terça-feira, 28 de julho de 2026

RESPOSTA AO SR. OSCAR COMETTANT[1]

 


Allan Kardec

 

Senhor,

Consagrastes aos Espíritos e aos seus partidários o folhetim do Siècle de 27 de outubro último. A despeito do ridículo que lançais sobre uma questão muito mais séria do que pensais, apraz-me reconhecer que, atacando o princípio, guardais as conveniências pela urbanidade da forma, visto não ser possível dizer com mais polidez que não temos bom senso. Assim, não confundirei o vosso espirituoso artigo com essas diatribes grosseiras que dão uma triste ideia do “bom-gosto” de seus autores, aos quais fazem justiça todas as pessoas distintas, sejam ou não nossas partidárias.

Como não tenho o hábito de responder às críticas, teria deixado passar o vosso artigo, como tantos outros, se dos Espíritos não tivesse o encargo, primeiramente, de vos agradecer por vos terdes ocupado deles e, depois, para vos dar um conselho. Bem compreendeis, senhor, que de mim mesmo não me permitiria fazê-lo; desincumbo-me de minha tarefa, eis tudo. – “Como! – direis – então os Espíritos se ocupam de um folhetim que escrevi sobre eles? Seria muita bondade de sua parte.” – Certamente, pois estavam ao vosso lado quando escrevíeis. Um deles, que vos quer bem, chegou mesmo a tentar impedir que utilizásseis certas reflexões, que julgava não estar à altura de vossa sagacidade, temendo por vós a crítica, não dos Espíritos, com os quais pouco vos preocupais, mas dos que conhecem o alcance do vosso julgamento. Ficai certo de que eles estão por toda parte, sabem tudo quanto se diz e se faz e, no momento em que lerdes estas  linhas, estarão ao vosso lado, observando-vos. Mas, direis:  Não posso crer na existência desses seres que povoam o espaço, mas que não vemos.

Credes no ar, que não vedes e que, no entanto, vos envolve?

– Isto é muito diferente. Creio no ar porque, mesmo não o vendo, sinto-o, ouço-o bramir na tempestade e ressoar no tubo da chaminé; vejo os objetos que ele derruba.

Pois bem! Os Espíritos também se fazem ouvir; também movem os corpos pesados, levantam-nos, transportam-nos, quebram-nos.

– Ora, pois, Sr. Allan Kardec! Apelai para a vossa razão. Como quereis que seres impalpáveis, supondo que eles existam, o que só admitiria se os visse, tenham esse poder? Como podem seres imateriais agir sobre a matéria? Isto não é racional.

Credes na existência dessas miríades de animálculos que estão em vossa mão e que a ponta de uma agulha pode cobrir milhares?

– Sim, porque  se não os vejo com os olhos o microscópio me faz vê-los.

Mas antes da invenção do microscópio, se alguém vos tivesse dito que tendes sobre a pele milhares de insetos que nela pululam; que uma gota de água límpida encerra toda uma população; que os absorveis em massa com o ar mais puro que respirais, que teríeis respondido? Teríeis gritado contra o absurdo e, se fôsseis folhetinista, não teríeis deixado de escrever um belo artigo contra os animálculos, o que não os impediria de existir.

Hoje o admitis porque o fato é patente, mas antes teríeis declarado que era coisa impossível. Que há, pois, de irracional na crença de que o espaço seja povoado de seres inteligentes que, embora invisíveis, de modo algum são microscópicos? Quanto a mim, confesso que a ideia de seres pequenos como uma parcela homeopática e, no entanto, providos de órgãos visuais, reprodutores, circulatórios, respiratórios etc., me parece ainda mais extraordinário.

– Concordo; mas, ainda uma vez, são  materiais, representam alguma coisa, enquanto os vossos Espíritos são o quê? Nada; apenas seres abstratos, imateriais.

Em primeiro lugar, quem vos disse que são imateriais? A observação – pesai bem esta palavra observação, que não quer dizer sistema – a observação, repito, demonstra que essas inteligências ocultas têm um corpo, um envoltório, invisível é verdade, mas não menos real. Ora, é por este intermediário semimaterial que eles agem sobre a matéria. Serão apenas os corpos sólidos que têm uma força motriz? Não são, ao contrário, os corpos rarefeitos, como o ar, o vapor, todos os gases e a eletricidade que possuem esse poder no mais alto grau? Por que então o negaríeis à substância que constitui o envoltório dos Espíritos?

– “De acordo. Mas se em certos casos essas substâncias são invisíveis e impalpáveis, a condensação pode torná-las visíveis e mesmo sólidas. Podemos pegá-las, guardá-las, analisá-las, de modo que a sua existência é demonstrada de maneira irrecusável.”

Ora essa! Negais os Espíritos porque não podeis metê-los num tubo de ensaio e saber se são compostos de oxigênio, hidrogênio e azoto. Dizei-me se antes das descobertas da química moderna conhecia-se a composição do ar, da água, e as propriedades dessa imensidão de corpos invisíveis, cuja existência nem suspeitávamos. Que teriam dito, então, a quem anunciasse todas as maravilhas que hoje admiramos? Tê-lo-iam tratado de charlatão, de visionário. Suponhamos que vos caia nas mãos um livro de um sábio daquele tempo, negando todas essas coisas e que, além disso, tivesse procurado demonstrar a sua impossibilidade.

Diríeis: Eis aí um sábio muito presunçoso, que se pronunciou muito levianamente, decidindo sobre o que não sabia; para sua reputação teria sido melhor abster-se. Numa palavra, não faríeis um juízo muito favorável de sua opinião. Pois bem! Em alguns anos veremos o que se pensará daqueles que hoje tentam demonstrar que o Espiritismo é uma quimera.

É sem dúvida lamentável para certas pessoas, como para certos colecionadores, que os Espíritos não possam ser postos dentro de um garrafão de vidro, a fim de serem observados à vontade; não imagineis, entretanto, que eles escapem aos nossos sentidos de maneira absoluta. Se a substância que compõe o seu envoltório é invisível em estado normal, também pode, em certos casos, como o vapor, mas por outra causa, experimentar uma espécie de condensação ou, para ser mais exato, uma modificação molecular que a torna momentaneamente visível e mesmo tangível.

Então podemos vê-los, como nos vemos, tocá-los, apalpá-los; eles podem pegar-nos e deixar impressão sobre os nossos membros.

Apenas esse estado é temporário; podem deixá-lo tão rapidamente quanto o tomaram, não em virtude de uma rarefação mecânica, mas por efeito da vontade, considerando-se que são seres inteligentes e não corpos inertes. Se a existência dos seres inteligentes que povoam o espaço está provada; se, como acabamos de ver, exercem uma ação sobre a matéria, que há de surpreendente em que possam comunicar-se conosco e transmitir seus pensamentos por meios materiais?

– Tudo bem, caso a existência desses seres seja provada. Mas aí é que está o problema.

Inicialmente, o importante é provar essa possibilidade: a experiência fará o resto. Se para vós essa existência não está provada, está para mim. Ouço daqui que dizeis intimamente: Eis um argumento muito frágil. Admito que minha opinião pessoal tenha pouco peso, mas não estou só. Antes de mim, muitos outros pensavam do mesmo modo, porquanto não inventei nem descobri os Espíritos. Essa crença conta milhões de aderentes, tanto ou mais inteligentes do que eu. Entre os que creem e os que não creem, quem decidirá? O bom-senso, direis.

Seja. Mas acrescento: e o tempo, que diariamente nos vem em auxílio. Mas com que direito os que não creem se arrogam o privilégio do bom-senso, sobretudo quando justamente os que acreditam são recrutados, não entre os ignorantes, mas entre pessoas esclarecidas, cujo número cada dia cresce? Eu o julgo por minha correspondência, pelo número de estrangeiros que me visitam, pela aceitação de meu jornal, que completa o seu segundo ano e conta com assinantes nas cinco partes do mundo, nas mais elevadas camadas da sociedade e até nos tronos. Dizei-me, em consciência, se isso é a trajetória de uma ideia vazia, de uma utopia.

Constatando esse fato capital em vosso artigo, dizeis que ele ameaça tomar as proporções de um flagelo e aditais:

– Já não lidava a espécie humana, ó bom Deus! Com futilidades suficientes para lhe perturbar a razão, antes mesmo que essa nova doutrina viesse apoderar-se de nosso pobre cérebro?

