quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

CARTA DE ANO NOVO[1]

 


Emmanuel 

 

Ano Novo é também oportunidade de aprender, trabalhar e servir.

O tempo como paternal amigo, como que se reencarna no corpo do calendário, descerrando-nos horizontes mais claros para necessária ascensão.

Lembra-te de que o ano em retorno é novo dia a convocar-te para a execução de velhas promessas que ainda não tivestes a coragem de cumprir.

Se tens inimigos faze das horas renascer-te o caminho da reconciliação.

Se foste ofendido, perdoa, a fim de que o amor te clareie a estrada para frente.

Se descansaste em demasia, volve ao arado de tuas obrigações e planta o bem com destemor para a colheita do porvir.

Se a tristeza te requisita esquece-a e procura a alegria serena da consciência tranquila no dever bem cumprido.

 

Ano Novo! Novo Dia!

Sorri para os que te feriram e busca harmonia com aqueles que te não entenderam até agora.

Recorda que há mais ignorância que maldade em torno de teu destino.

Não maldigas nem condenes.

Auxilia a acender alguma luz para quem passa ao teu lado, na inquietude da escuridão.

Não te desanimes nem te desconsoles.

Cultiva o bom ânimo com os que te visitam dominados pelo frio do desencanto ou da indiferença.

Não te esqueças de que Jesus jamais se desespera conosco e, como que oculto ao nosso lado, paciente e bondoso, repete-nos de hora a hora: – Ama e auxilia sempre. Ajuda aos outros amparando a ti mesmo, porque se o dia volta amanhã, eu estou contigo, esperando pela doce alegria da porta aberta de teu coração.

 

Que, a partir de hoje, às 23h59, tudo de ruim fique para trás e sejam muito felizes em 2026

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

CONVERSAS FAMILIARES DE ALÉM TÚMULO – O negro Pai César[1],[2]

 


Allan Kardec

 

Pai César, homem livre, de cor, falecido em 8 de fevereiro de 1859, com 138 anos de idade, perto de Covington, nos Estados Unidos. Nasceu na África e foi levado para a Louisiana com cerca de 15 anos. Os restos mortais desse patriarca da raça negra foram acompanhados ao campo de repouso por um certo número de habitantes de Covington, e uma multidão de pessoas de cor.

 

Sociedade, 25 de março de 1859

 

1. [A São Luís]. – Poderíeis dizer-nos se podemos invocar o preto Pai César, a quem acabamos de nos referir?

– Sim; eu o auxiliarei a vos responder.

 

Observação – Esse começo faz pressagiar o estado do Espírito que desejamos interrogar.

 

2. Evocação.

– O que desejais de mim? O que faz um pobre Espírito como eu numa reunião como a vossa?

3. Sois mais feliz agora do que em vida?

– Sim, porquanto não era boa a minha situação na Terra.

4. Entretanto, estáveis livre; em que sois mais feliz agora?

– Porque meu Espírito não é mais negro.

 

Observação – Essa resposta é mais sensata do que parece à primeira vista. Certamente o Espírito jamais é negro; ele quer dizer que, como Espírito, não sofre mais as humilhações a que está exposta a raça negra.

 

5. Vivestes muito tempo. Isso aproveitou ao vosso progresso?

– Eu me aborreci na Terra e, numa certa idade, não sofria bastante para ter a felicidade de progredir.

6. Em que empregais o tempo atualmente?

– Procuro esclarecer-me e saber em que corpo poderei fazê-lo.

7. Quando estáveis na Terra o que pensáveis dos brancos?

– São bons, mas orgulhosos e vãos, devido a uma alvura de que não foram responsáveis.

8. Considerais a brancura como uma superioridade?

– Sim, visto ter sido desprezado como negro.

9. [A São Luís]. – A raça negra é de fato uma raça inferior?

– A raça negra desaparecerá da Terra. Foi feita para uma latitude diversa da vossa.

