sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

GESTÃO DA NOSSA EVOLUÇÃO[1]

 


Marcelo Anátocles Ferreira - janeiro/2026

 

É comum a concepção de que somente depois da desencarnação será possível uma avaliação dos nossos passos, da nossa vida espiritual e da nossa evolução. Alguns aguardam uma espécie de Juízo Final, quando seremos julgados por Deus e encaminhados para os locais de merecimento. Outros entendem que somente após o fim da estrada terrena será possível, ao lado dos nossos benfeitores, fazer uma avaliação do nosso caminho.

Sem dúvida, a avaliação de nossa mais recente encarnação só poderá ser feita no final, quando, fora do corpo, poderemos ter noção exata do todo nela realizado. No entanto, todos nós podemos – e seria muito bom se fizéssemos isso de tempos em tempos – fazer balanços para avaliarmos nossa vida ainda no corpo físico. Temos condições e elementos para isso. Esse exercício nos possibilitará crescimento, autoconhecimento e reforma interior.

Para facilitar essa avaliação, podemos fazê-la por setores da nossa vida. Por exemplo, nossa vida familiar. Como somos ou fomos como filhos? Como foi ou está sendo a relação com nossos pais? E o nosso relacionamento com nossos irmãos desde a infância?

Daí, podemos passar para as relações construídas nesta vida: como estão nossos relacionamentos afetivos? Como tratamos aqueles com quem namoramos, casamos, constituímos família? Essas relações são baseadas no respeito? Há ciúmes corroendo o amor?  Como está a relação com nossos filhos, sejam eles crianças ou adultos?

No contexto profissional, também cabe uma análise mais profunda. Como estamos no trabalho? Como é a relação com nossos colegas? Como nos relacionamos com o dinheiro?

E com os amigos, como estamos?

Como está nosso relacionamento com os amigos do Centro Espírita que frequentamos?  Como estão os estudos espíritas?  Como está o trabalho no campo religioso?

Perguntas objetivas e possíveis de responder. Santo Agostinho, na conhecida resposta sobre o autoconhecimento[2], sugere que formulemos a nós mesmos questões nítidas e precisas sem temer multiplicá-las.

No campo dos próprios sentimentos, também cabe uma análise: sou alegre ou me entristeço com facilidade? Por quê? O que me traz alegria? O que me entristece?

Compartilhando uma experiência pessoal, num final de tarde, voltando do trabalho para casa, eu sentia uma alegria incomum sem saber explicar o motivo. Fiquei tentando lembrar, até que tive um estalo de memória:  eu tinha recebido um e-mail sobre o lançamento do álbum de figurinhas da Copa do Mundo de Futebol. Isso me fez lembrar a minha infância e me deixou feliz. Detectei a razão simples da minha alegria e me tranquilizei.

Ainda no campo dos sentimentos, devemos nos avaliar: eu odeio, sou ácido ou agressivo com o próximo? Costumo me desculpar ao perceber meus equívocos?

Um amigo do trabalho me deu uma lição inesquecível quando eu saía com um pequeno grupo, por ocasião do meu aniversário, para almoçar. Cruzamos com esse amigo, que, sem motivo aparente, foi grosseiro com uma das pessoas que me acompanhava. O agredido pareceu nem perceber, mas ficou no ar um clima desagradável que logo se dissipou no caminho para o almoço festivo. No fim do dia, recebi, com surpresa, um e-mail daquele amigo que havia sido ríspido, no qual ele se desculpava por suas palavras. E mandara esse e-mail com cópia para todos que tinham presenciado a desavença. Reconheci ali alguém preocupado com o autoconhecimento e com a correção imediata de um erro.

Para facilitar a análise, podemos nos valer de uma divisão do tempo traçando uma linha de, por exemplo, cinco ou dez anos. Como eu era há cinco anos? Melhorei em quais aspectos nos últimos dez anos? Em que continuo estacionado? Em que aspecto preciso melhorar?

Como ensina o benfeitor Camilo, pela mediunidade de J. Raul Teixeira: É, daí, importantíssimo o ato de estudar e estudar-se, com o fim de melhor situar-se o indivíduo no campo da lucidez[3].

Essas avaliações fazem com que tomemos a rédea de nossa vida. Não é necessário esperar a desencarnação para sabermos em que já melhoramos e em que ainda temos que trabalhar e muito.

Avaliando, corrigindo e acompanhando nossos próprios passos, podemos verificar novas derrapagens para, se preciso, corrigirmos novamente o curso da vida, contabilizando também nossas conquistas e avanços.

No livro Seareiros de volta, há algumas mensagens sobre esse tema. Em Lei de renovação, por exemplo, o Espírito Antônio da Silva Neto nos ensina: Quem não domina a si mesmo, vive sujeito ao jugo das circunstâncias[4].

Não devemos seguir o que diz o verso da conhecida música Deixa a vida me levar. Se pusermos isso em prática, não saberemos aonde vamos chegar. Com a constante reflexão sobre nossa vida, vamos tomando a rédea do nosso destino e nos direcionando para o bem.

