segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Crianças Índigo e Cristal versus Doutrina Espírita e a Lei do Progresso[1]

 

Krayher

Não satisfeitos em disseminar o misticismo das obras alienantes de espíritos pseudossábios metidos a gurus, como Ramatis e Cia. Ltda., o MEB[2] encontrou uma nova forma sedutora de atrair a atenção para o espiritismo, isto é, para o espiritismo à moda católica, ou espiritolicismo. Adotaram de uma seita religiosa da nova era norte americana, o mito das Crianças Índigo e Cristal, idealizada por Lee Carroll e sua ex-mulher cantora Jan Tober.
A coisa toda surgiu assim em 1989 por Lee Carroll, que recebeu uma revelação por um extraterrestre da mais alta evolução, ― é isso mesmo! ― Uma revelação para a humanidade dada por um extraterrestre da mais alta evolução, detalhe, a um único homem e sua esposa, claro.  Afinal para que a universalidade? ― Bom, vamos ao ponto, o que isso tem a ver com Espiritismo? A resposta é clara ― absolutamente nada. Então porque estamos tratando dele neste artigo, já que não cabe a Doutrina Espírita julgar nem discorrer opiniões públicas sobre seitas ou religiões e crenças estranhas em geral? Muito simples, essa crença está sendo disseminada como espírita e alguns médiuns brasileiros já estão começando a faturar com o tema.
Não nos caberia espaço aqui para inventariar as prerrogativas doutrinárias sobre aferição e controle de tudo quanto vem dos espíritos, ademais também não é nosso objetivo dar opiniões sobre isto ou aquilo dentro das religiões ou seitas. Mas podemos e devemos apartar para longe tudo aquilo que é estranho à Doutrina Espírita, explicando à luz da mesma, desde que estejam alguns ignorantes das suas bases tentando inserir tal ou qual ensinamento estranho, isto é, se somos ou nos consideramos Espíritas, é-nos antes, uma obrigação; no caso destas novidades estarem em desacordo com a base fundamental contida na codificação. Tal é o caso de que tratamos aqui a respeito das Crianças Índigo e Cristal, sua concepção via mediúnica por uma única fonte já revela um espírito mistificador e um médium fascinado. E ainda nem chegamos na parte das plateias numerosas que se consultam com o espírito do ET Kryon, sob pagamento antecipado, claro. Mas vejamos quem é Kryon, segundo o próprio Carroll:
“Kryon é o mais evoluído ser de luz a que a Terra jamais teve acesso. Proveniente do ‘Sol Central’, com a função primordialmente técnica ligada ao ‘serviço eletromagnético’. Foi enviado por um grupo de ‘Mestres Extrafísicos’, chamado ‘A Irmandade’. Veio dessa vez para reordenar a ‘rede magnética planetária’, visando uma série de mudanças magnéticas no eixo da Terra, que se encerrará no ano de 2012”.
Ora veja só, «O ser mais evoluído que a Terra jamais teve acesso» ― Jesus ficou para trás! ― Mas quem dera fosse esta a revelação mais escandalosa. O espírito ET do Sol Central também afirma que Deus não existe. Segundo ele o Panteísmo é a verdade íntima do Universo. Panteísmo para quem não se recorda, é a doutrina que prega que todos os seres são parte de um todo e as individualidades não existem. Não é preciso lembrar também que estas como outras revelações de Kyron estão frontalmente contra a Doutrina Espírita, certo?
Afinal, quem são estas crianças especiais de que trata os livros do Carroll?
Segundo Kryon, «Os seres humanos que vivem na Terra eram anjos muito evoluídos que assinaram um contrato para vivenciar uma experiência humana no planeta Terra, motivo pelo qual seríamos honrados e celebrados em todo o Universo”. E que a humanidade havia atingido a Convergência Harmônica necessária». Para quê?
O que isto quer dizer, não fazemos ideia, nem Carroll explica em seus livros. Mas jura ele que desde 1987 crianças com o DNA alterado estariam nascendo no planeta Terra, estas seriam as Índigo ou Cristal, que «Nascem, sentem-se e agem com realeza. (…) Conseguem inverter as situações, manipulando ao invés de serem manipulados, especialmente seus pais. (…) Não se relacionam bem com pessoa alguma que não seja igual a elas. (…) Alguns têm propensão ao vício, especialmente drogas durante a adolescência» ― calma, tem mais ― «Todas as crianças que mataram colegas de escola ou os próprios pais, com as quais pude ter contato, eram índigos. Eles tinham uma visão clara de sua missão, mas algo entrou em seu caminho e elas quiseram se livrar do que imaginavam ser o obstáculo. Trata-se de um novo conceito de sobrevivência. Todos nós possuíamos esse tipo de pensamento macabro quando crianças, mas tínhamos medo de colocá-lo em prática. Já os índigos não têm esse tipo de medo» — nas palavras de Nancy Ann Tappe, a parapsicóloga que se diz vidente, e a pessoa responsável por disseminar a teoria junto a Carroll.
Crianças revoltadas, agressivas e prepotentes, eis no que se resume.
Mas por qual motivo estaria essa teoria se espalhando tão rapidamente no meio espírita?
Um geração de crianças com intelecto mais desenvolvido do que o ordinário, tem encarnado no orbe, isso é evidente, e nenhum de nós poderia negar tal acontecimento, isto é antes consequência natural da Lei do Progresso. Não é dificil encontrar pequenos prodígios, possivelmente você deve ter um na família, mas, sabemos que o intelecto nem sempre caminha de mãos dadas com a moralidade, daí os desvios de comportamento que se evidenciam tão claramente quanto a inteligência. Os maus pendores são problemas sérios que precisam da intervenção imediata dos pais para corrigi-los. Eis a missão dos pais, desenvolver o caráter dos seus filhos através do exemplo, da conduta firme e da ação. A inteligência prematura não é sinal de superioridade espiritual, antes, evidência de progresso anterior do espírito em relação ao intelecto, mas não necessariamente ao moral, portanto, senhores pais, não sejam omissos ao educar seus filhos, pois crendo neles habitar um espírito superior, acabam por fechar os olhos para suas imperfeições morais achando se tratar de algo sem importância ou passageiro que o tempo irá extinguir naturalmente, pensando e agindo dessa forma, deixam o caminho livre para que eles se tornem criaturas arrogantes e prepotentes, pela inteligência mais desenvolvida sem o devido progresso ou correção moral necessário.
Com a inteligência mais desenvolvida, fica ainda mais fácil para o espírito que ensaia para a vida, compreender as lições e exemplos morais dos pais. Os primeiros anos de uma criança são o período fértil em que os pais devem agir, para corrigir as más tendências. Já adulto ou em vias de, os vícios e tendências negativas estão mais arraigadas e torna-se um verdadeiro sofrimento corrigi-los.
 