10. [Ao Pai César] – Dissestes que procurais um corpo através do qual podereis progredir. Escolheríeis um corpo branco ou um corpo negro?

– Um branco, porque o desprezo me faria mal.

11. Vivestes realmente até a idade que vos é atribuída: 138 anos?

– Não contei bem, pela razão que já disse.

 

Observação – Acabamos de observar que os negros, não possuindo registro civil de nascimento, só de maneira aproximada podem ter a idade avaliada, sobretudo a daqueles que nasceram na África.

 

12. [A São Luís]. – Algumas vezes os brancos reencarnam em corpos negros?

– Sim. Quando, por exemplo, um senhor maltratou um escravo, pode acontecer que peça, como expiação, para viver num corpo de negro, a fim de sofrer, por sua vez, o que fez padecer os outros, progredindo por esse meio e obtendo o perdão de Deus.



[1] REVISTA ESPÍRITA – junho/1859 – Allan Kardec

[2] Nota da Editora: Ver “Nota Explicativa”, p. 537.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

VALENTIM LORENZETTI[1]

 


 

Nasceu em Ribeiro Bonito, interior de São Paulo, Brasil, em 17 de fevereiro de 1938. Filho do casal Giorgio Lorenzetti e Paulina Serafini Lorenzetti, imigrantes italianos chegados ao Brasil em 1926, que tiveram outros três filhos: Mário, Hugo e Ângelo. Nasceu e viveu, até concluir o primeiro grau, em Ribeirão Bonito. Foi para Araraquara a fim de concluir seus estudos e cursar o segundo grau.

Aos 18 anos veio para São Paulo em busca de um sonho: estudar Medicina. E, para isso, era preciso ter recursos, pois se tratava de um curso caro. Como sempre se destacou no estudo da língua portuguesa, assim que chegou em São Paulo, em 1957, conseguiu o emprego como revisor no jornal Folha de S. Paulo.

Logo nesta época, percebeu que sua real vocação era o Jornalismo. Só saiu da Folha de S. Paulo em 1968 quando respondia, há praticamente dois anos, pela Chefia de Reportagem.

Era apaixonado pelo Jornalismo e muito crítico com relação à postura - muitas vezes fria - da maior parte dos colegas. Tinha um carinho especial pelas histórias humanas. Adorava os personagens que entravam na redação durante os plantões de finais de semana para contar histórias, chorar ou, simplesmente, compartilhar alegrias.

Abrir mão do Jornalismo, só mesmo por um novo desafio. E foi assim que Valentim saiu da Folha de São Paulo e foi conhecer uma nova profissão. Em 1968, aceitou o convite para fazer parte do departamento de Relações Públicas da J. Walter Thompson, com o cargo de assistente de redação. Da JWT desligou-se em 1976, quando então respondia pela direção do departamento de Relações Públicas, para fundar sua própria empresa - a LVBA Comunicação e Propaganda Ltda.

O Jornalismo ele nunca abandonou e, contrário à maioria de seus amigos, sua aposentadoria seria na máquina de escrever. Para que isso fosse possível ele sabia era necessário profissionalizar a gestão da LVBA.

Contrariando o que o mercado praticava naquele momento, em 1986, durante as comemorações dos dez anos da LVBA, Valentim anunciou a criação do cargo de Diretor Executivo e nomeou Flavio Valsani, profissional que estava na LVBA já há nove anos. Desta forma, Valentim delegou a Flavio a função de principal executivo para que ele, com o tempo, pudesse se dedicar mais à consultoria e à redação.

Mais tarde, em 1990, satisfeito com o rumo da profissionalização que conduziu, novamente inovou. Em reconhecimento à dedicação e ao empenho de Flavio Valsani e de João Aliotti, Diretor Administrativo-Financeiro desde o nascimento da LVBA, transformou-os em seus sócios.

