LABORATÓRIO ESPÍRITA
Romeu R. Mandato
segunda-feira, 26 de janeiro de 2026
ZALMINO ZIMMERMANN[1]
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
GESTÃO DA NOSSA EVOLUÇÃO[1]
Marcelo Anátocles Ferreira - janeiro/2026
É comum a concepção de que
somente depois da desencarnação será possível uma avaliação dos nossos passos,
da nossa vida espiritual e da nossa evolução. Alguns aguardam uma espécie de
Juízo Final, quando seremos julgados por Deus e encaminhados para os locais de
merecimento. Outros entendem que somente após o fim da estrada terrena será
possível, ao lado dos nossos benfeitores, fazer uma avaliação do nosso caminho.
Sem dúvida, a avaliação de nossa
mais recente encarnação só poderá ser feita no final, quando, fora do corpo,
poderemos ter noção exata do todo nela realizado. No entanto, todos nós podemos
– e seria muito bom se fizéssemos isso de tempos em tempos – fazer balanços
para avaliarmos nossa vida ainda no corpo físico. Temos condições e elementos
para isso. Esse exercício nos possibilitará crescimento, autoconhecimento e
reforma interior.
Para facilitar essa avaliação,
podemos fazê-la por setores da nossa vida. Por exemplo, nossa vida familiar.
Como somos ou fomos como filhos? Como foi ou está sendo a relação com nossos
pais? E o nosso relacionamento com nossos irmãos desde a infância?
Daí, podemos passar para as
relações construídas nesta vida: como estão nossos relacionamentos afetivos?
Como tratamos aqueles com quem namoramos, casamos, constituímos família? Essas
relações são baseadas no respeito? Há ciúmes corroendo o amor? Como está a relação com nossos filhos, sejam
eles crianças ou adultos?
No contexto profissional, também
cabe uma análise mais profunda. Como estamos no trabalho? Como é a relação com
nossos colegas? Como nos relacionamos com o dinheiro?
E com os amigos, como estamos?
Como está nosso relacionamento
com os amigos do Centro Espírita que frequentamos? Como estão os estudos espíritas? Como está o trabalho no campo religioso?
Perguntas objetivas e possíveis
de responder. Santo Agostinho, na conhecida resposta sobre o autoconhecimento[2],
sugere que formulemos a nós mesmos questões nítidas e precisas sem temer
multiplicá-las.
No campo dos próprios
sentimentos, também cabe uma análise: sou alegre ou me entristeço com
facilidade? Por quê? O que me traz alegria? O que me entristece?
Compartilhando uma experiência
pessoal, num final de tarde, voltando do trabalho para casa, eu sentia uma
alegria incomum sem saber explicar o motivo. Fiquei tentando lembrar, até que
tive um estalo de memória: eu tinha
recebido um e-mail sobre o lançamento do álbum de figurinhas da Copa do Mundo
de Futebol. Isso me fez lembrar a minha infância e me deixou feliz. Detectei a
razão simples da minha alegria e me tranquilizei.
Ainda no campo dos sentimentos,
devemos nos avaliar: eu odeio, sou ácido ou agressivo com o próximo? Costumo me
desculpar ao perceber meus equívocos?
Um amigo do trabalho me deu uma
lição inesquecível quando eu saía com um pequeno grupo, por ocasião do meu
aniversário, para almoçar. Cruzamos com esse amigo, que, sem motivo aparente,
foi grosseiro com uma das pessoas que me acompanhava. O agredido pareceu nem
perceber, mas ficou no ar um clima desagradável que logo se dissipou no caminho
para o almoço festivo. No fim do dia, recebi, com surpresa, um e-mail daquele
amigo que havia sido ríspido, no qual ele se desculpava por suas palavras. E
mandara esse e-mail com cópia para todos que tinham presenciado a desavença.
Reconheci ali alguém preocupado com o autoconhecimento e com a correção
imediata de um erro.
Para facilitar a análise,
podemos nos valer de uma divisão do tempo traçando uma linha de, por exemplo,
cinco ou dez anos. Como eu era há cinco anos? Melhorei em quais aspectos nos
últimos dez anos? Em que continuo estacionado? Em que aspecto preciso melhorar?
Como ensina o benfeitor Camilo,
pela mediunidade de J. Raul Teixeira: É, daí, importantíssimo o ato de estudar
e estudar-se, com o fim de melhor situar-se o indivíduo no campo da lucidez[3].
Essas avaliações fazem com que
tomemos a rédea de nossa vida. Não é necessário esperar a desencarnação para
sabermos em que já melhoramos e em que ainda temos que trabalhar e muito.
Avaliando, corrigindo e
acompanhando nossos próprios passos, podemos verificar novas derrapagens para,
se preciso, corrigirmos novamente o curso da vida, contabilizando também nossas
conquistas e avanços.
