sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

ENTRE O CACHO DE UVAS E OS AMIGOS[1]

 


 

A analogia entre um cacho de uvas e os amigos é uma metáfora poderosa sobre união, diversidade e apoio mútuo. Assim como as uvas que compõem um cacho, os amigos estão unidos, mas mantêm suas individualidades.

Aqui estão os pontos principais dessa analogia:

 

Unidade na Diversidade: Um cacho de uvas é composto por várias uvas individuais que crescem juntas na mesma haste, assim como amigos diferentes que se unem por um laço comum.

Apoio e Sustentação: As uvas estão próximas umas das outras, oferecendo suporte físico e nutrição compartilhada. Amigos oferecem apoio emocional, ombro amigo e força nos momentos difíceis.

Amadurecimento Conjunto: Uvas em um mesmo cacho geralmente amadurecem juntas. Da mesma forma, amigos crescem, amadurecem e evoluem juntos através das experiências da vida.

Fortaleza e União: Separada do cacho, uma uva é frágil; no cacho, ela se torna parte de um todo forte e abundante. Amigos se fortalecem mutuamente, tornando-se mais resistentes juntos.

Sabor Individual, Doçura Coletiva: Cada uva tem um sabor único, mas juntas criam uma "bênção" (como citado em Isaías 65:8). Amigos trazem personalidades diferentes que tornam a amizade mais rica e saborosa.

 

Em suma, a amizade é como um cacho de uvas: juntos formamos algo precioso, mas cada um mantém seu próprio sabor.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

LIGAÇÕES ANTERIORES[1]

 

"O Centro das Atenções" - Eugenio Zampighi

Miramez

 

 Parentesco, filiação

Uma vez que temos tido muitas existências, a nossa parentela vai além da que a existência atual nos criou?

Não pode ser de outra maneira. A sucessão das existências corporais estabelece entre os Espíritos ligações que remontam às vossas existências anteriores. Daí, muitas vezes, a simpatia que vem a existir entre vós e certos Espíritos que vos parecem estranhos.

Questão 204 / O Livro dos Espíritos

 

Pertencemos à criação de Deus e estamos, por assim dizer, ligados uns aos outros por leis universais. Somos todos irmãos e não podemos viver sozinhos. Quando reencarnamos em uma família, por necessidade de aprendizado, criamos vínculos de amizade ou, às vezes de ódio; contudo, isso é processo que se desenvolve entre as criaturas. Se amamos, esse é o nosso dever, a nossa finalidade; se odiamos, tornamos a voltar, para que o amor se faça presente nos corações.

Querer dizer ou compreender que somente nascemos em uma só família, em muitas reencarnações, é esquecer a universalidade, é esquecer que o amor é força poderosa da vida em todos os despertamentos da criação. Podemos nos reencarnar em centenas e milhares de famílias. Basta a necessidade pedir, desempenhando papéis e aprendendo lições. Essa é a vida que corre cada vez mais para a frente, iluminando a alma e dando a ela o roteiro de que precisa para chegar às esferas superiores.

Se nos apegarmos muito a um grupo familiar, certamente que teremos de nos apegar a outros que nos receberão por caridade, e é assim que vamos nos aperfeiçoando cada vez mais na extensa escala da subida para a libertação, até que possamos sentir a família na humanidade, e a humanidade se sentir fazendo parte de um todo universal. Esse é o amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Tudo e todos saímos de uma só fonte: o Soberano Senhor do Universo.

Queiramos ou não, estamos ligados a tudo que nos rodeia; queiramos ou não, estamos participando de todos os acontecimentos da humanidade. Cabe a nós, já despertos para a luz, participar ajudando no progresso espiritual. Eis o momento de semear a semente do bem, do amor e da caridade, pois somente colhemos o que plantamos.

Não podem existir estrangeiros para nós, se moramos na mesma casa e participamos da mesma família espiritual. Mediante o amor puro, caem todas as barreiras, desaparecem as línguas diversas, que impedem por vezes, as raças de se comunicarem com mais facilidade. As raças deixam de existir e a cor não é empecilho, para que a unidade se apresente na equação do amor.

As dificuldades, que são inúmeras para os Espíritos que dormem, são criações deles mesmos. São nascidas do orgulho, do separativismo e do egoísmo. Quando descobrirem que viver amando como Jesus ensinou é melhor, a razão irá lhes mostrar o caminho a seguir porque, por instinto e intuição, todos nós procuramos a felicidade. As divisões de povos e de países, de raças e famílias, que já não existem de forma tão acentuada, vão desaparecendo com o progresso, como é o caso da escravidão do ser humano e sua venda como animal, o desprezo de raças, os duelos para manter a “honra”, o holocausto de adultos e crianças para acalmar os deuses, e mais inúmeros fatos, fáceis de serem verificados.

Estamos nos unindo, por lei de Deus, em uma grande família universal, onde ninguém se perde, e todos têm o mesmo valor diante de Deus e de Cristo.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 4 – João Nunes Maia

quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

O MEDO DO PSI - Por que tantas pessoas se apavoram com a ideia de poderes psíquicos?[1]

 


Stephen Braude                                                        

 

Minha primeira experiência com psicocinese (PK) aparentemente em grande escala ocorreu muito antes de eu saber qualquer coisa sobre parapsicologia. Era 1968 e eu estava na pós-graduação, cursando meu doutorado em filosofia. Na época, eu não tinha nenhum interesse em parapsicologia e, na medida em que possuía alguma opinião filosófica sólida, me considerava uma espécie de materialista pragmático. Isso não se devia a nenhuma reflexão cuidadosa e constante que eu tivesse dedicado ao assunto (embora, é claro, eu conhecesse parte da literatura relevante). Era, em grande parte, apenas uma postura intelectual semicrítica, algo que eu sentia que combinava com a pessoa que eu acreditava que deveria ser.

De qualquer forma, era uma tarde tranquila em Northampton, Massachusetts (como costumava ser a maioria das tardes em Northampton), e dois amigos próximos apareceram na minha casa, só para bater um papo. Como já tínhamos visto o único filme em cartaz e não conseguíamos pensar em mais nada para fazer, meus amigos sugeriram que fizéssemos uma sessão espírita (eles consideravam isso um jogo chamado "mesa de leitura"). Disseram que já tinham feito isso várias vezes e que era muito divertido.

Embora eu tenha ficado um tanto desapontado com a proposta e desconfiado da previsão deles de que a mesa se moveria sem a ajuda de ninguém, aceitei e aceitei meus amigos como instrutores no jogo de "mesa para cima". Usamos uma pequena mesa dobrável que eu tinha e colocamos os dedos levemente sobre a superfície, concentrando-nos em silêncio no comando (e às vezes murmurando baixinho): "mesa para cima!". Para minha surpresa, durante as três horas seguintes, a mesa inclinou-se e acenou com a cabeça em resposta às perguntas, soletrando as respostas de acordo com um código ingenuamente complicado que meus amigos haviam recomendado (acenando uma vez para a letra 'A', duas vezes para 'B' e assim por diante).

