas pode ser de afinidade ou de repulsão. Há gêmeos que reencarnam unidos em função de compromissos morais mútuos que refletem a necessidade de reparação dos equívocos do passado, que respingam nos dramas familiares. Não existe o acaso na dinâmica das leis naturais, logo, sempre há um agente causal determinando que tais gêmeos permaneçam próximos. Muitas vezes um traz jovialidade e encanto na convivência, outro traz aversão, discórdia, atritos diversos. Nesse último caso, a vida proporciona oportunidade de reconciliação com os adversários do passado através dos laços consanguíneos.
Do exposto, e por fortes razões devemos aprimorar, sem esmorecimento, as relações diretas e indiretas com os pais, irmãos, tios, primos e demais parentes nas lutas do mundo, a fim de que a vida não venha nos cobrar novas e mais enérgicas experiências nas próximas encarnações. A estrutura familiar tem suas matrizes na esfera espiritual. Em seus vínculos, juntam-se todos aqueles que se comprometeram no além a desenvolver na Terra uma tarefa construtiva de fraternidade real e definitiva.
Prevalecem portanto na família os elos do amor, fundidos nas experiências de outras eras. Todavia, como se observa atualmente, no clã familiar afluem igualmente os ódios e as perseguições do pretérito obscuro, que devem ser transformados em vínculos solidários e fraternos, com vistas ao futuro de paz e amor.


Fonte: A Luz na Mente




[2] KARDEC, O Livro dos Espíritos, questão 211, RJ: Ed. FEB,1999

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

NASCENDO A RAZÃO, O INSTINTO SE ATROFIA?[1]


Diferenças da razão, emoção e instinto, representadas pelo corpo humano

Miramez


É exato dizer-se que as faculdades instintivas diminuem à medida que aumentam as faculdades intelectuais?
‒ Não; o instinto existe sempre, mas o homem o negligencia. O instinto pode também conduzir ao bem; ele nos guia quase sempre e, algumas vezes, com mais segurança que a razão. Ele não se transvia nunca.
Por que a razão não é sempre um guia infalível?
‒ Ela seria infalível se não fosse falseada pela má educação, pelo orgulho e egoísmo. O instinto não raciocina; a razão permite a escolha e dá ao homem o livre-arbítrio.
Questão 75/Livro dos Espíritos

O alicerce de uma obra aparentemente desaparece quando o prédio está pronto; no entanto, passa a existir com muito mais segurança do que antes, pela sua solidez no seio da terra. O instinto não atrofia ao surgir a razão. Ele perde o comando mais visível, como existe no animal, entretanto, ajuda a inteligência nas suas difíceis soluções, no silêncio da própria vida, inerente ao seu estado.
O nada se perde atinge igualmente os dons da alma. Os talentos se intercruzam em uma fraternidade perfeita, uns ajudando os outros, e todos formando um conjunto, de sorte a trazer ao mundo da consciência a harmonia divina. Compete a cada Espírito compreender a ordem e trabalhar para que ela se estabeleça, com todas as suas diretrizes de amor no centro da consciência e esta redistribuir as bênçãos de felicidade a todo o mundo interno.
O instinto é a base da conscientização de todo o saber; é como que um livro invisível, porém real, onde estão escritas todas as leis reguladas pelo tempo. A razão é esse mesmo instinto na feição de maturidade; é o alicerce da inteligência, que se apoia neste princípio divino, ordenado e estabelecido por Deus, como sol da vida.
Podemos comparar o instinto aos pés dos homens e a inteligência ao exército da razão. Apesar dos meios de transportes sofisticados da época, eles sempre precisam dos pés para tudo o que fazem. Mesmo que se lembrem pouco deles, eles são a base da locomoção dos encarnados. A Doutrina dos Espíritos, no seu conjunto doutrinário, nos oferece muitos meios e métodos agradáveis, para exercitarmos todos os nossos dons, de maneira a que eles possam crescer ampliando seus valores. Uma escada, mesmo usada por muitas criaturas, deve conservar os primeiros degraus, sem os quais não poderá ser usada, além de que são eles que garantem a segurança dos outros. O instinto, o raciocínio e a intuição constituem uma escada evolutiva, são estágios variados do mesmo dom da vida que, juntos, garantem a estabilidade e nos proporcionam meios mais sólidos para vivermos em paz. Nada se acaba na vida; tudo se funde e refunde em busca da perfeição.
O homem não pode desprezar o instinto porque possui a inteligência, nem o super-homem pode abandonar a inteligência, por ter conquistado a intuição. Todos os valores são úteis na engrenagem evolutiva de todos os seres. Entrementes, deve-se saber usá-los na hora certa, como no momento exato servir-se do raciocínio. O conhecimento é a base do equilíbrio e a compreensão, o estímulo de todas as forças do bem que, somadas, esplendem-se no amor. O instinto nunca se transvia, por ser programação da Divindade, no centro das vidas menores, e a razão obedece ao livre arbítrio da criatura, que necessita de experiências para que sua disciplina se alie ao bom senso.
De fato, o instinto é uma inteligência rudimentar, mas, que guarda no seu seio celeiros imortais que, desenvolvidos, ultrapassam as belezas da própria inteligência e mesmo da intuição, pelo fato de que o despertamento da alma é infinito, na extensão grandiosa do crescimento sem limites, do espírito.