No livro Seareiros de volta, há
algumas mensagens sobre esse tema. Em Lei de renovação, por exemplo, o Espírito
Antônio da Silva Neto nos ensina: Quem não domina a si mesmo, vive sujeito ao
jugo das circunstâncias[4].
Não devemos seguir o que diz o
verso da conhecida música Deixa a vida me levar. Se pusermos isso em
prática, não saberemos aonde vamos chegar. Com a constante reflexão sobre nossa
vida, vamos tomando a rédea do nosso destino e nos direcionando para o bem.
Temos uma ferramenta fantástica
em nossas mãos, a Doutrina Espírita, que deve ser permanentemente estudada.
Nela aprendemos os mecanismos da lei de justiça, sabemos que somos Espíritos
reencarnados em um corpo físico com contas a ajustar e com a abençoada
oportunidade dos novos dias. Como nos ensina o Espírito Batuíra:
“Seguir o Espiritismo é refazer o destino”[5].
Assim, dia a dia, passo a passo,
vamos nos avaliando, nos conhecendo melhor, nos aperfeiçoando, aprendendo a
corrigir nossas falhas e a retomar rotas seguras, transformando-nos dentro da
proposta de sermos verdadeiros espíritas, atentos e focados na efetiva reforma
interior, gerindo nossa evolução.
[1] MUNDO ESPÍRITA - https://www.mundoespirita.com.br/?materia=gestao-da-nossa-evolucao
[2] KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Rio de
Janeiro: FEB, 1987. pt. 3, cap. XII, q. 919a.
[3] TEIXEIRA, J. Raul. Revelações da Luz. Pelo espírito
Camilo. Niterói: Fráter, 2014, cap. 1.
[4] VIEIRA, Waldo. Seareiros de volta. Autores diversos.
Brasília: FEB, 1987. cap. A lei da renovação.
[5] Op. cit. cap. Bem-aventurados.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2026
SUBIR E CRESCER[1]
Miramez
Transmigrações progressivas
Pode um homem, nas suas novas existências, descer mais
baixo do que esteja na atual?
Com relação à posição social, sim; como Espírito, não.
Questão 193 / O Livro dos Espíritos
As leis, criadas por Deus não
permitem que o homem, em uma reencarnação, desça, espiritualmente, mais abaixo
do que acontece a regressão.
O Espírito não regride; ele
sempre avança para frente e para o alto. O que pode acontecer é a alma descer
socialmente; regressão material é escola para o Espírito; no entanto, o que
aprendemos nunca mais esquecemos, pois, significa despertamento. Os valores
espirituais adquiridos irradiam sempre em todas as reencarnações.
O que por vezes acontece, é que
o Espírito em boas condições intelectuais pode voltar à Terra em outra vida
física, sem condições de se expressar, o que, contudo, não significa regressão.
O que ele sabe, está registrado para a eternidade. Ser-nos-á de grande valor
conhecermos o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, e mediante o
conhecimento, esforçamo-nos para praticá-lo, mesmo que seja na gradação que a
vida nos apresenta, porque nesse esforço constante nascerá em nós uma luz que
nunca se apagará, capaz de nos trazer para o coração momentos de paz e de
alegria, a nos dizer que existe a felicidade.
A lei soberana é saber
espiritualmente; descer, somente para as formas que são transitórias e
educativas. Recebemos condições de estudos pelas nossas necessidades. Deus está
presente em toda a criação, e mais visível no centro da alma. Temos valores
enormes que desconhecemos dentro da consciência e eles são nossa segurança nos
caminhos da eternidade. Compete a nós outros buscá-los e absorvê-los. Essa é a
nossa parte, a parte do filho cujo Pai se empenha para que ele conheça.
O homem pode descer na posição
social até o zero, se essa for a vontade do Pai se essa descida servir-lhe de
educação para o aprimoramento. É por esse motivo que a alma passa de país para
país, de família para família, sempre trocando de posições sociais. É pois, um
movimento constante, e é esse exercício que lhe faculta as reencarnações, que o
Espírito imortal conhece a verdade.
Quando encontramos homens que
nascem mutilados nos seus sentidos, não quer dizer que esses homens regrediram
espiritualmente. A regressão é aparente, pois a alma conserva no seu
reservatório de vida as lições assimiladas na grande escola de Deus: a vida, a
natureza. Subir é uma realidade. Descer uma ilusão.
Apeguemo-nos ao Evangelho de
Nosso Senhor, da forma que Ele revive no Espiritismo, que as lições de
reformas, de entendimentos e de amor clareiam os pensamentos e dão forças para
a vida que devemos levar em busca da libertação.
