terça-feira, 18 de junho de 2019

François-Simon Louvet, do Havre[1], [2]




             A seguinte comunicação foi dada espontaneamente, em uma reunião espírita no Havre, em 12 de fevereiro de 1863:
Tereis piedade de um pobre miserável que passa há muito por cruéis torturas? Oh! O vácuo... O espaço... Despenho-me... Caio...! Acudam-me! Meu Deus, eu tive uma existência tão miserável! Pobre diabo, sofri fome muitas vezes na velhice; e foi por isso que me habituei a beber, a ter vergonha e desgosto de tudo... Quis morrer e atirei-me... Oh! Meu Deus, que momento! E para que tal desejo, quando o termo estava tão próximo? Orai! Para que eu não veja incessantemente este vácuo debaixo de mim... Vou despedaçar-me de encontro a essas pedras!
Eu vo-lo suplico, a vós que conheceis as misérias dos que não pertencem a esse mundo. Não me conheceis, mas eu sofro tanto...
Para que mais provas? Sofro! Não será isso o bastante? Se eu tivera fome, em vez deste sofrimento mais terrível e, aliás, imperceptível para vós, não vacilaríeis em aliviar-me com uma migalha de pão.
Pois eu vos peço que oreis por mim. Não posso permanecer por mais tempo neste estado. Perguntai a qualquer desses felizes que aqui estão, e sabereis quem fui. Orai por mim.
François-Simon Louvet

Logo depois o Espírito protetor do médium disse:
Esse que acaba de se dirigir a ti, minha filha, foi um pobre infeliz que teve na Terra a prova da miséria; vencido pelo desgosto, faltou-lhe a coragem, e o desventurado, em vez de olhar para o céu como devia, entregou-se à embriaguez; desceu aos extremos últimos do desespero, pondo termo à sua triste provação: atirou-se da torre Francisco I, no dia 22 de julho de 1857. Tende piedade de sua pobre alma, que não é adiantada, mas que lobriga da vida futura o bastante para sofrer e desejar uma reparação. Rogai a Deus lhe conceda essa graça, e com isso tereis feito obra meritória. Estou feliz por vos ver reunidos, meus caros filhos; estou convosco quando vos reunis assim. Estou sempre pronto a vos dar os meus ensinamentos. Se um Espírito bom não pudesse comunicar-se convosco por falta de condições físicas, eu seria seu intermediário; mas estais cercados de Espíritos bons e eu deixo que vos instruam.
Perseverai nos caminhos do Senhor e sereis abençoados. Tende paciência nas provas, não vos recuseis a fazer o bem pela ingratidão dos homens. Em breve os homens serão melhores e os tempos estão próximos. Adeus, meus bem-amados; eu vos acompanho nas vossas tristezas como nas vossas alegrias. A paz esteja convosco.
Teu Espírito protetor

Buscando-se informes a respeito, encontrou-se no Journal du Havre, de 23 de julho de 1857, a seguinte notícia local:
 “Ontem, às 4 horas da tarde, os transeuntes do cais foram dolorosamente impressionados por um horrível acidente:
– um homem atirou-se da torre, vindo despedaçar-se sobre as pedras. Era um velho puxador de sirga, cujo pendor à embriaguez o arrastara ao suicídio. Chamava-se François-Victor-Simon Louvet.
O corpo foi transportado para casa de uma das suas filhas, na rua da Corderie. Tinha 67 anos de idade”.

Observação – Um incrédulo, a quem foi relatado o fato mediúnico, como prova das comunicações de além-túmulo, respondeu: Mas quem sabe se o médium não tinha conhecimento do Journal du Havre e se não construiu o romance com a notícia?
Como se vê, a trapaça é sempre o último reduto dos negadores, quando não se podem dar conta de um fato cuja evidência material não deve ser posta em dúvida. Com eles nem mesmo basta mostrar que não se tem nada nas mãos nem nos bolsos, porque, dizem, os escamoteadores fazem o mesmo e, entretanto, desafiam a argúcia do observador.
A isto perguntamos, por nossa vez, que interesse teria o médium em representar a comédia? Aqui nem se pode supor um interesse de amor-próprio numa coisa que se passa na intimidade da família, quando não se enganaria a si mesmo e aos seus. Aliás, quando a gente quer divertir-se, não se escolhem assuntos desta natureza, pouco recreativos, e não é admissível que uma moça piedosa misture o nome de Deus a uma brincadeira grosseira. O desinteresse absoluto e a honorabilidade da pessoa são as melhores garantias de sinceridade e a resposta mais peremptória a dar em casos que tais.
Além disso, faremos notar o castigo infligido ao suicida.
Morto há seis anos, ele se vê sempre caindo da torre e indo quebrar-se nas pedras; espanta-se com o vazio que há em sua frente; e isto há seis anos! Quanto tempo durará? Ele não o sabe e a incerteza lhe aumenta a angústia. Isto não equivale ao inferno e suas labaredas? Quem nos revelou tais castigos? Nós os inventamos? São os próprios que os sofrem que no-los vêm descrever, como outros descrevem as suas alegrias.




[1] Revista Espírita – Março/1863 – Allan Kardec
[2] N. do T.: Vide O Céu e o Inferno, 2ª parte, capítulo V.

sábado, 15 de junho de 2019

CONGRESSOS ESPÍRITAS ‒ "ISCAS" PARA VENDAS DE APETRECHOS "DOUTRINÁRIOS"[1]