Aparentemente, contatamos três entidades diferentes, das quais apenas uma forneceu informações que pareciam verificáveis. Esse comunicador alegava ser alguém chamado Horace T. Jecum (a grafia pode ter sido alterada durante a implementação do nosso código complicado) e afirmava ter construído a casa onde eu morava (uma casa clássica e bastante antiga no estilo da Nova Inglaterra, construída em algum momento no final do século XVIII). Comparado às afirmações feitas pelos "comunicadores" anteriores (especialmente aquele que alegava, de forma implausível, ser o Rio Estige), imaginei que essa informação seria fácil de confirmar, bastava consultar os registros da prefeitura. Infelizmente, descobri que minha casa era tão antiga que antecede os registros da cidade. Portanto, nunca descobri quem construiu a casa, muito menos se o nome da pessoa era sequer parecido com o de Horace T. Jecum.

É claro que, além das informações supostamente transmitidas pela inclinação da mesa, havia o fato peculiar de que ela permaneceu inclinada por três horas. Duvido que eu consiga descrever o evento de forma a dissipar todas as dúvidas. No entanto, posso afirmar que estou pessoalmente convencido de que meus amigos não estavam me pregando uma peça. Era dia, não estávamos sob o efeito de substâncias lícitas ou ilícitas, eu conhecia bem meus amigos e eles não eram propensos a pegadinhas, o fenômeno ocorreu por um longo período, permitindo ampla oportunidade para inspeção. Estou convencido de que nada além de nossos dedos tocaram a mesa (e que eles repousaram levemente sobre sua superfície), e, por fim, mesmo quando um dos meus amigos se levantou da mesa para ir a outro cômodo, a mesa continuou a inclinar e a soletrar respostas às perguntas, elevando-se sob os dedos dos dois que permaneceram sentados. E isso aconteceu mesmo quando estávamos em pé ao lado da mesa, obviamente sem levantá-la com os joelhos.

Fiquei tão impressionado com o fenômeno que resolvi abordá-lo filosoficamente assim que resolvesse algumas questões práticas desagradáveis, como obter meu doutorado, conseguir um emprego e, posteriormente, a titularidade. Como sabia que meus mentores e colegas, em sua maioria, adotariam uma atitude arrogante e condescendente em relação ao meu interesse por assuntos psíquicos, simplesmente deixei o assunto de lado por cerca de oito anos – na verdade, esqueci-o completamente – até que (como professor titular) eu tivesse a liberdade acadêmica para me dedicar à pesquisa filosófica que desejasse.

 

Um medo desconhecido

Ora, embora o fenômeno físico da inclinação da mesa seja sem dúvida interessante, o que me intriga igualmente nesse episódio da minha vida é a minha reação visceral imediata ao que observei. Não só experimentei alternâncias de ceticismo, perplexidade e curiosidade, como o fenômeno me deixou apavorado. Mas por que eu deveria ter sentido um medo tão intenso? Na época, eu não entendia minha reação (embora, como era de se esperar, eu não ficasse sem hipóteses inadequadas). Agora, porém, acho que posso ter uma pista do que estava acontecendo e, se eu estiver certo, isso ajuda a explicar por que tanto as evidências quanto a literatura sobre a PK apresentam certas características peculiares marcantes.

É tentador explicar minha reação simplesmente pelo medo do desconhecido. Mas isso não nos levará muito longe. Há muitas coisas desconhecidas que não nos assustam em nada. Então, o que foi, especificamente , que me assustou? Claro, pelo menos superficialmente, parecia que algo além das três pessoas na sala havia feito a mesa se mover. Então, talvez eu estivesse com medo da possibilidade de uma ação desencarnada. Mas por que isso deveria ser assustador? É verdade que eu poderia ter reconhecido que os movimentos da mesa foram ostensivamente produzidos por um agente desencarnado, mas isso não significa que eu tenha levado essa opção a sério. Embora eu não tenha certeza disso, eu posso muito bem ter estado tão cegamente e completamente entrincheirado em minhas poucas concepções filosóficas que a possibilidade de influência desencarnada jamais tenha sido uma opção viável em minha mente, mesmo inconscientemente.

Em todo caso (e mais importante), desde então houve outros contextos nos quais eu genuinamente suspendi meus preconceitos filosóficos habituais e me permiti considerar seriamente a possibilidade de que personalidades desencarnadas sobreviventes estivessem influenciando os eventos ao meu redor. Por exemplo, fiz isso frequentemente durante os vários anos em que conheci a curandeira Olga Worrall. Mas em nenhum momento senti medo em relação aos fenômenos que observei.

Reconheço, é claro, que a própria possibilidade de ação póstuma evoca o espectro de hostilidade e vingança do além-túmulo, por uma questão de princípio. Se podemos influenciar o mundo após a morte do corpo, essa influência pode ser tanto positiva quanto negativa. No entanto, acredito que a ameaça potencial de influência desencarnada não seja tão intimidante quanto outra possibilidade: a de que uma ou mais pessoas presentes na sala tenham, psicocineticamente – e inconscientemente – movido a mesa. Embora eu tenha certeza de que não compreendi esse ponto claramente na época (isto é, da maneira informada como o compreendo agora, após muitos anos refletindo sobre as questões e suas implicações), também tenho certeza de que não o ignorava completamente. Afinal, talvez eu não tenha refletido seriamente sobre parapsicologia naquela época, mas não era como se eu fosse totalmente ignorante do conceito de psicocinese.

Ainda assim, por que isso deveria ser assustador? O que há de tão assustador na PK entre os vivos? Em alguns dos meus outros trabalhos e em outras publicações, os leitores interessados ​​podem encontrar respostas mais ou menos elaboradas para essa pergunta. Por ora, no entanto, uma breve provocação terá que bastar. O ponto crucial, creio eu, é este: não é preciso quase nenhum salto conceitual para conectar a possibilidade de movimentos psicocinéticos inócuos de objetos com outras aplicações da PK, muito mais perturbadoras.

Quer reconheçamos isso conscientemente ou não, se podemos mover um lápis, um cigarro ou uma mesa – para não mencionar curar uma pessoa – por meio da cinesiologia[2], então, em princípio, deveríamos ser capazes de causar acidentes de carro, ataques cardíacos ou simplesmente dores e cócegas incômodas em outra pessoa. Por um lado (e por razões que Jule Eisenbud e eu já consideramos em outro lugar), dado o atual (e considerável) estado de nossa ignorância a respeito do funcionamento psíquico, simplesmente não podemos supor que as ocorrências de psi devam sempre ser de pequena ou média escala. Na verdade, não temos a menor ideia de quão refinada ou de grande escala a psi pode ser. Mas, independentemente dessa questão, não há razão para pensar que acidentes de carro ou avião, ataques cardíacos e assim por diante, exijam mais (ou mais refinada) cinesiologia do que a necessária para movimentos de pequenos objetos. Afinal, eventos de pequena magnitude podem ter consequências extensas, portanto, um acidente de carro (por exemplo) poderia ser causado, em princípio, por um pequeno estímulo psíquico bem aplicado. Assim, parece inevitável concluir que, se a cinesiologia pode ser desencadeada por intenções inconscientes, então podemos ser responsáveis ​​por uma série de eventos (em particular, acidentes e outras calamidades) dos quais a maioria de nós preferiria ser apenas espectadora inocente. Além disso, todos seríamos vítimas potenciais de eventos psiquicamente desencadeados (intencionais ou não), cujas fontes não poderíamos identificar conclusivamente e cujas limitações não poderíamos avaliar.