Parece que não apreciais as doutrinas; cada um tem o seu gosto. Nem todos gostam das mesmas coisas. Direi apenas que não sei a que papel intelectual o homem seria reduzido, se, desde que se acha na Terra, não tivessem surgido doutrinas que, fazendo-o refletir, o tirassem do estado passivo do bruto. Sem dúvida, há boas e más, justas e falsas, mas foi para discerni-las que Deus nos deu a razão. Esquecestes uma coisa: a definição clara e categórica daquilo que classificais entre as futilidades. Há pessoas que assim tacham todas as ideias de que não compartilham. Mas tendes inteligência em demasia para acreditar que esta se tenha concentrado apenas em vós. Há outras pessoas que atribuem esse nome a qualquer opinião religiosa, considerando a crença em Deus, na alma e na sua imortalidade, nas penas e recompensas futuras de utilidade limitada às mulheres do povo ou às crianças que se deseja amedrontar. Não conheço vossa opinião a respeito, contudo, pelos juízos que emitistes, algumas pessoas poderiam inferir que aceitais um pouco essas ideias. Quer as partilheis ou não, tomo a liberdade de dizer, como muitos outros, que nelas estaria o verdadeiro flagelo, caso se propagassem.

Com o materialismo, que é a crença de que morremos como animais, que depois de nós será o nada, o bem não terá nenhuma razão de ser, os laços sociais nenhuma consistência: é a sanção do egoísmo. A lei penal será o único freio a impedir o homem de viver à custa de outrem. Se fosse assim, com que direito puniríamos o homem que mata o semelhante para apoderar-se de seus bens?

Porque é um mal, diríeis vós. Mas por que esse mal? Ele vos responderá: Depois de mim não há nada; tudo se acaba; nada tenho a temer; quero viver aqui o melhor possível e, para isso, tomarei dos que têm. Quem me proíbe? Vossa lei? Vossa lei terá razão se for mais forte, isto é, se me pegar. Mas se eu for mais astucioso, se lhe escapar, a razão estará comigo.

Qual a sociedade, pergunto, que poderá subsistir com semelhantes princípios? Isto me lembra o seguinte fato: Um senhor que, como se diz vulgarmente, não acreditava em Deus, nem no diabo, e não o negava, notou que desde algum tempo vinha sendo roubado por seu criado. Um dia surpreendeu-o em flagrante e lhe disse: “Como ousas, infeliz, tomar o que te não pertence?” O doméstico pôs-se a rir e respondeu: “Por que deveria crer, se também não credes? Por que tendes mais do que eu? Se eu fosse rico e vós pobre, quem vos impediria de fazer o que faço? Dei azar desta vez – eis tudo. De outra, cuidarei de agir melhor”.

Aquele senhor teria ficado mais contente se o doméstico não tivesse tomado a crença em Deus como uma futilidade. É a essa crença e às que dela decorrem que deve o homem a sua verdadeira segurança social, muito mais que à severidade da lei, porque a lei não pode tudo alcançar. Se a crença se arraigasse no coração de todos, nada teriam a temer uns dos outros. Assestar as baterias contra ela é soltar a rédea a todas as paixões, é aniquilar todos os escrúpulos. Foi isso que levou recentemente um sacerdote, quando lhe pediram opinasse sobre o Espiritismo, a dizer estas sensatas palavras:

O Espiritismo conduz à crença em alguma coisa. Ora, eu prefiro aqueles que acreditam em alguma coisa aos que em nada creem, pois estes não acreditam nem mesmo na necessidade do bem.

Com efeito, o Espiritismo é a destruição do materialismo. É a prova patente, irrecusável, daquilo que certas pessoas chamam futilidades, a saber: Deus, a alma, a vida futura, feliz ou infeliz. Este flagelo, como o chamais, tem outras consequências práticas. Se soubésseis, como eu, quantas vezes fez ele voltar a calma aos corações ulcerados pela mágoa; que doce consolação tem espalhado sobre as misérias da vida; quanto ódio tem acalmado, quantos suicídios tem impedido, não zombaríeis tanto. Suponde que um de vossos amigos venha dizer-vos “Eu estava desesperado; ia estourar os miolos; mas hoje, graças ao Espiritismo, sei quanto isto me custa e desisto totalmente”. Se outro indivíduo vos disser: “Eu invejava o vosso mérito, a vossa superioridade; vosso sucesso impedia-me de dormir; queria vingar-me, derrotar-vos, arruinar-vos, até mesmo matar-vos. Confesso que correstes grandes perigos. Hoje, porém, que sou espírita, compreendo tudo quanto esses sentimentos têm de desprezível e os abjuro. E, em vez de vos fazer mal, venho prestar-vos um serviço”.

Provavelmente direis: Ótimo! Ainda bem que existe algo de bom nessa loucura.

O que estou dizendo, senhor, não visa convencer-vos nem vos induzir às minhas ideias. Tendes convicções que vos satisfazem e que, para vós, resolvem todas as questões do futuro: é, pois, muito natural que as conserveis. Mas me apresentais aos vossos leitores como o propagador de um flagelo; eu tinha que lhes mostrar que seria desejável que todos os flagelos não fizessem maior mal, a começar pelo materialismo, de modo que conto com a vossa imparcialidade para lhes transmitir minha resposta.

Mas, direis, não sou materialista. Pode-se muito bem não ser materialista e, mesmo assim, não acreditar na manifestação dos Espíritos. De acordo: então sois espiritualista e não espírita. Se me equivoquei quanto à vossa maneira de ver, é porque tomei ao pé da letra a profissão de fé colocada no fim do vosso artigo. Dizeis:

– Creio em duas coisas: no amor dos homens por tudo quanto é maravilhoso, ainda que esse maravilhoso seja absurdo, e no editor que me vendeu o fragmento da sonata ditada pelo Espírito Mozart, ao preço de 2 francos.

Se toda vossa crença se resume nisso, tudo bem: a mim parece a prima irmã do cepticismo.

Mas aposto que credes em algo mais do que no Sr. Ledoyen, que vos vendeu por 2 francos um fragmento de sonata: acreditais no produto de vossos artigos, pois presumo que, salvo engano, não os ofereceis pelo amor de Deus, como o Sr. Ledoyen não oferece os seus livros. Cada um tem o seu ofício: o Sr. Ledoyen vende livros, o literato vende prosa e verso. Nosso pobre mundo não se encontra ainda bastante adiantado para que possamos morar, comer e vestir-nos de graça. Talvez um dia os proprietários, os alfaiates, os açougueiros e os padeiros estejam suficientemente esclarecidos para compreenderem que é desprezível para eles pedir dinheiro; então os livreiros e os literatos serão arrastados pelo exemplo.

Com tudo isto não me destes o conselho que me oferecem os Espíritos. Ei-lo:

É prudente não nos pronunciarmos muito levianamente sobre aquilo que não conhecemos; imitemos a sábia reserva do sábio Arago, a propósito do magnetismo animal: “Eu não poderia aprovar o mistério com que se envolvem os cientistas sérios que hoje vão assistir às experiências de sonambulismo. A dúvida é uma prova de modéstia e raramente prejudica o progresso das ciências. Já não diríamos o mesmo da incredulidade. Aquele que, fora das matemáticas puras, pronuncia a palavra IMPOSSÍVEL, falta com a prudência. A reserva é um dever, sobretudo quando se trata da organização animal.

(Notícia sobre Bailly).

 

Aceitai etc.

Allan Kardec



[1] REVISTA ESPÍRITA – dezembro/1859 – Allan Kardec

segunda-feira, 27 de julho de 2026

THEREZINHA OLIVEIRA[1]

 


 

Therezinha Oliveira nasceu em 03 de outubro de 1930, na cidade de Cravinhos, São Paulo. Passou parte da sua infância em Santos e, após a morte do seu pai, em 1940. Morou por um tempo com a mãe e seus irmãos em Ribeirão Preto. Porém, foi em Campinas, desde os seus 26 anos de idade, onde fixou residência. Por sua experiência, conhecimento, ativa dedicação e fidelidade aos postulados espíritas, Therezinha Oliveira é considerada um dos maiores ícones do Espiritismo no Brasil.

