quarta-feira, 19 de abril de 2017

A Obsessão e a Força do Pensamento[1]


Dra. Marlene Nobre - Associação Médico-Espírita do Brasil


Certa vez, conversando com o médium Francisco Cândido Xavier sobre revelações espirituais e Ciência, ouvi suas lúcidas ponderações sobre o tema e guardei especialmente a conclusão: “A Fé abre uma picada, a Ciência passa por cima e constrói uma estrada”.
Mais tarde, deparei-me com um pensamento semelhante em Agostinho: “A fé procura, o intelecto encontra”, a propósito de um comentário do Santo a Isaías, VII : 9: “Se não crerdes não entendereis”.
Em meu livro A Obsessão e suas Máscaras, tomei como diretriz básica essas mesmas ideias. Nele, parto da revelação espiritual, procurando dissecar os ensinamentos dos espíritos na obra de André Luiz. Tento organizar esse extraordinário filão de informações e proponho aos pesquisadores e estudiosos o desenvolvimento de investigações e trabalhos práticos sobre o assunto. Procuro, assim, contribuir, embora reconheça a forma singela desse tentame, para que a Ciência avance nessa direção, uma vez que a obsessão é um dos piores flagelos da humanidade. Neste trabalho, aqui apresentado, seguimos a mesma orientação.
Convidada a resumir os assuntos do meu livro, apresento, nestas páginas, algo da primeira parte do mesmo, visando, sobretudo, ressaltar a tentativa de classificação das obsessões e suas psicopatologias.
Um dos ilustres precursores da Psiquiatria Iluminada, Dr. Inácio Ferreira, responsável pelo Sanatório Espírita de Uberaba, instituição à qual dedicou mais de 50 anos de sua existência física, aplicou, habitualmente, a medicina da alma, aliando o tratamento médico ao espiritual, contando, para esse árduo trabalho, com médiuns valorosos e abnegados. E os resultados foram surpreendentes, com enorme sucesso terapêutico onde outros falharam.
Convicto da interferência da humanidade desencarnada na existência humana, o Dr. Ferreira ressaltou que os médicos “precisam desviar-se um pouco de suas investigações da matéria, lançando-se ao estudo e às experimentações no campo espiritual”. E, antevendo o futuro, enfatizou: “Precisam compreender e chegarão a essa compreensão, quer queiram, quer não, que 70% dessas tragédias que se desenrolam na Humanidade, produzindo esses desequilíbrios mentais, são consequências de atuações psíquicas partidas do mundo invisível aos nossos olhos materializados, porém, percebidas e sentidas pelos médiuns, criaturas possuidoras de um sexto sentido”.
Kardec referiu-se à obsessão como sendo “o domínio que alguns Espíritos logram adquirir sobre certas pessoas”. Embora a tivesse classificado em obsessão simples, fascinação e subjugação, reconheceu que esse estado patológico “apresenta caracteres muito diferentes, que vão desde a simples influência moral, sem perceptíveis sinais exteriores, até a perturbação completa do organismo e das faculdades mentais”.
Na obra de André Luiz encontramos detalhados, praticamente, todos esses caracteres diferentes da obsessão. Segundo a revelação de Emmanuel, na erraticidade existem mais de 20 bilhões de espíritos, errantes e conscientes, gravitando em torno da Terra, sendo que a maioria deles está a espera de novas existências para dar prosseguimento à luta evolutiva. Desses postulantes à reencarnação, três quarto são espíritos imperfeitos, afeiçoados ainda ao egoísmo destruidor, daí a grande heterogeneidade e as características de atraso e imperfeição do mundo em que vivemos.
Tendo em vista que “a influência dos espíritos é de todos os instantes e, mesmos os que não creem neles, estão sujeitos a sofrê-la” é possível ter uma ideia do grau de pressão e o tipo de influência que essas três quartas partes exercem sobre a humanidade encarnada.
“Fora erro acreditar alguém que precisa ser médium, para atrair a si os seres do mundo invisível. Eles povoam o espaço; temo-los incessantemente em torno de nós, investindo em nossas reuniões, seguindo-nos ou evitando-nos, conforme os atraímos ou repelimos”, ressalta Kardec.
Neste século, o espírito Marilyn Monroe chamou a atenção para esse perigo. Em entrevista a Humberto de Campos, notável escritor brasileiro desencarnado, realizada no Memorial Park Cemetery, em Hollywood, e transmitida a Francisco Cândido Xavier, a famosa estrela confessou-se vampirizada por inimigos desencarnados e classificou a obsessão como um dos piores flagelos da humanidade.
A psicóloga Edith Fiore também ressalta esse tipo de ação, afirmando que essa influência “na vida e no comportamento dos hospedeiros desacautelados é sempre negativa e, às vezes, fatal”.
É preciso destacar os dois tipos básicos de obsessão: as de natureza anímica, ocasionadas pelos próprios espíritos encarnados, e as de natureza mediúnica, provocadas pelos desencarnados.
As obsessões de natureza anímica procedem da capacidade de comunicação dos espíritos encarnados, de se desprenderem dos sentidos físicos, atuando como almas relativamente livres.
As mediúnicas (espiríticas) são as obsessões propriamente ditas e são ocasionadas pelos espíritos desencarnados.
No rastreamento da obra de André Luiz e de alguns outros livros de Chico Xavier, foi possível detectar diferentes aspectos das obsessões anímicas, classificando-as em dois grandes grupos.
Efeitos Inteligentes: Obsessão telepática; auto-obsessão; personalidade antiga cristalizada (fixação mental); possessão partilhada (parceiros no vício);
Efeitos Físicos: Casos de Poltergeist, referidos, mas não detalhados na série. Como esse tipo está também presente nas obsessões mediúnicas, vamos analisá-la, ao final, após ter detalhado os tipos de obsessões mediúnicas de efeitos inteligentes.