De maneira mais geral, o que é tão perturbador nisso tudo é que temos que considerar seriamente uma visão de mundo que a maioria de nós associa, geralmente de forma condescendente, apenas às chamadas sociedades primitivas. É uma imagem mágica da realidade segundo a qual as pessoas podem interferir na vida umas das outras de todos os tipos de maneiras que preferiríamos que fossem impossíveis. Claro, algumas dessas interações podem ser benéficas; mas o que nos assusta, acredito, é o espectro da espionagem psíquica, da influência telepática e dos usos malévolos e potentes da cinesiologia (por exemplo, o "mau-olhado" e feitiços). É verdade que existem lugares no mundo onde crenças desse tipo são bastante comuns e tratadas como algo natural. Mas essa visão da realidade não é bem aceita na maioria das sociedades industrializadas. Aliás, ao longo de várias décadas de palestras públicas, tive muitas oportunidades de ver o quanto de angústia eu provoco quando simplesmente levanto o assunto para o meu público. Curiosamente, essa reação tem sido especialmente intensa em várias convenções da Nova Era, onde os participantes se concentram exclusivamente nos benefícios potenciais da influência psíquica, aparentemente recusando-se a reconhecer que nenhum poder pode ser usado exclusivamente para o bem (devo confessar que achei maliciosamente satisfatório desempenhar o papel da voz do mal nessas ocasiões).

A maioria (ou pelo menos muitos) dos parapsicólogos hoje em dia admite que o medo de fenômenos psi é prevalente tanto dentro quanto fora da parapsicologia. De fato, os parapsicólogos podem demonstrá-lo de maneiras bastante sutis. Como Eisenbud argumentou de forma convincente, uma das maneiras pelas quais os pesquisadores de laboratório demonstram esse medo é por meio de erros, descuidos e omissões aparentemente inocentes ou descuidados que comprometem um experimento. Eisenbud considerava esses deslizes análogos a lapsos de língua aparentemente inocentes, comportamentos que revelam pensamentos e sentimentos dos quais o falante pode não estar consciente. Mas talvez uma manifestação ainda mais interessante do medo de fenômenos psi seja um tipo generalizado de "piedade metodológica", na qual os pesquisadores exibem "uma meticulosidade pseudocientífica interminável e uma obsessão por detalhes insignificantes, que, na maioria das vezes, resulta em nunca se conseguir nada, a menos que sob condições que praticamente sufocam o surgimento de qualquer coisa que se assemelhe remotamente a uma ocorrência psi".

Em outras palavras, alguns pesquisadores conseguem criar experimentos tão complexos e artificiais que eliminam todas as manifestações de fenômenos paranormais, exceto, aparentemente, o suficiente para ser significativo no nível de 0,05 (ou seja, apenas marginalmente significativo de acordo com o padrão vigente nas ciências comportamentais). Isso ainda é suficiente para justificar a publicação de um artigo e ajuda o pesquisador a se sentir realizado e a justificar seu trabalho na área em geral. Mas não é o bastante para contestar seriamente um desejo possivelmente mais profundo de que os fenômenos paranormais simplesmente não ocorram.

 

Lute contra o poder

Mas o que é indiscutivelmente ainda mais interessante é a forma como o medo da psi parece ter moldado o curso da parapsicologia na virada do século XX. Os céticos costumam zombar do fato de que fenômenos físicos paranormais dramáticos, como levitações e materializações de mesas inteiras, parecem ter desaparecido do cenário parapsicológico. A principal razão, alegam, é que a tecnologia moderna simplesmente tornou muito difícil a fraude que era mais fácil de perpetrar no final do século XIX e início do século XX. Mas, embora essa posição seja frequentemente propagada como um consenso óbvio, ela é (para dizer francamente) claramente falha – se não simplesmente tola. Muitas vezes, demonstra um domínio tão superficial dos dados e das questões que só podemos nos perguntar por que os defensores dessa visão arriscariam passar vergonha ostentando sua ignorância por escrito.

Sem entrar em detalhes aqui, devemos observar, em primeiro lugar, que o apelo do cético à tecnologia moderna é uma faca de dois gumes. O primitivismo tecnológico do início do século XX afetou não apenas os meios de detecção de fraudes, mas também os meios de as produzir. (Da mesma forma, a tecnologia avançada de hoje tornou possível uma série de práticas fraudulentas e dispositivos de espionagem que não poderiam ter sido empregados durante o auge do espiritismo). Assim como não havia pequenos dispositivos elétricos (como câmeras de vídeo em miniatura) no final do século XIX capazes de flagrar médiuns fraudulentos em ação, também não havia dispositivos semelhantes capazes de produzir os fenômenos em larga escala, sob condições controladas, para os quais temos boas evidências. Esqueçamos aqueles fenômenos explicáveis, em princípio, por meio de truques de mágica e técnicas de distração. Os céticos costumam se concentrar nesses casos, mas eles são relativamente pouco importantes, senão totalmente irrelevantes, para uma avaliação adequada das evidências de psicocinese observável. O que realmente importa é que existe um resíduo substancial de fenômenos produzidos em condições nas quais nenhum cúmplice ou dispositivo poderia ter sido ocultado, alguns dos quais nem mesmo a tecnologia atual consegue reproduzir (por exemplo, as mãos materializadas de D.D. Home).

Um dos meus exemplos favoritos diz respeito aos fenômenos do acordeão de D.D. Home. Muitos observadores relataram que Home conseguia fazer acordeões tocarem sem serem tocados, ou quando segurados pela extremidade, longe das teclas. De fato, às vezes dizia-se que os acordeões tocavam melodias a pedido. Ora, Home preferia que o acordeão fizesse seu trabalho debaixo da mesa de sessão espírita, porque dizia que o "poder" era mais forte ali. Obviamente, isso poderia ser motivo de suspeita, mas para um investigador mais generoso ou de mente aberta, poderia simplesmente indicar as crenças peculiares de Home sobre o funcionamento da psi. O renomado cientista William Crookes se enquadrava nessa última categoria, embora também compreendesse por que outros poderiam – com toda a razão – se preocupar com fenômenos que o médium preferia produzir debaixo da mesa. Assim, em vez de adotar uma atitude displicente em relação às crenças declaradas de Home, Crookes elaborou uma maneira de testar os fenômenos do acordeão de Home, respeitando as preferências do médium.

Primeiro, Crookes comprou um acordeão novo para a ocasião; portanto, não era o instrumento de Home, nem um que ele tivesse tido a oportunidade de adulterar previamente. Segundo, Crookes buscou Home em seu apartamento e o observou trocar de roupa. Isso permitiu que ele determinasse que Home não estava escondendo nenhum dispositivo capaz de produzir o fenômeno (embora, no início da década de 1870, não esteja claro o que tal dispositivo poderia ser). Crookes então levou Home para sua casa, onde havia construído uma gaiola especial para o acordeão. A gaiola cabia sob a mesa de jantar de Crookes, e havia espaço suficiente acima dela apenas para Home alcançar e segurar o acordeão pela extremidade oposta às teclas. Não havia espaço suficiente para Home alcançar mais abaixo e manipular o instrumento e seu teclado. Observadores foram posicionados em ambos os lados de Home, e outro foi para debaixo da mesa com uma lâmpada para observar o acordeão. Nessas condições, e em outras ligeiramente modificadas (como passar uma corrente elétrica pela gaiola e Home retirar a mão do acordeão, colocando ambas as mãos sobre a mesa), o acordeão teria se expandido e contraído, tocado melodias simples e flutuado dentro da gaiola.