Onde está o problema na Teoria das Crianças Índigo e Cristal?
No que diz respeito as crianças índigo, estes são os problemas irreparáveis.
1. A forma da revelação – As revelações a nível global são dadas através de diversos espíritos por diferentes médiuns, geralmente estranhos entre si. Aquilo que vem de um único médium, e de um único espírito que se diz superior a todos os outros que já passaram pela Terra, não pode ser aceito pela razão desenvolvida e madura. Uma afirmação destas é uma forte evidência de um espírito pseudossábio como comunicante e de um médium fascinado.
2. O Caráter duvidoso do espírito comunicante e do médium – Um médium sério, deve estar em guarda para não aceitar qualquer comunicação que vá frontalmente contra princípios já estabelecidos pela universalidade de ensinamento, como a existência de Deus, e a Lei de Progresso Universal, constante e sem saltos. Além da idoneidade, já que no caso de Lee Carroll, ele lucra com a venda souvenires, camisetas, bijuterias, livros, DVDs e claro, pelas consultas pessoais de alguns clientes, — é preciso dizer mais?
Sobre a Lei do Progresso
“Em dizendo que a humanidade está madura para a regeneração, isto não quer dizer que todos os indivíduos estejam no mesmo degrau, mas muitos têm, por intuição, o germe das ideias novas que as circunstâncias farão desabrochar, então, mostrar-se-ão mais avançados do que se o suponha e seguirão com zelo a impulsão da maioria”. — Kardec em A Gênese Segundo o Espiritismo – Cap. XVIII item 24.
A GERAÇÃO NOVA
Para que os homens sejam felizes sobre a Terra é preciso que ela seja apenas povoada por bons Espíritos encarnados e desencarnados que só queiram o bem. Este tempo tendo chegado, uma grande emigração acontecerá neste momento entre aqueles que a habitam; os que fazem o mal pelo mal e que o sentimento do bem não o toca, não sendo mais digno da Terra transformada, sê-lo-ão excluídos, porque trariam de novo a discórdia e a confusão e seriam um obstáculo ao progresso. Estes irão expiar seu endurecimento uns em mundos inferiores, outros, entre raças terrestres atrasadas que serão o equivalente de mundos inferiores, onde levarão seus conhecimentos adquiridos e que terão por missão de fazer avançar. Serão substituídos por Espíritos melhores que farão reinar entre eles a justiça, a paz, a fraternidade.
A Terra, no dizer dos Espíritos, não deve nunca ser transformada por um cataclismo que aniquilaria subitamente uma geração. A geração atual desaparecerá gradativamente e a nova lhe sucederá do mesmo modo sem que nada troque a ordem natural das coisas.
Tudo se passará, pois, exteriormente, como de hábito, com esta única diferença, mas esta diferença é capital porque uma parte dos Espíritos que se encarnavam, não mais se encarnará. Em uma criança que nascerá em lugar de um Espírito atrasado e portador do mau o que estará se encarnado será um Espírito mais avançado e portador do bem.
Trata-se, pois, bem menos de uma nova geração corpórea do que de uma nova geração de Espíritos. Assim, aqueles que se atentarem para ver a transformação operar-se por efeitos sobrenaturais e maravilhosos irão se decepcionar. – (A Gênese Cap. XVIII – Item 26.)
Vejamos:
Crianças Índigo e Cristal: “desde 1987 crianças com o DNA alterado estariam nascendo no planeta Terra a fim de povoar a Terra por uma nova raça vinda das estrelas”.
Da Lei de Progresso: “Trata-se, pois, bem menos de uma nova geração corpórea do que de uma nova geração de Espíritos. Assim, aqueles que se atentarem para ver a transformação operar-se por efeitos sobrenaturais e maravilhosos irão se decepcionar.”
Para Carroll e o espírito ET Kryon, as qualidades são trazidas pelo novo DNA. Para a Doutrina Espírita e a Lei de Progresso, o espírito é que se refina através de progresso nas existências anteriores. Que diferença não?
Prossigamos:
Crianças Índigo e Cristal: «Nascem, sentem-se e agem com realeza. (…) Conseguem inverter as situações, manipulando ao invés de serem manipulados, especialmente seus pais. (…) Não se relacionam bem com pessoa alguma que não seja igual a elas. (…) Alguns têm propensão ao vício, especialmente drogas durante a adolescência»
Da Lei de Progresso: “A nova geração, devendo fundar a era do progresso moral, distingue-se por uma inteligência e uma razão geralmente precoces, ajuntadas ao sentimento inato do bem e das crenças espirituais, o que é o sinal indubitável de um certo grau de adiantamento anterior. Não será nunca composta exclusivamente de Espíritos eminentemente superiores, mas dos que, tendo já progredido, estão dispostos a assimilar todas as ideias progressivas e aptas a secundar o movimento regenerador.”
O que distingue, ao contrário, os Espíritos atrasados é a princípio, a revolta contra Deus pela recusa de reconhecer algum poder superior à humanidade; depois, a propensão instintiva às paixões degradantes, aos sentimentos anti-fraternos do egoísmo, do orgulho, do agarramento por tudo o que seja material.” (A Gênese Cap. XVIII – Item 27 §3 e anteriores)
Para Carroll e o espírito ET Kryon: Todas as Crianças Índigo e Cristal são espíritos superiores que vieram para formar uma nova raça terrestre. E pergunto ao leitor, já teve notícias de um Espírito Superior propenso ao vicio e as drogas? Ou que tenha assassinado os seus pais por verem neles um obstáculo a sua missão?
Vejamos o que diz a Doutrina Espírita sobre estes falsos espíritos superiores
São estes vícios dos quais a Terra deva ser purgada pelo afastamento daqueles que refugam emendar-se, porque são incompatíveis com o reino da fraternidade, e que os homens de bem sofrerão sempre do seu contato; quando a Terra estiver livre, os homens marcharão sem entraves, para o futuro melhor que lhes está reservado desde aqui em baixo, por prêmio de seus esforços e de sua perseverança, atentando que uma purificação ainda mais completa abre-lhes a entrada dos mundos superiores.
O que se tem visto por ai
Presenciamos um aumento signifcativo na produção de material literário e audiovisual tratando do assunto Crianças Índigo e Cristal, como se fossem espíritas. A falta de caráter de alguns homens é tão grande, que para chamar a atenção para si com intuito de faturar na venda de livros e palestras, costumam frequentemente fazer ligações entre a Doutrina Espírita e a tal história das Crianças Índigo, conquistam terreno explorando a ignorância das pessoas acerca da base da doutrina que refuta vigorosamente toda esta teoria como sendo espírita.
Também temos visto por aí, centenas de pais e mães omissos, que, para justificar a falta de educação dos filhos e consequentemente o fracasso deles como educadores, tem adotado tal ideia a fim de aliviarem suas consciências, embora isso não os isentará dos amargos dissabores do futuro.
Desconfie de toda fonte que se diz espírita e que defende a teoria das Crianças Índigo e Cristal.
Como a Doutrina Espírita explica o progresso intelectual destas crianças?
Pela Lei do Progresso.
A marcha progressiva da humanidade se opera de duas maneiras, como temos dito: uma gradual, lenta, insensível, caso se considere as épocas próximas, que se traduz por melhoramentos sucessivos nos costumes, as leis, os usos, que só se apercebe à distância como as trocas que as correntes d’água causam na superfície do globo; outro por movimentos relativamente bruscos, rápidos, parecidos com os de uma torrente rompendo seus diques, que lhe fazem transpor em alguns anos o espaço que levou séculos a percorrer. É então um cataclismo moral que devora em alguns instantes as instituições do passado e aos quais sucede uma nova ordem de coisas que se assentam pouco a pouco, à medida que a calma se restabelece e se torna definitiva. (…)
É a um destes períodos de transformação ou caso se queira, de crescimento moral que é vindo à humanidade. Da adolescência passa à idade viril; o passado não pode mais bastar a suas novas aspirações e a suas novas necessidades; não pode mais ser conduzida pelos mesmos meios; não se prende mais, a ilusões e prestígio; é preciso à sua razão nutrir-se de alimentos mais substanciais. O presente é bastante efêmero; sente que seu destino é mais vasto que a vida corpórea, é muito restrita para encerrá-la por inteiro; é porque lança seus olhares no passado e no futuro, a fim de neles descobrir o mistério de sua existência e disso haurir uma consoladora seguridade. (A Gênese Cap. XVIII – Item 11).
Veja que não há qualqUer milagre, nenhum acontecimento sobrenatural ou místico, a simples Lei do Progresso em ação e sem qualquer necessidade de intervir no DNA humano.
Continuamos no Item 30 ainda no Cap. XVIII da Gênese:
Assistimos a esta transformação, ao conflito que resulta da luta das ideias contrárias que procuram se implantar; umas marcham com a bandeira do passado, outras com a do porvir. Caso se examine o estado atual do mundo, reconhecer-se-á que, tomada em seu conjunto, a humanidade terrestre está longe ainda do ponto intermediário onde as forças se contrabalançam; que os povos considerados isoladamente, estão a uma grande distância uns dos outros sobre esta escala; que alguns tocam neste ponto mas que outros nem o têm ainda atingido. Do resto, a distância que os separa dos pontos extremos está longe de ser igual em duração e uma vez transposto o limite, a nova rota será percorrida com igualmente mais rapidez que uma multidão de circunstâncias virá aplainá-la.
Assim se cumpre a transformação da humanidade. Sem a emigração, isto é, sem a partida dos Espíritos retardatários que não devam voltar ou que só devam voltar quando estiverem melhorados, a humanidade terrestre não ficará, desta forma, indefinidamente estacionária, porque os Espíritos, os mais atrasados avançam a seu turno; mas será preciso séculos e talvez milhares de anos para chegar ao resultado que um meio-século bastaria para realizar. – (A Gênese Cap. XVIII – Item 30).
Conclusão de Kardec
Os grandes embarques coletivos não têm somente por finalidade ativar as saídas, mas transformar mais rapidamente o espírito da massa, em desembaraçando-a das más influências e de dar mais ascendência às ideias novas. (A Gênese Cap. XVIII – Item 32).
A regeneração da humanidade não tem, pois, absolutamente, necessidade da renovação integral dos Espíritos: basta uma modificação em suas disposições morais; esta modificação se opera entre todos aqueles que estejam predispostos a isso, tão logo sejam tirados da influência perniciosa do mundo. Os que tornam, então, não serão sempre outros Espíritos, mas, frequentemente, os mesmos Espíritos, só que pensando e sentindo de outro modo. (A Gênese Cap. XVIII – Item 33).

