terça-feira, 27 de janeiro de 2026

MOBILIÁRIO DE ALÉM-TÚMULO[1]

 


Allan Kardec

 

Extraímos a seguinte passagem de uma carta que um dos correspondentes do Departamento do Jura enviou à Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas:

 

(...) Como já vos tinha dito, senhor, os Espíritos gostavam da nossa velha habitação. No mês de outubro passado (1858), a senhora condessa de C., amiga íntima de minha filha, veio passar alguns dias em nossa mansão, acompanhada do filhinho de oito anos. O menino dormia no mesmo apartamento que a mãe. A fim de que ele e minha filha pudessem prolongar as horas do dia e da conversa, a porta comum que comunicava seus quartos ficava aberta. O garoto não dormia e dizia à sua mãe: ‘O que a senhora fará com esse homem que está sentado junto à sua cama? Ele fuma um grande cachimbo. Veja como enche o quarto de fumaça; mandai-o embora; ele sacode as cortinas.’ Tal visão durou a noite inteira. A mãe não conseguiu fazer a criança calar e ninguém pôde pregar os olhos. Essa circunstância não surpreendeu a mim nem à minha filha, pois sabemos que há manifestações espíritas. Quanto à mãe, imaginou que o filho sonhava acordado ou se divertia.

Eis um outro fato pessoal que comigo aconteceu no mesmo aposento, em maio de 1858. É a aparição do Espírito de uma pessoa viva que ficou muito admirada por ter vindo me visitar. Eis as circunstâncias: Eu estava muito doente e há tempos não  dormia, quando vi, às dez horas da noite, um amigo da família sentado perto de meu leito. Manifestei-lhe minha surpresa por sua visita àquela hora. Disse-me ele: ‘Não fale; venho velá-la; não fale; é preciso dormir.’ E estendeu a mão sobre a minha cabeça. Abri os olhos várias vezes para saber se ele ainda estava lá, e de cada vez me fazia sinal para os fechar e calar-me. Ele girava uma caixa de rapé entre os dedos e, de quando em quando, tomava uma pitada, como o fazia costumeiramente. Por fim adormeci e, ao despertar, a visão havia desaparecido. Diferentes circunstâncias me provaram que no momento dessa visita inesperada eu estava perfeitamente acordada, e que aquilo não era um sonho. Quando de fato me visitou pela primeira vez apressei-me em agradecer-lhe. Trazia a mesma caixa de rapé e, ao escutar-me, estampava o mesmo sorriso de bondade que eu notara quando me velava. Como me garantiu não ter vindo, o que aliás não me foi difícil acreditar, porquanto não teria havido nenhum motivo que o impelisse a vir a tal hora passar a noite junto a mim, compreendi que apenas o seu Espírito tinha vindo visitar-me, enquanto seu corpo repousava tranquilamente em sua casa[2].

Os fatos de aparição são tão numerosos que seria impossível registrar todos aqueles que são do nosso conhecimento ou que foram obtidos de fontes perfeitamente autênticas. Aliás, hoje que os fatos estão explicados, e que nos damos conta exatamente da maneira por que são produzidos, sabemos que pertencem às leis da Natureza e, portanto, nada têm de maravilhoso. Como já demos a sua teoria completa, apenas a recordaremos, em poucas palavras, para a desejável compreensão do que se segue. Além do envoltório corporal, exterior, sabemos que o Espírito possui um outro, semimaterial, a que chamamos perispírito. A morte nada mais é do que a destruição do primeiro.

Em seu estado errante o Espírito conserva o perispírito, que constitui uma espécie de corpo etéreo, invisível para nós em seu estado normal. Os Espíritos povoam o espaço e, se num determinado momento, o véu que no-los oculta fosse levantado, veríamos uma imensa população agitar-se à nossa volta e percorrer os ares. Temo-los constantemente ao nosso lado, observando-nos e, muitas vezes, associando-se às nossas ocupações e aos nossos prazeres, conforme o seu caráter. A invisibilidade não é uma propriedade absoluta dos Espíritos; muitas vezes eles se nos mostram sob a aparência que tinham em vida, e não são poucas as pessoas que, rebuscando as lembranças, não se recordem de algum fato desse gênero. A teoria dessas aparições é muito simples e se explica por uma comparação que nos é bastante familiar: a do vapor que, quando muito rarefeito, é completamente invisível. Um primeiro grau de condensação o torna nebuloso; cada vez mais condensado passa ao estado líquido, depois ao estado sólido. Algo semelhante se opera pela vontade dos Espíritos na substância do perispírito; como já dissemos, pretendemos estabelecer apenas uma comparação, e não uma assimilação. Servimo-nos do exemplo do vapor para mostrar as mudanças de aspecto que pode sofrer um corpo invisível, não se devendo concluir, por isso, que haja no perispírito uma condensação, no sentido próprio da palavra.

Opera-se na sua contextura uma modificação molecular que o torna visível e mesmo tangível, podendo dar-lhe, até certo ponto, as propriedades dos corpos sólidos.

Sabemos que os corpos perfeitamente transparentes tornam-se opacos por uma simples mudança na posição das moléculas, ou pela adição de outro corpo igualmente transparente, mas não sabemos bem como fazem os Espíritos para tornar visível o seu corpo etéreo. A maior parte deles não chega mesmo a dar-se conta disso, embora, pelos exemplos citados, compreendamos a sua possibilidade física, o que é suficiente para tirar do fenômeno aquilo que, à primeira vista, poderia parecer sobrenatural. Pode, pois, o Espírito operar, quer por simples modificação íntima, quer assimilando uma porção de fluido estranho que altera momentaneamente o aspecto de seu perispírito. É mesmo esta última hipótese que ressalta das explicações que nos têm sido dadas e que relatamos ao tratar do assunto (maio, junho e dezembro).

Até aí não há nenhuma dificuldade no que concerne à personalidade do Espírito. Sabemos, no entanto, que eles se apresentam com vestimentas cujo aspecto mudam à vontade; muitas vezes até possuem certos acessórios de toalete, joias etc.

