terça-feira, 8 de setembro de 2026

CONVERSAS FAMILIARES DE ALÉM-TÚMULO – Michel François[1]

 


Allan Kardec

 

(Sociedade – 11 de novembro de 1859)

 

O ferrador Michel François, que vivia no fim do século XVII, dirigiu-se ao intendente de Provence e lhe anunciou que um espectro lhe aparecera e havia ordenado que fosse revelar ao rei Luís XIV certas coisas secretas de grande importância. Fizeram-no partir para a corte em abril de 1697. Garantem alguns que ele falou com o rei; outros, que o rei se recusou a vê-lo. O que é certo, acrescenta-se, é que em lugar de o enviarem à prisão, obteve dinheiro para a viagem e isenção de talha e de outros impostos reais.

 

1. Evocação

– Eis-me aqui.

2. Como soubestes que desejávamos falar convosco?

– Por que fazeis esta pergunta? Não sabeis que estais cercados de Espíritos que advertem aqueles com os quais desejais falar?

3. Onde estáveis quando vos chamamos?

– No espaço, já que ainda estou errante.

4. Estais surpreso de vos achar em meio a pessoas vivas?

– De forma alguma; encontro-me muitas vezes.

5. Lembrai-vos de vossa existência, quando, em 1697, sob o reinado de Luís XIV, éreis ferrador?

– Muito confusamente.

6. Lembrais da revelação que íeis fazer ao rei?

– Lembro-me de que devia fazer-lhe uma revelação.

7. Fizestes tal revelação?

– Sim.

8. Dissestes que um espectro vos tinha aparecido e ordenado que fôsseis revelar certas coisas ao rei. Quem era o espectro?

– Era o seu irmão.

9. Poderíeis identificá-lo?

– Não; não me compreenderíeis.

10. Era um homem designado pela alcunha de Máscara de Ferro?

– Sim.

11. Agora que longe nos encontramos daquele tempo, poderíeis dizer-nos qual o objetivo daquela revelação?

– Era exatamente informá-lo de sua morte.

12. A morte de quem? De seu irmão?

– Mas evidentemente!

13. Que impressão causou ao rei essa revelação?

– Um misto de tristeza e satisfação. Aliás, isto ficou provado pela maneira por que me tratou.

14. Como ele vos tratou?

– Com bondade e afabilidade.

15. Dizem que um fato semelhante aconteceu com Luís XVIII. Sabeis se isso é verdade?

– Creio ter havido alguma coisa parecida, mas não estou bem informado.

16. Por que aquele Espírito vos escolheu para tal missão, logo vós, um homem obscuro, em vez de escolher um personagem da corte, que mais facilmente se acercasse do rei?

– Fui encontrado em seu caminho, dotado da faculdade que ele queria encontrar e que era necessária e, também, porque um personagem da corte não seria aceito como revelador: pensariam que tivesse sido informado por outros meios.

17. Qual era o objetivo dessa revelação, desde que o rei estaria necessariamente informado da morte do irmão, mesmo antes de sabê-la por vosso intermédio?

– Era para fazê-lo refletir sobre a vida futura e sobre a sorte a que se expunha e que de fato se expôs. Seu fim foi maculado por ações com as quais julgava garantir um futuro que aquela revelação poderia tornar melhor.



[1] REVISTA ESPÍRITA – dezembro/1859 – Allan Kardec

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

MARIA MÁXIMO[1]

 


Cirso Santiago

 

Esse Espírito de elevada hierarquia reencarnou numa localidade denominada Rio Dades, em Portugal, no dia 14 de dezembro de 1884. Seus pais, Aurélio Augusto Mesquita de Azevedo e Ismênia de Jesus deram-lhe o nome de Maria da Piedade. Sua infância e juventude certamente ocorreram em Rio Dades. Mas dessas duas fases importantes de sua vida não há testemunhos. O que se sabe mesmo é que ela consorciou-se com o jovem Miguel Máximo e daí para frente adotou o sobrenome do esposo. Maria Máximo e Miguel Máximo eram artistas de teatro e viviam das glórias da ribalta, colhendo em Portugal e, depois, em vários outros países europeus os merecidos aplausos de plateias seletas e amantes da bela Arte Cênica.

Tornaram-se conhecidos artisticamente como o "Duo Max", cuja fama atravessou o Oceano Atlântico e chegou ao Brasil, onde empresários desse meio artístico esperavam ansiosos por novidades.

Não passara muito tempo e o "Duo Máx" desembarcara no porto de Santos. Viera contratado, a fim de se apresentar em palcos brasileiros. Tanto quanto na Europa, o casal Maria e Miguel Máximo alcançou grande sucesso aqui também. A cada uma de suas apresentações em palcos diferentes as plateias delirantes aplaudi-os de pé, demonstrando superlativo agrado.

Depois de anos de trabalho em palcos brasileiros um novo acontecimento mudou o rumo da vida do casal. O Alto convocou-os a ingressarem num outro palco da vida, em que os cenários e as plateias eram outros bem diferentes.

Por força de compromissos espirituais Maria Máximo viu-se portadora de mediunidade aflorada e percebeu logo que essa ferramenta de trabalho não lhe viera de graça. Era preciso fazer jus para mantê-la ativa e em progresso. Confabulou com o esposo sobre sua nova responsabilidade e ele, sempre dócil, aceitou também a nova tarefa como auxiliar de sua amada.

As tradicionais e amplas cortinas de veludo vermelho se fecharam. As luzes da ribalta foram apagadas e o "Duo Max" se desfaz artisticamente, mas o casamento se mostra firme como rocha de granito e eles continuam operando com a mesma alegria de sempre num outro palco: o palco da caridade. O cenário aqui representa sempre a pobreza e por vezes a miséria material e também a espiritual. As novas plateias em vez de serem compostas de criaturas abastadas que riem por qualquer bagatela, eram de criaturas sofredoras, angustiadas, embora algumas até não tivessem necessidade de ajuda material, mas eram carentes de bens espirituais, a desafiarem suas capacidades de amor, de fraternidade e paciência.

Não tiveram grandes dificuldades para se adaptarem à Arte da Caridade, mormente Maria Máximo que era mais preparada para essa tarefa. O que é justificável porque sabemos que os artistas são criaturas mais ou menos sensíveis às inspirações que lhe chegam do Alto.

Corroborando com essa assertiva, Sylvio Brito Soares diz em sua extraordinária obra: "Grandes Vultos da Humanidade e o Espiritismo", o seguinte:

O Espiritismo, e quando assim nos expressamos referimo-nos à ação dos Espíritos desencarnados, o Espiritismo, repetimos, tal como o sopro divino, se espalha por toda a parte, penetra em todas as camadas sociais, tem luz apropriada a todos os graus da inteligência humana. Ele tem sido tão necessário, como o será, por todo o sempre, à evolução dos homens, da mesma forma que o oxigênio o é para a manutenção da vida orgânica!

Não nos receamos de afirmar que os Espíritos desencarnados têm influído, continuam e continuarão influenciando os homens de ciência e os cultivadores das artes, (grifamos) muito embora grande parte desses favorecidos os desconheçam completamente, e, quando se admiram de haverem tomado esta ou aquela atitude decisiva em suas pesquisas, ou de terem ideias magníficas, atribuem, simploriamente, à sorte, à casualidade, à sua boa estrela, ou à inspiração feliz!

Sabemos, porém, que essa inspiração, boa estrela, casualidade, sorte, tudo enfim, nada mais é do que a inspiração amiga, oculta e desinteressada de nossos irmãos da Espiritualidade!

E os Espíritos que se comprazem em auxiliar seus irmãos encarnados, para que eles consigam avançar na senda do progresso e possam melhor sentir a grandeza divina, não se agastam quando os homens não reconhecem neles os seus mentores nas várias atividades a que se entregam aqui na Terra.

Como veremos na sequência desse nosso trabalho jornalístico, Maria Máximo conhecia décor e salteado essa Cartilha da mediunidade. Tanto que convenceu o esposo e largaram a Arte Cênica, embora estivessem no auge do sucesso artístico, e passaram de mala e cuia para o Proscênio da Arte Mediúnica caritativa.

Tinham consciência, entretanto, de que para exercerem bem essa nova função precisavam de um novo palco. Eis que Maria Máximo, com o apoio irrestrito do esposo, funda em janeiro de 1937, o Centro Espírita "Ismênia de Jesus", à Rua Pereira Barreto, 34, no bairro Gonzaga, na cidade de Santos, prestando, assim, justa homenagem àquela que lhe trouxe à luz deste mundo. Aproximadamente um ano após, muda a instituição para a Av. Conselheiro Nébias, n° 490.

Logo ampliam-se as condições para se ter uma sede própria ampla e confortável. Maria Máximo não vacila e vai à uma nova luta. Se envolve com uma nova construção, a fim de materializar o seu ideal de sede própria. E em dezembro de 1939 inaugura, com seus companheiros da época, a sede própria na Rua Campos Melo, n° 312, com um salão para 600 pessoas e um berçário, em que ela acolheu de imediato mais de vinte crianças abandonadas.

O Centro Espírita "Ismênia de Jesus" , a partir dessa época recebe um cognome muito especial e adequado à sua característica social: " Casa dos Pobres", até hoje mantido gravado no cimento em sua fachada.

Tudo isso para muitos já era o suficiente para trabalhar muitos anos e certamente bastava. Mas, para Maria Máximo era os primeiros passos da caminhada contratada no mundo espiritual. Por isso mesmo seu espírito empreendedor e sua vontade de solidarizar-se com o sofrimento alheio queria mais, muito mais...