Conhecemos o valor da ciência,
da filosofia ou outras direções que podem expressar as leis da Ciência; no
entanto, não devemos nos esquecer do amor que, em forma da Divindade, traz em
si todas as nuances de vida e de paz para os corações. Fora dele, mão haverá
estabilidade para os Espíritos. Assim falamos, porque a Ciência e a Filosofia
precisam, para viver, desse mesmo Amor.
quarta-feira, 21 de janeiro de 2026
EXPERIMENTOS DE TELEPATIA DE COOVER[1]
K.M. Wehrstein
Um dos primeiros experimentos em
larga escala sobre telepatia foi conduzido em 1915 por John E. Coover, um
psicólogo da Universidade Stanford. Ele concluiu que os resultados foram
totalmente negativos. No entanto, essa conclusão foi posteriormente contestada
por parapsicólogos que examinaram seus dados.
Experimentos
Em 1912, John Edgar Coover,
então com quarenta anos, foi nomeado Pesquisador Psíquico Thomas Welton
Stanford, financiado por uma doação de US$ 10.000 à Universidade Stanford feita
por Thomas Welton Stanford, irmão de seu fundador. Ele ocupou o cargo por 25
anos, realizando experimentos sobre vários aspectos da pesquisa psíquica. Estes
incluíram experimentos de telepatia em larga escala, cujas descobertas foram
publicadas em uma monografia de 1917 intitulada Experiments in Psychical Research[2]
(Experimentos em Pesquisa Psíquica), publicada pela Stanford University Press.
O método de Coover era o
seguinte: Coover e um agente telepático (emissor) sentavam-se juntos em uma
sala com um baralho de quarenta cartas (um baralho comum, sem as figuras) e um
dado, enquanto o receptor (percipiente) sentava-se em outra sala. O baralho era
embaralhado e uma carta era escolhida. O agente olhava para a carta ou não,
dependendo do resultado do dado, e o receptor tentava discernir qual carta
havia sido escolhida. Coover designou a condição experimental como aquela em
que o agente olhava para a carta, e a condição de controle como aquela em que
ele não olhava.
Os participantes eram geralmente
estudantes universitários, embora ele também tenha realizado testes com dez
indivíduos que alegavam ter habilidades psíquicas. Após completar 10.000
testes, Coover calculou que não havia diferença significativa entre as pontuações
do grupo experimental e do grupo de controle e concluiu que os resultados não
corroboravam a hipótese da telepatia[3].
Não foi encontrado nenhum vestígio de transferência objetiva de pensamento, nem
entre os participantes "normais" nem entre aqueles que alegavam ter
habilidades psíquicas[4].
Coover explicou seu padrão de
significância estatística da seguinte forma: '... se atendermos ao requisito de
um grau de precisão usual no trabalho científico, obtendo p = 0,9999779, quando
a certeza absoluta é p = 1, então [há] evidências satisfatórias de alguma causa
além do acaso[5].' No uso estatístico atual, isso seria expresso
como p = 0,0000221.
Crítica
As descobertas de Coover levaram
a uma perda de interesse no tema da telepatia na comunidade científica por mais
de uma década. No entanto, suas descobertas foram imediatamente questionadas
por pesquisadores psíquicos. Em uma resenha para a Sociedade de Pesquisa
Psíquica , o filósofo F.C. Schiller observou que a condição em que o agente não
olhava para uma carta não era, na verdade, uma condição de controle, como
Coover supôs, mas um teste de clarividência (os participantes visualizando
psiquicamente as cartas diretamente, em vez de receber impressões mentais delas
dos agentes). Ele também observou que alguns dos participantes do grupo
experimental obtiveram pontuações particularmente altas, bem acima do acaso.
Como resultado, escreveu Schiller, Coover "dificilmente tinha o direito de
deduzir de seus dados que 'nenhum traço de transferência objetiva de pensamento
é encontrado como uma capacidade desfrutada em medida perceptível por qualquer
um dos indivíduos normais [participantes][6]'".
As afirmações de Coover foram
alvo de novo escrutínio na década de 1930, após os resultados positivos em
experimentos de percepção extrassensorial (PES) conduzidos por J.B.Rhine
na Universidade Duke. Robert Thouless argumentou que a medida de significância
estatística adotada por Coover, de cerca de 50.000 para um, era
"absurdamente" alta[7],
e calculou que, por um padrão mais convencional, as pontuações eram, na
verdade, significativas no nível de 200 para 1 ( p = 0,005)[8].
Rhine apontou que a maioria dos sucessos se concentrava em apenas oito dos cem
participantes de Coover, e que cinco deles obtiveram pontuações igualmente
altas tanto nos testes de telepatia quanto nos de clarividência. Ele considerou
isso "tremendamente significativo" e lamentou que Coover não tivesse
concentrado seus esforços nos participantes com as melhores pontuações, caso em
que provavelmente teria relatado resultados positivos[9].