domingo, 24 de janeiro de 2016

O pensamento[1]

 


O pensamento é criador. Assim como o pensamento do Eterno projeta sem cessar no espaço os germens dos seres e dos mundos, assim também o do escritor, do orador, do poeta, do artista, faz brotar incessante florescência de ideias, de obras, de concepções, que vão influenciar, impressionar para o bem ou para o mal, segundo sua natureza, a multidão humana.
É por isso que a missão dos obreiros do pensamento é ao mesmo tempo grande, temível e sagrada.
É grande e sagrada porque o pensamento dissipa as sombras do caminho, resolve os enigmas da vida e traça o caminho da humanidade; é a sua chama que aquece as almas e ilumina os desertos da existência; e é temível porque seus efeitos são poderosos tanto para a descida como para a ascensão.
Mais cedo ou mais tarde todo produto do Espírito reverte para seu autor com suas consequências, acarretando-lhe, segundo o caso, o sofrimento, a diminuição, a privação da liberdade, ou então as satisfações íntimas, a dilatação, a elevação do ser.
A vida atual é, como se sabe, um simples episódio de nossa longa história, um fragmento da grande cadeia que se desenrola para todos através da imensidade. E constantemente recaem sobre nós, em brumas ou claridades, os resultados de nossas obras. A alma humana percorre seu caminho cercada de uma atmosfera brilhante ou turva, povoada pelas criações de seu pensamento. É isso, na vida do Além, sua glória ou sua vergonha.
Para dar ao pensamento toda a força e amplitude, nada há mais eficaz do que a investigação dos grandes problemas.
Por bem dizer, é preciso sentir com veemência; para saborear as sensações elevadas e profundas é necessário remontar à nascente de onde deriva toda a vida, toda a harmonia, toda a beleza.
O que há de nobre e elevado no domínio da inteligência emana de uma causa eterna, viva e pensante. Quanto mais largo é o voo do pensamento para essa causa, tanto mais alto ele paira, tanto mais radiosas também são as claridades entrevistas, mais inebriantes as alegrias sentidas, mais poderosas as forças adquiridas, mais geniais as inspirações! Depois de cada voo, o pensamento torna a descer vivificado, esclarecido para o campo terrestre, a fim de prosseguir a tarefa pela qual continuará a desenvolver-se, porque é o trabalho que faz a inteligência, como é a inteligência que faz a beleza, o esplendor da obra acabada.
Eleva teu olhar, ó pensador, ó poeta! Lança teu brado de apelo, de aspiração e prece! Diante do mar de reflexos variáveis, à vista de brancos cimos longínquos ou do infinito estrelado, não passaste nunca horas de êxtase e embriaguez, em que a alma se sente imersa num sonho divino, em que a inspiração chega poderosa como um relâmpago, rápido mensageiro do Céu à Terra?
Escuta bem! Nunca ouviste, no fundo de teu ser, vibrarem as harmonias estranhas e confusas, os rumores do mundo invisível, vozes de sombra que te acalentam o pensamento e o preparam para as intuições supremas?
Em todo poeta, artista ou escritor há germens de mediunidade inconsciente, incalculáveis, e que desejam desabrochar; por eles o obreiro do pensamento entra com o manancial inexorável e recebe sua parte de revelação. Essa revelação de estética, apropriada à sua natureza, ao gênero de seu talento, tem ele por missão exprimir em obras que farão penetrar na alma das multidões uma vibração das forças divinas, uma radiação das verdades eternas.
É na comunhão frequente e consciente com o mundo dos Espíritos que os gênios do futuro hão de encontrar os elementos de suas obras. Desde hoje, a penetração dos segredos de sua dupla vida vem oferecer ao homem socorros e luzes que as religiões desfalecidas já lhe não podem proporcionar.
Em todos os domínios, a ideia espírita vai fecundar o pensamento em atividade.
A Ciência dever-lhe-á a renovação completa de suas teorias e métodos, assim como a descoberta de forças incalculáveis e a conquista do universo oculto. A Filosofia obterá um conhecimento mais extenso e preciso da personalidade humana. Esta, no transe e na exteriorização, é como uma cripta que se abre, cheia de coisas estranhas e onde está escondida a chave do mistério do ser.
As religiões do futuro hão de encontrar no Espiritismo as provas da sobrevivência e as regras da vida no Além e, ao mesmo tempo, o princípio de uma união das duas humanidades, visível e invisível, em sua ascensão para o Pai comum.
A Arte, em todas as suas formas, descobrirá nele mananciais inexauríveis de inspiração e emoção.
O homem do povo, nas horas de cansaço, beberá nele a coragem moral. Compreenderá que a alma pode desenvolver-se tanto pela lide humilde como pela obra majestosa e que não se deve desprezar dever algum; que a inveja é irmã do ódio e que, muitas vezes, o ser é menos feliz no luxo que na mediocridade. O poderoso aprenderá nele a bondade com o sentimento da solidariedade que a todos liga através de nossas vidas e pode obrigar-nos a retornar pequenos para adquirirmos as virtudes modestas. O cético achará nele a fé; o desanimado as esperanças duradouras e as resoluções viris; todos os que sofrem encontrarão a ideia profunda de que uma lei de justiça preside a todas as coisas, de que não há, em nenhum domínio, efeito sem causa, parto sem dor, vitória sem combate, triunfo sem rudes esforços, mas que, acima de tudo, reina uma perfeita e majestosa sanção e que ninguém está abandonado por Deus, do qual é uma parcela.