Eis que em 1941 vamos vê-la inaugurando no mesmo terreno ampla cozinha e um refeitório com 225 metros quadrados, onde passa a distribuir alimentos preparados a mais de 150 pessoas, diariamente. Essa iniciativa venceu o tempo e continua até hoje, sem interrupção de um só dia, desde 24 de agosto de 1941.

Maria Máximo, como vemos, não se limitou tão somente à parte doutrinária e nem tampouco estacionou na tarefa mediúnica. Sua força empreendedora inesgotável estava sempre sondando novas formas de servir. Sentiu o drama da infância abandonada e dos famintos desesperançados e olhando mais longe percebeu que não bastava dar-lhes o peixe. Era necessário e mais produtivo ensinar-lhes o manejo da pesca, mormente à juventude que vinha florescendo... E a Educação saltou de imediato sob seus olhos atentos. Estava definida sua nova vereda de ação comunitária. No dia 7 de setembro de 1944, um novo prédio de três andares, com 1.200 metros quadrados era inaugurado no terreno da Av. Conselheiro Nébias, 425, onde passou a atender mães solteiras carentes. Três anos depois seria instalada nesse mesmo prédio a Escola Espiritualista "Ordem e Progresso", que mantém os cursos Pré-Primário, Primário e o Segundo Grau.

Em fevereiro de 1947 a Prefeitura Municipal de Santos expediu o alvará de habitabilidade de n° 45. Em março do mesmo ano, o Prof. Alcides Hipólito Luiz Alves, como Diretor do Colégio "Ordem e Progresso" recebeu a Professora Maria José Gomes, a qual foi contratada para ser regente do Colégio. Ainda no mesmo mês de março chegou a Autorização n° 358 de funcionamento da Escola. A mesma foi entregue pelo então Delegado Regional do Ensino, o Sr. Luiz Damasco Pena e expedida pela então Secretaria dos Negócios da Educação e Saúde Pública. A autorização manteve os Cursos Pré-Primário, Primário fundamental. A liberação do Curso Colegial veio tempos depois. E no dia 10 de abril de 1947, acontecia festivamente a Aula Inaugural da Escola.

Nos últimos 56 anos, a Escola "Ordem e Progresso" participou de Campanhas, Cursos e atividades municipais, estaduais, e internacionais, sempre com destaque, enfim, integrou-se completamente à comunidade santista. Recebeu diplomas de Mérito, como aconteceu na Campanha de Defesa das Utilidades públicas e Privadas, ocorrida em dezembro de 1967. Bem como na Comemoração da Semana do Exército também efetivada em 1967. E na exposição de Desenhos da Enciclopédia Britânica do Brasil, em 1994 e na Segunda Micro Bienal Santista do livro acontecida em 1995 entre outras.

Na atualidade, essa Escola possui mais de quinhentos alunos, distribuídos da 1ª a 8ª séries. Possui laboratório e sala de vídeo, destinada às aulas de Audiovisual. Tem uma boa estrutura técnico-pedagógica. Suas vagas são muito disputadas, pois, além de tudo, tem o privilégio de ser uma das melhores escolas da cidade de Santos. E já formou mais de 12 turmas da oitava série.

 

Histórico da Instituição "Ismênia de Jesus"

Localizada na Rua Campos Melo, 312, em Santos, SP- Telefone: (13) 3233- 3095 ocupa uma área de 6.000 metros quadrados, com os seguintes Departamentos: Centro Espírita Ismênia de Jesus, que divulga a Doutrina Espírita através de várias atividades doutrinárias e sociais, todos os dias. A "Casa dos Pobres, que serve sopa diariamente, sem interrupção. A Creche que assiste e educa cerca de 300 crianças diariamente. O Colégio, que atende mais de 500 alunos do Pré-primário, do 1º e do 2º Graus, entre outros departamentos coadjuvantes. Há ainda a Subsede em Ribeirão Pires, construída numa área de 287.800 m2 à Rua Cap. José Galo, 1074 e 1514 -Telefone: (11) 4828-3103 , onde funciona um centro espírita, denominado também "Ismênia de Jesus", que mantém semanalmente reuniões doutrinárias, assistência espiritual, cursos e palestras, e o Lar Escola "Ismênia" de Jesus, onde cerca de 50 crianças socialmente carentes recebem, diariamente, refeições e orientações educacionais. Uma administração inteligente e enxuta consegue acionar e manter todo esse trabalho com um custo entre 130 a 140 mil reais/mês. A Subsede, com 1.800 metros quadrados de construção tem um Diretor autônomo, o Sr. Wilson Gonçalves Couto, 56 anos, espírita de berço, que é apoiado por sua esposa, a Sra. Vera Lúcia Couto que ocupa o cargo de Secretária. Ali, também, funciona uma Granja, em que são produzidos ovos, e hortaliças para uso da instituição em geral.

Maria Máximo administrou sua obra enquanto teve forças para tal empreitada. Realizou muito numa época de crise nacional e internacional, 1939 a 1945, período em que se desenvolveu na Europa a Segunda Grande Guerra. Além de tudo não podemos esquecer que naqueles tempos a mulher era muito discriminada não só pelo sexo masculino, mas também pela Sociedade como um todo. A mulher era educada para o casamento, cuidar do lar, dos filhos e do esposo. Qualquer voo mais alto que quisesse alçar já lhe cortavam as asas. Maria Máximo rompeu tudo isso e nos legou uma belíssima Obra, onde o trabalho doutrinário e social de qualidade vem se desenvolvendo há tantos anos consecutivos.

A preocupação com os sofrimentos alheios empurrava-a sempre para novas iniciativas. Um trabalho dessa envergadura certamente fora programado em paragens espirituais e obedecia vontades superiores e a nossa biografada recebia o apoio e orientações de seu guia espiritual, do Espírito "Pai Aurélio", que fora seu genitor, o Dr. Aurélio Augusto de Azevedo. Esse ex-médico português, segundo palavras de sua filha, incentivava-a constantemente, dizendo-lhe que o "Banco da Misericórdia Divina não a deixaria sem recursos para a Obra e que os mesmos apareceriam de forma inesperada", instando-a sempre a construir e prosseguir confiante e segura.

Maria Máximo, mulher bondosa, inteligente, médium clarividente, audiente, psicógrafa, de desdobramento, de transfiguração, de psicofonia e de excepcional capacidade curadora, atendia diuturnamente as pessoas que a procuravam, vindas de toda parte, algumas de muito longe. Oradora inspirada, era ouvida por grande assistência em absoluto silêncio. Pessoas das camadas sociais mais simples até as de grande cultura e elevada posição social e financeira, buscavam-na sequiosos de esclarecimentos e consolo.

A assistência material e a assistência espiritual multiplicaram-se em número e grau e ocupavam o tempo de Maria Máximo integralmente. Ela dispensava qualquer sugestão de descanso e se dedicava a esses trabalhos de corpo e alma, como se diz entre nós, os brasileiros. Essa benfeitora era uma rocha granítica e não se deixava abater espiritualmente, reciclando suas forças nas necessidades alheias, esquecida de si mesma. Mas, como sabemos, o tempo não perdoa ninguém. Maria Máximo, como qualquer mortal, também foi envelhecendo e apesar do seu espírito lutador, o seu corpo físico foi sentindo a luta exacerba e continua, a ponto de trazer preocupações a muitos de seus companheiros de trabalho que começaram a pressioná-la para que repousasse, a fim de recuperar as energias orgânicas. Ela, no entanto, ainda que polidamente, rechaçava toda e qualquer sugestão que lhe fizessem nesse sentido. O mais aconselhável, então, era apelar para alguém de respeitabilidade que pudesse persuadi-la de que o trabalho é importante, mas o descanso em qualquer área de atividade não é indispensável.

Maurício de Jesus Mariano, então Primeiro Secretário da Diretoria Executiva enviou uma carta ao médium Francisco Cândido Xavier (Chico Xavier), em que noticiava, entre outras coisas: "Nossa irmã Maria Máximo está muito enfraquecida em sua matéria, rogai a Jesus para que a fortifique e muito particularmente vos peço, lhe aconselheis bastante repouso, que é o que ela mais necessita e à única coisa que se torna rebelde, apesar das muitas recomendações de Pai Aurélio (seu guia espiritual)”. A carta de Mariano foi escrita no dia 19 de janeiro de 1946. Eis que no dia 26 do mesmo mês ela mesma em carta que enviou ao Chico Xavier, com quem mantinha correspondência e visitas pessoais, diz: "Quero pedir-te um grande favor que, por certo não me negarás. Pai Aurélio pede-me repouso, Dr. Carneiro, pede-me repouso, mas as mensagens que recebo são sempre estímulo ao trabalho e, como sabes, sou filha carnal de Pai Aurélio, pedia-te orientação dada por Emmanuel, para sossego de meu espírito, pois não sei se estou obedecendo ou desobedecendo."

Há de se compreender que ela estava consciente do seu desgaste físico e também sofria preocupações, mas acima de tudo para ela estava o seu dever cristão. Assim, tornava-se-lhe irrelevante o sofrimento imposto pela enfermidade. Lutava pelo seu idealismo: servir sempre, impugnando o descanso, que se aceitasse seria muito merecido. Como se fizesse uma viagem em águas rebuliças, remava o quanto podia para vencê-las até mesmo além de suas forças, a fim de não deixar de atender a tudo e a todos.

Esta é Maria Máximo! A grande Obreira da Caridade, que atuou, por tantos anos a fio na cidade de Santos, com denodo incomensurável, como excelente médium consoladora e de cura. Trabalho este, que apesar de ser gratificante, espiritualmente considerando, é muito árduo e desgastante, pois as necessidades vinham de todas as partes, em avalanches bater à sua porta.