Temos uma ferramenta fantástica em nossas mãos, a Doutrina Espírita, que deve ser permanentemente estudada. Nela aprendemos os mecanismos da lei de justiça, sabemos que somos Espíritos reencarnados em um corpo físico com contas a ajustar e com a abençoada oportunidade dos novos dias. Como nos ensina o Espírito Batuíra: “Seguir o Espiritismo é refazer o destino[5].

Assim, dia a dia, passo a passo, vamos nos avaliando, nos conhecendo melhor, nos aperfeiçoando, aprendendo a corrigir nossas falhas e a retomar rotas seguras, transformando-nos dentro da proposta de sermos verdadeiros espíritas, atentos e focados na efetiva reforma interior, gerindo nossa evolução.



[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1987. pt. 3, cap. XII, q. 919a.

[3] TEIXEIRA, J. Raul. Revelações da Luz. Pelo espírito Camilo. Niterói: Fráter, 2014, cap. 1.

[4] VIEIRA, Waldo. Seareiros de volta. Autores diversos. Brasília: FEB, 1987. cap. A lei da renovação.

[5] Op. cit. cap. Bem-aventurados.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

SUBIR E CRESCER[1]

 


Miramez

 

Transmigrações progressivas

Pode um homem, nas suas novas existências, descer mais baixo do que esteja na atual?

Com relação à posição social, sim; como Espírito, não.

Questão 193 / O Livro dos Espíritos

 

As leis, criadas por Deus não permitem que o homem, em uma reencarnação, desça, espiritualmente, mais abaixo do que acontece a regressão.

O Espírito não regride; ele sempre avança para frente e para o alto. O que pode acontecer é a alma descer socialmente; regressão material é escola para o Espírito; no entanto, o que aprendemos nunca mais esquecemos, pois, significa despertamento. Os valores espirituais adquiridos irradiam sempre em todas as reencarnações.

O que por vezes acontece, é que o Espírito em boas condições intelectuais pode voltar à Terra em outra vida física, sem condições de se expressar, o que, contudo, não significa regressão. O que ele sabe, está registrado para a eternidade. Ser-nos-á de grande valor conhecermos o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, e mediante o conhecimento, esforçamo-nos para praticá-lo, mesmo que seja na gradação que a vida nos apresenta, porque nesse esforço constante nascerá em nós uma luz que nunca se apagará, capaz de nos trazer para o coração momentos de paz e de alegria, a nos dizer que existe a felicidade.

A lei soberana é saber espiritualmente; descer, somente para as formas que são transitórias e educativas. Recebemos condições de estudos pelas nossas necessidades. Deus está presente em toda a criação, e mais visível no centro da alma. Temos valores enormes que desconhecemos dentro da consciência e eles são nossa segurança nos caminhos da eternidade. Compete a nós outros buscá-los e absorvê-los. Essa é a nossa parte, a parte do filho cujo Pai se empenha para que ele conheça.

O homem pode descer na posição social até o zero, se essa for a vontade do Pai se essa descida servir-lhe de educação para o aprimoramento. É por esse motivo que a alma passa de país para país, de família para família, sempre trocando de posições sociais. É pois, um movimento constante, e é esse exercício que lhe faculta as reencarnações, que o Espírito imortal conhece a verdade.

Quando encontramos homens que nascem mutilados nos seus sentidos, não quer dizer que esses homens regrediram espiritualmente. A regressão é aparente, pois a alma conserva no seu reservatório de vida as lições assimiladas na grande escola de Deus: a vida, a natureza. Subir é uma realidade. Descer uma ilusão.

Apeguemo-nos ao Evangelho de Nosso Senhor, da forma que Ele revive no Espiritismo, que as lições de reformas, de entendimentos e de amor clareiam os pensamentos e dão forças para a vida que devemos levar em busca da libertação.

Conhecemos o valor da ciência, da filosofia ou outras direções que podem expressar as leis da Ciência; no entanto, não devemos nos esquecer do amor que, em forma da Divindade, traz em si todas as nuances de vida e de paz para os corações. Fora dele, mão haverá estabilidade para os Espíritos. Assim falamos, porque a Ciência e a Filosofia precisam, para viver, desse mesmo Amor.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 4 – João Nunes Maia

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

EXPERIMENTOS DE TELEPATIA DE COOVER[1]

 

John E. Coover


K.M. Wehrstein

 

Um dos primeiros experimentos em larga escala sobre telepatia foi conduzido em 1915 por John E. Coover, um psicólogo da Universidade Stanford. Ele concluiu que os resultados foram totalmente negativos. No entanto, essa conclusão foi posteriormente contestada por parapsicólogos que examinaram seus dados.

 

Experimentos

Em 1912, John Edgar Coover, então com quarenta anos, foi nomeado Pesquisador Psíquico Thomas Welton Stanford, financiado por uma doação de US$ 10.000 à Universidade Stanford feita por Thomas Welton Stanford, irmão de seu fundador. Ele ocupou o cargo por 25 anos, realizando experimentos sobre vários aspectos da pesquisa psíquica. Estes incluíram experimentos de telepatia em larga escala, cujas descobertas foram publicadas em uma monografia de 1917 intitulada  Experiments in Psychical Research[2] (Experimentos em Pesquisa Psíquica), publicada pela Stanford University Press.