Nas duas aparições que citamos no início, uma tinha um cachimbo e produzia fumaça; a outra possuía uma caixa de rapé e tomava pitadas; e notai bem o fato de que este Espírito pertencia a uma pessoa viva e que sua tabaqueira era em tudo semelhante à de que se servia habitualmente, e que ficara em sua casa. O que significaria essa caixa de rapé, esse cachimbo, essas vestimentas e essas joias?

Teriam os objetos materiais terrenos uma representação etérea no mundo invisível? A matéria condensada que forma tais objetos teria uma parte quintessenciada, que escapa aos nossos sentidos? Eis aí um imenso problema, cuja solução pode dar a chave de uma multidão de coisas até então inexplicadas; e é essa tabaqueira que nos põe no caminho, não apenas desse fato, mas do fenômeno mais extraordinário do Espiritismo: o da pneumatografia ou escrita direta, de que falaremos logo em seguida.

Se alguns críticos ainda nos censuram pelo fato de estarmos avançando muito na teoria, responderemos que não vemos razão alguma para nos manter na retaguarda quando encontramos uma oportunidade para avançar. Se ainda estão se distraindo com as mesas girantes, sem saber por que giram, não é motivo para nos determos no caminho. O Espiritismo, sem dúvida, é uma ciência de observação, mas talvez ainda seja mais uma ciência de raciocínio; e o raciocínio é o único meio de fazê-lo progredir e triunfar de certas resistências. Tal fato é contestado unicamente por que não é compreendido; a explicação lhe tira todo o caráter maravilhoso, fazendo-o entrar nas leis gerais da Natureza. Eis por que vemos diariamente pessoas que nunca viram e creram, simplesmente porque compreenderam, enquanto outras viram e não creem, porque não compreendem. Fazendo entrar o Espiritismo no caminho do raciocínio, nós o tornamos aceitável para aqueles que querem conhecer o porquê e o como de todas as coisas; e o número destes é grande neste século, pois a crença cega já não faz parte dos costumes. Ora, se não tivéssemos senão indicado a rota já teríamos a consciência de haver contribuído para o progresso desta nova ciência, objeto de nossos constantes estudos. Mas voltemos à nossa tabaqueira.

Todas as teorias que apresentamos, relativamente ao Espiritismo, foram dadas pelos Espíritos, muitas vezes contrariando as nossas próprias ideias, como aconteceu no caso presente, provando que as respostas não eram o reflexo de nosso pensamento. Mas a maneira de obter-se uma solução não é coisa de somenos importância. Sabemos, por experiência, que não basta pedir bruscamente uma coisa para a obtermos; nem sempre as respostas são suficientemente explícitas; é necessário desenvolver o assunto com certa precaução, chegar ao fim gradativamente e por um encadeamento de deduções, que exigem um trabalho prévio.

Em princípio, a maneira de formular as perguntas, a ordem, o método e a clareza são coisas que não devem ser negligenciadas e que agradam aos Espíritos sérios, porque veem nisso um sério objetivo.

Eis a conversa que tivemos com o Espírito São Luís, a propósito da tabaqueira, com vistas à solução do problema da produção de certos objetos no mundo invisível. (Sociedade, 24 de junho de 1859):

 

1. No relato da Sra. R..., trata-se de uma criança que viu, perto do leito de sua mãe, um homem a fumar um grande cachimbo. Compreende-se que esse Espírito possa ter tomado a aparência de um homem que fumava, mas parece que fumava realmente, pois o menino via o quarto repleto de fumaça. O que era essa fumaça?

– Uma aparência, produzida para o garoto.

2. A Sra. R... cita igualmente um caso de aparição pessoal, do Espírito de uma pessoa viva. Esse Espírito tinha uma caixa de rapé, do qual tomava pitadas. Experimentava ele a sensação que experimenta um indivíduo que faz o mesmo?

–Não.

3. Aquela caixa de rapé tinha a forma da de que ele se servia habitualmente e que se achava guardada em sua casa. Que era a dita caixa nas mãos da aparição?

– Sempre aparência. Era para que a circunstância fosse notada, como realmente foi, e não tomassem a aparição por uma alucinação devida ao estado de saúde da vidente. O Espírito queria que a senhora em questão acreditasse na realidade da sua presença e, para isso, tomou todas as aparências da realidade.

4. Dizes que é uma aparência; mas uma aparência nada tem de real, é como uma ilusão de óptica. Desejaríamos saber se aquela tabaqueira era apenas uma imagem sem realidade, por exemplo, a de um objeto que se reflete num espelho.

[O Sr. Sanson, um dos membros da Sociedade, faz observar que na imagem reproduzida no espelho há qualquer coisa de real; se ela não fica nele é que nada a fixa; mas se fosse projetada sobre uma chapa do daguerreótipo deixaria uma impressão, prova evidente de que é produzida por uma substância qualquer e não simplesmente uma ilusão de óptica].

A observação do Sr. Sanson é perfeitamente justa.

Teríeis a bondade de dizer-nos se existe alguma analogia com a caixa de rapé, isto é, se nela havia alguma coisa de material?

– Certamente. É com o auxílio deste princípio material que o perispírito toma a aparência de vestuários semelhantes aos que o Espírito usava quando encarnado.

 

Observação – É evidente que a palavra aparência deve ser aqui tomada no sentido de aspecto, imitação. A caixa de rapé real não estava lá; a que o Espírito deixava ver era apenas uma reprodução daquela: era, pois, com relação ao original, uma simples aparência, embora formada de um princípio material.

Ensina a experiência que nem sempre se deve dar significação literal a certas expressões usadas pelos Espíritos.

Interpretando-as de acordo com as nossas ideias, expomo-nos a grandes equívocos. Daí a necessidade de aprofundar-se o sentido de suas palavras, toda vez que apresentem a menor ambiguidade. É essa uma observação que os Espíritos constantemente nos fazem.

Sem a explicação que provocamos, o termo aparência, que de contínuo se reproduz nos casos análogos, poderia prestar-se a uma interpretação falsa.

5. Dar-se-á que a matéria inerte se desdobre? Ou que haja no mundo invisível uma matéria essencial, capaz de tomar a forma dos objetos que vemos? Numa palavra, terão estes o seu duplo etéreo no mundo invisível como os homens são nele representados pelos Espíritos?