O agravamento progressivo e acentuado de seu estado físico levou seus parceiros de luta e de ideal espírita/cristão a transferi-la para a Granja "Fé, Esperança e Caridade", propriedade deveras agradável do "Ismênia de Jesus", localizada na hoje Estância de Ribeirão Pires, onde as crianças assistidas por ela no Internato de Santos, passavam suas férias.

Afastando-a do palco das lutas mais acerbas, obrigaram-na a aceitar o repouso por ela tão adiado e tão necessário. Conseguiram, em parte, o intento, pois mesmo distante 60 quilômetros de Santos, Maria Máximo arrumou um jeito de dar continuidade ao seu trabalho em benefício dos desvalidos. Ela passou a frequentar a reunião de desobsessão no centro espírita local, em que atendia os espíritos sofredores, que compareciam espontaneamente em busca de consolação, ou eram trazidos por bons samaritanos espirituais, a fim de que ouvissem a tertúlia evangélica e fossem esclarecidos quanto à sua situação de desencarnados e convencidos a tomarem outros rumos em suas caminhadas. Aí também seu canal mediúnico era usado pelos mentores espirituais que eram pródigos em incentivar o grupo a se manter unido e dar continuidade à tarefa normal, houvesse o que houvesse. Nesse "exílio" a nossa expoente permaneceu dois anos, sem jamais deixar de cumprir seu missionato um dia sequer.

Intimorata, cheia de fé ela foi em frente até que seu corpo físico depauperado entregou os pontos. Aos 10 de agosto de 1949 o seu coração, que tanto amor dispensou por onde passara, parou. A luta, a perda do esposo, que desencarnou em 24 de agosto de 1940, separação forçada, que muito a abateu, pois entre eles havia um companheirismo verdadeiro, que os uniu como artistas e também no palco denominado, por ela com muito carinho de Casa Espírita "Ismênia de Jesus. Outras razões houveram para o seu enfraquecimento: o excesso de trabalho e as incompreensões que sempre impõem barreiras ao trânsito dos verdadeiros missionários, que agem em nome de Deus e de Jesus. Na chácara "Esperança e Caridade", em Ribeirão Pires, onde cumpria repouso forçado, ninguém poderia imaginar que dentro em pouco ela retornaria para despedir-se dos fiéis companheiros.

Enquanto alguns irmãos presentes na hora de sua passagem para o "outro mundo", tudo faziam para reanimá-la, os amigos espirituais preparavam-na para dar sua primeira comunicação após o desencarne.

Não fazia ainda duas horas que seu coração havia parado e eis que ela se serve de um companheiro médium que estava no local e foi logo dizendo: "Minha carta de alforria chegou". E despediu-se confortando e encorajando os companheiros a continuarem a zelar pela sua plantação.

Pela força de seu Espírito, pelo vigor do seu ideal, pelo seu desprendimento e trabalho, sua Obra continua e continuará a produzir frutos sazonados e em quantidade admirável!

A título de ilustração, narremos aqui um caso insólito, mas muito positivo proporcionado pelos recursos mediúnicos de Maria Máximo, quando ela ainda estava na cidade de Santos à frente do Centro Espírita "Ismênia de Jesus". Ela teve necessidade de ausentar-se da instituição por algum tempo e deixou a Casa por conta de alguns dos seus colaboradores. No retorno, ela encontrou na Secretaria um cheque de alto valor, que um senhor deixara lá como doação. Maria Máximo, acostumada a lidar com doações que chegavam à instituição, encabulou-se diante do referido cheque e se pôs a matutar... Após raciocinar e investigar sobre o doador, concluiu que ele, talvez, tivesse se enganado na hora de preencher o cheque e resolveu procurá-lo, a fim de esclarecer aquela doação altíssima.

No dia seguinte, bem cedo, ela seguiu, com alguns auxiliares, para a Capital à procura do misterioso doador de tão significativo valor.

Em bela mansão, localizada num dos bairros mais importantes da cidade de São Paulo, Maria Máximo e seus acompanhantes foram recebidos cortesmente por um cidadão bem posto, barba bem feita, cabelos alinhados, apresentando na altura das têmporas respeitáveis cãs. Era o mesmo que esteve no Centro Espírita "Ismênia de Jesus", conforme atestou um dos seus acompanhantes. A visitante se apresentou e explicou a razão de sua visita ao dono da mansão.

O Cel. Adindo Ribeiro solicitou-lhe que entrasse em sua casa e lá dentro manifestou sua alegria por ver tanta honestidade numa pessoa que tinha tanto o que fazer com os recursos monetários que chegavam à sua instituição. Depois de dizer isto, pediu-lhe o cheque e olhando-o disse com tranquilidade: "Não houve engano nenhum. Eu quis doar realmente este valor à sua instituição. Leve-o de volta e aplique-o como quiser!"

Maria Máximo agradeceu a generosidade do Cel. e já se preparava para despedir-se dele, quando o Pai Aurélio lhe surpreendeu com o seguinte recado:

- "O cheque foi só uma desculpa que encontramos para que você pudesse adentrar nesta mansão, onde há um jovem manietado em camisa-de-força, esperando o socorro da sua faculdade mediúnica..."

Maria Máximo incontinente revelou ao Coronel o que acabara de ouvir de seu guia espiritual. Ele, como era de se esperar, espantou-se e pensou: "Como ela soube desse meu segredo?" Pois, ele, realmente tinha um filho completamente louco confinado num dos cômodos da mansão, sob os cuidados ininterruptos de dois enfermeiros. Mas isso não era do conhecimento público, pois sendo ele um homem rico e político influente não podia expor essa chaga familiar ao conhecimento alheio. Hoje pode parecer estranho a alguns dos nossos leitores que um pai mantivesse sob seu teto um filho nessas condições. De fato é estranho e até mesmo pouco cristão. Ocorre que naquela época e até bem mais tarde no Brasil os hospitais para tratamento de doentes mentais, os chamados manicômios eram raros. Nós mesmos, na infância testemunhamos um caso semelhante. Um filho, o Sr. Pedro Rocha, que mantinha sua própria mãe reclusa num quarto, onde ela era assistida inclusive por um médico.

Diante daquele homem agitado, Maria Máximo não perdeu tempo e acionada por Pai Aurélio, pediu permissão para visitar tal criatura. O Cel. se mostrou reticente e logo esclareceu que isto era arriscado, porque o rapaz era muito agressivo. Em franca obediência ao seu Guia, ela continua insistindo até ser liberada pelo receoso pai.

Chegando ao quarto em que o moço está confinado, o Coronel chama os enfermeiros e lhes recomenda atenção porque àquela mulher quer ver o enfermo, embora ele já tenha prevenindo-a dos riscos que estaria sujeita. A porta é aberta e ela vê-o, manietado pela camisa-de-força encolhido num canto do cômodo, olhos arregalados, cabelos ouriçados, semelhante à uma fera. Maria Máximo solicita que os enfermeiros o libertem da camisa-de-força. Eles obedecem e ela destemida vai se aproximando do rapaz... Era como a força dos seus olhos o mantivesse imóvel. A cena, apesar de dramática, era comovente para quem não duvidava da misericórdia do Pai. Maria Máximo estende as mãos sobre a cabeça do jovem e esse se estrebucha e diz algumas coisas desconexas. Ela continua dispensando-lhe os recursos terapêuticos do Passe e dentro de alguns instantes o rapaz levantou-se, demonstrando estar consciente e senhor do seu corpo físico. Maria Máximo conversou com ele por alguns minutos e despediu-se, desejando-lhe toda a felicidade do mundo. Bastou-lhe aquele abençoado passe para que sua obsessão virasse apenas uma boa história para ser contada às novas gerações...

O Coronel Arlindo Ribeiro do Amaral, vendo seu filho completamente curado, tornou-se grande amigo da médium Maria Máximo e de sua instituição. Amplamente agradecido aproxima-se ainda mais da Obra de Maria Máximo, em Santos, e passa a injetar ali mais dinheiro. Agora mais integrado à instituição, verificou o quanto se lutava lá dentro para desenvolver as atividades beneméritas. Preocupado com a perenidade dessas atividades, vendeu uma de suas fazendas e depositou o dinheiro dessa venda no Banco do Brasil, que aplicava todo o capital e repassava, mensalmente, os juros à Entidade "Ismênia de Jesus".

Em Ribeirão Pires, o Cel. Arlindo Ribeiro do Amaral adquiriu uma gleba e doou à Instituição "Ismênia de Jesus". Mais tarde ele comprou de sua própria filha a propriedade vizinha e presenteou, mais uma vez, a essa instituição. Na Escritura definitiva foram juntadas as duas propriedade que somam alguns alqueires, onde depois foi erigido o Centro Espírita "Ismênia de Jesus", nº 2. Diversas vezes o Cel. Arlindo Ribeiro do Amaral deu dinheiro sonante à Maria Máximo, recomendando-lhe que comprasse propriedades em Santos.

O amigo leitor, deve estar questionando: "Por que esse Coronel abrira sua "burra" tantas vezes, à Maria Máximo. Seria somente pela cura filho?"

Bem, essa é uma razão fortíssima para justificar a bondade desse político/militar. Contudo, sua atitude em relação ao "Ismênia de Jesus" não deixa de ser intrigante. Mais à frente, veremos que sua vocação benemérita tinha muito a ver com o seu passado arbitrário e delituoso.

 

Revelações póstumas

Conforme preceitos da Doutrina Espírita, tudo no universo se encadeia. Nada há independente. Do mais ínfimo ser até o mais amplo corpo celeste são partes de uma mesma esteira evolutiva que avança em direção ao infinito, regida por leis divinas. Olhando por esse prisma doutrinário, nós, espíritas, admitimos a evolução do Espírito através das existências múltiplas neste mundo material e em muitos outros, sempre formando e reformando grupos afins.