As obsessões mediúnicas apresentam-se sob várias modalidades, partindo dos dois grandes grupos: de Efeitos Inteligentes e de Efeitos Físicos.
Efeitos Inteligentes: Simbioses em graus diversos; Parasitose mental ou vampirismo, com mecanismos e graus diversos de atuação: infecções fluídicas, fixação mental (monoideísmo), psicopatologias do corpo espiritual (perispírito), como parasitas ovoides, deformidades e zoantropia (licantropia); Vampirismo com repercussões orgânicas: possessão, epilepsia, neuroses etc.. Sintonia: prevalência do mecanismo hipnótico, como na fascinação (canalização com dominação telepática); obsessão oculta (obsessão durante o sono físico) e obsessão coletiva. Encontramos, ainda, nesta classificação, os pensamentos sonorizados (mecanismos semelhante à radiofonia e televisão) e as alergias com origem obsessiva.
Efeitos Físicos: Poltergeist, referidos na obra, mas não detalhados. Há casos de Poltergeist que expressam o predomínio da ação dos encarnados, responsáveis pelo aliciamento de espíritos inferiores no processo obsessivo; em outros, a predominância na ação é dos desencarnados.
Em todos esses casos temos de considerar a utilização negativa dessa força que é o ectoplasma.
Hermani Guimarães Andrade, um dos maiores pesquisadores de Poltergeist do mundo, pôde constatar na maioria dos casos investigados, essa interferência física negativa, que se inicia, quase sempre, sob o comando de encarnados que se acumpliciam com os desencarnados, no intuito de prejudicar a vida de algumas pessoas ou de famílias inteiras.
Obsessão Telepática
Como vimos, fenômenos anímicos são aqueles produzidos pela alma do homem encarnado. Aksakof descreve os quatro tipos de ação extracorpórea do homem vivo:
1) aqueles que comportam efeitos psíquicos (telepatia, impressões transmitidas a distância);
2) os de efeitos físicos (fenômenos telecinéticos, transmissão de movimento à distância);
3) os que determinam o aparecimento de sua imagem (aparecimento de duplos);
4) aqueles em que há o aparecimento de sua imagem com certos atributos de corporeidade (ele é visto em dois lugares ao mesmo tempo).
Temos, assim, muitas ocorrências que podem resultar nos fenômenos mediúnicos de efeitos físicos ou de efeitos intelectuais, com a própria inteligência encarnada comandando manifestações ou delas participando com diligência, numa demonstração de que o corpo espiritual pode efetivamente desdobrar-se e atuar com os seus recursos e implementos característicos, como consciência pensante e organizadora, fora do corpo físico.
Essa capacidade de sair fora do corpo e atuar como espírito livre também pode ser empregada em condutas patológicas. Nesse caso, estamos diante da obsessão anímica, a influência negativa de almas encarnadas entre si.
Uma dessas modalidades é a obsessão anímica telepática, que se traduz pela guerra de pensamentos, “assumindo as mais diversas formas de angústia e repulsão”. E é muito mais comum do que podemos imaginar.
John Herenwald descreve os casos de sua clínica psicanalítica referentes à obsessão telepática. Um deles é o de um rapaz rejeitado por companheiros de pensão. O detalhe importante é que essa rejeição não era fácil de ser detectada porque tinha caráter oculto, pois todos fingiam apreciá-lo. Com o afastamento do paciente do local, a mudança de ambiente fez com que os sintomas obsessivos desaparecessem, gradualmente, na proporção em que os “amigos” o esqueciam.
Refere-se André Luiz a um caso de dominação telepática em Nos Domínios da Mediunidade. O casal janta na companhia das três filhas. O marido está alheio à conversação que se faz animada em torno da mesa, mantém ar de enfado, olhar distante. Após ler os jornais, prepara-se para sair. A mulher fica decepcionada, esperava que ele ficasse para as preces que fariam em conjunto, logo mais. Nesse momento, surge em cena à frente dos olhos do marido, uma surpreendente imagem de mulher projetada sobre ele à distância, aparecendo e desaparecendo, com intermitências. Apressado, ele despede-se e sai, alegando negócios e compromissos. A esposa não acredita e intui que os compromissos sejam com outra mulher. À medida que a dona da casa a identifica mentalmente e passa a produzir pensamentos hostis em relação a ela, a mesma imagem de mulher que aparecera para o marido começa a surgir à sua frente, até se tornar inteiramente presente. Ambas entram em franca contenda mental, trocando mútuas acusações como autênticas inimigas.
Nesses casos de influência telepática, o fenômeno está relacionado com a sintonia.
O assistente Áulus adverte: “Muitos processos de alienação mental guardam nele as origens. Muita vezes, dentro do mesmo lar, da mesma família ou da mesma instituição, adversários ferrenhos do passado se reencontram. Chamados pela Esfera Superior ao reajuste, raramente conseguem superar a aversão de que se veem possuídos, uns à frente dos outros, e alimentam com paixão, no imo de si mesmos, os raios tóxicos da antipatia que, concentrados, se transformam em venenos magnéticos, suscetíveis de provocar a enfermidade e a morte. Para isso, não será necessário que a perseguição recíproca se expresse em contendas visíveis. Bastam as vibrações silenciosas de crueldade e despeito, ódio e ciúme, violência e desespero, as quais, alimentadas, de parte a parte, constituem corrosivos destruidores”.
Milhões de lares podem ser comparados a trincheiras de lutas, em que pensamentos guerreiam pensamentos com angústia e repulsão.