 

Observação – Trata-se de uma teoria como qualquer outra e esse era o nosso pensamento; o Espírito, porém, não a levou em consideração, o que absolutamente não nos humilhou, porque a sua explicação nos pareceu muito lógica e sustentada num princípio mais geral, cuja aplicação muitas vezes encontramos.

– Não é assim que as coisas se passam. Sobre os elementos materiais disseminados por todos os pontos do espaço, na vossa atmosfera, têm os Espíritos um poder que estais longe de suspeitar. Podem, pois, concentrar à vontade esses elementos e dar-lhes a forma aparente que corresponda à dos objetos materiais.

6. Formulo novamente a questão, de modo categórico, a fim de evitar todo e qualquer equívoco: São alguma coisa as vestes de que os Espíritos se cobrem?

– Parece que a minha resposta precedente resolve a questão. Não sabes que o próprio perispírito é alguma coisa?

7. Resulta, desta explicação, que os Espíritos fazem passar a matéria etérea pelas transformações que queiram e que, portanto, em relação à caixa de rapé, o Espírito não a encontrou completamente feita; fê-la ele próprio, no momento em que teve necessidade dela. E, do mesmo modo que a fez, pôde desfazê-la. Outro tanto naturalmente se dá com todos os demais objetos, como vestuários, joias etc. Será assim?

– Mas, evidentemente.

8. A caixa de rapé se tornou tão visível para a senhora de que se trata que lhe produziu a ilusão de uma tabaqueira material. Teria o Espírito podido torná-la tangível para ela?

– Teria.

9. Aquela senhora poderia tê-la tomado nas mãos, crente de estar segurando uma caixa de rapé verdadeira?

– Sim.

10. Se a abrisse, teria achado nela rapé? E, se o aspirasse, ele a faria espirrar?

– Sem dúvida.

11. Pode, então, o Espírito dar a um objeto não só a forma, mas, também propriedades especiais?

– Se o quiser. Baseado neste princípio foi que respondi afirmativamente às perguntas anteriores. Tereis provas da poderosa ação que os Espíritos exercem sobre a matéria, ação que estais longe de suspeitar, como eu disse há pouco.

12. Suponhamos, então, que quisesse fazer uma substância venenosa. Se uma pessoa a ingerisse, ficaria envenenada?

– Teria podido, mas não faria, por não lhe ser isso permitido.

13. Poderá fazer uma substância salutar e própria para curar uma enfermidade? E já se terá apresentado algum caso destes?

– Já, muitas vezes.

 

Observação – Encontramos um fato semelhante, acompanhado de interessante explicação teórica, no artigo que damos a seguir, sob o título Um Espírito serviçal.

14. Então, poderia fazer também uma substância alimentar? Suponhamos que tenha feito uma fruta, uma iguaria qualquer: se alguém pudesse comer a fruta ou a iguaria, ficaria saciado?

– Ficaria, sim; mas, não procureis tanto para achar o que é tão fácil de compreender. Basta um raio de sol para tornar perceptíveis aos vossos órgãos grosseiros essas partículas materiais que enchem o espaço onde viveis. Não sabeis que o ar contém vapores d'água? Condensai-os e os fareis voltar ao estado normal.

Privai-as de calor e eis que essas moléculas impalpáveis e invisíveis se tornarão um corpo sólido e bem sólido; e, assim, muitas outras substâncias de que os químicos tirarão maravilhas ainda mais espantosas. Simplesmente, o Espírito dispõe de instrumentos mais perfeitos do que os vossos: a vontade e a permissão de Deus.

 

Observação – A questão da saciedade é aqui muito importante. Como pode produzir a saciedade uma substância cuja existência e propriedades são meramente temporárias e, de certo modo, convencionais? O que se dá é que essa substância, pelo seu contato com o estômago, produz a sensação da saciedade, mas não a saciedade que resulta da plenitude. Desde que uma substância dessa natureza pode atuar sobre a economia e modificar um estado mórbido, também pode, perfeitamente, atuar sobre o estômago e produzir a impressão da saciedade. Rogamos, todavia, aos senhores farmacêuticos e inventores de reconstituintes que não se encham de zelos, nem creiam que os Espíritos lhes venham fazer concorrência. Esses casos são raros, excepcionais e nunca dependem da vontade. Doutro modo, toda gente se alimentaria e curaria a preço baratíssimo.

15. Da mesma forma poderia o Espírito fabricar moedas?

– Pela mesma razão.

16. Os objetos que, pela vontade do Espírito, se tornam tangíveis, poderiam permanecer com esse caráter de permanência e de estabilidade?

– Isso poderia dar-se, mas não acontece. Está fora das leis.

17. Têm todos os Espíritos, no mesmo grau, esse poder?

– Não, não!

18. Quais são os que têm mais particularmente esse poder?

– Aqueles a quem Deus concede, quando isso é útil.

19. A elevação do Espírito tem alguma utilidade?

– Por certo; quanto mais elevado o Espírito, mais facilmente obtém esse poder; mas isso ainda depende das circunstâncias: Espíritos inferiores também podem ter esse poder.

20. A produção dos objetos semimateriais resulta sempre de um ato da vontade do Espírito, ou algumas vezes exerce ele esse poder, mau grado seu?

– Ele o exerce frequentemente, mesmo sem o saber.

21. Seria, então, esse poder um dos atributos, uma das faculdades inerentes à própria natureza do Espírito? Seria, de algum modo, uma de suas propriedades, como a de ver e ouvir?

– Certamente, embora muitas vezes ele próprio o ignore. Então, outro o exerce por ele, mau grado seu, quando as circunstâncias o exigem. O alfaiate do zuavo era justamente o Espírito de que acabo de falar e ao qual ele fazia alusão na sua linguagem espirituosa.

 

Observação – Encontramos uma comparação desta faculdade na de certos animais – o peixe-elétrico, por exemplo – que emite eletricidade sem saber o que faz, nem como isso se dá e, menos ainda, sem conhecer o mecanismo que a põe em ação. Frequentemente nós mesmos não produzimos certos efeitos por atos espontâneos, dos quais não nos damos conta? – Parece-nos, portanto, muito natural que o Espírito possa agir nesta circunstância por uma espécie de instinto. Ele produz por sua vontade, sem saber como, assim como andamos sem calcular as forças que estão em jogo.