Embasado nesses conceitos, o Sr. Camilo Lourenço, presidente da Instituição Espírita "Ismênia de Jesus" diz que na Instituição há arquivadas informações mediúnicas seguras de grande importância para o movimento espírita, a saber:

§  Primeira informação: Maria Máximo era a Dona Domitila de Castro Canto e Melo reencarnada - a Marquesa de Santos (1797 -1867).

§  Segunda informação: O médico Aurélio Augusto Mesquita de Azevedo, genitor de Maria Máximo (Pai Aurélio) fora a reencarnação de Dom Pedro I - o Infante.

§  Terceira informação: Ismênia de Jesus, genitora de Maria Máximo fora a reencarnação da Imperatriz Leopoldina.

§  Quarta informação: O coronel Arlindo Ribeiro do Amaral, no tempo do Império no Brasil fora um político influente e desonesto, que aproveitando-se de sua posição política confiscou muitas propriedades de Dona Domitila de Castro Canto Melo - a Marquesa de Santos, que mais tarde se apresentou na Terra como Maria Máximo. É o mesmo Espírito em duas roupagens carnais diferentes, em épocas distintas.

De modo que o Cel. Arlindo Ribeiro do Amaral, reencarnando-se na mesma época que Domitila reencarnou como Maria Máximo, reviu o seu passado delituoso e se justificou perante a Lei de Deus, devolvendo à Maria Máximo tudo que havia roubado da Marquesa de Santos, ou seja ela mesma.

Como disse Jesus, nada sobre a Terra fica encoberto e nem impune perante as leis divinas. O que por direito for de um homem, por justiça retornará a esse mesmo homem, ainda que por vezes demore séculos...

Não foi sem razão que os espíritas franceses mandaram gravar no frontispício do túmulo do mestre Allan Kardec, localizado no Cemitério Pere Lachaise, em Paris, a seguinte frase:

"Nascer, morrer, renascer e progredir sempre. Essa é a lei".

A imperatriz Leopoldina - Arquiduquesa da Áustria, Leopoldina casou-se por procuração com o príncipe D. Pedro I e, a caminho do Brasil, ficou retida na Itália por causa do movimento revolucionário em Pernambuco. Recusou-se a voltar para Viena e insistiu em juntar-se ao marido para a seu lado correr os riscos do momento revolucionário.

Carolina Josefa Leopoldina, que no Brasil passou a usar os nomes de Leopoldina e Maria Leopoldina, imperatriz do Brasil, nasceu em Viena. Áustria, em 22 de janeiro de 1797. Era filha do imperador Francisco I da Áustria e II da Alemanha, da casa real dos Habsburgos, e de D. Maria Isabel de Bourbon Nápoles. Sua união com o príncipe português resultou de conversações diplomáticas no Congresso de Viena.

Muito culta, D. Leopoldina interessava-se especialmente por botânica e promoveu a vinda ao Brasil de naturalistas europeus como Von Martius e Von Spix. Em agosto de 1822 exerceu a regência do Brasil quando o marido, por razões políticas, seguiu para São Paulo, onde proclamou a Independência. Teve seis filhos, entre eles, D. Pedro de Alcântara, que subiu ao trono como D. Pedro II. D. Leopoldina morreu no Rio de Janeiro em 11 de dezembro de 1826, em consequência de parto prematuro. Seus restos mortais repousam no monumento do Ipiranga em São Paulo.

Domitila de Castro Canto e Melo - a Marquesa de Santos - Nasceu em 27 de dezembro de 1797. Seu pai era João de Castro Canto e Melo, coronel reformado e primeiro visconde de Castro. Ela casou-se em 1813, aos 16 anos com o alferes Felício Coelho Pinto de Mendonça, com quem teve três filhos. Entretanto, teve o seu casamento anulado em 1849 por interferência real. Motivo: durante dois anos houveram muitas brigas violentas, todas motivadas pelo ciúme, ela recebeu duas facadas na perna e ele sumiu.

Em agosto de 1822, pouco antes da proclamação da Independência, o então regente do reino do Brasil, D. Pedro I realizou uma viagem à cidade de São Paulo, tendo conhecido Domitila, que quando sorria enlouquecia os jovens do seu tempo. Ela era uma morena perturbante! Bem formada de corpo e de rosto, tinha olhos profundamente negros e o olhar esperto e malicioso. Os cabelos também negros, com as pontas encaracoladas. O rosto brejeiro e róseo, a boca carnuda e vermelha, muito úmida, possuía uma covinha em cada lado. Segundo os cronistas da época, os jovens se esmurravam por ela em público, era um verdadeiro escândalo, brigavam até na missa.

Logo depois da proclamação da Independência, D. Pedro I a levou para a corte, onde viveu durante sete anos. A favorita de D. Pedro I residiu até 1829 junto ao paço de São Cristóvão, num palacete que foi adaptado e decorado pelo artista Francisco Pedro do Amaral e doado pelo imperador à Domitila.

Introduzida na corte como primeira dama da imperatriz Leopoldina, Domitila recebeu o título de viscondessa de Santos em 1825. No ano seguinte foi elevada a marquesa.

Da ligação amorosa com D. Pedro I, Domitila teve quatro filhos: Isabel Maria Alcântara, nascida no Rio de Janeiro em 23 de maio de 1824, a qual foi dado o título de duquesa de Goiás; Pedro, que morreu na infância; Maria Isabel, que também desencarnou prematuramente e uma outra Maria Isabel, que nasceu em São Paulo, em fevereiro de 1830, após o rompimento dos pais. Esta última Maria Isabel tornou-se, depois do casamento, condensa de Iguaçu. De todos seus filhos legítimos, D. Pedro I preferia a Duquesa de Goiás. Tanto é que no seu testamento recomendou-a aos cuidados da imperatriz Maria Amélia, que a enviou para estudar em colégios de Paris e Munique. Maria Isabel casou-se em 1843 com Ernesto Ficher, conde de Treuberg e deixou numerosa descendência.

A presença de Domitila na corte após a morte da imperatriz Leopoldina criava dificuldades para o casamento de D. Pedro com dona Maria Amélia. Em 1829, Domitila e o imperador romperam o romance e ela voltou para São Paulo. Possuindo considerável fortuna, Domitila passou a viver maritalmente com Rafael Tobias de Aguiar, um dos homens mais ricos da região e destacado político liberal, com quem teve seis filhos, mas eles só casaram de fato em 1842.

Domitila, pelo que consta era uma mulher que despertava grandes paixões e sua fortuna crescia na medida em que se unia a outro homem. Gerou treze filhos e enviuvou-se em 1857, ainda mais rica. A História lhe faz justiça registrando que ela foi uma grande benemérita, virtude esta que se exacerbou quando ela viveu novamente na Terra como Maria Máximo. Domitila morreu em São Paulo, no dia 3 de novembro de 1867.



[1] https://memoriaespiritual.blogspot.com/2012/12/maria-maximo-grande-mentora-da-caridade.html

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

VIVER NO MUNDO SEM A ILUSÃO DA FALSA SANTIDADE[1]

 


 Marco Milani

 

Uma das distorções mais persistentes da religiosidade é transformar espiritualidade em aparência de santidade. Em vez de estimular consciência, responsabilidade e transformação moral, alguns passam a valorizar hábitos exteriores, modos de vestir, formas de falar e escolhas privadas como sinais de elevação espiritual. Mais grave é quando dirigentes ou trabalhadores religiosos assumem para si o papel de determinar como os outros devem viver.

Essa postura é incompatível com o princípio espírita da liberdade de consciência.

Em O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo XVII, a mensagem “O Homem no Mundo” rejeita a ideia de uma vida mística afastada da realidade social. O espírita trabalha, constitui família, administra seus bens, convive socialmente, diverte-se e faz escolhas próprias da condição humana.

A espiritualização não exige representar o papel de santo.

O problema moral não está, necessariamente, em frequentar determinados ambientes, usufruir lazer, possuir bens, escolher uma forma de vestir ou decidir o que colocar no próprio prato. A questão está no uso da liberdade, no respeito ao próximo e na responsabilidade pelos próprios atos.

Essa distinção deveria ser elementar nos centros espíritas.

O dirigente pode organizar a instituição, estabelecer regras para suas atividades e exigir dos trabalhadores o cumprimento de compromissos assumidos. Mas autoridade administrativa não significa autoridade sobre consciências. O dirigente espírita não é diretor da vida privada dos colaboradores e frequentadores.

Por isso, é especialmente inadequado quando alguém se sente autorizado a interrogar ou censurar a vida privada de alguém “em nome do Espiritismo”.

Esse comportamento é contraditório quando parte de quem afirma defender liberdade e fraternidade. Vigiar o outro pode revelar justamente aquilo que o Espiritismo recomenda combater: orgulho, presunção moral e intolerância.

Em O Livro dos Espíritos, nas questões 836 e 837, verificamos que ninguém tem o direito de criar obstáculos à liberdade de consciência de outra pessoa e, ainda, que constranger alguém a agir contra aquilo que pensa favorece a hipocrisia.

A advertência é direta. Se uma pessoa modifica exteriormente sua conduta apenas para evitar censura ou reprimenda dentro de uma instituição, não houve transformação moral. Houve submissão social.

Kardec também afirma que a convicção não se impõe. O papel de quem esclarece é apresentar princípios, argumentos e consequências. A decisão pertence ao indivíduo.