Os laços de Valentim com o Jornalismo sempre foram muito fortes. Manteve, de 1970 a 1984, uma coluna sobre Espiritismo no jornal Folha da Tarde.

Ser espírita, naquela época, era muito diferente do que é hoje. Havia muita confusão sobre o que é espiritismo e o que são as outras religiões, muitas vezes fruto do sincretismo religioso. Além disso havia um certo preconceito em se assumir publicamente como praticante dessa religião.

Valentim nunca se preocupou com isso. Muito pelo contrário. Além de pregar a liberdade de credo e de expressão, acreditava que tinha a obrigação de usar seu talento na difusão dos verdadeiros conceitos sobre o espiritismo. Em 1982, fez uma coletânea das crônicas publicadas até aquele ano e editou o livro “Caminhos de Libertação”.

Ainda no campo pessoal, foi um iniciadores do CVV - Centro de Valorização da Vida, entidade que trabalha na prevenção do suicídio e foi, durante muitos anos, responsável pela difusão e comunicação desta entidade.

Além da LVBA, da religião, do CVV, da Clínica Psiquiátrica mantida pelo CVV em São José dos Campos, ele sempre trabalhou ativamente em entidades da área de Comunicação. Foi da diretoria do CONRERP (Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas) e da APP (na época, Associação Paulista de Propaganda). Seu último cargo foi como presidente do CONFERP - Conselho Federal de Profissionais de Relações Públicas.

Na área de Relações Públicas, certamente uma das mais importantes ações do Valentim foi a criação e fundação da ABERP - Associação Brasileiras das Empresas de Relações Públicas, em 1983. Trata-se do maior avanço pelo qual passou o mercado de empresarial de Relações Públicas no país, já que a entidade foi responsável pela definição de parâmetros que permitiram que a boa conduta profissional deixasse de ser um atributo subjetivo.

Esta iniciativa foi reconhecida pelo mercado e, em dezembro de 1983, ele recebeu, do Conselho Regional de Profissionais de Relações Públicas de São Paulo, o Prêmio Opinião Pública, na categoria Prêmio Especial - categoria especialmente instituída para homenageá-lo pela criação da ABERP.

Em 1990, vítima de câncer, Valentim Lorenzetti morreu. Não sem antes registrar a sua visão, inovadora e ousada. Em 1989 , enviou a toda a equipe da LVBA um memorando que se tornou uma das principais marcas da empresa:

Se todos os sonhos se transformarem em realidade é sinal que você parou de crescer. Que haja sempre lugar para um sonho a mais em seu coração. Obrigado pelos sonhos que movem a LVBA.

Valentim Lorenzetti.



[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=718

sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

ENTRE OS CANIBAIS[1]

 


Miramez

 

Escolha das provas

 

271. Estudando, na erraticidade, as diversas condições em que poderá progredir, como pensa o Espírito consegui-lo, nascendo, por exemplo, entre canibais?

Entre canibais não nascem Espíritos já adiantados, mas Espíritos da natureza dos canibais, ou ainda inferiores aos destes.

Sabemos que os nossos antropólogos não se acham no último degrau da escala espiritual e que mundos há onde a bruteza e a ferocidade não têm analogia na Terra. Os Espíritos que aí encarnam são, portanto, inferiores aos mais ínfimos que no nosso mundo encarnam. Para eles, pois, nascer entre os nossos selvagens representa um progresso, como progresso seria, para os antropófagos terrenos, exercerem entre nós uma profissão que os obrigasse a fazer correr sangue. Não podem pôr mais alto suas vistas, porque sua inferioridade moral não lhes permite compreender maior progresso. O Espírito só gradativamente avança. Não lhe é dado transpor de um salto a distância que da civilização separa a barbárie e é esta uma das razões que nos mostram ser necessária a reencarnação, que verdadeiramente corresponde à justiça de Deus. De outro modo, que seria desses milhões de criaturas que todos os dias morrem na maior degradação, se não tivessem meios de alcançar a superioridade? Por que os privaria Deus dos favores concedidos aos outros homens? (Allan Kardec)

Questão 271 / O Livro dos Espíritos

 

Entre os canibais não nascem Espíritos elevados, cuja superioridade ultrapassa o entendimento daquele grupo.