Jorge Hessen - jorgehessen@gmail.com

O “movimento espírita” contemporâneo é análogo à expressão “samba do crioulo doido”, criado pelo jornalista Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). Cada grupo, cada instituição, cada emissário federativo “oficial”, cada pregador, vai improvisando um singular “espiritismo à moda da casa”. Em face disso, as lideranças oficiais do “movimento espírita” sofisticam conteúdos, arquitetam novidades e adornam conceitos que deveriam ser simples.
É inexplicável o “silêncio de múmia” das lideranças federativas perante as grotescas adulterações de A Gênese, no século XIX (presentemente reveladas e comprovadas). O que observamos no “movimento espírita” recente, é a reedição do desvio do projeto inicial, de 1857. Os eternos donos do “movimento espírita oficial” perderam o foco do Projeto Espírita Codificado por Allan Kardec e submergiram nos túmulos do ultramontanismo doutrinário, introduzindo um monte de coerções, crendices e ilusões teosóficas, esotéricas e roustanistas.
O resultado não poderia ser outro – senão – a desunião doutrinária entre os espíritas no Brasil.
Tudo isso são sequelas das proezas igrejeiras advindos dos ancestrais dirigentes oficiais da cúria febeana, com suas eternas recaídas de espírito de cúpula e infalibilidade. Desta forma, as constrangidas federativas cooperam para o sobrecarregado misticismo, especialmente ao recusarem espaço para os obrigatórios estudos comparativos entre A Gênese ORIGINAL e a febeana, até porque o autodenominado “órgão máximo” do movimento espírita brasileiro bateu o martelo sentenciando que a 5ª edição mutilada de A Gênese é a definitiva.
Nessa postura autoritária tal “órgão máximo” do movimento espírita brasileiro atravanca o curso natural das pesquisas, da compreensão, da racionalidade kardeciana, a fim de que o movimento espírita livre prospere nos estudos e lições legítimos de Allan Kardec, que há 150 anos foram criminosamente lançados no lixo da História pelo lunático Leymarie.
Mudando um pouquinho de enfoque, informamos que está previsto para 2019 nas terras candangas, mais um soberbo congresso “espírita” destinado aos apatacados.
Tais eventos sempre foram excludentes, a rigor são folias religiosas, onde os oradores convidados (sempre são as mesmas figurinhas carimbadas que dão IBOPE) se ostentam para espectadores devotos, em meio a um espetáculo mercantil onde se comercializa de tudo, cd’s, dvd’s, livros “psicografados”, camisetas impressas, quejandos dentre outros caraminguás diversos, stands sortidos (tipo Tem de Tudo), praças de alimentação etc. Tudo arranjado para deleitar à turba estrábica e ao mesmo tempo impedir que ideias adversas ao “poder oficial dominante” possam ser declarados.
A mensagem espírita é veiculada através de palestrantes idolatrados por carregarem na bagagem da presunção seus discursos mansos que sempre resvalam no sapecado lugar comum. Discursadores que se creem atores globais sob reluzentes holofotes místicos das paródias populares, tudo sob o beneplácito dos organizadores, dotados de nenhum estofo doutrinário.
Observa-se alguns pregadores, que se tornaram profissionais da tribuna espírita, com a finalidade de amealharem direta ou indiretamente os recursos financeiros oriundos das “palestras-chamarizes” como “ISCAS” para comercialização de CD’S, DVD’S e LIVROS que são vendidos para o público presente ou alienados para instituições interessadas.
Seria possível que Allan Kardec sonhasse com esse modelo atual de “movimento espírita” à moda brasileira? Estamos certos que NÃO!!!! O Espiritismo sonhado por Kardec era o mesmo Espiritismo que Chico Xavier exemplificou por mais de setenta anos, ou seja, o Espiritismo do Centro Espírita simples, muitas vezes iluminado à luz de lampião; da visitação aos desprovidos de bens materiais, da distribuição do pão, da “sopa fraterna”, da água fluidificada, do Evangelho no Lar etc.
A rigor, a Doutrina Espírita é o convite à liberdade de pensamento, tem movimento próprio, por isso, urge deixar fluir naturalmente, seguindo-lhe a direção que repousa, invariavelmente, nas mãos do Cristo. Sim! E o grande desafio da Doutrina dos Espíritos deve ser o crescimento da qualidade, sem perder de vista a simplicidade que a caracteriza como Nova Revelação.


Fonte: A Luz na Mente

sexta-feira, 14 de junho de 2019

CIRURGIAS ESPIRITUAIS NAS CASAS ESPÍRITAS[1]




J.Raul Teixeira

Quando falamos em cirurgias espirituais, temos que destacar aquilo que os Espíritos fazem e de que, muitas vezes, não temos consciência. Eles trabalham no campo do perispírito, utilizando-se dos recursos fluídicos do mundo espiritual e do poder mediúnico que a casa tem, em função do seu corpo de médiuns, e que nem ficamos sabendo. Quando passamos a saber, costumamos fazer em torno disso um verdadeiro carnaval. Então, surgem celeumas, discrepâncias, desentendimentos, jogos de interesse e cerimoniais plenamente desnecessários para o trabalho em questão.
Quando se tratar de cirurgias com utilização de instrumentos de perfuração ou corte, a casa espírita deverá todo cuidado possível porque essa não é a proposta da Doutrina Espírita. Com todo respeito devido aos médiuns curadores que utilizam as facas, canivetes, bisturis, serras, agulhas etc., cumpre saibamos que não é essa a finalidade de um centro espírita, evitando, sempre que possível, semelhantes práticas em nossas instituições. Perfurações, cortes, extirpações de órgãos e tudo o mais nessa órbita são da alçada da medicina humana, e devemos respeito aos facultativos, respeito à ciência.
Temos à nossa disposição a fluidoterapia, que é uma forma de tratamento que os Espíritos nos ensinaram, conforme as referências de Allan Kardec, no cap. XIV, itens 32 e 33, de A Gênese, o que deve ser observado e realizado com profunda unção, identificando os princípios da fluidoterapia com as perfeitas leis da natureza.
Há, contudo, médiuns com possibilidade de realizar essas atividades de cura espiritual, sem que pertençam a centro espírita algum, mas quando pertencem, é comum haver muita indisciplina em torno desse tipo de atividade, porquanto são raros os dirigentes que não se põem extasiados diante dessa expressão mediúnica, passando a devotar aos médiuns uma perigosa veneração e por isso se sentem desencorajados de lhes chamar a atenção para a indispensável vigilância e a urgente renovação, enquanto atuam nos labores do bem ao próximo.
É muita gente que procura essa faceta mediúnica, é muita gente que a deseja e diversos são os médiuns que se dedicam a essa lida, mas que se sentem impossibilitados de vivenciar a disciplina que o Espiritismo propõe, e passam, em nome do exercício da caridade, há dedicar um tempo muito grande a essas práticas, deixando de lado o tempo precioso para os estudos indispensáveis para refletir em torno da sua própria atividade, para saber como atuam os Espíritos por seu intermédio, que objetivos têm eles ao se prestar a esse serviço; e por desconhecer o sentido da mediunidade para a vida dos médiuns, menosprezam os esforços da autorrenovação, conquanto se apoiem, quase sempre, numa visão distorcida do que seja a prática da caridade. Esse é um aspecto perigoso das práticas cirúrgicas nos centros espíritas. É certo que os Espíritos dedicados ao bem do próximo realizam verdadeiros prodígios sem que o saibamos. Outros se dão a conhecer, mas investem recursos na melhoria íntima daqueles aos quais oferecem curas físicas, em nome do Senhor.
No Rio de Janeiro há instituições muito conhecidas que, como o Templo Espírita Tupyara, realizam respeitáveis trabalhos de tratamento de saúde física, que se tornaram dignos de confiança pelos resultados obtidos, em razão dos médiuns que lidam nesse labor serem instados às disciplinas e à boa conduta, para que possam merecer o auxílio dos Bons Espíritos. Realizam tratamentos cirúrgicos à distância sem que nenhum médium necessite furar ou cortar os pacientes. É comum que as pessoas sintam os resultados e as curas são realizadas, demonstrando, exatamente, aquilo que O Livro dos Médiuns nos ensina, ou seja, quando há mérito do enfermo e um médium em boas condições para a realização do fenômeno da cura, ela se dá.
Os indispensáveis cuidados que o centro espírita deverá ter são: primeiro, verificar se há médiuns com essas habilidades todas ‒ que são raros ‒ e, depois, que tipo de trabalho será chancelado pela instituição, em nome do Espiritismo. O tratamento da saúde alheia é algo de muita responsabilidade.