Em Obreiros da Vida Eterna, o assistente Barcelos, benfeitor espiritual também ligado à psiquiatria iluminada, traz, do mesmo modo, importantes ponderações sobre a influência de encarnados entre si. Refere-se às obsessões do plano espiritual que passam para a existência terrestre e são vivenciadas dentro dos lares: “Os antagonismos domésticos, os temperamentos aparentemente irreconciliáveis entre pais e filhos, esposos e esposas, parentes e irmãos, resultam dos choques sucessivos da subconsciência, conduzida a recapitulações retificadoras do pretérito distante. Congregados de novo, na luta expiatória ou reparadora, as personagens dos dramas que se foram, passam a sentir e ver, na tela mental, dentro de si mesmas, situações complicadas escabrosas de outra época, malgrado os contornos obscuros da reminiscência, carregando consigo fardos pesados de incompreensão, atualmente definidos por ‘complexos de inferioridade’”.
Barcelos ressalta ainda que o encarnado, nessas condições, é um forte candidato à loucura, porque não sabe explicar as recordações imprecisas que brotam do passado no presente e não conta também com o auxílio de psiquiatrias e neurologistas, muito presos ainda às convenções da medicina ortodoxa. Segundo crê, falta-lhes a água viva da compreensão e a luz mental que lhes revela a estrada da paciência e da tolerância, em favor da redenção própria.
E pode haver ainda um agravante. Como reconhece Aksakof: “Nos fatos da telepatia é frequentemente difícil precisar o momento no qual o fato anímico se torna um fato mediúnico”. Daí, observarmos, muitas vezes, nos casos de obsessão telepática, a participação de desencarnados de condição inferior, agravando de muito o quadro patológico inicial.
O PENSAMENTO NO UNIVERSO
Emmanuel, no prefácio do livro Mediunidade e Sintonia, dá um outro enfoque para o ditado popular “Dize-me com quem andas que te direi quem tu és”.
O mentor de Chico Xavier lembra que os nossos pensamentos ditam nossa conduta e que, de acordo com nossa conduta, amealhamos companhias, através das quais somos conhecidos, principalmente por observadores do mundo espiritual.
Para a doutrina espírita, o estudo do pensamento é fundamental. Pensar é criar, portanto, o ato de pensar está relacionado diretamente à nossa origem espiritual.
Fomos criados à imagem e semelhança de Deus, com a capacidade de interferir em sua obra. Como bem lembrou o físico William Barret, “A criação não é mais do que o pensamento divino exteriorizado, e desse atributo divino nós partilhamos muito limitadamente, como parcelas da inteligência infinita”.
André Luiz sustenta a mesma ideia: “Nos fundamentos da criação vibra o pensamento imensurável do Criador e sobre esse pensamento divino vibra o pensamento mensurável da criatura, a constituir-se no vasto oceano de força mental em que os poderes do espírito se manifestam”.
O hausto do Todo Sábio banha tudo quanto existe e nós, com nossa força mental deficitária, somos capazes de influir positiva ou negativamente, ainda que de forma restrita, nesse vasto oceano de energias desconhecidas.
Em 1968, formulou-se a Teoria das Supercordas (String Theory) na tentativa de unificação da física quântica e gravitacional, entreabrindo-se a possibilidade de existência de infinitas dimensões no universo.
Entre as cordas, a estável corresponderia ao elemento primordial, conceito muito próximo do fluido cósmico primitivo revelado pelos espíritos a Kardec, ou do plasma divino na designação atualizada de André Luiz.
Na década de 1980, Andrei Linde, astrofísico russo radicado nos Estados Unidos, formulando a Teoria dos Universos Inflacionários, utilizou o conceito de sopa de plasma para indicar o elemento do qual o universo é formado, aquele estado “onde não existem átomos, nem elétrons, nem galáxias”.
Temos, assim, a possibilidade de co-criar, moldando o fluido cósmico universal, ou plasma divino, através da força mental inerente ao nosso espírito. Realizamos esse processo através das ideoplastias.
Para o médico e pesquisador Gustave Geley, ideoplastia é a “moldagem da matéria viva, feita pela ideia”. E André Luiz define com clareza: “A ideia é um ‘ser’ organizado por nosso espírito, a que o pensamento da forma e ao qual a vontade imprime movimento e direção”. Assim, através desses “seres” produzidos por nós mesmos, coagulados a partir dos nossos pensamentos, influímos nesse vasto oceano de forças que nos rodeiam.
Desse modo, nossas ideias exteriorizadas criam imagens tão vivas quanto desejamos. Como nossas ações são frutos de nossas ideias, geramos a felicidade ou a desventura para nós mesmos. O encarnado pode, assim, ser perseguido por si mesmo, devido às suas próprias criações mentais. No livro Libertação, André Luiz refere-se a dois casos de auto-obsessão. Um deles é o do investigador de polícia que abusou de sua posição para humilhar e ferir e encontrou, na terceira idade, o resultado de suas próprias ações negativas, apresentando-se na condição de perseguido por si mesmo. Com a senectude corporal, o remorso abriu-lhe grande brecha na fortaleza mental, passando, então, a ser atormentado pelo que fez e pelo que tem sido. Com isso, houve o fortalecimento do parasitismo ovoide, em um processo de vampirismo espiritual.
O outro caso é o de um escritor atormentado pelas próprias criações mentais negativas e destrutivas que criou em seus livros. Os personagens voltam, sob a forma de ideoplastias ou formas-pensamento, para atormentá-lo. Esse processo se dá no mundo espiritual ou durante a encarnação, especialmente na fase da senectude, quando a alma do escritor se torna mais vulnerável.
Em ambos os casos, só com extrema modificação mental e persistente reforma íntima é que cada protagonista conseguirá curar-se de sua psicopatologia.
Aprendemos com os benfeitores espirituais que a maldade deliberada é moléstia da alma e a modificação no plano mental das criaturas jamais pode ser imposta; é, antes, fruto do tempo, do esforço e da evolução.