Isso não significa relativismo moral. Liberdade de consciência não quer dizer que todas as ações sejam equivalentes. O Espiritismo oferece critérios para a conduta: justiça, caridade, responsabilidade, respeito ao próximo e combate ao egoísmo e ao orgulho. Mas existe enorme diferença entre orientar e controlar.

A exigência moral deveria dirigir-se prioritariamente a nós mesmos. Para os outros, deveriam prevalecer respeito, compreensão e persuasão.

Infelizmente, algumas comunidades religiosas fazem o contrário. Demonstram tolerância com as próprias imperfeições e rigor na fiscalização dos hábitos alheios. Assim nasce a falsa santidade: cria-se um modelo exterior de pessoa espiritualizada e passa-se a medir os outros por ele.

Uma pessoa pode falar suavemente, aparentar fraternidade e ser profundamente intolerante. Pode seguir normas sociais e alimentar orgulho, vaidade ou desejo de domínio. Pode vigiar as ações alheias e descuidar da própria agressividade.

Kardec oferece outro critério: reconhece-se o verdadeiro espírita por entender os princípios e valores doutrinários e colocá-los em prática pela transformação moral e pelos esforços para domar as más inclinações. O foco está no trabalho sobre si mesmo, não na vigilância sobre os demais.

O centro espírita deve ser espaço de estudo, reflexão, convivência fraterna e desenvolvimento da autonomia moral. Não deveria produzir pessoas dependentes da aprovação de dirigentes para decidir como viver, votar, vestir-se, divertir-se ou alimentar-se.

Dirigentes espíritas possuem responsabilidades, não superioridade espiritual. Podem coordenar atividades e oferecer orientação. Não receberam mandato para governar escolhas privadas.

Quem procura o Espiritismo não entrega sua liberdade moral ao entrar pela porta de um centro. A Doutrina esclarece. A consciência decide. A pessoa responde por suas preferências e atos.

O Espiritismo não fabrica santos aparentes. Contribui para formar pessoas mais conscientes, responsáveis e moralmente melhores.

E quem realmente compreende a liberdade de consciência deveria preocupar-se menos com a vida dos outros e muito mais com o governo de si mesmo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

REFORMAS DAS LEIS[1]

 


Miramez

                                                                                                                   

 Progresso da legislação humana

Como poderá o homem ser levado a reformar suas leis?

Isso ocorre naturalmente, pela força mesma das coisas e da influência das pessoas que o guiam na senda do progresso. Muitas já ele reformou e muitas outras reformará. Espera!

Questão 797 / O Livro dos Espíritos

 

Já foi dito em muitas mensagens de diversos Espíritos que somente Deus dirige e assiste a Sua Criação. Os homens nada fazem sem permissão da Divina Bondade. A reforma das leis humanas se processa de acordo com o progresso dos homens. À medida que as almas melhoram, as leis vão tomando novos cursos, como meios de corrigir e orientar as criaturas.

Usando o raciocínio, é fácil concluir que não se podem fazer leis perfeitamente espiritualistas, nas bases do amor e da caridade, para aquela que hoje se entende como uma geração perversa. Ela não iria entender os objetivos desse amor que somente os anjos vivem, por estarem libertos do orgulho e do egoísmo. As leis dos homens são analisadas pelos Espíritos antes que se transformem em decreto, porque antes que os homens sintam a necessidade de fazerem essas leis, a espiritualidade superior já havia se preparado para tais empreendimentos. Devemos desejar somente o bem das criaturas, mas sabermos esperar a sua maturidade, sem aflição.

Enquanto houver na Terra almas violentas e primitivas, ou ainda ligadas ao primitivismo, as leis acompanham seus sentimentos, por justiça. Ao Espírito mais elevado que se dispõe a ajudar as criaturas, ainda que com a própria vida, a humanidade sempre cobra caro, pela incompreensão dos que vivem ligados à Terra e tomando posse dela na ilusão de uma felicidade passageira.

Vejamos o que aconteceu com o Mestre dos mestres, o maior doador de todos os tempos, que se entregou ao sacrifício para ganhar as almas e segui-las em todos seus lances de vida, ajudando-as pacientemente:

 

E os que prenderam a Jesus, o levaram à casa de Caifás, o Sumo Sacerdote, onde se haviam reunido os escribas e os anciãos.

Mateus, 26:57

 

Não é preciso descrever o que aconteceu; onde se reuniam os escribas e os anciãos do Sinédrio, o Mestre foi testado por todos os meios que a ignorância pode ativar nos corações empedernidos no mal. Por quê? Porque Jesus era a lei divina, representava o Pai do Céu e trazia para os sofredores melhores dias. No entanto, Ele cumpriu a Sua missão de amor e deixou a sede de reforma em todos os corações, ainda que não compreendessem a ciência do Cristo, que falava usando pouco o verbo, que amava mesmo em silêncio,, que curava sem usar os medicamentos, que alimentava os famintos sem comprar nos armazéns e vestia os nus com a sua presença, revestindo-os com as roupagens dos sentimentos elevados.

Jesus veio à Terra não somente para reformar as leis humanas, mas para mudar tudo na face do planeta e deixar, como o fez, o traço de esperança em todos os corações, esperança de que existe o Céu onde todos podem herdar o seu lugar, porque a porta da felicidade existe na consciência de cada um.

As reformas das leis humanas não se processam com violência; elas têm um seguimento gradativo, de acordo com a elevação dos habitantes da Terra. Quem, de boas intenções, deseja implantar leis como se a Terra fosse um mundo venturoso, também não o consegue, porque tanto o povo sofre com as trevas, como com a luz em demasia. Lembremos Paulo, que nos concita a dar graças em tudo, porque a filtragem das leis humanas está sob os cuidados de Deus, através dos Seus agentes de luz. Não nos esqueçamos desta verdade que se irradia em todos os mundos.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 16 – João Nunes Maia

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

PESQUISA PSI NA FRANÇA[1]

 


Renaud Evrard

 

O interesse francês pelo psi aumentou repetidamente nas fronteiras da medicina, psicologia e crença espiritual, para depois recuar sob pressão disciplinar. Do magnetismo animal de Mesmer ao Institut Métapsychique International, a tradição combinava teorias ambiciosas, observação clínica e esforços periódicos para garantir legitimidade científica duradoura.

§  O magnetismo animal e a hipnose deram às primeiras pesquisas francesas sobre psi um caráter médico e terapêutico.

§  O Institut Métapsychique International, fundado em 1919, ajudou a criar um importante centro de pesquisa entre guerras para psi.

§  Apesar de pesquisadores notáveis, o psi nunca garantiu um lugar institucional estável na psicologia acadêmica francesa.

 

Magnetismo Animal (1784–1842)

Pesquisas de psi surgiram pela primeira vez na França no século XVIII, à medida que crescia o interesse em fenômenos associados ao magnetismo animal. De acordo com essa ideia, promovida pelo médico alemão Franz Anton Mesmer, os seres vivos são influenciados por uma força ou fluido misterioso. Mesmer desenvolveu a ideia como cura para doenças mentais e físicas, e isso posteriormente se tornou fonte de inúmeras correntes de pesquisa e terapia psicodinâmica.

Um discípulo de Mesmer, o Marquês de Puységur, descobriu uma condição particular que ele chamou de 'sonambulismo artificial', um estado mental especial entre a vigília e o sono, no qual uma pessoa pode mostrar 'lucidez' em relação a assuntos além dos limites da percepção normal, sem lembrar nada do que aconteceu ao retornar à consciência normal. Isso foi chamado de 'lucidez magnética' ou 'lucidez sonâmbula'. O termo 'lucidez' é equivalente ao termo inglês clarividência; investigadores britânicos e americanos mais tarde se referiram ao estado 'sonâmbulo' como 'transe'.

A clarividência foi um tema controverso nos círculos científicos desde o período pré-revolucionário até o final do século XIX, quando o interesse já havia se voltado para a hipnotismo, na qual apenas alguns dos fenômenos associados ao magnetismo animal de Mesmer eram reconhecidos[2]. Muitos membros da Academia Francesa de Medicina eram hostis às alegações de magnetismo; após um acalorado debate em junho de 1842, a Academia proibiu oficialmente qualquer consideração adicional do assunto, contra os protestos veementes dos membros que acreditavam que o fenômeno da clarividência deveria ter um julgamento justo. Os críticos compararam o magnetismo animal ao problema matemático de 'quadrar o círculo', ao qual a Academia de Ciências também havia fechado suas portas. Essa tentativa de encerrar a controvérsia por meio de condenação oficial não teve equivalente na América do Norte ou em outras partes da Europa[3]. No entanto, a censura oficial não impediu a continuidade dos estudos sobre magnetismo e transe animal na França, apenas os empurrou para as margens da ciência oficial.

 

Hipnotismo (1842–1885)

Numerosos esforços para contornar a censura oficial levaram, no final do século XIX, ao uso limitado da hipnotização na prática médica. Nesse meio tempo, entre as décadas de 1840 e 1880, e até mesmo depois, a hipnotização serviu como modelo epistemológico questionando a validade das proscrições acadêmicas. O que a Academia afirmava ser o conter bem-sucedido uma questão sulfurosa na verdade deu origem a uma nova disciplina, a Psicologia. Isso, paradoxalmente, acabou levando a uma reabilitação parcial do magnetismo animal, com o reconhecimento da relevância de algumas de suas características mentais anômalas, como a clarividência.

O estudo sistemático dos estados de transe, e depois da mediunidade, levou à institucionalização de uma ciência da alma: um tipo de psicologia combinada com pesquisa psi (a primeira aparição do termo 'psicologia', que em francês significa literalmente 'ciência da alma', foi em um livro sobre fantasmas e outros fenômenos paranormais publicado em 1588)[4]. Muitos espíritas se autodenominavam psicólogos: a Revue Spirite, de Allan Kardec, tinha como subtítulo Journal d'Etudes Psychologiques (Revista de Estudos Psicológicos). A Sociedade Científica de Estudos Psicológicos, ativa entre 1878 e 1883, era, na verdade, um grupo de magnetizadores e espíritas que tinham pouco interesse em realizar ciência real.