quinta-feira, 13 de junho de 2019

IDEIAS NA ERRATICIDADE[1]



Miramez

As ideias dos Espíritos se modificam no estado de desencarnados?
‒ Muito. Elas sofrem modificações muito grandes à medida que o Espírito se desmaterializa. Ele pode algumas vezes, ficar muito tempo com as mesmas ideias, mas, pouco a pouco, a influência da matéria diminui, e vê as coisas mais claramente; é então que procura os meios de se tornar melhor.
Questão 318/Livro dos Espíritos

As ideias dos Espíritos na erraticidade, certamente que mudam e muito. Somos quase todos influenciados pelo meio ambiente onde estagiamos. Isso, falando do Espírito que começou a despertar para a realidade espiritual.
É fundamental que observemos a escala espiritual à qual a alma pertence. O Espírito elevado, que já começou a viver o Evangelho, e a se esforçar todos os dias para melhorar espiritualmente, essa alma, ao passar para a vida espiritual ou o mundo dos Espíritos, tem mais facilidade de esquecer os atrativos da Terra e as paixões que nela vibram com maior intensidade. No entanto, os Espíritos dominados pelos sentimentos inferiores, esses em quase nada mudam suas ideias ao chegarem ao mundo dos Espíritos. Continuam a manifestar seus interesses pelo apego às coisas da Terra e a alimentar as paixões que os levam às inferioridades.
Todos os seres humanos, uns mais, outros menos, são influenciados pelos pensamentos negativos. É necessário que busquemos analisar o que surge em nossa mente e fazer a devida seleção, para não cairmos em novas tentações. Podemos dizer com segurança que não são somente os encarnados que sofrem esse tipo de assédio, mas, também, muitos dos desencarnados que se esqueceram de orar e vigiar, o que fazem e o que podem pensar.
Os Espíritos que, ainda na Terra, começaram a se desapegar da matéria, ao transporem o portal do além, encontram mais facilidade para desligar dos assuntos inferiores do planeta onde viveram. A Doutrina Espírita nos oferece instruções valiosas que nos ajudam, mesmo na carne, a nos libertar da materialidade. Compete a cada criatura trabalhar dentro de si mesmo, removendo o lixo mental e colocando em seu lugar as claridades imortais que os preceitos de Jesus ensinam.
Falanges e mais falanges de Espíritos todos os dias passam de um lado para outro. São trocas de companheiros constantemente, e todos eles, mesmo alguns inconscientes, estão buscando a sua libertação espiritual. Essa é a lei.
As almas que se afinam com a caridade, mostram o ponto de despertar que atingiram. A caridade nos salva em variados aspectos, fazendo ambiente para grandes inspirações e, desta forma, o conforto atinge a nossa consciência. Não há quem possa fugir ao progresso, porque ele é lei de Deus palpitando em toda a criação. Mesmo que a alma se demore nas sombras alimentada por ideias inferiores, não pode permanecer eternamente nessas condições. A mudança de ambiente e a própria maturidade pelo sofrimento a influenciam e vem o estado de consciência a mostrar a verdade que conforta e a confiança que estimula para que ela possa ir para frente.
Procuramos, onde estivermos, a mudar logo as ideias, desde quando elas não estejam em perfeita harmonia com as ideias do Cristo. Essas mudanças por vezes nos trazem perturbações; é o “desmanchar a casa velha para construir nova residência”. É trabalho louvável que depende de muito esforço e boa vontade.
Encontramos neste labor divino problemas numerosos e impedimentos sem conta. São os obstáculos que aparecem para provar nossa fé. O Evangelho nos fala dessas dificuldades, se procurarmos conhecer a vida dos seguidores de Jesus Cristo. Quem já conhece o Evangelho de Jesus e se esforça para melhor entendê-lo vivendo seus preceitos de luz, pisa primeiramente em espinhos, para depois atingir as flores, a nos embriagarem de perfume divino.
As mudanças interiores nos levam às portas dos céus no coração, onde mora o Cristo, reinando na intensa luz de Deus.