O método de Coover era o seguinte: Coover e um agente telepático (emissor) sentavam-se juntos em uma sala com um baralho de quarenta cartas (um baralho comum, sem as figuras) e um dado, enquanto o receptor (percipiente) sentava-se em outra sala. O baralho era embaralhado e uma carta era escolhida. O agente olhava para a carta ou não, dependendo do resultado do dado, e o receptor tentava discernir qual carta havia sido escolhida. Coover designou a condição experimental como aquela em que o agente olhava para a carta, e a condição de controle como aquela em que ele não olhava.

Os participantes eram geralmente estudantes universitários, embora ele também tenha realizado testes com dez indivíduos que alegavam ter habilidades psíquicas. Após completar 10.000 testes, Coover calculou que não havia diferença significativa entre as pontuações do grupo experimental e do grupo de controle e concluiu que os resultados não corroboravam a hipótese da telepatia[3]. Não foi encontrado nenhum vestígio de transferência objetiva de pensamento, nem entre os participantes "normais" nem entre aqueles que alegavam ter habilidades psíquicas[4].

Coover explicou seu padrão de significância estatística da seguinte forma: '... se atendermos ao requisito de um grau de precisão usual no trabalho científico, obtendo p = 0,9999779, quando a certeza absoluta é p = 1, então [há] evidências satisfatórias de alguma causa além do acaso[5].'  No uso estatístico atual, isso seria expresso como p = 0,0000221.

 

Crítica

As descobertas de Coover levaram a uma perda de interesse no tema da telepatia na comunidade científica por mais de uma década. No entanto, suas descobertas foram imediatamente questionadas por pesquisadores psíquicos. Em uma resenha para a Sociedade de Pesquisa Psíquica , o filósofo F.C. Schiller observou que a condição em que o agente não olhava para uma carta não era, na verdade, uma condição de controle, como Coover supôs, mas um teste de clarividência (os participantes visualizando psiquicamente as cartas diretamente, em vez de receber impressões mentais delas dos agentes). Ele também observou que alguns dos participantes do grupo experimental obtiveram pontuações particularmente altas, bem acima do acaso. Como resultado, escreveu Schiller, Coover "dificilmente tinha o direito de deduzir de seus dados que 'nenhum traço de transferência objetiva de pensamento é encontrado como uma capacidade desfrutada em medida perceptível por qualquer um dos indivíduos normais [participantes][6]'".

As afirmações de Coover foram alvo de novo escrutínio na década de 1930, após os resultados positivos em experimentos de percepção extrassensorial (PES) conduzidos por J.B.Rhine na Universidade Duke. Robert Thouless argumentou que a medida de significância estatística adotada por Coover, de cerca de 50.000 para um, era "absurdamente" alta[7], e calculou que, por um padrão mais convencional, as pontuações eram, na verdade, significativas no nível de 200 para 1 ( p = 0,005)[8]. Rhine apontou que a maioria dos sucessos se concentrava em apenas oito dos cem participantes de Coover, e que cinco deles obtiveram pontuações igualmente altas tanto nos testes de telepatia quanto nos de clarividência. Ele considerou isso "tremendamente significativo" e lamentou que Coover não tivesse concentrado seus esforços nos participantes com as melhores pontuações, caso em que provavelmente teria relatado resultados positivos[9]. Os críticos concluíram que as descobertas não justificavam sua afirmação de que a telepatia estava ausente de seus resultados, muito menos que, como ele sustentava, elas "provavam" definitivamente sua inexistência.

Coover morreu enquanto escrevia uma resposta, e esta foi concluída por seu sucessor, John L. Kennedy[10]. Eles argumentaram que um nível muito alto de significância era justificado, sendo a telepatia inerentemente improvável; que os críticos não levaram em consideração adequadamente os resultados negativos dos dez médiuns; e que quaisquer resultados acima do acaso poderiam ser devidos a uma metodologia experimental inadequada, como erros de registro.

Este último ponto foi examinado por Whately Carington, que questionou se os sucessos poderiam ser atribuídos a "vazamentos involuntários de informações por canais normais, a métodos experimentais falhos ou a má conduta deliberada por parte dos alunos". Ele concluiu que as evidências internas contradiziam fortemente todas essas possibilidades, observando que "quanto mais se analisavam os números, mais difícil se tornava explicá-los dessa forma[11]" .

 

Consequências

O sucessor de Coover, John L. Kennedy, também não relatou resultados positivos. No entanto, Charles Stuart, que havia sido treinado por Rhine e contratado por Stanford para replicar os experimentos de Rhine na Universidade Duke, conduziu diversos estudos entre 1942 e 1944 que alcançaram significância estatística. Esses estudos foram ignorados em um relatório de 1962 sobre o andamento da pesquisa psíquica em Stanford, elaborado pelo editor de ciência do Stanford News Service, Robert Lamar, que afirmou falsamente que nenhum indício positivo de telepatia jamais havia sido encontrado por seus pesquisadores e que Stuart "tivera que admitir o fracasso[12]". Como lamentaram os parapsicólogos, as autoridades universitárias posteriormente desviaram o financiamento da bolsa de pesquisa psíquica para a psicologia convencional, provavelmente contrariando os termos legais da doação[13].