22. Nos dois casos citados pela Sra. R..., compreendemos que um dos Espíritos quisesse ter um cachimbo e o outro uma caixa de rapé, para ferir os olhos de uma pessoa viva. Pergunto, porém, se o Espírito poderia pensar que possuía esses objetos, caso não tivesse chegado a fazê-la ver, criando, assim, uma ilusão para si mesmo.

– Não, se ele tiver uma certa superioridade, porque tem perfeita consciência de sua condição. Outro tanto não se dá com os Espíritos inferiores.

 

Observação – Tal era, por exemplo, o caso da rainha de Oude, cuja evocação está relatada em nosso número de março de 1858 e que ainda se julgava coberta de diamantes.

23. É possível que dois Espíritos se reconheçam pela aparência material que possuíam em vida?

– Não é por esse meio que eles se reconhecem, porque não tomarão essa aparência um para o outro. Entretanto, se em certas circunstâncias se acharem em presença um do outro, revestidos dessa aparência, por que não se haveriam de reconhecer?

24. Como podem os Espíritos reconhecer-se em meio a uma multidão de outros Espíritos, e, sobretudo, como podem fazê-lo quando um deles vai procurar longe, e frequentemente em outros mundos, aqueles que o chamam?

– Isto é um problema cuja solução demandaria muito tempo; é preciso esperar. Não estais suficientemente adiantados. Contentai-vos, no momento, com a certeza de que assim o é, pois tendes provas suficientes.

25. Desde que o Espírito pode extrair do elemento universal os materiais para fazer todas as coisas, e com suas propriedades dar a elas uma realidade temporária, pode perfeitamente extrair o que lhe seja necessário para escrever. Consequentemente, isto nos dará a chave do fenômeno da escrita direta?

– Finalmente compreendestes.

26. Se a matéria de que se serve o Espírito não tem persistência, como não desaparecem os traços da escrita direta?

– Não julgueis ao pé da letra; desde o início eu não disse: jamais; tratava-se de um objeto material volumoso; aqui são sinais grafados que convém conservar e são conservados.

A teoria acima pode ser resumida desta maneira: o Espírito atua sobre a matéria; da matéria cósmica universal tira os elementos necessários para formar, a seu bel-prazer, objetos que tenham a aparência dos diversos corpos existentes na Terra. Pode igualmente, pela ação da sua vontade, operar na matéria elementar uma transformação íntima, que lhe confira determinadas propriedades. Esta faculdade é inerente à natureza do Espírito, que muitas vezes a exerce de modo instintivo, quando necessário, sem disso se aperceber. Os objetos que o Espírito forma têm existência temporária, subordinada à sua vontade, ou a uma necessidade que ele experimenta. Pode fazê-los e desfazê-los livremente. Em certos casos, esses objetos, aos olhos de pessoas vivas, podem apresentar todas as aparências da realidade, isto é, tornarem-se momentaneamente visíveis e até mesmo tangíveis. Há formação; porém, não criação, considerando que, do nada, o Espírito nada pode tirar[3].



[1] REVISTA ESPÍRITA – agosto/1859 – Allan Kardec

[2] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo VII – item 116.

[3] N. do T.: Vide O Livro dos Médiuns – Segunda Parte – Capítulo VIII.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

ZALMINO ZIMMERMANN[1]

 


 

Zalmino Zimmermann nasceu em 3 de outubro de 1931, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul.
Era magistrado aposentado. Com formação básica nas áreas do Direito e da Psicologia, e incursões em outros domínios, exerceu as atividades de Juiz de Direito, Juiz Federal, Professor Titular da Faculdade de Direito e Professor Titular do Instituto de Psicologia da PUC – Campinas.
Dedicou-se em sua mocidade à Evangelização das gerações novas. Fundou, na década de 1950, o Movimento Espírita Universitário.
Dirigente espírita, sempre esteve preocupado com as questões sociais. Foi um dos fundadores e primeiro Presidente, cargo que exerceu por dez anos, da Associação Brasileira dos Magistrados Espíritas – ABRAME.
A ele se deve a estruturação das atividades da ABRAME e a consolidação do seu papel no Movimento Espírita Brasileiro.
Escreveu Teoria da Mediunidade e Descobrindo o Espiritismo e participou das seguintes obras: Perispírito, Descobrindo o Espírito: 300 Perguntas e Respostas, Espiritismo: Século XXI, Compêndio de Espiritismo, På upptäcktsfärd i spiritismen : 300 frågor och svar, Discovering Spiritism: 300 Questions & Answers.
Desencarnou, em Campinas/SP, na madrugada de 19 de maio de 2015, por complicações cardíacas.


[1] FEDERAÇÃO ESPÍRITA DO PARANÁ - https://www.feparana.com.br/topico/?topico=2450

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

GESTÃO DA NOSSA EVOLUÇÃO[1]

 


Marcelo Anátocles Ferreira - janeiro/2026

 

É comum a concepção de que somente depois da desencarnação será possível uma avaliação dos nossos passos, da nossa vida espiritual e da nossa evolução. Alguns aguardam uma espécie de Juízo Final, quando seremos julgados por Deus e encaminhados para os locais de merecimento. Outros entendem que somente após o fim da estrada terrena será possível, ao lado dos nossos benfeitores, fazer uma avaliação do nosso caminho.

Sem dúvida, a avaliação de nossa mais recente encarnação só poderá ser feita no final, quando, fora do corpo, poderemos ter noção exata do todo nela realizado. No entanto, todos nós podemos – e seria muito bom se fizéssemos isso de tempos em tempos – fazer balanços para avaliarmos nossa vida ainda no corpo físico. Temos condições e elementos para isso. Esse exercício nos possibilitará crescimento, autoconhecimento e reforma interior.

Para facilitar essa avaliação, podemos fazê-la por setores da nossa vida. Por exemplo, nossa vida familiar. Como somos ou fomos como filhos? Como foi ou está sendo a relação com nossos pais? E o nosso relacionamento com nossos irmãos desde a infância?

