quinta-feira, 15 de outubro de 2026

FACULDADE PREDOMINANTE[1]

 


Miramez

 

 Livre-arbítrio

Qual a faculdade predominante no homem em estado de selvageria: o instinto, ou o livre-arbítrio?

O instinto, o que não o impede de agir com inteira liberdade, no tocante a certas coisas. Mas, aplica, como a criança, essa liberdade às suas necessidades e ela se amplia com a inteligência. Conseguintemente, tu, que és mais esclarecido do que um selvagem, também és mais responsável pelo que fazes do que um selvagem o é pelos seus atos.

Questão 849 / O Livro dos Espíritos

 

A faculdade predominante no selvagem, certamente que é o instinto, impulso que parte de Deus para as necessidades do homem primitivo, como também dos animais. No entanto, ele evolui cada vez mais, de acordo com o crescimento do homem em busca da razão mais esclarecida. Mesmo assim, o instinto não desaparece no homem; ele se desenvolve, alcançando o estado que se chama raciocínio e se expressando como inteligência, de modo que a criatura se torna mais responsável pelos seus atos.

A razão, com o percorrerdes milênios, se transforma em intuição, que igualmente domina uma escala, até chegar ao ponto de a alma intuitiva do futuro não precisar mais da razão, por simplesmente saber, ou seja, a alma dispensará o raciocínio para concluir, porque já sabe.

A faculdade predominante no selvagem é o instinto, e a predominante no intelectual é a inteligência, que trabalha como razão na engrenagem da mente. O homem civilizado é mais responsável pelos seus atos do que o animal, destituído totalmente de raciocínio. No selvagem, a razão começa a desabrochar, assim como no civilizado existe algo de intuição começando a crescer.

A liberdade, mesmo relativa, nasce e cresce com a alma, dotando-a de algo mais, do que a natureza divina é pródiga. Porém, a liberdade diante de Deus é sempre relativa, porque dependemos do Pai para sempre. Quanto mais crescemos, mais fazemos a Sua vontade. Quando necessário, sejamos evoluídos ou atrasados, somos enviados para outros mundos, se precisamos buscar neles experiências que não podemos realizar na Terra. E é por mandato de Jesus que assim se processa.

Vamos consultar o Evangelho, em João, no capítulo dez, versículo dezoito:

 

Ninguém a tira de mim, pelo contrário, eu espontaneamente a dou. Tenho autoridade para entregar e também para reavê-la. Este mandato, recebi de meu Pai.

 

O Espírito, quando é preciso, Jesus o envia para outras casas no universo, mas torna a buscá-lo, por fazer parte do rebanho que Ele tanto ama. Vamos trabalhar e compreender, para que as faculdades predominantes em nós sejam as virtudes espirituais tão afloradas nos santos quanto nos sábios. Esse é, pois, o caminho a que todos estamos destinados a seguir. Entrementes, não podemos desdenhar dos que se encontram na retaguarda, porque também nós outros passamos por lá, tendo recebido tantas bênçãos nos próprios desequilíbrios!

O selvagem é uma criança espiritual; o homem primitivo é quase igual ao animal, tocado pelos instintos mais profundos, mas, o tempo dota-o de melhores condições no correr dos anos, porque também ele é filho de Deus, dotado de todas as qualidades espirituais que os Espíritos elevados desfrutam agora no reino da luz. A criança, com a idade não se torna adulto? Assim é o selvagem de hoje; no amanhã, passará a ser civilizado, e depois espiritualizado. Essa é a lei de amor e de justiça, que olha a tudo que Deus criou com o mesmo carinho e a mesma graça.

Tu que te encontras na sociedade e és mais esclarecido do que o selvagem, ajuda-o, de modo que ele reconheça a necessidade de melhorar. Dentro dele existe, em germe, a luz que pode levá-lo ao conhecimento da verdade. Não percas a oportunidade de ajudar, porque tu também já foste ajudado por outros que estão à tua dianteira.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 17 – João Nunes Maia

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

YORK ASSOMBRADA[1]

 


Melvyn Willin

 

A reputação de York como a cidade mais assombrada da Grã-Bretanha se baseia em uma longa história de relatos de aparições, poltergeists e outras anomalias. Este artigo examina casos notáveis, desde os soldados romanos de Harry Martindale até igrejas, pubs e teatros assombrados, distinguindo relatos com fontes pouco confiáveis ​​de incidentes que permanecem difíceis de explicar.

§  O caso mais conhecido de York é o avistamento, por Harry Martindale em 1953, de soldados romanos cuja aparência e nível de caminhada posteriormente se mostraram consistentes com as descobertas arqueológicas.

§  Outros relatos envolvem aparições, atividade poltergeist e sons inexplicáveis ​​na Catedral de York, na Igreja da Santíssima Trindade, no Teatro Real, em bares e outros locais históricos.

§  O artigo distingue o folclore comercial sobre fantasmas e histórias com fontes duvidosas de um número menor de casos considerados suficientemente documentados para merecerem interesse em pesquisa psíquica.

 

Introdução

York, na Inglaterra, é há muito descrita como a cidade mais assombrada do Reino Unido. Isso deu origem a inúmeros passeios fantasmagóricos bastante concorridos e a muitas histórias de eventos anômalos, que vão desde mitos e lendas a alegações fraudulentas e fenômenos muito difíceis de explicar dentro do paradigma científico vigente.