 

Literatura

§  Besterman, T. (1927). The Mind and its Mechanism, with Special Reference to Ideomotor Action, Hypnosis, Habit and Instinct, and the Lamarckian Theory of Evolution. By Paul Bousfield, M.R.C.S., L.R.C.P., and W. R. Bousfield, K.C., F.R.S. [Review.] Journal of the Society for Psychical Research 24, 103-107.

§  Carington, W. (1938). Some early experiments providing apparently positive evidence for extra-sensory perception. Journal of the Society for Psychical Research 30, 295-305.

§  Coover, J.E. (1917). Experiments in Psychical Research. Psychical Research Monograph Nº 1. Palo Alto, California, USA: Stanford University Press.

§  Coover, J.E., & Kennedy, J.L. (1939). Reply to critics of the Stanford Experiments on thought-transference. Journal of Parapsychology 3, 17-28.

§  Irwin, H.J., & Watt, C.A. (2007). An Introduction to Parapsychology (5th ed.). Jefferson, North Carolina, USA: McFarland.

§  Radin, D. (2000). What’s ahead? Journal of Parapsychology 64/4, 353-64.

§  Rhine, J.B. (1934). Extra-Sensory Perception. Boston, Massachusetts, USA: Boston Society for Psychic Research.

§  Schiller, F.C.S. (1918). Experiments in Psychical Research, being the ‘Leland Stanford Junior University’s Psychical Research Monograph No. 1.’ By John Edgar Coover [Review]. Proceedings of the Society for Psychical Research 30, 261-73.

§  Thouless, R. (1935). Dr Rhine’s recent experiments on telepathy and clairvoyance and a reconsideration of J.E. Coover’s conclusions on telepathy. Proceedings of the Society for Psychical Research 43, 24-37.

§  Utts, J. (1988) Successful replication versus statistical significance. Journal of Parapsychology 52, 305-20.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Coover (1917).

[3] Irwin & Watt (2007), 61-62.

[4] Coover (1917), 124, citado em Thouless (1935), 27.

[5] Coover (1917), 83, citado em Utts (2000), 306.

[6] Schiller (1918), 265.

[7] Thouless (1935), 25.

[8] Thouless (1935), 27.

[9]  Rhine (1934), 26-27.

[10] Coover & Kennedy (1939).

[11] Carington (1938), 296.

[12] Radin (2000), 358.

[13] Radin (2000), 358.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

LORDE CASTLEREAGH E BERNADOTTE[1]

 

Lord Castlereagh

Allan Kardec

 

Há cerca de quarenta anos aconteceu a seguinte aventura ao marquês de Londonderry, mais tarde lorde Castlereagh. Certo dia foi visitar um gentil-homem que privava da amizade de um de seus amigos, o qual residia num desses velhos castelos do norte da Irlanda, que os romancistas elegem para palco das aparições do outro mundo. O aspecto do apartamento do marquês estava em perfeita harmonia com o edifício. Com efeito, os vigamentos de madeira ricamente esculpidos e enegrecidos pelo tempo, o enorme arco da chaminé, semelhante à entrada de um túmulo, a tapeçaria pesada e repleta de pó que mascarava as estreitas janelas e circundava o leito, tudo era susceptível de dar uma feição melancólica aos pensamentos.

Lorde Londonderry examinou o seu dormitório e travou conhecimento com os antigos senhores do castelo que, retratados de pé nos quadros da parede, pareciam esperar a sua saudação. Depois de ter despedido o criado de quarto, foi deitar-se.

Mal acabara de apagar a vela percebeu um raio de luz a iluminar o cortinado superior de seu leito. Convencido de que não havia fogo na grelha, que as cortinas estavam fechadas e que alguns minutos antes o quarto estava mergulhado na mais completa escuridão, supôs que um intruso ali houvesse penetrado. Voltando-se rapidamente para o lado de onde vinha a luz e, com grande espanto, viu a figura de uma bela criança, completamente nimbada de luz.

Convencido da integridade de suas faculdades, mas desconfiando de uma mistificação de um dos numerosos hóspedes do castelo, lorde Londonderry avançou para a aparição, que se retirou de sua frente. À medida que se aproximava ela recuava, até que, chegando finalmente sob o sombrio arco da imensa chaminé, precipitou-se chão adentro e desapareceu.

Lorde Londonderry não dormiu naquela noite.

Resolveu não fazer nenhuma alusão ao que lhe tinha acontecido, até que tivesse examinado atentamente o semblante de todas as pessoas da casa. Durante o café, em vão procurou surpreender alguns sorrisos disfarçados, olhares de conivência e piscar de olhos, que geralmente denunciam os autores dessas conspirações domésticas.