Foi uma educadora incansável. Ela criou e ministrou diversos cursos sobre Espiritismo, abordando temas como: Doutrina Espírita: Explicação dos princípios básicos do Espiritismo, conforme codificados por Allan Kardec.

Ao longo dos seus 82 anos, proferiu mais de duas mil palestras em todo o Brasil e no exterior. Suas obras já ultrapassaram a marca de 700 mil exemplares publicados, sendo 300 mil de livros e 400 mil de livretos.

Ativa e moderna, criou o Blog Therezinha Oliveira em abril de 2010. Um colaborador do CEAK a ajudava com as questões técnicas e mais práticas de acesso ao blog, mas era ela quem respondia pessoalmente aos posts. Com uma meta de duas postagens semanais, ainda no início, este número chegou a atingir 20 postagens semanais.

Foram 1.658 posts do início até sua última postagem entre comentários e perguntas dos seus leitores sobre os mais diversos temas sobre a doutrina espírita como mediunidade, desencarnação de entes queridos, sonhos e desequilíbrios espirituais entre muitos outros. Em alguns casos D. Therezinha (como era carinhosamente chamada) estendia a conversa, marcava com o leitor no CEAK para melhor esclarecê-lo e ajudá-lo de forma mais próxima.

Sua última postagem aconteceu no dia 26 de agosto de 2013, às 15h31, esclarecendo dúvidas de uma leitora que sofria com alguns efeitos após receber o passe em uma casa espírita não identificada. A leitora leu um texto sobre PASSE – ALGUNS EFEITOS NOS ASSISTIDOS.

Therezinha desencarnou em Campinas, dois dias depois, em dia 28 de agosto de 2013.

sexta-feira, 24 de julho de 2026

CIENTISTAS AFIRMAM TER ENCONTRADO ATIVIDADE CEREBRAL DISTINTA DURANTE ESTADOS DE TRANSE “MEDIÚNICO[1]”.

 


Karina Petrova - 21 de julho de 2026

 

Um pequeno estudo exploratório sugere que pessoas que relatam vivenciar transe mediúnico apresentam padrões distintos de conectividade cerebral em comparação com indivíduos que praticam oração. Os pesquisadores propõem que a atividade cerebral registrada durante esses episódios sugere um estado alterado de consciência que não se assemelha ao sono típico ou a condições psiquiátricas. As descobertas foram publicadas na revista Psychiatry Research: Neuroimaging .

A mediunidade descreve uma prática na qual uma pessoa acredita subjetivamente estar atuando como um canal de comunicação com uma fonte que existe fora da realidade física. Muitos indivíduos relatam essas experiências como uma mudança repentina em sua consciência, permitindo-lhes ouvir ou ver supostas entidades espirituais. Embora relatos pessoais de tais eventos sejam comuns em muitas culturas, a tentativa de estudar o processo fisiológico por meio da neurociência moderna representa uma fronteira relativamente nova e altamente complexa.

Estudos anteriores de neuroimagem observaram a atividade cerebral básica em praticantes religiosos analisando pontos de atividade localizados. No entanto, os pesquisadores querem entender exatamente o que acontece na rede cerebral mais ampla quando uma pessoa entra voluntariamente no que descrevem como um estado de transe. Em vez de analisar regiões isoladas, eles estão tentando identificar como diferentes áreas colaboram entre si.

A autora principal, Jessica Placido, pesquisadora da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, investigou esse fenômeno juntamente com colegas de diversas universidades brasileiras. Eles examinaram especificamente as redes funcionais do cérebro. Essa abordagem analítica trata o cérebro humano como um sistema altamente interconectado.

A eletroencefalografia tradicional, ou EEG, mede a atividade elétrica do cérebro por meio de sensores colocados diretamente no couro cabeludo. Experimentos mais antigos geralmente mediam a potência bruta das ondas cerebrais em locais específicos e isolados. Placido e sua equipe optaram por um método de rede dinâmica para observar como esses sinais se relacionam entre si.

A análise de redes funcionais mapeia como diferentes partes do cérebro sincronizam sua atividade ao longo do tempo. Os pesquisadores aplicaram uma estrutura matemática chamada “teoria dos grafos” para rastrear esse comportamento. Nesse sistema, a leitura elétrica de cada sensor no couro cabeludo representa um nó distinto em uma rede maior.

As conexões entre esses nós são chamadas de arestas. Ao mapear constantemente os nós e as arestas, os cientistas criam um grafo em constante evolução da cognição humana. Se duas regiões distantes apresentarem a mesma sequência exata de alterações elétricas ao mesmo tempo, elas estabelecem uma conexão funcional.

A equipe conduziu um pequeno estudo utilizando dados de eletroencefalografia coletados de apenas 28 mulheres em Campo Grande, Brasil. Os pesquisadores recrutaram participantes de centros locais que praticam o Espiritismo. O Espiritismo oferece um contexto cultural onde a canalização de espíritos é uma prática voluntária, permitindo aos pesquisadores a oportunidade de examinar as participantes em um ambiente controlado.

Metade das mulheres selecionadas eram praticantes experientes que afirmavam canalizar espíritos regularmente há pelo menos cinco anos. As outras 14 mulheres serviram como grupo de controle. Essas mulheres frequentavam os mesmos centros religiosos e compartilhavam pontos de vista espirituais idênticos, mas não atuavam como canalizadoras.

Os pesquisadores confirmaram essa divisão pedindo aos participantes que preenchessem um questionário de autorrelato chamado Inventário de Experiências Anômalas. Essa pesquisa registra a frequência com que as pessoas afirmam vivenciar anomalias incomuns, como experiências fora do corpo, intuição inexplicável ou avistamento de espíritos. O grupo de médiuns relatou uma frequência muito maior de experiências anômalas em comparação com o grupo de controle.

Para iniciar o experimento, ambos os grupos permaneceram sentados em silêncio, com os olhos fechados, durante sete minutos em uma sala com pouca luz. Essa fase inicial estabeleceu uma medida basal da atividade cerebral em repouso. Após a avaliação basal, os dois grupos participaram de tarefas mentais e físicas fundamentalmente diferentes.

O grupo de médiuns passou por um suposto processo de transe psicofônico, ou seja, eles falaram em voz alta enquanto um espírito supostamente se comunicava através de suas cordas vocais. Enquanto isso, o grupo de controle participou ouvindo a sessão enquanto orava em silêncio. Os pesquisadores registraram os padrões elétricos em seus couros cabeludos durante toda a sessão simultânea.

Com os dados coletados, a equipe mapeou várias faixas de frequência. O cérebro humano produz diversos tipos de ondas elétricas, dependendo do estado mental da pessoa. Eles rastrearam as ondas delta, que são lentas e geralmente associadas ao repouso restaurador, e as ondas teta, que são ligeiramente mais rápidas e associadas ao relaxamento profundo.

Os cientistas também monitoraram as ondas alfa, que ocorrem quando uma pessoa está acordada, mas mentalmente calma, e as ondas beta, relacionadas ao pensamento ativo e focado. Para construir os gráficos da rede, o software buscou sequências correspondentes de picos e quedas elétricas entre os diferentes sensores. Essa técnica permitiu que os cientistas quantificassem por quanto tempo diferentes áreas do cérebro permaneceram sincronizadas.

Ao comparar a fase de transe com a fase de repouso basal, os médiuns apresentaram conectividade cerebral elevada nas faixas de frequência delta e teta. Suas regiões cerebrais sincronizaram com mais frequência e mantiveram essas conexões por períodos mais longos. Nenhum pico de conectividade semelhante ocorreu no grupo de controle.

Um aumento nas ondas cerebrais delta e teta geralmente sinaliza a transição da vigília para o início do sono. No entanto, os participantes do grupo mediúnico estavam falando ativamente e sentados eretos durante a gravação. Embora os pesquisadores proponham que o transe mediúnico funcione como um estado alterado de consciência único e completamente separado do repouso, é também muito provável que ações físicas, como falar e alterar a respiração, tenham influenciado essas leituras específicas.

Os cientistas monitoraram uma métrica adicional para determinar se o cérebro se comunicava entre seus dois hemisférios ou mantinha a atividade confinada localmente. Durante o transe, os médiuns experimentaram uma mudança em suas ondas alfa. O hemisfério esquerdo alterou seu comportamento, estabelecendo um equilíbrio igual de conexões dentro de seu próprio hemisfério e com o hemisfério direito.