Daí, podemos passar para as relações construídas nesta vida: como estão nossos relacionamentos afetivos? Como tratamos aqueles com quem namoramos, casamos, constituímos família? Essas relações são baseadas no respeito? Há ciúmes corroendo o amor?  Como está a relação com nossos filhos, sejam eles crianças ou adultos?

No contexto profissional, também cabe uma análise mais profunda. Como estamos no trabalho? Como é a relação com nossos colegas? Como nos relacionamos com o dinheiro?

E com os amigos, como estamos?

Como está nosso relacionamento com os amigos do Centro Espírita que frequentamos?  Como estão os estudos espíritas?  Como está o trabalho no campo religioso?

Perguntas objetivas e possíveis de responder. Santo Agostinho, na conhecida resposta sobre o autoconhecimento[2], sugere que formulemos a nós mesmos questões nítidas e precisas sem temer multiplicá-las.

No campo dos próprios sentimentos, também cabe uma análise: sou alegre ou me entristeço com facilidade? Por quê? O que me traz alegria? O que me entristece?

Compartilhando uma experiência pessoal, num final de tarde, voltando do trabalho para casa, eu sentia uma alegria incomum sem saber explicar o motivo. Fiquei tentando lembrar, até que tive um estalo de memória:  eu tinha recebido um e-mail sobre o lançamento do álbum de figurinhas da Copa do Mundo de Futebol. Isso me fez lembrar a minha infância e me deixou feliz. Detectei a razão simples da minha alegria e me tranquilizei.

Ainda no campo dos sentimentos, devemos nos avaliar: eu odeio, sou ácido ou agressivo com o próximo? Costumo me desculpar ao perceber meus equívocos?

Um amigo do trabalho me deu uma lição inesquecível quando eu saía com um pequeno grupo, por ocasião do meu aniversário, para almoçar. Cruzamos com esse amigo, que, sem motivo aparente, foi grosseiro com uma das pessoas que me acompanhava. O agredido pareceu nem perceber, mas ficou no ar um clima desagradável que logo se dissipou no caminho para o almoço festivo. No fim do dia, recebi, com surpresa, um e-mail daquele amigo que havia sido ríspido, no qual ele se desculpava por suas palavras. E mandara esse e-mail com cópia para todos que tinham presenciado a desavença. Reconheci ali alguém preocupado com o autoconhecimento e com a correção imediata de um erro.

Para facilitar a análise, podemos nos valer de uma divisão do tempo traçando uma linha de, por exemplo, cinco ou dez anos. Como eu era há cinco anos? Melhorei em quais aspectos nos últimos dez anos? Em que continuo estacionado? Em que aspecto preciso melhorar?

Como ensina o benfeitor Camilo, pela mediunidade de J. Raul Teixeira: É, daí, importantíssimo o ato de estudar e estudar-se, com o fim de melhor situar-se o indivíduo no campo da lucidez[3].

Essas avaliações fazem com que tomemos a rédea de nossa vida. Não é necessário esperar a desencarnação para sabermos em que já melhoramos e em que ainda temos que trabalhar e muito.

Avaliando, corrigindo e acompanhando nossos próprios passos, podemos verificar novas derrapagens para, se preciso, corrigirmos novamente o curso da vida, contabilizando também nossas conquistas e avanços.

No livro Seareiros de volta, há algumas mensagens sobre esse tema. Em Lei de renovação, por exemplo, o Espírito Antônio da Silva Neto nos ensina: Quem não domina a si mesmo, vive sujeito ao jugo das circunstâncias[4].

Não devemos seguir o que diz o verso da conhecida música Deixa a vida me levar. Se pusermos isso em prática, não saberemos aonde vamos chegar. Com a constante reflexão sobre nossa vida, vamos tomando a rédea do nosso destino e nos direcionando para o bem.

Temos uma ferramenta fantástica em nossas mãos, a Doutrina Espírita, que deve ser permanentemente estudada. Nela aprendemos os mecanismos da lei de justiça, sabemos que somos Espíritos reencarnados em um corpo físico com contas a ajustar e com a abençoada oportunidade dos novos dias. Como nos ensina o Espírito Batuíra: “Seguir o Espiritismo é refazer o destino[5].

Assim, dia a dia, passo a passo, vamos nos avaliando, nos conhecendo melhor, nos aperfeiçoando, aprendendo a corrigir nossas falhas e a retomar rotas seguras, transformando-nos dentro da proposta de sermos verdadeiros espíritas, atentos e focados na efetiva reforma interior, gerindo nossa evolução.



[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de Janeiro: FEB, 1987. pt. 3, cap. XII, q. 919a.

[3] TEIXEIRA, J. Raul. Revelações da Luz. Pelo espírito Camilo. Niterói: Fráter, 2014, cap. 1.

[4] VIEIRA, Waldo. Seareiros de volta. Autores diversos. Brasília: FEB, 1987. cap. A lei da renovação.

[5] Op. cit. cap. Bem-aventurados.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

SUBIR E CRESCER[1]

 


Miramez

 

Transmigrações progressivas

Pode um homem, nas suas novas existências, descer mais baixo do que esteja na atual?

Com relação à posição social, sim; como Espírito, não.

Questão 193 / O Livro dos Espíritos

 

As leis, criadas por Deus não permitem que o homem, em uma reencarnação, desça, espiritualmente, mais abaixo do que acontece a regressão.

O Espírito não regride; ele sempre avança para frente e para o alto. O que pode acontecer é a alma descer socialmente; regressão material é escola para o Espírito; no entanto, o que aprendemos nunca mais esquecemos, pois, significa despertamento. Os valores espirituais adquiridos irradiam sempre em todas as reencarnações.

O que por vezes acontece, é que o Espírito em boas condições intelectuais pode voltar à Terra em outra vida física, sem condições de se expressar, o que, contudo, não significa regressão. O que ele sabe, está registrado para a eternidade. Ser-nos-á de grande valor conhecermos o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, e mediante o conhecimento, esforçamo-nos para praticá-lo, mesmo que seja na gradação que a vida nos apresenta, porque nesse esforço constante nascerá em nós uma luz que nunca se apagará, capaz de nos trazer para o coração momentos de paz e de alegria, a nos dizer que existe a felicidade.