A conversação seguiu o seu curso ordinário; estava animada e nada revelava uma mistificação. Por fim o marquês não pôde resistir ao desejo de contar o que tinha visto. O senhor do castelo observou que o relato de lorde Londonderry devia parecer muito estranho aos que há muito tempo não visitavam o castelo e desconheciam as lendas da família. Então, voltando-se para lorde Londonderry, disse:

Vistes a criança brilhante; alegrai-vos, pois é o presságio de uma grande fortuna. Mas eu teria preferido que não se tratasse dessa aparição.

Em outra ocasião Lorde Castlereagh viu a criança brilhante na Câmara dos Comuns. No dia de seu suicídio ele teve uma aparição semelhante[2]. Sabe-se que este lorde, um dos principais membros do Ministério Harrowby e o mais obstinado perseguidor de Napoleão durante o seu revés, seccionou a própria carótida no dia 22 de agosto de 1823, morrendo instantaneamente.

Dizem que a surpreendente fortuna de Bernadotte lhe havia sido predita por uma necromante famosa, que também anunciara a de Napoleão I e desfrutava da confiança da Imperatriz Josefina.

Bernadotte estava convencido de que uma espécie de divindade tutelar se ligava a ele para o proteger. Talvez as tradições maravilhosas que cercaram o seu leito não fossem estranhas a esse pensamento, que jamais o abandonava. Com efeito, em sua família narrava-se uma antiga crônica segundo a qual uma fada, esposa de um de seus antepassados, havia predito que um rei ilustraria a sua posteridade.

Eis um fato que demonstra o quanto o maravilhoso havia conservado o seu império sobre o Espírito do rei da Suécia.

Ele queria resolver à espada as dificuldades que a Noruega lhe opunha e enviar seu filho Oscar à frente de um Exército para aniquilar os rebeldes. O Conselho de Estado fez viva oposição a esse projeto. Certo dia em que Bernadotte acabava de travar uma animada discussão sobre o assunto, montou a cavalo e afastou-se da capital à disparada. Depois de longo percurso chegou às bordas de uma sombria floresta. De repente apresentou-se aos seus olhos uma velha mulher, vestida de maneira extravagante e com os cabelos em desalinho:

Que quereis? – perguntou bruscamente o rei.

A feiticeira respondeu sem se desconcertar:

– Se Oscar combater nessa guerra que premeditas, não dará os primeiros golpes, mas os receberá.

Impressionado por essa aparição e por essas palavras, Bernadotte voltou ao palácio. No dia seguinte, denotando ainda no rosto os sinais de uma longa vigília cheia de agitação, apresentou-se ao Conselho:

Mudei de opinião; negociaremos a paz, desde que em condições honrosas.

Em sua Vie de M. de Rancé, fundador de La Trappe, conta Chateaubriand que um dia esse homem célebre, passeando na avenida do castelo de Veretz, julgou ver um grande incêndio que consumia as dependências destinadas às aves domésticas. Correu rápido para lá: o fogo diminuía à medida que ele se aproximava. A certa distância o braseiro transformou-se num lago de fogo, no meio do qual se erguia a meio corpo uma mulher devorada pelas chamas.

Tomado de pavor, retomou correndo o caminho de casa. Ao chegar, as forças lhe faltaram, atirando-se semimorto na cama. Não foi senão depois de longo tempo que contou a visão, cuja mera lembrança o fazia empalidecer.

Esses mistérios pertencem à loucura? O Sr. Brière de Boismont parece atribuí-los a uma ordem de coisas mais elevada, e concordo com a sua opinião. Isso não desagrada ao meu amigo Dr. Lélut: prefiro acreditar no gênio familiar de Sócrates e nas vozes de Joana d’Arc a crer na demência do filósofo e da virgem de Domrémy.

Há fenômenos que ultrapassam a inteligência e que desconcertam as ideias recebidas, mas diante de cuja evidência é preciso que a lógica humana se incline humildemente. Nada é brutal, e sobretudo irrecusável, como um fato. Tal é a nossa opinião e, principalmente, a do Sr. Guizot:

Qual a grande questão, a questão suprema que hoje preocupa os espíritos? É a questão levantada entre os que reconhecem e os que não reconhecem uma ordem sobrenatural, verdadeira e soberana, embora impenetrável à razão humana; é a questão levantada para chamar as coisas pelo seu nome, entre o supernaturalismo e o racionalismo. De um lado os incrédulos, os panteístas, os cépticos de toda sorte, os puros racionalistas; do outro, os cristãos.

Com vistas à nossa salvação presente e futura, é necessário que a fé, o respeito e a submissão à ordem sobrenatural penetrem no mundo e na alma humana, nos grandes espíritos como nos espíritos simples, nas regiões mais elevadas como nas mais humildes. A influência real, verdadeiramente eficaz e regeneradora das crenças religiosas tem essa condição. Fora daí são superficiais e muito perto de tornar-se vãs. [Guizot].