O lado esquerdo do cérebro humano geralmente é responsável pela formulação da linguagem, compreensão linguística e fala. Como os médiuns estavam vocalizando mensagens ativamente durante a sessão, o hemisfério esquerdo demonstrou, logicamente, um estado de atividade alterado. No entanto, a oração silenciosa também utiliza intensamente essas mesmas regiões cerebrais.

A literatura científica sugere que a oração envolve diálogo interno e narrativas sociais, que ativam redes corticais semelhantes. Apesar da dependência compartilhada das redes de linguagem na oração, o grupo de controle não apresentou as mesmas alterações significativas no hemisfério esquerdo. Os pesquisadores suspeitam que os padrões cerebrais detectados estejam relacionados exclusivamente à natureza do próprio transe, embora a diferença na vocalização continue sendo um importante fator de confusão.

O grupo de controle sem intervenção apresentou apenas uma alteração na rede de ondas beta. Durante a sessão de oração, a probabilidade de uma área cerebral dominar o restante da rede diminuiu. Suas redes cerebrais tornaram-se mais universalmente sincronizadas enquanto oravam.

Os pesquisadores reconhecem algumas limitações importantes no procedimento experimental. Como este foi um estudo pequeno, com apenas 28 indivíduos, os padrões de conectividade observados representam uma amostra altamente localizada que requer replicação rigorosa no futuro. Notavelmente, as tarefas específicas realizadas pelos dois grupos variaram drasticamente em seus resultados físicos.

Os médiuns falaram em voz alta durante o transe, enquanto o grupo de controle orou em completo silêncio. Uma diferença física como vocalizar uma frase introduz movimentos musculares e alterações respiratórias que podem perturbar e influenciar severamente a atividade elétrica bruta detectada por um EEG no couro cabeludo. Os cientistas recomendam que projetos futuros solicitem ao grupo de controle que realize uma tarefa de fala improvisada para espelhar as ações físicas de uma mensagem canalizada, o que ajudaria a descartar sinais falsos.

Além disso, o equipamento de gravação portátil possuía um limite de amostragem que impedia a extração da banda de frequência gama. As ondas gama são os sinais elétricos mais rápidos gerados pelo cérebro e frequentemente estão relacionadas a estados de consciência intensos. Tecnologias médicas aprimoradas permitiriam que futuros pesquisadores monitorassem essa frequência ausente.

Apesar desses fatores de confusão significativos, os pesquisadores afirmam que a abordagem de redes funcionais oferece uma maneira produtiva de mapear experiências religiosas. A dinâmica da rede cerebral observada nos médiuns não se alinha com padrões associados a diagnósticos psiquiátricos graves, como a esquizofrenia. Com base nos dados preliminares de mapeamento, os pesquisadores concluem que a suposta mediunidade altera a sincronização cerebral de maneira não patológica, mesmo que os gatilhos fisiológicos exatos dessas alterações ainda estejam em debate.

O estudo, intitulado “ Dinâmica da rede funcional cerebral em mulheres com suposta mediunidade: um estudo controlado ”, foi escrito por Jessica Placido, Marco Aurelio Vinhosa Bastos Jr., Paulo Roberto Haidamus de Oliveira Bastos, Thaise GL de O. Toutain e Jose Garcia Vivas Miranda. Foi publicado em fevereiro de 2026.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

REGRESSÃO NA FORMA[1]

 


Miramez

 

Escolha das provas

Será possível que um homem de raça civilizada reencarne, por exemplo, numa raça de selvagens?

É, mas depende do gênero da expiação. Um senhor, que tenha sido de grande crueldade para os seus escravos, poderá, por sua vez, tornar-se escravo e sofrer os maus tratos que infligiu a seus semelhantes. Um, que em certa época exerceu o mando, pode, em nova existência, ter que obedecer aos que se curvaram ante a sua vontade. Ser-lhe-á isso uma expiação, que Deus lhe imponha, se ele abusou do seu poder. Também um bom Espírito pode querer encarnar no seio daquelas raças, ocupando posição influente, para fazê-las progredir. Em tal caso, desempenha uma missão.

Questão 273 / O Livro dos Espíritos

 

Um Espírito de mediana evolução pode renascer em uma tribo de selvagens, mas, tomando o lugar de destaque naquele ambiente, no sentido de levar os Espíritos ali reencarnados a melhores dias e a uma vivência mais agradável. Ele regride na forma, mas não no Espírito; o que aprendeu ele carrega consigo vibrando na alma.

Esse é um tipo de prova que se vê constantemente em todo o mundo; é lei de justiça divina. Assim, alguns impiedosos senhores de engenhos renasceram como escravos, para suportarem na própria carne o que fizeram os outros sofrer sob o seu comando. Pelas ruas encontramos muitas vezes mendigos dormindo nas calçadas, enfrentando frio e chuva, fome e nudez, e, ainda mais, o desprezo da sociedade, porque abusaram dos poderes no passado e desmantelaram a mesma sociedade com os seus instintos inferiores. Hoje, aparecem no cenário do mundo desprovidos de recursos, abandonados pela própria família, que não souberam respeitar. A caridade de Deus é, entretanto, infinita e a misericórdia de Jesus entra em qualquer lugar, abençoando e servindo, e mesmo esses irmãos, que se tornaram, em muitos casos, piores que os animais, serão assistidos com roupa e alimento, tendo, de vez em quando, um lugar para descansar o seu fardo.

Muitos desses Espíritos, que já se encontram saldando os débitos, saem logo das provações; outros, mesmo sendo convidados para melhores lugares, recusam, porque sentem a necessidade de sofrer pelo que fizeram os outros padecer com o seu orgulho e o seu egoísmo.

Tudo está certo no mundo. A caridade e o amor nos chamam, não para desfazer o que a lei cobra, mas, para aliviar o fardo dos que sofrem. Esse ato de luz prova a existência do Criador.

Podemos dizer, voltando ao assunto, que em meio aos selvagens pode haver missionários, em se comparando ao estado evolutivo deles. Espíritos menores, mas que se tornam bons, e ajudam os mais primitivos a despertarem para o bem e para a justiça, ainda que por processos rudimentares. Mas é bom que se entenda que, nesse meio mencionado, nunca reencarnam Espíritos Superiores, Espíritos puros, pois a sua missão, quando chegam a descer na carne, é no meio dos que lhes podem assimilar a lição, como na época da vinda de Jesus à Terra.

É importante que o homem entenda que, se está sendo chamado para algum lugar de destaque na sua sociedade, é preciso fazer uso dos seus poderes temporais, fazendo justiça com amor, tendo cuidado com os caminhos pessoais. Deve refrear os instintos, porque as paixões inferiores podem levá-lo ao caos e fazê-lo nascer de novo na regressão da forma e em lugares difíceis, pelo mau uso das faculdades que Deus concedeu.

Não percamos tempo, porque o tempo passa. Lembremo-nos sempre do Cristo e peçamos a Ele inspiração para a nossa vida, para não precisarmos voltar, pelo impositivo da lei, à carne em piores condições na forma e no ambiente. A dor sempre cobra de quem fez mal uso da saúde e dos poderes. Não devemos regredir em nada, para a nossa alegria.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 6 – João Nunes Maia

quarta-feira, 22 de julho de 2026

TERAPIA DE LIBERTAÇÃO ESPIRITUAL[1]

 


Terence Palmer – 08/abril/2026

 

A Terapia de Liberação Espiritual (TRS) ocupa um espaço controverso entre a psicoterapia, a cura espiritual e a crença na sobrevivência espiritual. Praticada com pessoas que se acredita estarem sob o domínio de entidades possessoras, ela se baseia no diálogo, em estados alterados de consciência e em tradições espíritas, embora permaneça controversa devido à falta de um sólido suporte empírico controlado até os dias de hoje.

§  A TRS difere do exorcismo religioso por tratar o problema como um encontro terapêutico, em vez de simplesmente expulsar uma força maligna.

§  Os praticantes relatam métodos que envolvem intuição, hipnose, trabalho à distância e tentativas de guiar espíritos presos à Terra em direção à 'Luz'.

§  A abordagem tem raízes históricas em figuras como Hyslop, Wickland, Fiore e Baldwin, mas ainda não existe uma validação robusta.