[1] Filosofia Espírita – Volume 2 – João Nunes Maia

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

A questão sobre o magnetismo animal e o nome "magnetismo" I[1]



Ademir Xavier

A maior parte das pessoas frequentemente emprega as mesmas palavras para designar coisas diferentes. As pessoas têm mais intuição do fenômeno da polissemia do que uma compreensão racional imediata dele. Tomemos como exemplo a palavra "amor". Pode-se compor um dicionário inteiro com diferentes significados dessa palavra, claramente polissêmica. E esse fenômeno ocorre em muitos outros idiomas. Porém, no caso de "amor", não parece existir divergências quanto ao seu uso, já que o significado é dado pelo contexto em que a palavra é empregada. O que "amor" realmente significa é tão fácil de ser apreendido pelo contexto que mais informações são desnecessárias.
Coisa bem diferente ocorre quando a palavra é pouco usada ou está inserida em um contexto pouco usual (por exemplo, científico). Podem então surgir confusões consideráveis. Isso é o que acontece com o significado do termo "magnetismo", principalmente se usado sem cuidado ou na mistura entre Espiritismo e outros assuntos. Alguns comentários elucidativos são abordados neste post.

Origens da palavra
Frequentemente, a multiplicidade de significados está ligada à origem das palavras. No caso de "magnetismo", é importante conhecer sua origem. Segundo a monumental obra de Wittaker (1),
Os antigos estavam cientes das propriedades curiosas de dois minerais, o âmbar (ηλεκτρον) e o minério de ferro (η λιτθος Μαγητισ). O primeiro, quando atritado, atraia corpos leves; o último tinha o poder de atrair o ferro.

A referência (1) também cita o conhecimento chinês muito antigo da propriedade de atração dos magnetos. Em (2) encontramos indicações sobre a origem da palavra propriamente dita:
Na Grécia, Aristóteles reportou que Tales de Mileto (625 a.C. - 547 a.C.) conhecia a pedra-ímã, e Onomácrito nos forneceu o mais antigo nome que se refere a ele, o magnetes que evoluiu para magnitis, de onde se deriva o termo moderno magnetita. Sófocles (495 a.C. - 406 a. C.) chama a pedra-ímã de "rocha Lidiana", enquanto que Platão (427 a.C.- 347 a.C.) no "Timeu" a denomina "rocha Heraclitiana". Esses vários nomes sugerem que, na antiguidade Greco-Romana, os primeiros magnetos eram feitos de minérios encontrados em Sípilo, próximo a uma cidade da Ásia menor chamada "Magnesia ad Sipylum". Essa cidade é a origem da palavra "magnetismo" e "magnetita". (grifo meu)

Outra referência à "Magnesia de Sípilo" (atual Manisa na Turquia) pode ser encontrada em (3). Essa mesma fonte diz que o próprio nome Magnesia "deriva da tribo dos magnetes, que imigraram para a região vindos de Magnésia, na Tessália". Para complicar ainda mais, existe uma outra Magnésia próxima a Manisa, chamada "Magnesita de Meandro" (3).
De qualquer forma, o significado físico de magnetismo é anterior ao que foi dado no Século XIX para o magnetismo animal, o que, portanto, difere daquele que aparece citado em várias obras de Kardec (6). Ainda segundo (1), William Guilbert (1540-1603):
...fez a descoberta capital sobre a razão porque magnetos se orientam de forma definida com respeito à Terra; que é, do fato de a Terra ser ela mesma um grande magneto, tendo um dos polos nas latitudes mais ao norte e outro nas mais ao sul. Assim foi a propriedade da bússola descrita pelo mesmo princípio, de que o polo que busca o norte de todo magneto é atraído pelo polo que busca o sul de outro magneto, e é repelido pelo que busca o norte deste último. Gilbert foi além e conjecturou que as forças magnéticas seriam capazes de explicar a gravidade da Terra e o movimento dos planetas.

Modernamente, magnetismo é descrito como:
Uma classe de fenômenos físicos que são mediados por campos magnéticos (4);
Fenômeno associado a campos magnéticos que surge do movimento de cargas elétricas. Esse movimento ocorre de várias formas. Pode ser uma corrente elétrica em um condutor ou uma partícula carregada movendo-se no espaço, ou o movimento de um elétron em um orbital atômico. O magnetismo está associado a partículas elementares tais como o elétron que tem uma propriedade chamada spin. (5)

Entra o conceito de "ação a distância"
A ação do magneto fornece uma imagem viva da atuação do que parece ser uma força invisível, que atua a distância. Se hoje nos maravilhamos com esse fenômeno, não menos assombrados ficaram os antigos. De acordo com (1):
Agora, um dos problemas da filosofia natural era resolver o problema da ação transmitida entre corpos que não estavam em contato um com o outro, tal como aqueles indicados pela ação dos magnetos ou pela conexão entre a posição da lua de um lado e o fluxo das marés de outro.

Para os antigos gregos, não poderia haver força se não fosse por ação da pressão ou do contato. Logo, deveria haver a intervenção de um meio que causasse o fenômeno. Essa ideia foi incorporada na física de Descartes, que surgiu quase que ao mesmo tempo de Newton e que defendia a existência de uma substância sutil a permear todo o espaço. Essa substância seria responsável pela força de atração e repulsão nos fenômenos do magnetismo (físico), eletricidade e gravitação (1):
Descartes tentou explicar os fenômenos magnéticos por sua teoria dos vórtices. Adotando a sugestão de Gilbert, ele postulou um vórtex de matéria fluídica ao redor de cada magneto, a matéria do vórtex entrava em um polo e saia pelo outro: assumia-se que essa matéria atuava sobre o ferro e o aço em virtude de uma resistência especial ao seu movimento garantida pelas moléculas dessas substâncias.