Considero isso uma evidência interessante e especialmente importante. No entanto, o fato permanece (como o cético gosta de observar): não vemos mais tais coisas. Mas se não podemos explicar esse fato recorrendo ao advento da tecnologia moderna (ou a um maior grau de credulidade na virada do século), que sentido podemos dar a isso? Gostaria de sugerir que o medo da psi provavelmente desempenhou um papel importante.

Para entender isso, devemos observar primeiro que os dramáticos fenômenos paranormais ocorridos por volta da virada do século se deram no contexto do movimento espiritualista, que era enormemente popular na época e que deu origem à prática generalizada de realizar sessões espíritas em torno de uma mesa com o objetivo de contatar amigos e parentes falecidos. Além disso, os grandes médiuns daquela época eram todos espíritas sinceros. Ou seja, eles acreditavam que estavam apenas facilitando fenômenos produzidos por espíritos desencarnados, não acreditavam que eles próprios produzissem os fenômenos. Mas isso significa que esses indivíduos estavam psicologicamente isentos de responsabilidade, independentemente do que acontecesse. Assim, se nada (ou apenas fenômenos banais) ocorresse, o médium sempre podia atribuir as falhas a um comunicador inepto ou a uma "má conexão" entre este mundo e o mundo espiritual. Mais importante ainda, porém, quando fenômenos impressionantes ocorriam, os médiuns não precisavam temer a extensão de seus próprios poderes. Eles não precisavam se preocupar com o que poderiam produzir (consciente ou inconscientemente) fora dos limites seguros da sala de sessão espírita.

Com o passar do tempo, cada vez mais pessoas – dentro e fora do campo da pesquisa psíquica – passaram a levar a sério a possibilidade de que médiuns físicos pudessem ser agentes de fenômenos paranormais e, portanto, a causa real de fenômenos atribuídos por outros a espíritos sobreviventes. Mesmo quando os médiuns e outros espíritas resistiam a essa crença, o fato é que ela estava cada vez mais presente e difícil de ignorar, à medida que um número crescente de pesquisadores seculares começou a investigar os fenômenos por conta própria. Mas creio que isso só pode ter tido um efeito inibidor na psicologia da mediunidade em geral. Os médiuns sabiam que até mesmo os investigadores mais simpáticos os consideravam causas – e não meros receptáculos – de fenômenos físicos paranormais. Assim, eles passaram a ter uma preocupação que possivelmente nunca lhes ocorrera antes: a de possuírem poderes que não conseguiam controlar e que, possivelmente, poderiam causar grandes danos.

Não é surpreendente, portanto, constatar que os impressionantes fenômenos de Eusápia Palladino na década de 1890 e na primeira década do século XX eram menos impressionantes do que os de Home vinte anos antes. E é ainda menos surpreendente constatar que as "superestrelas" mediúnicas nas décadas seguintes do século XX apresentavam repertórios de fenômenos cada vez menos intimidantes. De fato, quando chegamos a Rudi Schneider nas décadas de 1920 e 30, os fenômenos mais sensacionais tendiam a ser apenas movimentos de objetos de tamanho médio. E, mais recentemente, supostas superestrelas da cinesiologia fonética, como Nina Kulagina e Felicia Parise, produziram fenômenos em escala ainda menor.

Além disso, é interessante notar como os grandes nomes da cinesiologia na segunda metade do século XX pareciam sofrer bastante ao produzir seus fenômenos. Seus predecessores espíritas geralmente entravam em transe ou, pelo menos, em um estado de receptividade passiva, e ocasionalmente ficavam cansados ​​depois. Mas os cinestas mais modernos se veem como o foco de seus fenômenos e parecem claramente fazer um esforço consciente para alcançar seus resultados. Mas, é claro, como reconhecem seu próprio papel na produção dos fenômenos, não é surpreendente que precisem se esforçar tanto (digamos) para fazer um cigarro ou um frasco de comprimidos se mover um milímetro ou uma polegada. Aliás, considere o quão conveniente isso é psicologicamente – isto é, do ponto de vista do médium. Se os praticantes de cinesiologia sentem que é necessário gastar muita energia para produzir apenas um pequeno efeito, então (em uma linha de pensamento descuidada, característica de muita autoilusão) pode facilmente parecer a eles que sua vida ou saúde estariam em perigo ao tentar produzir um fenômeno que valesse a pena se preocupar.

 

O Pesadelo dos Céticos

Não posso deixar de lado o tema do medo de fenômenos paranormais sem mencionar outra de suas aparentes e (pelo menos para mim) impressionantes manifestações, tão comuns hoje quanto na época áurea do espiritualismo. Continua a me surpreender a maneira descuidada e inescrupulosa com que pessoas inteligentes e honestas, em geral, argumentam contra a existência de fenômenos paranormais – e, em particular, contra suas manifestações mais dramáticas.

Existem, é claro, críticos cuidadosos, corajosos e ponderados na área. Mas, com muita frequência, esses críticos recorrem facilmente a linhas de argumentação que, em outros contextos, seriam prontamente identificadas como sórdidas ou indefensáveis ​​— por exemplo, se esses argumentos fossem dirigidos a eles. De fato, é quase como se um véu de idiotice descesse repentinamente sobre aqueles que, de outra forma, são perspicazes e inteligentes. Na minha opinião, é improvável que, na maioria dos outros contextos, os céticos recorressem tão facilmente a ataques pessoais e argumentos falaciosos. Mas é precisamente isso que domina a literatura cética.

No caso de argumentos ad hominem[3] , vemos Trevor Hall dedicando uma parte considerável de seu pequeno livro sobre D.D. Home a tentar estabelecer a vaidade do médium (baseando-se em parte no depoimento de alguém cujas mentiras sobre Home já foram comprovadas) e a se preocupar se Home teve um caso com um de seus benfeitores. Da mesma forma, vemos Ruth Brandon especulando sobre a possibilidade de Home ser homossexual. E quanto aos argumentos do espantalho (isto é, generalizar a partir dos casos mais fracos), é bastante comum encontrarmos céticos argumentando, por exemplo, que o caso de Home deve ser ignorado porque os fenômenos de pequena escala do médium podem ser imitados por truques de mágica, ou porque as evidências mais mal documentadas (como a suposta levitação de Home pela janela da Ashley House) são fracas.

Agora, devemos acreditar que, de repente, esses críticos não entendem que as evidências mais cuidadosamente documentadas e os fenômenos mais difíceis de explicar são os que realmente importam? No caso de Home, o que realmente importa é que Home frequentemente produzia fenômenos em grande escala, de forma espontânea, em locais nunca antes visitados, com objetos fornecidos pelos participantes, sob boa luz e com ampla oportunidade de observar os fenômenos de perto enquanto aconteciam. Também é importante notar que Home fez isso por quase vinte e cinco anos sem nunca ser descoberto como um farsante.