No início, psicologia e parapsicologia compartilhavam as mesmas instituições e periódicos, e, em termos de pesquisa, tinham objetivos comuns de 'psico-parapsicologia'. O historiador Andreas Sommer observa que 'a interseção entre a psicologia moderna nascente 'oficial' e a pesquisa psíquica foi, embora relativamente breve, longe de ser tão explícita quanto na França[5]'. Alguns pesquisadores tentaram contornar a proibição acadêmica por meio de hipnotismo, psicofisiologia e pesquisa psíquica. Um deles foi Timothée Puel, botânico e médico que, entre 1874 e 1876, publicou a Revue de Psychologie Expérimentale (Revista de Psicologia Experimental) baseada no modelo do Psychische Studien de Alexander Aksakof. Foi o primeiro periódico desse tipo na época, embora dedicado principalmente à discussão de pesquisas psíquicas, juntamente com o trabalho de Puel sobre várias formas de sono, transe e catalepsia. Durante esse período, a pesquisa psi foi realizada principalmente de forma independente por pesquisadores como Agenor de Gasparin, um político de destaque, e o astrônomo Camille Flammarion.

 

O Psíquico e o Psicológico (1885–1918)

Em 1885 foi fundada a primeira instituição francesa dedicada tanto à psicologia quanto à parapsicologia. A Société de Psychologie Physiologique (Sociedade de Psicologia Fisiológica, SPP) foi a primeira sociedade psicológica, e foi modelada a partir da Society for Psychical Research (SPR) fundada em Londres em 1882. Ele abordava hipnose e pesquisa psíquica, além de realizar estudos sobre estados alterados de consciência induzidos por drogas e sobre psicofisiologia comum. As forças motrizes foram o fisiologista Charles Richet e o cientista polonês Julian Ochorowicz; o neurologista Jean-Martin Charcot foi presidente, e o psicólogo Théodule Ribot e o filósofo Paul Janet foram vice-presidentes.

O Primeiro Congresso Internacional de Psicologia Fisiológica foi realizado em Paris em 1889, organizado por membros do SPP, dedicando um tempo respeitável à pesquisa psi. Mas essa estratégia eclética teve sucesso apenas parcial, já que a atenção dada ao hipnotismo e aos temas psi foi contestada por muitos, especialmente na Alemanha[6]. Após o congresso, o SPP declinou drasticamente.

Uma tendência semelhante pode ser observada nos periódicos onde a pesquisa psi foi discutida. Durante um curto período de aproximadamente dez anos, a Revue de Philosophie de la France et de l'Étranger, editada por Théodule Ribot, publicou artigos sobre todos os tipos de psicologia. Um deles foi o artigo pioneiro de Richet, 'La Suggestion Mentale', sobre a aplicação da estatística nas ciências humanas, aplicado em um experimento sobre clarividência ('lucidité). Foi também lá que o jovem Pierre Janet, que mais tarde se tornou um psicólogo de destaque, publicou seus primeiros relatórios experimentais sobre 'hipnose à distância' com a psíquica em transe Léonie Leboulanger, após uma apresentação na SPP em outubro de 1885. Isso, por sua vez, foi seguido por uma série de obras discutindo telepatia e clarividência. Mas a publicação de artigos acadêmicos abertos à existência do psi também declinou após o congresso de 1889.

Em 1891, a pesquisa psi voltou a ganhar espaço aberto com a fundação de um periódico especializado por Richet e pelo oftalmologista Xavier Dariex, os Annales des Sciences Psychiques. Isso foi concebido por Richet como 'um equilíbrio justo entre a credulidade dos jornais espíritas e a ignorância cega das coleções da psicologia oficial[7]'. Os Annales acolheram testemunhos e experimentos de todos os lugares, evitando discussões teóricas. No entanto, como outros periódicos dedicados à pesquisa psíquica, os Annales foram lidos apenas por alguns entusiastas e não alcançaram o mesmo público que a Revue Philosophique[8]. A crescente diferença aumentou o isolamento dos temas parapsicológicos em relação à psicologia convencional.

Na França, Pierre Janet fez uma reviravolta semelhante. Ele omitiu a discussão de seus próprios experimentos psi em sua tese de doutorado sobre automatismo psicológico e, seguindo o conselho de Charcot, manteve distância das alegações paranormais. Aparentemente determinado a apagar sua antiga imagem de pioneiro da pesquisa psi, ele chegou a se tornar um defensor do ceticismo, afirmando, por exemplo, que toda mediunidade era patológica e tentando relegar magnetistas e espíritas à pré-história da psicologia. Os argumentos de Janet ajudaram a estabelecer uma crescente demarcação entre psicologia e parapsicologia. Sua brilhante carreira acadêmica tornou-se inseparável de seu papel como 'guardião' da psicologia; alguns de seus alunos, como Henri Piéron, seguiram o mesmo caminho cético.

Janet foi a principal organizadora do Quarto Congresso Internacional de Psicologia, realizado novamente em Paris em 1900. Apesar de sua limitada abertura à hipnose e questões relacionadas, esse quarto congresso internacional tornou óbvia a existência de uma fronteira interna dentro da psicologia. As maravilhas psíquicas não eram mais um problema da psicologia como um todo, mas apenas de uma subseção.

Esse congresso também marcou o lançamento do Institut Psychique International, que logo seria renomeado Institut Général Psychologique (IGP), liderado por Janet e Richet. O IGP foi fortemente apoiado por cientistas de elite e tornou-se a principal sociedade privada para o estudo da mente[9]. No entanto, Janet rapidamente avançou para 'corrigir' a agenda do IGP para torná-la mais 'psicológica[10]', por exemplo, substituir 'psíquico' por 'psicológico' no nome da organização e em seu boletim. Isso foi contestado por defensores da pesquisa psi, que defendiam a criação de uma sociedade genuína para a pesquisa psíquica.

No entanto, o IGP incluía uma subdivisão dedicada ao fenômeno psi como especialidade, e sua relevância para uma compreensão mais ampla da mente e seu papel na natureza, incluindo animais, grupos sociais, criminosos e similares. Este foi chamado de Groupe d'Etude des Phénomènes Psychiques (Grupo para o Estudo dos Fenômenos Psíquicos – GEPP); membros eminentes incluíram Arsène d'Arsonval, o laureado com o Nobel Pierre Curie, Jules Courtier, Louis Favre e Serge Yourievitch. Entre vários estudos cuidadosos estava uma investigação magistral do meio Eusapia Palladino[11]. No entanto, essa abertura foi contestada por psicólogos preocupados com o estudo das funções mentais nos moldes da fisiologia e psicopatologia, e posteriormente fez com que o IGP fosse cada vez mais marginalizado. Na história da psicologia francesa, ela é quase totalmente negligenciada.

Por mais difícil que fosse, Richet acreditava que o estudo dos fenômenos psi deveria ser integrado à psicologia. De fato, nos congressos internacionais de psicologia de 1892 e 1905, ele afirmou que a pesquisa psi era o futuro da psicologia, campo em que a psicologia faria grandes descobertas sobre a natureza da mente. Mas ele se desiludiu com a oposição e abandonou o projeto, focando em pesquisa psi – o que ele chamou de 'metapsíquicos' em seu discurso presidencial de 1905 à SPR – como uma disciplina autônoma.

Essa nova abordagem rapidamente enfrentou problemas após a publicação dos experimentos de Richet com o meio materializador Marthe Beraud. Artigos de imprensa apareceram alegando falsamente que Richet afirmava acreditar em fantasmas (ele não deu tais entrevistas nem fez tais declarações)[12]. Colegas foram abordados para comentar o caso com base em informações incompletas ou falsas. O resultado foi que a comunidade científica foi forçada a se posicionar contra esse 'retorno das superstições obscurantistas', e o escândalo tendia a desacreditar Richet e a pesquisa psi.

No entanto, graças à reputação científica de Richet como fisiologista pioneiro – ele foi laureado com o Nobel de Fisiologia/Medicina em 1913 – e à boa reputação de seus apoiadores, a ruptura não foi total, e permaneceu uma sobreposição parcial entre psicologia e pesquisa psi pelas duas décadas seguintes. A rejeição foi implícita e principalmente não oficial, expressa pela imprensa ou nos bastidores de revistas e organizações. No entanto, os historiadores tendem a se referir a Richet apenas como um defensor do psi, ignorando seu papel proeminente como pioneiro da psicologia francesa. Ao continuar fazendo isso hoje, eles reforçam a demarcação estabelecida por Richet entre psicologia e pesquisa psi.

 

Era de Ouro da Pesquisa Psi (1919–1935)

O início da guerra em 1914 limitou a oportunidade de pesquisa, mas, ao mesmo tempo, a enorme perda de vidas tendia a promover a crença pública na sobrevivência dos espíritos e fenômenos paranormais relacionados. Por acaso, a guerra também reuniu várias pessoas interessadas em dar novo vigor à pesquisa psi. Em 1919, foi fundado o Institut Métapsychique International (IMI) como uma fundação privada de pesquisa dedicada ao tema. Essa fundação foi principalmente obra de seguidores espíritas de Allan Kardec, indivíduos como Gabriel Delanne, que estavam convencidos de que suas crenças deveriam ser baseadas em evidências científicas, mas que estavam desapontados com a marginalização da pesquisa psi no IGP e desejavam se livrar da necessidade de cooperar com psicólogos acadêmicos.