Identificamos nos vórtices de Descartes a ideia antiga de um fluido a impregnar todo o espaço, o famoso éter, que foi usado para explicar a ação a distância e a propagação da luz. Entretanto, a teoria dos vórtices de Descartes foi abandonada diante do triunfo de Newton e seus seguidores com a teoria da gravitação, que dispensava qualquer mecanismo tangível responsável por sua força. A teoria de Newton era eminentemente pragmática, sua proposta representou acima de tudo um rompimento com a filosofia e sua busca por causa mais profundas dos fenômenos. Para os adeptos de Newton, isso não era necessário porque a teoria já permitia medir e calcular tudo o que fosse de fato possível saber sobre o fenômeno (7):
Não fui capaz de descobrir a razão para essas propriedades da gravidade a partir dos fenômenos e não faço hipóteses. Pois, o que quer que não seja dedutível dos fenômenos precisa ser chamado de hipótese; e hipóteses, sejam elas metafísicas ou físicas, baseadas em qualidades ocultas ou mecânicas, não tem lugar na filosofia experimental. Nessa filosofia, proposições particulares são inferidas a partir dos fenômenos e, depois, generalizadas por meio da indução.

A cisão introduzida por Newton perdura até hoje. A maior parte das teorias da Física, entretanto, substituiu esse agente sutil por outros responsáveis pela força.

Ação de um fluido
Ainda que a física Newtoniana tivesse dispensado o uso de uma substância intermediária responsável pela força de ação a distância, seu uso como agente explanativo continuou a ser feito por cientistas por boa parte dos Séculos XVIII e XIX. Isso pode ser lido na diversas referências históricas nos desenvolvimentos das teorias da eletricidade (1):
Um interesse em experimentos elétricos parece ter sido passado por du Fay para outros membros da corte de Luís XV; e, de 1745 em diante, as Memórias da Academia contêm uma série de trabalhos sobre esse tema de autoria de Abbé Jean-Antoine Nollet (1700-1770), que foi nomeado preceptor em Filosofia Natural da família real. Nollet explicou os fenômenos elétricos como devidos ao movimento de duas correntes de fluido 'muito sutis e inflamáveis' em direções opostas, que ele supunha estarem impregnados em todos os corpos em iguais circunstâncias. Quando um corpo do tipo 'elétrico' é excitado por fricção, parte desse fluido escapa de seus poros formando uma corrente efluente. Sua perda é contrabalançada por uma corrente afluente desse mesmo fluido que entra no corpo do outro lado.

...
A ideia de dois tipos de fluidos elétricos, um 'positivo' e outro 'negativo' deu origem mais tarde à noção de 'corrente elétrica' em experimentos de eletricidade dinâmica. Ela foi usado de forma fértil por grande parte dos "eletricistas" como uma heurística orientadora de experimentos e pesquisas. E, a partir das explicações criadas para a eletricidade estática, algo parecido foi aventado para o magnetismo (1):
A promulgação da teoria do fluido elétrico único na eletricidade, em meados do Século XVIII, naturalmente resultou em tentativas semelhantes com o magnetismo; o que foi efetivado em 1759 por Aepinus, que supôs serem os 'polos' dos imãs lugares impregnados de fluido magnético em quantidade excedente ou em falta em relação às condições normais.

A teoria do fluido magnético foi adotada pelo ilustre físico eletricista francês Charles A. de Coulomb (1736-1806), cujo sobrenome deu origem à unidade de carga elétrica. Para ele, o magnetismo se devia a decomposição de um fluido neutro em dois fluidos magnéticos (1). Na física, o uso de teorias envolvendo tipos diferentes de fluidos magnéticos foi abandonado por volta de 1850, com a descoberta de outros tipos de magnetismo, como o paramagnetismo e o diamagnetismo. Isso deu origem à teorias moleculares para explicar o magnetismo e a necessidade de se ter um fluido magnético foi descartada nas mesmas bases da teoria de Newton.
Corpos celestes que sofrem ação invisível de objetos distantes e que compõem a imagem do Universo em grande escala. Objetos ferrosos que são atraídos por algumas pedras especiais, sob quaisquer condições e mesmo embaixo d'água. Fluidos imponderáveis e invisíveis, supostamente trocados entre outros tipos de objetos após fricção no ar seco. Eletricidade vítrea e ambárica causadas pela emissão de eflúvios sutis. Esse era o "ambiente teórico" da física no final do Século XVIII e que serviu de palco para o surgimento do magnetismo animal, conforme veremos no próximo post.

Referências
(1) Whittaker E (1951). A History of the Theories of Aether and Electricity. "The Classical Theories",vol. 1, London: Thomas Nelson and Sons Ltd.
(2) du Trémolet de Lacheisserie E, Gignoux D & M. Schlenker (2002). Magnetism I, Fundamentals. Dordrecht, NE: Kluwer Academic Publishers Group.
(5) Enciclopédia Britânica: https://global.britannica.com/science/magnetism
(6) "O Livro dos Espíritos", IV Parte: Das Esperanças e Consolações, "Conclusão". Versão www.ipeak.com.br
(7) Isaac Newton (1726). Philosophiae Naturalis Principia Mathematica, General Scholium. Third edition, page 943 of I. Bernard Cohen and Anne Whitman's 1999 translation, University of California Press ISBN 0-520-08817-4, 974 pages.



[1] https://eradoespirito.blogspot.com/2016/09/a-questao-sobre-o-magnetismo-animal-e-o.html

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

ESTUDOS SOBRE A REENCARNAÇÃO[1]


(Sociedade Espírita de Paris – Médium: Srta. A. C.)



I - Limites da reencarnação
A reencarnação é necessária enquanto a matéria domina o Espírito. Mas, desde que o Espírito encarnado chegou a dominar a matéria e a anular os efeitos de sua reação sobre o moral, a reencarnação não tem mais nenhuma utilidade nem razão de ser.
Com efeito, o corpo é necessário ao Espírito para o trabalho progressivo até que, tendo chegado a manejar este instrumento à vontade, a lhe imprimir sua vontade, o trabalho esteja realizado.
Então lhe é necessário outro campo para a sua marcha, ao seu adiantamento para o infinito; é-lhe necessário um outro círculo de estudos, onde a matéria grosseira das esferas inferiores seja desconhecida. Tendo se depurado e experimentado suas sensações, na Terra ou em globos análogos, está maduro para a vida espiritual e seus estudos. Havendo-se elevado acima de todas as sensações corporais, não mais tem nenhum desses desejos ou necessidades inerentes à corporeidade: é Espírito e vive pelas sensações espirituais, que são infinitamente mais deliciosas do que as mais agradáveis sensações corporais.