Os críticos concluíram que as descobertas não justificavam sua afirmação de que
a telepatia estava ausente de seus resultados, muito menos que, como ele
sustentava, elas "provavam" definitivamente sua inexistência.
Coover morreu enquanto escrevia
uma resposta, e esta foi concluída por seu sucessor, John L. Kennedy[10].
Eles argumentaram que um nível muito alto de significância era justificado,
sendo a telepatia inerentemente improvável; que os críticos não levaram em
consideração adequadamente os resultados negativos dos dez médiuns; e que
quaisquer resultados acima do acaso poderiam ser devidos a uma metodologia
experimental inadequada, como erros de registro.
Este último ponto foi examinado
por Whately
Carington, que questionou se os sucessos poderiam ser atribuídos a
"vazamentos involuntários de informações por canais normais, a métodos
experimentais falhos ou a má conduta deliberada por parte dos alunos". Ele
concluiu que as evidências internas contradiziam fortemente todas essas
possibilidades, observando que "quanto mais se analisavam os números, mais
difícil se tornava explicá-los dessa forma[11]"
.
Consequências
O sucessor de Coover, John L.
Kennedy, também não relatou resultados positivos. No entanto, Charles Stuart,
que havia sido treinado por Rhine e contratado por Stanford para replicar os
experimentos de Rhine na Universidade Duke, conduziu diversos estudos entre
1942 e 1944 que alcançaram significância estatística. Esses estudos foram
ignorados em um relatório de 1962 sobre o andamento da pesquisa psíquica em
Stanford, elaborado pelo editor de ciência do Stanford News Service, Robert
Lamar, que afirmou falsamente que nenhum indício positivo de telepatia jamais
havia sido encontrado por seus pesquisadores e que Stuart "tivera que
admitir o fracasso[12]".
Como lamentaram os parapsicólogos, as autoridades universitárias posteriormente
desviaram o financiamento da bolsa de pesquisa psíquica para a psicologia
convencional, provavelmente contrariando os termos legais da doação[13].
Literatura
§ Besterman, T. (1927). The Mind and its
Mechanism, with Special Reference to Ideomotor Action, Hypnosis, Habit and
Instinct, and the Lamarckian Theory of Evolution. By Paul Bousfield, M.R.C.S.,
L.R.C.P., and W. R. Bousfield, K.C., F.R.S. [Review.] Journal of the Society for Psychical Research 24, 103-107.
§ Carington, W. (1938). Some early experiments providing
apparently positive evidence for extra-sensory perception. Journal of the
Society for Psychical Research 30, 295-305.
§ Coover, J.E. (1917). Experiments in Psychical
Research. Psychical Research Monograph Nº 1. Palo Alto, California, USA:
Stanford University Press.
§ Coover, J.E., &
Kennedy, J.L. (1939). Reply to critics of
the Stanford Experiments on thought-transference. Journal of Parapsychology
3, 17-28.
§ Irwin, H.J., & Watt, C.A. (2007). An Introduction to
Parapsychology (5th ed.). Jefferson, North Carolina, USA: McFarland.
§ Radin, D. (2000). What’s
ahead? Journal of Parapsychology 64/4, 353-64.
§ Rhine, J.B. (1934). Extra-Sensory
Perception. Boston, Massachusetts, USA: Boston Society for Psychic
Research.
§ Schiller, F.C.S. (1918). Experiments in Psychical
Research, being the ‘Leland Stanford Junior University’s Psychical Research
Monograph No. 1.’ By John Edgar Coover [Review]. Proceedings
of the Society for Psychical Research 30, 261-73.
§ Thouless, R. (1935). Dr Rhine’s recent experiments on telepathy and
clairvoyance and a reconsideration of J.E. Coover’s conclusions on telepathy. Proceedings of the Society for Psychical Research 43,
24-37.
§ Utts, J. (1988)
Successful replication versus statistical significance. Journal of
Parapsychology 52, 305-20.
Traduzido com
Google Tradutor
[1] PSI-ENCYCLOPEDIA - https://psi-encyclopedia.spr.ac.uk/articles/coover-telepathy-experiments/
[2] Coover (1917).
[3] Irwin & Watt (2007), 61-62.
[4] Coover (1917), 124, citado em Thouless (1935), 27.
[5] Coover (1917), 83, citado em Utts (2000), 306.
[6] Schiller (1918), 265.
[7] Thouless (1935), 25.
[8] Thouless (1935), 27.
[9] Rhine (1934),
26-27.
[10] Coover & Kennedy (1939).
[11] Carington (1938), 296.
[12] Radin (2000), 358.