Richet ingressou no projeto do IMI, inicialmente apenas como presidente honorário. O primeiro presidente foi Rocco Santoliquido, um médico e político italiano que foi introduzido ao espiritismo por meio de sua família. O primeiro diretor foi o médico Gustave Geley, um ex-espírita que demonstrou habilidade em pesquisas experimentais com médiuns. O IMI foi financiado por Jean Meyer, um bem-sucedido comerciante de vinhos que dedicou parte de sua fortuna para reviver o Espiritismo Kardeciano. Graças à sua generosidade, o IMI pôde pagar uma secretária e um diretor, e experimentar médiuns de toda a Europa. Ocupava um prédio inteiro com um laboratório bem equipado, sala de conferências e biblioteca. O instituto imediatamente obteve o status de utilidade pública, conferindo-lhe reconhecimento público. Sua fundação foi bem recebida no exterior, e seguiram-se inúmeras colaborações com pesquisadores e sujeitos estrangeiros.

Na década de 1920, a pesquisa psi floresceu tanto em níveis científicos quanto culturais (ajudou a estimular o movimento surrealista nas artes, por exemplo)[13]. Mas seus resultados, publicados em sua Revue Métapsychique, foram principalmente discutidos na imprensa e não em periódicos acadêmicos. O público ainda tinha dificuldade em distinguir entre espiritismo e a aspiração científica da pesquisa psi.

Alguns trabalhos importantes foram realizados naquela época, tanto sobre fenômenos físicos e mentais da mediunidade, quanto sobre teorias psicológicas e fisiológicas da mediunidade e das múltiplas personalidades. Além de Richet e Geley, alguns dos principais pesquisadores foram René Warcollier, René Sudre e Eugène Osty. Experimentos famosos foram realizados entre 1919 e 1924 com Franek Kluski, um meio materializador polonês, no qual foram obtidos moldes de gesso que diziam ser de mãos ectoplasmáticas de espíritos que haviam tomado forma física por um breve período. Outros resultados foram obtidos em condições controladas com os médiums de espírito Jan Guzyk (também conhecido na França como Jean Guzik) e Marthe Béraud sob o pseudônimo Eva C.

Em 1922 e 1923, comitês acadêmicos liderados por Henri Piéron realizaram experimentos com Guzyk e Béraud na Sorbonne. Eles alegaram tê-los exposto como fraudes, apesar da falta de evidências. Para tentar resolver essa controvérsia, o segundo diretor do IMI, Eugène Osty, colaborou com físicos e engenheiros para desenvolver um dispositivo automático capaz de registrar instantaneamente qualquer movimento anômalo ocorrendo na escuridão total. Esse dispositivo ajudou tanto a expor trapaças, como aconteceu com o médium fraudulento Stanislawa Popielska, quanto a confirmar a presença de uma anomalia genuína, como no caso do médium Rudi Schneider.

No que diz respeito aos fenômenos mentais, pesquisas foram realizadas com Stephan Ossowiecki, Ludwig Kahn, Pascal Forthuny, Jeanne Laplace, Mme. Morel, Olga Kahl e outros. Osty estudou 'artistas inspirados' como Augustin Lesage, Marguerite Burnat-Provins, Marijan Gruzewski, e também sábios capazes de prodigiosas façanhas de memória e cálculo: Louis Fleury, Inaudi, Romanof e Osaka.

O programa de pesquisa de Osty utilizava uma metodologia comparativa baseada em uma psicologia do 'conhecimento paranormal' (metagnomia)[14]. Warcollier desenvolveu pesquisas sobre telepatia de longa distância com um grupo de participantes não selecionados que se reuniam semanalmente. Sudre desenvolveu um arcabouço teórico integrativo baseado em modelos psicodinâmicos criados por Frederic WH Myers, Théodore Flournoy, William James e Pierre Janet, discutindo conexões entre metagnomia e estados alterados de consciência; Posteriormente, ele expandiu essa área para explorar a relação entre a pesquisa Psi e todas as outras ciências. Charles Richet tentou sintetizar as principais tendências e resultados dessa nova ciência em seu Traité de Métapsychique (Trinta Anos de Pesquisa Psíquica), publicado em 1922.

Um dos pontos altos da existência do IMI foi o Terceiro Congresso Internacional de Pesquisa Psíquica, que organizou em Paris em 1927. No entanto, Eugène Osty estava preocupado com a qualidade dos alto-falantes. Na tentativa de profissionalizar a área e melhorar os padrões, em 1928 ele se uniu a Rocco Santoliquido para fundar o Centre Permanent de Conférences et Congrès Internationaux de Recherches Psychiques, que dependia principalmente de acadêmicos e não de pesquisadores amadores. O empreendimento foi de curta duração: Santoliquido faleceu em 1930 e o Centro foi dissolvido.

Com a morte de seu patrocinador financeiro Jean Meyer em 1931, o IMI perdeu sua principal fonte de recursos e, a partir de então, sofreu com poucos recursos. Para tentar enfrentar esse desafio, desenvolveu uma abordagem popular, dirigindo-se diretamente ao público por meio de palestras, cursos, experimentos e escritos populares, que tendiam a ofuscar sua abordagem acadêmica anterior. O instituto ainda atraía alguns cientistas e intelectuais de alto escalão, como Gabriel Marcel, mas a maioria dos acadêmicos e pesquisadores profissionais franceses que colaboraram com ele permaneceu anônimo. O IMI sobreviveu como o centro especialista em pesquisa psi na França, mas tem baixa membresia e realiza relativamente pouca pesquisa.

A morte de Meyer, e o início do declínio do IMI, coincidiram com a fundação da Union Rationaliste (União Racionalista), o primeiro grupo inteiramente dedicado a criticar a 'pseudociência'. Essa organização foi amplamente apoiada por cientistas tradicionais, incluindo o psicólogo Henri Piéron, e cresceu rapidamente, conquistando mais de 2000 membros em dois anos. O grupo é o precursor de muitos grupos semelhantes fundados após a Segunda Guerra Mundial, ampliando a fronteira entre psicologia científica e pesquisa psi. Como se tornou norma no discurso cético, considerava a pesquisa psi em tópicos relacionados ao mesmo nível, como astrologia, quiromancia, hipnose e psicanálise; fez pouca pesquisa, principalmente sobre aspectos marginais como astrologia ou radiestesia; persistentemente desinformava o público sobre o estado da pesquisa; e usou abordagens ad hominem para desacreditar os defensores do psi[15]. Suas atividades tornaram cada vez mais difícil na França a persecução simultânea de uma carreira acadêmica e pesquisas em áreas de fronteira. A vantagem para seus apoiadores era que ajudava a proteger a autonomia da psicologia, que, ao denunciar a pseudociência, tornou-se mais fortemente integrada como parte da comunidade acadêmica.

 

Parapsicologia Marginalizada (Pós 1935)

Com a morte de pesquisadores líderes como Richet e Osty, e de apoiadores como o filósofo internacionalmente renomado Henri Bergson, a pesquisa psi declinou na França. Ao final da Segunda Guerra Mundial, tornou-se praticamente uma ciência tabu, subversiva demais para ser discutida em nível acadêmico.

A década de 1960 marcou o lançamento do movimento do Fantastic Realism (Realismo Fantástico), com a publicação por Louis Pauwels e Jacques Bergier de Le Matin des Magiciens (A Manhã dos Mágicos) em 1960 e da revista Planète, que produziu 41 edições ao longo de sete anos a partir de 1961. O movimento se interessava por áreas de fronteira: superpotências, civilizações esquecidas, civilizações extraterrestres e ciências heterodoxas como a parapsicologia; Outros temas incluíam literatura fantástica, sexualidade e erotismo, além de questões sociais. O objetivo era despertar a curiosidade do público e encorajá-lo a não aceitar cegamente os dogmas dados.

Tanto o livro quanto a revista tiveram um enorme e rápido sucesso, o que gerou controvérsia. O Union Rationaliste denunciou o Realismo Fantástico como uma impostura intelectual, inadequada para discussão acadêmica[16]. Isso foi pelo menos parcialmente justificado: além de erros marcantes, sua literatura confundia informações verificadas com invenções fictícias, criando confusão. Cientistas tradicionais que publicaram pesquisas nessa área, como o biólogo Rémy Chauvin e o físico Olivier Costa de Beauregard, preferiam disfarçar seu interesse usando pseudônimos.

Diz-se que o movimento do Realismo Fantástico contribuiu para os conflitos culturais que eclodiram em maio de 1968, o movimento social mais importante na França na segunda metade do século XX[17]. Também abriu caminho para um crescente interesse pela parapsicologia nas universidades francesas. Com permissão negada para estudar o assunto, um grupo de estudantes de psicologia da Universidade de Nanterre (Paris X) criou em 1971 uma associação transdisciplinar, o Groupe d'Etudes et de Recherches en Parapsychologie (Grupo de Pesquisa e Estudo de Parapsicologia, GERP).

Rémy Chauvin teve um papel fundamental no lançamento desse grupo, que era mais um fórum intelectual do que uma organização dedicada à pesquisa experimental. De 1972 a 1975, Chauvin lecionou clandestinamente cursos sobre metodologias de parapsicologia no IMI, mas os membros do GERP seguiram seus próprios caminhos, longe do paradigma reno. Alguns deles posteriormente abandonaram o assunto para seguir carreiras na ciência tradicional e na academia, mas, mesmo assim, foram uma forte influência para uma geração de pesquisadores.