É óbvio que muitos céticos são pessoas inteligentes, e eu sugiro que é altamente improvável que essas críticas superficiais às evidências parapsicológicas sejam simplesmente o tipo de espasmos ocasionais e mais ou menos aleatórios de estupidez que todas as pessoas experimentam às vezes. De fato, se fossem apenas isso, presumivelmente esses lapsos não ocorreriam de forma tão exclusiva e transparente em relação à parapsicologia. É muito mais plausível que muitos céticos estejam simplesmente em uma espécie de pânico conceitual, que, dominados por esse pânico, sua razão e integridade sejam deixadas de lado, e que seu medo da psi sejTa pouco diferente do que eu sentia em 1968.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Cinesiologia é a ciência que estuda o movimento humano, analisando como o corpo se move, as forças envolvidas e a interação entre músculos, ossos e articulações, aplicando esses conhecimentos para reabilitar, melhorar o desempenho atlético, promover a saúde e prevenir lesões, integrando anatomia, fisiologia e biomecânica. É fundamental para profissionais da saúde como educadores físicos, fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. (AI)

[3] Ad hominem (do latim, "contra a pessoa") é uma falácia lógica onde, em vez de refutar um argumento, ataca-se o caráter, a reputação ou alguma característica pessoal do oponente, visando descredibilizar a pessoa e, por extensão, sua ideia, desviando o foco do debate real.

terça-feira, 27 de janeiro de 2026

MOBILIÁRIO DE ALÉM-TÚMULO[1]

 


Allan Kardec

 

Extraímos a seguinte passagem de uma carta que um dos correspondentes do Departamento do Jura enviou à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:

 

(...) Como já vos tinha dito, senhor, os Espíritos gostavam da nossa velha habitação. No mês de outubro passado (1858), a senhora condessa de C., amiga íntima de minha filha, veio passar alguns dias em nossa mansão, acompanhada do filhinho de oito anos. O menino dormia no mesmo apartamento que a mãe. A fim de que ele e minha filha pudessem prolongar as horas do dia e da conversa, a porta comum que comunicava seus quartos ficava aberta. O garoto não dormia e dizia à sua mãe: ‘O que a senhora fará com esse homem que está sentado junto à sua cama? Ele fuma um grande cachimbo. Veja como enche o quarto de fumaça; mandai-o embora; ele sacode as cortinas.’ Tal visão durou a noite inteira. A mãe não conseguiu fazer a criança calar e ninguém pôde pregar os olhos. Essa circunstância não surpreendeu a mim nem à minha filha, pois sabemos que há manifestações espíritas. Quanto à mãe, imaginou que o filho sonhava acordado ou se divertia.

Eis um outro fato pessoal que comigo aconteceu no mesmo aposento, em maio de 1858. É a aparição do Espírito de uma pessoa viva que ficou muito admirada por ter vindo me visitar. Eis as circunstâncias: Eu estava muito doente e há tempos não  dormia, quando vi, às dez horas da noite, um amigo da família sentado perto de meu leito. Manifestei-lhe minha surpresa por sua visita àquela hora. Disse-me ele: ‘Não fale; venho velá-la; não fale; é preciso dormir.’ E estendeu a mão sobre a minha cabeça. Abri os olhos várias vezes para saber se ele ainda estava lá, e de cada vez me fazia sinal para os fechar e calar-me. Ele girava uma caixa de rapé entre os dedos e, de quando em quando, tomava uma pitada, como o fazia costumeiramente. Por fim adormeci e, ao despertar, a visão havia desaparecido. Diferentes circunstâncias me provaram que no momento dessa visita inesperada eu estava perfeitamente acordada, e que aquilo não era um sonho. Quando de fato me visitou pela primeira vez apressei-me em agradecer-lhe. Trazia a mesma caixa de rapé e, ao escutar-me, estampava o mesmo sorriso de bondade que eu notara quando me velava. Como me garantiu não ter vindo, o que aliás não me foi difícil acreditar, porquanto não teria havido nenhum motivo que o impelisse a vir a tal hora passar a noite junto a mim, compreendi que apenas o seu Espírito tinha vindo visitar-me, enquanto seu corpo repousava tranquilamente em sua casa[2].

Os fatos de aparição são tão numerosos que seria impossível registrar todos aqueles que são do nosso conhecimento ou que foram obtidos de fontes perfeitamente autênticas. Aliás, hoje que os fatos estão explicados, e que nos damos conta exatamente da maneira por que são produzidos, sabemos que pertencem às leis da Natureza e, portanto, nada têm de maravilhoso. Como já demos a sua teoria completa, apenas a recordaremos, em poucas palavras, para a desejável compreensão do que se segue. Além do envoltório corporal, exterior, sabemos que o Espírito possui um outro, semimaterial, a que chamamos perispírito. A morte nada mais é do que a destruição do primeiro.

Em seu estado errante o Espírito conserva o perispírito, que constitui uma espécie de corpo etéreo, invisível para nós em seu estado normal. Os Espíritos povoam o espaço e, se num determinado momento, o véu que no-los oculta fosse levantado, veríamos uma imensa população agitar-se à nossa volta e percorrer os ares. Temo-los constantemente ao nosso lado, observando-nos e, muitas vezes, associando-se às nossas ocupações e aos nossos prazeres, conforme o seu caráter. A invisibilidade não é uma propriedade absoluta dos Espíritos; muitas vezes eles se nos mostram sob a aparência que tinham em vida, e não são poucas as pessoas que, rebuscando as lembranças, não se recordem de algum fato desse gênero. A teoria dessas aparições é muito simples e se explica por uma comparação que nos é bastante familiar: a do vapor que, quando muito rarefeito, é completamente invisível. Um primeiro grau de condensação o torna nebuloso; cada vez mais condensado passa ao estado líquido, depois ao estado sólido. Algo semelhante se opera pela vontade dos Espíritos na substância do perispírito; como já dissemos, pretendemos estabelecer apenas uma comparação, e não uma assimilação. Servimo-nos do exemplo do vapor para mostrar as mudanças de aspecto que pode sofrer um corpo invisível, não se devendo concluir, por isso, que haja no perispírito uma condensação, no sentido próprio da palavra.

Opera-se na sua contextura uma modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível, podendo dar-lhe, até certo ponto, as propriedades dos corpos sólidos.

Sabemos que os corpos perfeitamente transparentes tornam-se opacos por uma simples mudança na posição das moléculas, ou pela adição de outro corpo igualmente transparente, mas não sabemos bem como fazem os Espíritos para tornar visível o seu corpo etéreo. A maior parte deles não chega mesmo a dar-se conta disso, embora, pelos exemplos citados, compreendamos a sua possibilidade física, o que é suficiente para tirar do fenômeno aquilo que, à primeira vista, poderia parecer sobrenatural. Pode, pois, o Espírito operar, quer por simples modificação íntima, quer assimilando uma porção de fluido estranho que altera momentaneamente o aspecto de seu perispírito. É mesmo esta última hipótese que ressalta das explicações que nos têm sido dadas e que relatamos ao tratar do assunto (maio, junho e dezembro).

Até aí não há nenhuma dificuldade no que concerne à personalidade do Espírito. Sabemos, no entanto, que eles se apresentam com vestimentas cujo aspecto mudam à vontade; muitas vezes até possuem certos acessórios de toalete, joias etc.

Nas duas aparições que citamos no início, uma tinha um cachimbo e produzia fumaça; a outra possuía uma caixa de rapé e tomava pitadas; e notai bem o fato de que este Espírito pertencia a uma pessoa viva e que sua tabaqueira era em tudo semelhante à de que se servia habitualmente, e que ficara em sua casa. O que significaria essa caixa de rapé, esse cachimbo, essas vestimentas e essas joias?