Não, a morte jamais haverá de separar para sempre, mesmo neste mundo, os eleitos que Deus recebeu em seu seio e os exilados que ficaram neste vale de lágrimas, in hac lacrymarum valle[3], para empregar as palavras melancólicas da Salve Rainha. Há horas misteriosas e benditas em que os mortos bem-amados se debruçam sobre aqueles que os pranteiam, murmurando-lhes aos ouvidos palavras de consolação e de esperança. O Sr. Guizot, esse Espírito severo e metódico, tem razão de professar:

Fora daí as crenças religiosas são superficiais e muito perto de tornar-se vãs.

Sam. (Extraído da Patrie, de 5 de junho de 1859.)



[1] REVISTA ESPÍRITA – julho/1859 – Allan Kardec

[2] Forbes Winslow – Anatomy of suicide, 1 vol. in-8o, p. 242. London, 1840.

[3] "neste vale de lágrimas"

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

ZAIRA JUNQUEIRA PITT[1]

 


 

Amélia Zaira Junqueira Pitt, filha de Modesto Antonio Pereira e Zaira Junqueira, nasceu em Rio Claro, SP, às 17 horas do dia 25 de dezembro de 1900.

Foram seus avós paternos João Antonio Pereira e Maria Engracia Pereira e maternos, Francisco Ramiro de Assis Junqueira e Amélia Pimentel de Oliveira.

Contraiu núpcias, em 24 de abril de 1930, com o baiano de origem inglesa Oswaldo Ildefonso Pitt, negociante, passando a assinar Amélia Zaira Junqueira Pitt. O casal teve uma filha e morou em São Paulo.

Foi no lar paterno que Zaira teve os primeiros contatos com o Espiritismo, através de sua mãe que realizava, no lar, o Evangelho, com a participação de todos os filhos.

Sempre se interessando pelos temas espirituais, na teoria e na prática, Zaira começou a realizar o culto doméstico, uma prática que era comum à época. Fazia leitura do Evangelho com aplicação de passes em adultos e também nas crianças.

Marcantes na sua vida foram as doenças, que afetaram seus irmãos Alfen e Francisco e cuja cura se deu através da Doutrina Espírita.

Alcançada por um câncer na coluna vertebral, aos 40 anos de idade, Zaira recorreu a cirurgias espirituais, através de um médium.  Mas, as fortes dores lhe exigiram o uso continuado, por muitos anos, de incômodo colete.

Pela força de sua grandeza espiritual e somados os acontecimentos tristes com os familiares, Zaira passou a dedicar-se intensamente à prática da caridade, chegando, em alguns momentos, ao acolhimento de necessitados em sua própria casa.

As atividades de Zaira Pitt foram muitas e multiplicaram-se, ao longo do tempo. São inúmeros os casos de pessoas carentes atendidas por sua influência, de médiuns amparados e de instituições espíritas ou de outras religiões auxiliadas.

Os familiares e amigos a observavam sempre ativa e em busca de formas de amparar seus semelhantes. Uma cadeira de rodas aqui, um prato de comida acolá; uma vaga num hospital para um doente, viabilizada com o apoio de amigos; uma ajuda financeira continuada para uma família sem condições de gerar renda...

Tudo isso se viabilizou pelo fato de Zaira, em conjunto com sua credibilidade e confiabilidade de caráter, ter arregimentado pessoas e amigos que a apoiaram. Realizando reuniões em sua residência, para estudo e prática do Espiritismo, fez amizade com inúmeros médiuns e figuras de destaque na sociedade, que, além da participação doutrinária, encampavam suas iniciativas no campo assistencial, para o atendimento aos que lhe batiam à porta ou àqueles que voluntariamente ela ia procurar.

Deixando de realizar reuniões espíritas em sua casa, por orientação espiritual, Zaira frequentou o Centro Beneficente José de Andrade, no bairro de Perdizes, uma obra que ajudou a edificar.

Entre os mecenas da obra caritativa realizada por Zaira Pitt, pode-se citar Ribeiro Branco, diretor, por longos anos, da Johnson & Johnson, que fornecia medicamentos para o tratamento dos hansenianos do sanatório de Pirapitingui. Ele se tornou seu grande amigo e era quem disponibilizava seu carro  para transportar medicamentos e mantimentos arrecadados para aquele hospital. Ribeiro Branco foi seareiro abnegado, que muito ajudou Zaira no atendimento ao pedido de Jésus Gonçalves, para a construção do Centro Espírita Santo Agostinho e do departamento para atender aos doentes visuais do Sanatório de Pirapitingui.

Maria da Conceição da Costa Neves, atriz renomada, que atuou ao lado de Procópio Ferreira e outros artistas, após deixar o teatro, enveredou pelo caminho da política e, como deputada, veio a ser a grande defensora dos direitos dos portadores da hanseníase.

Foram amigos de Zaira, Judith e Procópio Noronha, que tinha estreito contato com  Adhemar de Barros, governador do Estado, que foi acessado, vez que outra, para viabilizar atividades de caridade. Muitos outros ainda existiram como o empresário da Cerâmica Schmidt, os proprietários da Granja Vianna.