No período pós-guerra, muitos grupos parapsicológicos surgiram, embora nenhum tenha alcançado permanência. A maioria tinha uma composição mista, tanto de estudiosos quanto de leigos, e permaneceu marginal, independentemente da qualidade de seu trabalho. Poucos abordaram a totalidade dos fenômenos psi, preferindo focar em um ou outro tipo de experiência ou aspecto da pesquisa experimental. Frequentemente, eles desenvolviam uma aliança com campos relacionados como psicanálise, esoterismo, ocultismo e psicotrônica, o que podia levar à confusão. Na década de 1970, as tentativas do GERP de unir esses grupos fracassaram porque eram muito frouxos e estruturados.

 

Eventos Recentes (desde 2015)

Em 2019, o IMI sediou a convenção anual da Associação Parapsicológica para celebrar seu centenário, confirmando seu status como a sociedade científica mais proeminente para pesquisa psíquica na França. O IMI permanece focado principalmente em atividades educacionais, ao mesmo tempo em que apoia projetos empíricos inovadores. Entre eles estão vários ajustes experimentais projetados para potencializar os efeitos psi, como o paradigma de Selfield[18], que surgiu do protocolo anterior Sharefield[19], e utiliza um ambiente audiovisual imersivo para induzir estados favoráveis à psi nos participantes.

Outro contexto potencialmente favorável é o ambiente doméstico, com experimentos realizados via uma plataforma na internet. Psi@Home é um desses projetos: um experimento pré-registrado de precognição de escolha forçada, realizado com coortes selecionados, incluindo meditadores experientes, por meio de um sistema colaborativo online. O estudo não forneceu suporte estatisticamente significativo para suas hipóteses pré-registradas, mas forneceu um teste importante dessa nova infraestrutura doméstica para pesquisa psi[20]. Peter Bancel também colaborou com Dean Radin em testes exploratórios dos efeitos da psicocinese (PK) em fótons emaranhados[21].

O grupo IMI tem realizado pesquisas "elitistas" focadas em casos com Panagiotis Senteris, um mestre grego de artes marciais cujas supostas habilidades de PK foram repetidamente testadas[22]. Paralelamente, o engenheiro Eric Dullin produziu uma análise fenomenológica detalhada dos casos de poltergeist baseada em um banco de dados dedicado (macropk.org). Junto com David Jamet e colegas, ele desenvolveu novos protocolos experimentais para testar macro-PK em objetos girais leves[23].

Muitos membros do IMI contribuíram para o primeiro manual francês de parapsicologia científica, Grand Manuel de Parapsychologie Scientifique, editado por Renaud Evrard, Claude Berghmans e Paul-Louis Rabeyron e publicado em 2025. Este volume de 650 páginas tem como objetivo oferecer uma visão abrangente e atualizada do campo para um público acadêmico amplo e transdisciplinar. Nos últimos anos, também houve um desenvolvimento crescente de abordagens clínicas para experiências excepcionais, especialmente em torno do trabalho de Thomas Rabeyron[24], Renaud Evrard[25]24 e seus alunos e colaboradores.

 

Obras Citadas

§  Alvarado, C.S., & Evrard, R. (2012). The psychic sciences in France: Historical notes on the Annales des Sciences Psychiques. [Download PDF.] Journal of Scientific Exploration 26/1, 117-40.

§  Alvarado, C.S., & Evrard, R. (2013). Nineteenth-century psychical research in mainstream journals: The Revue Philosophique de la France et de l’Etranger. [Download PDF.] Journal of Scientific Exploration 27/4, 655-89.

§  Bancel, P., Varvoglis, M., Boban, J., & Bensahra, A. (2023). A forced-choice precognition experiment with selected cohorts. [Download PDF.] Journal of Anomalous Experience and Cognition 5/1, 14-46.

§  Brower, M.B. (2010). Unruly Spirits: The Science of Psychic Phenomena in Modern France. Urbana, Illinois, USA: University of Illinois Press.

§  Courtier, J. (1908). Rapport sur les séances d’Eusapia Palladino à l’Institut général psychologique en 1905, 1906, 1907 et 1908. Mayenne, France: Impr. de C. Colinnovembre.

§  Dullin, E. (2024). A detailed phenomenology of poltergeist events. [Download PDF.] Journal of Scientific Exploration 38/3, 427-460.

§  Dullin, E., & Jamet, D. (2018). A methodology proposal for conducting macro-pk test on light spinning objects in a non-confined environment. [Download PDF.] Journal of Scientific Exploration 32/3, 514-54.

§  Dullin, E., & Jamet, D. (2020). A portable bench for research on telekinetic effects on a spinning mobile and experimental results obtained with it. [Download PDF.] Journal of Parapsychology 84/2, 254-75.

§  Dullin, E., Jamet, D., & Roncalli, S. F. (2023). Macro-PK experiments: Level of control-repeatability-distance effect-confinement effect. [Download PDF.] Journal of Parapsychology 87, 16-19.

§  Dullin, E. & Varvoglis, M. (2021). Rapport d’expérimentations avec le centre SENTERIS les 22/23/24 Octobre 2021 à Pyrée (Grèce). [Full text.] Web page.

§  Edelman, N. (2007). Force psychique: Fictions et psychologie. In Psychologies fin de siècle (RITM 38), ed. by J.L. Cabanès, J. Carroy, & N. Edelman, 79-97. Paris: Institut Nanterre La Défense.

§  Evrard, R. (2016). La Légende de L’Esprit: Enquête sur 150 ans de Parapsychologie. Paris: Trajectoires.

§  Evrard, R., Berghmans, C., Rabeyron, P.-L. (eds.) (2025). Grand Manuel de Parapsychologie Scientifique. Malakoff, France: Dunod.

§  Evrard, R., Jallet, R., Berghmans, C. (eds.) (2026). 16 Cas de Clinique des Expériences Exceptionnelles. Malakoff, France: Dunod.

§  Galifret, Y. (ed.) (1965). Le Crépuscule des Magiciens. Le Réalisme Fantastique Contre la Culture. Paris: Éditions de l’Union rationaliste.

§  Lachapelle, S. (2011). Investigating the Supernatural: From Spiritism and Occultism to Psychical Research and Metapsychics in France, 1853–1931. Baltimore, Maryland, USA: Johns Hopkins University Press.

§  Méheust, B. (1999). Somnambulisme et Médiumnité (2 vols.). Paris: Institut Synthélabo.

§  Méheust, B. (2004). Devenez savants, découvrez les sorciers. Lettre à Georges Charpak. Paris: Dervy.

§  Méheust, B. (2011). Les Miracles de l’esprit. Qu’est-ce que les Voyants Peuvent nous Apprendre? Paris: La Découverte / Les Empêcheurs de penser en rond.

§  Monroe, J.W. (2008). Laboratories of Faith. Mesmerism, Spiritism, and Occultism in Modern France. Ithaca, New York, USA: Cornell University Press.

§  Plas, R. (2000). Naissance d’une Science Humaine: La Psychologie. Les Psychologues et le Merveilleux Psychique. Rennes, France: PUR.

§  Rabeyron, T. (2020). Clinique des Expériences Exceptionnelles. Malakoff, France: Dunod.

§  Radin, D. I., & Bancel, P. A. (2022). Psychophysical interactions with entangled photons: Five exploratory studies. [Full text.] Journal of Parapsychology 86/1, 70-72.

§  Renard, J.-B. (1996). Le mouvement Planète: Un episode important de l’histoire culturelle française. Politica Hermetica 10, 152-74.

§  Richet, C. (1922). Traité de Métapsychique. Paris: Félix Alcan.

§  Sidgwick, H. (1892). The international congress of experimental psychology. Journal of the Society for Psychical Research 5, 283-93.

§  Sommer, A. (2013). Crossing the Boundaries of Mind and Body: Psychical Research and the Origins of Modern Psychology. Unpublished PhD thesis, University College London, London.

§  Taillepied, N. (1588). Psichologie ou traicté de l’apparition des esprits, à savoir des âmes séparées, fantômes, prodiges et accidents merveilleux qui précèdent quelques fois la mort des grands personnages, ou signifient changement de la chose publique. Paris: Guillaume Bichon.

§  Varvoglis, M., Bancel, P. A., Bailly, J. P., Boban, J., & si Ahmed, D. (2019). The Selfield: Optimizing precognition research. [Full text.] Journal of Parapsychology 83/1, 13-24.

§  Varvoglis, M., Bancel, P.A., Si Ahmed, D., Bailly, J. P., & Béguian, C. (2013). The sharefield: A novel approach for forced-choice GESP research [Full text]. Journal of Parapsychology 77, 181-83.

§  Varvoglis, M., & Dullin, E. (2023). Rapport d’une 2e étude avec le centre SENTERIS. [Full text.] Web page.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Ver Méheust (1999).

[3] Edelman (2007), 82.

[4] Taillepied (1588).

[5] Sommer (2013), 11.

[6] Sidgwick (1892), 284.

[7] Richet (1922), 37.

[8] Ver Alvarado & Evrard (2012; 2013).

[9] Ver Brower (2010).

[10] Plas (2000), 148.

[11] Ver Courtier (1908).

[12] Evrard (2016), Capítulo 5.

[13] Ver Méheust, 1999.

[14] Ver Méheust, 2011, por um trabalho semelhante de metagnomia comparativa.

[15] Ver Méheust (2004).

[16] Galifret (1965).

[17] Ver Renard (1996).

[18] Varvoglis et al., (2019).

[19] Varvoglis et al., (2013)

[20] Bancel et al., (2023).

[21] Radin & Bancel (2022).

[22] Dullin & Varvoglis (2021); Varvoglis & Dullin (2023)

[23] Dullin & Jamet (2018, 2020); Dullin et al., (2023).

[24] Rabeyron (2020).

[25] Evrard et al., (2026).