 

Definições

Cada profissional de Terapia de Resposta Social (TRS) tem sua própria definição de prática. William Baldwin situa a TRS como uma terapia dentro do domínio da Psicologia Transpessoal, definida pela Associação Britânica de Psicologia como:

A psicologia da espiritualidade e das áreas da mente humana que buscam significados mais elevados na vida e que transcendem as limitações do ego para acessar uma capacidade ampliada de sabedoria, criatividade, amor incondicional e compaixão. Ela honra a existência de experiências transpessoais e se preocupa com seu significado para o indivíduo e com seu efeito sobre o comportamento[2].

Baldwin escreve:

A Terapia de Libertação Espiritual se enquadra na ampla categoria de métodos da Psicologia Transpessoal e recebe esse nome porque visa liberar do cliente/paciente/hospedeiro qualquer tipo de consciência desencarnada[3].

Essa definição simples engloba uma ampla diversidade de entidades espirituais. Baldwin emprega o termo "consciência desencarnada de qualquer tipo" para incluir:

§  espíritos de pessoas falecidas;

§  entidades destrutivas não humanas, comumente referidas em um contexto religioso como 'demônios', agora mais frequentemente como Entidade da Força Obscura (EFO);

§  formas de pensamento negativas criadas pelo hospedeiro ou por outras pessoas vivas;

§  maldições intergeracionais, elementais, formas de vida alienígenas e outras menos claramente definidas[4].

Afirma-se que é possível manter um diálogo até mesmo com o espírito desencarnado de um feto. Winafred Lucas descreve métodos de comunicação com o espírito do nascituro – negociando seu retorno ao mundo espiritual, onde se acredita que ele exista antes da concepção – em vez de expulsá-lo por meio de um aborto físico, que é traumático para o espírito do feto e pode fazê-lo permanecer preso à Terra e ligado à mãe[5]. A libertação do espírito do nascituro resulta em um aborto espontâneo natural e indolor.

O terapeuta de TRS busca descobrir o tipo de espírito (ou espíritos) que está afetando o paciente. Aqui, a palavra "consciência" implica uma relação direta entre espírito e consciência. Um espírito pode, portanto, ser referido como uma "consciência desencarnada".

A questão de saber se essas formas conscientes desencarnadas existem, seja em forma material ou metafísica, ou se são criadas pela imaginação, é um tema de debate entre os praticantes da TRS[6].

Os terapeutas modernos de libertação espiritual e outros profissionais que afirmam trabalhar com entidades espirituais desencarnadas definem essas entidades de acordo com sua orientação. Um grupo liberta entidades espirituais de lugares, outro as liberta de pessoas. Um terceiro tipo se autodenomina "resgatadores de almas", seguindo a prática xamânica de se comunicar com espíritos de acordo com "as regras de coexistência com o outro mundo[7]" .

O primeiro grupo é representado por profissionais como Archie Lawrie[8] da Sociedade Escocesa de Pesquisa Psíquica (SSPR) e Linda Williamson[9]. Lawrie é considerado por muitos um "caçador de fantasmas"; no entanto, ao contrário de outros investigadores paranormais, ele conta com a ajuda de um médium para se comunicar com espíritos inquietos.

Em seu livro Ghosts and Earthbound Spirits (2006), Williamson observa que os médiuns discordam sobre como fantasmas ou espíritos devem ser definidos. 'Fantasma' é o termo geralmente aplicado a espíritos que habitam casas; outros os chamam de 'espíritos presos à terra'. Os espiritualistas[10] se referem àqueles com quem se comunicam como 'espíritos[11]'.

Williamson distingue entre espíritos que existem em um domínio espiritual, ou mundo espiritual, como 'guias' e os espíritos dos falecidos, e aqueles que permanecem 'presos à Terra' por uma variedade de razões. Ela afirma que espíritos 'malignos' existem. No entanto, em sua experiência como praticante, os poltergeists não são malignos, mas espíritos 'perdidos e frustrados' de almas presas à Terra que estão tentando atrair atenção[12].

Entre os praticantes de TRS que afirmam libertar espíritos de pessoas estão Carl Wickland[13], Hans Naegeli-Osjord[14] e William Baldwin[15].

 

Métodos de comunicação empregados na TRS

Na terapêutica tradicional, o aconselhamento ou tratamento psiquiátrico geralmente é realizado em uma entrevista presencial, na qual terapeuta e cliente utilizam suas capacidades cognitivas normais e conscientes para dialogar. As intervenções da Terapia de Resposta Sistêmica (TRS) raramente são conduzidas dessa forma (exceto na consulta inicial), mas sim por meio de um dos seguintes métodos.

Com o método do Terapeuta Intuitivo, o terapeuta escuta informações que provêm de uma fonte que se encontra além do limiar da percepção sensorial normal em estado de vigília. Nesse modelo, o terapeuta acessa informações da mente subliminar do cliente, cuja fonte última pode ser vista como o Eu Superior do cliente, um guia espiritual (ver abaixo) que se ofereceu para auxiliar ou a entidade (ou entidades) desencarnada(s) que possui(em) o cliente e é(são) a causa de seu sofrimento.

O terapeuta tenta comunicar-se intuitivamente num nível que ultrapassa o limiar da consciência desperta normal; contudo, nem sempre é necessário induzir artificialmente um estado alterado de consciência. O fato de ocorrer comunicação com entidades desencarnadas e de se obterem informações indica que se atingiu um estado alterado, ou pelo menos uma alteração na frequência mental. Um termo alternativo para descrever este método, em que o termo "intuitivo" se mostra insuficiente, é "canalização[16]", onde o terapeuta utiliza competências naturais adquiridas em telepatia (mente para mente), clarividência (visão clara), clariaudiência (audição clara) ou claresciência (sensação física clara).

No método Interativo, o cliente atua como intermediário entre o terapeuta e as entidades possessoras. Aqui, é o cliente quem utiliza telepatia, clarividência, clariaudiência e claresciência. É comum que os clientes não tenham consciência de possuir essas habilidades, encarando a experiência como efeito de uma imaginação hiperativa ou até mesmo como uma forma de transtorno mental. Os clientes são encorajados a confiar em sua própria intuição e a permitir a expressão de pensamentos e sentimentos que lhes pareçam estranhos, mantendo sua mente analítica em suspenso.

O método Interativo Direto consiste em uma relação frente a frente entre o cliente e o terapeuta, na qual o cliente entra em um estado alterado de consciência para se comunicar com a entidade anexada. Trata-se de uma forma de "possessão positiva", na qual o cliente permite voluntariamente que a entidade desencarnada assuma o controle dos centros da fala.

O método Remoto utiliza um scanner remoto – um médium ou clarividente que não está em contato direto com o paciente/cliente/anfitrião – como instrumento de comunicação entre o facilitador (terapeuta), o Eu Superior do paciente, a(s) entidade(s) perturbadora(s) e quaisquer guias espirituais que possam estar presentes para oferecer orientação e aconselhamento. Os mecanismos de comunicação aplicados pelo método remoto podem ser descritos simplesmente como 'telepáticos' ou 'projeção astral' parcial, que pode ser entendida como algo relacionado à 'visão remota'. As vantagens do método remoto são que o cliente, estando situado em um local distante, não é influenciado por sugestões vocais diretas e também não consegue erguer barreiras defensivas ao processo terapêutico. Os praticantes do método remoto afirmam que entidades espirituais perturbadoras podem ser 'desmascaradas' devido à natureza clandestina do método[17].

O Resgate de Almas em Grupo envolve dois ou mais praticantes de libertação espiritual trabalhando coletivamente, uma prática comum no movimento espírita brasileiro.

Uma sessão com um cliente pode progredir por meio de qualquer um desses métodos, ou uma combinação de dois ou mais.

Quando o espírito terreno de uma pessoa falecida é descoberto, ele é encorajado a seguir para 'A Luz', onde poderá continuar sua jornada espiritual. Entidades não humanas podem ser 'capturadas' por seres angelicais e conduzidas a um local apropriado para sua educação e orientação.

Na aplicação prática das técnicas de Spirit Release, o observador oculto é de suma importância. No protocolo TRS, existe um componente espiritual do indivíduo, considerado respeitosamente como o 'Eu Superior', cuja permissão é sempre solicitada antes de se prosseguir com uma intervenção terapêutica[18].  Na linguagem espiritual, o Eu Superior é aquela parte da personalidade que se encontra mais distante do plano terrestre e mais próxima de Deus, ou do transcendente .