Para que um Espírito puro reencarnaria junto a Espíritos primitivos?

Os Espíritos missionários só renascem em um meio onde as lições de que eles são portadores possam ser de proveito. Sobre isso, Jesus já falava aos Seus discípulos:

Não deis pérolas aos porcos, nem lanceis coisas santas aos cães.

É justo que no meio dos canibais nasça Espírito que tenha mais um pouco de entendimento que eles, para guiá-los, como igualmente reencarnam almas ainda mais inferiores, para aprenderem o que esses já granjearam na vida. Disso temos provas na própria sociedade da qual fazemos parte, onde há Espíritos de todos os naipes, uns elevados, outros medianos e outros de condições inferiores.

A vida é um processo de despertamento espiritual constante. Ainda existem tribos mais inferiores que os próprios canibais em mundos primitivos, mas que, algum dia, serão Espíritos puros. O tempo se encarregará disso com sabedoria, porque as leis são justas e o amor de Deus cobre toda a criação.

Se não houvesse o inferior, qual seria o trabalho do superior? Na criação de Deus, todos os planos de vida se fundem para engrandecer. Por que julgar a quem erra, se é uma oportunidade para o justo trabalhar? O santo já foi primitivo e o sábio passou pelos mesmos caminhos. Eles são conscientes dessas verdades, e é por esse motivo que eles ajudam com amor aos que se encontram na retaguarda.

Por que as próprias leis das nações protegem os animais? Por serem eles úteis à sociedade. Ainda mais, eles nos mostram de onde viemos, e que, certamente, encontramos quem nos ajudou a chegar aonde estamos. Fazer o mesmo é dever de cada criatura.

Se Deus se encontra em toda parte, está entre os canibais. As sociedades inferiores da Terra, nas condições em que elas se encontram, irão desaparecendo com a ajuda do tempo. Estamos passando por um transe algo doloroso para todas as posições que se ocupa; é o ciclo evolutivo do planeta que está encerrando, e em todos os fechamentos de ciclo os problemas se avolumam. Guerras e rumores de guerras, pestes, terremotos e aflições sem conta, mas, tudo é passageiro. É a tempestade anunciando a bonança.

Jesus veio nos trazer o conhecimento da verdade, e para isso entregou a própria vida, para que tenhamos condições de suportar com coragem o que haverá de acontecer. O chamado está feito em toda parte e para todas as criaturas. O desejo dos céus é que todos sejam escolhidos. Muitos vão herdar a Terra, que passará a ser um mundo de regeneração, onde ninguém mais errará; todos estarão apenas consertando o que foi feito com desacerto. E os canibais, os Espíritos endurecidos, serão levados para outros mundos, compatíveis com o seu adiantamento. Essa é a lei, essa é a justiça de Deus.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 6 – João Nunes Maia

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

MENSAGEM DO NATAL[1]

 


 

“Glória a Deus nas Alturas, paz na Terra e boa vontade para com os homens”.

Lucas, 2:14

 

O cântico das legiões angélicas, na Noite Divina, expressa o programa do Pai acerca do apostolado que se reservaria ao Mestre nascente.

O louvor celeste sintetiza, em três enunciados pequeninos, a plataforma do Cristianismo inteiro.

Glória a Deus nas Alturas, significando o imperativo de nossa consagração ao Senhor Supremo, de todo o coração e de toda a alma.

Paz na Terra, traduzindo a fraternidade que nos compete incentivar, no plano de cada dia, com todas as criaturas.

Boa Vontade para com os homens, definindo as nossas obrigações de serviço espontâneo, uns à frente dos outros, no grande roteiro da Humanidade.