A cidade de York data do início do primeiro milênio d.C., mas as evidências arqueológicas da presença humana na região remontam a tempos muito mais antigos, entre 8000 e 7000 a.C.. York é mencionada como uma cidade importante na época romana, quando era chamada de Eboracum ou Eburacum, seguida pelos anglos, que a denominavam Eoforwīc ou Eoforīc. Quando os vikings tomaram a região dos anglos, deram-lhe o nome de Jórvík. York sofreu com a conquista normanda de 1066, mas prosperou na Idade Média. Durante a Guerra Civil Inglesa, de 1642 a 1651, foi um reduto realista, mas, apesar da derrota para as forças parlamentares, em 1660 era a terceira maior cidade da Inglaterra, depois de Londres e Norwich. Mais recentemente, tornou-se um importante centro ferroviário. Sua famosa rua medieval, Shambles; sua catedral gótica, a Minster; e as apresentações de peças de mistério são alguns dos seus atrativos. Festivais e eventos regulares atraem milhares de turistas todos os anos.

 

Eventos anômalos em York

Os alegados casos de fenômenos paranormais geralmente considerados fora da compreensão atual podem ser classificados em diferentes categorias, incluindo aparições e poltergeists, e outras atividades que se encaixam perfeitamente no mundo das lendas, como cães espectrais. Relatos deste último tipo não são abordados neste artigo, mas os leitores interessados ​​podem encontrá-los tratados pelo historiador local John Mitchell em Ghosts of an Ancient City (Fantasmas de uma Cidade Antiga)[2].

As evidências de fenômenos que são menos claramente lendas folclóricas foram fornecidas por uma ampla gama de testemunhas e pesquisadas por caçadores de fantasmas amadores, bem como por acadêmicos. As investigações foram conduzidas por meio de relatos anedóticos e análise profissional. Em termos de quantidade, consta que foram registrados mais de cento e quarenta avistamentos de fantasmas dentro das muralhas de York nos últimos anos[3].

 

Caso dos soldados romanos

O exemplo mais famoso de um suposto avistamento paranormal ocorreu no porão da Casa do Tesoureiro, em Minster Yard, em 1953. Um aprendiz de engenheiro de aquecimento de dezoito anos chamado Harry Martindale (1935–2014) testemunhou o que ficou conhecido como o Caso dos Soldados Romanos. Martindale manteve silêncio sobre sua experiência por muitos anos, receoso do efeito que isso poderia ter em sua carreira e em seu emprego subsequente como policial. Ele acabou relatando o ocorrido a John Mitchell, que ficou intrigado porque os avistamentos de Martindale eram consistentes com o que se sabia sobre o local e a aparência dos soldados, detalhes dos quais eram desconhecidos na época da experiência de Martindale.

O relato a seguir, ligeiramente editado, do episódio, extraído de uma entrevista gravada em áudio com Martindale por Melvyn Willin no porão do Minster Yard por volta de 1976, foi fornecido a Mitchell.

Eu era um aprendiz de dezoito anos fazendo alguns trabalhos no sistema de aquecimento central no porão. No meu segundo dia de trabalho, eu estava alguns degraus acima de uma escada quando, de repente, ouvi um som que parecia de trombeta, vindo de uma parede, ficando cada vez mais alto. Então, vi o que parecia ser um soldado romano, seguido por um cavalo e vários outros soldados, atravessando a parede e entrando no porão. Todos eles tinham as pernas cortadas na altura dos joelhos, a cerca de 45 centímetros do chão. Caí da escada e me escondi num canto, apavorado com a possibilidade de me verem, mas eles não demonstraram nenhum sinal de que eu estivesse ali. Usavam saias verdes e capacetes de metal, carregavam espadas curtas e escudos redondos. Não falavam e não se pareciam em nada com os soldados romanos que eu tinha visto no cinema. Quando finalmente consegui fugir do porão, o zelador me disse: "Você viu os soldados romanos, não é?"

A gravação de uma palestra dada por Mitchell e Martindale na conferência anual da SPR em 1998 está preservada no arquivo audiovisual da Sociedade de Pesquisa Psíquica. Mitchell relata que Martindale o informou que "ficou surpreso com a baixa estatura e a aparência desleixada deles... as roupas rústicas e caseiras que usavam. As sandálias, com ligas cruzadas até os joelhos... mas depois foram vistos caminhando no nível da própria estrada romana[4]". Escavações arqueológicas revelaram que a antiga Via Decumana romana passava pelo local da casa, aproximadamente 45 centímetros abaixo da superfície[5]. Os soldados romanos que Martindale viu foram vistos por outros desde então[6].

 

York Arms

Um incidente curioso, até então não descrito, ocorreu no York Arms em 1975 com um pequeno grupo de pesquisadores interessados, incluindo Willin. O pub era conhecido pela aparição de uma mulher e por alguma atividade poltergeist. Uma sessão espírita foi realizada utilizando um tabuleiro Ouija em forma de mesa, com um copo virado para cima e letras com as palavras "sim" e "não" ao redor.

Willin não participou da sessão, mas observou os diversos movimentos do copo, sem perceber nenhuma "mensagem" óbvia. Willin afastou-se da mesa e, com um pequeno pedaço de papel, escreveu a letra maiúscula "G", fora da vista dos participantes. Até onde ele sabia, a letra não tinha significado para nenhuma das pessoas presentes, nem para ele próprio. Contudo, quando perguntou se os "espíritos" poderiam se mover em direção à letra que havia escrito, o copo deslizou imediatamente e rapidamente pela mesa, derrubando a letra "G" no chão. Willin ficou chocado – assim como os participantes quando ele lhes mostrou a letra que havia escrito sorrateiramente. Isso pode ter sido um caso de telepatia inconsciente de uma das pessoas presentes, a própria psicocinese de Willin, ou simplesmente uma coincidência bastante significativa, em vez de ação espiritual. Nenhum outro evento anômalo ocorreu durante a sessão.

 

Rebeca e Livônia

Existem dois relatos aparentemente verídicos de regressão a vidas passadas que são de interesse para pesquisadores psíquicos que investigam fenômenos em York. Um deles é a história de "Rebecca", uma judia assassinada no século XII. Rebecca se apresentou como uma personalidade de vida passada de Jane Evans em regressões de idade conduzidas por Arnall Bloxham e descritas por Jeffrey Iverson em More Lives than One[7]. Sob regressão, Evans também assumiu uma vida anterior como "Livonia", uma romana que viveu em York no século III. Posteriormente , pesquisas arqueológicas confirmaram algumas das alegações de memória de Evans, notavelmente como "Rebecca"[8].