A lei soberana é saber espiritualmente; descer, somente para as formas que são transitórias e educativas. Recebemos condições de estudos pelas nossas necessidades. Deus está presente em toda a criação, e mais visível no centro da alma. Temos valores enormes que desconhecemos dentro da consciência e eles são nossa segurança nos caminhos da eternidade. Compete a nós outros buscá-los e absorvê-los. Essa é a nossa parte, a parte do filho cujo Pai se empenha para que ele conheça.

O homem pode descer na posição social até o zero, se essa for a vontade do Pai se essa descida servir-lhe de educação para o aprimoramento. É por esse motivo que a alma passa de país para país, de família para família, sempre trocando de posições sociais. É pois, um movimento constante, e é esse exercício que lhe faculta as reencarnações, que o Espírito imortal conhece a verdade.

Quando encontramos homens que nascem mutilados nos seus sentidos, não quer dizer que esses homens regrediram espiritualmente. A regressão é aparente, pois a alma conserva no seu reservatório de vida as lições assimiladas na grande escola de Deus: a vida, a natureza. Subir é uma realidade. Descer uma ilusão.

Apeguemo-nos ao Evangelho de Nosso Senhor, da forma que Ele revive no Espiritismo, que as lições de reformas, de entendimentos e de amor clareiam os pensamentos e dão forças para a vida que devemos levar em busca da libertação.

Conhecemos o valor da ciência, da filosofia ou outras direções que podem expressar as leis da Ciência; no entanto, não devemos nos esquecer do amor que, em forma da Divindade, traz em si todas as nuances de vida e de paz para os corações. Fora dele, mão haverá estabilidade para os Espíritos. Assim falamos, porque a Ciência e a Filosofia precisam, para viver, desse mesmo Amor.



[1] FILOSOFIA ESPÍRITA – Volume 4 – João Nunes Maia

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

EXPERIMENTOS DE TELEPATIA DE COOVER[1]

 

John E. Coover


K.M. Wehrstein

 

Um dos primeiros experimentos em larga escala sobre telepatia foi conduzido em 1915 por John E. Coover, um psicólogo da Universidade Stanford. Ele concluiu que os resultados foram totalmente negativos. No entanto, essa conclusão foi posteriormente contestada por parapsicólogos que examinaram seus dados.

 

Experimentos

Em 1912, John Edgar Coover, então com quarenta anos, foi nomeado Pesquisador Psíquico Thomas Welton Stanford, financiado por uma doação de US$ 10.000 à Universidade Stanford feita por Thomas Welton Stanford, irmão de seu fundador. Ele ocupou o cargo por 25 anos, realizando experimentos sobre vários aspectos da pesquisa psíquica. Estes incluíram experimentos de telepatia em larga escala, cujas descobertas foram publicadas em uma monografia de 1917 intitulada  Experiments in Psychical Research[2] (Experimentos em Pesquisa Psíquica), publicada pela Stanford University Press.

O método de Coover era o seguinte: Coover e um agente telepático (emissor) sentavam-se juntos em uma sala com um baralho de quarenta cartas (um baralho comum, sem as figuras) e um dado, enquanto o receptor (percipiente) sentava-se em outra sala. O baralho era embaralhado e uma carta era escolhida. O agente olhava para a carta ou não, dependendo do resultado do dado, e o receptor tentava discernir qual carta havia sido escolhida. Coover designou a condição experimental como aquela em que o agente olhava para a carta, e a condição de controle como aquela em que ele não olhava.

Os participantes eram geralmente estudantes universitários, embora ele também tenha realizado testes com dez indivíduos que alegavam ter habilidades psíquicas. Após completar 10.000 testes, Coover calculou que não havia diferença significativa entre as pontuações do grupo experimental e do grupo de controle e concluiu que os resultados não corroboravam a hipótese da telepatia[3]. Não foi encontrado nenhum vestígio de transferência objetiva de pensamento, nem entre os participantes "normais" nem entre aqueles que alegavam ter habilidades psíquicas[4].

Coover explicou seu padrão de significância estatística da seguinte forma: '... se atendermos ao requisito de um grau de precisão usual no trabalho científico, obtendo p = 0,9999779, quando a certeza absoluta é p = 1, então [há] evidências satisfatórias de alguma causa além do acaso[5].'  No uso estatístico atual, isso seria expresso como p = 0,0000221.

 

Crítica

As descobertas de Coover levaram a uma perda de interesse no tema da telepatia na comunidade científica por mais de uma década. No entanto, suas descobertas foram imediatamente questionadas por pesquisadores psíquicos. Em uma resenha para a Sociedade de Pesquisa Psíquica , o filósofo F.C. Schiller observou que a condição em que o agente não olhava para uma carta não era, na verdade, uma condição de controle, como Coover supôs, mas um teste de clarividência (os participantes visualizando psiquicamente as cartas diretamente, em vez de receber impressões mentais delas dos agentes). Ele também observou que alguns dos participantes do grupo experimental obtiveram pontuações particularmente altas, bem acima do acaso. Como resultado, escreveu Schiller, Coover "dificilmente tinha o direito de deduzir de seus dados que 'nenhum traço de transferência objetiva de pensamento é encontrado como uma capacidade desfrutada em medida perceptível por qualquer um dos indivíduos normais [participantes][6]'".

As afirmações de Coover foram alvo de novo escrutínio na década de 1930, após os resultados positivos em experimentos de percepção extrassensorial (PES) conduzidos por J.B.Rhine na Universidade Duke. Robert Thouless argumentou que a medida de significância estatística adotada por Coover, de cerca de 50.000 para um, era "absurdamente" alta[7], e calculou que, por um padrão mais convencional, as pontuações eram, na verdade, significativas no nível de 200 para 1 ( p = 0,005)[8]. Rhine apontou que a maioria dos sucessos se concentrava em apenas oito dos cem participantes de Coover, e que cinco deles obtiveram pontuações igualmente altas tanto nos testes de telepatia quanto nos de clarividência. Ele considerou isso "tremendamente significativo" e lamentou que Coover não tivesse concentrado seus esforços nos participantes com as melhores pontuações, caso em que provavelmente teria relatado resultados positivos[9]. Os críticos concluíram que as descobertas não justificavam sua afirmação de que a telepatia estava ausente de seus resultados, muito menos que, como ele sustentava, elas "provavam" definitivamente sua inexistência.