[13] Radin (2000), 358.
terça-feira, 20 de janeiro de 2026
LORDE CASTLEREAGH E BERNADOTTE[1]
Lord Castlereagh
Allan Kardec
Há cerca de quarenta anos
aconteceu a seguinte aventura ao marquês de Londonderry, mais tarde lorde
Castlereagh. Certo dia foi visitar um gentil-homem que privava da amizade de um
de seus amigos, o qual residia num desses velhos castelos do norte da Irlanda,
que os romancistas elegem para palco das aparições do outro mundo. O aspecto do
apartamento do marquês estava em perfeita harmonia com o edifício. Com efeito,
os vigamentos de madeira ricamente esculpidos e enegrecidos pelo tempo, o
enorme arco da chaminé, semelhante à entrada de um túmulo, a tapeçaria pesada e
repleta de pó que mascarava as estreitas janelas e circundava o leito, tudo era
susceptível de dar uma feição melancólica aos pensamentos.
Lorde Londonderry examinou o seu
dormitório e travou conhecimento com os antigos senhores do castelo que,
retratados de pé nos quadros da parede, pareciam esperar a sua saudação. Depois
de ter despedido o criado de quarto, foi deitar-se.
Mal acabara de apagar a vela
percebeu um raio de luz a iluminar o cortinado superior de seu leito.
Convencido de que não havia fogo na grelha, que as cortinas estavam fechadas e
que alguns minutos antes o quarto estava mergulhado na mais completa escuridão,
supôs que um intruso ali houvesse penetrado. Voltando-se rapidamente para o
lado de onde vinha a luz e, com grande espanto, viu a figura de uma bela
criança, completamente nimbada de luz.
Convencido da integridade de
suas faculdades, mas desconfiando de uma mistificação de um dos numerosos
hóspedes do castelo, lorde Londonderry avançou para a aparição, que se retirou
de sua frente. À medida que se aproximava ela recuava, até que, chegando
finalmente sob o sombrio arco da imensa chaminé, precipitou-se chão adentro e
desapareceu.
Lorde Londonderry não dormiu
naquela noite.
Resolveu não fazer nenhuma
alusão ao que lhe tinha acontecido, até que tivesse examinado atentamente o
semblante de todas as pessoas da casa. Durante o café, em vão procurou
surpreender alguns sorrisos disfarçados, olhares de conivência e piscar de
olhos, que geralmente denunciam os autores dessas conspirações domésticas.
A conversação seguiu o seu curso
ordinário; estava animada e nada revelava uma mistificação. Por fim o marquês
não pôde resistir ao desejo de contar o que tinha visto. O senhor do castelo
observou que o relato de lorde Londonderry devia parecer muito estranho aos que
há muito tempo não visitavam o castelo e desconheciam as lendas da família.
Então, voltando-se para lorde Londonderry, disse:
Vistes a criança brilhante; alegrai-vos, pois é o
presságio de uma grande fortuna. Mas eu teria preferido que não se tratasse
dessa aparição.
Em outra ocasião Lorde
Castlereagh viu a criança brilhante na Câmara dos Comuns. No dia de seu
suicídio ele teve uma aparição semelhante[2].
Sabe-se que este lorde, um dos principais membros do Ministério Harrowby e o
mais obstinado perseguidor de Napoleão durante o seu revés, seccionou a própria
carótida no dia 22 de agosto de 1823, morrendo instantaneamente.
Dizem que a surpreendente
fortuna de Bernadotte lhe havia sido predita por uma necromante famosa, que
também anunciara a de Napoleão I e desfrutava da confiança da Imperatriz Josefina.
Bernadotte estava convencido de
que uma espécie de divindade tutelar se ligava a ele para o proteger. Talvez as
tradições maravilhosas que cercaram o seu leito não fossem estranhas a esse
pensamento, que jamais o abandonava. Com efeito, em sua família narrava-se uma
antiga crônica segundo a qual uma fada, esposa de um de seus antepassados,
havia predito que um rei ilustraria a sua posteridade.
Eis um fato que demonstra o
quanto o maravilhoso havia conservado o seu império sobre o Espírito do rei da
Suécia.
Ele queria resolver à espada as
dificuldades que a Noruega lhe opunha e enviar seu filho Oscar à frente de um
Exército para aniquilar os rebeldes. O Conselho de Estado fez viva oposição a
esse projeto. Certo dia em que Bernadotte acabava de travar uma animada
discussão sobre o assunto, montou a cavalo e afastou-se da capital à disparada.
Depois de longo percurso chegou às bordas de uma sombria floresta. De repente
apresentou-se aos seus olhos uma velha mulher, vestida de maneira extravagante
e com os cabelos em desalinho:
– Que quereis? – perguntou bruscamente o rei.