 

Outras Aparições e Poltergeists

A seguir, são listados outros casos documentados de fenômenos anônimos em York, com referências para os leitores que desejarem aprofundar-se em casos específicos. Estes representam apenas a ponta de um iceberg muito maior[9].

§  O Museu de Yorkshire foi palco de uma figura fantasmagórica em 1953, vista e ouvida pelo zelador e sua esposa. Eles forneceram um relato detalhado da experiência, que foi analisado pelos pesquisadores Eric Dingwall e Trevor Hall[10].

§  A Catedral de York é o local da aparição do fantasma do Deão Gale, um clérigo de alta patente que morreu em 1702. Há também registros do retorno de um soldado que morreu durante a Primeira Guerra Mundial. Ele apareceu lá para sua irmã e uma amiga dela[11].

§  A igreja da Santíssima Trindade é assombrada por vários fantasmas, incluindo três figuras distintas vistas à luz do dia, e em 1957, um professor de uma escola local relatou uma mudança repentina na atmosfera, descrita como "terrosa e fria, uma atmosfera de ossuário, de morte e decadência[12]".

§  A igreja de St. Crux foi identificada por um policial local de York, que ouviu o órgão sendo tocado quando a igreja estava vazia. Também houve relatos de pessoas que viram uma figura feminina envolta em um sudário e ouviram o farfalhar de um vestido quando não havia ninguém presente[13].

§  O Theatre Royal tinha uma "Dama Cinzenta" que cantava. Ela era vista com tanta frequência que um comitê organizou um exorcismo, após o qual o fantasma não retornou por um tempo[14]. Antes disso, várias testemunhas registraram o aparecimento de uma freira fantasmagórica. As ruínas do Hospital St. Leonard, que era administrado por ordens religiosas, fazem parte do teatro atual[15]. A suposta visitação da Dama Cinzenta retornou por volta de 1981, de acordo com a companhia teatral, incluindo a Srta. Evelyn Laye[16].

§  A escola de dança que funcionava na Igreja de Santa Maria, em Bishophill Junior, foi palco de várias supostas perturbações sonoras paranormais e atividades poltergeist, bem como aparições de uma 'figura' desconhecida, muitas das quais foram corroboradas por diversas testemunhas confiáveis[17].

§  Existem vários pubs com histórias de aparições e atividades poltergeist, incluindo o Cock & Bottle, o Black Swan, o Golden Fleece e o York Arms. O Cock & Bottle alega ter visto a aparição de uma figura que se acredita ser o fantasma de George Villiers, o 2º Duque de Buckingham, que pode ter frequentado o estabelecimento quando este se chamava Plumber's Arms. Também houve relatos de atividades poltergeist, com utensílios de cozinha se movendo sozinhos e portas se trancando misteriosamente por dentro quando não havia ninguém presente[18].

§  As partes mais antigas de York têm relatos de experiências vindas de Shambles e da área de Bedern. Esta última consistia em uma praça que, no século XVI, funcionou como asilo para pobres e, a partir de 1847, como casa de trabalho, onde crianças teriam sido tratadas com muita severidade e até morrido. A área, agora modernizada, tem sido citada como local de vozes de crianças desconhecidas e outras manifestações[19].

 

Conclusão

Será York a cidade mais assombrada da Europa?[20] O surgimento de passeios turísticos sobre fantasmas, com foco comercial e sensacionalista, desde que Mitchell e Martindale os inauguraram em 1973[21], proporcionou interesse e entretenimento, embora não tenha aumentado a veracidade das experiências relatadas por diversas pessoas. No entanto, existem alguns exemplos que podem, pelo menos, fornecer material para reflexão sobre fenômenos que não se encaixam no paradigma científico atual. Uma alternativa aos avistamentos de aparições e fenômenos poltergeist como evidência de sobrevivência pós-morte é o conceito de "deslizamentos temporais"[22], ainda mais considerando as recentes conexões feitas com a mecânica quântica[23].

 

Obras citadas

§  Bardens, D. (1991). Ahead of Time. London: Hale.

§  Brooks, J.A. (1990). Britain’s Haunted Heritage. London: Jarrold Publishing/BTA.

§  Danks, V. (2018). Haunted York. Wellington, Somerset, UK: Halsgrove.

§  Dingwall, E.J., & Hall, T.H. (1958). Four Modern Ghosts. London: Gerald Duckworth & Co.

§  Evans, S. (2006). Ghosts: Mysterious Tales from the National Trust. London: National Trust Books.

§  Fontana, D. (2004). Is There an Afterlife? A Comprehensive Overview of the Evidence. Ropley, Hampshire, UK: O Books.

§  Iverson, J. (1977). More Lives Than One? The Evidence of the Remarkable Bloxham Tapes. London: Pan Books.

§  Kirkup, R. (2012). Ghosts of York. Stroud, UK: Amberley.

§  Linahan, L. (1997). The North of England Ghost Trail. London: Constable & Company Ltd.

§  MacKenzie, A. (1997). Adventures in Time. London: Athlone Press.

§  Matthews, R. (1992). Haunted York. Andover, UK: Pitkin.

§  Mitchell, J.V. (1996). Ghosts of an Ancient City: Stories of Haunted York. York: Archives Department, St Peter’s School.

§  O’Dierno, E. (2023). Einstein, Quantum Physics, and the Pursuit of the Paranormal (Annotated ed). Privately published.

§  O’Donnell, E. (1939). Haunted Churches. London: Quality Press Ltd.