II - A reencarnação e as aspirações do homem
As aspirações da alma conduzem à sua realização, e esta realização se cumpre na reencarnação, enquanto o Espírito está no trabalho material. Explico-me. Tomemos o Espírito em seus primórdios na carreira humana: estúpido e bruto, sente, contudo, a chama divina em si, pois que adora um Deus, que materializa consoante a sua materialidade. Nesse ser, ainda vizinho do animal, há uma aspiração instintiva, quase inconsciente, para um estado menos inferior. Começa por desejar satisfazer seus apetites materiais e inveja os que vê num estado melhor que o seu; assim, numa encarnação seguinte, ele mesmo escolhe, ou, antes, é arrastado a um corpo mais aperfeiçoado; e sempre, em cada uma de suas existências, deseja um melhoramento material; jamais se sentindo satisfeito, quer subir sempre, porque a aspiração à felicidade é a grande alavanca do progresso.
À medida que as sensações corporais se tornam maiores, mais aperfeiçoadas, suas sensações espirituais também despertam e crescem. Então começa o trabalho moral e a depuração da alma se une à aspiração do corpo para chegar ao estado superior.
Esse estado de igualdade de aspirações materiais e espirituais não é de longa duração; logo o Espírito se eleva acima da matéria e suas sensações não mais podem ser satisfeitas por ela; necessita mais; precisa de melhor; mas aí, tendo sido o corpo levado à perfeição sensitiva, não pode acompanhar o Espírito que, então, o domina e dele se desprende cada vez mais, como de um instrumento inútil; direciona todos os seus desejos, todas as suas aspirações para um estado superior; sente que as necessidades corporais que lhe eram um motivo de felicidade em suas satisfações, não são mais que um estorvo, um aviltamento, uma triste necessidade, da qual aspira libertar-se para gozar, sem entraves, de todas as venturas espirituais que pressente.

III - Ação dos fluidos na reencarnação
Sendo os fluidos os agentes que movimentam o nosso aparelho corporal, também são eles os elementos de nossas aspirações, pois há fluidos corporais e fluidos espirituais, tendendo todos a elevar-se e a unir-se a fluidos da mesma natureza. Esses fluidos compõem o corpo espiritual do Espírito que, na condição de encarnado, age por meio deles sobre a máquina humana que lhe compete aperfeiçoar, pois tudo é trabalho na Criação, tudo concorre para o progresso geral.
O Espírito tem livre-arbítrio, e sempre busca o que lhe é agradável e o satisfaz. Se for um Espírito inferior e material, procura suas satisfações na materialidade e, então, dará impulso aos seus fluidos corporais, que dominarão, mas tenderão sempre a crescer e elevar-se materialmente. Assim, as aspirações desses encarnados serão materiais e, voltando à condição de Espírito, buscará nova encarnação, em que satisfará suas necessidades e desejos materiais; porque, notai bem, a aspiração corporal não pode pedir, como realização, senão uma nova corporeidade, ao passo que a aspiração espiritual não se prende senão às sensações do Espírito.
A isto será solicitado por seus fluidos, que deixou que se materializassem; e como no ato da reencarnação os fluidos agem para atrair o Espírito no corpo que foi formado, havendo, portanto, atração e união dos fluidos, a reencarnação se opera em condições que darão satisfação às aspirações de sua existência precedente.
Há fluidos espirituais como fluidos materiais, se estes dominarem; mas, então quando o espiritual sobreleva o material, o Espírito, que julga de modo diferente, escolhe ou é atraído por simpatias diferentes; como necessita de depuração e a esta só chega pelo trabalho, as encarnações escolhidas lhe são mais penosas porque, depois de haver dado supremacia à matéria e a seus fluidos, deve constrangê-la, lutar contra ela e dominá-la. Daí essas existências tão dolorosas e que, muitas vezes, parecem injustamente infligidas a Espíritos bons e inteligentes. Estes fazem sua última etapa corporal e entram, ao sair deste mundo, nas esferas superiores, onde suas aspirações superiores encontrarão a sua realização.