terça-feira, 18 de abril de 2017

Deve-se publicar tudo quanto dizem os Espíritos?[1]

 

Esta questão nos foi dirigida por um de nossos correspondentes e a ela respondemos por meio de outra pergunta:
Seria bom publicar tudo quanto dizem e pensam os homens?
Quem quer que possua uma noção do Espiritismo, por mais superficial que seja, sabe que o mundo invisível é composto de todos os que deixaram na Terra o envoltório visível. Entretanto, pelo fato de se haverem despojado do homem carnal, nem por isso os Espíritos se revestiram da túnica dos anjos. Encontramo-los de todos os graus de conhecimento e de ignorância, de moralidade e de imoralidade; eis o que não devemos perder de vista. Não esqueçamos que entre os Espíritos, assim como na Terra, há seres levianos, estouvados e zombeteiros; pseudo-sábios, vãos e orgulhosos, de um saber incompleto; hipócritas, malvados e, o que nos pareceria inexplicável, se de algum modo não conhecêssemos a fisiologia desse mundo, existem os sensuais, os ignóbeis e os devassos, que se arrastam na lama. Ao lado disto, tal como ocorre na Terra, temos seres bons, humanos, benevolentes, esclarecidos, de sublimes virtudes; como, porém, nosso mundo não se encontra nem na primeira, nem na última posição, embora mais vizinho da última que da primeira, resulta que o mundo dos Espíritos compreende seres mais avançados intelectual e moralmente que os nossos homens mais esclarecidos, e outros que ainda estão abaixo dos homens mais inferiores.
Desde que esses seres têm um meio patente de comunicar-se com os homens, de exprimir os pensamentos por sinais inteligíveis, suas comunicações devem ser o reflexo de seus sentimentos, de suas qualidades ou de seus vícios. Serão levianas, triviais, grosseiras, mesmo obscenas, sábias, sensatas e sublimes, conforme seu caráter e sua elevação. Revelam-se por sua própria linguagem; daí a necessidade de não se aceitar cegamente tudo quanto vem do mundo oculto, e submetê-lo a um controle severo.
Com as comunicações de certos Espíritos, do mesmo modo que com os discursos de certos homens, poderíamos fazer uma coletânea muito pouco edificante. Temos sob os olhos uma pequena obra inglesa, publicada na América, que é a prova disto, e cuja leitura, podemos dizer, uma mãe não recomendaria à filha. Eis a razão por que não a recomendamos aos nossos leitores. Há pessoas que acham isso engraçado e divertido. Que se deliciem na intimidade, mas que o guardem para si mesmas. O que é ainda menos concebível é se vangloriarem de obter comunicações indecorosas; é sempre indício de simpatias que não podem ser motivo de vaidade, sobretudo quando essas comunicações são espontâneas e persistentes, como acontece a certas pessoas. Sem dúvida isto nada prejulga em relação à sua moralidade atual, porquanto encontramos criaturas atormentadas por esse gênero de obsessão, ao qual de modo algum se pode prestar o seu caráter.
Entretanto, este efeito deve ter uma causa, como todos os efeitos; se não a encontramos na existência presente, devemos buscá-la numa vida anterior. Se não estiver em nós, estará fora de nós, mas sempre nos achamos nessa situação por algum motivo, ainda que seja pela fraqueza de caráter. Conhecida a causa, depende de nós fazê-la cessar.
Ao lado dessas comunicações francamente más, e que chocam qualquer ouvido delicado, outras há que são simplesmente triviais ou ridículas. Haverá inconvenientes em publicá-las? Se forem dadas pelo que valem, serão apenas impróprias; se o forem como estudo do gênero, com as devidas precauções, os comentários e os corretivos necessários, poderão mesmo ser instrutivas, naquilo que contribuírem para tornar conhecido o mundo espiritual em todos os seus aspectos. Com prudência e habilidade tudo pode ser dito; o mal é dar como sérias coisas que chocam o bom-senso, a razão e as conveniências. Neste caso, o perigo é maior do que se pensa. Em primeiro lugar, essas publicações têm o inconveniente de induzir em erro as pessoas que não estão em condições de aprofundá-las nem de discernir o verdadeiro do falso, especialmente numa questão tão nova como o Espiritismo. Em segundo lugar, são armas fornecidas aos adversários, que não perdem tempo em tirar desse fato argumentos contra a alta moralidade do ensino espírita; porque, insistimos, o mal está em considerar como sérias coisas que constituem notórios absurdos. Alguns mesmos podem ver uma profanação no papel ridículo que emprestamos a certas personagens justamente veneradas, e às quais atribuímos uma linguagem indigna delas.
Aqueles que estudaram a fundo a ciência espírita sabem como se portar a esse respeito. Sabem que os Espíritos galhofeiros não têm o menor escrúpulo de se adornarem de nomes respeitáveis; mas sabem também que esses Espíritos não abusam senão daqueles que gostam de se deixar abusar, e que não sabem ou não querem desmascarar as suas astúcias pelos meios de controle que conhecemos. O público, que ignora isso, vê apenas um absurdo oferecido seriamente à sua admiração, o que faz com que diga: Se todos os espíritas são assim, merecem o epíteto com que foram agraciados. Sem sombra de dúvida, esse julgamento não pode ser levado em consideração; vós os acusais com justa razão de leviandade. Dizei a eles: Estudai o assunto e não examineis apenas uma face da moeda. Entretanto, há tantas pessoas que julgam a priori, sem se darem ao trabalho de virar a folha, sobretudo quando falta boa vontade, que é necessário evitar tudo quanto possa dar motivos a decisões precipitadas, porquanto, se à má vontade vier juntar-se a malevolência, o que é muito comum, ficarão encantadas de encontrar o que criticar.
Mais tarde, quando o Espiritismo estiver mais vulgarizado, mais conhecido e compreendido pelas massas essas publicações não terão maior influência do que hoje teria um livro que encerasse heresias científicas. Até lá, nunca seria demasiada a circunspeção, visto haver comunicações que podem prejudicar essencialmente a causa que querem defender, em intensidade superior aos ataques grosseiros e às injúrias de certos adversários; se algumas fossem feitas com tal objetivo, não alcançariam melhor êxito. O erro de certos autores é escrever sobre um assunto antes de tê-lo aprofundando suficientemente, dando lugar, desse modo, a uma crítica fundamentada. Queixam-se do julgamento temerário de seus antagonistas, sem se darem conta de que muitas vezes são eles mesmos que exibem uma falha na couraça. Aliás, malgrado todas as precauções, seria presunção julgarem-se ao abrigo de toda crítica: primeiro, porque é impossível contentar a todo o mundo; em segundo lugar, porque há pessoas que riem de tudo, mesmo das coisas mais sérias, uns por seu estado, outros por seu caráter. Riem muito da religião, de sorte que não é de admirar que riam dos Espíritos, que não conhecem. Se pelo menos suas brincadeiras fossem espirituosas, haveria compensação. Infelizmente, em geral não brilham nem pela finura, nem pelo bom gosto, nem pela urbanidade e muito menos pela lógica. Façamos, então, o que de melhor estiver ao nosso alcance. Pondo de nosso lado a razão e as conveniências, poremos de lado também os trocistas.
Essas considerações serão facilmente compreendidas por todos. Há, porém, uma não menos importante, que diz respeito à própria natureza das comunicações espíritas, e que não devemos omitir: Os Espíritos vão aonde acham simpatia e onde sabem que serão ouvidos. As comunicações grosseiras e inconvenientes, ou simplesmente falsas, absurdas e ridículas, não podem emanar senão de Espíritos inferiores: o simples bom-senso o indica. Esses Espíritos fazem o que fazem os homens que são ouvidos complacentemente: ligam-se àqueles que admiram as suas tolices e, frequentemente, se apoderam deles e os dominam a ponto de fasciná-los e subjugar. A importância que, pela publicidade, é concedida às suas comunicações, os atrai, excita e encoraja. O único e verdadeiro meio de os afastar é provar-lhes que não nos deixamos enganar, rejeitando impiedosamente, como apócrifo e suspeito, tudo que não for racional, tudo que desmentir a superioridade que se atribui ao Espírito que se manifesta e de cujo nome ele se reveste. Quando, então, vê que perde seu tempo, afasta-se.
Acreditamos ter respondido suficientemente à pergunta do nosso correspondente sobre a conveniência e a oportunidade de certas publicações espíritas. Publicar sem exame, ou sem correção, tudo quanto vem dessa fonte seria, em nossa opinião, dar prova de pouco discernimento. Tal é, pelo menos, a nossa opinião, que submetemos à apreciação daqueles que, estando desinteressados pela questão, podem julgar com imparcialidade, pondo de lado qualquer consideração individual. Como todo mundo, temos o direito de externar a nossa maneira de pensar sobre a ciência que constitui o objeto de nossos estudos, e de tratá-la à nossa maneira, sem pretender impor nossas ideias a quem quer que seja, nem apresentá-las como leis. Os que partilham a nossa maneira de ver são porque creem, como nós, estar com a verdade. O futuro mostrará quem está errado ou quem tem razão.