[1] Filosofia Espírita – Volume 7 – João Nunes Maia

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O Espiritismo é uma Ciência Positiva[1]


A LOCUÇÃO DO SR. ALLAN KARDEC AOS ESPÍRITAS DE BRUXELAS E ANTUÉRPIA, EM 1864



Publicamos esta alocução a pedido de grande número de pessoas que nos testemunharam o desejo de conservá-la, e porque ela tende a fazer considerar o Espiritismo sob um aspecto de certo modo novo. A Revista Espírita de Antuérpia reproduziu-a integralmente.
Senhores e caros irmãos espíritas. Apraz-me dar-vos este título, porque, embora eu não tenha o privilégio de conhecer todas as pessoas presentes nesta reunião, quero crer que aqui estamos em família e todos em comunhão de pensamentos e de sentimentos. Mesmo admitindo que nem todos os assistentes fossem simpáticos às nossas ideias, não os confundiria menos no sentimento fraterno que deve animar os verdadeiros espíritas para com todos os homens, sem distinção de opinião.
Não obstante, é aos nossos irmãos de crença que me dirijo mais especialmente, para exprimir-lhes a satisfação que sinto de me achar entre eles e de oferecer-lhes, em nome da Sociedade de Paris, a saudação de fraternidade espírita.
Eu já havia tido a prova de que o Espiritismo conta, nesta cidade, numerosos adeptos sérios, devotados e esclarecidos, compreendendo perfeitamente o objetivo moral e filosófico da doutrina; sabia que aqui encontraria corações simpáticos, e isto foi motivo determinante para que eu correspondesse ao insistente e grato convite que me foi feito por vários dentre vós, de aqui fazer uma pequena visita este ano. A acolhida tão amável e cordial que recebi fará que leve de minha estada a mais agradável lembrança.
Certamente eu teria o direito de envaidecer-me pela acolhida que me tem sido dispensada nos diferentes centros que visito, se não soubesse que esses testemunhos se dirigem muito menos ao homem do que à doutrina, da qual sou humilde representante, e devem ser consideradas como uma profissão de fé, uma adesão aos nossos princípios. É assim que os encaro, no que me concerne pessoalmente.
Aliás, se as viagens que faço de vez em quando aos centros espíritas só devessem ter como resultado a satisfação pessoal, eu as consideraria inúteis e delas me absteria. Mas, além de contribuírem para estreitar os laços de fraternidade entre os adeptos, também têm a vantagem de fornecer-me elementos de observação e de estudo, jamais perdidos para a doutrina.
Independentemente dos fatos que possam servir ao progresso da ciência, aí recolho os materiais da história futura do Espiritismo, os documentos autênticos sobre o movimento da ideia espírita, os elementos mais ou menos favoráveis ou contrários que ela encontra, conforme as localidades, a força ou a fraqueza e as manobras de seus adversários, os meios de combater estes últimos, o zelo e o devotamento de seus verdadeiros defensores.
Entre estes últimos, devem colocar-se em posição de destaque todos os que militam pela causa com coragem, perseverança, abnegação e desinteresse, sem segunda intenção pessoal, que buscam o triunfo da doutrina pela doutrina, e não pela satisfação de seu amor-próprio; enfim, aqueles que, por seu exemplo, provam que a moral espírita não é uma palavra vã, e se esforçam por justificar esta notável afirmação de um incrédulo:
Com uma tal doutrina, não se pode ser espírita sem ser homem de bem.
Não há centro espírita onde eu não tenha encontrado um número mais ou menos grande desses pioneiros da obra, desses arroteadores de terreno, desses lutadores infatigáveis que, sustentados por uma fé sincera e esclarecida, pela consciência de cumprir um dever, não desanimam ante nenhuma dificuldade, encarando seu devotamento como dívida de reconhecimento pelos benefícios morais que receberam do Espiritismo. É justo fiquem perdidos para os nossos descendentes os nomes daqueles de que se honra a doutrina e que um dia não possam ser inscritos no panteão espírita?
Infelizmente, ao lado destes por vezes se acham pessoas de má índole, os impacientes da causa, que, não calculando o alcance de suas palavras e de seus atos, podem comprometê-la; os que, por zelo irrefletido, por ideias intempestivas e prematuras, sem o querer fornecem armas aos nossos adversários. Depois vêm aqueles que, não considerando o Espiritismo senão pela superfície, sem serem tocados no coração, por seu próprio exemplo dão uma falsa ideia de seus resultados e de suas tendências morais.
Eis aí, sem sombra de dúvida, o maior escolho com que se deparam os sinceros propagadores da doutrina, pois muitas vezes veem a obra, que tão penosamente esboçaram, desfeita justamente por aqueles que os deveriam secundar. Está provado que o Espiritismo é mais entravado pelos que o compreendem mal do que pelos que não o compreendem absolutamente, e, mesmo, pelos inimigos declarados. E é de notar que os que o compreendem mal geralmente têm a pretensão de o compreender melhor que os outros; e não é raro ver neófitos que, ao cabo de alguns meses, pretendem dar lições àqueles que adquiriram experiência em estudos sérios. Tal pretensão, que denuncia o orgulho, é uma prova evidente da ignorância dos verdadeiros princípios da doutrina.
Contudo, que os espíritas sinceros não desanimem: é o resultado do momento de transição por que vivemos. As ideias novas não podem estabelecer-se de repente e sem obstáculos; como lhes é preciso varrer as ideias antigas, forçosamente encontram adversários que as combatem e as repelem, sem falar nas criaturas que as tomam em sentido contrário, que as exageram ou desejam acomodá-las a seus gostos e opiniões pessoais. Mas chega o momento em que as ideias contraditórias caem por si mesmas, uma vez conhecidos e compreendidos os verdadeiros princípios pela maioria. Já vedes o que sucedeu com todos os sistemas isolados, surgidos na origem do Espiritismo; todos caíram ante a observação mais rigorosa dos fatos, ou só ainda encontram alguns desses partidários tenazes que, em tudo, se aferram às suas ideias primitivas, sem darem um passo à frente. A unidade se fez na crença espírita com muito mais rapidez do que se esperava. É que os Espíritos, em todos os pontos, vieram confirmar os princípios verdadeiros, de sorte que hoje, entre os adeptos do mundo inteiro, há uma opinião predominante que, se ainda não goza da unanimidade absoluta, é, incontestavelmente, a da imensa maioria.