§  Pearse, B. (2008). Ghost-Hunter’s Casebook: The Investigations of Andrew Green Revisited. Stroud: Tempus Publishing.

§  Playfair, G.L. (1985). The Haunted Pub Guide. London: Harrap.

§  Sterling-Vete, B., & Wuorio, H.R. (2025). Quantum Paranormal: Quantum Physics Explaining Paranormal Phenomena. Independently published.

§  Underwood, P. (1984). This Haunted Isle: The Ghosts and Legends of Britain’s Historic Buildings. London: Harrap.

§  Underwood, P. (1993). Ghosts and How to See Them. London: BCA.

§  Willin, M. (2016). Past life regression (PLR). Psi-Encyclopedia. Web page.

§  Willin, M.J. (2022). Music and the Paranormal: An Encyclopedic Dictionary. Jefferson, North Carolina, USA: McFarland & Company.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Mitchell (1996).

[3] Linahan (1997), 195.

[4] Mitchell (1996), 70.

[5] Evans (2006), 133.

[6] Veja Mitchell (1996, 70-73) and Underwood (1984, 233-38).

[7] Iverson (1977).

[8] Para detalhes, veja aqui.

[9] Para visões gerais, veja Danks (2018); Kirkup (2023); Matthews (1992); Mitchell (1996).

[10] Dingwall & Hall (1958), 27-45 e citado em Fontana (2004), 31-32.

[11] Brooks (1990), 146; O’Donnell (1939), 82-83.

[12] Mitchell (1996), 4-5.

[13] O’Donnell (1939), 87-88; Willin (2021), 215-16.

[14] Brooks (1990), 147.

[15] Pearse (2007), 186-87.

[16] Mitchell (1996), 14-16.

[17] Mitchell (1996), 44-47.

[18] Linahan (1997), 199-200; Playfair (1985), 229-30.

[19] Mitchell (1996), 48-49.

[20] Underwood (1993), 76.

[21] Willin observou que atores às vezes são contratados para pular nos participantes nessas caminhadas fantasmas.

[22] Bardens (1991); MacKenzie (1997).

[23] e.g., by O’Dierno (2018) and Sterling-Vete & Wuorio (2025).

terça-feira, 13 de outubro de 2026

CONSELHOS DE FAMÍLIA[1]

 


Allan Kardec

 

Certamente nossos leitores se lembram do artigo que publicamos no mês de setembro último, sob o título de Intimidade de uma Família Espírita. As comunicações seguintes são muito semelhantes. Com efeito, são conselhos ditados numa reunião íntima, por um Espírito eminentemente superior e benevolente.

Distinguem-se pelo encanto e pela doçura do estilo, a profundeza dos pensamentos e, além disso, por matizes de extrema delicadeza, apropriados à idade e ao caráter das pessoas a quem eram dirigidas.

O Sr. Rabache, negociante de Bordeaux, que serviu de intermediário, houve por bem autorizar a sua publicação. Só podemos felicitar os médiuns que obtêm coisas semelhantes. É uma prova de que têm simpatias felizes no mundo invisível.

 

Castelo de Pechbusque, novembro de 1859

(Primeira sessão)

 

Foi perguntado ao Espírito protetor da família se ele podia dar alguns conselhos aos membros presentes. Ele respondeu:

Sim. Tenham confiança em Deus e procurem instruir-se nas verdades imutáveis e eternas que lhes ensina o livro divino da Natureza. Ele contém toda a lei de Deus, e os que sabem ler e o compreendem são os únicos a seguirem o verdadeiro caminho da sabedoria. Que nada do que vejam seja negligenciado, porquanto cada coisa traz em si um ensinamento e deve, pelo uso do raciocínio, elevar a alma para Deus e dele aproximá-la. Em tudo quanto ferir a inteligência, procurem sempre distinguir o bem do mal: o primeiro, para o praticar; o segundo, para o evitar. Antes de formular um julgamento, voltem sempre o pensamento para o ETERNO, que os guiará ao bem, E NÃO OS ENGANARÁ JAMAIS.

 

(Segunda sessão)

 

Boa-noite, meus filhos. Se me amais, procurai instruir-vos; reuni-vos muitas vezes com este pensamento. Ponde vossas ideias em comum: é um excelente meio, pois em geral não comunicamos senão as coisas que julgamos boas; temos vergonha das más. Assim, são guardadas em segredo ou só são comunicadas aos que queremos tornar cúmplices. Distinguem-se os bons dos maus pensamentos, porque os primeiros podem, sem nenhum receio, ser transmitidos a todo o mundo, ao passo que os últimos não poderiam, sem perigo, ser comunicados senão a alguns.

Quando vos vier um pensamento, para julgar de seu valor perguntai-vos se podeis torná-lo público sem inconveniente e se não fará mal: se vossa consciência vo-lo autorizar, não temais, vosso pensamento é bom. Dai-vos mutuamente bons conselhos, tendo em vista somente o bem daquele a quem os dais, e não o vosso. Vossa recompensa estará no prazer que experimentareis por terdes sido úteis. A união dos corações é a mais fecunda fonte de felicidades; e, se muitos homens são infelizes, é que só procuram a felicidade para si mesmos. Ela lhes escapa precisamente porque julgam encontrá-la somente no egoísmo. Digo a felicidade e não a fortuna, porquanto esta última só tem servido como sustentáculo à injustiça, e o objetivo da existência é a justiça. Se a justiça fosse praticada entre os homens, o mais afortunado seria aquele que realizasse maior soma de boas obras. Se, pois, quiserdes tornar-vos ricos, meus filhos, praticai muitas ações boas. Pouco importam os bens do mundo; não é a satisfação da carne que se deve buscar, mas a da alma. Aquela é efêmera; esta é eterna.

Por hoje é bastante. Meditai estes conselhos e esforçai-vos para pô-los em prática: aí se encontra o caminho da salvação.