O Natal exprime renovação da alma e do mundo, nas bases do Amor, da Solidariedade e do Trabalho.

Dantes, os que se anunciavam, em nome de Deus, exibiam a púrpura dos triunfadores sobre o acervo de cadáveres e despojos dos vencidos.

Com o Enviado Celeste, que surge na Manjedoura, temos o Divino Vencedor arrebanhando os fracos e os sofredores, os pobres e os humildes para a revelação do Bem Universal.

Dantes, exércitos e armadilhas, flagelos e punhais, chuvas de lodo e lama para a conquista sanguinolenta.

Agora, porém, é um Coração armado de Amor, aberto à compreensão de todas as dores, ao encontro das almas.

Não amaldiçoa.

Não condena.

Não fere.

Fortalece as boas obras.

Ensina e passa.

Auxilia e segue adiante.

Consola os aflitos, sem esquecer-se de consagrar o júbilo esponsalício de Caná. ( † )

Reconforta-se com os discípulos no jardim doméstico; todavia, não desampara a multidão na praça pública.

Exalta as virtudes femininas no Lar de Pedro; contudo, não menospreza a Madalena transviada.

Partilha o pão singelo dos pescadores, mas não menoscaba o banquete dos publicanos.

Cura Bartimeu, o cego esquecido; ( † ) entretanto, não olvida Zaqueu, o rico enganado. ( † )

Estima a nobreza dos amigos; contudo, não desdenha a cruz entre os ladrões.

O Cristo na Manjedoura representava o Pai na Terra.

O cristão no mundo é o Cristo dentro da vida.

Natal! Glória a Deus! Paz na Terra! Boa Vontade para com os Homens!

Se já podes ouvir a mensagem da Noite Inesquecível, recorda que a Boa Vontade para com todas as criaturas é o nosso dever de sempre.

 

Emmanuel

 

 

À  todos que me acompanharam neste ano desejo um

Feliz Natal com muita Luz e muita Paz

e um

Próspero 2026 com muita Prosperidade



[1] Essa mensagem foi publicada originalmente em 1966 pela FEB e é a 49ª lição do livro “Antologia mediúnica do Natal”

terça-feira, 23 de dezembro de 2025

CONVERSAS FAMILIARES DE ALÉM-TÚMULO - Goeth[1]

 


Allan Kardec

 

Parisiense de Estudos Espíritas – 25 de março de 1856

 

1. Evocação.

– Estou convosco.

2. Em que situação vos encontrais como Espírito: errante ou reencarnado?

– Errante.

3. Sois mais feliz do que quando vivo?

– Sim, pois me desembaracei do corpo grosseiro e percebo o que antes não via.

4. Parece-me que em vida não tínheis uma situação infeliz. Em que consiste a superioridade de vossa atual situação?

– Acabo de dizê-lo; vós, adeptos do Espiritismo, deveis compreender essa situação.

5. Qual a vossa opinião atual sobre o Fausto?

– É uma obra que tinha como objetivo mostrar a vaidade e o vazio da ciência humana e, por outro lado, naquilo que havia de belo e de puro, exaltar o sentimento do amor, castigando-o no que continha de desregrado e de mau.

6. Foi por uma certa intuição do Espiritismo que descrevestes a influência dos Espíritos maus sobre o homem? Como fostes levado a fazer essa descrição?

– Eu tinha a lembrança quase exata de um mundo onde via atuar a influência dos Espíritos sobre os seres materiais.

7. Lembráveis, então, de uma precedente existência?

– Sim, certamente.

8. Poderíeis dizer-nos se tal existência ocorreu na Terra?

– Não, porque aqui não se vê os Espíritos agindo; foi realmente num outro mundo.

9. Mas, então, devia tratar-se de um mundo superior à Terra, desde que aí podíeis ver os Espíritos em ação. Como pudestes vir de semelhante mundo para reencarnar num orbe inferior como o nosso? Retrogradastes? Dignai-vos explicar o que se passou.