[1] Revista Espírita – Novembro/1859 – Allan Kardec

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Cairbar Schutel[1]


 

No dia 22 de setembro de 1868, filho do casal Anthero de Souza Schutel e Rita Tavares Schutel, nasceu Cairbar de Souza Schutel, no Rio de Janeiro, então sede da Corte Imperial do Brasil, onde praticou em diversas farmácias e, aos 17 anos, foi para o Estado de São Paulo, trabalhar como farmacêutico em Piracicaba, Araraquara e depois em Matão, cidade em que viveu durante 42 anos.
  Possuidor de brilhante cultura, de grande prestígio social e, sobretudo de notória autoridade moral, acabou sendo escolhido para o honroso e histórico cargo de primeiro Prefeito da cidade de Matão, cargo que ocupou por duas vezes; a primeira de 28 de março a 07 de outubro de 1899, voltando a exercê-lo de 18 de agosto a 15 de outubro de 1900, conforme consta das atas e dos registros históricos da municipalidade matonense.
  Nascido em família católica, batizado aos 7 anos de idade, Cairbar Schutel cumpria suas obrigações perante a Igreja de Roma. Entretanto, já adulto e vivendo em Matão, passou a receber, em sonhos, a visita constante de seus falecidos pais, porque ele ficara órfão de ambos com menos de 10 anos de idade. Insatisfeito com as explicações de um padre para o fenômeno, Schutel procurou Quintiliano José Alves e Calixto Prado, que realizavam reuniões de práticas espíritas domésticas, logrando então entender a realidade do mundo extrafísico.
  Convertido ao Espiritismo cuidou logo de legalizar o Grupo (hoje Centro) Espírita Amantes da Pobreza, cuja ata de instalação foi lavrada no dia 15 de julho de 1905. Resolvido a difundir a Doutrina Espírita pelos quatro cantos do mundo − e mesmo vivendo em uma pequena e modesta cidade no interior do Brasil −, o "Bandeirante do Espiritismo", como ficou conhecido Cairbar Schutel, fundou o jornal O Clarim, no dia 15 de agosto de 1905, e a RIE − Revista Internacional de Espiritismo, no dia 15 de fevereiro de 1925, ambos circulam até hoje.
 Além disso, o incansável arauto da Boa Nova, com todas as dificuldades da época e da região, viajava semanalmente até a cidade de Araraquara para proferir, aos domingos, as suas famosas 15 Conferências Radiofônicas, pela Rádio Cultura de Araraquara (PRD − 4), no período de 19 de agosto de 1936 a 02 de maio de 1937.
  Escritor fértil, entre 1911 e 1937, escreveu os livros O batismo, Cartas a esmo, Conferências radiofônicas, Histeria e fenômenos psíquicos, O diabo e a igreja, Espiritismo e protestantismo, O espírito do cristianismo, Os fatos espíritas e as forças X, Gênese da alma, Interpretação sintética do apocalipse, Médiuns e mediunidades, Espiritismo e materialismo, Parábolas e ensinos de Jesus, Preces espíritas, Vida e atos dos apóstolos, A questão religiosa, Liberdade e progresso, Pureza doutrinária, A vida no outro mundo e Espiritismo para crianças.
 Para publicá-los, Schutel não mediu esforços: adquiriu máquinas, papel, tinta, cola e outros insumos para impressão, procurando escolher sempre material de primeira categoria. Desse esforço surgiu a Casa Editora O Clarim, que hoje emprega inúmeros funcionários em Matão, tendo publicado mais de cem títulos de obras de renomados autores, encarnados e desencarnados.
  Consciente de sua responsabilidade como cidadão, cuidou de regularizar a sua união com Maria Elvira da Silva e Lima, com ela se casando no dia 31 de agosto de 1905; o casal Schutel não teve filhos carnais, porém sua dedicação aos semelhantes ficou indelevelmente marcada na história de Matão, uma vez que ambos jamais deixaram de atender aqueles que os procuravam.
  Depois de curta enfermidade, Cairbar Schutel faleceu em Matão, no dia 30 de janeiro de 1938. Durante e após suas exéquias, inúmeras pessoas de Matão, das cercanias, do Estado de São Paulo e de diversas regiões do Brasil, prestaram-lhe comovente tributo de gratidão e reconhecimento pelo trabalho desenvolvido, tendo certamente cumprido a sua missão.
  Aliás, o prestigioso jornal A Comarca, de Matão, em sua edição de 6 de fevereiro de 1938, consignou o seguinte: "É absolutamente impossível em Matão falar-se quer da nossa história passada, quer da nossa história hodierna sem mencionar Cairbar Schutel. Cairbar Schutel foi, para Matão, um dínamo propulsor do seu progresso, um arauto dedicado e eloquente das suas aspirações de cidade nascente. Mais do que isso foi o homem que, como farmacêutico, acorria com o seu saber e com a sua caridade à cabeceira dos doentes, naqueles tempos em que o médico era ainda nos sertões que beiravam o 'Rumo', uma autêntica 'avis rara".
  Militando na política por algum tempo, a sua atuação pode ser traduzida no curto parágrafo que abaixo transcrevemos, fragmento de um discurso pronunciado em 1923, na Câmara Estadual, pelo Deputado Dr. Hilário Freire, quando aquele ilustre parlamentar apresentou o projeto da criação da Comarca de Matão. Ei-lo:
"Em 1898, o operoso, humanitário e patriótico cidadão Sr. Cairbar de Souza Schutel, empregando todo o largo prestígio político de que gozava, e comprando com os seus próprios recursos o prédio para instalação da Câmara, conseguiu, por intermédio de um projeto apresentado e defendido pelo Dr. Francisco de Toledo Malta, de saudosa memória, a criação do município de Matão".
  Dizem algumas comunicações mediúnicas que o Espírito Cairbar Schutel está, no mundo espiritual, encarregado pela divulgação do Espiritismo na Terra; sendo confirmada tal informação, essa nobre tarefa está muito bem dirigida, porque o movimento espírita deve muito ao querido "Bandeirante do Espiritismo", assim como à sua digníssima esposa Dona Maria Elvira da Silva Schutel, pois, como diz a sabedoria popular, ao lado de um grande homem há sempre uma grande mulher!