A feiticeira respondeu sem se desconcertar:
– Se Oscar combater nessa guerra que premeditas, não
dará os primeiros golpes, mas os receberá.
Impressionado por essa aparição
e por essas palavras, Bernadotte voltou ao palácio. No dia seguinte, denotando
ainda no rosto os sinais de uma longa vigília cheia de agitação, apresentou-se
ao Conselho:
Mudei de opinião; negociaremos a paz, desde que em
condições honrosas.
Em sua Vie de M. de Rancé,
fundador de La Trappe, conta Chateaubriand que um dia esse homem célebre,
passeando na avenida do castelo de Veretz, julgou ver um grande incêndio que
consumia as dependências destinadas às aves domésticas. Correu rápido para lá:
o fogo diminuía à medida que ele se aproximava. A certa distância o braseiro
transformou-se num lago de fogo, no meio do qual se erguia a meio corpo uma
mulher devorada pelas chamas.
Tomado de pavor, retomou
correndo o caminho de casa. Ao chegar, as forças lhe faltaram, atirando-se
semimorto na cama. Não foi senão depois de longo tempo que contou a visão, cuja
mera lembrança o fazia empalidecer.
Esses mistérios pertencem à
loucura? O Sr. Brière de Boismont parece atribuí-los a uma ordem de coisas mais
elevada, e concordo com a sua opinião. Isso não desagrada ao meu amigo Dr.
Lélut: prefiro acreditar no gênio familiar de Sócrates e nas vozes de Joana
d’Arc a crer na demência do filósofo e da virgem de Domrémy.
Há fenômenos que ultrapassam a
inteligência e que desconcertam as ideias recebidas, mas diante de cuja
evidência é preciso que a lógica humana se incline humildemente. Nada é brutal,
e sobretudo irrecusável, como um fato. Tal é a nossa opinião e, principalmente,
a do Sr. Guizot:
Qual a grande questão, a questão suprema que hoje
preocupa os espíritos? É a questão levantada entre os que reconhecem e os que
não reconhecem uma ordem sobrenatural, verdadeira e soberana, embora
impenetrável à razão humana; é a questão levantada para chamar as coisas pelo
seu nome, entre o supernaturalismo e o racionalismo. De um lado os incrédulos,
os panteístas, os cépticos de toda sorte, os puros racionalistas; do outro, os
cristãos.
Com vistas à nossa salvação presente e futura, é
necessário que a fé, o respeito e a submissão à ordem sobrenatural penetrem no
mundo e na alma humana, nos grandes espíritos como nos espíritos simples, nas
regiões mais elevadas como nas mais humildes. A influência real,
verdadeiramente eficaz e regeneradora das crenças religiosas tem essa condição.
Fora daí são superficiais e muito perto de tornar-se vãs. [Guizot].
Não, a morte jamais haverá de
separar para sempre, mesmo neste mundo, os eleitos que Deus recebeu em seu seio
e os exilados que ficaram neste vale de lágrimas, in hac lacrymarum valle[3],
para empregar as palavras melancólicas da Salve Rainha. Há horas misteriosas e
benditas em que os mortos bem-amados se debruçam sobre aqueles que os
pranteiam, murmurando-lhes aos ouvidos palavras de consolação e de esperança. O
Sr. Guizot, esse Espírito severo e metódico, tem razão de professar:
Fora daí as crenças religiosas são superficiais e muito
perto de tornar-se vãs.
Sam. (Extraído da Patrie, de 5 de junho de 1859.)
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
ZAIRA JUNQUEIRA PITT[1]
Amélia Zaira Junqueira Pitt,
filha de Modesto Antonio Pereira e Zaira Junqueira, nasceu em Rio Claro, SP, às
17 horas do dia 25 de dezembro de 1900.
Foram seus avós paternos João
Antonio Pereira e Maria Engracia Pereira e maternos, Francisco Ramiro de Assis
Junqueira e Amélia Pimentel de Oliveira.
Contraiu núpcias, em 24 de abril
de 1930, com o baiano de origem inglesa Oswaldo Ildefonso Pitt, negociante,
passando a assinar Amélia Zaira Junqueira Pitt. O casal teve uma filha e morou
em São Paulo.
Foi no lar paterno que Zaira
teve os primeiros contatos com o Espiritismo, através de sua mãe que realizava,
no lar, o Evangelho, com a participação de todos os filhos.
Sempre se interessando pelos
temas espirituais, na teoria e na prática, Zaira começou a realizar o culto
doméstico, uma prática que era comum à época. Fazia leitura do Evangelho com
aplicação de passes em adultos e também nas crianças.
Marcantes na sua vida foram as
doenças, que afetaram seus irmãos Alfen e Francisco e cuja cura se deu através
da Doutrina Espírita.