 

(Terceira sessão)

 

Sim, meus filhos, eis-me aqui. Tende confiança em Deus, que jamais abandona os que fazem o bem. Aquilo que julgais um mal, por vezes só o é em relação às vossas concepções. Muitas vezes, também, o mal real vem apenas de um desânimo ocasionado por uma dificuldade, que a calma de espírito e a reflexão teriam evitado. Assim, refleti sempre e, como já vos disse, reportai tudo a Deus. Quando experimentardes qualquer pesar, longe de vos abandonar à tristeza, ao contrário, resisti e fazei todo esforço para triunfar, pensando que nada se obtém sem trabalho, e que algumas vezes o sucesso faz-se acompanhar de dificuldades. Invocai em vosso auxílio os Espíritos benevolentes. Eles não podem, como vos ensinam, fazer boas obras em vosso lugar, nem obter coisa alguma de Deus para vós, pois é preciso que cada um ganhe, por si mesmo, a perfeição a que todos estamos destinados; mas podem inspirar-vos o bem, sugerir-vos conduta conveniente e ajudar-vos com o seu concurso. Não se manifestam ostensivamente, mas no recolhimento. Escutai a voz da vossa consciência, lembrando-vos de meus conselhos precedentes. Confiança em Deus, calma e coragem.

 

(Quarta sessão)

 

Boa-noite, meus filhos. Sim, é preciso continuar as sessões, até que um médium se manifeste, para substituir o que deve deixar-vos. O seu papel de iniciador entre vós está cumprido: continuai o que começastes, porque também servireis um dia à propagação da verdade que, neste momento, é proclamada no mundo inteiro pelas manifestações espíritas. Persuadi-vos, meus filhos, de que, em geral, o que se entende na Terra por Espírito, não é Espírito senão para vós. Depois que esse Espírito, ou alma, separa-se da matéria grosseira que o envolve, para vós não tem mais corpo, porque vossos olhos materiais não mais o veem. Mas é sempre matéria, relativamente aos que são mais elevados que ele.

Para vós, crianças, vou fazer uma comparação muito imperfeita, mas que, no entanto, poderá dar-vos uma ideia da transformação a que chamais, impropriamente, de morte. Imaginai uma lagarta, que vedes diariamente. Quando se esgota o tempo de sua existência nesse estado ela se transforma em crisálida; passa ainda algum tempo como tal e depois, chegado o momento, despoja-se de seu invólucro grosseiro e dá origem a uma borboleta, que voa. Ora, a lagarta, ao deixar sua natureza inferior, representa o homem que morre; a borboleta simboliza a alma que se eleva. A lagarta arrastasse no chão, a borboleta voa para o céu; mudou de matéria, mas ainda é material. Se a lagarta raciocinasse não veria a borboleta que, entretanto, teria saído da carapaça apodrecida da crisálida. Portanto, o corpo não pode ver a alma, mas a alma, envolvida pela matéria, tem consciência de sua existência e o próprio materialista por vezes o sente interiormente. Então seu orgulho o impede de concordar e fica com sua ciência sem crença, sem se elevar, até que finalmente lhe chegue a dúvida. Nem tudo, porém, está acabado, porque nele a luta é maior. Será apenas uma questão de tempo, porque, meus amigos, lembrai-vos de que todos os filhos de Deus foram criados para a perfeição. Felizes os que não perdem tempo pelo caminho.

A eternidade compõe-se de dois períodos: o da prova, que poderia chamar-se de incubação, e o da eclosão, ou entrada na vida verdadeira, que chamais a felicidade dos eleitos.

 

(Quinta sessão)

 

Meus Caros filhos, vejo com satisfação que começais a refletir nos avisos e conselhos que vos dou. Sei que para o atual desenvolvimento de vossa inteligência, há, simultaneamente, muito assunto para reflexão; contudo, devo aproveitar a ocasião que se apresenta, porquanto, dentro de alguns dias esse meio não mais estará à minha disposição, e era necessário ferir a vossa imaginação de maneira a vos sugerir o desejo de continuar as vossas sessões, até que algum de vós pudesse substituir o médium atual. Espero que essas poucas sessões, sobre as quais vos incito a meditar demoradamente, terão bastado para vos despertar a atenção e o desejo de aprofundar mais esse vasto campo de investigações.

Tomai por regra jamais buscar a satisfação da vã curiosidade e, sim, de vos instruir e de vos aperfeiçoar. É inútil vos preocupardes com a diferença que possa existir entre o que vos ensinarei e o que sabeis ou julgais saber. Cada vez que vos for dada uma instrução, perguntai se é justa e se responde às exigências da consciência e da equidade. Quando a resposta for afirmativa, não vos inquieteis por saber se concorda com o que vos tiver sido dito. Que vos importa isto! O importante é o justo, o consciencioso e o equitativo: tudo quanto reúne essas condições é de Deus. Obedecer a uma boa consciência, não fazer senão coisas úteis, evitar todas quanto, não sendo más, não tenham utilidade – eis o essencial; porque fazer algo de inútil já é fazer o mal. Evitai escandalizar, mesmo pelo vosso aperfeiçoamento: há situações em que a simples vista de vossa mudança pode produzir um mau efeito; assim, por exemplo, a luz do dia não poderia, sem perigo, ferir de súbito a vista de um homem encerrado num cárcere escuro. Que o vosso progresso, então, não seja entregue à investigação, senão conforme vos aconselhar a sabedoria. Aperfeiçoai-vos sempre; só o vereis quando for tempo. Aqueles para quem escrevo este conselho o compreendem, sem que eu tenha de ser mais explícito. Sua consciência lhes dirá.

Coragem, pois, e perseverança! São as únicas leis do sucesso.

 

Observação – O último conselho não poderia ter aplicação geral. Evidentemente o Espírito teve um objetivo especial, como ele próprio o disse; do contrário, poderíamos enganar-nos quanto ao sentido e o alcance de suas palavras.