Coover morreu enquanto escrevia uma resposta, e esta foi concluída por seu sucessor, John L. Kennedy[10]. Eles argumentaram que um nível muito alto de significância era justificado, sendo a telepatia inerentemente improvável; que os críticos não levaram em consideração adequadamente os resultados negativos dos dez médiuns; e que quaisquer resultados acima do acaso poderiam ser devidos a uma metodologia experimental inadequada, como erros de registro.

Este último ponto foi examinado por Whately Carington, que questionou se os sucessos poderiam ser atribuídos a "vazamentos involuntários de informações por canais normais, a métodos experimentais falhos ou a má conduta deliberada por parte dos alunos". Ele concluiu que as evidências internas contradiziam fortemente todas essas possibilidades, observando que "quanto mais se analisavam os números, mais difícil se tornava explicá-los dessa forma[11]" .

 

Consequências

O sucessor de Coover, John L. Kennedy, também não relatou resultados positivos. No entanto, Charles Stuart, que havia sido treinado por Rhine e contratado por Stanford para replicar os experimentos de Rhine na Universidade Duke, conduziu diversos estudos entre 1942 e 1944 que alcançaram significância estatística. Esses estudos foram ignorados em um relatório de 1962 sobre o andamento da pesquisa psíquica em Stanford, elaborado pelo editor de ciência do Stanford News Service, Robert Lamar, que afirmou falsamente que nenhum indício positivo de telepatia jamais havia sido encontrado por seus pesquisadores e que Stuart "tivera que admitir o fracasso[12]". Como lamentaram os parapsicólogos, as autoridades universitárias posteriormente desviaram o financiamento da bolsa de pesquisa psíquica para a psicologia convencional, provavelmente contrariando os termos legais da doação[13].

 

Literatura

§  Besterman, T. (1927). The Mind and its Mechanism, with Special Reference to Ideomotor Action, Hypnosis, Habit and Instinct, and the Lamarckian Theory of Evolution. By Paul Bousfield, M.R.C.S., L.R.C.P., and W. R. Bousfield, K.C., F.R.S. [Review.] Journal of the Society for Psychical Research 24, 103-107.

§  Carington, W. (1938). Some early experiments providing apparently positive evidence for extra-sensory perception. Journal of the Society for Psychical Research 30, 295-305.

§  Coover, J.E. (1917). Experiments in Psychical Research. Psychical Research Monograph Nº 1. Palo Alto, California, USA: Stanford University Press.

§  Coover, J.E., & Kennedy, J.L. (1939). Reply to critics of the Stanford Experiments on thought-transference. Journal of Parapsychology 3, 17-28.

§  Irwin, H.J., & Watt, C.A. (2007). An Introduction to Parapsychology (5th ed.). Jefferson, North Carolina, USA: McFarland.

§  Radin, D. (2000). What’s ahead? Journal of Parapsychology 64/4, 353-64.

§  Rhine, J.B. (1934). Extra-Sensory Perception. Boston, Massachusetts, USA: Boston Society for Psychic Research.

§  Schiller, F.C.S. (1918). Experiments in Psychical Research, being the ‘Leland Stanford Junior University’s Psychical Research Monograph No. 1.’ By John Edgar Coover [Review]. Proceedings of the Society for Psychical Research 30, 261-73.

§  Thouless, R. (1935). Dr Rhine’s recent experiments on telepathy and clairvoyance and a reconsideration of J.E. Coover’s conclusions on telepathy. Proceedings of the Society for Psychical Research 43, 24-37.

§  Utts, J. (1988) Successful replication versus statistical significance. Journal of Parapsychology 52, 305-20.

 

Traduzido com Google Tradutor



[2] Coover (1917).

[3] Irwin & Watt (2007), 61-62.

[4] Coover (1917), 124, citado em Thouless (1935), 27.

[5] Coover (1917), 83, citado em Utts (2000), 306.

[6] Schiller (1918), 265.

[7] Thouless (1935), 25.

[8] Thouless (1935), 27.

[9]  Rhine (1934), 26-27.

[10] Coover & Kennedy (1939).

[11] Carington (1938), 296.

[12] Radin (2000), 358.

[13] Radin (2000), 358.

terça-feira, 20 de janeiro de 2026

LORDE CASTLEREAGH E BERNADOTTE[1]

 

Lord Castlereagh

Allan Kardec

 

Há cerca de quarenta anos aconteceu a seguinte aventura ao marquês de Londonderry, mais tarde lorde Castlereagh. Certo dia foi visitar um gentil-homem que privava da amizade de um de seus amigos, o qual residia num desses velhos castelos do norte da Irlanda, que os romancistas elegem para palco das aparições do outro mundo. O aspecto do apartamento do marquês estava em perfeita harmonia com o edifício. Com efeito, os vigamentos de madeira ricamente esculpidos e enegrecidos pelo tempo, o enorme arco da chaminé, semelhante à entrada de um túmulo, a tapeçaria pesada e repleta de pó que mascarava as estreitas janelas e circundava o leito, tudo era susceptível de dar uma feição melancólica aos pensamentos.

Lorde Londonderry examinou o seu dormitório e travou conhecimento com os antigos senhores do castelo que, retratados de pé nos quadros da parede, pareciam esperar a sua saudação. Depois de ter despedido o criado de quarto, foi deitar-se.

Mal acabara de apagar a vela percebeu um raio de luz a iluminar o cortinado superior de seu leito. Convencido de que não havia fogo na grelha, que as cortinas estavam fechadas e que alguns minutos antes o quarto estava mergulhado na mais completa escuridão, supôs que um intruso ali houvesse penetrado. Voltando-se rapidamente para o lado de onde vinha a luz e, com grande espanto, viu a figura de uma bela criança, completamente nimbada de luz.

Convencido da integridade de suas faculdades, mas desconfiando de uma mistificação de um dos numerosos hóspedes do castelo, lorde Londonderry avançou para a aparição, que se retirou de sua frente. À medida que se aproximava ela recuava, até que, chegando finalmente sob o sombrio arco da imensa chaminé, precipitou-se chão adentro e desapareceu.