 

Desenvolvimento histórico do TRS

James Hyslop

A primeira referência publicada ao método de tratamento agora conhecido como Terapia de Libertação Espiritual foi provavelmente feita por James Hyslop, professor de lógica e ética da Universidade de Columbia de 1889 a 1902. Hyslop tornou-se um investigador ativo de fenômenos psíquicos e presidiu a Sociedade Americana de Pesquisa Psíquica. Ele usou o termo "obsessão", no contexto da pesquisa psíquica, para denotar a influência anormal de espíritos sobre os vivos:

As curas alcançadas exigiram muito tempo e paciência, o uso de psicoterapias de um tipo incomum e o emprego de médiuns para entrar em contato com os agentes obsessivos e, assim, libertá-los do domínio que esses agentes exercem, ou educá-los para o abandono voluntário de suas perseguições…

Todos os casos de dissociação e paranoia aos quais apliquei referências cruzadas cederam ao método e comprovaram a existência de agentes externos, agravados pelos sintomas de deterioração mental ou física. É mais do que hora de realizar experimentos em larga escala em um campo que promete ter tanto valor prático quanto qualquer aplicação do bisturi ou do microscópio[19].

 

Carl Wickland

Em 1924, foi publicada a primeira monografia sobre a libertação de espíritos desencarnados por um médico. O Dr. Carl Wickland descreve um incidente ocorrido quando ele era estudante de medicina e praticava dissecação no cadáver de um homem de sessenta anos. Ao retornar para casa, sua esposa – que possuía habilidades mediúnicas – entrou espontaneamente em estado de transe. Enquanto Wickland a ajudava a sentar-se em uma cadeira, uma voz autoritária emanou dela, dizendo: 'O que você quer dizer com me cortar?[20]'

Descobriu-se que o espírito terreno do homem a quem o corpo pertencia o havia seguido até sua casa e se aproveitado do dom de mediunidade da Sra. Wickland para comunicar seu desagrado por ter sido molestado, sem perceber que estava morto.

A partir desse momento, Wickland e sua esposa embarcaram em uma carreira de trinta anos ajudando os espíritos presos à Terra de indivíduos falecidos a progredirem em seu desenvolvimento espiritual. Nisso, eles eram guiados por 'seres desencarnados' que, segundo ele, possuíam inteligência superior e vinham de 'outros reinos em nosso universo'. Após sua morte, Wickland deixou um arquivo de casos documentados de possessão espiritual, incluindo detalhes textuais de como os curava, com sua esposa atuando como intermediária de comunicação[21] .

Contra os psicólogos que consideravam os casos de múltiplas personalidades, personalidades dissociadas ou estados de consciência desintegrados como distúrbios dissociativos – sob o argumento de que essas personalidades não apresentavam evidências de conhecimento supranormal nem de origem espírita – Wickland escreveu:

Nossa experiência, ao contrário, comprovou que a maioria dessas inteligências desconhece sua transição e, portanto, não lhes ocorre que são espíritos, e relutam em reconhecer esse fato[22].

Entre os casos registrados por Wickland, encontram-se vários em que um paciente diagnosticado com psicose foi curado após uma sessão bem-sucedida de libertação espiritual. Esses casos são de particular interesse porque representam um grupo de pacientes cujo sofrimento se encontra no extremo da escala de doenças mentais diagnosticadas, sendo os mais difíceis de tratar com os métodos médicos e psicoterapêuticos tradicionais.

Como exemplo, Wickland cita o seguinte caso:

Numa noite de verão, fomos chamados à casa da Sra. M, uma senhora culta e refinada; ela era uma musicista de renome e, quando as exigências sociais a ela impostas se tornaram excessivas, sofreu um colapso nervoso. Ela se tornou intratável e, durante seis semanas, esteve num estado tão delirante que seus médicos não conseguiram aliviá-la, sendo necessário o acompanhamento constante de enfermeiras dia e noite.

Encontramos a paciente sentada na cama, chorando num minuto como uma criança desamparada e, no minuto seguinte, gritando de medo: 'Matilla! Matilla!' Depois, de repente, lutando e se debatendo, ela falava um monte de palavras sem sentido em inglês e espanhol (este último um idioma que ela não conhecia).

A Sra. Wickland deu imediatamente seu diagnóstico psíquico, dizendo que o caso era inquestionavelmente de obsessão[23], e isso foi inesperadamente confirmado quando a Sra. Wickland, que estava de pé aos pés da cama, com as roupas já pronta para sair, foi repentinamente encontrada em transe. Nós a colocamos em um sofá na sala de música, onde, por duas horas, conversei alternadamente com vários espíritos que haviam sido atraídos pela paciente.

Havia três espíritos: uma jovem chamada Mary, seu pretendente, um americano, e seu rival mexicano, Matilla. Ambos os homens amavam a jovem intensamente e se odiavam com a mesma ferocidade. Num acesso de ciúme, um deles matou a jovem, e então, numa luta desesperada, os dois rivais se mataram mutuamente.

Ninguém tinha consciência de estar 'morto', embora Mary dissesse, chorando copiosamente: 'Pensei que eles fossem se matar, mas aqui estão eles, ainda brigando'.

Essa tragédia de amor, ódio e ciúme não terminou com a morte física; o grupo fora inconscientemente atraído para a atmosfera psíquica da paciente, e a luta violenta continuou dentro de sua aura. Como sua resistência nervosa estava extremamente baixa naquele momento, um após o outro usurpou seu corpo físico, resultando em uma perturbação inexplicável por seus acompanhantes[24].

Outros profissionais médicos do século XX que descobriram entidades desencarnadas afetando seus próprios pacientes e publicaram suas descobertas incluem (em ordem cronológica de publicação) Adam Crabtree (1985), Edith Fiore (1987), Hans Naegeli-Osjord (1988), Irene Hickman (1994), William Baldwin (1995) e Shakuntala Modi (1997).

 

Adam Crabtree

Adam Crabtree foi um monge beneditino, ordenado sacerdote na Igreja Católica em 1964. Estudioso sério da psique humana, tornou-se psicoterapeuta (também lecionou filosofia e psicologia da religião).

Crabtree cita vários exemplos da literatura que foram classificados por racionalistas da psicologia como sendo de dupla ou múltipla personalidade. Ele comenta:

         Ao examinar os dados sobre transtorno de personalidade múltipla, não se pode ignorar um fenômeno que apresenta certas semelhanças marcantes: a possessão. Aqui também, o sujeito exibe uma dualidade ou mesmo multiplicidade de personalidades que negam qualquer identidade entre si. Além disso, tanto no transtorno de personalidade múltipla quanto na experiência de possessão, podem estar presentes amnésias de vários tipos[25].

Na introdução do primeiro livro de Crabtree, Multiple Man (1985), Colin Wilson escreve:

Ele é, antes de tudo, um cientista, e sua primeira reação ao mistério da personalidade múltipla foi estudar detalhadamente sua história médica. A primeira parte deste livro é uma introdução tão equilibrada a este tema desconcertante quanto qualquer outra que eu já tenha encontrado. Mas a seção mais importante do livro é a que começa no capítulo dez, descrevendo as próprias experiências de Crabtree com esses casos. Penso que foi muito bom para Crabtree apresentar suas credenciais como historiador da ciência na primeira parte do livro, caso contrário, alguns desses casos – e chamo a atenção especialmente para os do "Pai Confuso" e da "Mãe Queixosa" – poderiam levantar a suspeita de que ele está distorcendo os fatos. Embora alguns psicólogos, sem dúvida, prefiram ignorar as descobertas de Crabtree, aqueles que forem suficientemente abertos para considerá-las sem preconceitos descobrirão que elas abrem perspectivas estranhas e instigantes[26].

A primeira parte do livro de Crabtree oferece uma visão geral aprofundada das estruturas conceituais que acomodam os fenômenos de múltiplas personalidades e possessão espiritual. Esses são os mesmos conceitos que Wickland identificou em relação ao mundo espiritual e à vida após a morte, mas com a adição do fenômeno coletivo de estados alterados de consciência. Crabtree prossegue explicando a relação entre estados alterados de consciência, hipnose e possessão espiritual.