[1] REVISTA ESPÍRITA – janeiro/1860 – Allan Kardec

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

AUGUSTUS DE MORGAN[1]

 


Roberto R Narváez

 

Augustus De Morgan (1806–71), matemático, lógico e polímata britânico, passou a se interessar profundamente pelo mesmerismo e pelo espiritualismo. Experimentos pessoais e sessões o convenceram de que alguns fenômenos relatados eram genuínos, mas ele permaneceu agnóstico quanto à sua causa e incentivou uma investigação cuidadosa e historicamente informada.

§  As experiências de Morgan o convenceram de que alguns fenômenos eram reais.

§  Sessões com Maria Hayden testaram agência espiritual versus leitura de pensamentos.

§  Ele permaneceu agnóstico quanto à causa final.

 

Vida e carreira

Um exemplo clássico do sábio e polímata inglês do século XIX, Augustus De Morgan nasceu em Madurai, sul da Índia, em 27 de junho de 1806, em uma família britânica descendente de refugiados huguenotes. Seu pai, o Coronel John De Morgan, ocupou vários cargos no estado-maior militar na Índia. O Coronel De Morgan fez sua última visita a esse país em 1816. Uma doença o forçou a retornar à Inglaterra, mas ele morreu no mar no caminho. Por causa de suas visões e práticas evangélicas, seus colegas oficiais o conheciam pelo apelido de 'Bible John', e em um obituário ele foi descrito como o 'amigo do cristianismo na Índia'. Esse epíteto se mostraria inesperadamente relevante quatro décadas depois, durante uma sessão espírita que Augusto assistiu, como veremos[2].

O Coronel De Morgan estabeleceu-se com sua família primeiro em Worcester, depois em Devonshire e, finalmente, em Somersetshire. Por volta de 1810, mudaram-se para Bideford, onde Augustus foi educado em regime particular por seu próprio pai. Em 1812, a família mudou-se novamente para Barnstaple. No início da década de 1820, Augustus frequentou um internato em Redland, perto de Bristol. Naquela época, ele foi apresentado à matemática.

Em fevereiro de 1823, Augustus ingressou no Trinity College, Cambridge, onde foi profundamente influenciado por seus professores George Peacock (álgebra) e George Airy (astronomia). Era um leitor compulsivo em uma variedade de assuntos, desde filosofia e teologia até literatura e história. Talvez seu interesse vitalício pela história da ciência e da lógica tenha sido inspirado por Peacock e William Whewell. De qualquer forma, esses homens fortaleceram seu amor pelos estudos matemáticos[3].

Enquanto estava na universidade, Augusto renunciou ao credo evangélico e tornou-se não conformista, embora nunca tenha sido ateu. Essa atitude, no entanto, determinou sua saída de Cambridge, pois na época era obrigatório jurar fidelidade à Igreja da Inglaterra. Ele se tornou o primeiro professor de matemática (nomeado em 23 de fevereiro de 1828) na recém-criada Universidade de Londres (hoje, University College, Londres). Não demorou muito depois, ele renunciou, novamente exasperado por certas questões dos regulamentos acadêmicos, mas retornou em 1836 e manteve seu cargo por mais trinta anos.

Augustus era muito estimado como professor e admirado por muitos (famoso Charles S. Peirce) por suas contribuições à lógica formal e à lógica das relações[4]. Publicou diversos livros didáticos de matemática e milhares de revisões, artigos curtos, pesquisas e entradas de enciclopédias. Seus escritos estão repletos de anedotas paródicas, piadas, trocadilhos e enigmas, a maioria criados por ele mesmo.

A obra mais lembrada de Augustus é a póstuma A Budget of Paradoxes (1877), uma coletânea de resenhas originalmente publicada no The Athenaeum. É um monumento de erudição sobre uma vasta gama de temas, mas fundamentalmente matemática e astronomia. Ele também era um habilidoso bibliógrafo e colecionador de livros.

Em 3 de agosto de 1837, Augusto casou-se com Sophia Elizabeth Frend, que mais tarde se tornaria sua primeira biógrafa. Como descrito abaixo, os de Morgan foram dos primeiros na Grã-Bretanha a se interessarem pelo Espiritismo, então recentemente importado da América. Augustus realizou pesquisas com médiuns, décadas antes da criação da Society for Psychical Research em 1882[5].

Augusto foi profundamente afetado pela morte de dois de seus filhos. Após sua aposentadoria do London College, sofreu um derrame do qual nunca se recuperou. Ele morreu de insuficiência renal em 18 de março de 1871 e foi sepultado no Cemitério Kensal Green, em Londres[6].

 

Experimentos em Mesmerismo e Espiritualismo

Início

As visões de Augustus sobre pesquisa psíquica se desenvolveram ao testemunhar, ou ouvir sobre, os experimentos de mesmerismo de sua esposa durante as décadas de 1840 e 1850. Certa vez, por exemplo, Sophia De Morgan hipnotizou uma jovem em uma tentativa de cura, e a paciente se tornou, aparentemente, uma clarividente (enquanto estava em uma espécie de transe) que podia 'viajar mentalmente' e realizar outras façanhas. Em uma ocasião, ela descreveu com muita precisão para Sofia a casa onde Augusto estava com um amigo. Ele ficou surpreso e se recusou a justificar a habilidade como resultado de coincidência[7].

Anos depois, os De Morgan tinham uma jovem criada cujos poderes mediúnicos a tornaram objeto de vários experimentos. Um dia, seu filho William (que mais tarde se tornaria um famoso oleiro e romancista) implorou aos 'espíritos' que 'transferissem a batida da mesa onde estavam sentados para um armário do outro lado da sala'. E aparentemente ele foi ouvido, pois todas as raps seguintes vieram daquele armário[8].

