Wilson Garcia - maio 14, 2026
A Dissertação Espiritismo transnacional: poder, habitus
e mitopráxis na configuração religiosa brasileira em décadas de perseguições,
defendida na PUC-SP por Adair Ribeiro Júnior em 2026, tenta responder a uma
pergunta que há décadas tira o sono de quem estuda ou vive o espiritismo: como
e por que o espiritismo se tornou uma religião no Brasil?[2]
A resposta que o autor apresenta
é fundamentada, bem documentada, mas não é definitiva. E é justamente aí que
mora seu valor. Ela nos obriga a pensar.
Quem conhece Allan Kardec sabe:
o projeto original não era religioso. Era um tripé — ciência, filosofia e moral
— apoiado na investigação metódica dos fenômenos espirituais. Observação,
comparação, controle das comunicações: um verdadeiro laboratório do invisível.
Mas aí essa ideia atravessou o
Atlântico, desembarcou num Brasil católico por tradição e mergulhou numa
cultura que respirava fé, devoção e misticismo. O resultado não poderia ser
apenas uma tradução. Foi uma reinvenção.
A dissertação mostra como o
espiritismo brasileiro foi sendo moldado por fatores bem concretos: o habitus
católico da nossa sociedade, a perseguição pesada da Igreja, do
Estado e da medicina, a influência de obras como Os Quatro Evangelhos, de
Roustaing, a atuação centralizadora da Federação Espírita Brasileira e,
claro, o fenômeno Chico Xavier.
Esses elementos não apenas
adaptaram a linguagem espírita. Eles empurraram a doutrina para um lugar que
Kardec provavelmente não imaginava — ou talvez não desejasse.
Aqui está o ponto que mais me
provoca no estudo. Adaptar a forma de falar é uma coisa. Substituir o método de
conhecimento por outro completamente diferente é outra, bem mais séria. Quando
a autoridade do médium passa a valer mais do que o controle das fontes, a
natureza do projeto muda.
O espiritismo de Kardec
perguntava: Isso é verificável? O espiritismo religioso brasileiro
passou a perguntar: Quem disse? Não é só uma mudança de sotaque. É de
estrutura.
As instituições definem a rota
A Federação Espírita Brasileira
aparece nessa história como um personagem decisivo. Ao unificar o movimento —
gesto nobre e necessário —, ela também definiu qual espiritismo prevaleceria.
O foco recaiu sobre a dimensão religiosa,
a prática assistencial e a linguagem cristã. O resultado foi a
consolidação de um modelo dominante. E, como toda institucionalização, ele
trouxe consigo estabilidade — mas também ortodoxia.
O espiritismo passou de sistema
de investigação a sistema de pertencimento. Quem pertence tende a se acomodar.
E quem se acomoda tende a parar de perguntar.
Chico Xavier: bênção e ambiguidade
Admirar Chico Xavier não é
difícil. Difícil é analisar seu impacto sem perder o equilíbrio entre a
reverência e a lucidez.
A dissertação reconhece seu
papel como mediador cultural, tradutor simbólico, ponte entre o espiritismo e o
coração religioso do brasileiro. Foi ele quem popularizou a doutrina, quem a
fez caber no imaginário de milhões.
Mas popularização tem seu preço.
A massificação trouxe simplificação. E a simplificação, muitas vezes, trouxe
redução crítica. A doutrina saiu do laboratório e foi morar no coração — um
lugar lindo, mas pouco afeito a questionamentos metódicos.
Se tem uma coisa que o estudo
deixa clara é que o espiritismo brasileiro nunca foi uma coisa só. Desde o
começo conviveram por aqui — nem sempre em paz — correntes científicas,
filosóficas e religiosas.
A hegemonia religiosa escondeu
as outras, mas não as eliminou. Ainda existem espíritas que investigam,
questionam, experimentam. São minoria? Talvez. Mas existem. E essa diversidade
impede qualquer leitura simplista. O espiritismo brasileiro não é uma essência
fixa. É um campo em disputa.
O que a academia vê — e o que ela não vê
Do ponto de vista acadêmico, a
dissertação é impecável: fontes, método, diálogo com a literatura. Mas — e isso
vale para muitos estudos sociológicos da religião — há um risco de olhar só
para as engrenagens sociais e esquecer que, para quem vive a experiência, o que
importa é a verdade sentida.
A crença, a vivência, a intuição
do sagrado: essas coisas não são só “dados”. São o centro da experiência
religiosa. E nem sempre cabem nas categorias de Bourdieu. O grande mérito da
dissertação não está na resposta que dá. Está na pergunta que ela nos obriga a
formular melhor: o espiritismo brasileiro é continuidade do projeto de
Kardec ou sua reinterpretação histórica? E mais: dá para manter uma
proposta de investigação num ambiente que favorece a crença?
Léon Denis escreveu que o
espiritismo será aquilo que os homens fizerem dele. A dissertação abre com
essa frase, e talvez ela contenha a chave de tudo. Se o espiritismo se tornou
religião no Brasil, isso não foi obra do acaso nem destino inevitável. Foi
fruto de escolhas — conscientes ou não — dos agentes que construíram essa história.
E se foi assim, nada está
encerrado.
Entre ciência, filosofia e
religião, o espiritismo continua em construção. E como toda construção humana,
está aberto a revisões, desvios, recomeços. O espiritismo será o que fizermos
dele. A pergunta é: o que queremos fazer?
[1] https://expedienteonline.com.br/afinal-quando-o-espiritismo-se-tornou-religiao-uma-conversa-franca-sobre-cultura-poder-e-transformacao-no-espiritismo-brasileiro/
[2] RIBEIRO JÚNIOR, Adair. Espiritismo transnacional:
poder, habitus e mitopráxis na configuração religiosa brasileira em décadas de
perseguições. 2026. Dissertação (Mestrado em Ciência da Religião) – PUC-SP, São
Paulo, 2026.

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