IV - As afeições terrenas e a reencarnação
O dogma da reencarnação indefinida encontra oposições no coração do encarnado que ama, porquanto, em presença dessa infinidade de existências, produzindo novos laços em cada uma delas, ele pergunta com assombro em que se tornam as afeições particulares, e se estas não se fundem num único amor geral, o que destruiria a persistência da afeição individual. Ele se pergunta se esta afeição individual não é apenas um meio de adiantamento e então o desânimo se insinua em sua alma, porque a verdadeira afeição experimenta a necessidade de um amor eterno, sentindo que ela não se cansará jamais de amar. O pensamento desses milhares de afeições idênticas lhe parece uma impossibilidade, mesmo admitindo faculdades maiores para o amor.
O encarnado que estuda seriamente o Espiritismo, sem ideia preconcebida para um sistema, de preferência a outro, sente-se arrastado à reencarnação pela justiça que resulta do progresso e do avanço do Espírito em cada nova existência; mas quando o estuda do ponto de vista das afeições do coração, duvida e se assusta, mal grado seu. Não podendo pôr de acordo esses dois sentimentos, diz a si mesmo que aí ainda há um véu a levantar e seu pensamento em trabalho atrai as luzes dos Espíritos para conciliar o coração com a razão.
Já o disse antes: a encarnação pára onde a materialidade é anulada. Mostrei como o progresso material a princípio havia aperfeiçoado as sensações corporais do Espírito encarnado; como o progresso espiritual, vindo a seguir, tinha contrabalançado a influência da matéria, subordinando-a enfim à sua vontade e que, chegado a esse grau de domínio espiritual, a corporeidade perdera sua razão de ser, pois o trabalho estava realizado.
Examinemos agora a questão da afeição sob os seus dois aspectos, material e espiritual.
Antes de tudo, o que é a afeição, o amor? Ainda a atração fluídica, atraindo um ser para outro, unindo-os num mesmo sentimento. Essa atração pode ser de duas naturezas diferentes, já que os fluidos são de duas naturezas. Mas para que a afeição persista eternamente, é preciso que seja espiritual e desinteressada; são precisos abnegação, devotamento e que nenhum sentimento pessoal seja o móvel deste arrastamento simpático. Desde que nesse sentimento haja personalidade, há materialidade. Ora, nenhuma afeição material persiste nos domínios do Espírito. Desse modo, toda afeição que não resulta senão do instinto animal ou do egoísmo, se destrói com a morte terrestre; é assim que seres que se dizem amados são esquecidos após pouco tempo de separação!
Vós os amastes por vós, e não por eles, que não existem mais, pois os esquecestes e os substituístes; procurastes consolo no esquecimento; eles se vos tornam indiferentes, porque não tendes mais amor.
Contemplai a Humanidade e vede quão poucas são as afeições verdadeiras na Terra! Assim, não se devem admirar tanto da multiplicidade das afeições aí contraídas. São em minoria relativa, mas existem, e as que são reais persistem e se perpetuam sob todas as formas, primeiro na Terra, depois continuam no estado de Espírito, numa amizade ou num amor inalterável, que só faz crescer e se elevar cada vez mais.
Vamos estudar esta verdadeira afeição: a afeição espiritual.
A afeição espiritual tem por base a afinidade fluídica espiritual que, atuando só, determina a simpatia. Quando é assim, é a alma que ama a alma e essa afeição só toma força pela manifestação dos sentimentos da alma. Dois Espíritos unidos espiritualmente se buscam e tendem sempre a aproximar-se; seus fluidos são atrativos. Se estiverem num mesmo globo, serão impelidos um para o outro; se separados pela morte terrena, seus pensamentos se unirão na lembrança e a reunião far-se-á na liberdade do sono; e quando a hora de uma nova encarnação soar para um deles, procurará aproximar-se de seu amigo, entrando no que é a sua filiação material, e o fará com tanto mais facilidade quanto seus fluidos perispirituais materiais encontrarão afinidades na matéria corporal dos encarnados que deram à luz o novo ser. Daí um novo aumento de afeição, uma nova manifestação de amor. Tal Espírito amigo que vos amou como pai, vos amará como filho, como irmão ou como amigo, e cada um desses laços aumentará de encarnação em encarnação e se perpetuará de maneira inalterável quando, realizado o vosso trabalho, viverdes a vida do Espírito.
Mas esta verdadeira afeição não é comum na Terra e a matéria a vem retardar, anular-lhe os efeitos, conforme domine o Espírito. A verdadeira amizade, o verdadeiro amor, sendo espiritual, tudo que se refere à matéria não é de sua natureza e em nada concorre para a identificação material. A afinidade persiste, mas fica em estado latente até que, triunfando o fluido espiritual, o progresso simpático se efetue novamente.
Em síntese, a afeição espiritual é a única resistente no domínio do Espírito. Na Terra e nas esferas do trabalho corporal, concorre para o avanço moral do Espírito encarnado que, sob a influência simpática, realiza milagres de abnegação e de devotamento aos seres amados. Aqui, nas moradas celestes, ela é a completa satisfação de todas as aspirações e a maior felicidade que o Espírito possa desfrutar.

V - O progresso entravado pela reencarnação indefinida
Até aqui a reencarnação tem sido admitida de maneira muito prolongada; não se pensou que esse prolongamento da corporeidade, embora cada vez menos material, acarretava necessidades que deviam atrasar o progresso do Espírito. Com efeito, admitindo a persistência da geração nos mundos superiores, se atribuem ao Espírito encarnado necessidades corporais, dão-lhe deveres e ocupações ainda materiais, que o sujeitam e detêm o impulso dos estudos espirituais. Qual a necessidade desses entraves?
Não pode o Espírito gozar das alegrias do amor sem sofrer as enfermidades corporais? Mesmo na Terra, esse sentimento existe por si mesmo, independente da parte material do nosso ser; por mais raros que sejam, há exemplos suficientes para provar que deve ser sentido, de modo mais geral, entre os seres mais espiritualizados.
A reencarnação proporciona a união dos corpos; o amor puro, apenas a união das almas. Os Espíritos se unem segundo afeições iniciadas em mundos inferiores, e trabalham juntos por seu progresso espiritual. Têm uma organização fluídica totalmente diferente da que era consequência de seu aparelho corporal, e seus trabalhos se exercem sobre os fluidos, e não sobre os objetos materiais. Vão a esferas que, também, realizaram seu período material e cujo trabalho humano ensejou a desmaterialização, esferas que, chegadas ao apogeu de seu aperfeiçoamento, também passaram por uma transformação superior que as torna apropriadas a experimentar outras modificações, mas num sentido inteiramente fluídico.
Agora compreendeis a imensa força do fluido, força que mal podeis constatar, mas que não vedes nem apalpais. Num estado menos pesado ao em que estais, tereis outros meios de ver, tocar, trabalhar esse fluido, que é o grande agente da vida universal. Por que, então, o Espírito ainda teria necessidade de um corpo para um trabalho que está fora das apreciações corporais? Dir-me-eis que esse corpo estará em relação com os novos trabalhos que o Espírito deverá realizar; mas, levando-se em conta que esses trabalhos serão completamente fluídicos e espirituais nas esferas superiores, por que lhe dar o embaraço das necessidades corporais, uma vez que a reencarnação determina sempre, como já disse, geração e alimentação, isto é, necessidades da matéria a satisfazer e, em contrapartida, entraves para o Espírito? Compreendei que o Espírito deve ser livre em seu voo para o infinito; compreendei que, tendo saído das fraldas da matéria, aspira, como a criança, a marchar e a correr sem ser detido pelo zelo materno, e que essas primeiras necessidades da primeira educação da criança são supérfluas para a criança crescida, e insuportáveis para o adolescente. Não desejeis, pois, ficar na infância; olhai-vos como alunos que fazem os últimos estudos escolares e se dispõem a entrar no mundo, a nele ter a sua posição e a começar trabalhos de outro gênero, que seus estudos preliminares terão facilitado.
O Espiritismo é a alavanca que, de um salto, erguerá ao estado espiritual todo encarnado que, querendo bem compreendê-lo e o pôr em prática, se empenhará em dominar a matéria, a tornar-se seu senhor, a aniquilá-la; todo Espírito de boa vontade pode pôr-se em condição de passar, ao deixar este mundo, para um estado espiritual sem retorno terrestre. Falta-lhe apenas fé ou vontade ativa. O Espiritismo a oferece a todos os que o quiserem compreender em seu sentido moralizador.
Um Espírito protetor do médium