Sobre todos esses eventos, Augusto escreveu em uma carta a William Heald:

Já vi bastante hipnotismo, e já tentei eu mesmo... para a remoção de doenças que exigiam muitos remédios, mas que o mesmerismo atendia sem remédio desde o momento em que foi empregado. Sobre os poderes curativos desse agente, não tenho mais dúvidas do que se tem de coisas que ele vê constantemente há anos ... Eu já tinha ouvido falar de... clarividência, e tinha certeza de que ela ocorria em minha própria casa, mas sempre a considerei algo de que não tinha provas diretas ou pessoais, e que não poderia admitir até que tais evidências aparecessem[9].

 

Sessões com Maria Hayden

Em 1853, os De Morgan conheceram a médium americana Maria Hayden, responsável por introduzir o Espiritismo na Grã-Bretanha[10]. Na época, a morte da filha dos Morgan, Alice, aumentou o interesse de Sophia pelo Espiritismo, que ela considerava uma ciência. Parece que, por meio de Hayden, o pai de Sophia e sua irmã, Harriet, se comunicavam do além. A partir de então, Sophia passou a acreditar que Alice vivia feliz em um mundo de espíritos, cercada por Cupido, Deus e Cristo, entre outros personagens altamente reverenciados[11].

Duas sessões importantes com Hayden são registradas. Em ambos os casos, Augusto tentou determinar se os eventos foram produzidos por uma agente desencarnada ou pela habilidade de 'leitura de pensamentos' do médium. Na primeira ocasião, ele insistiu em fazer mentalmente uma pergunta cuja resposta, como só ele deveria saber, era monossilábica. Então ele começou a apontar para letras em um alfabeto impresso, e um som alto era ouvido toda vez que ele acertava em uma letra certa. Augustus tomou precauções para impedir que Hayden visse seu rosto e o alfabeto impresso à sua frente. Por essa razão, ele descartou a possibilidade de algum truque elaborado e favoreceu a hipótese da leitura de mentes[12].

Em outra sessão, foi anunciado que o espírito do Coronel De Morgan estava presente. Augustus planejou um teste para corroborar essa identificação. Embora Sophia tenha descrito esse experimento[13], o seguinte é retirado da versão de Anna M Stirling.

A primeira tarefa de Augusto foi selecionar uma informação que só pai e filho pudessem conhecer; era a frase mencionada na primeira seção acima:

… 'o amigo do Cristianismo na Índia.' Augusto ... perguntou ao suposto espírito se ele conseguia se lembrar de uma certa resenha publicada logo após a morte do Coronel De Morgan, e se poderia dar as iniciais de um título em cinco palavras ... O médium e o resto da companhia ... estavam sentados à mesa enquanto [De Morgan] ficava separado, onde não podiam vê-lo, segurando um lápis com o qual apontava para cada letra do alfabeto ... Com as palavras da frase necessária em mente, ele esperava totalmente que um golpe fosse dado pela mesa ao chegar à letra F. Mas seu lápis passou na letra crucial, e quando chegou a K decidiu que o teste foi um fracasso. Alguém presente ... [então] chamou: 'Você passou; ouvi um rap há muito tempo.' [De Morgan] recomeçou; e raps distintos vieram primeiro no C e depois no D. Ele então ficou mais [convencido do fracasso] ... De repente, porém, ele percebeu que os golpes indicavam corretamente as letras que eram o início da frase que continha o título. 'Entendo o que você está fazendo,' comentou gravemente, 'por favor, continue.' As acusações então prosseguiram, e por sua vez enfatizaram claramente as seguintes letras: 'C.D.M.T.F.O.C.I.I.' [ou seja, Coronel De Morgan The Friend...][14].

Sophia descreveu esses experimentos com Hayden e outros médiuns em From Matter to Spirit[15], que ela inicialmente assinou como 'C.D.'. Augustus escreveu o Prefácio sob o pseudônimo 'A.B.'. Lá ele escreveu:

Estou satisfeito, pela evidência dos meus próprios sentidos, de alguns fatos narrados; de outros tenho evidências tão boas quanto o testemunho pode fornecer. Estou perfeitamente convencido de que vi e ouvi de uma forma que tornaria a descrença impossível, coisas chamadas espirituais que não podem ser consideradas por um ser racional como capazes de explicação por impostura, coincidência ou erro ... Mas quando se trata do que é a causa desses fenômenos ... Não posso adotar nenhuma explicação que tenha sido sugerida até agora[16].

 

A Hipótese do Espírito

Augusto argumenta que a 'hipótese espiritual' deveria ser suficiente, se não fosse 'pesadamente difícil'. Ele considerava que o Espiritismo moderno representava uma 'epidemia' que 'parece ser feita para o avanço tanto da verdade quanto da falsidade'. Exigia um reconhecimento universal dos fenômenos 'que a investigação histórica mostra nunca ter sido totalmente desconhecidos'. Por tais fenômenos, Augusto queria dizer certas aparências 'que devem ser finalmente ligadas a alguma verdade ou a alguma ilusão'[17].