Teriam os objetos materiais terrenos uma representação etérea no mundo invisível? A matéria condensada que forma tais objetos teria uma parte quintessenciada, que escapa aos nossos sentidos? Eis aí um imenso problema, cuja solução pode dar a chave de uma multidão de coisas até então inexplicadas; e é essa tabaqueira que nos põe no caminho, não apenas desse fato, mas do fenômeno mais extraordinário do Espiritismo: o da pneumatografia ou escrita direta, de que falaremos logo em seguida.

Se alguns críticos ainda nos censuram pelo fato de estarmos avançando muito na teoria, responderemos que não vemos razão alguma para nos manter na retaguarda quando encontramos uma oportunidade para avançar. Se ainda estão se distraindo com as mesas girantes, sem saber por que giram, não é motivo para nos determos no caminho. O Espiritismo, sem dúvida, é uma ciência de observação, mas talvez ainda seja mais uma ciência de raciocínio; e o raciocínio é o único meio de fazê-lo progredir e triunfar de certas resistências. Tal fato é contestado unicamente por que não é compreendido; a explicação lhe tira todo o caráter maravilhoso, fazendo-o entrar nas leis gerais da Natureza. Eis por que vemos diariamente pessoas que nunca viram e creram, simplesmente porque compreenderam, enquanto outras viram e não creem, porque não compreendem. Fazendo entrar o Espiritismo no caminho do raciocínio, nós o tornamos aceitável para aqueles que querem conhecer o porquê e o como de todas as coisas; e o número destes é grande neste século, pois a crença cega já não faz parte dos costumes. Ora, se não tivéssemos senão indicado a rota já teríamos a consciência de haver contribuído para o progresso desta nova ciência, objeto de nossos constantes estudos. Mas voltemos à nossa tabaqueira.

Todas as teorias que apresentamos, relativamente ao Espiritismo, foram dadas pelos Espíritos, muitas vezes contrariando as nossas próprias ideias, como aconteceu no caso presente, provando que as respostas não eram o reflexo de nosso pensamento. Mas a maneira de obter-se uma solução não é coisa de somenos importância. Sabemos, por experiência, que não basta pedir bruscamente uma coisa para a obtermos; nem sempre as respostas são suficientemente explícitas; é necessário desenvolver o assunto com certa precaução, chegar ao fim gradativamente e por um encadeamento de deduções, que exigem um trabalho prévio.

Em princípio, a maneira de formular as perguntas, a ordem, o método e a clareza são coisas que não devem ser negligenciadas e que agradam aos Espíritos sérios, porque veem nisso um sério objetivo.

Eis a conversa que tivemos com o Espírito São Luís, a propósito da tabaqueira, com vistas à solução do problema da produção de certos objetos no mundo invisível. (Sociedade, 24 de junho de 1859):

 

1. No relato da Sra. R..., trata-se de uma criança que viu, perto do leito de sua mãe, um homem a fumar um grande cachimbo. Compreende-se que esse Espírito possa ter tomado a aparência de um homem que fumava, mas parece que fumava realmente, pois o menino via o quarto repleto de fumaça. O que era essa fumaça?

– Uma aparência, produzida para o garoto.

2. A Sra. R... cita igualmente um caso de aparição pessoal, do Espírito de uma pessoa viva. Esse Espírito tinha uma caixa de rapé, do qual tomava pitadas. Experimentava ele a sensação que experimenta um indivíduo que faz o mesmo?

–Não.

3. Aquela caixa de rapé tinha a forma da de que ele se servia habitualmente e que se achava guardada em sua casa. Que era a dita caixa nas mãos da aparição?

– Sempre aparência. Era para que a circunstância fosse notada, como realmente foi, e não tomassem a aparição por uma alucinação devida ao estado de saúde da vidente. O Espírito queria que a senhora em questão acreditasse na realidade da sua presença e, para isso, tomou todas as aparências da realidade.

4. Dizes que é uma aparência; mas uma aparência nada tem de real, é como uma ilusão de óptica. Desejaríamos saber se aquela tabaqueira era apenas uma imagem sem realidade, por exemplo, a de um objeto que se reflete num espelho.

[O Sr. Sanson, um dos membros da Sociedade, faz observar que na imagem reproduzida no espelho há qualquer coisa de real; se ela não fica nele é que nada a fixa; mas se fosse projetada sobre uma chapa do daguerreótipo deixaria uma impressão, prova evidente de que é produzida por uma substância qualquer e não simplesmente uma ilusão de óptica].

A observação do Sr. Sanson é perfeitamente justa.

Teríeis a bondade de dizer-nos se existe alguma analogia com a caixa de rapé, isto é, se nela havia alguma coisa de material?

– Certamente. É com o auxílio deste princípio material que o perispírito toma a aparência de vestuários semelhantes aos que o Espírito usava quando encarnado.

 

Observação – É evidente que a palavra aparência deve ser aqui tomada no sentido de aspecto, imitação. A caixa de rapé real não estava lá; a que o Espírito deixava ver era apenas uma reprodução daquela: era, pois, com relação ao original, uma simples aparência, embora formada de um princípio material.

Ensina a experiência que nem sempre se deve dar significação literal a certas expressões usadas pelos Espíritos.

Interpretando-as de acordo com as nossas ideias, expomo-nos a grandes equívocos. Daí a necessidade de aprofundar-se o sentido de suas palavras, toda vez que apresentem a menor ambiguidade. É essa uma observação que os Espíritos constantemente nos fazem.

Sem a explicação que provocamos, o termo aparência, que de contínuo se reproduz nos casos análogos, poderia prestar-se a uma interpretação falsa.

5. Dar-se-á que a matéria inerte se desdobre? Ou que haja no mundo invisível uma matéria essencial, capaz de tomar a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, terão estes o seu duplo etéreo no mundo invisível como os homens são nele representados pelos Espíritos?

 

Observação – Trata-se de uma teoria como qualquer outra e esse era o nosso pensamento; o Espírito, porém, não a levou em consideração, o que absolutamente não nos humilhou, porque a sua explicação nos pareceu muito lógica e sustentada num princípio mais geral, cuja aplicação muitas vezes encontramos.

– Não é assim que as coisas se passam. Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, concentrar à vontade esses elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objetos materiais.

6. Formulo novamente a questão, de modo categórico, a fim de evitar todo e qualquer equívoco: São alguma coisa as vestes de que os Espíritos se cobrem?

– Parece que a minha resposta precedente resolve a questão. Não sabes que o próprio perispírito é alguma coisa?

7. Resulta, desta explicação, que os Espíritos fazem passar a matéria etérea pelas transformações que queiram e que, portanto, em relação à caixa de rapé, o Espírito não a encontrou completamente feita; fê-la ele próprio, no momento em que teve necessidade dela. E, do mesmo modo que a fez, pôde desfazê-la. Outro tanto naturalmente se dá com todos os demais objetos, como vestuários, joias etc. Será assim?

– Mas, evidentemente.

8. A caixa de rapé se tornou tão visível para a senhora de que se trata que lhe produziu a ilusão de uma tabaqueira material. Teria o Espírito podido torná-la tangível para ela?

– Teria.

9. Aquela senhora poderia tê-la tomado nas mãos, crente de estar segurando uma caixa de rapé verdadeira?

– Sim.

10. Se a abrisse, teria achado nela rapé? E, se o aspirasse, ele a faria espirrar?

– Sem dúvida.

11. Pode, então, o Espírito dar a um objeto não só a forma, mas, também propriedades especiais?

– Se o quiser. Baseado neste princípio foi que respondi afirmativamente às perguntas anteriores. Tereis provas da poderosa ação que os Espíritos exercem sobre a matéria, ação que estais longe de suspeitar, como eu disse há pouco.