Alcançada por um câncer na
coluna vertebral, aos 40 anos de idade, Zaira recorreu a cirurgias espirituais,
através de um médium. Mas, as fortes
dores lhe exigiram o uso continuado, por muitos anos, de incômodo colete.
Pela força de sua grandeza
espiritual e somados os acontecimentos tristes com os familiares, Zaira passou
a dedicar-se intensamente à prática da caridade, chegando, em alguns momentos,
ao acolhimento de necessitados em sua própria casa.
As atividades de Zaira Pitt
foram muitas e multiplicaram-se, ao longo do tempo. São inúmeros os casos de
pessoas carentes atendidas por sua influência, de médiuns amparados e de
instituições espíritas ou de outras religiões auxiliadas.
Os familiares e amigos a
observavam sempre ativa e em busca de formas de amparar seus semelhantes. Uma
cadeira de rodas aqui, um prato de comida acolá; uma vaga num hospital para um
doente, viabilizada com o apoio de amigos; uma ajuda financeira continuada para
uma família sem condições de gerar renda...
Tudo isso se viabilizou pelo
fato de Zaira, em conjunto com sua credibilidade e confiabilidade de caráter,
ter arregimentado pessoas e amigos que a apoiaram. Realizando reuniões em sua
residência, para estudo e prática do Espiritismo, fez amizade com inúmeros
médiuns e figuras de destaque na sociedade, que, além da participação
doutrinária, encampavam suas iniciativas no campo assistencial, para o
atendimento aos que lhe batiam à porta ou àqueles que voluntariamente ela ia
procurar.
Deixando de realizar reuniões
espíritas em sua casa, por orientação espiritual, Zaira frequentou o Centro
Beneficente José de Andrade, no bairro de Perdizes, uma obra que ajudou a
edificar.
Entre os mecenas da obra
caritativa realizada por Zaira Pitt, pode-se citar Ribeiro Branco, diretor, por
longos anos, da Johnson & Johnson, que fornecia medicamentos para o
tratamento dos hansenianos do sanatório de Pirapitingui. Ele se tornou seu grande
amigo e era quem disponibilizava seu carro
para transportar medicamentos e mantimentos arrecadados para aquele
hospital. Ribeiro Branco foi seareiro abnegado, que muito ajudou Zaira no
atendimento ao pedido de Jésus
Gonçalves, para a construção do Centro Espírita Santo Agostinho e do
departamento para atender aos doentes visuais do Sanatório de Pirapitingui.
Maria da Conceição da Costa
Neves, atriz renomada, que atuou ao lado de Procópio Ferreira e outros
artistas, após deixar o teatro, enveredou pelo caminho da política e, como
deputada, veio a ser a grande defensora dos direitos dos portadores da
hanseníase.
Foram amigos de Zaira, Judith e
Procópio Noronha, que tinha estreito contato com Adhemar de Barros, governador do Estado, que
foi acessado, vez que outra, para viabilizar atividades de caridade. Muitos
outros ainda existiram como o empresário da Cerâmica Schmidt, os proprietários
da Granja Vianna.
Divaldo
Pereira Franco, em janeiro de 1951, ao visitar o Sanatório de Pirapitingui,
pela primeira vez, foi acompanhado por Zaira, que o conhecera em uma viagem que
fizera a Salvador, na Bahia, no ano anterior.
A partir daí, nas idas a São
Paulo, para as palestras, Divaldo se hospedava em casa dela.
Zaira mantinha contato habitual
com Francisco
Cândido Xavier, tanto pessoalmente como através de portadores que levavam e
traziam informações.
Entre inumeráveis personalidades
importantes na vida de Zaira, merece destaque o cardiologista Dante Pazzanese,
que lhe deu assistência direta e ininterrupta, em seus últimos dias na Terra.
Dante organizou uma equipe médica para acompanhar diuturnamente Zaira em sua
enfermidade.
Zaira desencarnou em 25 de julho
de 1973.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2026
A MELHORA DA MORTE[1]
Rogério Miguez
A expressão-título deste texto
já se encontra incorporada na chamada sabedoria popular, se assim podemos nos
expressar, usada corriqueiramente quando a situação se apresenta.
Não é um fenômeno comuníssimo,
mas acomete vários pacientes gravemente enfermos, alguns em estado terminal,
quando, subitamente, apresentam uma melhora temporária e surpreendente em seu
estado de saúde antes de falecerem em seguida.
Tecnicamente conhecida por “Lucidez
terminal” ou “Lucidez paradoxal”, chamou a atenção da área médica no século
XIX. Observou-se, à época, a ocorrência em pacientes dementes, com doenças
neurológicas ou psiquiátricas, esquizofrênicos, em casos neurológicos como
tumor cerebral, abscesso etc. Há diversas hipóteses buscando explicar o
fenômeno, mas nenhuma delas foi comprovada até agora, ou seja, não há consenso
sobre a causa deste inusitado acontecimento[2],[3].