Sobre a questão das evidências em assuntos semelhantes, ele refletiu:

Seja como for, é um erro supor que deveria produzir o mesmo efeito em pessoas diferentes. É um absurdo dizer: 'Retire sua mente de todo viés e a deixe igualmente pronta para todas as impressões: você poderia muito bem dizer a um galho mal curvado para ... se endireitar, para então lhe dar outra curva da maneira correta'. É uma evidência que deve tanto se desdobrar quanto dobrar: não está no poder de ninguém alterar seu estado pela vontade. Uma pessoa 'que acha outro mais fácil de convencer do que a si mesma chama o outro de crédulo; mas quando o outro é mais difícil, o primeiro o chama de irracional...'[18]

O ponto de vista histórico (em relação às ciências físicas, filosofia e teologia) precisava ser central no debate sobre tais pesquisas. Os espiritualistas seguiram o mesmo caminho que levou outros a melhorar a ciência física, porque 'eles têm o espírito e o método do grande tempo em que aqueles caminhos eram cortados pela floresta não desmatada onde hoje é rotina diária caminhar'. Esse espírito era 'de exame universal, totalmente sem controle pelo medo de serem descobertos na investigação de bobagens'[19].Ele acrescentou:

Os espiritualistas ... podem ser divididos entre aqueles que acreditam que as comunicações são espirituais, aqueles que não veem o que mais podem ser, e aqueles que não veem o que podem ser. Todos que investigarem mais a fundo ... serão, se moldarem suas investigações com base na hipótese espiritual, serão imitadores sensatos daqueles que lideraram o caminho na ciência física, nos tempos antigos[20].

Nesse sentido, é interessante entender o rigor técnico e histórico com que Augusto definiu um paradoxo: 'algo que está à parte da opinião geral, seja no tema, no método ou na conclusão', e o que ele chamou de paradoxista: alguém cuja atitude 'em relação ao sentido ou ao absurdo não dependerá do que sustenta, mas de ter ou não feito conhecimento suficiente do que foi feito por outros, especialmente sobre o modo de fazê-lo, um preliminar para inventar o conhecimento para si mesmo[21].'

Em A Budget of Paradoxes, Augustus fala do Espiritismo como 'o grande paradoxo do nosso tempo'[22], examinou brevemente dois livros sobre Espiritismo e incluiu uma longa consideração das resenhas de De Matéria para o Espírito, de Sofia. Ele afirmou sua certeza 'de muitos fatos do espiritualismo', mas admitiu que não podia 'fingir afirmar ou negar qualquer coisa sobre sua causa'. Ele recomendou a 'hipótese do espírito' para dar uma direção à investigação, mas não baseou a evidência do espiritismo 'na ocorrência de certos fatos que provam a possibilidade desses mesmos fatos'. Ele acrescentou, de forma bastante significativa: 'Toda pessoa que sabe algo sobre o progresso da física entende o que é querido...'[23].

Sophia De Morgan era uma crente fervorosa na hipótese do espírito, embora Augusto nunca a tenha considerado mais do que uma possibilidade teórica. Isso, concluiu Augusto, os críticos não perceberam[24].

 

Recursos Arquivísticos

Algumas resenhas relacionadas à pesquisa sobrenatural e psíquica que Augustus publicou no The Athenaeum (algumas delas anonimamente), mas não coletadas em A Budget of Paradoxes[25], estão listadas neste catálogo. A maioria das edições correspondentes do periódico (1830–1920) pode ser acessada aqui. Para uma descrição completa e detalhada de vários arquivos e bibliografias referentes ao legado de De Morgan, veja Augustus De Morgan, Polymath: New Perspectives on his Life and Legacy[26].

 

Obras Citadas

§  Attar, K., Rice, A., & Stray, C. (eds.) (2024). Augustus De Morgan, Polymath: New Perspectives on His Life and Legacy. [Full text.] Cambridge, UK: Open Book Publishers.

§  De Morgan, A. (1877). A Budget of Paradoxes. [Full text.] London: Longmans, Green.

§  De Morgan, A. (1954). A Budget of Paradoxes (2nd ed., ed. by D.E. Smith; unabridged republication of the 1915 second edition, two volumes bound as one.) New York: Dover Publications.

§  De Morgan, S.E. [C.D.] (1863). From Matter to Spirit: The Result of Ten Years’ Experience in Spirit Manifestations. Intended as a Guide to Enquirers. [Full text.] London: Longman, Green, Longman, Roberts, & Green.

§  De Morgan, S.E. (1882). Memoir of Augustus De Morgan, with Selections from His Letters. [Full text.] London: Longmans, Green, and Co.

§  Halsted, G.B. (1897). Biography: De Morgan. The American Mathematical Monthly 4/1, 1-5.

§  Noakes, R. (2019). Physics and Psychics: The Occult and the Sciences in Modern Britain. Cambridge, UK: Cambridge University Press.

§  Stirling, A.M.W. (1922). William De Morgan and His Wife. [Full text.] London: Thornton Butterworth Ltd.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Attar, Rice, & Stray (2024), xiii-xiv.; Stirling (1922), 24.

[3] Attar, Rice, & Stray (2024), xv-xvii.

[4] Attar, Rice, & Stray (2024), xviii-xxvi; Halsted (1897), 2.

[5] Sobre esse assunto, veja aqui.

[6] Attar, Rice, & Stray (2024), xx-xxiv.

[7] Stirling (1922), 108; S.E. De Morgan (1863), 47-49.

[8] Attar, Rice, & Stray (2024), 231ss; Stirling (1922), 108.

[9] S.E. De Morgan (1882), 206.

[10] Carmack (2020).

[11] Attar, Rice, & Stray (2024), 233-34; S.E. De Morgan (1863), xli ss.

[12] S.E. De Morgan (1863), xlii-xliii.

[13] S.E. De Morgan (1863), xliii-xliv.

[14] Stirling (1922), 35-36.

[15] S.E. De Morgan (1863).

[16] S.E. De Morgan (1863), v.

[17] S.E. De Morgan (1863), v-vi, x. Cf. Noakes (2019), 137-38.

[18] S.E. De Morgan (1863), xvi-xvii.

[19] S.E. De Morgan (1863), xviii-xx.

[20] S.E. De Morgan (1863), xxv-xxvi.

[21] A. De Morgan (1954), 4; itálico no original.

[22] A. De Morgan (1954), 54.

[23] A. De Morgan (1954), 196-98; itálico no original.

[24] A. De Morgan (1954), 198, 202-3.

[25] A. De Morgan (1954).

[26] Attar, Rice, & Stray (2024), seção 11.