12. Suponhamos, então, que quisesse fazer uma substância venenosa. Se uma pessoa a ingerisse, ficaria envenenada?

– Teria podido, mas não faria, por não lhe ser isso permitido.

13. Poderá fazer uma substância salutar e própria para curar uma enfermidade? E já se terá apresentado algum caso destes?

– Já, muitas vezes.

 

Observação – Encontramos um fato semelhante, acompanhado de interessante explicação teórica, no artigo que damos a seguir, sob o título Um Espírito serviçal.

14. Então, poderia fazer também uma substância alimentar? Suponhamos que tenha feito uma fruta, uma iguaria qualquer: se alguém pudesse comer a fruta ou a iguaria, ficaria saciado?

– Ficaria, sim; mas, não procureis tanto para achar o que é tão fácil de compreender. Basta um raio de sol para tornar perceptíveis aos vossos órgãos grosseiros essas partículas materiais que enchem o espaço onde viveis. Não sabeis que o ar contém vapores d'água? Condensai-os e os fareis voltar ao estado normal.

Privai-as de calor e eis que essas moléculas impalpáveis e invisíveis se tornarão um corpo sólido e bem sólido; e, assim, muitas outras substâncias de que os químicos tirarão maravilhas ainda mais espantosas. Simplesmente, o Espírito dispõe de instrumentos mais perfeitos do que os vossos: a vontade e a permissão de Deus.

 

Observação – A questão da saciedade é aqui muito importante. Como pode produzir a saciedade uma substância cuja existência e propriedades são meramente temporárias e, de certo modo, convencionais? O que se dá é que essa substância, pelo seu contato com o estômago, produz a sensação da saciedade, mas não a saciedade que resulta da plenitude. Desde que uma substância dessa natureza pode atuar sobre a economia e modificar um estado mórbido, também pode, perfeitamente, atuar sobre o estômago e produzir a impressão da saciedade. Rogamos, todavia, aos senhores farmacêuticos e inventores de reconstituintes que não se encham de zelos, nem creiam que os Espíritos lhes venham fazer concorrência. Esses casos são raros, excepcionais e nunca dependem da vontade. Doutro modo, toda gente se alimentaria e curaria a preço baratíssimo.

15. Da mesma forma poderia o Espírito fabricar moedas?

– Pela mesma razão.

16. Os objetos que, pela vontade do Espírito, se tornam tangíveis, poderiam permanecer com esse caráter de permanência e de estabilidade?

– Isso poderia dar-se, mas não acontece. Está fora das leis.

17. Têm todos os Espíritos, no mesmo grau, esse poder?

– Não, não!

18. Quais são os que têm mais particularmente esse poder?

– Aqueles a quem Deus concede, quando isso é útil.

19. A elevação do Espírito tem alguma utilidade?

– Por certo; quanto mais elevado o Espírito, mais facilmente obtém esse poder; mas isso ainda depende das circunstâncias: Espíritos inferiores também podem ter esse poder.

20. A produção dos objetos semimateriais resulta sempre de um ato da vontade do Espírito, ou algumas vezes exerce ele esse poder, mau grado seu?

– Ele o exerce frequentemente, mesmo sem o saber.

21. Seria, então, esse poder um dos atributos, uma das faculdades inerentes à própria natureza do Espírito? Seria, de algum modo, uma de suas propriedades, como a de ver e ouvir?

– Certamente, embora muitas vezes ele próprio o ignore. Então, outro o exerce por ele, mau grado seu, quando as circunstâncias o exigem. O alfaiate do zuavo era justamente o Espírito de que acabo de falar e ao qual ele fazia alusão na sua linguagem espirituosa.

 

Observação – Encontramos uma comparação desta faculdade na de certos animais – o peixe-elétrico, por exemplo – que emite eletricidade sem saber o que faz, nem como isso se dá e, menos ainda, sem conhecer o mecanismo que a põe em ação. Frequentemente nós mesmos não produzimos certos efeitos por atos espontâneos, dos quais não nos damos conta? – Parece-nos, portanto, muito natural que o Espírito possa agir nesta circunstância por uma espécie de instinto. Ele produz por sua vontade, sem saber como, assim como andamos sem calcular as forças que estão em jogo.

22. Nos dois casos citados pela Sra. R..., compreendemos que um dos Espíritos quisesse ter um cachimbo e o outro uma caixa de rapé, para ferir os olhos de uma pessoa viva. Pergunto, porém, se o Espírito poderia pensar que possuía esses objetos, caso não tivesse chegado a fazê-la ver, criando, assim, uma ilusão para si mesmo.

– Não, se ele tiver uma certa superioridade, porque tem perfeita consciência de sua condição. Outro tanto não se dá com os Espíritos inferiores.

 

Observação – Tal era, por exemplo, o caso da rainha de Oude, cuja evocação está relatada em nosso número de março de 1858 e que ainda se julgava coberta de diamantes.

23. É possível que dois Espíritos se reconheçam pela aparência material que possuíam em vida?

– Não é por esse meio que eles se reconhecem, porque não tomarão essa aparência um para o outro. Entretanto, se em certas circunstâncias se acharem em presença um do outro, revestidos dessa aparência, por que não se haveriam de reconhecer?

24. Como podem os Espíritos reconhecer-se em meio a uma multidão de outros Espíritos, e, sobretudo, como podem fazê-lo quando um deles vai procurar longe, e frequentemente em outros mundos, aqueles que o chamam?

– Isto é um problema cuja solução demandaria muito tempo; é preciso esperar. Não estais suficientemente adiantados. Contentai-vos, no momento, com a certeza de que assim o é, pois tendes provas suficientes.

25. Desde que o Espírito pode extrair do elemento universal os materiais para fazer todas as coisas, e com suas propriedades dar a elas uma realidade temporária, pode perfeitamente extrair o que lhe seja necessário para escrever. Consequentemente, isto nos dará a chave do fenômeno da escrita direta?

– Finalmente compreendestes.

26. Se a matéria de que se serve o Espírito não tem persistência, como não desaparecem os traços da escrita direta?

– Não julgueis ao pé da letra; desde o início eu não disse: jamais; tratava-se de um objeto material volumoso; aqui são sinais grafados que convém conservar e são conservados.

A teoria acima pode ser resumida desta maneira: o Espírito atua sobre a matéria; da matéria cósmica universal tira os elementos necessários para formar, a seu bel-prazer, objetos que tenham a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. Pode igualmente, pela ação da sua vontade, operar na matéria elementar uma transformação íntima, que lhe confira determinadas propriedades. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce de modo instintivo, quando necessário, sem disso se aperceber. Os objetos que o Espírito forma têm existência temporária, subordinada à sua vontade, ou a uma necessidade que ele experimenta. Pode fazê-los e desfazê-los livremente. Em certos casos, esses objetos, aos olhos de pessoas vivas, podem apresentar todas as aparências da realidade, isto é, tornarem-se momentaneamente visíveis e até mesmo tangíveis. Há formação; porém, não criação, considerando que, do nada, o Espírito nada pode tirar[3].



[1] REVISTA ESPÍRITA – agosto/1859 – Allan Kardec

[2] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo VII – item 116.