Como se conclui, os cientistas
ainda não conseguiram equacionar esta questão, mesmo lançando mão de todos os
avançados recursos tecnológicos disponíveis, para o setor médico, neste século
XXI. Apesar de usar toda a experiência acumulada durante bem mais de um século,
por incontáveis profissionais de diversas especialidades, o fato ainda se
traduz por um mistério a despeito das várias possibilidades consideradas para
explicá-lo.
Cremos que o elo faltante nestas
tentativas, seja a desconsideração da alma como fundamental elemento presente
no homem, na sua imortalidade e no poder dos fluidos magnéticos que todos nós
podemos emitir e receber, conscientemente ou não.
O Espiritismo já informou sobre
esta realidade, conforme segue, resumidamente, em caso muito interessante.
Em uma das obras da coleção “A
Vida” no plano espiritual, relata o autor – André Luiz - que o paciente Dimas
havido atingido o tempo final para a sua existência, contudo, sua esposa, ao
seu lado, emitia forças pelo seu pensamento em desalinho que dificultavam o
desenlace, pois tentava retê-lo por mais algum tempo. Diante da situação,
Jerônimo e mais dois auxiliares acompanhantes de André Luiz neste aprendizado,
por meio de passes longitudinais forneceram ao doente melhoras fictícias
tranquilizando, assim, os parentes aflitos. Dimas abriu os olhos, trocou
algumas palavras com a parentela, todos se tranquilizaram e interromperam,
inconscientemente, a emissão de fluidos que o estavam mantenho ligado ao corpo
físico. O médico foi chamado e solicitou a todos que deixassem o paciente em
repouso absoluto. Tranquilizada pela melhora repentina do esposo, sua esposa se
recolhe ao quarto abrindo as portas para que se fizesse o trabalho final
encaminhando a desencarnação do doente. Finalmente, o moribundo pode desencarnar[4].
Há também mais um exemplo desta
providencial medida descrita em outra obra de André Luiz.
Agora, trata-se de Fernando que
havia atingido os momentos finais da existência, contudo, a aflição dos
familiares encarnados presentes, emitindo, pelos pensamentos, recursos
magnéticos em benefício do moribundo, tinham o poder de dificultar a ajuda do plano
espiritual visando finalizar o desencarne do paciente. Chegado àquele estágio
de desagregação corporal, as providências mentais dos afeiçoados eram, agora,
inúteis. Sendo assim, Aniceto, o orientador de André Luiz neste outro relato
delibera pela modificação do quadro de coma. Operando com sabedoria e eficácia
os fluidos imateriais, em breve, o médico encarnado informou que os
prognósticos haviam melhorado, inexplicavelmente. A pulsação e a respiração
estavam voltando ao normal. Alguns familiares se retiraram do aposento e os
fluidos prejudiciais de aflição e desequilibrados que eram emitidos ao enfermo
desapareceram sem deixar qualquer vestígio. Aniceto aproveitou a serenidade do
ambiente e iniciou o processo de retirada de Fernando do corpo biológico. Após
longos minutos Fernando estava livre dos implementos carnais, retornando à vida
verdadeira[5].
É oportuno lembrar que nem toda
melhora no quadro clínico de um doente em estado terminal, implica,
necessariamente, na iminência da morte. São muitas as situações possíveis e, em
outros casos, a evolução positiva no estado de saúde do paciente se mantém e o
doente se recupera, continuando, normalmente, a sua existência.
Importante também destacar a
força do pensamento, seja para o bem, seja para o mal. E não se pretende aqui
sugerir que não se deva pensar no doente, apenas lembrar que as forças mentais
geradas por familiares e amigos devem ser construídas sem inquietação,
ansiedade, aflição, medo; ao contrário, precisam ser elaboradas no sentido de
dar ao moribundo paz e tranquilidade diante da hora final que chegou para ele
e, chegará para todos.
[1] O CONSOLADOR - Ano 19 - N° 952 - 7 de Dezembro
de 2025 - https://www.oconsolador.com.br/ano19/952/ca5.html
[4] XAVIER, Francisco Cândido. Obreiros da vida eterna.
Pelo Espírito André Luiz. ed. 9. Rio de Janeiro/RJ: FEB, 1975 - Companheiro libertado. cap. XIII.
[5] XAVIER, Francisco Cândido. Os Mensageiros. Pelo
Espírito André Luiz. ed. 16. Rio de Janeiro/RJ: FEB, 1988. A desencarnação de
Fernando. cap. 50.