Observação – Esta comunicação não traz outra assinatura, o que prova que não é necessário ter tido um nome célebre na Terra para ditar boas coisas.

É de notar-se a analogia existente entre a comunicação de Sens [vide Necessidade da Encarnação – Dissertações Espíritas, publicada em 29/01/2019, neste blog], transcrita mais acima, e a primeira parte desta. Sem dúvida esta última é mais desenvolvida, mas a ideia fundamental sobre a necessidade da encarnação é a mesma. Citamos ambas para mostrar que os grandes princípios da doutrina são ensinados em toda parte e que é assim que se constituirá e se consolidará a unidade do Espiritismo. Essa concordância é o melhor critério da verdade.
Ora, não passa despercebido que as teorias excêntricas e sistemáticas, ditadas por Espíritos pseudosábios são sempre circunscritas a um círculo estreito e individual, razão por que nenhuma prevaleceu, e também porque não são de temer, pois só têm uma existência efêmera, que se apaga como uma fraca luz ante a claridade do dia.
Quanto à última comunicação, seria supérfluo ressaltar seu alto alcance, como fundo e como forma. Pode resumir-se assim:
A vida do Espírito, considerada do ponto de vista do progresso, apresenta três períodos principais, a saber:
1o – Período material, no qual a influência da matéria domina a do Espírito. É o estado dos homens que se entregam às paixões brutais e carnais, à sensualidade; cujas aspirações são exclusivamente terrestres, ligados aos bens temporais, ou refratários às ideias espirituais;
2o – Período de equilíbrio, no qual as influências da matéria e do Espírito se exercem simultaneamente; em que o homem, embora submetido às necessidades materiais, pressente e compreende o estado espiritual; em que trabalha para sair do estado corporal.
Nesses dois períodos o Espírito está sujeito à reencarnação, que se realiza nos mundos inferiores e médios.
3o – Período espiritual, no qual tendo o Espírito dominado completamente a matéria, não mais necessita da encarnação, nem do trabalho material, pois seu trabalho é inteiramente espiritual; é o estado dos Espíritos nos mundos superiores.

A facilidade com que certas pessoas aceitam as ideias espíritas, das quais, parece, têm a intuição, indica que pertencem ao segundo período; mas entre este e os outros há uma multidão de graus que o Espírito transpõe tanto mais rapidamente quanto mais próximo do período espiritual. É assim que, de um mundo material como a Terra, pode ir habitar um mundo superior, como Júpiter, por exemplo, se seu avanço moral e espiritual for suficiente para o dispensar de passar pelos graus intermediários. Depende, pois, do homem deixar a Terra sem retorno, como mundo de expiação e prova para ele, ou a ela não voltar senão em missão.



[1] Revista Espírita – Fevereiro/1864 – Allan Kardec

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

José Martins Peralva Sobrinho[1]



