Allan Kardec
Um dos nossos assinantes do
departamento do Loiret, excelente médium escrevente, escreve-nos o que se
segue, a respeito de várias aparições que testemunhou:
Não querendo deixar no
esquecimento nenhum dos fatos que vêm apoiar a Doutrina Espírita, venho
comunicar os novos fenômenos de que sou testemunha e médium e que, como haveis
de reconhecer, concordam perfeitamente com tudo quanto tendes publicado em
vossa Revista, a propósito dos diversos estados do Espírito depois que se
separa do corpo.
Há cerca de seis meses eu me
ocupava de comunicações espíritas com várias pessoas, quando me veio a ideia de
perguntar se, entre os assistentes, havia um médium vidente. O Espírito
respondeu afirmativamente, designou-me e acrescentou:
Tu já o és, mas em pequeno
grau e somente durante o sono; mais tarde teu temperamento se modificará de tal
maneira que te tornarás um excelente médium vidente, mas pouco a pouco e, a princípio,
apenas durante o sono.
No decorrer deste ano
experimentamos a dor de perder três de nossos parentes. Um deles, que era meu
tio, apareceu-me em sonho algum tempo depois de sua morte; tivemos uma longa
conversa e ele me conduziu ao lugar que habita, dizendo-me que era o último grau
que conduzia à mansão da felicidade eterna. Era minha intenção dar-vos a
descrição daquilo que admirei nessa morada incomparável, mas tendo consultado a
respeito o meu Espírito familiar, respondeu-me ele:
A alegria e a felicidade
que experimentaste poderiam influenciar a descrição das maravilhosas belezas
que admiraste e tua imaginação poderia criar coisas inexistentes. Espera que
teu Espírito esteja mais calmo.
Detenho-me, então, em
obediência ao meu guia, ocupando-me apenas de duas outras visões mais
positivas. Relatarei somente as últimas palavras de meu tio. Após haver
admirado aquilo que me era permitido ver, ele me disse: Agora vais retornar à Terra.
Supliquei-lhe que me
concedesse mais alguns instantes e ele respondeu:
Não; são cinco horas e
deves retomar o curso de tua existência.
No mesmo instante despertei, ao som da batida de cinco
horas do meu relógio.
Minha segunda visão foi a de
um dos dois outros parentes mortos durante o ano. Tratava-se de um homem
virtuoso, amável, bom pai de família, bom cristão e, embora doente desde muito
tempo, morreu quase subitamente e talvez no momento em que menos esperava. Seu
semblante tinha uma expressão indefinível, séria, triste e, ao mesmo tempo,
feliz. Disse-me:
Expio minhas faltas; tenho,
porém, um consolo: o de ser o protetor de minha família. Continuo a viver junto
à minha mulher e meus filhos e lhes inspiro bons pensamentos. Orai por mim.
A terceira visão é mais
característica e me foi confirmada por um fato material: é a do terceiro
parente. Era um homem excelente, posto que vivaz, encolerizado, imperioso com
os criados e, acima de tudo, apegado desmedidamente aos bens deste mundo. Além de
céptico, ocupava-se desta vida mais do que da vida futura. Algum tempo depois
de sua morte veio à noite e se pôs a sacudir as cortinas com impaciência, como
para me despertar. Como lhe perguntasse se era realmente ele, respondeu-me:
Sim; vim procurar-te porque
és a única pessoa que pode responder-me. Minha esposa e meu filho partiram para
Orléans; quis acompanha-los, mas ninguém quer obedecer-me. Disse a Pedro que
fizesse minhas malas, mas ele não me escuta. Ninguém me dá atenção. Se pudesses
vir atrelar os cavalos na outra carruagem e providenciar a minha equipagem,
prestar-me-ias um grande serviço, pois eu poderia ir reunir-me à minha esposa
em Orléans.
– Mas não podes fazê-lo tu mesmo?
– Não. Não consigo
levantar nada. Depois do sono que experimentei durante a doença,
estou completamente mudado; não sei mais onde me encontro. Tenho pesadelos.
– De onde vens?
– De B...
– Do castelo?
– Não!, respondeu-me com um grito de horror, levando a
mão à fronte; ‘venho do cemitério!
Após um gesto de desespero, acrescentou:
– Olha, meu caro amigo,
dize a todos os meus parentes que orem por mim, porque sou muito infeliz.
A estas palavras fugiu e o
perdi de vista. Quando veio me procurar e sacudir as cortinas com impaciência,
seu rosto exprimia terrível alucinação. Ao lhe perguntar como foi capaz de
sacudir as cortinas, logo ele que me dizia nada poder levantar, respondeu-me
bruscamente: Com meu sopro!
No dia seguinte fiquei
sabendo que sua viúva e seu filho haviam realmente partido para Orléans.
Esta última aparição é notável,
pela ilusão que leva certos Espíritos a se crerem ainda vivos e, sobretudo,
porque no presente caso essa ilusão prolongou-se por muito mais tempo do que em
casos análogos. Muito comumente ela não dura senão alguns dias, ao passo que
ele não se julgava morto apesar de já decorridos mais de três meses de seu
trespasse. Aliás, a situação é perfeitamente idêntica à que observamos muitas
vezes. Ele vê tudo como se estivera vivo; quer falar e se surpreende por não
ser ouvido. Ocupa-se ou julga ocupar-se com suas tarefas habituais. A existência
do perispírito é aqui demonstrada de maneira admirável, abstração feita da
visão. Desde que se vê vivo, é que vê um corpo semelhante ao que deixou; esse
corpo age como teria agido o outro; para ele nada parece ter mudado: apenas
ainda não estudou as propriedades de seu novo corpo. Julga-o denso e material
como o primeiro, e espanta-se, porque nada pode levantar. Entretanto, em sua
situação percebe algo de estranho, que não compreende.