sábado, 15 de abril de 2017

Os Simbolismos da Páscoa e o Espiritismo[1]

 


A palavra Páscoa tem origem em dois vocábulos hebraicos: um derivado do verbo pasah, quer dizer “passar por cima” (Êxodo, 23 : 14-17), outro, traz raiz etimológica de pessach (ou pasha, do grego) indica apenas “passagem”. Trata-se de uma festa religiosa tradicionalmente celebrada por judeus e por católicos das igrejas romana e ortodoxa, cujo significado é distinto entre esses dois grupos religiosos.
No judaísmo, a Páscoa comemora dois gloriosos eventos históricos, ambos executados sob a firme liderança de Moisés: no primeiro, os judeus são libertados da escravidão egípcia, assinalada a partir da travessia no Mar Vermelho (Êxodo, 12, 13 e 14). O segundo evento caracteriza a vida em liberdade do povo judeu, a formação da nação judaica e a sua organização religiosa, culminada com o recebimento do Decálogo ou Os Dez Mandamentos da Lei de Deus (Êxodo 20: 1 a 21). As festividades da Páscoa judaica duram sete dias, sendo proibida a ingestão de alimentos e bebidas fermentadas durante o período. Os pães asmos (hag hammassôt), fabricados sem fermento, e a carne de cordeiro são os alimentos básicos.
A Páscoa católica, festejada pelas igrejas romana e ortodoxa, refere-se à ressurreição de Jesus, após a sua morte na cruz (Mateus, 28 : 1-20; Marcos, 16 : 1-20; Lucas, 24 : 1-53; João, 20 : 1-31 e 21 : 1-25). A data da comemoração da Páscoa cristã, instituída a partir do século II da Era atual, foi motivo de muitos debates no passado. Assim, no primeiro concílio eclesiástico católico, o Concílio Nicéia, realizado em 325 D.C., foi estabelecido que a Páscoa católica não poderia coincidir com a judaica. A partir daí, a Igreja de Roma segue o calendário Juliano (instituído por Júlio César), para evitar a coincidência da Páscoa com o Pessach. Entretanto, as igrejas da Ásia Menor, permaneceram seguindo o calendário gregoriano, de forma que a comemoração da Páscoa dos católicos ortodoxos coincide, vez ou outra, com a judaica[2].
Os cristãos adeptos da igreja reformada, em especial a luterana, não seguem os ritos dos católicos romanos e ortodoxos, pois não fazem vinculações da Páscoa com a ressurreição do Cristo. Adotam a orientação mais ampla de que há, com efeito, apenas uma ceia pascoal, uma reunião familiar, instituída pelo próprio Jesus (Mateus 26 : 17-19; Marcos 14 : 12-16; Lucas 22 : 7-13) no dia da Páscoa judaica[3]. Assim, entendem que não há porque celebrar a Páscoa no dia da ressurreição do Cristo.  Por outro, fundamentados em certas orientações do apóstolo Paulo (1Coríntios, 5 : 7), defendem a ideia de ser o Cristo, ele mesmo, a própria Páscoa, associando a este pensamento importante interpretação de outro ensinamento de Paulo de Tarso (1Corintios, 5 : 8): o “cristão   lança fora o velho fermento, da maldade e da malícia, e coloca no lugar dele os asmos da sinceridade e da verdade”[4].
Algumas festividades politeístas relacionados à chegada da primavera e à fertilidade passaram à posteridade e foram incorporados à simbologia da Páscoa. Por exemplo, havia (e ainda há) entre países da Europa e Ásia Menor o hábito de pintar ovos cozidos com cores diferentes e decorá-los com figuras abstratas, substituídos, hoje, por ovos de chocolate. A figura do coelho da páscoa, tão comum no Ocidente, tem origem no culto à deusa nórdica da fertilidade Gefjun, representada por uma lebre (não coelho). As sacerdotisas de Gefjun eram capazes de prever o futuro, observando as vísceras do animal sacrificado2.
É interessante observar que nos países de língua germânica, no passado, havia uma palavra que denotava a festa do equinócio do inverno. Subsequentemente, com a chegada do cristianismo, essa mesma palavra passou a ser empregada para denotar o aniversário da ressurreição de Cristo. Essa palavra, em inglês, “Easter”, parece ser reminiscência de “Astarte”, a deusa-mãe da fertilidade, cujo culto era generalizado por todo o mundo antigo oriental e ocidental, e que na Bíblia é chamada de Astarote. (…) Já no grego e nas línguas neolatinas, “Páscoa” é nome que se deriva do termo grego pascha3.
A Doutrina Espírita não comemora a Páscoa, ainda que acate os preceitos do Evangelho de Jesus, o guia e modelo que Deus nos concedeu: “(…) Jesus representa o tipo da perfeição moral que a Humanidade pode aspirar na Terra4”. Contudo, é importante destacar: o Espiritismo respeita a Páscoa comemorada pelos judeus e cristãos, e compartilha o valor do simbolismo  representado, ainda que apresente outras interpretações.  A liberdade conquistada pelo povo judeu, ou a de qualquer outro povo no Planeta, merece ser lembrada e celebrada. Os Dez Mandamentos, o clímax da missão de Moisés, é um código ”(…) de todos os tempos e de todos os países, e tem, por isso mesmo, caráter divino. (…)[5]”.  A ressurreição do Cristo representa  a vitória sobre a morte do corpo físico, e anuncia, sem sombra de dúvidas, a imortalidade e a sobrevivência do Espírito em outra dimensão da vida.
Os discípulos do Senhor conheciam a importância da certeza na sobrevivência para o triunfo da vida moral. Eles mesmos se viram radicalmente transformados, após a ressurreição do Amigo Celeste, ao reconhecerem que o amor e a justiça regem o ser além do túmulo. Por isso mesmo, atraiam companheiros novos, transmitindo-lhes a convicção de que o Mestre prosseguia vivo e operoso, para lá do sepulcro[6].
Os espíritas, procuramos comemorar a Páscoa todos os dias da existência, a se traduzir no esforço perene de vivenciar a  mensagem de Jesus, estando cientes que, um dia, poderemos também testemunhar esta certeza do inesquecível apóstolo dos gentios: “Fui crucificado junto com Cristo. Já não sou eu quem vivo, mas é Cristo vive em mim.  Minha vida presente na carne, vivo-a no corpo, vivo-a pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim”. (Gálatas 2.20)[7]
 