Donde se segue que aquele que quiser marchar na contramão desta opinião, encontrando pouco ou nenhum eco, condena-se ao isolamento. Aí está a experiência para o demonstrar.
Para remediar o inconveniente que acabo de assinalar, isto é, para prevenir as consequências da ignorância e das falsas interpretações, é preciso maior empenho na vulgarização das ideias justas e na formação de adeptos esclarecidos, cujo número crescente neutralizará a influência das ideias errôneas.
Minhas visitas aos centros espíritas, naturalmente, têm por objetivo principal auxiliar os nossos irmãos em crença em suas tarefas. Assim, eu as aproveito para lhes dar instruções que possam necessitar, como desenvolvimento teórico ou aplicação prática da doutrina, tanto quanto me é possível fazê-lo. Como é sério o fim dessas visitas, e exclusivamente no interesse da doutrina, não busco ovações, que nem são do meu gosto, nem do meu caráter. Minha maior satisfação é encontrar-me com amigos sinceros, devotados, com os quais nos podemos entreter sem constrangimento e esclarecer-nos mutuamente, por uma discussão amistosa, em que cada um traz o contributo de suas próprias observações.
Nessas excursões não vou pregar aos incrédulos; jamais convoco o público para catequizá-lo, pois não vou fazer propaganda; só compareço a reuniões de adeptos nas quais meus conselhos são desejados e possam ser úteis; eu os dou de bom grado aos que julgam deles necessitar; abstenho-me de dá-los aos que se julgam bastante esclarecidos para os dispensar. Numa palavra, só me dirijo aos homens de boa vontade.
Se, excepcionalmente, se insinuassem nessas reuniões pessoas atraídas somente pela curiosidade, ficariam desapontadas, porquanto aí nada encontrariam que as pudesse satisfazer; e, caso estivessem animadas de sentimento hostil ou desabonador, o caráter eminentemente grave, sincero e moral da assembleia e dos assuntos nela tratados tiraria qualquer pretexto plausível para a sua malevolência. Tais são os pensamentos que exprimo nas diversas reuniões às quais sou chamado para assistir, a fim de que não se equivoquem quanto às minhas intenções.
Afirmei no início que eu não era senão o representante da doutrina. Algumas explicações sobre o seu verdadeiro caráter naturalmente chamarão vossa atenção para um ponto essencial que, até agora, não foi considerado suficientemente. Na verdade, vendo a rapidez dos progressos desta doutrina, haveria mais glória em dizer-me seu criador; meu amor-próprio aí encontraria o seu salário; mas não devo fazer minha parte maior do que ela é; longe de o lamentar, eu me felicito, porque, então, a doutrina não passaria de uma concepção individual, que poderia ser mais ou menos justa, mais ou menos engenhosa, mas que, por isso mesmo, perderia sua autoridade. Poderia ter partidários, talvez fizesse escola, como muitas outras, mas certamente não teria adquirido, em alguns anos, o caráter de universalidade que a distingue.
Eis um fato capital, senhores, que deve ser proclamado bem alto. Não, o Espiritismo não é uma concepção individual, um produto da imaginação; não é uma teoria, um sistema inventado para a necessidade de uma causa; tem sua fonte nos fatos da própria Natureza, em fatos positivos, que se produzem a cada instante sob os nossos olhos, mas cuja origem não se suspeitava. É, pois, resultado da observação; numa palavra, uma ciência: a ciência das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; ciência ainda imperfeita, mas que se completa todos os dias por novos estudos e que, tende certeza, ocupará o seu lugar ao lado das ciências positivas. Digo positivas, porque toda ciência que repousa sobre fatos é uma ciência positiva, e não puramente especulativa.
O Espiritismo nada inventou, porque não se inventa o que está na Natureza. Newton não inventou a lei da gravitação; esta lei universal existia antes dele. Cada um a aplicava e lhe sentia os efeitos, embora não a conhecessem.
O Espiritismo, por sua vez, vem mostrar uma nova lei, uma nova força da Natureza: a que reside na ação do Espírito sobre a matéria, lei tão universal quanto a da gravitação e da eletricidade, conquanto ainda desconhecida e negada por certas pessoas, como o foram todas as outras leis na época de suas descobertas. É que os homens geralmente têm dificuldade em renunciar às suas ideias preconcebidas e, por amor-próprio, custa-lhes reconhecer que estavam enganados, ou que outros tenham podido encontrar o que eles mesmos não encontraram.
Mas, afinal, como esta lei repousa sobre fatos, e contra os fatos não há negação que possa prevalecer, terão de render-se à evidência, como os mais recalcitrantes o fizeram quanto ao movimento da Terra, a formação do globo e os efeitos do vapor.
Por mais que acusem os fenômenos de ridículos, não podem impedir a existência daquilo que é.
Assim, o Espiritismo procurou a explicação dos fenômenos de uma certa ordem e que, em todos os tempos, se produziram de maneira espontânea. Mas, sobretudo, o que o favoreceu nessas pesquisas é que lhe foi dado, até certo ponto, o poder de produzi-los e de provocá-los. Encontrou nos médiuns instrumentos adequados a tal efeito, como o físico encontrou na pilha e na máquina elétrica os meios de reproduzir os efeitos do raio. É fácil compreender que isto não passa de uma comparação; não pretendo estabelecer uma analogia.