Lorde Londonderry não dormiu naquela noite.

Resolveu não fazer nenhuma alusão ao que lhe tinha acontecido, até que tivesse examinado atentamente o semblante de todas as pessoas da casa. Durante o café, em vão procurou surpreender alguns sorrisos disfarçados, olhares de conivência e piscar de olhos, que geralmente denunciam os autores dessas conspirações domésticas.

A conversação seguiu o seu curso ordinário; estava animada e nada revelava uma mistificação. Por fim o marquês não pôde resistir ao desejo de contar o que tinha visto. O senhor do castelo observou que o relato de lorde Londonderry devia parecer muito estranho aos que há muito tempo não visitavam o castelo e desconheciam as lendas da família. Então, voltando-se para lorde Londonderry, disse:

Vistes a criança brilhante; alegrai-vos, pois é o presságio de uma grande fortuna. Mas eu teria preferido que não se tratasse dessa aparição.

Em outra ocasião Lorde Castlereagh viu a criança brilhante na Câmara dos Comuns. No dia de seu suicídio ele teve uma aparição semelhante[2]. Sabe-se que este lorde, um dos principais membros do Ministério Harrowby e o mais obstinado perseguidor de Napoleão durante o seu revés, seccionou a própria carótida no dia 22 de agosto de 1823, morrendo instantaneamente.

Dizem que a surpreendente fortuna de Bernadotte lhe havia sido predita por uma necromante famosa, que também anunciara a de Napoleão I e desfrutava da confiança da Imperatriz Josefina.

Bernadotte estava convencido de que uma espécie de divindade tutelar se ligava a ele para o proteger. Talvez as tradições maravilhosas que cercaram o seu leito não fossem estranhas a esse pensamento, que jamais o abandonava. Com efeito, em sua família narrava-se uma antiga crônica segundo a qual uma fada, esposa de um de seus antepassados, havia predito que um rei ilustraria a sua posteridade.

Eis um fato que demonstra o quanto o maravilhoso havia conservado o seu império sobre o Espírito do rei da Suécia.

Ele queria resolver à espada as dificuldades que a Noruega lhe opunha e enviar seu filho Oscar à frente de um Exército para aniquilar os rebeldes. O Conselho de Estado fez viva oposição a esse projeto. Certo dia em que Bernadotte acabava de travar uma animada discussão sobre o assunto, montou a cavalo e afastou-se da capital à disparada. Depois de longo percurso chegou às bordas de uma sombria floresta. De repente apresentou-se aos seus olhos uma velha mulher, vestida de maneira extravagante e com os cabelos em desalinho:

Que quereis? – perguntou bruscamente o rei.

A feiticeira respondeu sem se desconcertar:

– Se Oscar combater nessa guerra que premeditas, não dará os primeiros golpes, mas os receberá.

Impressionado por essa aparição e por essas palavras, Bernadotte voltou ao palácio. No dia seguinte, denotando ainda no rosto os sinais de uma longa vigília cheia de agitação, apresentou-se ao Conselho:

Mudei de opinião; negociaremos a paz, desde que em condições honrosas.

Em sua Vie de M. de Rancé, fundador de La Trappe, conta Chateaubriand que um dia esse homem célebre, passeando na avenida do castelo de Veretz, julgou ver um grande incêndio que consumia as dependências destinadas às aves domésticas. Correu rápido para lá: o fogo diminuía à medida que ele se aproximava. A certa distância o braseiro transformou-se num lago de fogo, no meio do qual se erguia a meio corpo uma mulher devorada pelas chamas.

Tomado de pavor, retomou correndo o caminho de casa. Ao chegar, as forças lhe faltaram, atirando-se semimorto na cama. Não foi senão depois de longo tempo que contou a visão, cuja mera lembrança o fazia empalidecer.

Esses mistérios pertencem à loucura? O Sr. Brière de Boismont parece atribuí-los a uma ordem de coisas mais elevada, e concordo com a sua opinião. Isso não desagrada ao meu amigo Dr. Lélut: prefiro acreditar no gênio familiar de Sócrates e nas vozes de Joana d’Arc a crer na demência do filósofo e da virgem de Domrémy.

Há fenômenos que ultrapassam a inteligência e que desconcertam as ideias recebidas, mas diante de cuja evidência é preciso que a lógica humana se incline humildemente. Nada é brutal, e sobretudo irrecusável, como um fato. Tal é a nossa opinião e, principalmente, a do Sr. Guizot:

Qual a grande questão, a questão suprema que hoje preocupa os espíritos? É a questão levantada entre os que reconhecem e os que não reconhecem uma ordem sobrenatural, verdadeira e soberana, embora impenetrável à razão humana; é a questão levantada para chamar as coisas pelo seu nome, entre o supernaturalismo e o racionalismo. De um lado os incrédulos, os panteístas, os cépticos de toda sorte, os puros racionalistas; do outro, os cristãos.

Com vistas à nossa salvação presente e futura, é necessário que a fé, o respeito e a submissão à ordem sobrenatural penetrem no mundo e na alma humana, nos grandes espíritos como nos espíritos simples, nas regiões mais elevadas como nas mais humildes. A influência real, verdadeiramente eficaz e regeneradora das crenças religiosas tem essa condição. Fora daí são superficiais e muito perto de tornar-se vãs. [Guizot].

Não, a morte jamais haverá de separar para sempre, mesmo neste mundo, os eleitos que Deus recebeu em seu seio e os exilados que ficaram neste vale de lágrimas, in hac lacrymarum valle[3], para empregar as palavras melancólicas da Salve Rainha. Há horas misteriosas e benditas em que os mortos bem-amados se debruçam sobre aqueles que os pranteiam, murmurando-lhes aos ouvidos palavras de consolação e de esperança. O Sr. Guizot, esse Espírito severo e metódico, tem razão de professar:

Fora daí as crenças religiosas são superficiais e muito perto de tornar-se vãs.

Sam. (Extraído da Patrie, de 5 de junho de 1859.)



[1] REVISTA ESPÍRITA – julho/1859 – Allan Kardec

[2] Forbes Winslow – Anatomy of suicide, 1 vol. in-8o, p. 242. London, 1840.

[3] "neste vale de lágrimas"