Referências
BÍBLIA DE JERUSALÉM. Diversos tradutores. São Paulo: Paulus, 2002.
ELWELL, Walter A (editor). Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Trad. Gordon Chow. 1ªed. 3ª reimp. Vol. III.  São Paulo: Edições Vida Nova, 2003.
DOUGLAS, J.D. (organizador). O Novo Dicionário da Bíblia. Tradução de  João Bentes. 3ª ed. rev. São Paulo: Vida Nova, 2006.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 2ªed. 1ª reimp. Rio de Janeiro: FEB Editora, 2011.
_____. O Evangelho segundo o Espiritismo. Trad. Evandro Noleto Bezerra. 1ªed. 1ª reimp. Rio de Janeiro: FEB Editora, 2008.
XAVIER, Francisco Cândido. Pão Nosso. Pelo Espírito Emmanuel. 1ªed. 3ª reimp. Brasília: FEB Editora, 2012 (Coleção Fonte viva;2)



[2] //pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1scoa    Acesso: 27/03/2013.
[3] J.D. Douglas. O Novo Dicionário da Bíblia. Pág. 1002
[4] Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Q. 625, pág.
[5] Idem. O Evangelho segundo o Espiritismo. Cap. I, it. 2, pág. 56.
[6] Francisco Cândido Xavier. Pão Nosso. Pelo Espírito Emmanuel. Cap. 176, pág. 365.
[7] Bíblia de Jerusalém. Pág. 2033.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

A arte de interrogar[1]



Ermance Dufaux

 
“Segundo a ideia falsíssima de que não é possível reformar a sua própria natureza, o homem se julga dispensado de empregar esforços para se corrigir dos defeitos em que de boa vontade se compraz, ou que exigiria muita perseverança para serem extirpados”.
 

Hahnemann (París, 1863)

O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO – Cap. IX, Item 10
 

Não são poucos os companheiros que demonstram silencioso desespero quando percebem que o esforço pessoal de melhoria parece próximo à escola do conhecimento espiritual, mas continuam asilando impiedoso sentimento de frustração a persistirem para as lutas reeducativas, nos deveres de cada dia. Alegam que vigiam o pensamento e oram fervorosamente pedindo auxílio, no entanto, dizem-se perseguidos por uma “força maior” que lhes distraem e domina-lhes os impulsos, que fazem o que não têm intenção de fazer, sendo levados a atitudes não desejadas ou escolhidas. Nasce então o conflito seguido de sentimentos punitivos que passam a povoar o coração, quais sejam a tristeza e a angústia, a vergonha e o desânimo. Instala-se assim o desespero mudo desgastante que assola inúmeros aprendizes no crescimento espiritual.

Estariam, porventura, exercendo inadequadamente sua reforma?

Semelhante ciclo de frustração necessariamente faz parte do programa de transformação e crescimento? Essas indagações que devem fazer parte das meditações de quantos anseiam pela promoção de si mesmos, sejam nos grupos de nossa causa ou avaliações pessoais.

Sem recolhimento e introspecção educativa não teremos respostas claras e indispensáveis na elaboração do programa de autoconhecimento. Imprescindível efetuar perseverante investigação no que se chama “força maior”.

Será uma compulsão? Um Espírito? Um trauma? Uma tendência? Um recalque? Uma fixação de “outras vidas”? Uma patologia física? Um impulso adquirido na infância? Uma lembrança da erraticidade? Um problema surgido na gestação maternal? Uma emersão de recordações das atividades noturnas? Uma influência passageira e intermitente ou uma obsessão progressiva? Uma contaminação fluídica por “nuvens de ideoplastia” dos pensamentos humanos? A irradiação magnética dos ambientes? Qual a origem e natureza das forças que nos cercam?