Divaldo Pereira Franco, em janeiro de 1951, ao visitar o Sanatório de Pirapitingui, pela primeira vez, foi acompanhado por Zaira, que o conhecera em uma viagem que fizera a Salvador, na Bahia, no ano anterior.

A partir daí, nas idas a São Paulo, para as palestras, Divaldo se hospedava em casa dela.

Zaira mantinha contato habitual com Francisco Cândido Xavier, tanto pessoalmente como através de portadores que levavam e traziam informações.

Entre inumeráveis personalidades importantes na vida de Zaira, merece destaque o cardiologista Dante Pazzanese, que lhe deu assistência direta e ininterrupta, em seus últimos dias na Terra. Dante organizou uma equipe médica para acompanhar diuturnamente Zaira em sua enfermidade.

Zaira desencarnou em 25 de julho de 1973.



[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=2641

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

A MELHORA DA MORTE[1]

 


Rogério Miguez

 

A expressão-título deste texto já se encontra incorporada na chamada sabedoria popular, se assim podemos nos expressar, usada corriqueiramente quando a situação se apresenta.

Não é um fenômeno comuníssimo, mas acomete vários pacientes gravemente enfermos, alguns em estado terminal, quando, subitamente, apresentam uma melhora temporária e surpreendente em seu estado de saúde antes de falecerem em seguida.

Tecnicamente conhecida por “Lucidez terminal” ou “Lucidez paradoxal”, chamou a atenção da área médica no século XIX. Observou-se, à época, a ocorrência em pacientes dementes, com doenças neurológicas ou psiquiátricas, esquizofrênicos, em casos neurológicos como tumor cerebral, abscesso etc. Há diversas hipóteses buscando explicar o fenômeno, mas nenhuma delas foi comprovada até agora, ou seja, não há consenso sobre a causa deste inusitado acontecimento[2],[3].

Como se conclui, os cientistas ainda não conseguiram equacionar esta questão, mesmo lançando mão de todos os avançados recursos tecnológicos disponíveis, para o setor médico, neste século XXI. Apesar de usar toda a experiência acumulada durante bem mais de um século, por incontáveis profissionais de diversas especialidades, o fato ainda se traduz por um mistério a despeito das várias possibilidades consideradas para explicá-lo.

Cremos que o elo faltante nestas tentativas, seja a desconsideração da alma como fundamental elemento presente no homem, na sua imortalidade e no poder dos fluidos magnéticos que todos nós podemos emitir e receber, conscientemente ou não.

O Espiritismo já informou sobre esta realidade, conforme segue, resumidamente, em caso muito interessante.

Em uma das obras da coleção “A Vida” no plano espiritual, relata o autor – André Luiz - que o paciente Dimas havido atingido o tempo final para a sua existência, contudo, sua esposa, ao seu lado, emitia forças pelo seu pensamento em desalinho que dificultavam o desenlace, pois tentava retê-lo por mais algum tempo. Diante da situação, Jerônimo e mais dois auxiliares acompanhantes de André Luiz neste aprendizado, por meio de passes longitudinais forneceram ao doente melhoras fictícias tranquilizando, assim, os parentes aflitos. Dimas abriu os olhos, trocou algumas palavras com a parentela, todos se tranquilizaram e interromperam, inconscientemente, a emissão de fluidos que o estavam mantenho ligado ao corpo físico. O médico foi chamado e solicitou a todos que deixassem o paciente em repouso absoluto. Tranquilizada pela melhora repentina do esposo, sua esposa se recolhe ao quarto abrindo as portas para que se fizesse o trabalho final encaminhando a desencarnação do doente. Finalmente, o moribundo pode desencarnar[4].

Há também mais um exemplo desta providencial medida descrita em outra obra de André Luiz.

Agora, trata-se de Fernando que havia atingido os momentos finais da existência, contudo, a aflição dos familiares encarnados presentes, emitindo, pelos pensamentos, recursos magnéticos em benefício do moribundo, tinham o poder de dificultar a ajuda do plano espiritual visando finalizar o desencarne do paciente. Chegado àquele estágio de desagregação corporal, as providências mentais dos afeiçoados eram, agora, inúteis. Sendo assim, Aniceto, o orientador de André Luiz neste outro relato delibera pela modificação do quadro de coma. Operando com sabedoria e eficácia os fluidos imateriais, em breve, o médico encarnado informou que os prognósticos haviam melhorado, inexplicavelmente. A pulsação e a respiração estavam voltando ao normal. Alguns familiares se retiraram do aposento e os fluidos prejudiciais de aflição e desequilibrados que eram emitidos ao enfermo desapareceram sem deixar qualquer vestígio. Aniceto aproveitou a serenidade do ambiente e iniciou o processo de retirada de Fernando do corpo biológico. Após longos minutos Fernando estava livre dos implementos carnais, retornando à vida verdadeira[5].

É oportuno lembrar que nem toda melhora no quadro clínico de um doente em estado terminal, implica, necessariamente, na iminência da morte. São muitas as situações possíveis e, em outros casos, a evolução positiva no estado de saúde do paciente se mantém e o doente se recupera, continuando, normalmente, a sua existência.