– Era um mundo superior até certo ponto, mas não como o entendeis. Nem todos os mundos têm a mesma organização, sem que, por isso, tenham uma grande superioridade.

Ademais, sabeis perfeitamente que entre vós eu cumpria uma missão que não podeis dissimular, porque ainda representais as minhas obras. Não houve retrogradação, considerando-se que servi e ainda sirvo para a vossa moralização. Eu aplicava aquilo que podia haver de superior no mundo precedente para corrigir as paixões de meus heróis.

10. De fato, vossas obras ainda são representadas. Acabam de fazer a versão teatralizada do Fausto. Assististes à sua encenação?

 – Sim.

11. Poderíeis externar a opinião sobre a maneira pela qual o Sr. Gounod interpretou vosso pensamento através da música?

– Gounod evocou-me sem o saber. Compreendeu-me perfeitamente. Como músico alemão eu não teria feito melhor. Talvez ele pense como músico francês.

12. Que pensais de Werther?

– Hoje eu lhe censuro o desfecho.

13. Essa obra não teria feito muito mal ao exaltar as paixões?

– Fez e causou desgraças.

14. Foi a causa de muitos suicídios. Sois responsável por isso?

– Se houve uma influência nociva espalhada por mim, é por isso mesmo que ainda sofro e disso me arrependo.

15. Creio que em vida nutríeis grande antipatia pelos franceses. Dá-se o mesmo atualmente?

– Sou muito patriota.

16. Estais ainda ligado a um país, de preferência a outro?

– Amo a Alemanha por seu pensamento e por seus costumes quase patriarcais.

17. Poderíeis dar-nos a vossa opinião sobre Schiller?

– Somos irmãos pelo Espírito e pelas missões. Schiller tinha uma alma grande e nobre, que se fazia refletir em suas obras; fez menos mal que eu. É-me bastante superior, porque era mais simples e mais verdadeiro.

18. Qual a vossa opinião sobre os poetas franceses em geral, comparados aos poetas alemães? Não se trata de um vão sentimento de curiosidade, mas de nossa instrução. Confiamos que os vossos elevados sentimentos nos dispensarão da necessidade de pedir que o façais imparcialmente, pondo de lado qualquer preconceito nacional.

– Sois bastante curiosos, mas vou satisfazer-vos: Os franceses modernos muitas vezes escrevem belos poemas; entretanto utilizam mais palavras bonitas do que bons pensamentos; deveriam consagrar-se mais ao coração do que ao espírito. Falo em geral, mas faço algumas exceções em favor de alguns: um grande poeta pobre, entre outros.

19. Um nome é sussurrado na assembleia; é a ele que vos referis?

– Pobre, ou que passa por tal.

20. Sentir-nos-íamos felizes se obtivéssemos uma dissertação sobre assunto de vossa escolha, para a nossa instrução. Teríeis a bondade de ditar-nos alguma coisa?

– Fá-lo-ei mais tarde, e por outros médiuns; evocai-me em outra ocasião.

 



[1] REVISTA ESPÍRITA – junho/1859 – Allan Kardec

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

THEREZA POLETTI DE BRITO[1]

 


 

 Thereza Poletti de Brito nasceu na cidade de Pirassununga, no Estado de São Paulo, no dia 7 de junho de 1900. Sendo Thereza Poletti católica fervorosa, veio a consorciar-se, em abril de 1919, com o Sr. Antônio de Souza Brito, militante espírita que frequentava o Centro Espírita João Batista, na cidade de Araras, dirigido à época pelo Dr. Roberto Mercatelli. Foi mãe de 11 filhos. Aos 39 anos ficou viúva, iniciando-se um período de ingentes sacrifícios para criar os filhos e bem conduzir a grande família, agora formada por oito filhos, pois três deles já haviam desencarnado, um vitimado pela sífilis e dois, que eram gêmeos, pelo pênfigo foliáceo, também conhecido como fogo selvagem.