“Estudando a mediunidade”, “Estudando o Evangelho”, “O pensamento de Emmanuel”, “Mediunidade e Evolução”, publicados pela Federação Espírita Brasileira e “Mensageiros do Bem”, pela União Espírita Mineira, são obras de autoria de José Martins Peralva Sobrinho e figuram na bibliografia de livros espíritas mais conhecidos e estudados.
O autor tornou-se um dos nomes de expressão nas lides espíritas mineiras, embora fosse ele originário da cidade de Buquim, no sul de Sergipe.
Martins Peralva, como muitos o chamavam, nasceu em 1 de abril de 1918, filho do casal Basílio Martins Peralva e Etelvina da Fonseca Peralva, e foi no próprio lar que se deram os seus primeiros contatos com a Doutrina codificada por Allan Kardec.
Desde os 6 anos de idade, acompanhava o pai, um espanhol que veio ainda garoto para o Brasil, nas atividades espíritas, inclusive nas de cura, uma vez que o senhor Basílio era médium curador e graças a essa faculdade pôde ajudar no restabelecimento da saúde de muitos.
A morte do pai levou-o a assumir, de forma prematura, responsabilidades de adulto. Quando conseguiu o seu primeiro emprego, como balconista de padaria, tinha apenas 13 anos e era o mais novo da família.
Foi assim, que, juntamente com o irmão mais velho, Edison, de 15 anos, que também conseguiu se empregar, passou a colaborar na manutenção do lar, sobre cujo teto humilde viviam além deles, sua mãe Etelvina, a Dona Teté, e a irmã Eurídice.
Martins Peralva trocou a padaria pelas papeladas de um cartório, onde foi trabalhar como office-boy. Depois conseguiu uma vaga como apontador de construção do Grupo Escolar Senador Leandro Massiel, na cidade do Rosário do Catete, tendo, em função de suas obrigações, que passar a semana (de segunda à sexta) afastado da mãe e dos irmãos, mas ficando sob o teto da família do encarregado da obra.
Outra oportunidade lhe surgiu, novamente como apontador, só que desta vez na conservação de estradas de rodagens, ficando responsável pelo trecho Aracaju ‒ Socorro ‒ São Cristóvão. Por conta disso, tinha que percorrer diariamente de caminhão, cerca de 80 quilômetros (ida e volta), saindo de casa de madrugada e só voltando à noitinha.
Terminada a estrada, o apontador Martins Peralva ingressou na construção do prédio do Tesouro do Estado de Sergipe, trabalhando depois como fiscal de construções, reformas e limpezas de casas.
Aprovado num concurso deixou o campo de obras e foi para a Prefeitura Municipal de Aracaju, onde ocupou o cargo de escriturário, depois, de oficial administrativo e assistente da Procuradoria da Fazenda Municipal.
Casou-se em agosto de 1942 com Jupira Silveira, sua grande companheira, que viria a desencarnar em 15 de julho de 2003. E com ela teve três filhos: Ieda, nascida em Aracaju; e Basílio e Alcione, nascidos em Belo Horizonte, os quais lhe deram cinco netos e quatro bisnetos.
Devido à competência e à amizade que granjeou no ambiente de trabalho, foi nomeado secretário particular dos prefeitos Carlos Firpo e José Garcez, e até a sua aposentadoria, em função de problemas pulmonares, continuou servindo os prefeitos seguintes na condição de oficial de gabinete.
Como espírita, sua trajetória não foi menos profícua. Presidiu a União Espírita Sergipana, foi membro do Conselho Geral e secretário do Abrigo Jesus, sócio efetivo do Hospital Espírita André Luiz e segundo secretário do Centro Espírita Luz, Amor e Caridade, aproveitando ainda as horas vagas para abastecer a imprensa espírita e não espírita com seus artigos doutrinários.
Martins Peralva conciliava ainda a essas tarefas uma outra paixão, o gramado.
Aos 25 anos, ao mesmo tempo em que presidia a União Espírita Sergipana, defendia no campo as cores do Paulistano Futebol Clube em Aracaju SE.
E chegou a ser árbitro de futebol e esportes náuticos, diretor do Tribunal de Justiça Desportiva e redator esportivo do Correio de Aracaju, jornal onde também assinava artigos sobre Espiritismo, poesia, política, entre outros assuntos.
A motivação para ir para a capital mineira ocorreu por volta de 1949 não só por questões de saúde, mas também após uma visita ao médium Chico Xavier, de quem era profundo admirador e tornou-se amigo pessoal.
Seu ingresso na carreira bancária se deu em 1950, quando entrou para o Banco Financial da Produção S/A, em Belo Horizonte, onde, por 35 anos, atuou ainda como gerente dos Bancos Belo Horizonte, Irmãos Guimarães, União Comercial, Itaú e Progresso, aposentando-se em 1985, pelo INSS.
Após participar do Centro Espírita Célia Xavier, por 15 anos, fixou-se, em 1964, na União Espírita Mineira, onde exerceu, ao longo do tempo, diversos cargos, dentre os quais: primeiro secretário, vice-presidente, diretor do Departamento de Doutrina e Divulgação e Presidente substituto de Dona Neném Aluotto por motivos de saúde.
Como escritor e jornalista, ficou também conhecido pelos artigos espíritas que publicava no Jornal "O Estado de Minas". Pertenceu à Associação Sergipana de Imprensa, era associado ao Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais e à Associação Brasileira de Jornalistas e Escritores Espíritas (Abrajee), hoje Associação Brasileira de Divulgadores do Espiritismo (Abrade).
José Martins Peralva Sobrinho desencarnou às 21h30minutos do dia 3 de setembro de 2007, aos 89 anos, depois de longa enfermidade. O sepultamento do seu corpo ocorreu no dia seguinte, às 14h, no Cemitério da Colina, na capital mineira.




sábado, 2 de fevereiro de 2019

AMOR AOS ANIMAIS[1]



Divaldo Pereira Franco

Em um governo do passado, um dos seus ministros conduziu, oportunamente, um cão ao veterinário em carro oficial. Surpreendido por um repórter, este advertiu-o sobre a irregularidade que estava cometendo, e o mesmo respondeu enfático: Os cães também são gente!
Acredito, pessoalmente, que o Sr. Ministro quis dizer que os animais também merecem o tratamento dado às criaturas humanas.
De imediato, foi ironizado e tornou-se motivo de troça.
Se ainda estiver reencarnado, ele poderá esclarecer que os animais estão sendo mais bem tratados do que os seres humanos.
O amor aos animais demonstra uma grande conquista pela sociedade, em razão do respeito à vida em todas as suas expressões.
Os animais merecem as mais carinhosas expressões de ternura e cuidados na condição em que estagiam.
Francisco, o Santo de Assis, assim o fez, inclusive ao então terrível lobo de Gúbio. Entretanto, forçoso é considerar, como ocorre em todas as ideias que se transformam em tendência, isto é, se fazem voga, que nelas surgem comportamentos extravagantes.
Os animais, quando domesticados, tornam-se excelentes companheiros de pessoas enfermas, solitárias, portadoras de conflitos, inclusive depressão, autismo, síndrome de Down e outros problemas.
A solidão também requer muito o amor dos animais, tornando-os verdadeiros amigos e companheiros.
No entanto, em uma civilização na qual a miséria moral é muito grande, dela decorrendo a miséria socioeconômica, os excessos nos cuidados aos animais tornam-se uma afronta ao sofrimento dos invisíveis, que se tornam desagradáveis, desprezados e, não raro, perseguidos.
É compreensível que, através do amor, que deve viger entre as criaturas, este se expanda aos animais, aos vegetais, à natureza que nos mantém vivos e, ingratamente, a destruímos.
Substituir o afeto de um ser humano pelo de um animal é lamentável, porque os dois não são incompatíveis. Pode-se amar o gênero humano e também o animal, com o mesmo calor emocional e cuidado.
Algumas pessoas, sofridas e solitárias, referem-se que preferem amar aos inocentes animais do que aos indivíduos conscientes, que traem, magoam e são indiferentes aos seus padecimentos.
Não me parece feliz a troca afetiva, porque o instinto de preservação da vida também se encontra nos animais e, graças ao instinto, em algumas vezes sucedem graves acontecimentos entre esses e os seus cuidadores.
É inegável que tentar transformar um animal em um ser humano, por mais se cuide de trabalhar esse requisito, jamais se conseguirá. Entretanto, o amor que lhe seja dedicado é um passo gigantesco na afetividade que um dia será dirigida às criaturas humanas.
A evolução é inevitável e a força do amor invencível.