Assim, vagarosamente se operará a renovação da humanidade, tão nova ainda, tão ignorante de si mesma, mas cujos desejos se dirigem pouco a pouco para a compreensão de sua tarefa e de seu fim, ao mesmo tempo em que se alarga seu campo de exploração e a perspectiva de um futuro ilimitado. E, em breve, eis que ela avançará mais consciente de si mesma e de sua força, consciente de seu magnífico destino. A cada passo que transpõe, vendo e querendo mais, sentindo brilhar e avivar-se o foco que arde em si, vê também as trevas recuarem, fundirem-se, resolverem-se os sombrios enigmas do mundo e iluminar-se o caminho com um raio poderoso.
Com as sombras, desvanecem-se pouco a pouco os preconceitos, os vãos terrores; as contradições aparentes do universo dissipam-se; faz-se a harmonia nas almas e nas coisas. Então, a confiança e a alegria penetram-lhe e o homem sente desenvolver-se-lhe o pensamento e o coração. E de novo avança pelo caminho das idades para o termo de sua obra; mas esta não tem termo, porque de cada vez que a humanidade se eleva para um novo ideal, julga ter alcançado o ideal supremo, quando, na realidade, só atingiu a crença ou o sistema correspondente ao seu grau de evolução. Mas de cada vez, também, de seus impulsos e de seus triunfos decorrem-lhe felicidades e forças novas, e ela encontra a recompensa de seus labores e angústias no próprio labor, na alegria de viver e progredir, que é a lei dos seres, comunhão mais íntima com o universo, numa posse mais completa do bem e do belo.
Ó escritores, artistas, poetas, vós, cujo número aumenta todos os dias, cujas produções se multiplicam e sobem como a maré, belas muitas vezes pela forma, mas fracas no fundo, superficiais e materiais, quanto talento não gastais com coisas medíocres! Quantos esforços desperdiçados e postos ao serviço de paixões nocivas, de volúpias inferiores e interesses vis!
Quando vastos e magníficos horizontes se desdobram, quando o livro maravilhoso do universo e da alma se abre de par em par diante de vós e o gênio do pensamento vos convida para nobres tarefas, para obras cheias de seiva, fecundas para o adiantamento da humanidade, vós vos comprazeis bastas vezes com estudos pueris e estéreis, com trabalhos em que a consciência se estiola, em que a inteligência se abate e definha no culto exagerado dos sentidos e dos instintos impuros.
Quem de vós contará a epopeia da alma, lutando pela conquista de seus destinos no ciclo imenso das idades e dos mundos, suas dores e alegrias, suas quedas e levantamentos, a descida aos abismos da vida, o bater de asas para a luz, as imolações, os holocaustos que são um resgate, as missões redentoras, a participação cada vez maior das concepções divinas!
Quem dirá também as poderosas harmonias do universo, harpa gigantesca vibrando ao pensamento de Deus, o canto dos mundos, o ritmo eterno que embala a gênese dos astros e das humanidades! Ou então a lenta elaboração, a dolorosa gestação da consciência através dos estádios inferiores, a construção laboriosa de uma individualidade, de um ser moral!
Quem dirá a conquista da vida, cada vez mais completa, mais ampla, mais serena, mais iluminada pelos raios do Alto, a marcha, de cimo em cimo, em busca da felicidade, do poder e do puro amor? Quem cantará a obra do homem, lutador imortal, erguendo, através de suas dúvidas, dilaceramentos, angústias e lágrimas o edifício harmônico e sublime de sua personalidade pensante e consciente? Sempre para frente, para mais longe e para mais alto! Responderão: Não sabemos. E perguntam: Quem nos ensinará essas coisas?
Quem? As vozes interiores e as vozes do Além. Aprendei a abrir, a folhear, a ler o livro oculto em vós, o livro das metamorfoses do ser. Ele vos dirá o que fostes e o que sereis, ensinar-vos-á o maior dos mistérios, a criação do “eu” pelo esforço constante, a ação soberana que, no pensamento silencioso, faz germinar a obra e, segundo vossas aptidões, vosso gênero de talento, far-vos-á pintar as telas mais encantadoras, esculpir as mais ideais formas, compor as sinfonias mais harmoniosas, escrever as páginas mais brilhantes, realizar os mais belos poemas.
Tudo está aí, em vós, em torno de vós. Tudo fala, tudo vibra, o visível e o invisível, tudo canta e celebra a glória de viver, a ebriedade de pensar, de criar, de associar-se à obra universal. Esplendores dos mares e do céu estrelado, majestade dos cimos, perfumes das florestas, melodias da Terra e do espaço, vozes do invisível que falam no silêncio da noite, vozes da consciência, eco da voz divina, tudo é ensino e revelação para quem sabe ver, escutar, compreender, pensar, agir!
Depois, acima de tudo, a visão suprema, a visão sem formas, o pensamento incriado, verdade total, harmonia final das essências e das leis que, desde o fundo de nosso ser até a estrela mais distante, liga tudo e todos em sua unidade resplandecente. É a cadeia de vida, que se eleva e desenrola no infinito, escada das potências espirituais que levam a Deus os apelos do homem pela oração e trazem ao homem as respostas de Deus pela inspiração.
Agora, uma última pergunta. Por que é que, no meio do imenso labor e da abundante produção intelectual que caracterizam nossa época, se encontram tão poucas obras viris e concepções geniais? Porque deixamos de ver as coisas divinas com os olhos da alma! Porque deixamos de crer e amar!
Remontemos, pois, às origens celestes e eternas; é o único remédio para nossa anemia moral. Dirijamos o pensamento para as coisas solenes e profundas. Ilumine-se e complete-se a Ciência com as intuições da consciência e as faculdades superiores do espírito. O Espiritualismo moderno a auxiliará.