Importante também destacar a força do pensamento, seja para o bem, seja para o mal. E não se pretende aqui sugerir que não se deva pensar no doente, apenas lembrar que as forças mentais geradas por familiares e amigos devem ser construídas sem inquietação, ansiedade, aflição, medo; ao contrário, precisam ser elaboradas no sentido de dar ao moribundo paz e tranquilidade diante da hora final que chegou para ele e, chegará para todos.

Não sejamos egoístas ao ponto de desejar que o ser querido, em sofrimento, permaneça conosco pelos tempos afora, pois ele, antes de ser nosso prezado parente, é filho de Deus e se o Criador determinou que a hora fatal chegou para ele, digamos apenas: que se faça a vontade do Pai.


[1] O CONSOLADOR - Ano 19 - N° 952 - 7 de Dezembro de 2025 -   https://www.oconsolador.com.br/ano19/952/ca5.html

[4] XAVIER, Francisco Cândido. Obreiros da vida eterna. Pelo Espírito André Luiz. ed. 9. Rio de Janeiro/RJ: FEB, 1975 -  Companheiro libertado. cap. XIII.

[5] XAVIER, Francisco Cândido. Os Mensageiros. Pelo Espírito André Luiz. ed. 16. Rio de Janeiro/RJ: FEB, 1988. A desencarnação de Fernando. cap. 50.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

PROGRESSO NA ERRATICIDADE[1]


Miramez

 

 Espíritos errantes

Na erraticidade, o Espírito progride?

Pode melhorar-se muito, tais sejam a vontade e o desejo que tenha de consegui-lo. Todavia, na existência corporal é que põe em prática as ideias que adquiriu.

Questão 230 /  O Livro dos Espíritos

 

Na erraticidade, o Espírito estuda as leis gradativamente, de acordo com o seu interesse por elas. A consciência profunda é um livro sagrado em cujas linhas Deus escreve o estatuto que devemos respeitar, procurando vivê-lo.

O Espírito em que falta maturidade não consegue colocar em prática no mundo espiritual o que aprendeu por teoria, mas, aquele já consciente das verdades, se apura cada vez mais em qualquer lugar em que se encontra, porque, em todas as dimensões, Deus lhe dá oportunidades de melhorar, de construir o seu céu no ambiente da intimidade.

A carne é uma escola grandiosa, onde aprendemos com os recursos dos problemas, da dor, dos infortúnios, enfim, do calvário, a despertar os nossos valores, que nos ajudam a nos libertarmos das paixões perniciosas. Vejamos os grandes santos que, sofrendo todos os tipos de dor, empregam variados sacrifícios para ajudar aos outros, e nada os impede de dar exemplos de serenidade e de amor ao próximo. São luzes que Deus acende na Terra, pelas quais os sofredores de todos os tipos encontram alívio e se empenham nas mudanças íntimas, pela força dos exemplos desses missionários do Bem.

De fato, ao Espírito envolvido em fortes paixões, torna-se difícil livrar-se delas no mundo espiritual, bem como encontra mais facilidade para progredir como encarnado, pelo ambiente agressivo na Terra e pela dor que nela impera.

As religiões são meios que o Senhor usa para ajudar as almas em caminho, e com a maturidade de muitas, as bênçãos maiores chegaram com o nome de Espiritismo, a princípio muito combatido, porém, os homens pouco evoluídos não conseguem apagar o sol com um simples não. A vontade de Deus é sempre confirmada pela presença da caridade e do amor.

Os encarnados já despertos pela luz da verdade devem procurar admoestar aos que têm ouvidos para ouvir e olhos para ver acerca do Evangelho de Nosso Senhor, em Espírito e Verdade, para que essas almas comecem, ainda na matéria, a se melhorarem, e possam continuar suas reformas morais na erraticidade, pois, a luz desconhece barreiras, e não há escuridão que ela não ilumine.

Devemos enaltecer o bem dando mãos na sua vivência, pelo menos nos esforçando para tal. Quando nos modificamos por dentro, o exterior aceita o comando interno, passando a mostrar o que somos, irradiando os valores conquistados. O mundo espiritual se apresenta como escola de primeira grandeza, preparando a alma para as lutas no corpo físico, a guerra na intimidade, de modo a conhecer a si mesma e adquirir, na conquista do dia a dia, os valores que já existiam na sua intimidade, adormecidos.

O Espírito progride na erraticidade, todavia, se não tem um certo preparo, encontrará grandes dificuldades, mas, se já tem o princípio do amor aflorado no coração, esse cresce em todos os seus caminhos.

O encarnado deve aproveitar a oportunidade, pois está ficando cada vez mais difícil de se alcançar esse prêmio. O Evangelho de Jesus, bem entendido, é o Caminho, a Verdade e a Vida, como ele o fez, para que, ao chegar na erraticidade, o Espírito tenha na fronte o selo do começo da reforma dos costumes, e a luz como garantia de discípulo honesto.

O despertamento está em nossas mãos. Jesus nos espera, estendendo a destra para nos guiar em direção a Deus.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 5 – João Nunes Maia