Mas há aqui uma consideração de alta importância: é que, em suas pesquisas, ele não procedeu por via de hipóteses, como o acusam; não supôs a existência do mundo espiritual para explicar os fenômenos que tinha sob as vistas; procedeu por meio da análise e da observação; dos fatos remontou à causa e o elemento espiritual se lhe apresentou como força ativa; só o proclamou depois de havê-lo constatado.
Como força e como lei da Natureza, a ação do elemento espiritual abre, assim, novos horizontes à Ciência, dando-lhe a chave de uma imensidão de problemas incompreendidos. Mas, se a descoberta de leis puramente materiais produziu revoluções materiais no mundo, a do elemento espiritual nele prepara uma revolução moral, pois muda totalmente o curso das ideias e das crenças mais arraigadas; mostra a vida sob outro aspecto; mata a superstição e o fanatismo; desenvolve o pensamento, e o homem, em vez de arrastar-se na matéria, de circunscrever sua vida entre o nascimento e a morte, eleva-se ao infinito; sabe donde vem e para onde vai; vê um objetivo para o seu trabalho, para os seus esforços, uma razão de ser para o bem; sabe que nada do que adquire na Terra, em saber e moralidade, lhe é perdido, e que seu progresso continua indefinidamente no além-túmulo; sabe que há sempre um futuro para si, sejam quais forem a insuficiência e a brevidade da existência presente, ao passo que a ideia materialista, circunscrevendo a vida à existência atual, dá-lhe como perspectiva o nada, que não tem por compensação sequer a duração, que ninguém pode aumentar à vontade, já que podemos cair amanhã, em uma hora, e então o fruto dos nossos labores, de nossas vigílias, dos conhecimentos adquiridos estarão para nós perdidos para sempre, muitas vezes sem termos tido tempo de desfrutá-los.
O Espiritismo, repito, ao demonstrar, não por hipótese, mas por fatos, a existência do mundo invisível e o futuro que nos aguarda, muda completamente o curso das ideias; dá ao homem a força moral, a coragem e a resignação, porque não mais trabalha apenas pelo presente, mas pelo futuro; sabe que se não gozar hoje, gozará amanhã. Demonstrando a ação do elemento espiritual sobre o mundo material, amplia o domínio da Ciência e, por isto mesmo, abre nova via ao progresso material. Então terá o homem uma base sólida para o estabelecimento da ordem moral na Terra; compreenderá melhor a solidariedade que existe entre os seres deste mundo, já que esta solidariedade se perpetua indefinidamente; a fraternidade deixa de ser palavra vã; ela mata o egoísmo, em vez de por ele ser morta e, muito naturalmente, o homem imbuído destas ideias a elas conformará suas leis e suas instituições sociais.
O Espiritismo conduz inevitavelmente a esta reforma.
Assim, pela força das coisas, realizar-se-á a revolução moral que deve transformar a Humanidade e mudar a face do mundo, e isto tão-só pelo conhecimento de uma nova lei da Natureza, que dá outro curso às ideias, uma finalidade a esta vida, um objetivo às aspirações do futuro, fazendo encarar as coisas de outro ponto de vista.
Se os detratores do Espiritismo – falo dos que militam pelo progresso social, dos escritores que pregam a emancipação dos povos, a liberdade, a fraternidade e a reforma dos abusos – conhecessem as verdadeiras tendências do Espiritismo, seu alcance e seus inevitáveis resultados, em vez de ridicularizá-lo, como fazem, de interpor incessantemente obstáculos no seu caminho, nele vissem a mais poderosa alavanca para chegar à destruição dos abusos que combatem, em vez de lhe serem hostis, o aclamariam como um socorro providencial. Infelizmente, na sua maioria, creem mais em si do que na Providência. Mas a alavanca age sem eles e a despeito deles, e a força irresistível do Espiritismo será tanto mais bem constatada quanto mais ele tiver de combater. Um dia dirão deles, o que não será para a sua glória, o que eles próprios dizem dos que combateram o movimento da Terra e dos que negaram a força do vapor. Todas as negações, todas as perseguições não impediram que estas leis naturais seguissem seu curso, assim como os sarcasmos da incredulidade não impedirão a ação do elemento espiritual, que é, também, uma lei da Natureza.
Considerado desta maneira, o Espiritismo perde o caráter de misticismo que lhe censuram os detratores, justamente aqueles que menos o conhecem. Não é mais a ciência do maravilhoso e do sobrenatural ressuscitada: é o domínio da natureza enriquecida por uma lei nova e fecunda, uma prova a mais do poder e da sabedoria do Criador; são, enfim, os limites recuados dos conhecimentos humanos.
Tal é, em resumo, senhores, o ponto de vista sob o qual se deve encarar o Espiritismo. Nesta circunstância, qual foi o meu papel? Nem o de inventor, nem o de criador. Vi, observei, estudei os fatos com cuidado e perseverança; coordenei-os e lhes deduzi as consequências: eis toda a parte que me cabe. Aquilo que fiz, outro poderia ter feito em meu lugar. Em tudo isto fui simples instrumento dos pontos de vista da Providência, e dou graças a Deus e aos Espíritos bons por se terem dignado servir-se de mim.
É uma tarefa que aceitei com alegria, e da qual me esforcei por tornar-me digno, pedindo a Deus me desse as forças necessárias para realizá-la segundo a sua santa vontade. No entanto, a tarefa é pesada, mais pesada do que possam imaginá-la; e se tem para mim algum mérito, é que tenho a consciência de não haver recuado perante nenhum obstáculo e nenhum sacrifício. Será a obra da minha vida até meu último dia, porque, na presença de um objetivo tão importante, todos os interesses materiais e pessoais se apagam como pontos diante do infinito.
Termino esta alocução, senhores, dirigindo sinceras felicitações aos nossos irmãos da Bélgica, presentes ou ausentes, cujo zelo, devotamento e perseverança contribuíram para a implantação do Espiritismo neste país. Estou convicto de que as sementes plantadas nos grandes centros de população, como Bruxelas, Antuérpia etc., não foram lançadas em solo estéril.