Será muito simplismo a atitude de responsabilizar obsessores e reencarnações passadas como causa daquilo que sentimos, e que não conseguimos explicar com maior lucidez. Em alguns casos chega a ser mesmo um ato de invigilância.

Que variedade de opções soma-se nas viagens da evolução para explicar as lutas espirituais que hoje enfrentamos! Apesar disso, não guardamos dúvidas em afirmar que o labor iluminativo de todos nós tem um ponto comum: a urgente necessidade da educação dos sentimentos.

A etimologia da palavra educação significa “trazer à luz uma ideia”, vem do latim educare ou educere – prefixo “e” mais ducare ou ducere – levar para fora, fazer sair, tirar.

Filosoficamente é fazer a ideia passar da potencia ao ato, da virtualidade à realidade.

À luz dos conceitos espíritas, educar é ir de encontro aos germens da perfeição que se encontram potencializados na alma desde a sua criação, é despertar, dinamizar as qualidades superiores que todos trazemos nas profundezas da vida inconsciente.

Frente ao montante de lutas e conflitos que amealhamos na afanosa caminhada do egoísmo, fica a indagação: como educar sentimentos para adquirir reações e interesses novos afinados com esses “valores excelsos” depositados em nós mesmos?

Justo agora em que a ciência avança na busca de novas alternativas para que o homem entenda a si mesmo, verificamos uma lastimável epidemia de racionalização varrendo todas as sociedades mundanas, impedindo o homem de mover-se com o necessário domínio sobre sua vida emocional.

A educação de nossos sentimentos é algo doloroso, semelhante a “cirurgias corretivas” que fazem do mundo emocional um complexo de vivências afetivas de longo curso, quais sejam a renúncia de hábitos, a perda de expectativas, a ansiedade por novas conquistas, a tristeza pelo abandono de vínculos afetivos, os conflitos de objetivos, a vigilância na tentação, o contato com o sentimento da inferioridade humana, a tormenta da culpa, a severidade na cobrança, a sensação de esforço inútil, a causticante dúvida sobre quem somos e o que sentimos, a insatisfação perante tendências que teimam em persistir, o desgaste dos pensamentos nocivos que burlam a vontade, o medo de não conseguir superar-se, os desejos inconfessáveis que humilham os mais santos ideais, o sentimento de impotência ante os pendores, a insegurança nas escolhas e outros tantos “dramas afetivos”.

“Formulai, pois, de vós para convosco, questões nítidas e precisas e não temais multiplicá-las”.

Justo é que se gastem alguns minutos para conquistar uma felicidade eterna[2]”. Eis a feliz recomendação de Santo Agostinho.

O sábio de Hipona acrescenta: “Dirigi, pois, a vós mesmos perguntas, interrogativos sobre o que tendes feito e com que objetivo procedestes em tal ou tal circunstância, sobre se fizestes alguma coisa que, feita por outrem, censuraríeis, sobre se obrastes alguma ação que não ousaríeis confessar. Perguntai ainda mais: “Se aprouvesse a Deus chamar-me neste momento, teria que temer o olhar de alguém, ao entrar de novo no mundo dos Espíritos, onde nada pode ser ocultado?[3]

Portanto, essa educação das emoções é o imperativo de penetrarmos “partes ignoradas” de nossa intimidade espiritual no resgate de valores divinos adormecidos.

Considerando a extensão do trabalho a ser feito, anotemos algumas diretrizes práticas que não devemos olvidar, a fim de renovarmos o desalento que pode ser absorvido pelo clima da esperança motivadora e do consolo reconfortante, quando peregrinamos pelos escaninhos do desconhecido país de nós próprios, guardando mais lúcida visão no serviço da autoconquista pelo estudo de nossas reações:

o    As intenções são o “dial da consciência”. Por elas sintonizamos com as faixas mentais que desejamos naturalmente ou que escolhemos pelo poder de decisão da vontade. Conhecê-las naquelas vivências e identificar seu teor moral será rica fonte informativa sobre a vida subconsciencial: com que intenção pratiquei tal ato? Qual a intenção ao dizer algo a alguém?

o    Aprendamos a dar nome aos sentimentos que vivenciamos a fim de dilatar o discernimento sobre a vida emocional; escolha um episódio de teu dia e interrogue pensativamente: que sentimento estava por trás daquele acontecimento?

o    Cuidemos de não ampliar nossas refregas íntimas com mecanismos de fuga e suposta proteção como a negação daquilo que sentimos. Se não tivermos coragem para o enfrentamento interior, não faremos muito progresso na arte de descobrir nossas mazelas e mesmo nossas qualidades. Imprescindível será admitir o que sentimos, sem medos e subterfúgios de defesa, mas com muita responsabilidade para que não penetremos os meandros da fantasia, por que senti (nomear o sentimento) em relação a essa criatura? Qual a razão desse meu sentimento em circunstâncias como a que experimentei?

o    Nossas reações aos desafios da vida, mesmo que não sejam felizes expressões de equilíbrio, são valorosas medidas aferindo os nossos sentimentos. Indaguemos sempre em cada ocasião do caminho: qual o sentimento nos “impulsionou” nessa ou naquela situação?

o    Cultivar a empatia. Aprender a se colocar no lugar do outro e sentir o que sente, entender-lhe as razoes e procurar estudar os motivos emocionais de cada pessoa. Todos temos uma razão no reino do coração para fazer o que fazemos, então questionemos, por que motivo aquela pessoa agiu assim comigo? Que motivações levam alguém a fazer o que fez?

Portanto, como diz Hahnemann em nossa introdução, nossa tarefa reeducativa exige muita perseverança e esforço. Isso leva muitos a pretenderem a ilusão de cultivar a ideia falsíssima de que é impossível mudar nossas naturezas.

Ledo engano.

Deveríamos nos dar por muito satisfeitos no dia de hoje pelo simples fato de não recorrermos intencionalmente ao mal.

O grave equívoco é que muitos lidadores da Nova Revelação acreditam que renovar é angelizar!!!




[1] Reforma Íntima sem Martírio – Wanderley S. de Oliveira
[2] O Livro dos Espíritos – Questão 919a.
[3] Idem.