[1] O Problema do Ser, do Destino e da Dor – Léon Denis

sábado, 23 de janeiro de 2016

Aquisição da Consciência[1]



Joanna de Ângelis - Psicografia de Divaldo Franco 
 
 O momento da conscientização isto é, o instante a partir do qual consegues discernir com acerto, usando como parâmetro o equilíbrio, alcanças o ponto elevado na condição de ser humano.

 Efeito natural do processo evolutivo, essa conquista te permitirá avaliar fatores profundos como o bem e o mal, o certo e o errado, e o dever e a irresponsabilidade, a honra e o desar, o nobre e o vulgar, o lícito e o irregular, a liberdade e a libertinagem.

 Trabalhando dados não palpáveis, saberás selecionar os fenômenos existenciais e as ocorrências, tornando tuas diretrizes de segurança aquelas que proporcionam bem-estar, harmonia, progresso moral, tranquilidade.

 Essa consciência não é de natureza intelectual, atividade dos mecanismos cerebrais. É a força que os propele, porque nascida nas experiências evolutivas, a exteriorizar-se em forma de ações.

 Encontramo-la em pessoas incultas intelectualmente, e ausente em outras, portadoras de conhecimentos acadêmicos.

 Se analisarmos a conduta de uma especialista em problemas respiratórios, que conhece intelectualmente os danos provocados pelo tabagismo, pelo alcoolismo e por outras drogas aditivas, e que, apesar disso, usa, ele próprio, qualquer um desses flagelos, eis que ainda não logrou a conquista da consciência. Os seus dados culturais são frágeis de tal forma, que não dispões de valor para fomentar uma conduta saudável.

 Por extensão, a pessoa que se permite o crime do aborto, sob falsos argumentos legais ou de direitos que se faculta, assim como todos aqueles que o estimulam ou o executam, incidem na mesma ausência de consciência, comportando-se sob a ação do instinto e, às vezes, da astúcia, da acomodação, mascarados de inteligência.

 Outros indivíduos, não obstante sem conhecimento intelectual, possuem lucidez para agir diante dos desafios da existência, elegendo o comportamento não agressivo e digno, mesmo que a contributo de sacrifício.

 A consciência pode ser treinada mediante o exercício dos valores morais elevados, que objetivam o bem do próximo, por consequência, o próprio bem.

 O esforço para adquirir hábitos saudáveis conduz à conscientização dos deveres e às responsabilidades pertinentes à vida.

 Herdeiro de si mesmo, das experiências transatas, o ser evolui por etapas, adquirindo novos recursos, corrigindo erros anteriores, somando conquistas.