[1] Revista Espírita – Novembro/1864 – Allan Kardec

terça-feira, 11 de junho de 2019

Uma Lembrança de Existências Passadas[1]




Num artigo biográfico sobre Méry, publicado pelo Journal littéraire de 25 de setembro de 1864, encontra-se a seguinte passagem:
Há teorias singulares, que para ele são convicções.
Assim, ele crê firmemente que já viveu várias vezes; lembra-se das mínimas circunstâncias de suas existências precedentes e as detalha com entusiasmo, com uma certeza tal que impõe autoridade.
Assim, foi um dos amigos de Virgílio e de Horácio, conheceu Augusto Germânico, fez a guerra nas Gálias e na Germânia. Era general e comandava as linhas romanas quando estas atravessaram o Reno. Reconhecia nas montanhas lugares onde havia acampado, os vales de campos de batalha onde combateu. Lembra-se de conversas em casa de Mecenas, que são o terno objeto de seus pesares. Chamava-se Minius.
Um dia, na sua vida atual, estava em Roma e visitava a biblioteca do Vaticano. Foi recebido ali por jovens noviços, vestidos em longas roupas escuras, que se puseram a lhe falar no latim mais puro. Méry era bom latinista, no que tange à teoria e às coisas escritas, mas ainda não havia experimentado conversar familiarmente na língua de Juvenal. Ouvindo esses romanos de hoje, admirando esse magnífico idioma, tão bem harmonizado com os monumentos, com os costumes da época em que era usado, teve a impressão de que um véu lhe caía dos olhos; pareceu-lhe que ele próprio havia conversado, em outros tempos, com amigos que se serviam dessa linguagem divina. Frases feitas e impecáveis fluíam de seus lábios; encontrou imediatamente a elegância e a correção; enfim, falou latim como fala francês; teve em latim o espírito que tem em francês. Nada disso se podia fazer sem aprendizagem e, se não tivesse sido um súdito de Augusto, se não tivesse atravessado aquele século de todos os esplendores, não teria improvisado uma ciência, impossível de adquirir em algumas horas.
Outra passagem sua na Terra foi nas Índias, razão por que as conhece bem. Por isso, quando publicou a Guerre du Nizam, nenhum de seus leitores terá duvidado que ele não tivesse morado muito tempo na Ásia. Suas descrições são vivas, seus quadros são originais, toca com o dedo detalhes tais que é impossível não tenha visto o que conta, pois aí está o cunho da verdade.
Pretende ter entrado naquele país com uma expedição muçulmana, em 1035. Lá viveu cinquenta anos, passou belos dias e ali se fixou para não mais sair. Era poeta, mas menos letrado que em Roma e em Paris. A princípio guerreiro, depois sonhador, guardou na alma as imagens impressionantes das margens do rio sagrado e dos ritos hindus. Tinha várias moradas, na cidade e no campo, orou nos templos dos elefantes, conheceu a civilização avançada de Java, viu de pé as esplêndidas ruínas que assinala e que ainda se conhece tão pouco.
É preciso ouvi-lo contar esses poemas, pois são verdadeiros poemas essas lembranças à maneira de Swedenborg.
Ele é muito sério, não o duvideis. Não é uma mistificação arranjada à custa dos ouvintes, mas uma realidade de que ele consegue convencer-vos.
E suas doutrinas sobre a História, que possui admiravelmente! E suas anedotas tão finas, que projetam nova luz sobre tudo quanto tocam! E seus relatos, que são romances, que quase nos fazem chorar, depois de não termos podido conter o riso! Tudo isto faz de Méry um dos homens mais maravilhosos dos tempos em que viveu e, mesmo, daqueles em que sua alma errante aguardava sua vez para entrar num corpo e novamente fazer que dela falassem as gerações sucessivas.
Pierre Dangeau