Com base nas descobertas dos primeiros praticantes do mesmerismo e do hipnotismo, desde Franz Anton Mesmer (1734-1815) até os dias atuais, Crabtree identifica vários métodos para induzir o "sono magnético" (transe hipnótico ou estado dissociativo) e os fenômenos observados como resultado disso. Os praticantes identificaram dois grupos distintos de características anormais, que descreveram como "fenômenos inferiores" e "fenômenos superiores[27]".

As características da consciência inferior incluíam:

§  uma espécie de consciência sonâmbula

§  dupla consciência e dupla memória

§  perda do senso de identidade

§  sugestionabilidade

§  memória aguçada

§  entorpecimento dos sentidos

§  insensibilidade à dor

§  intensa afinidade com o magnetizador

As características da consciência superior foram agrupadas da seguinte forma:

§  afinidade física ou sensorial (percepções dos sentidos físicos do outro)

§  sintonia mental (telepatia)

§  clarividência (visão clara nos reinos espirituais)

§  êxtase (experiência mística)

Crabtree pesquisou o desenvolvimento da psicoterapia no tratamento de pessoas diagnosticadas, correta ou incorretamente, com doenças mentais, a partir de suas próprias experiências clínicas com pacientes[28]. O trabalho de Crabtree é significativo por abordar esses fenômenos anômalos a partir de uma perspectiva de pesquisa científica.

 

Edith Fiore

A contribuição da psiquiatra Dra. Edith Fiore para o desenvolvimento do TRS[29] é um guia para ajudar terapeutas céticos a adotarem uma abordagem de mente aberta em relação às experiências de seus pacientes, fornecendo também conselhos práticos para indivíduos, incluindo um método para se livrarem da possessão espiritual e se protegerem dela.

Com relação à regressão a vidas passadas e ao que ela chama de "despossessão", Fiore expressa prontamente seu próprio ceticismo quanto à realidade da existência não corpórea e da reencarnação, reconhecendo que possui uma inclinação natural à rejeição dessas ideias devido à falta de um arcabouço conceitual que as acomodasse. Contudo, a realidade das experiências "espontâneas" de estado alterado de consciência de seus pacientes a obrigou a reconhecer sua subjetividade; e ela se sentiu motivada a conduzir sua própria pesquisa sobre esses fenômenos a fim de encontrar um arcabouço conceitual que se adequasse às experiências.

A pesquisa bibliográfica de Fiore revelou o Livro Tibetano dos Mortos, referências a Jesus de Nazaré expulsando demônios na Bíblia e os escritos antigos de Homero, Plutarco e Flávio Josefo. Ela descobriu as tradições culturais dos antigos chineses em seu reconhecimento dos espíritos ancestrais, que remontam a mais de dez mil anos, e, mais recentemente, o culto exorcista japonês 'Mahikari', que contava com quatro mil membros em todo o mundo em 1970. Fiore teve acesso a informações sobre os antigos egípcios e as igualmente antigas escrituras pré-hindus, os Vedas. Fiore dedica um tempo para explicar a hierarquia de sete níveis do modelo védico da existência espiritual e física humana[30].

A pesquisa de Fiore revelou informações de que alguns dos princípios da antiga tradição védica ressurgiram no Ocidente em dois movimentos no século XIX: o Espiritualismo e a Teosofia. Todas essas tradições, antigas e modernas, levaram à forte crença na continuidade da personalidade individual após a morte. Fiore afirma que, como sua pesquisa visava explicitamente descobrir informações sobre a possessão de pessoas falecidas por espíritos presos à Terra, ela se interessou particularmente pelos movimentos espiritualista e teosófico e sua influência sobre curandeiros em várias partes do mundo.

Fiore descobriu que, fundadas na antiga tradição mundial do Xamanismo e no Espiritualismo mais recente, as práticas modernas de cura e despossessão do 'Espiritismo' estão florescendo na América do Sul atualmente. Fortemente influenciado pelo trabalho do cientista francês Allan Kardec[31], o movimento espírita moderno em São Paulo, Brasil, emprega três mil e quinhentos médiuns de todas as classes sociais, desde humildes analfabetos a advogados, que prestam seus serviços aos que sofrem gratuitamente (Kardec (1857; 1874, 18).

Avançando para os dias atuais, no momento em que escreveu, Fiore faz referência ao trabalho de Carl Wickland e Adam Crabtree (ambos citados acima), ao qual acrescenta os trabalhos do antropólogo americano Michael Harner[32], que aparentemente chocou seus colegas ao estabelecer uma sociedade de cura xamânica, e do psiquiatra britânico Arthur Guirdham[33], que, após quarenta anos trabalhando com doentes mentais, chegou à conclusão de que todas as formas de doença mental grave podem ser causadas por interferência espiritual.

Fiore reconhece que há um número crescente de profissionais de saúde mental que estão tomando conhecimento de diversas técnicas de despossessão e, à medida que seu trabalho se torna conhecido, outros buscam treinamento, e é com isso em mente que ela apresenta seus métodos.

Fiore afirma que, ao longo da história registrada, as pessoas acreditaram no fenômeno da possessão espiritual por entidades terrenas, e essa experiência transcende todas as fronteiras de cultura, classe, intelecto e estrutura social. Apesar dessas tradições, crenças e experiências, Fiore ainda acredita que a vida após a morte, a reencarnação e a possessão não podem ser comprovadas, mas sugere que o ônus da prova não é uma prioridade; porém, quando se trata de sofrimento humano, os resultados são.

Raymond Moody, outro especialista em pesquisa científica sobre a existência não corpórea, contribuiu para o livro de Fiore com este prefácio:

Curiosamente, desde o início do século XX, tornou-se impopular entre os profissionais da área da psicologia explorar, de forma cuidadosa e introspectiva, as muitas alterações incomuns e, por vezes, espetaculares às quais a consciência humana está sujeita. Nesse contexto, o trabalho pioneiro de estudiosos como William James foi rejeitado e tratado com desprezo por pessoas que afirmavam seriamente que o estudo da mente como consciência era impossível e que a única coisa que poderia ser estudada sob a égide da psicologia era o comportamento objetivamente observável. Atualmente, estamos testemunhando uma mudança nessa atitude, e hoje um grande número de profissionais sérios e bem treinados nas áreas da psicologia e da medicina estão ativamente engajados no estudo dos estados alterados de consciência. Minha amiga e colega, Dra. Edith Fiore, realizou um estudo interessantíssimo sobre um dos estados mais controversos – o antigo enigma da possessão[34].

Mesmo após tratar mais de quinhentos pacientes durante um período de sete anos, que estavam possuídos por espíritos presos à Terra de pessoas falecidas (o que representa 75% do total de seus clientes), Fiore permanece cética, como ela mesma escreve:

Não estou tentando provar que espíritos existem ou que meus pacientes estavam possuídos. Em vez disso, mostrarei o que acontece diariamente no meu consultório e apresentarei uma terapia que, embora não seja uma panaceia, é eficaz e incorpora conceitos antigos no contexto da hipnoterapia do século XX[35].

 

William Baldwin

O dentista William Baldwin[36], citado anteriormente, utilizava a hipnose para ajudar seus pacientes a superar o medo de dentistas. Em uma ironia do destino, Baldwin descobriu acidentalmente o fenômeno da ligação espiritual ao encontrar almas presas à Terra ligadas a vários de seus pacientes. Como resultado dessa descoberta, Baldwin abandonou a odontologia para dedicar o resto de sua vida profissional ao tratamento de pessoas que sofriam de ligação espiritual, e seu livro continua sendo reconhecido como um texto fundamental na formação e no treinamento de profissionais de libertação espiritual.

 

Irene Hickman

O trabalho inicial da psiquiatra Irene Hickman, Mind-Probe Hypnosis (Hipnose com Sonda Mental), é um precursor não só da sua progressão para a terapia de libertação espiritual, mas também uma introdução aos trabalhos posteriores de Michael Newton[37], Gary Zukav[38] e outros que tiveram experiências semelhantes com pacientes que regrediam espontaneamente a vidas anteriores e à 'vida entre vidas'.