 Jamais retrocede nesse processo, mesmo quando, aparentemente, reencarna dentro das paredes de enfermidade limitadora, que bloqueiam o corpo, a mente ou a emoção, gerando tormentos.

 Os logros evolutivos permanecem adormecidos para futuros cometimentos, quando assomarão, lúcidos.

 A aquisição da consciência é desafio da vida é o autoconhecimento, que merece exame, consideração e trabalho.

 A tua existência terrena pode ser considerada uma empresa que deves dirigir de forma segura, a mais cuidadosa possível.

 Terás que trabalhar dados concretos e outros mais abstratos, na área da programação de atividades, a fim de conseguires êxito. Todo empenho e devotamento se transformarão em mecanismos de lucro, a que sempre poderás recorrer durante as situações difíceis.

 Algumas breves regras ajudar-te-ão no desempenho do empreendimento, tais:

o   administra os teus conflitos. O conflito psicológico é inerente à natureza humana e todos o sofrem;

o   evita eleger homens-modelos para seguires. Eles também são vulneráveis às injunções que experimentas, e, às vezes, comprometem-se, o que, de maneira alguma deve constituir desestímulo;

o   concede-te maior dose de confiança nos teus valores, honrando-te com o esforço para melhorar sempre e sem desânimo. Se erras, repete a ação, e se acertas, segue adiante;

o   não te evadas ao enfrentamento de problemas usando expedientes falsos, comprometedores, que te surpreenderão mais tarde com dependências infelizes;

o   reage à depressão, trabalhando sem autopiedade nem acomodação preguiçosa;

o   tem em mente que os teus não são os piores problemas, eles pesam o volume que lhes emprestas;

o   libera-te da queixa pessimista e medita mais nas fórmulas para perseverar e produzir;

o   nunca cedas espaço à hora vazia, que se preenche de tédio, mal-estar ou perturbação;

o   o que faças, faze-o bem, com dedicação;

o   lembra-te que és humano e o processo de conscientização é lento, que adquirirás segurança e lucidez através da ação contínua.

 
 Interessado em decifrar os enigmas do comportamento humano, Allan Kardec indagou aos Benfeitores e Guias da Humanidade, conforme se lê em O Livro dos Espíritos, na questão número 621:

Onde está escrita a lei de Deus?

Na consciência. - Responderam com sabedoria.

A consciência é o estágio elevado que deves adquirir, a fim de seguires no rumo da angelitude.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

ILUMINANDO RELACIONAMENTOS[1]



Clécio Carlos Gomes


 Existe uma série de ações que devemos ter, ao longo da nossa encarnação, para realizarmos nossa reforma individual e purificar os sentimentos, promovendo a mudança de hábitos, comportamentos e, consequentemente, da nossa relação com o meio.
Não devemos mudar pela simples imposição do meio, sem a menor sinceridade, porque será uma mudança forçada.
A reforma pessoal visa mudar o “eu” na relação com o meio, promovendo evolução. Para que isso aconteça, temos que desenvolver nosso conhecimento sobre aquilo que objetivamos mudar.
Seguir a Doutrina Espírita é trabalhar com uma ciência bem delimitada e nos “religarmos” a Deus. Hoje, encontramos em muitos autores espíritas – encarnados e desencarnados – fontes vivas de luz e de novos caminhos, necessários ao crescimento dos povos.
Entre eles, poderíamos citar Francisco Cândido Xavier e colaboradores, Ramatís, José Lacerda de Azevedo, entre muitos outros. O conhecimento espírita é como um botão de rosa que vem se abrindo ao mundo, revelando a cada despertar, novas verdades.
Por isso, não podemos considerar que nossa ciência se restrinja às informações de Kardec, apesar de seu valor e importância indiscutíveis. A humanidade e o pensamento vigente evoluem e necessitam de novas técnicas e saberes.
Adquirindo novas informações, devemos processá-las e começar a transformá-las em ações efetivas de mudança em nosso dia-a-dia, principalmente no que concerne aos ensinamentos e ao amor cristão.
Mas isso não deve acontecer apenas entre as paredes dos centros espíritas. O primeiro lugar de exercício desse processo é o nosso lar.
Se, com nossos pais, irmãos, maridos ou esposas, filhos e seres ligados diretamente, não semearmos o respeito, a fraternidade e a caridade, não será com nossos desafetos e irmãos mais distantes que teremos mais facilidade.
A grande família cósmica e a grande regeneração planetária acontecerão a partir da transformação das partes que a compõem, e a família é esse micronúcleo que eclode e dissemina o senso comum na sociedade.
Harmonizando nosso lar e direcionado nossas intenções à família, devemos olhar também para nossa atividade profissional. Não existem profissões mais ou menos dignas: o que há, em nossas vidas, são reencontros que visam resgatar e nos lançar mais próximos da Luz.
Nosso ambiente de trabalho é o local em que passamos a maior parte de nossa encarnação e onde mantemos os reencontros mais constantes e repetitivos.
Não será nos queixando e lamentando que alcançaremos com êxito nosso intento. Muitas vezes estamos reunidos ali pelo mesmo padrão vibratório e pelas mesmas identificações. Trabalhar e transformar são a essência da nossa encarnação.
Nossa libertação dos vícios comportamentais é o próximo passo. Julgar, falar demais, criticar, mentir, omitir, ser indiferente e alheio, entre outros, são comportamentos danosos a nós e aos outros e devem ser trabalhados a fim de reduzi-los e até eliminá-los.
Geralmente, nossas atitudes são muito mais perigosas ao espírito do que os vícios químicos. Não que estes não sejam relevantes, muito pelo contrário são de intensidade proporcional, entretanto, muitas vezes, são mais valorizados do que os outros tipos de vícios.
Obviamente que a alimentação compulsiva, o fumo, as bebidas alcoólicas e qualquer outro tipo de substâncias psicoativa lesam tanto nosso corpo físico quanto os mais sutis, mas devemos nos lembrar de que vício é vício e existem infinitas formas de danos.
Sermos resignados – sem passividade e apatia – é outra forma de desenvolvimento individual. Aceitar nossa condição, mas trabalhando por um mundo e uma evolução pessoal maior e entendendo o que nos acontece, é o melhor para cada um e uma benção generosa de Deus.
Esse, sem dúvida, é um caminho de muita dificuldade para seres como nós. A melhor forma de conseguirmos resultados é não nos esquecermos de que devemos sempre elevar nossos pensamentos, nossos corações e buscar nosso desdobramento espiritual para junto dos espíritos instrutores, que já estão em lugares um pouco mais elevados do que estamos hoje.