[3] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo VIII.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ZALMINO ZIMMERMANN[1]

 


 

Zalmino Zimmermann nasceu em 3 de outubro de 1931, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Era magistrado aposentado. Com formação básica nas áreas do Direito e da Psicologia, e incursões em outros domínios, exerceu as atividades de Juiz de Direito, Juiz Federal, Professor Titular da Faculdade de Direito e Professor Titular do Instituto de Psicologia da PUC – Campinas.
Dedicou-se em sua mocidade à Evangelização das gerações novas. Fundou, na década de 1950, o Movimento Espírita Universitário.
Dirigente espírita, sempre esteve preocupado com as questões sociais. Foi um dos fundadores e primeiro Presidente, cargo que exerceu por dez anos, da Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas – ABRAME.
A ele se deve a estruturação das atividades da ABRAME e a consolidação do seu papel no Movimento Espírita Brasileiro.
Escreveu Teoria da Mediunidade e Descobrindo o Espiritismo e participou das seguintes obras: Perispírito, Descobrindo o Espírito: 300 Perguntas e Respostas, Espiritismo: Século XXI, Compêndio de Espiritismo, På upptäcktsfärd i spiritismen : 300 frågor och svar, Discovering Spiritism: 300 Questions & Answers.
Desencarnou, em Campinas/SP, na madrugada de 19 de maio de 2015, por complicações cardíacas.


[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=2450

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

GESTÃO DA NOSSA EVOLUÇÃO[1]

 


Marcelo Anátocles Ferreira - janeiro/2026

 

É comum a concepção de que somente depois da desencarnação será possível uma avaliação dos nossos passos, da nossa vida espiritual e da nossa evolução. Alguns aguardam uma espécie de Juízo Final, quando seremos julgados por Deus e encaminhados para os locais de merecimento. Outros entendem que somente após o fim da estrada terrena será possível, ao lado dos nossos benfeitores, fazer uma avaliação do nosso caminho.

Sem dúvida, a avaliação de nossa mais recente encarnação só poderá ser feita no final, quando, fora do corpo, poderemos ter noção exata do todo nela realizado. No entanto, todos nós podemos – e seria muito bom se fizéssemos isso de tempos em tempos – fazer balanços para avaliarmos nossa vida ainda no corpo físico. Temos condições e elementos para isso. Esse exercício nos possibilitará crescimento, autoconhecimento e reforma interior.

Para facilitar essa avaliação, podemos fazê-la por setores da nossa vida. Por exemplo, nossa vida familiar. Como somos ou fomos como filhos? Como foi ou está sendo a relação com nossos pais? E o nosso relacionamento com nossos irmãos desde a infância?

Daí, podemos passar para as relações construídas nesta vida: como estão nossos relacionamentos afetivos? Como tratamos aqueles com quem namoramos, casamos, constituímos família? Essas relações são baseadas no respeito? Há ciúmes corroendo o amor?  Como está a relação com nossos filhos, sejam eles crianças ou adultos?

No contexto profissional, também cabe uma análise mais profunda. Como estamos no trabalho? Como é a relação com nossos colegas? Como nos relacionamos com o dinheiro?

E com os amigos, como estamos?

Como está nosso relacionamento com os amigos do Centro Espírita que frequentamos?  Como estão os estudos espíritas?  Como está o trabalho no campo religioso?

Perguntas objetivas e possíveis de responder. Santo Agostinho, na conhecida resposta sobre o autoconhecimento[2], sugere que formulemos a nós mesmos questões nítidas e precisas sem temer multiplicá-las.

No campo dos próprios sentimentos, também cabe uma análise: sou alegre ou me entristeço com facilidade? Por quê? O que me traz alegria? O que me entristece?

Compartilhando uma experiência pessoal, num final de tarde, voltando do trabalho para casa, eu sentia uma alegria incomum sem saber explicar o motivo. Fiquei tentando lembrar, até que tive um estalo de memória:  eu tinha recebido um e-mail sobre o lançamento do álbum de figurinhas da Copa do Mundo de Futebol. Isso me fez lembrar a minha infância e me deixou feliz. Detectei a razão simples da minha alegria e me tranquilizei.

Ainda no campo dos sentimentos, devemos nos avaliar: eu odeio, sou ácido ou agressivo com o próximo? Costumo me desculpar ao perceber meus equívocos?

Um amigo do trabalho me deu uma lição inesquecível quando eu saía com um pequeno grupo, por ocasião do meu aniversário, para almoçar. Cruzamos com esse amigo, que, sem motivo aparente, foi grosseiro com uma das pessoas que me acompanhava. O agredido pareceu nem perceber, mas ficou no ar um clima desagradável que logo se dissipou no caminho para o almoço festivo. No fim do dia, recebi, com surpresa, um e-mail daquele amigo que havia sido ríspido, no qual ele se desculpava por suas palavras. E mandara esse e-mail com cópia para todos que tinham presenciado a desavença. Reconheci ali alguém preocupado com o autoconhecimento e com a correção imediata de um erro.

Para facilitar a análise, podemos nos valer de uma divisão do tempo traçando uma linha de, por exemplo, cinco ou dez anos. Como eu era há cinco anos? Melhorei em quais aspectos nos últimos dez anos? Em que continuo estacionado? Em que aspecto preciso melhorar?

Como ensina o benfeitor Camilo, pela mediunidade de J. Raul Teixeira: É, daí, importantíssimo o ato de estudar e estudar-se, com o fim de melhor situar-se o indivíduo no campo da lucidez[3].

Essas avaliações fazem com que tomemos a rédea de nossa vida. Não é necessário esperar a desencarnação para sabermos em que já melhoramos e em que ainda temos que trabalhar e muito.

Avaliando, corrigindo e acompanhando nossos próprios passos, podemos verificar novas derrapagens para, se preciso, corrigirmos novamente o curso da vida, contabilizando também nossas conquistas e avanços.

No livro Seareiros de volta, há algumas mensagens sobre esse tema. Em Lei de renovação, por exemplo, o Espírito Antônio da Silva Neto nos ensina: Quem não domina a si mesmo, vive sujeito ao jugo das circunstâncias[4].

Não devemos seguir o que diz o verso da conhecida música Deixa a vida me levar. Se pusermos isso em prática, não saberemos aonde vamos chegar. Com a constante reflexão sobre nossa vida, vamos tomando a rédea do nosso destino e nos direcionando para o bem.

Temos uma ferramenta fantástica em nossas mãos, a Doutrina Espírita, que deve ser permanentemente estudada. Nela aprendemos os mecanismos da lei de justiça, sabemos que somos Espíritos reencarnados em um corpo físico com contas a ajustar e com a abençoada oportunidade dos novos dias. Como nos ensina o Espírito Batuíra: “Seguir o Espiritismo é refazer o destino[5].

Assim, dia a dia, passo a passo, vamos nos avaliando, nos conhecendo melhor, nos aperfeiçoando, aprendendo a corrigir nossas falhas e a retomar rotas seguras, transformando-nos dentro da proposta de sermos verdadeiros espíritas, atentos e focados na efetiva reforma interior, gerindo nossa evolução.



[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1987. pt. 3, cap. XII, q. 919a.

[3] TEIXEIRA, J. Raul. Revelações da Luz. Pelo espírito Camilo. Niterói: Fráter, 2014, cap. 1.

[4] VIEIRA, Waldo. Seareiros de volta. Autores diversos. Brasília: FEB, 1987. cap. A lei da renovação.

[5] Op. cit. cap. Bem-aventurados.