O autor do artigo não acompanha este fato de nenhuma reflexão. Depois de ter exaltado o alto mérito de Méry e sua grande inteligência, foi inconsequente ao taxá-lo de louco. Se, pois, Méry é um homem de bom-senso, de alto valor intelectual; se a crença de já ter vivido é nele uma convicção; se essa convicção não é produto de um sistema de sua maneira de ver, mas o resultado de uma lembrança retrospectiva e de um fato material, a coisa não é de chamar a atenção de todo homem sério? Vejamos a que consequências incalculáveis este simples fato nos conduz.
Se Méry já viveu, isto não deve constituir uma exceção, porquanto as leis da Natureza são as mesmas para todos e, assim, todos os homens também devem ter vivido; se já vivemos, por certo não é o corpo que renasce, mas o princípio inteligente, a alma, o Espírito. Temos, pois, uma alma. Uma vez que Méry conservou a lembrança de várias existências, e desde que os lugares lhe recordam o que viu outrora, com a morte do corpo a alma não se perde no todo universal; conserva, pois, a sua individualidade, a consciência do seu eu.
Lembrando-se Méry do que foi a dois mil anos, em que se tornou sua alma no intervalo? Precipitou-se no oceano do infinito ou se perdeu nas profundezas do espaço? Não; sem isto ela não reencontraria sua individualidade de outrora. Então deve ter ficado na esfera da atividade terrestre, vivendo a vida espiritual, em nosso meio ou no espaço que nos rodeia, até retomar um novo corpo. Não sendo Méry único no mundo, deve haver em torno de nós uma população inteligente, invisível.
Renascendo para a vida corporal, depois de um intervalo mais ou menos longo, a alma renasce no estado primitivo? Como alma nova? Ou aproveita as ideias adquiridas em suas existências anteriores? A lembrança retrospectiva resolve a questão por um fato: Se Méry tivesse perdido as ideias adquiridas, não teria reconhecido a língua que falava outrora; a visão dos lugares nada lhe teria recordado.
Mas se já vivemos, por que não reviveríamos ainda? Por que esta existência seria a última? Se renascemos com o desenvolvimento intelectual realizado, a intuição que trazemos das ideias adquiridas é um fundo que ajuda a aquisição de novas ideias, que torna o estudo mais fácil. Se, numa existência, o homem for apenas um matemático pela metade, precisará de menos trabalho para ser um matemático completo. É uma consequência lógica. Se se tornou mais ou menos bom, se se corrigiu de alguns defeitos, terá menos dificuldade para tornar-se ainda melhor, e assim por diante.
Nada do que adquirimos em inteligência, em saber e em moralidade fica perdido; quer morramos jovens ou velhos, quer tenhamos ou não tempo de aproveitá-lo na existência presente, colheremos os seus frutos em existências subsequentes. As almas que animam os franceses civilizados de hoje podem, então, ser as mesmas que animavam os bárbaros francos, ostrogodos, visigodos, os gauleses selvagens, os conquistadores romanos, os fanáticos da Idade Média, mas que, a cada existência, deram um passo à frente, apoiadas nos passos precedentes, e que progredirão ainda. Eis, pois, resolvido o grande problema da Humanidade, contra o qual se chocaram tantos filósofos! Está resolvido pelo simples fato da pluralidade das existências. Mas quantos problemas hão de encontrar a sua solução na solução deste! Que horizontes novos isto não abre! É toda uma revolução nas crenças e nas ideias.
Assim raciocinará o pensador sério, o homem refletido.
Um fato é um ponto de partida, do qual tira consequências. Ora, quais são os pensamentos que o caso de Méry desperta no autor do artigo? Ele próprio os resume nestas palavras: “Há teorias singulares, que para ele são convicções.”
Mas se esse autor vê em tudo isto apenas uma coisa bizarra, pouco digna de sua atenção, não se dá o mesmo com todo o mundo. Alguém encontra em seu caminho um diamante bruto que, por lhe desconhecer o valor, não se digna apanhar, enquanto outra pessoa saberá apreciá-lo e tirar proveito.
Hoje as ideias espíritas se produzem sob todas as formas; estão na ordem do dia e, sem querer confessá-las, a imprensa as registra e as semeia em profusão, crendo que apenas enriquece suas colunas de facécias. Não é impressionante que todos os adversários da ideia, sem exceção, trabalhem sem trégua para a sua propagação? Gostariam de falar o que a força das coisas os arrasta a falar. Assim o quer a Providência – para os que creem na Providência.
Dirão que raciocinamos sobre um fato isolado, incapaz de fazer lei, porquanto, se a pluralidade das existências fosse uma condição inerente à Humanidade, por que nem todos os homens se recordam, como Méry? A isto respondemos: Dai-vos ao trabalho de estudar o Espiritismo e o sabereis. Não repetiremos, pois, o que cem vezes foi demonstrado em relação à inutilidade da lembrança, para aproveitar a experiência adquirida nas existências precedentes e o perigo dessa lembrança para as relações sociais.
Mas há outra causa para esse esquecimento, de certo modo fisiológica, devida, ao mesmo tempo, à materialidade do nosso envoltório e à identificação do nosso Espírito pouco adiantado com a matéria. À medida que o Espírito se depura, os laços materiais são menos tenazes, o véu que obscurece o passado menos opaco; assim, a faculdade da lembrança retrospectiva segue o desenvolvimento do Espírito. O fato é raro em nossa Terra, porque a Humanidade ainda é muito material; mas seria erro supor que Méry seja um exemplo único. De vez em quando Deus permite que um Méry se apresente, a fim de trazer aos homens o conhecimento da grande lei da pluralidade das existências, a única que explica a origem de suas qualidades boas ou más, mostra-lhe a justiça das misérias que aqui suporta e lhe traça a rota do futuro.
A inutilidade da lembrança para aproveitar o passado é o que custam mais a compreender os que não estudaram o Espiritismo; para os espíritas é uma questão elementar. Sem repetir o que já foi dito a respeito, a seguinte comparação poderá facilitar o seu entendimento.
O aluno percorre a série de classes, desde a oitava até a filosofia. O que aprendeu na oitava lhe serve para aprender o que ensinam na sétima. Suponhamos agora que no fim da oitava tenha perdido toda a lembrança do tempo passado nesta classe; nem por isto seu Espírito será menos desenvolvido e dotado de conhecimentos adquiridos; apenas não se lembrará nem onde nem como os adquiriu, mas, em face do progresso realizado, estará apto a aproveitar as lições da sétima. Imaginemos, ainda, que na oitava tenha sido preguiçoso, colérico, indócil, mas que, tendo sido castigado e moralizado, seu caráter se tenha modificado, tornando-se laborioso, doce e obediente; levará essas qualidades para a nova classe, que lhe parecerá ser a primeira. De que lhe serviria saber que foi fustigado pela preguiça, se agora já não é preguiçoso? O essencial é que chegue na sétima melhor e mais capaz do que era na oitava. Assim será de classe em classe.
Pois bem! O que não acontece ao escolar, nem ao homem nos diferentes períodos de sua vida, existe para ele de uma existência a outra: eis toda a diferença; mas o resultado é exatamente o mesmo, embora em maior escala. [Vide mais um exemplo em “Lembrança de uma Existência Anterior”, publicada neste blog em 17/10/2017]




[1] Revista Espírita – Novembro/1864 – Allan Kardec

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Robert Dale Owen[1]




Robert Dale Owen nasceu em 7 de novembro de 1801, em Glasgow na Escócia, e desencarnou em 24 de junho de 1877, Lake George, Nova York, EUA.
Dale Owen era filho do socialista galês Robert Owen (1771-1858), um reformador social de grande renome, que se devotou à educação da juventude, à melhoria das condições de vida dos pobres e é considerado o pai do movimento de cooperativas.
Dale Owen emigrou para os Estados Unidos em 1825 e ajudou seu pai a criar uma comunidade ‒ New Harmony ‒ em Indiana, organizada segundo seus ideais socialistas. O empreendimento não teve sucesso e, após um breve período na Europa, Dale Owen se estabeleceu em Nova Iorque onde dirigiu o jornal "Free Enquirer" (1828-1832).
Em 1833 ele retornou para Indiana e a partir de 1835 começou sua atuação política pelo partido Democrata. A relação apresentada pelo Diretório Biográfico do Congresso Americano dá uma ideia da carreira política de Dale Owen:
- Indiana House of representatives 1835-1838 (o equivalente a deputado estadual);
- Deputado pelo partido Democrata no Congresso Americano (March 4, 1843-March 3, 1847);
- Indiana Constitutional Convention (equivalente a uma assembleia constituinte estadual) em 1850;
- Indiana House of representatives em 1851;
- Embaixador dos Estados Unidos em Nápoles (na época capital do Reino das Duas Sicilias) de 1853 a 1858.
Dedicou-se ao Estudo do Espiritismo visando provar a seu pai o grave erro em que ele incorria ao se interessar pelos fenômenos supranormais. E o resultado de suas investigações foi render-se à evidência dos fatos por ele verificados.
Robert Dale Owen devotou sua vida a expansão dos Postulados da Doutrina Espírita dentro dos Estados Unidos, e como um espiritualista convicto e de grande integridade.
No inicio de janeiro de 1875 ele escreveu um artigo para o jornal Atlantic Monthly sobre as sessões de materialização do espírito Katie King (famoso pelos estudos realizados entre 1871 e 1874 pelo cientista inglês Willian Crookes com o auxílio da médium Florence Cook).
Publicou várias obras nas quais declara sua convicção na sobrevivência do espírito após a morte do corpo físico e a mais importante foi o livro intitulado “Região em Litígio Entre este Mundo e o Outro”, publicado na Filadélfia, em 1877.