 Fonte: Revista Caminho Espiritual


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

MUITOS DESENCARNADOS VOLTAM PARA CASA, SOFRIMENTO PARA ELES E PARA OS QUE FICAM![1]

 


Caso interessante e bastante ilustrativo das consequências da imprevidência de uns e da ganância de outros, foi o de um Pai recém-desencarnado em hospital e que retornou para o ambiente doméstico, atendendo aos automatismos mentais comuns nesses casos. Sem perceber que já havia “morrido”, foi conduzido à reunião mediúnica e atendido dentro do quadro que apresentou. Depois de apresentar-se sem grandes dificuldades pela psicofonia de médium da equipe, passou a comentar o que sentia.
Deu a entender que achava que o ocorrido fora algo de rotina. Uma ida ao hospital para atendimento aos males do corpo, próprios da velhice e o retorno à residência.
Mostrava-se irritado e reclamava dos parentes que não o cumprimentavam, passando por ele como se não o percebessem. Fato que ele tomava como total e absoluto desrespeito pela sua pessoa e condição de “chefe de família”.
Comentou que estivera sentado em sua cadeira preferida na sala de sua casa, quando um familiar quase sentou-se sobre ele. Reclamou, mas sem resultados, ficando ainda mais nervoso e irritado com a “falta de respeito” dos parentes.
Aos Benfeitores Espirituais não é difícil conduzir recém-desencarnados nesse estado de confusão mental para o ambiente das sessões, já que não se tratam de pessoas voltadas para o mal ou cientes de sua condição e que escolhem viver entre os seus.
Era apenas isso: um homem confundido pela morte inesperada e sem grandes incômodos, ao ponto de retornar para sua casa, pensando viver a vida de antes.
Depois de recebido com a atenção e o carinho que lhe foi dispensado, manifestou seu desagrado quanto ao que acontecia em seu lar. Devagar e com habilidade lhe foi sendo mostrado o novo cenário espiritual.
Continuou falando por algum tempo e demonstrou viva inquietação pela preocupação de seus parentes mais próximos quanto aos bens que tinha. Não entendia o porquê daquelas discussões sobre partilha já que estava vivo. E de fato estava, mas não mais no mundo material onde deixara seus bens.
Quando entendeu o ocorrido, chorou pelo que via acontecer na família. Não imaginava que houvessem disputas e atritos por causa de coisas materiais. Lamentou não ter deixado esse assunto resolvido através de testamento ou algo assim. Mas, disse não imaginar que isso pudesse acontecer, daí sua despreocupação com o caso.
Foi orientado no sentido de deixar que os encarnados resolvessem o caso dentro das leis terrenas que regulavam tais assuntos, e que ele se ocupasse com sua nova vida, que poderia ser mais tranquila e mais feliz de agora em diante.
Perguntou pelos parentes, sobre como ficariam sem ele. Foi informado que nada mais poderia fazer, a não ser visitá-los e auxiliá-los espiritualmente, quando estivesse restabelecido e pronto para isso. Até lá, era conveniente deixar que Deus, o Pai de todos, se encarregasse de tudo através de seus mensageiros.
Nesse momento ficou mais calmo, pois sendo homem religioso, a referência a Deus lhe devolveu a fé e a tranquilidade.
Parentes já desencarnados se aproximaram e ele, surpreso e feliz, foi encaminhado para novos ambientes da vida espiritual, já praticamente desligado de suas preocupações com a vida que tivera na Terra.
Aceitara com facilidade as orientações e seu estado moral-espiritual lhe permitiria uma recuperação relativamente rápida.
Esse acontecimento chamou a atenção dos membros da equipe para um fato comum: a pouca preocupação dos encarnados com seus bens e possíveis herdeiros, e a relação disso com as leis terrenas que regulam a transferência de riquezas e bens de uns para outros. Sobretudo, com seus possíveis reflexos na vida espiritual dos que deixam bens.
Mais ainda, a pouca preocupação com a própria desencarnação e seu impacto e consequências sobre si mesmos e sobre aqueles que ficam, entes queridos ou não. Todos vivem como se a morte não pudesse acontecer com eles, apesar da realidade demonstrar que todos, independentemente da idade ou sexo, estado de saúde, de riqueza ou miséria, posição social ou poderes terrenos, estão sujeitos a esse fenômeno que é a única fatalidade na vida humana.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

A questão da liberdade e do Livre Arbítrio[1]

 