O sofrimento teve o poder de burilar sempre mais essa valorosa mulher, fadada aos grandes testemunhos, pois, mais tarde, sofreria novamente com a desencarnação de outros três filhos: Ofélia, Jesuíno e Alcides.

Nos momentos de grandes dores, Thereza costumava bendizer o nome de Jesus, com venerável respeito, crendo-se favorecida pela Misericórdia Divina, que lhe concedia as oportunidades dos testemunhos como provações necessárias para o resgate de suas faltas pretéritas.

A sua conduta foi sempre um exemplo de vida cristã junto à família, perante os amigos e até mesmo diante de desconhecidos que batiam à sua porta em busca de socorro, sendo muitos deles recolhidos ao aconchego do seu próprio lar, onde eram repartidas as migalhas para o sustento diário.

O Espiritismo alcançara a sua vida e aceito com carinho e atilamento, iluminava mais e mais a via de lutas de Thereza. Aos poucos ia-se aclimando aos seus conteúdos, verificando o quanto de verdades e de consolação sobejam nos seus ensinamentos.

No começo da sua vida espírita, um episódio muito bonito e importante marcou fortemente a sua crença.

Desde os seus tempos de católica, ouvia o esposo comentar, com entusiasmo e reverência, a respeito da equipe espiritual do Dr. Bezerra de Menezes e do seu atendimento aos doentes necessitados de ajuda. Sendo ela portadora de um tumor na coxa, do tamanho aproximado de um ovo de galinha, ocorreu-lhe a ideia de apelar para o doce Médico dos Pobres, já que dificuldades financeiras e os recursos limitados da medicina local não lhe permitiam maiores esperanças.

O tempo seguiu seu curso...

Durante o período de resguardo, em virtude do nascimento de um de seus filhos, numa noite de sono mais profundo, a cirurgia foi realizada, de fato, sendo extraído o tumor e ficando à mostra a concavidade de onde ele saíra. A rogativa dirigida ao Dr. Bezerra de Menezes e o seu atendimento reforçariam, definitivamente, a sua fé e o seu engajamento no trabalho espírita que nunca mais cessou em toda sua existência.

Não obstante a vida de Thereza de Brito estivesse marcada sempre pela dor, proveniente de imperiosas provações, ela ainda encontrava tempo e disposição para outras realizações nobres fora do lar.

Juntamente com um grupo de espíritas pioneiros, tendo à frente o Dr. Roberto Mercatelli e sua esposa, D. Geni Villas Boas Mercatelli, Dr. Lauro Michielin, Sr. Sebastião Krepischi e outros, Thereza de Brito colaborou na criação do Sanatório Espírita Antonio Luiz Sayão, de Araras, que lançou sua pedra fundamental em 31 de outubro de 1950 e recebeu o seu primeiro paciente em 21 de setembro de 1956 e que até hoje funciona, ampliado e dotado das mais avançadas técnicas para o tratamento psiquiátrico à luz da Doutrina Espírita.

Como reconhecimento ao trabalho das primeiras horas de Thereza, a atual Diretoria do Sanatório, tendo à frente o confrade Arceu Scanavini, inaugurou uma ala feminina com o seu nome, numa justa e fraterna homenagem ao esforço e à atuação de alguém que soube superar as próprias lutas na pregação do amor através de uma vida inteira de dedicação e de fidelidade a Jesus.

Após 76 anos de uma frutuosa existência, desencarna Thereza de Brito, em Araras, no dia 2 de julho de 1976, levando consigo a palma de toda uma vida modesta e dignificada pelos exemplos superiores oferecidos nas ações de cada dia.

 

Ismael Biaggio - Araras/SP, março de 1991

(Vereda Familiar, J. Raul Teixeira, ed. Fráter)



[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=716