[1] Artigo publicado no jornal A Tarde, coluna Opinião, de 29 de novembro de 2018.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Qual a medida de nossa crueldade... Para conosco?



Adriana Machado


Quantas vezes voltamos o nosso olhar para trás para agradecer pelas nossas conquistas?
Quantas vezes olhamos para o nosso presente e nos parabenizamos por tudo o que já passamos e ultrapassamos nesta vida?
Por vezes, somos cruéis. Fixamo-nos naquilo que não conseguimos alcançar e não enxergamos todo o caminho trilhado para chegarmos onde estamos, para obtermos toda a experiência que nos fez ser quem somos hoje.
Porque essa postura tão dura conosco? Jesus disse certa vez:
Onde estão aqueles teus acusadores? (João 8:10).
Após a resposta da adúltera de que todos tinham ido, ele completou:
Nem eu também te condeno; vai-te, e não peques mais. (João 8:11).
Jesus não estava somente se referindo a todos aqueles que antes a estavam criticando, julgando e condenando, quando afirmou “quem não tem pecado que atire a primeira pedra”. Ele também incluía entre os acusadores alguém muito mais importante que aqueles antes mencionados... Ele se referia à nossa própria consciência.
Se a mulher, que diziam ser adúltera, não se perdoasse pelo seu erro, acabaria se condenando, não se sentindo capaz de se libertar de seus enganos pela culpa que carregaria.
Até que percebesse o seu “pecado”, até que percebesse que não é perfeita e que pode demorar um pouco para adquirir a compreensão para não mais se equivocar, a prisão dessa mulher adúltera (e de todos nós) seria sem grades, mas muito eficaz.
Quando nos incomodamos com as nossas ações, estamos no princípio de uma caminhada mais consciente e tudo fazemos para aplicar as mudanças que nos levarão a não ficarmos mais atormentados. Não posso afirmar que faremos tudo certo desde o começo, mas se tentamos fazer aquilo que achamos certo desde o princípio, compreenderemos que, não nos parabenizar pelo esforço aplicado, é desumano e cruel.
Pensem comigo, em qual fase empreendemos mais esforço: no percurso da maratona ou na linha de chegada? Se não valorizarmos todo o percurso da corrida, todas as dores sentidas, mas superadas, não compreenderemos o verdadeiro valor da chegada. Infelizmente, é o que fazemos, na maioria das vezes, no nosso caminhar.
Li a seguinte frase de um autor desconhecido:
Eu me lembro dos dias em que orei por coisas que tenho hoje.
Esse pensamento me fez pensar muito.
Como esquecer que fiz tanto esforço, deixei de realizar tantos outros desejos para chegar aonde cheguei? E, qual é a minha reação diante da vitória?
Estamos tão empenhados em angariar conquistas que não percebemos que não estamos vivenciando nenhuma delas. É como se ganhássemos uma corrida e nem parássemos para pegar a medalha. Já partiríamos para outra corrida e sem o descanso devido.
Chega um momento em que nosso corpo se esgota e não conseguimos mais correr. Nossa mente embaralha, nossas emoções e sentimentos se exacerbam e, sem considerar nossos exageros que provocaram esse colapso, colocamos a culpa em um outro alguém por não darmos mais conta das corridas programadas.
Pergunto, então, sobre quem jogamos a nossa responsabilidade? Cada pessoa é uma pessoa, mas posso afirmar que o nosso principal alvo é Deus. É Ele quem não nos ama o suficiente para nos dar aquilo que muito desejamos; é Ele que nos pune ao seu bel-prazer e sem motivos.
Esquecemos que se nem nós, pais imperfeitos, damos tudo para os nossos filhos, imagina Deus que tudo sabe. Se você vir que a postura adotada por seu filho com o seu carro é um pulo para o desastre, você iria apoiá-lo? Possivelmente, retiraria dele o carro que emprestou e diria para que ele tomasse cuidado e consciência de seus erros no trânsito. Assim é Deus, só devolverá o carro quando perceber que você entendeu o recado dado.
Nossas conquistas não são somente a vitória merecedora de medalha, mas sim todo o esforço, tempo e dedicação que empreendemos para chegarmos lá. Aí, perceberemos que a medalha já é merecida pelo primeiro passo que dermos rumo à linha de chegada. E Deus? Ele nos dará todas as oportunidades e tempo que forem necessários para a concretização de nossa meta.
Por tudo isso, necessitamos valorizar cada etapa já ultrapassada porque muito oramos para ali chegar, mas se já é momento para dali partirmos, que jamais esqueçamos que não chegaríamos a lugar nenhum sem o primeiro passo desta grande caminhada.