O trabalho de Hickman progrediu sob o treinamento e orientação de William Baldwin, culminando na publicação de suas experiências clínicas de libertação espiritual no que ela denominou "Despossessão Remota[39]". Ela adicionou uma nova e interessante dimensão às técnicas de libertação espiritual, que poderia ser descrita como o método de libertação "remota" ou "indireta", apresentado anteriormente na seção Métodos de Comunicação Empregados pela TRS. A libertação espiritual remota (ou indireta) envolve a liberação de uma entidade apegada sem a consciência do hospedeiro, que pode estar a alguma distância do terapeuta. Hickman desenvolveu esse método para superar a possibilidade de contaminação por sugestão do terapeuta.

Por envolver o uso da telepatia, a despossessão remota pode ser descrita como radical – indo além dos limites da teoria científica convencional. No prefácio da obra de Hickman, Willis Harman se refere ao trabalho pioneiro de William James, que defendeu uma epistemologia revisada que abarcasse o "empirismo radical".

 

Libertação Espiritual Hoje e no Futuro

Os profissionais de saúde mental encontram cada vez mais pessoas que sofrem de uma ampla gama de problemas que não respondem a intervenções médicas ou psicológicas tradicionais. Alguns, céticos quanto à existência de espíritos, como o hipnoterapeuta Roy Hunter[40], estão, no entanto, dispostos a adotar o que poderia ser descrito como uma técnica de libertação espiritual para atender às necessidades de seus pacientes. Outros, como o psicoterapeuta Tom Zinser[41], reconhecem a existência de uma realidade alternativa e tratam seus pacientes com a ajuda de "guias espirituais", de maneira muito semelhante à de Carl Wickland.

Associações estão sendo formadas por profissionais e outras pessoas de mente aberta, ansiosas para aprender as técnicas de TRS. Em 2000, o psiquiatra Alan Sanderson fundou a Spirit Release Foundation (SRF), com o apoio de Andrew Powell, fundador e presidente do Grupo de Interesse Especial em Espiritualidade do Royal College of Psychiatrists[42], e de um grupo de médicos e terapeutas complementares. Como uma organização profissional de treinamento em TRS, visava corrigir o desequilíbrio entre as experiências de profissionais na prática privada e a necessidade de educação na psiquiatria convencional. A organização foi dissolvida devido à falta de financiamento; no entanto, ex-membros com formação médica, psiquiátrica e em psicologia oferecem orientação especializada e apoio a colegas que se deparam com casos difíceis.

A pesquisa sobre a TRS foi apresentada em conferências no Reino Unido para profissionais da área médica, a mais recente das quais, o Fifth British Congress on Medicine and Spirituality, ocorreu em Londres em outubro de 2015. Os pesquisadores são particularmente ativos no Brasil, cujo movimento espírita começou a incorporar técnicas de liberação espiritual na medicina institucionalizada já na década de 1930[43].

A abreviatura 'TRS' foi usada aqui principalmente em relação à Terapia de Libertação Espiritual, mas também pode se referir à ‘Spirit Response Therapy’, uma abordagem desenvolvida por Robert Detzler[44] como um meio de cura no domínio espiritual através do uso de um pêndulo de radiestesia. Ambas envolvem a libertação de espíritos de pacientes/clientes.

 

Vórtice de energia

O psicólogo Andy Tomlinson descreveu pela primeira vez um método energético para a remoção de energias negativas em seu livro “Transforming the Eternal Soul" (Transformando a Alma Eterna[45]), em 2011. O método funciona da seguinte forma: o terapeuta cria um vórtice energético, semelhante a um cano de esgoto, para remover as energias negativas do cliente, enviando-as diretamente para o plano espiritual e evitando que se apeguem ao terapeuta. A energia negativa é expelida do cliente para o vórtice através da criação de conexões energéticas com diversas fontes de energia e do aumento intuitivo do nível energético até que a energia negativa seja completamente removida. É um processo muito rápido, removendo todas as energias negativas de uma pessoa em poucos minutos e podendo ser realizado remotamente. Tomlinson tem ensinado essa técnica a profissionais de libertação espiritual em todo o mundo.

 

Bebidas alcoólicas?

A noção de que as doenças mentais eram causadas por espíritos possessores era uma crença comum antes do Iluminismo do século XVIII. O remédio tradicional era o exorcismo religioso[46],[47].  Com o surgimento do racionalismo científico, os psiquiatras substituíram os exorcistas, e as noções de demônios e possessão espiritual foram relegadas ao domínio da superstição.

Contudo, no período moderno, pioneiros individuais nos campos da psicoterapia e da saúde mental ocasionalmente tiveram motivos para reconsiderar a possibilidade da existência de espíritos. Embora geralmente não seja reconhecido como tal, Carl Jung pode ser considerado um dos psicólogos pioneiros do século XX na prática da Terapia de Reconstrução Espiritual (TRE), tendo passado três dias dialogando com espíritos que acreditava habitarem sua casa e ajudando-os a partir[48]. Jung escreve:

As almas dos mortos 'sabem' apenas o que sabiam no momento da morte, e nada além disso. Daí seu esforço para penetrar na vida a fim de compartilhar do conhecimento dos homens. Frequentemente tenho a sensação de que elas estão bem atrás de nós, esperando para ouvir qual resposta daremos a elas e qual resposta daremos ao destino[49].

Os registros de Carl Wickland, fruto de seus trinta anos de experiência clínica e pesquisa psíquica organizada, podem ser considerados uma contribuição científica que apoia a teoria de uma existência não corpórea, ou "hipótese da sobrevivência". Juntamente com as evidências documentadas por místicos e cientistas anteriores, como Emmanuel Swedenborg[50], Allan Kardec[51], Edgar Cayce[52],  William James[53], Frederic Myers[54] e James Hyslop[55], os relatos de Wickland tendem a corroborar a hipótese da ligação espiritual como uma realidade que a medicina moderna poderá um dia considerar.

 

Obras citadas

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§  Zukav, G. (1990). The Seat of the Soul. New York: Fireside/Simon & Schuster.

 

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[3] Baldwin (1995), 207.

[4] Baldwin (1995).

[5] Lucas (2000), 257-316.

[6] Hunter (2005), 156-57.

[7] O’Sullivan & O’Sullivan (1999), xix.

[8] Archie Lawrie (2003; 2005).

[9] Williamson (2006).

[10] O termo maiúsculo 'Espiritualistas' é usado para descrever aqueles que praticam comunicação com espíritos como religião.

[11] Williamson (2006), 11.

[12] Williamson (2006), 11

[13] Wickland (1924).

[14] Naegeli-Osjord (1988).

[15] Baldwin (1995).

[16] Neate (1997).

[17] Hickman (1994).

[18] A ética profissional exige que o paciente permissão conceda para introduzir qualquer forma de intervenção. Quando a psique do paciente está fragmentada, isso cria problemas, já que a permissão pode ser concedida por uma parte e negada por outras. Na TRS, o Eu Superior recebe autoridade executiva sobre todas as outras partes (Zinser, 2010, 141).

[19] Wickland (1924), 8-9.

[20] Wickland (1924), 18.

[21] Wickland (1924), 21.

[22] Wickland (1924), 29.

[23] Obsessão é o termo usado por Wickland para denotar apego espiritual. Também é um termo usado pela Igreja Católica Romana como uma das categorias de influência demoníaca (Baglio, 2009).

[24] Wickland (1924), 25-26.

[25] Crabtree (1985), 60.

[26] Wilson (1985).

[27] Crabtree (1985), 2-20.

[28] Crabtree, 1985.

[29] Fiore (1987).

[30] Fiore (1987), 15-17.

[31] Kardec (1857; 1874).

[32] Harner (1980).

[33] Guirdham (1982).

[34] Moody (1988).

[35] Fiore (1987), xi.

[36] Baldwin, 1995.             

[37] Newton (1994; 2000; 2004).

[38] Zukav (1990).

[39] Hickman (1994).

[40] Hunter (2005).

[41] Zinser (2010).

[43] Moreira-Almeida & Santos (2012).

[44] Detzler (1999).

[45] Tomlinson (2011), 31-57.

[46] Ellenberger (1970), 14.

[47] Crabtree (1993).

[48] Jung (1995), 339; Ebon (1974), 258-67; Hoeller (1982).

[49] Jung (1995), 339.

[50] Swedenborg (1758).

[51] Kardec (1857).

[52] Cayce (1970).

[53] James (1902).

[54] Myers (1903).

[55] Hyslop (1919).