A VONTADE DO HOMEM

A palavra liberdade é empregada num sentido mais ou menos lato. Há filósofos que atribuem ao homem uma liberdade ilimitada. A seu ver, o homem cria, por assim dizer, a sua própria natureza, adquire as faculdades que deseja e age independente de qualquer lei. Tal liberdade está em contradição com um ser criado. Tudo quanto possam dizer a seu favor não passará de declamações enfáticas, desprovidas de senso e de veridicidade.
Outros há que admitem uma liberdade absoluta, em virtude da qual o homem age sem motivo. Isso, porém, é presumir efeito sem causa, é isentar o homem da lei de causalidade. Seria uma liberdade contraditória de si mesma, podendo-se proceder num mesmo caso bem ou mal, mas sempre sem motivo. Inúteis seriam, então, todos os institutos de finalidade beneficente, individual ou coletiva. De que serviriam as leis, a Religião, as penalidades e recompensas, se nada determinasse o homem? Por que esperar de outrem amizade e fidelidade, antes que ódio e perfídia? Promessas, juramentos, votos, tudo ilusão! Tal liberdade nada tem de real, não passa de especulativa e absurda.
Precisamos, ao contrário, reconhecer uma liberdade acorde com a natureza humana, liberdade que a legislação pressupõe liberdade raciocinada.
Três são as condições fundamentais da legítima liberdade: em primeiro lugar, é preciso que a criatura possa escolher entre vários motivos. Seguindo o motivo mais forte, ou agindo só por prazer, já se não opera com liberdade. O prazer não é mais que uma falsa aparência de liberdade. A ovelha que mastiga a erva com prazer não está exercendo um ato livre.
Obedecendo a um desejo mais forte, também o animal, quanto o homem, não pratica livremente, tampouco. A condição precípua da liberdade é a inteligência, ou a faculdade de conhecer e escolher os motivos. Quanto mais ativa a inteligência, mais ampla a liberdade. Os idiotas natos, as crianças até uma certa idade, têm, às vezes, desejos muito enérgicos, mas ninguém os considera livres, visto não possuírem inteligência bastante para distinguir o falso do verdadeiro.
Os homens mais bem educados e os mais inteligentes são os de quem, mais que dos ignorantes, deploramos as faltas. À medida que se elevam na série das faculdades intelectivas, os animais vão-se tornando mais livres e modificam mais individualmente os seus atos, de acordo com as circunstâncias exteriores e com as lições de sua prévia experiência. Se empregamos a violência para impedir o cão de perseguir a lebre, ele se lembrará das pancadas que o aguardam e, árdego e trêmulo ao império dos próprios desejos, não deixará de ceder. O homem, superior a todos os seus irmãos da escala zoológica, é, por sua mesma natureza, o ser que goza de liberdade no grau mais eminente. Só ele procura encadear efeitos e causas, comparar melhor o presente e o passado, e daí tirar conclusões para o futuro. Pesa as razões, detém-se nas que lhe parecem preferíveis, conhece a tradição. Seu raciocínio decide e perfaz a vontade esclarecida, muitas vezes contrariamente aos seus desejos.
Uma última condição da liberdade é a influência da volição sobre os instrumentos que devam operar suas ordens pessoais. O homem não é responsável por desejo ou por faculdades afetivas dele independentes. A responsabilidade individual começa com a reflexão e com a possibilidade de proceder voluntariamente. No estado de saúde os instrumentos operatórios subordinam-se à influência da vontade. A fome é involuntária, mas, se em senti-la, eu me abstiver de comer, exerço a influência da minha vontade sobre os instrumentos do movimento voluntário. A cólera é involuntária, mas eu não sou forçado a maltratar quem me provoque, só porque a minha vontade influi em meus músculos. Perdido o domínio dessa influência, então sim, o homem já não é livre. É o que amiúde sucede com os alienados, que experimentam desejos, reconhecem a sua inconveniência, chegam a maldizê-los, mas não têm a força de restringir os movimentos involuntários, chegando mesmo, algumas vezes, a pedir que lhos embarguem.
A liberdade moral é a base mesma da sociedade e se ela não passa de ilusão, todo o gênero humano, tanto as nações incipientes como as mais civilizadas, que cultivam a Ciência e governam a Matéria, bem como os povos remotos, toda a Humanidade, – repetimo-lo – ter-se-ia deixado iludir pelo mais colossal dos erros que ainda existiu, depois de enveredar pela senda mais falsa e injusta que possamos imaginar. Mas... que dizemos: – injusta? Neste sistema, essa palavra nada significa e visto que o bom e o mau não existem; visto não haver ordem moral, claro é que todas as palavras concernentes à descrição dessa ordem, todos os pensamentos e julgamentos carecem de sentido. E, contudo, a menos que abstraiamos a própria consciência, não podemos anuir a semelhantes conclusões.
Quaisquer que sejam as conclusões teóricas a que cheguem os lógicos na questão do livre arbítrio – dizia Samuel Smiles –, todos sentimos que somos praticamente livres de escolher entre o bem e o mal. Não somos o seixo que, lançado na torrente, apenas pode seguir o curso das águas. Ao contrário, sentimos em nós a força do nadador, que pode escolher a direção convinhável, lutar contra a corrente, ir mais ou menos aonde lhe praza. Nenhum constrangimento absoluto nos empece a vontade. Sentimos e sabemos no concernente aos nossos atos, que não somos encandeados por qualquer espécie de magia. Todas as nossas aspirações para o bem e para o belo ficariam paralisadas se pensássemos de modo diverso. Todos os negócios, nossa conduta na vida, regime doméstico, contratos sociais, instituições públicas, tudo, enfim se baseia na noção prática do livre-arbítrio. E sem ele, onde estaria a responsabilidade? De que serviria ensinar, aconselhar, predicar, reprimir, punir? Para que leis, se não houvesse uma crença universal como o próprio fato universal, de que dos homens e de sua determinação depende conformar-se ou não? O homem que melhor evidencia seu valor moral é o que se observa a si mesmo, dirige as suas paixões, vive conforme a regra que se impôs, estuda suas aptidões e suas falhas.
Eis, verdadeiramente, o homem: sua grandeza está na sua liberdade. Não fora livre o homem, não se lhe permitiria ter fome e sede, nem comer nem beber; nem senhorear, em coisa alguma, as tendências do seu corpo. A ordem social não se teria constituído.
Mas nós não temos necessidade de prova alguma exterior para afirmar a nossa liberdade. Ninguém melhor o sabe do que a nossa própria consciência. Ela é, aliás, a única coisa que possuímos completamente nossa, e a boa ou má direção que lhe damos, em definitivo, só depende de nós. Nossos hábitos e pendores não são nossos amos, mas servos. Mesmo quando com eles transigimos, a consciência adverte-nos de que poderíamos resistir e que, para vencê-los, não careceríamos de fortaleza superior às nossas possibilidades, se fizéssemos finca-pé. É pelo emprego livre da razão que nos fazemos o que somos. Se ela apenas propende para o sensualismo é que a vontade, forte e demoníaca, subjuga e escraviza a inteligência. Bem dirigida, porém, essa mesma vontade compara-se a uma rainha, tendo por ministros as faculdades intelectuais e presidindo ao maior desenvolvimento compatível com a natureza humana.
Este pretenso ateísmo científico tomou o encargo de rebaixar e destruir todos os caracteres da grandeza humana. Não pode, contudo, impedir a alma de provar o seu valor, de assomar a matéria, construindo-se de si mesma com os elementos do seu meio e do seu clima.
Ele, o materialismo, não percebe que se a personalidade humana fosse resultado de influências fatalísticas da Natureza, a criança e o selvagem, sob o governo quase exclusivo dessas forças, seriam mais sensatos, mais íntegros que o sábio, o filósofo, o artista. Tal consequência destrói, por si só, a teoria dos nossos adversários.


[1] Deus na Natureza - Tomo III - Capítulo III - Camille Flammarion