Supõe-se dominado por um
pesadelo; toma a morte por um sono: é um estado misto entre a vida corporal e a
vida espírita, estado sempre penoso e cheio de ansiedade, e que tem um pouco de
ambas as vidas. Como já dissemos alhures, é o que ocorre de modo mais ou menos
constante nas mortes instantâneas, tais como as que se dão por suicídio,
apoplexia, suplício, combate etc.
Sabemos que a separação entre o
corpo e o perispírito se opera gradualmente e não de modo brusco; começa antes
da morte, quando esta sobrevém pela extinção natural das forças vitais, seja
pela idade, seja pela doença, sobretudo nas pessoas que em vida pressentem seu
fim e em pensamento se identificam com a existência futura, de tal sorte
que, ao exalarem o último suspiro, a separação é mais ou menos completa. Quando
a morte surpreende um corpo cheio de vida, a separação não começa senão nesse
momento, para acabar pouco a pouco. Enquanto existir uma ligação entre o corpo
e o Espírito, este estará perturbado e, caso entre bruscamente no mundo dos
Espíritos, experimentará um sobressalto que não lhe permitirá reconhecer
imediatamente a sua situação, bem como as propriedades de seu novo corpo. É
necessário ensaiar de alguma maneira e é isso que o faz pensar que ainda
pertence a este mundo.
Além das circunstâncias de morte
violenta, há outras que tornam mais tenazes os laços entre o corpo e o
Espírito, porque a ilusão de que falamos observa-se igualmente em certos casos
de morte natural: é quando o indivíduo viveu mais a vida material que a vida
moral. Concebe-se que o seu apego à matéria o retém ainda depois da morte,
prolongando, assim, a ideia de que nada mudou para ele. Tal é o caso da pessoa
de quem acabamos de falar.
Notemos a diferença existente
entre a situação desse indivíduo e a do segundo parente: um ainda quer mandar;
julga necessitar de suas malas, de seus cavalos, de sua carruagem, para ir ao
encontro da esposa; ainda não sabe que, como Espírito, pode fazê-lo
instantaneamente ou, melhor dizendo, seu perispírito ainda é tão material que
se julga submetido a todas as necessidades do corpo. O outro, que viveu a vida
moral, que tinha sentimentos religiosos, que se identificou com a vida futura,
embora surpreendido de modo mais inesperado que o primeiro já está desprendido:
diz que vive no meio da família, mas sabe que é um Espírito; fala à esposa e
aos filhos, mas sabe que o faz pelo pensamento. Numa palavra, já não tem
ilusões, ao passo que o outro ainda se acha perturbado e angustiado. De tal
forma possui o sentimento da vida real que viu a esposa e o filho que partiam,
como realmente partiram no dia indicado, fato ignorado pelo parente a quem
apareceu.
Notemos, além disso, uma
expressão muito característica de sua parte, que bem descreve a sua posição. À
pergunta: “De onde vens?” respondeu inicialmente pelo nome do lugar que
habitava; a seguir, a esta outra pergunta: “Do castelo?” Não! Venho do cemitério
– respondeu com pavor. Ora, isto prova uma coisa: que não sendo completo o
desprendimento, uma espécie de atração ainda existia entre o Espírito e o
corpo, que o levou a dizer que vinha do cemitério. Mas nesse momento parece que
começou a compreender a verdade. A própria pergunta parece colocá-lo no
caminho, chamando-lhe a atenção para seus despojos. Daí por que pronunciou a
palavra cemitério com pavor.
Os exemplos desta natureza são
muito numerosos. Um dos mais admiráveis é o do suicida da Samaritana, que
referimos no nosso número de junho de 1858.
Evocado vários dias após sua morte, esse homem também afirmava estar ainda
vivo, embora dissesse: “Entretanto, sinto os vermes a me corroerem”. Como
fizemos observar em nosso relato, não se tratava de uma lembrança, desde que em
vida não era corroído pelos vermes. Era, pois, um sentimento atual, uma espécie
de repercussão, transmitida do corpo ao Espírito pela comunicação fluídica
ainda existente entre ambos. Esta comunicação nem sempre se traduz da mesma
maneira, mas é sempre mais ou menos penosa, como se fora um primeiro castigo
para aquele que em vida se identificou demasiadamente com a matéria.
Que diferença da calma, da
serenidade, da suave quietude dos que morrem sem remorsos, com a consciência de
terem bem empregado seu tempo de estágio na Terra, dos que não se deixaram
dominar pelas paixões! A passagem é curta e sem amargura; a morte, para eles, é
o retorno do exílio à pátria verdadeira. Haverá nisso uma teoria, um sistema?
Não; é o quadro que nos oferecem todos os dias nossas comunicações de
além-túmulo, quadro cujos aspectos variam ao infinito, e onde cada um pode
colher um ensinamento útil, porque encontra exemplos que poderá aproveitar,
caso se dê ao trabalho de consultá-los. É um espelho onde se pode reconhecer
todo aquele que não se ache enceguecido pelo orgulho.
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